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A Viola e os Foliões

Posted by violadaterra on May 27, 2018 at 3:05 PM

9 Ilhas 2 Corações

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“A Viola e os Foliões”

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Nesta altura do ano encontramos diversos grupos de “Foliões” a integrarem as nossas Festas do Divino Espírito Santo. Nas várias Ilhas do Arquipélago os Foliões aparecem a integrar procissões, peditórios para a Coroa, distribuição de pensões ou a animar Salões que promovem as Sopas do Espírito Santo.

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Sobre os Grupos de Foliões do Arquipélago mais, especificamente, em São Miguel, deixo um texto que foi elaborado por Renato Cordeiro aquando do evento “A Viola Que Nos Toca I”. O Renato é membro integrante da Folia das Feteiras, em São Miguel, como Tocador e Cantador:

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“A Folia tem como função narrar todos os acontecimentos relativos ao Império: realizar anúncios (como o Mordomo Novo), agradecimentos (cozinheiras e criadores, etc), peditórios para o Império, entrega de pensões, ou como acontecia muitas vezes, para ajudar alguma família ou pessoa em dificuldade. A sua origem, descende dos jograis das cortes antigas, tendo o povo adoptado o mesmo sistema, criando em cada ilha particularidades distintas. Temos grupos com apenas a presença de 3 homens (fig.1), acompanhados de percussão (bombos e testos), ou com um número variável, como acontece em S. Miguel, acompanhados de instrumentos de corda e pandeiro.

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Fig. 1 – Folia do Espírito Santo, Ilha Terceira. Do site delcampe.net

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A Folia da ilha de S. Miguel, embora com algumas diferenças ou particularidades de freguesia para freguesia, é distinta em toda a região, devido à sua vestimenta (opa e mitra) e a utilização de instrumentos de corda (fig.2), dando relevo à viola da terra e à rebeca (violino), assim como no seu canto, onde tem um forte uso do improviso.

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O número de foliões varia, não sendo fixo, mas como mínimo têm de ser 3: o porta bandeira e pandeiro, viola e rebeca. O número máximo depende dos recursos de cada localidade, mas não deveria ser mais do que 7 pessoas. Antigamente, muitas vezes, este número se reduzia ao mínimo devido à dimensão das casas e pela presença de mais pessoas aquando da entrega de "pensões".

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A Folia é, geralmente, formada a partir do cantador principal, que pode falar com mais um outro para o ajudar. Os instrumentos são de acordo com os existentes na freguesia, sendo dois indispensáveis: o pandeiro e a viola da terra. Depois de formada, a Folia é dividida em duas partes funcionais: a dianteira (cantadores principais) e a traseira (cantadores que em coro repetem a dianteira e os instrumentos). Outra particularidade: a Folia, para sair, tem que ter consigo a Bandeira, e, para ser Folia, tem que ter pandeiro”.

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Fig. 2 – Folia do Espírito Santo, Ilha de São Miguel, final do séc. XIX.

 

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O Tenente Francisco José Dias, no seu Livro “Cantigas do Povo dos Açores”, editado em 1981 pelo Instituto Açoriano de Cultura, refere que “a Folia, até meados do século passado, era o mais importante agrupamento musical havido nos Açores. Em toda a função religiosa ou profana, a Folia tomava parte. Até nos casamentos, os pais, os noivos e os próprios convidados, gostavam dos elogios que o Cantador da Folia improvisava. Todavia, a acção da Folia nas Festas do Divino Espírito Santo, só se manteve até ao aparecimento das Filarmónicas, se bem que em alguns lugares, mesmo com a Filarmónica a dois passos, ainda a utilizam, como da Atalhada à Lagoa, do João-Bom e Pilar à N. Sª da Ajuda (Bretanha) e como da Candelária aos Ginetes, etc.”

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O Tenente Francisco Dias acrescenta ainda: “Nas Folias Açorianas, especialmente nas de Santa Maria, da Vila Nova – Ilha Terceira – e da Ribeira Funda – Ilha do Faial – a melodia de cada uma, de carácter oriental, provêm do “Lingui-lingui” árabe, a “lenga-lenga” ou canto narrativo mais recitado do que cantado. (…) Os cantos das Folias de S. Miguel e de outros semelhantes usados nas Folias de outras Ilhas, são mais melodiosos; deixaram-se influenciar pela música ocidental e por isso tornaram-se menos primitivos”.

