Viola da Terra

BLOGUE

Bem Vindos ao meu Blogue que pretende ir actualizando informações sobre as actividades que vou desenvolvendo ou ainda outras que vou tomando conhecimento e que envolvem a Viola da Terra.

Rafael Carvalho

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Como adquirir os meus trabalhos

Posted by violadaterra on September 27, 2018 at 2:10 PM Comments comments (0)

Como adquirir os meus Trabalhos

How to get my Books and CDS

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Enviar um email para r_c_carvalho@hotmail.com com os produtos desejados e receberá indicações de como proceder com a sua encomenda.

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Send an email to r_c_carvalho@hotmail.com

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PRICES:

 

CDS - 12,50€ each (plus postages)

Books - 16€ each (plus postages)

 

4 CDS - 45€ (plus postages)

3 Books - 45€ (plus postages)

 

4 CDS + 3 Books - 85€ (plus postages)

Rafael Carvalho apresenta o seu novo CD na Ribeira Quente

Posted by violadaterra on September 24, 2018 at 10:40 AM Comments comments (0)

Rafael Carvalho apresenta o seu novo

CD na Ribeira Quente

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O músico Açoriano Rafael Carvalho apresenta, na próxima 6ª feira, na sua terra Natal, o seu mais recente trabalho musical, “9 Ilhas, 2 Corações”.

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Esta apresentação, inserida nas Festas de São Paulo 2018, contará com um momento de explicação sobre os conteúdos deste CD, seguindo-se um concerto musical pelo trio ORIGENS. A cerimónia decorre a 28 de Setembro, pelas 21:30, na Praça da Igreja, na Ribeira Quente.

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Este é o quarto álbum quem o músico edita e pretende ser uma homenagem a todos os que se dedicaram e se dedicam à música tradicional Açoriana nas nossas Ilhas. É um álbum duplo, contendo 80 temas, executados a solo, numa só Viola da Terra, com temas de todas as Ilhas dos Açores, sendo considerado por muitos um verdadeiro “arquivo sonoro” da música tradicional das 9 ilhas dos Açores.

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A primeira apresentação deste trabalho decorreu a 31 de Julho no Auditório do Museu dos Baleiros, no Pico, cuja lotação esgotou para ouvir os sons da Viola da Terra de Rafael Carvalho e dos seus convidados, a “família Canarinho”, tendo sido depois apresentado num Concerto no “Tentorium” das Portas do Mar, a 25 de Agosto, e no CORDAS World Music Festival a 16 de Setembro.

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Sendo o quarto CD que o músico edita, desde 2012, todos têm merecido momentos de apresentação na sua terra Natal, sendo, também uma homenagem que o músico presta à sua Freguesia e aos que, nela, contribuíram para o seu crescimento musical.

 

Rafael Carvalho e Raquel Dutra homenageados pela Academia de Letras e Artes de Paranapuã

Posted by violadaterra on September 23, 2018 at 5:20 AM Comments comments (0)

Rafael Carvalho e Raquel Dutra homenageados pela Academia de Letras e Artes de Paranapuã

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A Academia de Letras e Artes de Paranapuã, localizada no Estado do Rio de Janeiro, tem distinguido, anualmente, várias individualidades ligadas à Literatura e Artes.

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Entretanto, criou a Medalha de Mérito Cultural, que nasceu como maneira da ALAP poder deixar gravado o carinho pelo académico e pelo homem Belarmino Maria Austregésilo de Athayde, que durante três décadas presidiu a Academia Brasileira de Letras – ABL.

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A 21 de Agosto, na Casa das Beiras de Lisboa, decorreu uma cerimónia de entrega de Medalhas e Certificados bem como da nomeação de novos membros. Nessa cerimónia a Medalha de Mérito Cultural “Académico Austregésilo de Athayde” da (ALAP) - Academia de Letras e Artes de Paranapuã” foi atribuída a Rafael Carvalho e Raquel Dutra. A Medalha foi recebido por Adélio Amaro, Assessor Cultural Internacional da ALAP, que foi o proponente dos nomes de Rafael Carvalho e de Raquel Dutra, para serem reconhecidos com esta homenagem, pelo trabalho que têm desenvolvido em prol da Cultura Musical da nossa Região.

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Na semana passada o Assessor Internacional, Adélio Amaro, entregou em mão as condecorações aos dois músicos Açorianos.

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Rafael Carvalho é músico, professor e compositor ligado a inúmeros projectos musicais de revitalização da Viola da Terra e conta com 4 Álbuns editados e 3 livros. Raquel Dutra é Enfermeira de Profissão, mas desenvolve um trabalho musical com o grupo “Cantos do Mar e da Terra”, dedicado à música tradicional Açoriana e, também, ao fado, tendo já um CD editado.

Este reconhecimento internacional, por uma instituição prestigiada como a ALAP, honra os homenageados e a Região Autónoma dos Açores, valorizando o trabalho que é desenvolvido pelas pessoas ligadas à cultura popular Açoriana, tendo um significado acrescido por ser uma instituição de fora da Região e do País.

 

Encontro de Violas Açorianas é uma necessidade anual

Posted by violadaterra on September 21, 2018 at 7:50 AM Comments comments (0)

Encontro de Violas Açorianas é uma necessidade anual

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O “Encontro de Violas Açorianas” teve mais uma edição a 15 e 16 de Setembro de 2018, na Ilha do Pico, inserido no CORDAS World Music Festival.

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O evento, produzido pela Associação de Juventude Viola da Terra desde 2011, tem como objectivo juntar tocadores de Viola da Terra de diferentes Ilhas dos Açores com o intuito de criar um diálogo musical e uma partilha de conhecimentos e das diferentes realidades de cada ilha, que ajudem a motivar os participantes no trabalho que desenvolvem com a Viola, diariamente, mas, também, a valorizá-los enquanto executantes.

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Ao mesmo tempo, estes Encontros são uma chamada de atenção para a necessidade de aproximação das pessoas para a aprendizagem da Viola da Terra.

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Durante dois dias os músicos Bruno Bettencourt (Terceira), José Canarinho (Pico), Rafael Carvalho (São Miguel) e Renato Bettencourt (São Jorge) juntaram-se para prepararem um repertório para o Concerto “Violas dos Açores” que encerrou o Festival CORDAS. A estes 4 músicos juntou-se José João Mendonça (Graciosa), no domingo ao início da tarde, devido às condições climatéricas que atrasaram alguns voos, mas, também, devido à grande dificuldade de deslocações de músicos da Graciosa derivado das inúmeras escalas a que estão sujeitos e da pouca disponibilidade de voos para aquela Ilha.

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Foram apresentados em Concerto temas das Ilhas representadas, primeiramente, a solo, com os músicos a tocarem, individualmente, temas como “Olhos Castanhos” (São Jorge), “José” (Graciosa), “Mouraria” (São Miguel), “O Sapateia” (Pico) e “Os Bravos” (Terceira). Depois de apresentadas as Violas a Solo, as suas diferentes técnicas de execução (indicador, polegar e rasgado) e diferenças estruturais (12 cordas e 15 cordas), os músicos deliciaram o público com muitos temas em conjunto como um “Fado Corrido” instrumental, os “Olhos Pretos”, “O Ladrão”, a “Tirana”, terminando com uma “Chamarrita do Pico”.

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fotografia: Ana Goulart

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Foi cumprida a principal missão do Encontro que é de potenciar a partilha musical, explicar a riqueza da diversidade das nossas Violas, sem nenhuma se sobrepor à outra, e, acima de tudo, demonstrar a sua complementaridade em palco.

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Como nota final, os músicos referiram, acima de tudo, que é necessário a continuidade do Encontro e a sua itinerância pelas várias ilhas dos Açores. Relembraram que são necessárias mais escolas de violas, pelo menos uma em cada Ilha dos Açores, mas, também, que é necessário mais interesse dos mais novos na aproximação ao instrumento e continuidade na aprendizagem do mesmo pois continuam a haver alguns cursos que se iniciam com muitos alunos mas são poucos os que têm persistência de chegar ao fim.

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O “Encontro de Violas Açorianas” tem procurado este diálogo e aproximação entre as Violas das nossas Ilhas e os seus resultados vão muito para além dos dois dias de ensaios e do Concerto final, uma vez que permitem criar redes de comunicação entre tocadores e formas de motivação mútuas, bem como trocas de repertório.

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A edição de 2018 contou com a coorganização da Associação MiratecArts e com o apoio da Direcção Regional da Cultura, tendo o concerto decorrido no Auditório da Madalena do Pico, a 16 de Setembro, como fora de apoio daquela autarquia.

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Como resultado do diálogo entre estes tocadores e todos os tocadores que participaram no CORDAS, surgiu, ainda, a criação do Dia da Viola da Terra, que a Associação MiratecArts pretende, agora, venha a ser instituído, oficialmente, pelo Governo dos Açores, uma vez que será celebrado, pelos músicos, a 2 de outubro de 2019.

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Dia da Viola da Terra nasce do Festival Cordas

Posted by violadaterra on September 19, 2018 at 7:55 AM Comments comments (0)

Dia da Viola da Terra nasce do Festival Cordas

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O encerramento da terceira edição do Festival Cordas aconteceu no domingo, 16 de setembro, com a apresentação especial do programa Violas dos Açores, no Auditório da Madalena, depois de uma tarde de convívio e música na MiratecArts Galeria Costa dedicada aos grupos e tocadores de instrumentos de corda da região.

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No que toca à parte de conferência do festival, o último dia foi dedicado à viola de arame regional, a viola dos dois corações dos Açores, onde foi criado o Dia da Viola da Terra.

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A MiratecArts, entidade organizadora do Festival Cordas, e seu diretor artístico Terry Costa, em parceria com a Associação de Juventude Violas da Terra e o maior dinamizador da Viola da Terra, o professor e músico virtuoso Rafael Carvalho, com o apoio dos grupos Casa da Música da Candelária, Grupo de Tocadores de Violas de São Jorge e da Associação de Músicos da Ilha Branca, assim declaram que o Dia da Viola da Terra seja a 2 de Outubro, porque o dia da música não é só um e os dois corações devem correr todas as ilhas e terras das comunidades açorianas um dia do ano em seu nome.

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"A Viola da Terra é a forma mais pura de identificar musicalmente um açoriano" diz Bruno Bettencourt dos Myrica Faya, presente no Festival Cordas com a Viola da Terra terceirense, "faz todo o sentido haver um dia em que se celebre essa raiz musical."

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(Fotografia: Pedro Silva)

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Sendo assim, as entidades presentes, desafiam o Governo dos Açores para oficializar este dia 2 de outubro, e para que a partir de 2019 sejam celebrados eventos a destacar a Viola de Terra, por todo o mundo açoriano.

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O Festival Cordas encerrou depois de cinco dias e 20 programas de atividades à volta da arte dos cordofones e recebendo a boa notícia da nomeação de "Best Newcomer" nos prémios a festivais da Transglobal World Music Chart. A quarta edição do Festival Cordas fica assim agendada para 11 a 15 de setembro 2019, na ilha do Pico.

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Primeiro Recital de Viola de Arame, do País, decorreu ontem em Ponta Delgada.

