Viola da Terra

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Trastos, pontos, espelhos e vaidades

Posted by violadaterra on February 28, 2018 at 7:10 PM

9 Ilhas 2 Corações

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“Trastos, pontos, espelhos e vaidades”

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Hoje pretendo retomar a explicação de algumas das características físicas da nossa Viola.

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A Viola tem a caixa em forma de “8”, tampo, ilhargas, costas, braço e pá (cabeça).

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Na pá temos as cravelhas (afinadores). Antigamente, eram cravelhas de madeira, utilizadas ainda hoje, mas com menor expressão. As cravelhas de madeira foram sendo substituídas por cravelhas metálicas, pela facilidade de afinação. Hoje em dia já se começam a utilizar outras cravelhas, de outros materiais, a imitar o cravelhal antigo, e com outras garantias de afinação, tornando, desta forma, o instrumento e o peso do braço mais leve. Também há Ilhas em que o cravelhal é em forma de leque. Para quem desconhece, é o mesmo esquema de afinação das Guitarras Portuguesas.

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Na pá temos, ainda, o espelho. Muitos instrumentos mais antigos não tinham espelho. Aliás, em algumas Ilhas, essa situação quase não ocorre, mas o espelho acabou por ser colocado, dizem os Velhos Mestres, para o Tocador se aprimorar antes de se apresentar em palco, penteando o cabelo e desfazendo a barba. Vaidades de quem pretendia tocar a Viola sempre bem-apresentado e mantendo uma reputação de elegância.

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No braço temos a escala e os trastos. A escala é rasa com o tampo em determinados modelos, mas também aparece sobreposta a este em outras Ilhas.

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Os trastos são as peças metálicas que dividem a escala. Ao espaço entre cada trasto chamamos de pontos. A escala da Viola de 5 ordens (12 cordas), tem 12 pontos no braço e 9 pontos sobre o tampo, podendo haver oscilações do número de pontos sobre o tampo. No caso da Viola de 6 ordens (15 cordas) que, como já referido em artigos anteriores, é característica, principalmente, da Ilha Terceira, esta Viola tem 10 pontos sobre o braço e 6 a 9 sobre o tampo (podendo também variar de um construtor para outro). Quanto à Viola de 12 cordas da Ilha Terceira, conhecem-se exemplares com 12 pontos sobre o braço, mas, também, com 10 pontos. Sendo um instrumento do qual há poucos exemplares, não parece haver uma posição em que se possa aferir de uma predominância de um modelo sobre o outro.

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Em relação às Violas com 12 pontos sobre o braço e mais 9 sobre o tampo, temos uma Viola com uma escala de 21 pontos. Esta situação é única no contexto das Violas em Portugal. Da família de Violas de Arame a que pertence a Viola da Terra e que já antes referi: Amarantina, Beiroa, Braguesa, Campaniça, Madeirense e Toeira, o caso Açoriano é o único onde a Viola ocorre com 12 pontos sobre o braço. Esta situação, bastante particular, merece destaque e merecia um estudo mais aprofundado por parte dos investigadores das nossas Violas.

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Ilustração de Luís Cardoso no Livro “Método para Viola da Terra – Iniciação”

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Uma Viola, ao possuir 12 pontos sobre o braço, permite obter uma oitava musical, avaliando a distância da corda tocada solta até à corda tocada/pressionada no 12.º ponto. Quer isto dizer que temos um maior número de notas que podem ser tocadas sobre o braço, onde a execução é mais facilitada do que nos pontos por cima do tampo. As Violas da Terra mais antigas que conhecemos, de registos fotográficos, dos nossos museus ou mesmo na posse de colecionadores, apresentam esta característica.

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Actualmente, no caso do Arquipélago da Madeira, por exemplo, mas também em outras Violas Portuguesas, começaram-se a construir Violas com os 12 pontos no braço, sendo algo afirmado como uma “evolução” para uma maior exploração do instrumento. No caso da Viola Brasileira (Caipira), descendente das Violas Portuguesas, essa evolução dos 10 para os 12 pontos também ocorreu há décadas, como uma necessidade de exploração maior do instrumento. Como podemos explicar que, nos Açores, a Viola tenha essas características há pelo menos século e meio? Será que é daí que resulta termos a Viola com mais repertório tradicional instrumental de todas no nosso País? São questões que, normalmente, não parecem fascinar os investigadores, mas que reflectem uma evolução, no caso da Viola Açoriana, séculos antes das suas congéneres Continentais e Madeirense.

 

Rafael Costa Carvalho

Músico e Professor

r_c_carvalho@hotmail.com

In "Atlântico Expresso", 5 de fevereiro de 2018

 

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