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São testemunhos sobre a importância da Folia do Espírito Santo no nosso quotidiano, que vai vivendo da persistência dos seus elementos e da renovação que alguns grupos conseguem fazer. Noutros casos, não se conseguem passar estas tradições, extinguindo-se as Folias em diversas localidades e começou-se a verificar a aposta dos Mordomos em ter a Filarmónica ao invés da Folia. No entanto, em diversos locais, Foliões e Filarmónica convivem sem “atropelos”, fazendo cada qual o seu papel ao longo dos dias das Festas, e, até, em algumas freguesias, vão se revezando a tocar nas Procissões.

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Em conversa com o Tocador de Viola da Terra Terceirense, Bruno Bettencourt, ele esclarece que com o desaparecimento dos Foliões naquela Ilha a melodia mais associada às Festas do Espírito Santo é o Pezinho.

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"Na sexta-feira antes da função (o almoço dado pelo Imperador/Mordomo) o gado que irá ser abatido para a confecção da comida e para as esmolas/pensões, é enfeitado com flores de papel e fitas e percorre as ruas da freguesia (fig. 3). Logo atrás vão os cantadores, as violas e a filarmónica. Enquanto decorre o desfile a filarmónica toca o “Pezinho dos Bezerros”. O desfile vai parando em frente à igreja, ao império, à porta dos criadores que ajudaram a criar o gado para a festa e à porta de outras pessoas que o Imperador entenda. Aí, "cala-se", a filarmónica e começam as violas a tocar o “Pezinho” (conhecido como “Pezinho dos Bezerros) para que, de improviso, os cantadores agradeçam em nome do Imperador.

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Fig. 3 – Desfile com Bezerros acompanhado com Filarmónica e Viola, Ilha Terceira. Da Revista Illustração Portugueza, 9 de Março de 1914.

 

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Aqui na Terceira é a moda mais ligada ao Espírito Santo. Ainda se vê velhotes que usam chapéu que mal ouvem o pezinho, o tiram logo da cabeça em sinal de respeito."

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Esta multiplicidade de testemunhos ajuda a confirmar a grande riqueza cultural das nossas Festas do Espírito Santo no nosso Arquipélago e a enorme diversidade de tradições que se verificam de uma freguesia para outra. Cada localidade acabou por tornar muito sua a forma de celebrar o Espírito Santo. Teremos, certamente, centenas de testemunhos, sobre estas festas, um pouco por todas as 9 Ilhas dos Açores.

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Em relação à Folia da Ilha de São Miguel a versão mais usual é tocada, normalmente, em modo maior, na tonalidade Sol. Há, no entanto, versões cantadas em modo menor, mas com menos regularidade. Deixo aqui duas partituras para Viola da Terra, que transcrevi de duas versões que conheço: “Folia do Espírito Santo” (Sol Maior) e “Folia da Maia” (Ré menor).

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Fig. 4 – Partitura da “Folia do Espírito Santo”, São Miguel. Transcrição de

Rafael Carvalho.

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Fig. 5 – Partitura da “Folia Maia”, São Miguel. Transcrição de Rafael Carvalho.

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Termino o artigo desta semana com algumas quadras que se podia ouvir na Folia do Espírito Santo, retiradas do livro “Cantigas do Povo dos Açores”.

 

Meu Divino Espírito Santo

A vossa capela cheira –

Cheira a cravo, cheira a rosa,

Cheira a flor de laranjeira.

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Já o Divino chegou

À Porta da nossa igreja

Voando aqui poisou

P’ra que toda a gente o veja

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O Divino Espírito Santo

Traz a Graça que Deus mandou

Traz consigo Divino Manto

P’ra cobrir quem atrás ficou.

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E, no final, dando a beijar a Bandeira, cantamos na minha Freguesia, Ribeira Quente:

Dai a Bandeira a beijar

Ela o Divino encerra

Que ele queira abençoar

Todos os povos da Terra.


 

 

Rafael Costa Carvalho

Músico e Professor

r_c_carvalho@hotmail.com

 

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