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9 Ilhas 2 Corações
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“Cantigas à Viola II”
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Há algumas semanas dediquei um artigo às “Cantigas à Viola” que foram sendo transmitidas, na tradição oral do povo dos Açores, ao longo de séculos. Pretendia que se compreendesse que os Tocadores e a Viola, pela sua presença indispensável, eram, e são, alvo de muitas cantigas improvisadas.
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Para além dessas quadras, de autor desconhecido, cantadas e/ou declamadas desde tempos passados e recolhidas em várias Ilhas do nosso Arquipélago, entendo ser importante que se conheçam outras cantigas. Poemas de autores contemporâneos, que dedicaram parte da sua obra à valorização da Viola nos Açores.
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Um dos grandes exemplos de Escritores que escreveram sobre a nossa Viola será Vitorino Nemésio. No seu livro “Festa Redonda – Décimas & Cantigas de Terreiro, Oferecidas ao Povo da Ilha Terceira” pp. 77-79, dedica um poema à Viola de 15 Cordas da Ilha Terceira:
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Cantigas à minha viola
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Ó viola encordoada
Com quinze cravos de aposta,
Minha pêra acinturada,
Minha maçã da Bemposta
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Quando te toco nas cordas,
À boca do coração,
Vou-me sangrando em saúde
Que nem sumo de limão.
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Tens os pontos doiradinhos,
Tens os espaços de luto,
Cada prima é uma flor,
Cada cravelha é um fruto...
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Cada bordão é um zangão,
Cada toeira uma abelha,
Ó jardim de madrepérola
Da minha festa vermelha!
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Letrinha de 8 somada
Pelas tuas seis parcelas
Mai-las minhas mãos cansadas,
Amarelas... amarelas...
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Pendurada a tiracolo
No teu cordão cor de vinho,
És o meu saco de cego,
O meu burro e o meu moinho.
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No florão da minha viola
Pus uma tira de espelho,
Para ver, de quando em quando,
Se estou novo, se estou velho.
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Na caixa da minha viola
Há um letreiro que diz:
V. DA SILVA, VIOLEIRO,
ILHA TERCEIRA – PARIS.
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Mas um tolo, um engraçado,
Colou com cuspo uns tarjões:
SILVA, CANGALHEIRO DE ALMAS,
FAZ VIOLAS E CAIXÕES.
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Meu amor, deixa falar!
Dorme, não percas a esperança!
Morta, na minha viola,
Serás como uma criança.
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Que seis meninas de arame
É que te levam à campa,
Com seis florinhas de pau
Espetadinhas na tampa.
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E o limão, a violeta,
A madrepérola, o espelhinho
Hão-de te servir de terra
E de mortalha de linho.
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Minha viola de luxo,
Minha enxada de cantar,
Meu instrumento de fogo,
Caixinha do meu chorar!
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Viola, bordão de prata,
Vida violeta, violeta...
Prima, coração me mata...
Poeta! Poeta! Poeta!
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No mesmo livro, o Escritor Açoriano dedica quadras ao Tocador de Viola. Ele próprio foi aprendiz de Viola com o afamado Mestre de Viola Terceirense Laureano Correia dos Reis:
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Senhor Mestre da Viola,
Aqui cheira a violetas:
Será de uns olhos azuis,
Por detrás de cravelhas pretas.
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Vitorino Nemésio e Laureano Correia dos Reis, do Livro “Vitorino Nemésio e a Sapateia Açoriana” de Manuel Ferreira.
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Rafael Costa Carvalho
Músico e Professor
r_c_carvalho@hotmail.com
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