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A Viola e o Carnaval

Posted by violadaterra on February 28, 2018 at 7:15 PM

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“A Viola e o Carnaval”

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A nossa Viola sempre teve um papel activo no quotidiano dos Açorianos, acompanhando o Povo nas Festividades e ajuntamentos, ao longo de todo o ano. Normalmente, só pela Quaresma é que a Viola era arrumada, em sinal de respeito, durante todo o período de preparação para a Celebração da Páscoa.

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Do Natal aos “Reis” ou no “Cantar às Estrelas”, a Viola estava e está presente, com maior ou menor presença do que no passado, consoante a realidade de cada local.

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Algumas tradições vão perdurando, em certas freguesias, mantendo a essência do passado, e outras foram-se actualizando. Umas desapareceram e outras ganharam mais projecção ou uma organização diferente.

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Estas tradições têm a particularidade de promoverem o convívio entre as pessoas: nos ensaios, arranjos de letras e músicas, elaboração das vestimentas, nas deslocações, no frenesim dos bastidores, nos momentos de apresentação (em palco ou pelas ruas) e, depois, na confraternização final, depois de um trabalho bem feito. Há, certamente, a vontade e o objectivo de apresentar um resultado artístico de qualidade, mas, a motivação do trabalho conjunto e da celebração de amizades é, provavelmente, o maior catalisador por detrás de cada grupo.

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A Viola aparece, no seio destas tradições, fazendo e mantendo o seu papel, graças ao esforço e dedicação dos que a ela se dedicam.

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O Carnaval não é excepção e, nestas Festas, a Viola marca a sua presença.

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Uma das grandes tradições da Ilha Graciosa, no Carnaval, são os Serões com “Modas de Viola”. As “Modas Novas” e as “Modas Velhas” dão o mote para grandes bailes de roda onde o Tocador aparece, tocando e cantando, mas, também, integrando a roda e fazendo parte do Baile.

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Esta tradição passou das casas particulares para os grandes Salões e é comum a vários espaços recreativos da Ilha. Mesmo havendo as Bandas que animam os Bailes de Carnaval estas interrompem a sua actuação, a meio da noite, para dar espaço aos acordes e solos das Violas, e aos Bailes com “Modas de Viola”. Uma convivência musical que a Graciosa tem sabido perpetuar, com jovens e velhos Tocadores.

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Outra tradição é a das “Danças de Carnaval”. Em várias Ilhas dos Açores estas Danças ocorrem, cada qual com características próprias.

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A Viola, mais uma vez, assume a sua presença, dando um contributo que já remonta a muitas décadas. A Viola pode aparecer acompanhada de outras Violas, ao lado do Violino, Bandolim, Acordeão e, até, pontualmente, de instrumentos de sopro.

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Em alguns locais as “Danças de Carnaval” eram e são interpretadas só por homens (fig. 1). No caso de Água Retorta esta Dança, da década de 50 do século passado, era bailada só por homens. Metade deles vestia-se, assim, de mulher. A Dança aparece acompanhada por dois Tocadores de Viola. Esta tradição repete-se, anualmente, na “Dança de Carnaval” da Vila da Povoação.

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Fig. 1 - Dança de Carnaval em Água Retorta, Ilha de São Miguel, década de 50. Fotografia de Silvério Machado.

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Noutras Ilhas, temos exemplos de “Danças de Carnaval” com homens e mulheres. Veja-se o caso da Ilha Graciosa, num registo, também, nos anos 50 do século passado (fig. 2), o que deve ter representado, certamente, um grande “avanço” para a época.

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Fig. 2 – Dança de Carnaval na Guadalupe, Ilha Graciosa, década de 50. Fotografia do Facebook "História dos Açores"

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Na Ilha Terceira temos os “Bailinhos de Carnaval”. Sem dúvida que, no nosso Arquipélago, é a tradição que mais pessoas movimenta em torno desta temática. São momentos de grande entusiamo, com Salões cheios para assistirem às apresentações dos vários grupos, que trazem a sátira popular, envolvida em momentos musicais e com representações teatrais de elevada qualidade.

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A presença da Viola da Terra, nestes Bailinhos, tornou-se mínima. Ainda subsiste, numa ou outra “Dança de Espada”, mas em número muito reduzido.

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A realidade é que, as nossas Violas, são instrumentos de pouca “potência acústica” (projecção de som). Se tentarmos compreender o contexto musical actual dos Bailinhos, os mesmos incluem muitos instrumentos de sopro, o acordeão, o bandolim, o violão e o violino. No meio de tudo isto a Viola não se faz ouvir. O Tocador de Viola prefere integrar o Bailinho tocando outro instrumento, pois, mesmo dando o melhor de si, a Viola fica “abafada” pelos restantes.

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Estes vários exemplos tiveram o intuito de documentar a presença da Viola nestas manifestações populares, que decorrem, um pouco, por todas as Ilhas dos Açores. Retratando o passado, valorizando as tradições, e revelando a presença que a Viola ainda tem no presente, principalmente, num mundo em mudança vertiginosa, mas que a Viola e seus intervenientes teimam em acompanhar.

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Rafael Costa Carvalho

Músico e Professor

r_c_carvalho@hotmail.com


In "Atlântico Expresso, 12 de Fevereiro de 2018

 

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