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A Viola no Conservatório Regional de Ponta Delgada

Posted by violadaterra on June 6, 2018 at 4:50 PM

9 Ilhas 2 Corações

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“A Viola no Conservatório Regional de Ponta Delgada”

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As Violas de Arame foram “sobrevivendo” no nosso País através da transmissão oral, ensinadas por imitação, ponto a ponto ou, como costumamos dizer, “aprendidas de ouvido”.

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Nos nossos dias há uma grande intenção de se trazer a Viola de Arame para os vários Conservatórios do País com o intuito de começar a certificar os seus executantes e de formar uma nova geração de Tocadores que possam ter um complemento à sua formação dentro do ensino mais tradicional. Da Viola Braguesa, Amarantina, Beiroa, Toeira, Campaniça, Madeirense, apenas nos Açores a Viola da Terra faz parte do ensino oficial do Conservatório. Na Madeira, assinale-se, a Viola Madeirense está em regime de Curso Livre desde 2008.

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Sobre o caso específico dos Açores a Viola da Terra (Viola de Arame dos Açores) está ligada ao Conservatório Regional de Ponta Delgada há, precisamente, 35 anos. Neste artigo é feita referência aos principais intervenientes e principais datas da Viola naquela instituição ao longo desse espaço temporal. Há, ainda, aulas de Viola da Terra (de 15 cordas) na Escola Tomás de Borba, na Ilha Terceira, onde o antigo Conservatório de Angra foi integrado (estes dados serão alvo de pesquisa para apresentação em artigo futuro).

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A Viola da Terra começou a sua ligação ao Conservatório Regional de Ponta Delgada no ano lectivo de 1982/1983 onde começa a ser ensinada, no 3.º período, em regime de Curso Livre e por “imitação” (transmissão de ouvido), numa atitude pioneira no nosso País.

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Como primeiro e principal formador, nessa modalidade de Curso Livre, teve Miguel de Braga Pimentel, mas também passaram pelo Conservatório Mário Jorge Fortuna e Alfredo Gago da Câmara.

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Há poucos registos desta passagem da Viola da Terra pelo Conservatório no que diz respeito a audições e apresentações individuais ou de grupo de alunos. No entanto, é neste período que há o maior número de inscrições registadas na disciplina, o que denota uma grande procura e interesse por parte da população. Só voltamos a ter um grande número de inscrições a partir de 2011, sendo que, actualmente, são 14 os alunos inscritos na disciplina.

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Sobre esta entrada da Viola para o Conservatório o professor Emanuel Cabral encontrou, recentemente, artigos de jornal daquela época, arquivados pela funcionária Helena Cosme e que me deu a conhecer.

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O Jornalista J. Silva Júnior, em Fevereiro de 1983, num artigo intitulado “A viola da terra vai ressurgir”, referindo uma quantidade de iniciativas ligadas a cursos de folclore e de Viola, acrescenta que “contactando de como veria o Conservatório Regional uma aula dessa natureza, a sua directora, sra. D. Natália Santos Silva, se mostrou perfeitamente receptiva à inclusão de uma tal aula, aliás, a mesma resposta que nos deu um sr. Dr. Jorge Forjaz, director dos Assuntos Culturais dos Açores, ao falar-lhe sobre o tema. Para esse fim abordámos o subchefe da PSP Miguel Pimentel, competente executante de viola da terra, que toca por música (a maioria dos tocadores fá-lo de ouvido) e admitimos que venha a ser um dos candidatos à regência desse instrumento no Conservatório de Ponta Delgada”.

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No mesmo ano há um novo artigo a referir que “7 alunos passaram em «viola da terra»”, (fig.1) referindo o nome dos primeiros sete alunos que tiveram nota positiva no primeiro ano do curso (que funcionou no 3.º período) bem como do papel que o jornal teve na abertura do Curso pois refere que “na sequência de artigos insertos no nosso jornal, o Conservatório Regional de Ponta Delgada abriu um curso de «viola da terra».” No artigo há uma clara gralha no nome do professor da disciplina que foi Miguel de Braga Pimentel e não José de Braga Pimentel.

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Fig. 1 – Recorte de Jornal de 1983. Arquivo de Helena Cosme/Conservatório Regional de Ponta Delgada.