Posted by violadaterra on July 6, 2018 at 12:00 AM Comments comments (0)

Primeiro Recital de Viola de Arame, do País,

decorreu ontem em Ponta Delgada.

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Na 4ª feira, dia 4 de Julho, decorreu na Igreja do Colégio, em Ponta Delgada o primeiro Recital de Viola da Terra, como forma de apresentação da componente prática da “Prova de Aptidão Artística” de final de Curso Secundário de Viola da Terra, lecionado no Conservatório Regional de Ponta Delgada.

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O Recital foi concretizado por Rafael Carvalho, no sentido de realizar a prova e deixar um trabalho base para todos os outros alunos que, a partir de agora, desejem dar continuidade aos seus estudos na Viola da Terra no Curso Secundário.

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Este foi o primeiro Recital de Viola da Terra decorrido nos Açores e, por conseguinte, em todo o País, uma vez que só os Açores a Viola de Arame (Viola da Terra) está regulamentada no ensino artístico.

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O Recital contou com peças do repertório tradicional instrumental da Viola da Terra, perpetuado ao longo de séculos pelos Mestres Tocadores, mas teve também uma peça de Carlos Paredes, uma peça tradicional da América do Sul e uma peça de compositor do Séc. XX para Viola. Esta variedade de peças permitiu um Recital diversificado e explorando as sonoridades e potencialidades melódicas e rítmicas da Viola.

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O Conservatório Regional de Ponta Delgada tem no seu Currículo o Ensino da Viola da Terra (Viola de Arame dos Açores) desde 1983. Inicialmente, as aulas decorreram em regime de Curso Livre tendo depois sido regulamentado, em 2004/2005, o Curso Básico de Viola da Terra.

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No presente ano lectivo foi aprovado o Curso Secundário de Viola da Terra na Região, após alguns anos de elaboração de um Programa para o efeito, e este Recital veio concluir um percurso de 35 anos da Viola da Terra no Conservatório Regional de Ponta Delgada, mas abre caminho para um estudo mais aprofundado do instrumento.

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Os Açores têm sido pioneiros no nosso País na inclusão da Viola no seu Currículo do Ensino Artístico Especializado, mas com um percurso já longo, de 35 anos, com uma base de trabalho sólida e consistente, tendo já mais de uma dezena alunos concluído o Curso Básico de Viola da Terra entre São Miguel e Terceira.

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Violas do Atlantico VIII recebe Viola Caipira do Brasil

Posted by violadaterra on June 24, 2018 at 6:35 AM Comments comments (0)

“Violas do Atlântico VIII” recebe Viola Caipira do Brasil

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A Associação de Juventude Viola da Terra prepara mais uma edição do “Violas do Atlântico” recebendo, desta vez, a Viola Caipira do Brasil.

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A oitava edição deste Festival contará com a presença do músico Chico Lobo, de Belo Horizonte, que traz a sua Viola de Arame do Brasil, conhecida como Viola Caipira. Juntar-se-á a Rafael Carvalho, com a sua Viola da Terra, e farão dois concertos: 26 de Junho, 21:00, no Centro Social e Paroquial da Ribeira Quente e 27 de Junho, 21:00, no Salão Nobre do Teatro Micaelense.

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Os eventos são de entrada livre e limitados à lotação de cada espaço.

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O “Violas do Atlântico” tem trazido aos Açores músicos que tocam, divulgam e promovem o ensino da Viola de Arame em Portugal e não só, pretendendo valorizar as nossas Violas e criar espaços de diálogo, aproximação e troca de experiências.

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Estes eventos têm sempre uma componente de proximidade com os públicos, pois cada músico apresenta a sua Viola a solo, fala da sua história, contextos e práticas musicais, mas, depois, promove a fusão das diferentes realidades musicais com os tocadores a executarem várias peças em conjunto, comprovando a versatilidade dos instrumentos.

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A Viola Caipira do Brasil descende das várias Violas de Arame Portuguesas mas ganha a sua própria mística, estando rodeada de crenças e histórias que o Violeiro Chico Lobo irá referir nos 2 concertos. O músico tem ainda um programa semanal de Rádio e de TV, em Belo Horizonte, onde promove a Viola.

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A presença da Viola Caipira nesta edição de 2018 é ainda mais especial uma vez que a Viola foi reconhecida como Património Imaterial de Minas gerais a 14 de Junho de 2018. Todos estes passos, Encontros de Violas e, também, o contributo deste Encontro nos Açores, são importantes para a viabilização de uma candidatura conjunta – Portugal / Brasil – da Viola a Património Imaterial da Unesco.

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Contamos com a vossa presença.

 

Aproximar as nossas Ilhas pela história da nossa Viola

Posted by violadaterra on June 12, 2018 at 9:50 AM Comments comments (0)

9 Ilhas, 2 Corações

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Aproximar as nossas Ilhas pela história da nossa Viola

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Durante 20 semanas fui partilhando informações e curiosidades sobre a Viola. Artigos que resultam de uma ligação minha com a Viola da Terra de há quase 25 anos. Ao longo deste tempo muito tenho aprendido com muita gente, nas nossas Ilhas, fora delas, e com muita pesquisa em livros e documentos que a ela se referem.

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O objectivo foi dar a conhecer um pouco mais da nossa Viola: Desde o número de cordas, afinações, técnicas de execução, características mais comuns, formas de ensino, simbologia popular e muitas outras informações, desmistificando muitas ideias erradas e pré-concebidas sobre o instrumento.

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Pretendi, ainda, valorizar a Viola e evidenciar muitos dos seus intervenientes, passados e actuais, responsáveis por esta não se ter perdido no tempo e dando a conhecer os inúmeros contextos, ao longo de todo o ano, em que a Viola está viva e muito presente nas nossas Ilhas.

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Fui contando com a colaboração de algumas pessoas a quem fui solicitando informações e fotografias para melhor poder complementar estes artigos.

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Da parte dos leitores recebi, felizmente, boa aceitação. Pessoas que seguem, semanalmente, a rubrica “9 Ilhas, 2 Corações” foram solicitando textos, outros foram enviando mensagens de apoio. De várias Ilhas dos Açores, Arquipélago da Madeira e Continente Português, tenho recebido diversos contactos de leitores que acompanham os artigos através do meu blogue.

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Partilho duas histórias de leitores, em São Miguel, que me pareceram divertidas:

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A primeira é de um familiar de uma aluna minha, já com alguma idade, que, acompanhando todas as semanas os artigos, me perguntava se não iria sair em livro. Eu respondi que não sabia! Ela respondeu: “Eu gosto de ler todas as semanas e estava a guardar tudo em casa mas, uma pessoa da minha idade, não pode andar a acumular muita papelada, por isso já tive de deitar fora. Faça depois um livro com tudo.”

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Uma segunda situação decorreu no Centro de Ponta Delgada. Um senhor já de idade avançada abordou-me a perguntar se eu não era o Rafael Carvalho que escrevia quadras para o jornal. Eu lá disse que não, que eu escrevia artigos e, nalguns deles, quadras conhecidas sobre a Viola, mas que não eram minhas. O senhor não estava a entender bem pois teimava que as cantigas eram minhas e pôs-se a declamar, de cabeça, todas as quadras de um dos meus artigos (“Cantigas à Viola”). Ele tinha memorizado tudo! Depois, ainda fez alguma quadras à Viola ao improviso (ou que já tinha pensadas).

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Depois de 20 artigos é altura de descansar. Espero, se assim for possível, que o Outono traga mais uma série de artigos e de partilhas semanais. Quem sabe, em alguns anos, juntando tudo, não satisfaço o desejo de concretizar um livro com os mesmos.

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O nome “9 Ilhas, 2 Corações” pretende aproximar as nossas Ilhas pela história da nossa Viola. Será também o nome do meu próximo álbum que contará com temas de todas as Ilhas dos Açores.

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Despeço-me agradecendo o apoio e colaboração de todos bem como a oportunidade da Direcção do Correio dos Açores/Atlântico Expresso.

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Espero ter ajudado a que se conheça, respeite e compreenda um pouco melhor a nossa Viola e o seu importante papel na nossa Cultura Açoriana.

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Deixo, em despedida, uma fotografia da “Audição do Dia da Criança”, decorrida a 1 de Junho, na Igreja do Colégio, pois acredito que define muito do que é, felizmente, a nossa Viola hoje: uma partilha de gerações.

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Fig. 1 – Audição do Dia da Criança. Alunos dos 8 aos 83 anos. Foto: Ana Sousa.

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Rafael Costa Carvalho

Músico e Professor

r_c_carvalho@hotmail.com

 

A Viola no Conservatório Regional de Ponta Delgada

Posted by violadaterra on June 6, 2018 at 4:50 PM Comments comments (0)

9 Ilhas 2 Corações

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“A Viola no Conservatório Regional de Ponta Delgada”

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As Violas de Arame foram “sobrevivendo” no nosso País através da transmissão oral, ensinadas por imitação, ponto a ponto ou, como costumamos dizer, “aprendidas de ouvido”.

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Nos nossos dias há uma grande intenção de se trazer a Viola de Arame para os vários Conservatórios do País com o intuito de começar a certificar os seus executantes e de formar uma nova geração de Tocadores que possam ter um complemento à sua formação dentro do ensino mais tradicional. Da Viola Braguesa, Amarantina, Beiroa, Toeira, Campaniça, Madeirense, apenas nos Açores a Viola da Terra faz parte do ensino oficial do Conservatório. Na Madeira, assinale-se, a Viola Madeirense está em regime de Curso Livre desde 2008.

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Sobre o caso específico dos Açores a Viola da Terra (Viola de Arame dos Açores) está ligada ao Conservatório Regional de Ponta Delgada há, precisamente, 35 anos. Neste artigo é feita referência aos principais intervenientes e principais datas da Viola naquela instituição ao longo desse espaço temporal. Há, ainda, aulas de Viola da Terra (de 15 cordas) na Escola Tomás de Borba, na Ilha Terceira, onde o antigo Conservatório de Angra foi integrado (estes dados serão alvo de pesquisa para apresentação em artigo futuro).

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A Viola da Terra começou a sua ligação ao Conservatório Regional de Ponta Delgada no ano lectivo de 1982/1983 onde começa a ser ensinada, no 3.º período, em regime de Curso Livre e por “imitação” (transmissão de ouvido), numa atitude pioneira no nosso País.

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Como primeiro e principal formador, nessa modalidade de Curso Livre, teve Miguel de Braga Pimentel, mas também passaram pelo Conservatório Mário Jorge Fortuna e Alfredo Gago da Câmara.

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Há poucos registos desta passagem da Viola da Terra pelo Conservatório no que diz respeito a audições e apresentações individuais ou de grupo de alunos. No entanto, é neste período que há o maior número de inscrições registadas na disciplina, o que denota uma grande procura e interesse por parte da população. Só voltamos a ter um grande número de inscrições a partir de 2011, sendo que, actualmente, são 14 os alunos inscritos na disciplina.

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Sobre esta entrada da Viola para o Conservatório o professor Emanuel Cabral encontrou, recentemente, artigos de jornal daquela época, arquivados pela funcionária Helena Cosme e que me deu a conhecer.

