Viola da Terra

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Histórias, expressões e curiosidades

Posted by violadaterra on May 9, 2018 at 8:10 PM

9 Ilhas 2 Corações

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“Histórias, expressões e curiosidades”

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A Viola está associada a muitas histórias, expressões e brincadeiras, devido à sua importância no quotidiano das pessoas e também à forma como as pessoas gostavam de embelezar a transmissão de ensinamentos.

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Recordo duas curiosidades que me transmitiu o meu professor Carlos Quental e que ele contava sempre com muita solenidade:

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A primeira era sobre o facto de não se emprestar a nossa Viola a ninguém. Ele dizia que “há 3 coisas que não se emprestam nem ao nossos melhor amigo: A mulher, o carro e a viola”. Era uma expressão já muito antiga e que tem a sua razão de ser. Muitas vezes as pessoas esquecem-se de devolver o que pediram emprestado. Doutras vezes devolvem com defeito! Estou sempre a falar de Violas, claro!

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Também desaconselhavam emprestar a Viola pois cada músico tem o seu próprio toque, tem a sua forma de pressionar as cordas com a mão esquerda e de as “atacar” com a mão direita. Quando se empresta a Viola a outro tocador ele vai tocar de forma diferente e isso sente-se de imediato. Depois de reaver a Viola o tocador tem de tornar a “amaciar” as cordas à sua maneira, por isso é melhor não chegar sequer a emprestar.

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A outra história que ele gostava sempre de contar era sobre uma noiva que estaria a experimentar vestidos de casamento. A dona da loja perguntou quem era o noivo e ela lá disse o nome do rapaz. A mulher ficou bastante desconcertada e começou a criticar a noiva dizendo que esse rapaz estava “perdido na bebida”, que era um canalha e que ela ia desgraçar a sua vida! Ouvindo esses ataques a mãe da noiva e futura sogra do rapaz interveio: Pois fique a senhora a saber que ele pode ser bêbado, mas é um grande tocador de viola.

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Era, portanto, mais importante saber tocar viola e a reputação que isso trazia a uma pessoa e sua família, do que a negatividade do abuso da bebida.

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Com o decorrer dos anos aprendi outra expressão, usada em vários locais do nosso País e não só. As nossas Violas, por terem ordens duplas e triplas, apresentam uma maior dificuldade na afinação. Primeiro tem de se afinar cada ordem de cordas e depois conseguir afinar as ordens entre si. Situações de mais calor ou de mais frio fazem com que a Viola esteja sempre a desafinar. Dizem os tocadores, em jeito de brincadeira e para antecipar alguma crítica, que “o Tocador de Viola passa metade do concerto a afinar a Viola e a outra metade a tocar com ela desafinada!”

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Esta situação acontece menos nos nossos dias, pois temos cordas de melhor qualidade, cravelhas mais precisas, instrumentos com melhor afinação de escala, mas continua a ser um problema para os tocadores. As cravelhas de madeira, por exemplo, são mais difíceis para se conseguir afinar um instrumento. Quando incham, com as variações de temperatura, aplica-se giz nos orifícios da pá e torna-se a inserir as cravelhas para ajudar a rodar melhor e facilitar a afinação.

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“quem tem unhas é que toca Viola”

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“Corda nova não casa com corda velha!” Esta é uma certeza dos tocadores de Viola quando rebenta uma corda. Se quiserem poupar cordas e tempo, colocando apenas a corda rebentada, deixam de conseguir afinar aquela ordem de cordas. A corda nova não afina com a corda velha pelas diferenças de desgaste e elasticidade. Conseguimos afinar as duas cordas soltas mas depois na oitava já se nota uma diferença enorme na altura dos 2 sons. O melhor é trocar sempre as duas cordas quando uma rebenta.

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Diz-se que “quem tem unhas é que toca Viola” ou que “quem tem unhas é que toca guitarra”. De facto, na execução destes instrumentos dedilhados, ter unhas é uma mais valia. A dimensão e bom estado das unhas permite pulsar as cordas com a força que se deseja e, ainda, utilizar técnicas próprias de cada instrumento, como o dobrar as cordas ou fazer trinados.

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Uma das expressões mais conhecidas e que ouvimos com frequência é a de “meter a Viola no saco”. No final de uma discussão em que uma das partes foi, claramente, perdedora, esta é convidada a “meter a Viola no saco”, reconhecendo, assim, não ter mais argumentos. Para os tocadores é sinal de que mais um concerto ou serão de Violas acabou, mas com a esperança de que virão mais.

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Rafael Costa Carvalho

Músico e Professor

r_c_carvalho@hotmail.com


 

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