Viola da Terra

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A Viola não se ensinava, aprendia-se

Posted by violadaterra on March 7, 2018 at 1:05 PM

9 Ilhas 2 Corações

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“A Viola não se ensinava… aprendia-se”

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A Viola não se ensinava… aprendia-se!

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Já ouvi esta afirmação proferida por mais do que um Tocador da “velha” geração.

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O ensino da Viola, ao longo dos séculos, foi sendo feito por transmissão oral. Há quem denomine de “ensinar de ouvido”, “ensinar por imitação”, “ensinar ponto a ponto”. Havendo nomes diferentes de acordo com as expressões de cada local, o conteúdo e intenção são os mesmos.

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Nos nossos dias a transmissão oral continua a ser a principal forma de ensinar os instrumentos tradicionais portugueses. No entanto, em relação ao passado, a grande diferença será a de terem surgido Escolas de Violas, aulas em Associações Musicais e Culturais ou outras Instituições que passaram a promover o ensino destes instrumentos.

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No passado não existiam Escolas de Violas. Não havia locais nas freguesias ou aldeias onde as pessoas se podiam dirigir para aprender estes instrumentos. O ensino era feito dentro da mesma família de Tocadores. Quem não tivesse alguém na família que soubesse tocar dificilmente teria acesso à aprendizagem.

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Mesmo nos casos entre familiares seria frequente não haver um momento de ensino propriamente dito. O pai poderia passar a noite a tocar mas não dedicar tempo a ensinar o filho. Como é que o filho aprendia? Vendo e ouvindo! Via, ouvia, fixava, memorizava auditivamente. Depois, na ausência do pai, lá experimentava colocar os dedos na Viola e produzir sons. Muitas vezes esse atrevimento de tocar na Viola do Pai resultaria numa chamada de atenção.

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Noutras casas os pais passavam esse conhecimento aos filhos ou outros familiares, alguns com mais paciência do que outros, dentro da “pedagogia” pessoal de cada um e do contexto de cada época. Alguns aprenderam comprando uma Viola e ouvindo tocar na rua, ou espreitando pela porta do vizinho, indo depois para casa experimentar, persistindo até conseguirem reproduzir um som que se assemelhasse ao que escutaram. Muitas variações que conhecemos, sobre o mesmo tema tradicional, surgiram devido à forma de aprendizagem de ouvido e ao ensino quase autodidacta de grande parte dos tocadores.

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Esta atitude, perante a disseminação dos conhecimentos musicais de cada um, deve ser compreendida dentro de cada contexto. O Tocador era uma pessoa que tinha algum estatuto em cada freguesia pois sem ele não havia festa, não havia convívio e bailarico, facto que já referi em artigos anteriores. Ser convidado para tocar em alguma festa podia garantir mais alguma comida em cima da mesa para a família e até mesmo uma refeição oferecida fora de casa e isso era, em tempos de grande pobreza do nosso País, uma mais-valia para qualquer lar. Neste contexto é de compreender a grande resistência das pessoas em partilharem os seus conhecimentos quer ao nível do ensino quer ao nível de quaisquer registos.

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A aprendizagem acontecia fruto de muita força de vontade e persistência.

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Felizmente que os tempos foram mudando e que alguns “Mestres” passaram a ensinar em Escolas de Violas. Desde os Grupos Folclóricos que tinham interesse em formar novos tocadores, a Casas do Povo e Sociedades Recreativas que queriam ter Escolas de Violas ou Tunas que fizessem apresentações musicais, os instrumentos tradicionais passaram a ser ensinados com mais regularidade. Ensinados por um tocador conhecedor do instrumento e do repertório e já com abordagens de ensino menos “restritivas”. A aprendizagem passou a estar ao alcance de mais pessoas, as próprias instituições passaram a adquirir instrumentos para emprestar aos alunos que não pudessem adquiri-los, e foi-se criando uma estrutura de continuidade na oferta do ensino destes instrumentos.

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Fig. 1 - III Encontro de Escolas de Violas da Ilha de São Miguel

(fotografia de Ana Sousa)

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Não há Escolas de Violas em todas as Ilhas dos Açores, mas tem-se assistido a um acréscimo de interesse dos mais novos em frequentar este tipo de cursos, fruto de um trabalho de divulgação da Viola cada vez maior, por parte de diversos músicos e algumas entidades. É de aproveitar o momento de grande dinamismo que vivemos com as nossas Violas para tentar potenciar, em todas as Ilhas, o aparecimento dessas Escolas.


 

Fig.2 - Exemplo de partituras utilizadas no ensino da Viola da Terra

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Hoje em dia há um trabalho muito sólido no ensino da Viola nos Conservatórios Regionais dos Açores (Terceira e São Miguel), com muitos alunos a frequentarem a disciplina e com um trabalho de registo em partitura, de mais de uma década, onde já se transcreveram e editaram para o ensino da Viola centenas de temas tradicionais. Estes registos permitem “imortalizar” as peças que foram sendo transmitidas durante muitas gerações, nota a nota, ponto a ponto, quebrando a cabeça, descabeçando as pontas dos dedos, mas num esforço que tinha e tem de existir para a preservação do nosso espólio musical, que é a mais importante linguagem cultural do nosso povo.

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Rafael Costa Carvalho

Músico e Professor

r_c_carvalho@hotmail.com

 


 

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