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9 Ilhas 2 Corações
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“A Viola e a Cantoria”
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O Cantar ao Improviso tem uma forte ligação à Viola nas nossas Ilhas. Desde as Cantigas ao Desafio, Desgarradas, Velhas e Pezinhos, a Viola era o instrumento de eleição para acompanhar a improvisação e genialidade dos Cantadores.
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A “Cantoria”, tocada, usualmente, na tonalidade de Lá menor, acaba por ser a forma de improviso mais comum no nosso Arquipélago e tem ganho uma nova vitalidade com o aparecimento de dezenas de jovens Cantadores na última década. Do mesmo modo, a Viola, que era o acompanhante “original” e imprescindível a qualquer Cantoria, também começou a reaparecer com grande força nas últimas duas décadas, recuperando um lugar que foi tomado, principalmente, pela Guitarra Portuguesa.
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É certo que há Ilhas onde a Viola poderá ter estado sempre mais presente, mas há outras realidades em que a mesma esteve fora dos palcos das Cantigas ao Desafio por muitos e muitos anos.
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Sobre este assunto recordo algumas histórias que vivi quando comecei a integrar de modo frequente as Cantorias a partir dos meus 16 anos. Nessa altura comecei a sair da Ribeira Quente com o Cantador Jorge Rita para diversas Cantorias e era acompanhado ao Violão pelo Jaime Braga. O grupo de Cantadores que eu acompanhava naquela altura era constituído, quase sempre, pelo Jorge Rita, João Luís Mariano e Lupércio Albergaria.
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No final da década de 90, na Ilha de São Miguel, não se conseguia, com relativa facilidade, um grupo de 4 Cantadores, com experiência e qualidade reconhecida. O mesmo se poderia dizer em relação a tocadores de Viola nas Cantorias.
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Em 1996 uma das primeiras Cantorias em que toquei foi na Ribeira Seca de Vila Franca do Campo. Quando chegámos ao local, antes das nove da noite, havia já alguns “velhotes” à espera para confraternizar com os Cantadores, contar histórias e reviver cantigas “míticas” que ficaram na memória das gentes. Lembro-me de ouvir um dos velhotes lamentar: “pela forma do saco aquilo é uma Viola, não é uma guitarrinha! Já não vai haver aqueles sons repenicados”.
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Pode parecer um comentário ofensivo, mas não era. A Viola já pouco aparecia em palcos da Cantoria na Ilha de São Miguel bem como em muitas outras Ilhas. Os próprios Cantadores assim o referiam, habituados a percorrer as muitas freguesias da Ilha. Ou eram acompanhados à Guitarra e Violão, ou só com Violão e até com o Acordeão.
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A Cantoria lá começou e dei as primeiras notas da melodia que costumava tocar, repenicando o mais que podia, dobrando a voz na Viola, e preenchendo os vazios dos Cantadores nas pequenas hesitações.
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Hora e meia a duas horas depois, terminada a Cantoria, subiram todos ao palco para a Desgarrada. Puxei o arpejo bem repenicado, em Lá Maior, que me ensinara o Mestre Carlos Quental, e a noite terminou em boa disposição.
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No final, os mesmos velhotes que haviam torcido o nariz à forma da Viola dentro do saco, foram os primeiros a vir falar connosco, entusiasmados. Diziam que nunca tinham ouvido uma Viola repenicar assim (e isso só prova que o povo tem a memória curta), e que um deles tinha ainda uma Viola em casa que tinha sido do Pai, que fora um grande Tangedor de Viola. Desde aquela altura que essa situação foi-se repetindo, com histórias semelhantes, em vários locais.
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Fig. 1 – 1936 - Comissão de Festas de Gustine, Cantador Charrua e os Tocadores. Do Livro “Turlu e Charrua – Confidências”
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Uma outra história que me recordo, com frequência, decorreu em Ponta Garça, também no final da década de 90. A Junta de Freguesia organizava uma Cantoria de dois dias com os mais conhecidos Cantadores da Ilha, e ainda com Cantadores de renome da Ilha Terceira e outros emigrados nas nossas Comunidades dos Estados Unidos e Canadá. Era um dos maiores Festivais em torno da Cantoria na Ilha de São Miguel.
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Fomos lá tocar durante alguns anos, eu e o Jaime Braga, acompanhando nomes como o famoso Vasco Aguiar, Manuel Antão, José Fernandes, José Eliseu, João Ângelo, João Luís Mariano e muitos outros. Numa das edições, chegados mais cedo, estávamos a ver o cartaz do evento que referia o grande final com as “Velhas” entre José Eliseu e João Ângelo. Eu conhecia mais ou menos a melodia mas nunca a tinha tocado em público e cheguei a comentar com o meu colega que seria divertido de ouvir e quem seria que viria tocar as “Velhas”?
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Passou o tempo, os Cantadores chegaram, mas nem mais um Tocador. Conheci pela primeira vez o José Eliseu e o “Tio” João Ângelo. Em conversa com eles compreendemos que nós é que iriamos acompanhar as “Velhas”. O José Eliseu, enorme Cantador e excelente pessoa, imediatamente se dispor a ensaiar um pouco connosco.
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Tudo decorreu bem, mas, na altura das “Velhas”, depois de eu fazer a primeira introdução, o João Ângelo não entrava. Dei mais uma volta na melodia e ele continuava a não cantar. O José Eliseu veio segredar-me ao ouvido: “Ele está à espera que dobres a melodia”. Dobrei a melodia e ele então arrancou nos seus improvisos. Enganei-me muito nesse dia porque não conseguia controlar o riso. Ninguém pareceu notar, pois toda a gente se ria com a moda das “Velhas”.
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Hoje esta partilha foi um pouco mais pessoal reflectindo a forma como tive a felicidade de viver uma parte da minha vida ligado ao improviso popular. A Viola acompanha estas manifestações populares, e muitas outras. Cada Tocador e Cantador terá centenas de histórias para contar e para partilhar. Recomendo a pesquisa e leitura das dezenas de publicações de Liduino Borba sobre esta temática e seus intervenientes. No livro “Improvisadores da Ilha de São Miguel” encontra-se a seguinte quadra de Vasco Aguiar sobre a Viola:
Para cantar um fadinho
Não é preciso ir à escola
É dar ao corpo um jeitinho
Ao compasso da Viola.
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Outro livro que me fascinou ler chama-se “Aurora e Sol Nascente - Turlu e Charrua – Confidências”, de Mário Pereira da Costa e que aconselho a todos. Regista-se uma cantiga do Charrua, ainda em início de carreira, a um Tocador de Viola:
Toca-me nessa Viola,
Ó rapaz da minha estima,
Faz dessa mão uma bola
Girando abaixo e acima.
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A qualidade dos Poetas Populares Açorianos é inigualável na realidade nacional, quer na forma da rima, versatilidade de conteúdos e bom gosto nas palavras. Claro que, com a Viola a acompanhar, bem repenicada, as “Cantigas” saem mais fluidas. Esta conversa ouvi-a do João Luís Mariano inúmeras vezes.
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Estamos na altura dos Impérios, das Festas de Freguesia, dos Peditórios, das Folias, dos Pezinhos, das Cantorias, Velhas e Desgarradas. Nas nossas Ilhas e nas nossas Comunidades vejam com outros olhos e oiçam de outra forma estes enormes artistas.
Se tiverem oportunidade, peçam para conhecer as suas histórias.
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Rafael Costa Carvalho
Músico e Professor
r_c_carvalho@hotmail.com
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