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Rasgueados, Ponteados e outras questões

Posted by violadaterra on February 28, 2018 at 7:20 PM

9 Ilhas 2 Corações

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“Rasgueados, Ponteados e outras questões”

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A Viola da Terra tem, como tenho referido, uma enorme riqueza e diversidade nas nossas Ilhas.

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Desde aspectos diferenciados de construção, de repertório, de contextos onde é tocada, às diferentes técnicas de execução.

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Um Arquipélago pequeno, como o nosso, tem tratado a Viola com muito carinho, com muita diversidade e com abordagens técnicas que, sendo distintas, só contribuem para a sua valorização, bem como para a afirmação de que temos, um caso único, em toda a realidade nacional, de grande relevo na história das Violas de Arame.

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Hoje abordo a questão das diferentes técnicas de execução da nossa Viola.

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Nas Ilhas de Santa Maria e São Miguel a Viola é tocada (tangida, ponteada) recorrendo, apenas, ao polegar da mão direita. Quer isto dizer que a pulsação das cordas, com a mão direita, é efectuada apenas com o polegar, independentemente, da velocidade e dificuldade das passagens. Na Ilha das Flores a Viola é também tocada com o polegar, nos acompanhamentos (execução de acordes). Há um ou outro executante, naquela Ilha, que, sendo também tocador de Guitarra Portuguesa, utiliza o indicador para fazer os solos (ponteados) na Viola da Terra mas, o mais habitual, é que a execução seja com o polegar.

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No caso das Ilhas Graciosa, São Jorge e Terceira, a Viola é tocada com o indicador. Nessas Ilhas a melodia das modas é executada com o indicador ficando para o polegar a tarefa de tocar os baixos (ordens de cordas mais graves). É importante assinalar que em São Jorge, por exemplo, quando estão a fazer acompanhamentos (acordes), fazem-no de modo rasgado (rasgueado).

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Há diferentes formas de aplicar a combinação da execução com o indicador (melodia) e polegar (acompanhamento, baixos, nota pedal) nestas Ilhas. Há executantes que utilizam o polegar de forma mais regular, “enchendo” a música que executam com melodia e acompanhamento quase em simultâneo. Outros executantes utilizam o polegar de modo mais pontual, tocando o “baixo” em momentos mais “dispersos” ao longo da melodia. Esta combinação é algo que varia, acima de tudo, de acordo com gosto pessoal e conhecimentos de cada um, não havendo uma forma de execução que se possa considerar mais correcta em relação à outra. O importante, a meu ver, é que se conheça, estude e explore estas duas formas de articulação entre os dedos e que se aplique da melhor forma de acordo com cada contexto musical.

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Nas Ilhas do Faial e Pico a Viola é tocada com a técnica do rasgado (rasgueado). A função de solar a melodia recai sobre o bandolim e o violino. Deste modo, à Viola, cabe o papel de dar o “ritmo” da música, de manter a dinâmica e vivacidade dos bailes. Há tocadores que referem que a Viola também faria e faz solos, pontualmente, mas que, no contexto dos bailes e serões de Chamarritas, a Viola é rasgada para melhor se afirmar e se fazer ouvir.

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Ilustração de Luís Cardoso in “Método para Viola da Terra”

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O Corvo é a única Ilha na qual desconheço registos de executantes de Viola da Terra. Seria bom que alguns documentos aparecessem e pudéssemos chegar a algumas conclusões sobre a execução da Viola naquela Ilha, que, de momento, só podemos inferir, pela proximidade com as Flores, que pudesse ter as mesmas características.

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Em relação a estas questões é de referir que a Viola, no passado e no presente, tocava e toca, às vezes, sozinha. A Viola, para se fazer ouvir, é tocada muitas vezes rasgada. Há registos, na Ilha de São Miguel, de tocadores no meio do baile, a dançar e a tocar, mas de modo rasgado, sozinhos, para conseguirem projectar o som da Viola e manter o baile vivinho.

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Havendo estas 3 técnicas tradicionais de execução (polegar, indicador e polegar e o rasgado) que, de modo generalista podemos identificar e atribuir a cada Ilha, a realidade é que o contexto de cada Ilha, de cada momento musical, dos conhecimentos de cada músico, podem condicionar e orientar para determinada execução, havendo, ainda, novas explorações técnicas do instrumento no presente, de acordo com as linguagens musicais que cada um revê na Viola, fruto das suas próprias influências. Independentemente disso, o conhecimento das técnicas originais e tradicionais é fulcral para o real conhecimento do instrumento.

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Temos ainda a questão das origens dos povos das nossas Ilhas, de proveniências diferentes, que também influenciaram a forma de se tocar as nossas Violas. Mas isso são questões para outras conversas, em outros artigos.

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Rafael Costa Carvalho

Músico e Professor

r_c_carvalho@hotmail.com

In "Atlântico Expresso", 26 de Fevereiro de 2018

 

 

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