Viola da Terra

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Repertorios da Viola

Posted by violadaterra on April 4, 2018 at 8:00 AM

9 Ilhas 2 Corações

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“Repertórios da Viola”

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As nossas Violas necessitam de ser tocadas e ouvidas para se poderem afirmar na actualidade. Por todo o País vemos cada vez mais pessoas interessadas no estudo da Viola e na procura e criação de repertório para o instrumento.

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Há Violas para as quais o repertório tradicional instrumental conhecido é muito pouco e quase inexistente. Não quer dizer que essas Violas não possam executar todo o género de música, mas deve-se compreender que, a sua execução tradicional, ao longo dos séculos, baseava-se em rasgar acordes. As Violas, nesses contextos, não tinham um papel solista nem se conhece repertório a solo para as mesmas.

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Noutros casos há mesmo uma inexistência de registos de repertório que deixam os tocadores de Viola da actualidade sem muitas bases de estudo. O processo tem passado pela adaptação de repertório e a criação de temas originais para os instrumentos.

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No caso dos Açores, inexplicavelmente, temos um vasto repertório a solo para a Viola, com centenas de modinhas que são executadas nas nossas Violas, nas várias Ilhas, e ao longo das diversas manifestações culturais do ano.

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Porquê, inexplicavelmente?

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Se a Viola chega aos Açores trazida nas bagagens de quem cá vinha viver, vindos de várias partes do País, seria lógico que se encontrasse, na origem (Continente Português), alguma região onde o repertório instrumental tradicional da Viola fosse rico e diversificado. No entanto, esta situação não se verifica.

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Tirando algumas excepções onde se encontram, numa ou outra região, algumas peças tradicionais ponteadas na Viola (como na Madeira), ou tocadas a duas vozes (como no Alentejo), não existem registos de grandes repertórios a serem “solados” nas Violas no nosso País.

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No entanto, quando analisamos o caso Açoriano, encontramos estas centenas de “modinhas”, que já referi, e, ainda, em algumas Ilhas, peças de um nível de execução extremamente elevado e só ao alcance dos tocadores mais virtuosos. Ao mesmo tempo, encontramos muitas variações do mesmo tema, em que cada tocador dava o seu cunho pessoal, acrescentando melodias e ornamentações que o destacavam de imediato em relação aos outros.

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Pezinhos, Sapateias, Saudades, Chamarritas, Remas, Auroras, e tantos outros temas, fazem parte do nosso quotidiano há séculos, com variações de um tocador para outro e de uma freguesia para outra. Há quem assuma que tal se deve à nossa insularidade, que ajudou a manter e preservar este conhecimento, e será uma de várias hipóteses, mas continuamos sem conseguir descobrir de onde veio toda esta riqueza musical.

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Temos peças dos Reis, das Estrelas, do Carnaval, do Espírito Santo, dos Arraiais hoje assumidos por grupos folclóricos e grupos de chamarritas, dos bailes de roda, da Cantoria, das Velhas e do Pezinho dos Bezerros, dos Ranchos de Natal e das “Rambóias” de amigos. E temos, ainda, peças “solitárias” que podem ser tocadas só por uma Viola, ou por duas Violas: uma Viola “sola” e a outra acompanha. Peças que dispensam a voz e que dispensam bailaricos. Peças para serem tocadas em silêncio e apreciação. Felizmente, este repertório foi sendo passado entre várias gerações começando a ser registado desde cedo.

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A “Library of Congress” na Califórnia tem registos dos anos 30 com tocadores de Viola da Terra emigrados naquele Estado, e onde se encontram temas que todos hoje reconhecem no nosso Cancioneiro Açoriano.

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O filme “Quando o mar galgou a terra”, realizado por Henrique Campos, rodado na Ilha de São Miguel e apresentado em 1954, teve na sua banda sonora os sons da Viola da Terra com o tocador Francisco Sabino acompanhado ao Violão por Bento de Lima. Há mais de 60 anos a Viola da Terra já figurava na banda sonora de um filme com as suas bonitas melodias.

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No final de década de 60, em São Miguel, este mesmo tocador, Francisco Sabino, grava um LP com 4 temas a solo em Viola da Terra: “Sapateia”, “Chamarrita”, “Saudade” e “Bailho da Povoação”, apresentando algumas variações com um elevado grau de dificuldade de execução. Este trabalho, apesar de não merecer destaque perante os “académicos” que estudam as nossas Violas, poderá ter sido o primeiro trabalho a solo de um tocador de Viola no nosso País.

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“S. Miguel em Viola da Terra” – Francisco Sabino, década de 60.

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Numa altura em que as peças tradicionais a solo, para Viola, eram algo quase inexistente nos registos das várias regiões de Portugal, e em que algumas Violas começavam a ser consideradas quase extintas, tínhamos esta particularidade nos Açores.

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Temos as recolhas do Professor Artur Santos, no final da década de 50 e início da década de 60, editadas em vinil, e também já editadas em CD. A recolha decorreu em 3 ilhas (Santa Maria, São Miguel e Terceira) mas contêm registos da nossa cultura popular e da execução da Viola da Terra enraizada na maior parte da música que existia na região. Encontram-se peças de simples execução, tocadas a solo ou a acompanhar a voz, mas, também, peças muitos difíceis de tocar. São registos que comprovam o virtuosismo dos tocadores nos Açores e a diversidade de repertório.

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Há outros registos, pontuais, onde aparece a Viola, numa ou outra Ilha, principalmente a partir da década de 60, e que demonstram a sua importância no dia a dia dos Açorianos.

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Seguiram-se outros trabalhos, com outros tocadores e com outros intervenientes, e ainda álbuns só de Viola que continuam a ser editados na actualidade e que serão referidos em outros artigos. O importante é haver a compreensão de que a Viola teve uma presença constante e bastante evidente ao longo do tempo no nosso Arquipélago e que houve quem, em boa hora, se lembrasse de registar.

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Devemos estar gratos pela riqueza que chegou aos nossos dias em ver de lamentar muito do que se perdeu, isto aconteceu no passado e vai continuar a acontecer no presente. A nossa missão é continuar a investigar e a registar o máximo possível, fazer uso das tecnologias, imortalizar a nossa música e a nossa cultura popular, pois é ela que melhor define quem somos enquanto pessoas e enquanto povo.

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Rafael Costa Carvalho

Músico e Professor

r_c_carvalho@hotmail.com


 

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