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O Jornalista J. Silva Júnior, em Fevereiro de 1983, num artigo intitulado “A viola da terra vai ressurgir”, referindo uma quantidade de iniciativas ligadas a cursos de folclore e de Viola, acrescenta que “contactando de como veria o Conservatório Regional uma aula dessa natureza, a sua directora, sra. D. Natália Santos Silva, se mostrou perfeitamente receptiva à inclusão de uma tal aula, aliás, a mesma resposta que nos deu um sr. Dr. Jorge Forjaz, director dos Assuntos Culturais dos Açores, ao falar-lhe sobre o tema. Para esse fim abordámos o subchefe da PSP Miguel Pimentel, competente executante de viola da terra, que toca por música (a maioria dos tocadores fá-lo de ouvido) e admitimos que venha a ser um dos candidatos à regência desse instrumento no Conservatório de Ponta Delgada”.

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No mesmo ano há um novo artigo a referir que “7 alunos passaram em «viola da terra»”, (fig.1) referindo o nome dos primeiros sete alunos que tiveram nota positiva no primeiro ano do curso (que funcionou no 3.º período) bem como do papel que o jornal teve na abertura do Curso pois refere que “na sequência de artigos insertos no nosso jornal, o Conservatório Regional de Ponta Delgada abriu um curso de «viola da terra».” No artigo há uma clara gralha no nome do professor da disciplina que foi Miguel de Braga Pimentel e não José de Braga Pimentel.

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Fig. 1 – Recorte de Jornal de 1983. Arquivo de Helena Cosme/Conservatório Regional de Ponta Delgada.

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Em relação a nova data histórica para a Viola de Arame no nosso País e, para a Viola da Terra em particular, no ano lectivo 2004/2005, estando a leccionar a disciplina o Professor Ricardo Melo, este apresenta ao Secretário Regional da Educação Álamo Meneses e ao Conselho Executivo da Conservatório Regional de Ponta Delgada sendo Presidente Ana Paula Andrade, uma proposta de inclusão da Viola da Terra no Curso Curricular. A Viola da Terra passa a ser reconhecida em todas as Escolas de Ensino Artístico da Região na listagem oficial dos instrumentos a leccionar no Curso Básico, conforme regulamentação da Secretaria Regional da Educação e Cultura, Portaria n.º 27/2004 de 8 de Abril. A disciplina curricular começou a funcionar no ano lectivo de 2005/2006 com um máximo de 5 alunos uma vez que o professor lecionava em regime de acumulação de horário previsto e limitado por lei.

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Em 2004, volvidos 20 anos, durante os quais a Viola se ensinou em regime de Curso Livre, os Açores voltam a dar um passo enorme para a valorização da Viola de Arame e voltam a ser pioneiros no País ao integrarem este instrumento na sua oferta curricular até ao 5.º grau (conhecido como o 9.º ano nas escolas de ensino regular).

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Entre 2005 e 2008 há registo de uma Audição Partilhada entre os alunos da Classe de Viola da Terra e da Classe de Flauta de Bisel, e, ainda, a participação de alguns alunos no “3.º Concurso para instrumentos de Corda” em Junho de 2006. O Concurso era aberto a todos os músicos que desejassem participar (de dentro ou de fora da escola) de acordo com os escalões e idades regulamentadas. Neste concurso participaram 3 alunos de Viola da Terra do Conservatório no Escalão A e um aluno no Escalão B. Nesse Escalão participou, também, um aluno da Escola de Viola da Terra da Ribeira Quente.

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No ano lectivo de 2008/2009 e até ao presente a disciplina tem estado sob a responsabilidade do professor Rafael Carvalho. Nesse ano a classe arranca com 7 alunos e assinalam-se Audições de Classe em todos os períodos lectivos. No 3.º período, numa tentativa de dar a conhecer a existência do curso no Conservatório e de aproximar as várias Escolas de Violas da Ilha, o professor da Classe promove o “Dia da Viola da Terra” (fig. 2) onde participaram alunos do Conservatório, da Escola de Violas da Fajã de Baixo, Ribeira Quente e Academia da Povoação. No ano seguinte o “II Dia da Viola da Terra” decorreu no Auditório Municipal da Povoação, com apresentações musicais por Escolas mas onde, pela primeira vez, todos se juntaram para tocar dois temas em conjunto. Em 2011, como resultado deste esforço conjunto, surgiu o primeiro estágio e Concerto da “Orquestra de Violas da Terra da Ilha de São Miguel”.

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Fig. 2 – “I Dia da Viola da Terra”, Junho de 2009.

 

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No ano lectivo 2009/2010 surge a primeira Classe de Conjunto de Violas da Terra, com 3 alunos inscritos, como proposta do professor Rafael Carvalho, uma vez que os alunos de Viola do Curso Básico estavam a frequentar as disciplinas de Coro ou de Conjunto de Flautas. Era fundamental que os alunos de Viola da Terra pudessem ter este complemento de formação com a Classe de Conjunto.

No ano lectivo 2010/2011 o professor Rafael Carvalho fez exame autoproposto de 5.º Grau de Viola da Terra, sendo o primeiro exame do género na Instituição e no nosso País e que teve como Júri Lázaro Silva (Professor de Viola da Terra no Conservatório da Ilha Terceira), Gianna de Toni e João Macedo (Professores de Guitarra Clássica do Conservatório de Ponta Delgada).

No ano lectivo 2011/2012 a aluna Beatriz Almeida fez o primeiro exame de 5.º grau como aluna interna e como conclusão do Curso Básico no Conservatório, sendo o primeiro exame do género realizado na instituição e no nosso País. O júri contou com Lázaro Silva (Ilha Terceira), Gianna de Toni e Rafael Carvalho.

Entre 2008 e 2012, devido à ausência de repertório documentado na Escola ou de qualquer orientação programática para cada grau de ensino sobre a Disciplina de Viola da Terra, o professor Rafael Carvalho começou a estruturar o Curso de Básico de Viola da Terra no Conservatório. Sendo assim, teve de definir um “Programa Mínimo” e de elaborar e reunir a documentação necessária (objectivos, conteúdos, listagem de repertório por grau, matrizes, programa de testes) para que a disciplina ficasse definida e estruturada como todas as restantes disciplinas da escola. Este trabalho, como em todas as outras disciplinas, está sempre em actualização.

A grande dificuldade prendia-se com a falta de repertório escrito para Viola da Terra, bem como a falta de exercícios de escalas ou estudos de desenvolvimento da técnica. Os mesmos têm sido elaborados pelo Professor da disciplina mas com a grande preocupação de formar os alunos no repertório tradicional e próprio da Viola da Terra, adaptando algumas peças da Guitarra Clássica, Guitarra Portuguesa, bandolim e Violino, mas não esquecendo que a base da formação tem de ser a música do nosso Cancioneiro. Este trabalho já levou a que editasse 3 livros do “Método para Viola da Terra”, com os volumes “Iniciação”, “Básico” e “Avançado”. Também têm ajudado a este processo de estruturação da disciplina os livros editados pelo Professor Ricardo Melo: “Introdução ao Estudo da Viola da Terra Micaelense” e “Miguel de Braga Pimentel – Biografia Toada”.

A partir de 2012/2013, com a conclusão do Curso Básico, a aluna Beatriz Almeida passou a frequentar a disciplina de Viola da Terra como Curso Livre (por não estar legislada a Viola no Curso Secundário), frequentado o Curso Secundário de Formação Musical. A Disciplina de Viola da Terra passou depois a ser disciplina de Oferta de Escola sendo frequentada, posteriormente, pois mais 2 alunos.

Depois de vários anos de trabalho e de várias propostas apresentadas, a intenção de homologar o Curso Secundário de Viola da Terra nos Açores, após proposta do Grupo Parlamentar do PSD, foi aprovada por unanimidade pela Assembleia Legislativa dos Açores a 13 de Janeiro de 2016. Por orientação do Secretário Regional da Educação e Cultura, Avelino Meneses, foi nomeada pelo Conservatório Regional de Ponta Delgada uma Comissão de 5 Professores que teve a função de criar um “Programa para o Curso Secundário de Viola da Terra”. O grupo de trabalho foi constituído por Gianna De Toni, Helena Raposo, Lázaro Silva, Rafael Carvalho e Válter Tavares. Depois de formulado o documento e após várias fases de melhoria do mesmo, passando por outro ano lectivo e pela nomeação de um novo Director Regional da Educação, o Curso Secundário de Viola da Terra foi aprovado por despacho do Director Regional da Educação José Freire a partir do ano lectivo 2017/2018.

No presente ano lectivo, ano em que se comemoram 35 anos do ensino da Viola da Terra no Conservatório Regional de Ponta Delgada, a disciplina de Viola da Terra passou a fazer parte do Curso Secundário da Escola. Pela terceira vez, desde 1982, os Açores tornam a ser pioneiros nesta valorização da Viola de Arame e sua inclusão no Ensino Oficial no nosso País. Nos últimos 35 anos temos sido os primeiros e, até agora, com o Curso Básico e Secundário, os únicos a ter esta oferta lectiva no nosso País.

Nos últimos 7 anos já decorreram 8 provas finais de 5º grau de Viola da Terra (de alunos internos), e 3 Provas Finais de 5º grau de alunos autopropostos.

Neste pequeno resumo compreende-se que a Viola da Terra consegue este percurso de 35 anos ligada ao Conservatório devido à preocupação de algumas figuras da Sociedade Civil; devido à abertura e apoio conseguida por parte de vários Conselhos Executivos do Conservatório; contando com a aprovação das Entidades Governamentais com competência na matéria e com a análise de propostas pelos seus Técnicos; através do apoio incondicional de muitos Encarregados de Educação; com o esforço e dedicação dos vários Professores que têm lecionado a Disciplina e colegas que têm ajudado a estruturar e a melhorar a mesma; e com o empenho de muitas dezenas de alunos que têm escolhido aprender e continuar estudos na nossa Viola de Dois Corações.

Todos estes intervenientes têm contribuído para que a Viola da Terra seja hoje vista como um exemplo no Ensino Oficial da Viola de Arame no nosso País e no ensino dos Instrumentos Tradicionais.

Em jeito de despedida e, aproveitando a deixa de J. Silva Júnior em 1983, no sentido de utilizar a palavra escrita e a sensibilização dos Jornais para alertar as entidades competentes sobre estas matérias, relembra-se que a disciplina de Viola da Terra no Conservatório Regional de Ponta Delgada já tem uma lista de espera de novos alunos há muitos anos e que um novo horário já se justifica há muito tempo.


 

 

Rafael Costa Carvalho

Músico e Professor

r_c_carvalho@hotmail.com

 

Audição do Dia da Criança em Ambiente de Festa

Posted by violadaterra on June 2, 2018 at 5:50 PM Comments comments (0)

Audição do Dia da Criança em Ambiente de Festa

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A IV edição da “Audição do Dia da Criança”, decorrida no passado dia 1 de Junho, na Igreja do Colégio em Ponta Delgada, decorreu num verdadeiro ambiente de “Festa da Viola”.