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Em relação a nova data histórica para a Viola de Arame no nosso País e, para a Viola da Terra em particular, no ano lectivo 2004/2005, estando a leccionar a disciplina o Professor Ricardo Melo, este apresenta ao Secretário Regional da Educação Álamo Meneses e ao Conselho Executivo da Conservatório Regional de Ponta Delgada sendo Presidente Ana Paula Andrade, uma proposta de inclusão da Viola da Terra no Curso Curricular. A Viola da Terra passa a ser reconhecida em todas as Escolas de Ensino Artístico da Região na listagem oficial dos instrumentos a leccionar no Curso Básico, conforme regulamentação da Secretaria Regional da Educação e Cultura, Portaria n.º 27/2004 de 8 de Abril. A disciplina curricular começou a funcionar no ano lectivo de 2005/2006 com um máximo de 5 alunos uma vez que o professor lecionava em regime de acumulação de horário previsto e limitado por lei.

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Em 2004, volvidos 20 anos, durante os quais a Viola se ensinou em regime de Curso Livre, os Açores voltam a dar um passo enorme para a valorização da Viola de Arame e voltam a ser pioneiros no País ao integrarem este instrumento na sua oferta curricular até ao 5.º grau (conhecido como o 9.º ano nas escolas de ensino regular).

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Entre 2005 e 2008 há registo de uma Audição Partilhada entre os alunos da Classe de Viola da Terra e da Classe de Flauta de Bisel, e, ainda, a participação de alguns alunos no “3.º Concurso para instrumentos de Corda” em Junho de 2006. O Concurso era aberto a todos os músicos que desejassem participar (de dentro ou de fora da escola) de acordo com os escalões e idades regulamentadas. Neste concurso participaram 3 alunos de Viola da Terra do Conservatório no Escalão A e um aluno no Escalão B. Nesse Escalão participou, também, um aluno da Escola de Viola da Terra da Ribeira Quente.

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No ano lectivo de 2008/2009 e até ao presente a disciplina tem estado sob a responsabilidade do professor Rafael Carvalho. Nesse ano a classe arranca com 7 alunos e assinalam-se Audições de Classe em todos os períodos lectivos. No 3.º período, numa tentativa de dar a conhecer a existência do curso no Conservatório e de aproximar as várias Escolas de Violas da Ilha, o professor da Classe promove o “Dia da Viola da Terra” (fig. 2) onde participaram alunos do Conservatório, da Escola de Violas da Fajã de Baixo, Ribeira Quente e Academia da Povoação. No ano seguinte o “II Dia da Viola da Terra” decorreu no Auditório Municipal da Povoação, com apresentações musicais por Escolas mas onde, pela primeira vez, todos se juntaram para tocar dois temas em conjunto. Em 2011, como resultado deste esforço conjunto, surgiu o primeiro estágio e Concerto da “Orquestra de Violas da Terra da Ilha de São Miguel”.

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Fig. 2 – “I Dia da Viola da Terra”, Junho de 2009.

 

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No ano lectivo 2009/2010 surge a primeira Classe de Conjunto de Violas da Terra, com 3 alunos inscritos, como proposta do professor Rafael Carvalho, uma vez que os alunos de Viola do Curso Básico estavam a frequentar as disciplinas de Coro ou de Conjunto de Flautas. Era fundamental que os alunos de Viola da Terra pudessem ter este complemento de formação com a Classe de Conjunto.

No ano lectivo 2010/2011 o professor Rafael Carvalho fez exame autoproposto de 5.º Grau de Viola da Terra, sendo o primeiro exame do género na Instituição e no nosso País e que teve como Júri Lázaro Silva (Professor de Viola da Terra no Conservatório da Ilha Terceira), Gianna de Toni e João Macedo (Professores de Guitarra Clássica do Conservatório de Ponta Delgada).

No ano lectivo 2011/2012 a aluna Beatriz Almeida fez o primeiro exame de 5.º grau como aluna interna e como conclusão do Curso Básico no Conservatório, sendo o primeiro exame do género realizado na instituição e no nosso País. O júri contou com Lázaro Silva (Ilha Terceira), Gianna de Toni e Rafael Carvalho.

Entre 2008 e 2012, devido à ausência de repertório documentado na Escola ou de qualquer orientação programática para cada grau de ensino sobre a Disciplina de Viola da Terra, o professor Rafael Carvalho começou a estruturar o Curso de Básico de Viola da Terra no Conservatório. Sendo assim, teve de definir um “Programa Mínimo” e de elaborar e reunir a documentação necessária (objectivos, conteúdos, listagem de repertório por grau, matrizes, programa de testes) para que a disciplina ficasse definida e estruturada como todas as restantes disciplinas da escola. Este trabalho, como em todas as outras disciplinas, está sempre em actualização.

