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"9 Ilhas 2 Corações"
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“A Viola e o convívio”
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Fazendo uma pequena pausa sobre a explicação das características físicas da nossa Viola, acho importante contextualizar a mesma, por ser o instrumento que impulsionava o convívio entre as pessoas.
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Em momentos de apresentação musical gosto sempre de falar um pouco desta vertente da Viola e da forma como esta fazia as Comunidades envolverem-se. Com esta ideia em mente e, com o auxílio de 3 testemunhos que encontrei em livros, espero conseguir ajudar-vos a visualizar essa realidade.
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Um dos textos mais bonitos que já li sobre a Viola, é de Dias de Melo, no seu livro “As Pedras Negras”. Não sendo possível transcrever todo o texto, faço uma pequena sinopse da narrativa que culmina num Capítulo intitulado: “Noite do Casamento. Folguedos, Latas, Violas e Cantigas”.
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A história principal é a de um jovem que abandona a Ilha do Pico dando “o salto” numa Baleeira. Seguiram-se anos de muita fome, muito esforço, sofrimentos, desgostos e trabalho duro. Um dia ele regressa a casa, já melhor da vida e para se casar.
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No dia em que o filho partiu o pai arrumou a Viola e a família “entrou de luto”. Nunca mais tocou Viola, nunca mais se cantou nem bailou naquela casa. No entanto, com o regresso do filho, na altura da festa do casamento e com todos querendo bailar, imediatamente, o pai decidiu encordoar a Viola, “sacudiu o pó e as teias de aranha (…) e, de olhos em brasa, rasgava estridente a chamarrita: chamarrita nova, chamarrita velha, chamarrita de cima, chamarrita de baixo e mais a do meio e a choradinha…”
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Da Revista “Illustração Portugueza”, 23 de Dezembro de 1907
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Outra crónica, que faz parte do livro “Summer in the Azores with a Glimpse of Madeira”, de C. Alice Baker, de 1882, intitulada “A Ball in the Furnas”, descreve uma noite de baile nas Furnas. Os visitantes queriam experienciar um baile e acabaram por conseguir assistir a um. Descreve-se que estava a haver alguma demora e começou a circular a piada de que o tocador levava sempre 3 meses a vestir-se para um baile. Acabou por chegar o tocador, cantando, tocando, mais bem vestido do que todos os restantes. Assim que entrou em casa logo os homens se colocaram atrás dele até formarem uma roda à qual se juntaram as mulheres. Assim estiveram a cantar e dançar, ao ritmo da Viola, em quadras quase sempre improvisadas.
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Um outro grande apaixonado pela Viola era o Tenente Francisco José Dias. No seu livro “Cantigas do Povo dos Açores” há um trabalho único na recolha de temas com a transcrição para voz e viola. Ele dedica vários Capítulos a falar sobre a Viola referindo-a como “a mola real a incentivar à folgança; a companhia mais intima dos ranchos (…) A Viola era o chamariz”.
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No Capítulo “Festas do Menino Jesus” ele faz uma narrativa deliciosa sobre um momento de Serão e Convívio que seria, certamente, o espelho de muitas freguesias por todo o Arquipélago. Refere as moças sentadas no quarto e a mães nas cadeiras por detrás delas. Os jovens na rua, com os pais, por falta de espaço no quarto e, mesmo nas noites frias, com o coração quente pela expectativa de bailarem com a rapariga que tinham “em vista”. Os tocadores chegavam, “importantes, cheios de presunção, com os instrumentos levantados no ar p’ra dar nas vistas…”. Depois passavam à afinação, demorada, de modo propositado, para fazerem render a expectativa e a atenção dos presentes. Toda a gente aguarda, sem conseguir conter o entusiamo e a ansiedade de começar o bailarico.
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A horas tantas, quando o tocador decidiu, finalmente, que a Viola estava afinada, começaram então a formar-se os pares, os rapazes e raparigas solteiras e formar a roda e depois os casados para completar. Depois… depois bailava-se toda a noite, cantava-se, sorria-se.
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Mas, sem a Viola, como fariam aqueles rapazes e aquelas raparigas para estarem juntos, para encostar uma mão, para uns sussurros malandros entre o derriço da noite?
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Rafael Costa Carvalho
Músico e Professor
r_c_carvalho@hotmail.com
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