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Participaram 22 alunos de Viola da Terra com idades compreendidas entre os 8 e os 83 anos.

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Fotografia: Ana Sousa

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A primeira parte contou com apresentações individuais dos 14 Alunos da Classe de Viola da Terra do Conservatório, dos 8 aos 14 anos, que apresentaram muitos temas do nosso Cancioneiro Açoriano, do Cancioneiro do Continente Português, mas também transcrições de outros instrumentos como, por exemplo, o tema “Verdes Anos” de Carlos Paredes.

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Nesta primeira parte tivemos a particularidade de ter a apresentação musical de duas alunas, Maria Madalena Antunes e Sofia Vidal, que estão a concluir o seu Curso Básico de Viola da Terra no Conservatório, após 8 a 9 anos de estudo na Escola, tendo entrado na escola com 6 ou 7 anos de idade.

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Maria Madalena Antunes e Sofia Vidal

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Na segunda parte tivemos apresentações em conjunto. Primeiro pela Classe de Conjunto de Violas da Terra do Conservatório, que conta com 7 alunos, e que apresentou um tema de Zeca Afonso, outro de Roger Tallroth e ainda um arranjo de dois “Viras” tradicionais do Minho.

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Classe de Conjunto de Violas da Terra do Conservatório

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Seguiu-se a participação especial da Escola de Violas da Fajã de Baixo, que contou com a presença de 8 dos seus 10 alunos. A classe tem alunos dos 11 os 83 anos de idade. Apresentaram 4 temas tradicionais Açorianos: “O chapéu”, “Sapateia do Norte”, “Balho o Santa Maria” e “Merceana”.

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Escola de Violas da Terra da Fajã de Baixo

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No final vários alunos do Conservatório juntaram-se à Escola da Fajã de Baixo no palco para terminarmos a Audição em Festa.

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A aluna mais nova, de 8 anos, Beatriz Rodrigues, teve direito a que todos lhe cantassem os parabéns pelo seu aniversário. Numa altura em que o professor Rafael Carvalho fez uma pequena homenagem ao seu aluno mais velho, George Hayes, de 83 anos, e à aluna mais velha, Ana Rêgo, que começou a aprender Viola da Terra aos 60 anos, integrando o primeiro curso que decorreu na Fajã de Baixo, e cuja Escola comemora, este ano, o seu décimo aniversário.

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No final todos receberam de oferta o CD “Canções de Cá”, um CD com temas infantis, numa ideia da Educadora Marina Vieira, em que convidou diversos compositores Açorianos para criarem temas para este trabalho e onde a Viola da Terra tem uma importante presença em muitos dos temas.

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Em todas as edições da Audição do Dia Criança a Associação de Juventude Viola da Terra tem oferecido aos participantes trabalhos em Livro ou em CD que tenham a Viola da Terra incorporada. Este ano a decisão recaiu sobre o CD “Canções de Cá, que estava a ser lançado no Teatro Micaelense exactamente no mesmo momento em que decorria a Audição.

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O evento foi organizado pela Associação de Juventude Viola da Terra e o Conservatório Regional de Ponta Delgada, contou com a colaboração do Museu Carlos Machado e com o apoio da Direcção Regional de Juventude.

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A Viola e os Foliões

Posted by violadaterra on May 27, 2018 at 3:05 PM Comments comments (0)

9 Ilhas 2 Corações

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“A Viola e os Foliões”

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Nesta altura do ano encontramos diversos grupos de “Foliões” a integrarem as nossas Festas do Divino Espírito Santo. Nas várias Ilhas do Arquipélago os Foliões aparecem a integrar procissões, peditórios para a Coroa, distribuição de pensões ou a animar Salões que promovem as Sopas do Espírito Santo.

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Sobre os Grupos de Foliões do Arquipélago mais, especificamente, em São Miguel, deixo um texto que foi elaborado por Renato Cordeiro aquando do evento “A Viola Que Nos Toca I”. O Renato é membro integrante da Folia das Feteiras, em São Miguel, como Tocador e Cantador:

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“A Folia tem como função narrar todos os acontecimentos relativos ao Império: realizar anúncios (como o Mordomo Novo), agradecimentos (cozinheiras e criadores, etc), peditórios para o Império, entrega de pensões, ou como acontecia muitas vezes, para ajudar alguma família ou pessoa em dificuldade. A sua origem, descende dos jograis das cortes antigas, tendo o povo adoptado o mesmo sistema, criando em cada ilha particularidades distintas. Temos grupos com apenas a presença de 3 homens (fig.1), acompanhados de percussão (bombos e testos), ou com um número variável, como acontece em S. Miguel, acompanhados de instrumentos de corda e pandeiro.

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Fig. 1 – Folia do Espírito Santo, Ilha Terceira. Do site delcampe.net

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A Folia da ilha de S. Miguel, embora com algumas diferenças ou particularidades de freguesia para freguesia, é distinta em toda a região, devido à sua vestimenta (opa e mitra) e a utilização de instrumentos de corda (fig.2), dando relevo à viola da terra e à rebeca (violino), assim como no seu canto, onde tem um forte uso do improviso.

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O número de foliões varia, não sendo fixo, mas como mínimo têm de ser 3: o porta bandeira e pandeiro, viola e rebeca. O número máximo depende dos recursos de cada localidade, mas não deveria ser mais do que 7 pessoas. Antigamente, muitas vezes, este número se reduzia ao mínimo devido à dimensão das casas e pela presença de mais pessoas aquando da entrega de "pensões".

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A Folia é, geralmente, formada a partir do cantador principal, que pode falar com mais um outro para o ajudar. Os instrumentos são de acordo com os existentes na freguesia, sendo dois indispensáveis: o pandeiro e a viola da terra. Depois de formada, a Folia é dividida em duas partes funcionais: a dianteira (cantadores principais) e a traseira (cantadores que em coro repetem a dianteira e os instrumentos). Outra particularidade: a Folia, para sair, tem que ter consigo a Bandeira, e, para ser Folia, tem que ter pandeiro”.

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Fig. 2 – Folia do Espírito Santo, Ilha de São Miguel, final do séc. XIX.

 

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O Tenente Francisco José Dias, no seu Livro “Cantigas do Povo dos Açores”, editado em 1981 pelo Instituto Açoriano de Cultura, refere que “a Folia, até meados do século passado, era o mais importante agrupamento musical havido nos Açores. Em toda a função religiosa ou profana, a Folia tomava parte. Até nos casamentos, os pais, os noivos e os próprios convidados, gostavam dos elogios que o Cantador da Folia improvisava. Todavia, a acção da Folia nas Festas do Divino Espírito Santo, só se manteve até ao aparecimento das Filarmónicas, se bem que em alguns lugares, mesmo com a Filarmónica a dois passos, ainda a utilizam, como da Atalhada à Lagoa, do João-Bom e Pilar à N. Sª da Ajuda (Bretanha) e como da Candelária aos Ginetes, etc.”

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O Tenente Francisco Dias acrescenta ainda: “Nas Folias Açorianas, especialmente nas de Santa Maria, da Vila Nova – Ilha Terceira – e da Ribeira Funda – Ilha do Faial – a melodia de cada uma, de carácter oriental, provêm do “Lingui-lingui” árabe, a “lenga-lenga” ou canto narrativo mais recitado do que cantado. (…) Os cantos das Folias de S. Miguel e de outros semelhantes usados nas Folias de outras Ilhas, são mais melodiosos; deixaram-se influenciar pela música ocidental e por isso tornaram-se menos primitivos”.

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São testemunhos sobre a importância da Folia do Espírito Santo no nosso quotidiano, que vai vivendo da persistência dos seus elementos e da renovação que alguns grupos conseguem fazer. Noutros casos, não se conseguem passar estas tradições, extinguindo-se as Folias em diversas localidades e começou-se a verificar a aposta dos Mordomos em ter a Filarmónica ao invés da Folia. No entanto, em diversos locais, Foliões e Filarmónica convivem sem “atropelos”, fazendo cada qual o seu papel ao longo dos dias das Festas, e, até, em algumas freguesias, vão se revezando a tocar nas Procissões.

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Em conversa com o Tocador de Viola da Terra Terceirense, Bruno Bettencourt, ele esclarece que com o desaparecimento dos Foliões naquela Ilha a melodia mais associada às Festas do Espírito Santo é o Pezinho.

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"Na sexta-feira antes da função (o almoço dado pelo Imperador/Mordomo) o gado que irá ser abatido para a confecção da comida e para as esmolas/pensões, é enfeitado com flores de papel e fitas e percorre as ruas da freguesia (fig. 3). Logo atrás vão os cantadores, as violas e a filarmónica. Enquanto decorre o desfile a filarmónica toca o “Pezinho dos Bezerros”. O desfile vai parando em frente à igreja, ao império, à porta dos criadores que ajudaram a criar o gado para a festa e à porta de outras pessoas que o Imperador entenda. Aí, "cala-se", a filarmónica e começam as violas a tocar o “Pezinho” (conhecido como “Pezinho dos Bezerros) para que, de improviso, os cantadores agradeçam em nome do Imperador.

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Fig. 3 – Desfile com Bezerros acompanhado com Filarmónica e Viola, Ilha Terceira. Da Revista Illustração Portugueza, 9 de Março de 1914.

 

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Aqui na Terceira é a moda mais ligada ao Espírito Santo. Ainda se vê velhotes que usam chapéu que mal ouvem o pezinho, o tiram logo da cabeça em sinal de respeito."

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Esta multiplicidade de testemunhos ajuda a confirmar a grande riqueza cultural das nossas Festas do Espírito Santo no nosso Arquipélago e a enorme diversidade de tradições que se verificam de uma freguesia para outra. Cada localidade acabou por tornar muito sua a forma de celebrar o Espírito Santo. Teremos, certamente, centenas de testemunhos, sobre estas festas, um pouco por todas as 9 Ilhas dos Açores.

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Em relação à Folia da Ilha de São Miguel a versão mais usual é tocada, normalmente, em modo maior, na tonalidade Sol. Há, no entanto, versões cantadas em modo menor, mas com menos regularidade. Deixo aqui duas partituras para Viola da Terra, que transcrevi de duas versões que conheço: “Folia do Espírito Santo” (Sol Maior) e “Folia da Maia” (Ré menor).

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Fig. 4 – Partitura da “Folia do Espírito Santo”, São Miguel. Transcrição de

Rafael Carvalho.

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Fig. 5 – Partitura da “Folia Maia”, São Miguel. Transcrição de Rafael Carvalho.

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Termino o artigo desta semana com algumas quadras que se podia ouvir na Folia do Espírito Santo, retiradas do livro “Cantigas do Povo dos Açores”.

 

Meu Divino Espírito Santo

A vossa capela cheira –

Cheira a cravo, cheira a rosa,

Cheira a flor de laranjeira.

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Já o Divino chegou

À Porta da nossa igreja

Voando aqui poisou

P’ra que toda a gente o veja

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O Divino Espírito Santo

Traz a Graça que Deus mandou

Traz consigo Divino Manto

P’ra cobrir quem atrás ficou.

