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9 Ilhas 2 Corações
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“Cantigas à Viola”
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Um pouco por todas as Ilhas dos Açores sempre foi frequente fazerem-se “Cantigas à Viola”.
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Sobre a Viola conhecem-se várias quadras que foram sendo passadas, oralmente, ao longo dos séculos, havendo variantes dos versos entre as diversas Ilhas do Arquipélago.
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A Viola tem dez cordas,
Juntamente dois bordões;
E, acima do cavalete,
Também tem dois corações.
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Viola, minha viola,
Viola, minha alegria;
Eu não te posso largar,
Pois és minha companhia.
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A viola sem a prima
É como a filha sem pai,
Cada corda, um suspiro,
Cada suspiro, seu ai.
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Viola, minha viola,
Tu comes comigo à mesa;
Tu és a minha alegria
Quando eu tenho tristeza.
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Viola, teu braço d’oiro,
Tuas cordas de marfim,
Oh, tu és o meu tesouro,
Não te separes de mim!
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As quadras saíam improvisadas, a meio de um bailarico, ou a meio de um despique, e podiam visar o instrumento ou o tocador. O Tocador era alvo de admiração por parte das pessoas, pela sua capacidade de tocar e de impulsionar ambientes de verdadeira festa.
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O tocador de viola
Toca com grande primor;
Por isso muito lhe quero,
É o meu primeiro amor.
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Viva o que toca viola
Que traz bem junto ao peito;
Viva quem te há-de lograr
Cara linda, amor perfeito.
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Ó tocador de Viola
Repenica-me esses dedos;
Se faltar alguma corda,
Aqui tens os meus cabelos.
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A Viola era de oiro,
As cordas de prata fina;
Dedos que nela tocavam
Eram de glória divina.
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Algumas quadras poderiam ser de carácter elogioso, como descrito acima, mas outras tinham o cunho de espicaçar o Tocador, com uma crítica subjacente.
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A viola tem catarro,
Mais catarro tem o dono;
Vá-se deitar a dormir,
Que está caindo com sono.
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O tocador de viola
É um grande comilão;
Deixa as moças no terreiro,
Vai à caixa tirar pão.
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Viola, minha viola,
Viola de pau de aresta;
Viola, estás incapaz,
Ou o tocador não presta.
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O tocador de viola
Merece uma rapariga,
Daquelas que andam no mato
Comendo os olhos à silva.
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Na minha viola nova
Ninguém há-de pôr a mão,
Senão a minha cunhada,
A mulher de meu irmão.
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Qualquer assunto do dia-a-dia podia dar fruto a um bom despique, dependendo do contexto onde se estava a tocar, a cantar e a balhar. O tocador, parte fulcral em qualquer destas situações, tinha de ser mencionado, havendo os que melhor se sabiam defender, respondendo em improviso à letra. Também poderia acontecer que algum Tocador, mais sensível de temperamento, podia não aceitar bem as brincadeiras e arrumar a viola no saco. Aí já não havia mais cantoria, bailaricos ou festa e, acreditem, as piadas sobre o tocador ficariam suspensas largos meses.
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É disto que vive a nossa cultura popular. Do convívio, da partilha e da provocação saudável, que gera risos e boa disposição, com a imaginação e talento dos improvisadores, sabendo insinuar o suficiente para entendermos aonde querem chegar mas sem ultrapassarem os limites.
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A viola é um sino,
O tocador o pendente;
Deus lhe dê muita saúde
Para divertir bem a gente.
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Rafael Costa Carvalho
Músico e Professor
r_c_carvalho@hotmail.com
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