A grande dificuldade prendia-se com a falta de repertório escrito para Viola da Terra, bem como a falta de exercícios de escalas ou estudos de desenvolvimento da técnica. Os mesmos têm sido elaborados pelo Professor da disciplina mas com a grande preocupação de formar os alunos no repertório tradicional e próprio da Viola da Terra, adaptando algumas peças da Guitarra Clássica, Guitarra Portuguesa, bandolim e Violino, mas não esquecendo que a base da formação tem de ser a música do nosso Cancioneiro. Este trabalho já levou a que editasse 3 livros do “Método para Viola da Terra”, com os volumes “Iniciação”, “Básico” e “Avançado”. Também têm ajudado a este processo de estruturação da disciplina os livros editados pelo Professor Ricardo Melo: “Introdução ao Estudo da Viola da Terra Micaelense” e “Miguel de Braga Pimentel – Biografia Toada”.

A partir de 2012/2013, com a conclusão do Curso Básico, a aluna Beatriz Almeida passou a frequentar a disciplina de Viola da Terra como Curso Livre (por não estar legislada a Viola no Curso Secundário), frequentado o Curso Secundário de Formação Musical. A Disciplina de Viola da Terra passou depois a ser disciplina de Oferta de Escola sendo frequentada, posteriormente, pois mais 2 alunos.

Depois de vários anos de trabalho e de várias propostas apresentadas, a intenção de homologar o Curso Secundário de Viola da Terra nos Açores, após proposta do Grupo Parlamentar do PSD, foi aprovada por unanimidade pela Assembleia Legislativa dos Açores a 13 de Janeiro de 2016. Por orientação do Secretário Regional da Educação e Cultura, Avelino Meneses, foi nomeada pelo Conservatório Regional de Ponta Delgada uma Comissão de 5 Professores que teve a função de criar um “Programa para o Curso Secundário de Viola da Terra”. O grupo de trabalho foi constituído por Gianna De Toni, Helena Raposo, Lázaro Silva, Rafael Carvalho e Válter Tavares. Depois de formulado o documento e após várias fases de melhoria do mesmo, passando por outro ano lectivo e pela nomeação de um novo Director Regional da Educação, o Curso Secundário de Viola da Terra foi aprovado por despacho do Director Regional da Educação José Freire a partir do ano lectivo 2017/2018.

No presente ano lectivo, ano em que se comemoram 35 anos do ensino da Viola da Terra no Conservatório Regional de Ponta Delgada, a disciplina de Viola da Terra passou a fazer parte do Curso Secundário da Escola. Pela terceira vez, desde 1982, os Açores tornam a ser pioneiros nesta valorização da Viola de Arame e sua inclusão no Ensino Oficial no nosso País. Nos últimos 35 anos temos sido os primeiros e, até agora, com o Curso Básico e Secundário, os únicos a ter esta oferta lectiva no nosso País.

Nos últimos 7 anos já decorreram 8 provas finais de 5º grau de Viola da Terra (de alunos internos), e 3 Provas Finais de 5º grau de alunos autopropostos.

Neste pequeno resumo compreende-se que a Viola da Terra consegue este percurso de 35 anos ligada ao Conservatório devido à preocupação de algumas figuras da Sociedade Civil; devido à abertura e apoio conseguida por parte de vários Conselhos Executivos do Conservatório; contando com a aprovação das Entidades Governamentais com competência na matéria e com a análise de propostas pelos seus Técnicos; através do apoio incondicional de muitos Encarregados de Educação; com o esforço e dedicação dos vários Professores que têm lecionado a Disciplina e colegas que têm ajudado a estruturar e a melhorar a mesma; e com o empenho de muitas dezenas de alunos que têm escolhido aprender e continuar estudos na nossa Viola de Dois Corações.

Todos estes intervenientes têm contribuído para que a Viola da Terra seja hoje vista como um exemplo no Ensino Oficial da Viola de Arame no nosso País e no ensino dos Instrumentos Tradicionais.

Em jeito de despedida e, aproveitando a deixa de J. Silva Júnior em 1983, no sentido de utilizar a palavra escrita e a sensibilização dos Jornais para alertar as entidades competentes sobre estas matérias, relembra-se que a disciplina de Viola da Terra no Conservatório Regional de Ponta Delgada já tem uma lista de espera de novos alunos há muitos anos e que um novo horário já se justifica há muito tempo.


 

 

Rafael Costa Carvalho

Músico e Professor

r_c_carvalho@hotmail.com

 

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