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E, no final, dando a beijar a Bandeira, cantamos na minha Freguesia, Ribeira Quente:

Dai a Bandeira a beijar

Ela o Divino encerra

Que ele queira abençoar

Todos os povos da Terra.


 

 

Rafael Costa Carvalho

Músico e Professor

r_c_carvalho@hotmail.com

 

Rafael Carvalho apresenta o seu quarto CD de Viola da Terra no Verão

Posted by violadaterra on May 24, 2018 at 7:05 PM Comments comments (0)

Rafael Carvalho apresenta 4.º CD

de Viola da Terra no Verão

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O músico Açoriano Rafael Carvalho anunciou, em Março, que estava a trabalhar no seu quarto CD a solo em Viola da Terra, numa homenagem às 9 Ilhas dos Açores e a todos os que se dedicaram a tocar, ensinar e apreciar a Viola da Terra no nosso Arquipélago. O seu novo trabalho, intitulado de “9 ilhas, 2 Corações”, será lançado este Verão.

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O novo CD, em formato de CD Duplo, terá cerca de 80 temas, de todas as Ilhas dos Açores, executados numa só Viola, a solo, num trabalho de pesquisa e recolha de cerca de duas décadas e que inclui muitos temas conhecidos de todos mas também peças que nunca foram editadas.

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O músico reconhece que já há algumas edições em CD com temas de todas as Ilhas dos Açores mas assume que um CD com esta dimensão (80 temas, executados numa só Viola), num trabalho sem arranjos musicais, só com a sonoridade pura das nossas gentes e com a essência original de cada peça, é algo inédito nos Açores.

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O músico tem 3 Cds editados (Origens, Paralelo 38 e Relheiras), com várias peças tradicionais Açorianas e, ainda, com temas originais seus para Viola da Terra, mas refere que esta nova obra é fundamental para registar e resgatar a nossa verdadeira cultura musical.

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Há 10 anos professor contratado no Conservatório Regional de Ponta Delgada e tendo sido o responsável pela estruturação do Curso Curricular de Viola da Terra naquela instituição, Rafael Carvalho defende que este trabalho é fundamental para complementar o estudo da Viola da Terra no Conservatório por incluir temas que podem ser utilizados nos vários graus de ensino: Iniciação, Básico e Secundário.

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Este novo CD vem ajudar a complementar o trabalho dos seus últimos 3 álbuns na medida em que apresentam uma base muito consistente de repertório e de abordagens técnicas ao instrumento inexistente até agora na Região. Essa diversidade e complexidade musical foi fundamental para a implementação do Curso Básico de Viola da Terra no Conservatório e contribuiu, directamente, para as exigências da aprovação do Curso Secundário de Viola na Instituição.

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Com estes 80 temas, oriundos as várias Ilhas do Arquipélago, a utilidade deste CD Duplo pode ir muito além da realidade das nossas Ilhas, pois estamos a falar de um arquivo sonoro muito completo, único, e que pode servir para base de estudo do Cancioneiro Açoriano em qualquer parte do mundo. Ao mesmo tempo, tendo sido gravado num ambiente sonoro de “recolha musical”, que nos remete, auditivamente, para o passado, este CD apresenta um registo sonoro, feito nos nossos dias, mas que podia ter sido concretizado há muitas décadas, o que ajuda a manter a característica sonora que todos reconhecemos das várias recolhas existentes na nossa região.

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O CD apresenta temas utilizados ao longo de todo o ano nas nossas manifestações culturais, com uma “Marchinha de Carnaval”, “Folia do Espírito Santo”, “Os Reis” e diversas versões da “Saudade”, “Chamarritas”, “Pezinhos” e “Remas”. Apresenta, também, temas com a execução “rasgada” da Viola, e temas menos conhecidos do público em geral como um “Pasodoble”, uma “Moda do Menino Jesus”, uma “Abóbora Menina”.

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Em Julho teremos a apresentação deste novo trabalho.

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Contactos:

r_c_carvalho@hotmail.com

 

A Viola e a Cantoria

Posted by violadaterra on May 17, 2018 at 12:40 AM Comments comments (0)

9 Ilhas 2 Corações

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“A Viola e a Cantoria”

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O Cantar ao Improviso tem uma forte ligação à Viola nas nossas Ilhas. Desde as Cantigas ao Desafio, Desgarradas, Velhas e Pezinhos, a Viola era o instrumento de eleição para acompanhar a improvisação e genialidade dos Cantadores.

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A “Cantoria”, tocada, usualmente, na tonalidade de Lá menor, acaba por ser a forma de improviso mais comum no nosso Arquipélago e tem ganho uma nova vitalidade com o aparecimento de dezenas de jovens Cantadores na última década. Do mesmo modo, a Viola, que era o acompanhante “original” e imprescindível a qualquer Cantoria, também começou a reaparecer com grande força nas últimas duas décadas, recuperando um lugar que foi tomado, principalmente, pela Guitarra Portuguesa.

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É certo que há Ilhas onde a Viola poderá ter estado sempre mais presente, mas há outras realidades em que a mesma esteve fora dos palcos das Cantigas ao Desafio por muitos e muitos anos.

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Sobre este assunto recordo algumas histórias que vivi quando comecei a integrar de modo frequente as Cantorias a partir dos meus 16 anos. Nessa altura comecei a sair da Ribeira Quente com o Cantador Jorge Rita para diversas Cantorias e era acompanhado ao Violão pelo Jaime Braga. O grupo de Cantadores que eu acompanhava naquela altura era constituído, quase sempre, pelo Jorge Rita, João Luís Mariano e Lupércio Albergaria.

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No final da década de 90, na Ilha de São Miguel, não se conseguia, com relativa facilidade, um grupo de 4 Cantadores, com experiência e qualidade reconhecida. O mesmo se poderia dizer em relação a tocadores de Viola nas Cantorias.

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Em 1996 uma das primeiras Cantorias em que toquei foi na Ribeira Seca de Vila Franca do Campo. Quando chegámos ao local, antes das nove da noite, havia já alguns “velhotes” à espera para confraternizar com os Cantadores, contar histórias e reviver cantigas “míticas” que ficaram na memória das gentes. Lembro-me de ouvir um dos velhotes lamentar: “pela forma do saco aquilo é uma Viola, não é uma guitarrinha! Já não vai haver aqueles sons repenicados”.

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Pode parecer um comentário ofensivo, mas não era. A Viola já pouco aparecia em palcos da Cantoria na Ilha de São Miguel bem como em muitas outras Ilhas. Os próprios Cantadores assim o referiam, habituados a percorrer as muitas freguesias da Ilha. Ou eram acompanhados à Guitarra e Violão, ou só com Violão e até com o Acordeão.

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A Cantoria lá começou e dei as primeiras notas da melodia que costumava tocar, repenicando o mais que podia, dobrando a voz na Viola, e preenchendo os vazios dos Cantadores nas pequenas hesitações.

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Hora e meia a duas horas depois, terminada a Cantoria, subiram todos ao palco para a Desgarrada. Puxei o arpejo bem repenicado, em Lá Maior, que me ensinara o Mestre Carlos Quental, e a noite terminou em boa disposição.

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No final, os mesmos velhotes que haviam torcido o nariz à forma da Viola dentro do saco, foram os primeiros a vir falar connosco, entusiasmados. Diziam que nunca tinham ouvido uma Viola repenicar assim (e isso só prova que o povo tem a memória curta), e que um deles tinha ainda uma Viola em casa que tinha sido do Pai, que fora um grande Tangedor de Viola. Desde aquela altura que essa situação foi-se repetindo, com histórias semelhantes, em vários locais.

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Fig. 1 – 1936 - Comissão de Festas de Gustine, Cantador Charrua e os Tocadores. Do Livro “Turlu e Charrua – Confidências”

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Uma outra história que me recordo, com frequência, decorreu em Ponta Garça, também no final da década de 90. A Junta de Freguesia organizava uma Cantoria de dois dias com os mais conhecidos Cantadores da Ilha, e ainda com Cantadores de renome da Ilha Terceira e outros emigrados nas nossas Comunidades dos Estados Unidos e Canadá. Era um dos maiores Festivais em torno da Cantoria na Ilha de São Miguel.

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Fomos lá tocar durante alguns anos, eu e o Jaime Braga, acompanhando nomes como o famoso Vasco Aguiar, Manuel Antão, José Fernandes, José Eliseu, João Ângelo, João Luís Mariano e muitos outros. Numa das edições, chegados mais cedo, estávamos a ver o cartaz do evento que referia o grande final com as “Velhas” entre José Eliseu e João Ângelo. Eu conhecia mais ou menos a melodia mas nunca a tinha tocado em público e cheguei a comentar com o meu colega que seria divertido de ouvir e quem seria que viria tocar as “Velhas”?

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Passou o tempo, os Cantadores chegaram, mas nem mais um Tocador. Conheci pela primeira vez o José Eliseu e o “Tio” João Ângelo. Em conversa com eles compreendemos que nós é que iriamos acompanhar as “Velhas”. O José Eliseu, enorme Cantador e excelente pessoa, imediatamente se dispor a ensaiar um pouco connosco.

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Tudo decorreu bem, mas, na altura das “Velhas”, depois de eu fazer a primeira introdução, o João Ângelo não entrava. Dei mais uma volta na melodia e ele continuava a não cantar. O José Eliseu veio segredar-me ao ouvido: “Ele está à espera que dobres a melodia”. Dobrei a melodia e ele então arrancou nos seus improvisos. Enganei-me muito nesse dia porque não conseguia controlar o riso. Ninguém pareceu notar, pois toda a gente se ria com a moda das “Velhas”.

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Hoje esta partilha foi um pouco mais pessoal reflectindo a forma como tive a felicidade de viver uma parte da minha vida ligado ao improviso popular. A Viola acompanha estas manifestações populares, e muitas outras. Cada Tocador e Cantador terá centenas de histórias para contar e para partilhar. Recomendo a pesquisa e leitura das dezenas de publicações de Liduino Borba sobre esta temática e seus intervenientes. No livro “Improvisadores da Ilha de São Miguel” encontra-se a seguinte quadra de Vasco Aguiar sobre a Viola:

Para cantar um fadinho

Não é preciso ir à escola

É dar ao corpo um jeitinho

Ao compasso da Viola.


 

Outro livro que me fascinou ler chama-se “Aurora e Sol Nascente - Turlu e Charrua – Confidências”, de Mário Pereira da Costa e que aconselho a todos. Regista-se uma cantiga do Charrua, ainda em início de carreira, a um Tocador de Viola:


Toca-me nessa Viola,

Ó rapaz da minha estima,

Faz dessa mão uma bola

Girando abaixo e acima.

 

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A qualidade dos Poetas Populares Açorianos é inigualável na realidade nacional, quer na forma da rima, versatilidade de conteúdos e bom gosto nas palavras. Claro que, com a Viola a acompanhar, bem repenicada, as “Cantigas” saem mais fluidas. Esta conversa ouvi-a do João Luís Mariano inúmeras vezes.

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Estamos na altura dos Impérios, das Festas de Freguesia, dos Peditórios, das Folias, dos Pezinhos, das Cantorias, Velhas e Desgarradas. Nas nossas Ilhas e nas nossas Comunidades vejam com outros olhos e oiçam de outra forma estes enormes artistas.

