Viola da Terra

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O que e isto das nossas Violas serem harmonicamente pobres???

Posted by violadaterra on May 11, 2014 at 10:45 AM

O que é isto das nossas Violas serem harmonicamente pobres…

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Pelo meu blogue, e, neste site em geral, tenho procurado colocar registos de eventos que acontecem, ou que acontecerão, e, ainda, todas as informações que me vou lembrando que possam ajudar quem pesquisa sobre a Viola da Terra em particular, mas, também, sobre as Violas em geral.

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Nesta altura decidi passar a outra fase, elaborando textos de opinião sobre várias temáticas com as quais vou sendo confrontado quase diariamente e, das quais, raramente se fala ou se tenta explicar.

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Uma das questões que surge tantas vezes é exactamente esta: A Viola da Terra era um instrumento harmonicamente pobre, mas agora estão a ser feitas novas abordagens nesta área!

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Há uns anos faziam-me exactamente esta pergunta num programade rádio, cuja resposta não me recordo qual foi, mas lembro-me que, quando depois fui à Ribeira Quente no mesmo sábado, disse-me lá uma pessoa que ouviu o programa: “Muito bem respondido Rafael, agora onde é que já se viu dizerem que a nossa Viola é pobre a se tocar!...”

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Quem tem razão neste caso? Jornalista ou ouvinte?

Se calhar têm os dois. O problema neste caso tem de ser visto dos dois lados:

- Uma questão mal formulada pelo jornalista?...

- Uma falta de informação generalizada e mal fundamentada na forma como as coisas chegam às pessoas, bem como um palavreado que não é do domínio comum!...

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Tentando explicar isto da harmonia de modo simples e directo,e na minha opinião:

não são as Violas que são harmonicamente pobres, aliás, nunca foram harmonicamente pobres. A execução tradicional das nossas Violas é que não era mais ricamente explorada, ao nível harmónico, pelos seus executantes.

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Ou seja, o instrumento é rico por natureza, a execução que fazemos com ele é que pode ser mais rica ou menos rica.

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Mas o que é isto da harmonia?

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De modo simples, podemos dizer que a harmonia são os acordes (acompanhamentos) com que embelezamos o tema. Se, melodicamente (os solos das músicas), as Violas (no caso de algumas ilhas, e, de forma muito acentuada em São Miguel) são muito ricas, versáteis e ágeis, a realidade é que, nos acordes/acompanhamentos, a base anda sempre à volta de 2 acordes (tónica/dominante) e, uma vez por outra, um 3.º acorde (subdominante).

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Isto, obviamente, na execução tradicional e secular das nossas Violas. Exceptuando-se, claro, uma ou outra peça que apresenta mais alguma riqueza harmónica (mais acordes no seu acompanhamento).

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Mas, é assim tão mau ter uma harmonia menos rica, ou seja, menos preenchida?

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Eu entendo que nem por isso.

Há coisas que muitas vezes só prejudicam. Tantas vezes ouvimos dizer que ter menos é ter mais! Se queremos evidenciar a melodia e dar destaque ao solista, às vezes manter uma base simples de apoio ajuda. Outras vezes, claro, até ajuda mais riqueza. Dependerá do contexto, dependerá dos intervenientes, e dependerá do resultado que se quer atingir.

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Podemos ouvir um exemplo. Neste caso da Lira:

No primeiro vídeo percebe-se bem a questão da Melodia /Harmonia.

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A Viola da Terra está a fazer a melodia e o violão a harmonia.

Atenção que, aqui, temos o violão a fazer o acompanhamento, mas peço que imaginem a viola da terra a acompanhar a outra pois o resultado seria exactamente o mesmo – temos uma harmonia composta por 3 acordes de acompanhamento:

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No segundo vídeo temos uma abordagem do acompanhamento mais actual e uma “harmonia mais rica”.


A viola da terra mais uma vez faz a melodia do tema e o violão (que só se ouve ao fundo) faz uma quantidade muito maior de acordes acabando por “embelezar”mais o tema:

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Mais uma vez realço que temos o violão nestes vídeos mas que devem imaginar, há um século atrás, quando “Viola acompanhava Viola” como dizia tantas vezes o meu Mestre Carlos Quental, que o tipo de harmoniza utilizada seria a do primeiro caso, mais simples e “menos rica harmonicamente”.

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Qual a versão melhor?

Mais uma vez repito que depende do objectivo desejado,depende dos próprios conhecimentos dos intérpretes e contacto com novas sonoridades, depende de muitos factores. Depende, em última análise, do gosto pessoal de cada um, do que toca ao que escuta.

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Queria que pensassem nesta questão da harmonia como se de um texto se tratasse. E de que modo?

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Há de facto aqueles que têm mais jeito com as palavras, outros que são mais directos.

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Imaginem quando lemos, dizemos ou ouvimos a frase: hoje amanheceu um lindo dia.

É bastante directo, diria que até harmonicamente “bastante pobre”.

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No entanto, alguns mais jocosos, poderiam dizer: com o despontar da aurora os primeiros raios de sol inundaram a ilha de uma claridade estonteante, prenunciando um lindo dia.

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Sim, é muito palavreado, mas, é um palavreado harmonicamente "muito rico”.

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Conseguem compreender a analogia?

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É o mesmo que termos aquele jogador de futebol que é muito directo a jogar, que joga no primeiro toque, que é eficaz sem ser tecnicista ("harmonicamente pobre"), por oposição ao jogador que pode fazer um passe directo mas que antes disso dá 3 ou 4 toques na bola e embeleza a jogada ("harmonicamente rico").


São os dois bons jogadores, mas se calhar um dá mais espectáculo do que outro. No entanto, às vezes, o mais directo e eficiente é o que é necessário para determinadas situações. Depende, como tenho referido, do resultado desejado.

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Resumindo:

De facto na nossa música tradicional e na música executada tradicionalmente nas nossas violas ao longo de séculos, o desenvolvimento harmónico dos temas não era muito aprofundado. Daí que, na execução das nossas Violas essa parte seja considerada “pobre harmonicamente”.

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Mais uma vez repito, não se trata de termos um instrumento pobre a esse nível, trata-se de haver um repertório menos exploradoharmonicamente.

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Se a Viola tem escala, cordas, repertório e tocadores para a executarem tem, obviamente, a mesma riqueza harmónica de muitos outros instrumentos, cabe a cada um de nós decidir de que modo o pode fazer e se o deseja fazer.

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Espero ter esclarecido esta questão, que nunca vi escrita ou debatida, aguardando as vossas impressões Construtivas.

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Deixo-vos com uma das minhas experiências de exploraçãomelódica e harmónica, em simultâneo, na Viola da Terra, o meu tema ORIGENS.

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Rafael Costa Carvalho

11 de Maio de 2014

 

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