Viola da Terra

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Símbolos, Saudades, Coroas e Fortuna

Posted by violadaterra on February 28, 2018 at 7:15 PM

9 Ilhas 2 Corações

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“Símbolos, Saudades, Coroas e Fortuna”

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Tenho estado a apresentar as características físicas da nossa Viola: caixa, braço e cabeça/pá. A especificidade de cada parte da Viola dá-nos referências que nos permitem identificar, na generalidade, de que instrumento se trata.

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No entanto, há também a visão popular que cria uma mística em torno da Viola nos Açores. Essas histórias vão sendo passadas, oralmente, ao longo dos anos, e ajudam a contar a história e a realçar a importância do instrumento, na vida dos Açorianos, por intermédio da simbologia que o povo revê nos embutidos e desenhos do tampo harmónico.

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Essas crenças populares podem ter semelhanças de uma ilha para outra, mas, depois, aparecem, por vezes, outras histórias/versões, de acordo com o contexto de cada local.

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A principal história popular em torno da nossa Viola diz respeito aos seus Dois Corações: O Coração que sai da Ilha e o Coração que fica na Ilha. A procura de uma melhor vida, o “salto”, a Emigração, deixando a terra Natal, a família, os amigos. Refere-se que, estes Dois Corações da Viola são o símbolo dessa “Saudade” que persegue os Açorianos há séculos. Os Corações estariam, ainda, ligados por um cordão, terminando numa lágrima, a lágrima da Saudade. Há quem diga que, a forma de losango, quase sempre apresentada no final desse cordão, representaria o “Ás de ouros”, uma vez que os que Emigravam faziam-no em busca da fortuna.

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Foi esta a primeira história que ouvi sobre a Viola, pela boca do meu Professor, Carlos Quental, na primeira aula que tive, aos 13 anos de idade. Ainda antes de pôr os dedos sobre as cordas e experimentar o seu som, eu já estava “enfeitiçado” e fascinado pelo instrumento.

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Os Corações, dizem, poderão ser, também, a representação do amor, da ligação entre as pessoas, não tendo, necessariamente, de ser algo ligado apenas à Emigração e Saudade. Outros falam de amores proibidos, celebrados, para sempre, no “rosto” da Viola, sem que mais ninguém, senão os dois amantes, soubesse a quem se dirigia a mensagem de amor.

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No Cavalete da Viola diz-se que estaria representado o “Açor”, pois reconhece-se a forma de um bico de pássaro e de um olho. Esta situação é comum a muitos modelos de Viola, mas não é exclusiva e obrigatória. Muitas vezes encontra-se as extremidades dos Cavaletes em forma de rabo de Baleia, ou, apenas, de forma angular ou quadrada, sem mais qualquer adorno.

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No fundo do tampo harmónico os embutidos mais frequentes são os da “Flor-de-Lis”, ou da Lira. Há quem veja nessa “Flor-de-Lis” a reprodução da espiga de trigo, e, com isso, a representação do trabalho árduo dos campos, e há quem interprete como sendo a figuração das plantas, da natureza dos Açores. Outros vêem a forma de bigodes ou o relevo/recorte das Ilhas. Estes embutidos variam de um construtor para outro, havendo exemplos de embutidos em forma de pássaro, peixes, montanhas, vaso de flores, ou outros, de acordo com a imaginação/marca de cada Construtor ou com pedidos directos dos Tocadores. A isto chamamos de personalização das Violas que é algo que acontecia no passado e continua a acontecer nos nossos dias.

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fig. 1 – Viola com “Flor-de-lis” (esq.) e Viola com Lira (dir.)

 

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Quanto à abertura do tampo harmónico esta pode ser em forma de dois corações; com três corações entrelaçados (viola de 5 bocas); com duas liras a substituir os corações, ou com abertura circular.

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Uma outra interpretação, do cordão que une os dois Corações da Viola, aparece-nos ao rodarmos o instrumento 180 graus. As pessoas viam, nesse cordão, a forma de uma Coroa. Sendo Açorianos, interpretaram a mesma como representação da Coroa do Espírito Santo. As Festas do Divino Espírito Santo são as maiores Festas dos Açores, celebradas em todas as Freguesias de todas as Ilhas do Arquipélago. Ter esta “suposta” representação da Coroa no tampo da Viola é algo que acrescenta uma mística, respeito e solenidade ao instrumento que, em algumas Ilhas, aparece a acompanhar as Coroações, a distribuir Pensões, a fazer Peditórios para as Irmandades e outras funções consoante a tradição de cada local.

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Fig.2 – Representação da Coroa do Espírito Santo

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Em relação ao espelho, como já referido no artigo da semana passada, o mesmo serviria para o Tocador se pentear ou para desfazer a barba antes de tocar.

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São estas algumas das crenças e visões populares em torno dos símbolos interpretados nos embutidos e pormenores de construção da Viola, que, não sendo considerados provas Históricas, são, sem dúvida alguma, formas de tornar a Viola ainda mais nossa, mais próxima dos sentimentos das pessoas e mais próxima das tradições dos Açorianos.

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Rafael Costa Carvalho

Músico e Professor

r_c_carvalho@hotmail.com

In "Atlântico Expresso", 19 de Fevereiro de 2018.

 

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