Se tiverem oportunidade, peçam para conhecer as suas histórias.

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Rafael Costa Carvalho

Músico e Professor

r_c_carvalho@hotmail.com

 

Histórias, expressões e curiosidades

Posted by violadaterra on May 9, 2018 at 8:10 PM Comments comments (0)

9 Ilhas 2 Corações

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“Histórias, expressões e curiosidades”

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A Viola está associada a muitas histórias, expressões e brincadeiras, devido à sua importância no quotidiano das pessoas e também à forma como as pessoas gostavam de embelezar a transmissão de ensinamentos.

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Recordo duas curiosidades que me transmitiu o meu professor Carlos Quental e que ele contava sempre com muita solenidade:

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A primeira era sobre o facto de não se emprestar a nossa Viola a ninguém. Ele dizia que “há 3 coisas que não se emprestam nem ao nossos melhor amigo: A mulher, o carro e a viola”. Era uma expressão já muito antiga e que tem a sua razão de ser. Muitas vezes as pessoas esquecem-se de devolver o que pediram emprestado. Doutras vezes devolvem com defeito! Estou sempre a falar de Violas, claro!

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Também desaconselhavam emprestar a Viola pois cada músico tem o seu próprio toque, tem a sua forma de pressionar as cordas com a mão esquerda e de as “atacar” com a mão direita. Quando se empresta a Viola a outro tocador ele vai tocar de forma diferente e isso sente-se de imediato. Depois de reaver a Viola o tocador tem de tornar a “amaciar” as cordas à sua maneira, por isso é melhor não chegar sequer a emprestar.

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A outra história que ele gostava sempre de contar era sobre uma noiva que estaria a experimentar vestidos de casamento. A dona da loja perguntou quem era o noivo e ela lá disse o nome do rapaz. A mulher ficou bastante desconcertada e começou a criticar a noiva dizendo que esse rapaz estava “perdido na bebida”, que era um canalha e que ela ia desgraçar a sua vida! Ouvindo esses ataques a mãe da noiva e futura sogra do rapaz interveio: Pois fique a senhora a saber que ele pode ser bêbado, mas é um grande tocador de viola.

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Era, portanto, mais importante saber tocar viola e a reputação que isso trazia a uma pessoa e sua família, do que a negatividade do abuso da bebida.

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Com o decorrer dos anos aprendi outra expressão, usada em vários locais do nosso País e não só. As nossas Violas, por terem ordens duplas e triplas, apresentam uma maior dificuldade na afinação. Primeiro tem de se afinar cada ordem de cordas e depois conseguir afinar as ordens entre si. Situações de mais calor ou de mais frio fazem com que a Viola esteja sempre a desafinar. Dizem os tocadores, em jeito de brincadeira e para antecipar alguma crítica, que “o Tocador de Viola passa metade do concerto a afinar a Viola e a outra metade a tocar com ela desafinada!”

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Esta situação acontece menos nos nossos dias, pois temos cordas de melhor qualidade, cravelhas mais precisas, instrumentos com melhor afinação de escala, mas continua a ser um problema para os tocadores. As cravelhas de madeira, por exemplo, são mais difíceis para se conseguir afinar um instrumento. Quando incham, com as variações de temperatura, aplica-se giz nos orifícios da pá e torna-se a inserir as cravelhas para ajudar a rodar melhor e facilitar a afinação.

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“quem tem unhas é que toca Viola”

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“Corda nova não casa com corda velha!” Esta é uma certeza dos tocadores de Viola quando rebenta uma corda. Se quiserem poupar cordas e tempo, colocando apenas a corda rebentada, deixam de conseguir afinar aquela ordem de cordas. A corda nova não afina com a corda velha pelas diferenças de desgaste e elasticidade. Conseguimos afinar as duas cordas soltas mas depois na oitava já se nota uma diferença enorme na altura dos 2 sons. O melhor é trocar sempre as duas cordas quando uma rebenta.

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Diz-se que “quem tem unhas é que toca Viola” ou que “quem tem unhas é que toca guitarra”. De facto, na execução destes instrumentos dedilhados, ter unhas é uma mais valia. A dimensão e bom estado das unhas permite pulsar as cordas com a força que se deseja e, ainda, utilizar técnicas próprias de cada instrumento, como o dobrar as cordas ou fazer trinados.

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Uma das expressões mais conhecidas e que ouvimos com frequência é a de “meter a Viola no saco”. No final de uma discussão em que uma das partes foi, claramente, perdedora, esta é convidada a “meter a Viola no saco”, reconhecendo, assim, não ter mais argumentos. Para os tocadores é sinal de que mais um concerto ou serão de Violas acabou, mas com a esperança de que virão mais.

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Rafael Costa Carvalho

Músico e Professor

r_c_carvalho@hotmail.com


 

Cantigas à Viola II

Posted by violadaterra on May 2, 2018 at 9:30 AM Comments comments (0)

9 Ilhas 2 Corações

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“Cantigas à Viola II”

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Há algumas semanas dediquei um artigo às “Cantigas à Viola” que foram sendo transmitidas, na tradição oral do povo dos Açores, ao longo de séculos. Pretendia que se compreendesse que os Tocadores e a Viola, pela sua presença indispensável, eram, e são, alvo de muitas cantigas improvisadas.

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Para além dessas quadras, de autor desconhecido, cantadas e/ou declamadas desde tempos passados e recolhidas em várias Ilhas do nosso Arquipélago, entendo ser importante que se conheçam outras cantigas. Poemas de autores contemporâneos, que dedicaram parte da sua obra à valorização da Viola nos Açores.

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Um dos grandes exemplos de Escritores que escreveram sobre a nossa Viola será Vitorino Nemésio. No seu livro “Festa Redonda – Décimas & Cantigas de Terreiro, Oferecidas ao Povo da Ilha Terceira” pp. 77-79, dedica um poema à Viola de 15 Cordas da Ilha Terceira:

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Cantigas à minha viola

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Ó viola encordoada

Com quinze cravos de aposta,

Minha pêra acinturada,

Minha maçã da Bemposta

.

 

Quando te toco nas cordas,

À boca do coração,

Vou-me sangrando em saúde

Que nem sumo de limão.

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Tens os pontos doiradinhos,

Tens os espaços de luto,

Cada prima é uma flor,

Cada cravelha é um fruto...

.

 

Cada bordão é um zangão,

Cada toeira uma abelha,

Ó jardim de madrepérola

Da minha festa vermelha!

.

 

Letrinha de 8 somada

Pelas tuas seis parcelas

Mai-las minhas mãos cansadas,

Amarelas... amarelas...

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Pendurada a tiracolo

No teu cordão cor de vinho,

És o meu saco de cego,

O meu burro e o meu moinho.

.

 

No florão da minha viola

Pus uma tira de espelho,

Para ver, de quando em quando,

Se estou novo, se estou velho.

.

 

Na caixa da minha viola

Há um letreiro que diz:

V. DA SILVA, VIOLEIRO,

ILHA TERCEIRA – PARIS.

.

 

Mas um tolo, um engraçado,

Colou com cuspo uns tarjões:

SILVA, CANGALHEIRO DE ALMAS,

FAZ VIOLAS E CAIXÕES.

.

 

 

Meu amor, deixa falar!

Dorme, não percas a esperança!

Morta, na minha viola,

Serás como uma criança.

.

 

Que seis meninas de arame

É que te levam à campa,

Com seis florinhas de pau

Espetadinhas na tampa.

.

 

E o limão, a violeta,

A madrepérola, o espelhinho

Hão-de te servir de terra

E de mortalha de linho.

.

 

Minha viola de luxo,

Minha enxada de cantar,

Meu instrumento de fogo,

Caixinha do meu chorar!

.

 

Viola, bordão de prata,

Vida violeta, violeta...

Prima, coração me mata...

Poeta! Poeta! Poeta!

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No mesmo livro, o Escritor Açoriano dedica quadras ao Tocador de Viola. Ele próprio foi aprendiz de Viola com o afamado Mestre de Viola Terceirense Laureano Correia dos Reis:

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Senhor Mestre da Viola,

Aqui cheira a violetas:

Será de uns olhos azuis,

Por detrás de cravelhas pretas.

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Vitorino Nemésio e Laureano Correia dos Reis, do Livro “Vitorino Nemésio e a Sapateia Açoriana” de Manuel Ferreira.

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Rafael Costa Carvalho

Músico e Professor

r_c_carvalho@hotmail.com

 

 

Encontro de Violas Açorianas

Posted by violadaterra on April 25, 2018 at 7:55 PM Comments comments (0)

9 Ilhas 2 Corações

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“Encontros de Violas Açorianas”

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A Viola era, nos Açores, o grande instrumento da união social, dos festejos, dos balhos, cantorias e Serões animados. Em cada Ilha a Viola assumiu um papel diferente, de acordo com o quotidiano de cada comunidade, mas com grande presença nestas manifestações culturais.

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Há muito trabalho que tem sido desenvolvido para dar a conhecer a riqueza e as diferentes realidades da Viola Açoriana. Uma das iniciativas que tem ajudado neste esclarecimento sobre a realidade das nossas Violas é o “Encontro de Violas Açorianas”. Este evento teve a sua primeira edição em 2011, seguindo a ideia do “Encontro de Violas de Arame Portuguesas”, organizado em 2009, em Castro Verde.

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O “Encontro de Violas Açorianas” surgiu para valorizar, dar a conhecer e desmistificar aquilo que as Violas representam para os Açorianos, bem como informar da realidade actual em cada Ilha. Era e é importante conhecermos o trabalho que é desenvolvido nas diversas Ilhas dos Açores, trocar ideias, conhecimentos, práticas de ensino, de execução e de construção. Também faltava nos Açores algo que fosse uma semente para a criação de uma rede de contactos entre tocadores e construtores, potenciando uma comunicação rápida e eficiente entre todos.

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A primeira edição do Encontro de Violas Açorianas foi organizada pela Associação de Juventude Viola da Terra na Ilha de São Miguel, em Setembro de 2011, com uma palestra que decorreu na Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada e com um Concerto no Auditório Municipal da Povoação.

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Este primeiro Encontro contou com tocadores de Viola da Terra de 5 Ilhas dos Açores: Flores (José Serpa), Graciosa (António Reis), Pico (Orlando Martins), São Miguel (Rafael Carvalho) e Terceira (Lázaro Silva).

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I Encontro de Violas Açorianas, São Miguel, 2011.

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O Encontro percorreu outras Ilhas nos anos seguintes, visitando as Flores, Pico, Terceira e São Jorge, seguindo uma estrutura de um “Concerto Comentado”, em que cada músico apresenta a sua Viola, fala da sua técnica de execução, da realidade musical da sua ilha e interpreta temas que identifica como melhor representativos dessa realidade ou do conhecimento geral. Uma outra faceta destes Concertos é que os músicos escolhem alguns temas para tocarem em conjunto, demonstrando que as diferentes técnicas e afinações das Violas complementam-se e criam uma riqueza enorme dentro da diversidade que nos caracteriza. Todo este processo decorre de modo intensivo, com poucas horas para ensaios conjuntos.

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Este Encontro, nos locais onde vai passando, pretende ir alertando para a necessidade de uma maior aproximação (ou reaproximação) à nossa Viola e tenta ir motivando as pessoas para a sua aprendizagem ou, pelo menos, que se juntem para virem ouvir o som das Violas.

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Em 2014 o “Encontro de Violas Açorianas” foi a São Jorge e a Associação de Juventude Viola da Terra lançou um desafio ao músico Renato Bettencourt para juntar tocadores de Viola daquela Ilha para um momento musical a abrir o Serão. O desafio superou as expectativas, com 14 Tocadores da Ilha de São Jorge em Palco, naquele que foi o “I Encontro de Tocadores da Ilha de São Jorge”.

 

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I Encontro de Tocadores de Viola da Terra de São Jorge, 2014

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Este Encontro deu frutos levando depois à criação do “Grupo de Violas da Terra de São Jorge” que tem participado em alguns eventos naquela Ilha e na Ilha do Pico, e tem sido alvo de algumas recolhas musicais.

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Também observamos, como resultado directo da existência do “Encontro de Violas Açorianas”, uma maior valorização dos músicos que o integram, com mais contactos para participarem em eventos nas suas Ilhas. No entanto, com um interregno na realização do mesmo, há cerca de 3 anos, verifica-se que se vai perdendo alguma dinâmica e motivação nas nossas Ilhas, o que só vem justificar a existência deste Encontro ou de outros que possam surgir.

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O Objectivo deste Encontro é de poder, um dia, contar com um Concerto com Tocadores de Viola de todas as Ilhas. É um desafio enorme, mas que já esteve mais longe de acontecer. Acima de tudo o importante é que já se deu o primeiro passo, já se mostrou que é possível, mas tem de haver continuidade: nas nossas Freguesias, nos nossos Concelhos, nas nossas Ilhas, todos temos a responsabilidade de manter a nossa Viola viva.

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Rafael Costa Carvalho

Músico e Professor

r_c_carvalho@hotmail.com

 



 

Encontros de Violas

Posted by violadaterra on April 18, 2018 at 5:30 AM Comments comments (0)

9 Ilhas 2 Corações

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“Encontros de Violas”

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As nossas Violas iniciaram um processo de aproximação com o intuito de criar um movimento colectivo de valorização do instrumento, de aprender com as realidades e dificuldades uns dos outros, de partilhar ideias, conhecimentos e repertórios.

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Os “Encontros de Violas de Arame”, sendo algo inexistente no passado, começaram a surgir nos últimos anos, havendo mesmo um “Encontro de Violas” que já existe há uma década.

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Em 2009, em Castro Verde, o Músico Pedro Mestre, Tocador de Viola Campaniça e ensaiador de Grupos Corais Alentejanos, organizou o “I Encontro de Violas de Arame Portuguesas”. Este Encontro tornou-se um importante “motor” na valorização da Viola de Arame no nosso País e criou uma rede de contactos entre músicos que se dedicam, cada qual na sua Região, à preservação da Viola de Arame.

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I Encontro de Violas de Arame, 2009 - Castro Verde.

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Neste Encontro participaram José Barros (Viola Braguesa), Pedro Mestre (Viola Campaniça), Rafael Carvalho (Viola da Terra) e Vítor Sardinha (Viola de Arame Madeirense), que protagonizaram momentos de diálogo com vários músicos e investigadores presentes, falando da realidade e contextos das Violas nas suas Regiões, executando temas e trocando informações. Os quatro músicos realizaram ainda 2 Concertos.


A importância deste Encontro, e que o destaca de outros, é que juntou esta quantidade de Violas e depois teve uma continuidade anual. Em 2010 o “II Encontro” foi realizado nos Açores numa edição em que já esteve presente o músico Chico Lobo com a “Viola Caipira” do Brasil, Viola descendente das Violas de Arame Portuguesas. Em 2011, 2013 e 2017 o Encontro decorreu, novamente, no Alentejo.

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II Encontro de Violas de Arame, 2010 – Igreja de São Paulo, Ribeira Quente

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Desde 2009 que começaram a ser convidados tocadores de outras Violas pelo valioso trabalho que estavam a desenvolver. Primeiro foi possível a presença da Viola Beiroa (2013), depois seguiu-se a Viola Amarantina (2015) e, na última edição, em 2017, a Viola Toeira. A edição de 2013 contou ainda com a Viola Fandangueira do Brasil.

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O evento de 2009, em Castro Verde, teve reflexos imediatos nos músicos que participaram e já deu frutos nas Regiões de cada um pelas iniciativas que começaram a desenvolver. No caso dos Açores a Associação de Juventude Viola da Terra, seguindo essa ideia, organizou em 2011 o “I Encontro de Violas Açorianas” com tocadores de Viola de 5 Ilhas do Arquipélago.

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O Encontro de Violas de Arame teve duas edições no Brasil, em 2015 e 2016, com o nome de “Mostra Internacional de Violas de Arame”. Esta organização teve um sabor especial uma vez que, a génese deste movimento todo, surge de um contacto quase acidental entre os músicos Chico Lobo e Pedro Mestre.

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No ano de 2008 os músicos conheceram-se em Portugal, num contacto “fortuito”, iniciado por um amigo comum que ajudava na produção de um evento. Imediatamente estabeleceram uma relação de amizade e de colaboração musical que resultou em vários concertos em Portugal e no Brasil. Há 10 anos, esta relação musical viria mudar em muito o panorama da Viola de Arame no nosso País.

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Estes Encontros de Violas têm ainda a particularidade de envolver outros músicos, escolas de violas, investigadores e construtores, o que muito tem contribuído para um envolvimento e entusiasmo das pessoas que não se restringe aos 3 ou 4 dias dos Encontros.

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Há outros Encontros de Violas que vão surgindo, outras formas de diálogo inexistentes no passado, e espera-se que todo este trabalho contribua para que se reconheça o real valor das nossas Violas.

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Este grupo de músicos lançou, há algum tempo, a ideia de uma candidatura da Viola de Arame a Património da Unesco. Todo o trabalho desenvolvido em cada Região, em cada Encontro, por cada músico e investigador ao longo dos últimos anos, foi um contributo para a afirmação da Viola no nosso País e, até mesmo, da “redescoberta” da mesma em muitos locais. Com um trabalho conjunto, haverá a possibilidade de se conseguir concretizar mais este importante objectivo para a valorização das nossas Violas.

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Rafael Costa Carvalho

Músico e Professor

r_c_carvalho@hotmail.com


 

Repertorios da Viola

Posted by violadaterra on April 4, 2018 at 8:00 AM Comments comments (0)

9 Ilhas 2 Corações

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“Repertórios da Viola”

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As nossas Violas necessitam de ser tocadas e ouvidas para se poderem afirmar na actualidade. Por todo o País vemos cada vez mais pessoas interessadas no estudo da Viola e na procura e criação de repertório para o instrumento.

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Há Violas para as quais o repertório tradicional instrumental conhecido é muito pouco e quase inexistente. Não quer dizer que essas Violas não possam executar todo o género de música, mas deve-se compreender que, a sua execução tradicional, ao longo dos séculos, baseava-se em rasgar acordes. As Violas, nesses contextos, não tinham um papel solista nem se conhece repertório a solo para as mesmas.

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Noutros casos há mesmo uma inexistência de registos de repertório que deixam os tocadores de Viola da actualidade sem muitas bases de estudo. O processo tem passado pela adaptação de repertório e a criação de temas originais para os instrumentos.

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No caso dos Açores, inexplicavelmente, temos um vasto repertório a solo para a Viola, com centenas de modinhas que são executadas nas nossas Violas, nas várias Ilhas, e ao longo das diversas manifestações culturais do ano.

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Porquê, inexplicavelmente?

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Se a Viola chega aos Açores trazida nas bagagens de quem cá vinha viver, vindos de várias partes do País, seria lógico que se encontrasse, na origem (Continente Português), alguma região onde o repertório instrumental tradicional da Viola fosse rico e diversificado. No entanto, esta situação não se verifica.

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Tirando algumas excepções onde se encontram, numa ou outra região, algumas peças tradicionais ponteadas na Viola (como na Madeira), ou tocadas a duas vozes (como no Alentejo), não existem registos de grandes repertórios a serem “solados” nas Violas no nosso País.

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No entanto, quando analisamos o caso Açoriano, encontramos estas centenas de “modinhas”, que já referi, e, ainda, em algumas Ilhas, peças de um nível de execução extremamente elevado e só ao alcance dos tocadores mais virtuosos. Ao mesmo tempo, encontramos muitas variações do mesmo tema, em que cada tocador dava o seu cunho pessoal, acrescentando melodias e ornamentações que o destacavam de imediato em relação aos outros.

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Pezinhos, Sapateias, Saudades, Chamarritas, Remas, Auroras, e tantos outros temas, fazem parte do nosso quotidiano há séculos, com variações de um tocador para outro e de uma freguesia para outra. Há quem assuma que tal se deve à nossa insularidade, que ajudou a manter e preservar este conhecimento, e será uma de várias hipóteses, mas continuamos sem conseguir descobrir de onde veio toda esta riqueza musical.

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Temos peças dos Reis, das Estrelas, do Carnaval, do Espírito Santo, dos Arraiais hoje assumidos por grupos folclóricos e grupos de chamarritas, dos bailes de roda, da Cantoria, das Velhas e do Pezinho dos Bezerros, dos Ranchos de Natal e das “Rambóias” de amigos. E temos, ainda, peças “solitárias” que podem ser tocadas só por uma Viola, ou por duas Violas: uma Viola “sola” e a outra acompanha. Peças que dispensam a voz e que dispensam bailaricos. Peças para serem tocadas em silêncio e apreciação. Felizmente, este repertório foi sendo passado entre várias gerações começando a ser registado desde cedo.

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A “Library of Congress” na Califórnia tem registos dos anos 30 com tocadores de Viola da Terra emigrados naquele Estado, e onde se encontram temas que todos hoje reconhecem no nosso Cancioneiro Açoriano.

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O filme “Quando o mar galgou a terra”, realizado por Henrique Campos, rodado na Ilha de São Miguel e apresentado em 1954, teve na sua banda sonora os sons da Viola da Terra com o tocador Francisco Sabino acompanhado ao Violão por Bento de Lima. Há mais de 60 anos a Viola da Terra já figurava na banda sonora de um filme com as suas bonitas melodias.

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No final de década de 60, em São Miguel, este mesmo tocador, Francisco Sabino, grava um LP com 4 temas a solo em Viola da Terra: “Sapateia”, “Chamarrita”, “Saudade” e “Bailho da Povoação”, apresentando algumas variações com um elevado grau de dificuldade de execução. Este trabalho, apesar de não merecer destaque perante os “académicos” que estudam as nossas Violas, poderá ter sido o primeiro trabalho a solo de um tocador de Viola no nosso País.

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“S. Miguel em Viola da Terra” – Francisco Sabino, década de 60.

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Numa altura em que as peças tradicionais a solo, para Viola, eram algo quase inexistente nos registos das várias regiões de Portugal, e em que algumas Violas começavam a ser consideradas quase extintas, tínhamos esta particularidade nos Açores.

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Temos as recolhas do Professor Artur Santos, no final da década de 50 e início da década de 60, editadas em vinil, e também já editadas em CD. A recolha decorreu em 3 ilhas (Santa Maria, São Miguel e Terceira) mas contêm registos da nossa cultura popular e da execução da Viola da Terra enraizada na maior parte da música que existia na região. Encontram-se peças de simples execução, tocadas a solo ou a acompanhar a voz, mas, também, peças muitos difíceis de tocar. São registos que comprovam o virtuosismo dos tocadores nos Açores e a diversidade de repertório.

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Há outros registos, pontuais, onde aparece a Viola, numa ou outra Ilha, principalmente a partir da década de 60, e que demonstram a sua importância no dia a dia dos Açorianos.

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Seguiram-se outros trabalhos, com outros tocadores e com outros intervenientes, e ainda álbuns só de Viola que continuam a ser editados na actualidade e que serão referidos em outros artigos. O importante é haver a compreensão de que a Viola teve uma presença constante e bastante evidente ao longo do tempo no nosso Arquipélago e que houve quem, em boa hora, se lembrasse de registar.

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Devemos estar gratos pela riqueza que chegou aos nossos dias em ver de lamentar muito do que se perdeu, isto aconteceu no passado e vai continuar a acontecer no presente. A nossa missão é continuar a investigar e a registar o máximo possível, fazer uso das tecnologias, imortalizar a nossa música e a nossa cultura popular, pois é ela que melhor define quem somos enquanto pessoas e enquanto povo.

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Rafael Costa Carvalho

Músico e Professor

r_c_carvalho@hotmail.com


 

Sera dificil aprender viola...

Posted by violadaterra on March 28, 2018 at 11:10 AM Comments comments (0)

9 Ilhas 2 Corações

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“É difícil aprender Viola?…”

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Uma das afirmações que mais tenho ouvido ao longo dos meus anos de estudo da nossa Viola é a seguinte: é muito difícil aprender a tocar Viola! As justificações vão variando, mas a afirmação mais comum é de que “é difícil a sua aprendizagem por ser um instrumento que tem muitas cordas”.

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Este preconceito foi ficando tão enraizado na mente e cultura das pessoas que é frequente ouvir o mesmo comentário da boca de jovens, de amantes da viola, e até de desconhecidos quando tomam o primeiro contacto com o instrumento.

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Todas as vezes que tenho a oportunidade de fazer um concerto mais longo, ou de dar uma conferência em escolas, foco esse tema. A minha abordagem, no intuito de manter o interesse das pessoas e de não afastar potenciais entusiastas logo no primeiro contacto com a Viola, é bastante diferente. Refiro, sempre, que a Viola, como qualquer instrumento, para ser bem tocada, depende de muito empenho e estudo, anos de dedicação, mas que é um instrumento difícil como qualquer outro.

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A Viola é um instrumento que está ao alcance de qualquer pessoa que decida investir o seu tempo na sua aprendizagem. O aperfeiçoamento de conhecimentos, repertório, técnicas, esse sim, como em qualquer outro caso, exige muitos anos de estudo, mas tocar o suficiente para podermos pertencer aos “ranchos de natal”, grupos folclóricos, grupos de cantares, ou só para tocar com amigos quando assim quiserem, é algo que é possível a qualquer um. Só é preciso força de vontade para começar.

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Se temos Violas de 12 ou 15 cordas as mesmas organizam-se em 5 ou 6 ordens, havendo cordas pressionadas em simultâneo, como inúmeros instrumentos de cordas, por isso o argumento de que quanto mais cordas maior a dificuldade, não pode ser utilizado neste caso e não tem qualquer fundamento.

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Há a tendência a comparar a Viola com o “Violão” que, nos Açores, tem, principalmente, a função de fazer acordes e os pontos de acompanhamento, enquanto que a Viola “ponteia” a melodia, sendo, portanto, mais difícil de aprender.

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Este tipo de comparações não serve de base para aferir do grau de dificuldade de aprendizagem de um instrumento, pois há um “mundo” para além da utilização mais “tradicional” do “Violão”. Mesmo essa função de acompanhamento tem o seu grau de dificuldade e requer uma boa preparação do tocador para saber manter a pulsação, marcar bem com os “baixos” e respeitar o espaço para as Violas solarem. É difícil ser-se um bom Violão, mas muita gente toca Violão.

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A explicação para este tipo de mito negativo que se formou em torno da aprendizagem da Viola vem, a meu ver, de duas questões principais no que diz respeito aos tocadores: Em primeiro lugar, temos a questão do contexto social que já referi em outros artigos. Era importante manter o conhecimento sobre a Viola dentro da mesma família de Tocadores, limitado a poucas pessoas, pois este conhecimento poderia significar ter mais uma refeição ou mais uma gratificação que ajudasse às despesas familiares. Sendo assim, não seria lógico tentar cativar executantes para a Viola, antes pelo contrário.

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A segunda questão prende-se com o estatuto e reconhecimento do Tocador. Não só na arte de tocar viola como em muitos outros ofícios, tudo quanto seja visto com mais complexo e ao alcance de poucos torna-se mais valioso. O Tocador era alguém que tinha o seu estatuto na sua Freguesia, que era visto com muito respeito, e essa mística da complexidade do instrumento ajudava a manter essa ideia.

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Consigo entender essa mentalidade como defesa da sobrevivência de cada um, no passado, mas não a consigo admitir nos nossos dias. A época é de mudança. Há algumas décadas que as Violas se ensinam em Escolas de Violas, Academias, e Escolas Oficiais. Não é admissível continuarmos a disseminar estes mitos que afastam muita gente da aprendizagem da Viola mesmo antes de chegarem sequer a tentar tocar. Criam-se barreiras, todos os dias, baseadas em afirmações presunçosas que só pretendem aumentar orgulho pessoal de cada um.

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É difícil tocar Viola, como é difícil tocar Trompete, Piano, Violino, Violão, Clarinete, Bandolim… Não é mais difícil aprender a tocar Viola do que nenhum destes instrumentos ou outros que possam imaginar. É preciso vontade e motivação, uma Viola (com cordas), e alguém com vontade de partilhar conhecimentos.

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Alunos de Viola da Terra que iniciaram a aprendizagem com 6 anos. (Fev. 2011)

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Rafael Costa Carvalho

Músico e Professor

r_c_carvalho@hotmail.com

 


 

Sera dificil aprender viola...

Posted by violadaterra on March 28, 2018 at 11:05 AM Comments comments (0)

9 Ilhas 2 Corações

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“É difícil aprender Viola?…”

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Uma das afirmações que mais tenho ouvido ao longo dos meus anos de estudo da nossa Viola é a seguinte: é muito difícil aprender a tocar Viola! As justificações vão variando, mas a afirmação mais comum é de que “é difícil a sua aprendizagem por ser um instrumento que tem muitas cordas”.

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Este preconceito foi ficando tão enraizado na mente e cultura das pessoas que é frequente ouvir o mesmo comentário da boca de jovens, de amantes da viola, e até de desconhecidos quando tomam o primeiro contacto com o instrumento.

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Todas as vezes que tenho a oportunidade de fazer um concerto mais longo, ou de dar uma conferência em escolas, foco esse tema. A minha abordagem, no intuito de manter o interesse das pessoas e de não afastar potenciais entusiastas logo no primeiro contacto com a Viola, é bastante diferente. Refiro, sempre, que a Viola, como qualquer instrumento, para ser bem tocada, depende de muito empenho e estudo, anos de dedicação, mas que é um instrumento difícil como qualquer outro.

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A Viola é um instrumento que está ao alcance de qualquer pessoa que decida investir o seu tempo na sua aprendizagem. O aperfeiçoamento de conhecimentos, repertório, técnicas, esse sim, como em qualquer outro caso, exige muitos anos de estudo, mas tocar o suficiente para podermos pertencer aos “ranchos de natal”, grupos folclóricos, grupos de cantares, ou só para tocar com amigos quando assim quiserem, é algo que é possível a qualquer um. Só é preciso força de vontade para começar.

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Se temos Violas de 12 ou 15 cordas as mesmas organizam-se em 5 ou 6 ordens, havendo cordas pressionadas em simultâneo, como inúmeros instrumentos de cordas, por isso o argumento de que quanto mais cordas maior a dificuldade, não pode ser utilizado neste caso e não tem qualquer fundamento.

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Há a tendência a comparar a Viola com o “Violão” que, nos Açores, tem, principalmente, a função de fazer acordes e os pontos de acompanhamento, enquanto que a Viola “ponteia” a melodia, sendo, portanto, mais difícil de aprender.

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Este tipo de comparações não serve de base para aferir do grau de dificuldade de aprendizagem de um instrumento, pois há um “mundo” para além da utilização mais “tradicional” do “Violão”. Mesmo essa função de acompanhamento tem o seu grau de dificuldade e requer uma boa preparação do tocador para saber manter a pulsação, marcar bem com os “baixos” e respeitar o espaço para as Violas solarem. É difícil ser-se um bom Violão, mas muita gente toca Violão.

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A explicação para este tipo de mito negativo que se formou em torno da aprendizagem da Viola vem, a meu ver, de duas questões principais no que diz respeito aos tocadores: Em primeiro lugar, temos a questão do contexto social que já referi em outros artigos. Era importante manter o conhecimento sobre a Viola dentro da mesma família de Tocadores, limitado a poucas pessoas, pois este conhecimento poderia significar ter mais uma refeição ou mais uma gratificação que ajudasse às despesas familiares. Sendo assim, não seria lógico tentar cativar executantes para a Viola, antes pelo contrário.

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A segunda questão prende-se com o estatuto e reconhecimento do Tocador. Não só na arte de tocar viola como em muitos outros ofícios, tudo quanto seja visto com mais complexo e ao alcance de poucos torna-se mais valioso. O Tocador era alguém que tinha o seu estatuto na sua Freguesia, que era visto com muito respeito, e essa mística da complexidade do instrumento ajudava a manter essa ideia.

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Consigo entender essa mentalidade como defesa da sobrevivência de cada um, no passado, mas não a consigo admitir nos nossos dias. A época é de mudança. Há algumas décadas que as Violas se ensinam em Escolas de Violas, Academias, e Escolas Oficiais. Não é admissível continuarmos a disseminar estes mitos que afastam muita gente da aprendizagem da Viola mesmo antes de chegarem sequer a tentar tocar. Criam-se barreiras, todos os dias, baseadas em afirmações presunçosas que só pretendem aumentar orgulho pessoal de cada um.

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É difícil tocar Viola, como é difícil tocar Trompete, Piano, Violino, Violão, Clarinete, Bandolim… Não é mais difícil aprender a tocar Viola do que nenhum destes instrumentos ou outros que possam imaginar. É preciso vontade e motivação, uma Viola (com cordas), e alguém com vontade de partilhar conhecimentos.

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Alunos de Viola da Terra que iniciaram a aprendizagem com 6 anos. (Fev. 2011)

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Rafael Costa Carvalho

Músico e Professor

r_c_carvalho@hotmail.com


 


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