Viola da Terra

BLOGUE

Bem Vindos ao meu Blogue que pretende ir actualizando informações sobre as actividades que vou desenvolvendo ou ainda outras que vou tomando conhecimento e que envolvem a Viola da Terra.

Rafael Carvalho

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Encontros de Violas

Posted by violadaterra on April 18, 2018 at 5:30 AM Comments comments (0)

9 Ilhas 2 Corações

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“Encontros de Violas”

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As nossas Violas iniciaram um processo de aproximação com o intuito de criar um movimento colectivo de valorização do instrumento, de aprender com as realidades e dificuldades uns dos outros, de partilhar ideias, conhecimentos e repertórios.

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Os “Encontros de Violas de Arame”, sendo algo inexistente no passado, começaram a surgir nos últimos anos, havendo mesmo um “Encontro de Violas” que já existe há uma década.

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Em 2009, em Castro Verde, o Músico Pedro Mestre, Tocador de Viola Campaniça e ensaiador de Grupos Corais Alentejanos, organizou o “I Encontro de Violas de Arame Portuguesas”. Este Encontro tornou-se um importante “motor” na valorização da Viola de Arame no nosso País e criou uma rede de contactos entre músicos que se dedicam, cada qual na sua Região, à preservação da Viola de Arame.

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I Encontro de Violas de Arame, 2009 - Castro Verde.

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Neste Encontro participaram José Barros (Viola Braguesa), Pedro Mestre (Viola Campaniça), Rafael Carvalho (Viola da Terra) e Vítor Sardinha (Viola de Arame Madeirense), que protagonizaram momentos de diálogo com vários músicos e investigadores presentes, falando da realidade e contextos das Violas nas suas Regiões, executando temas e trocando informações. Os quatro músicos realizaram ainda 2 Concertos.


A importância deste Encontro, e que o destaca de outros, é que juntou esta quantidade de Violas e depois teve uma continuidade anual. Em 2010 o “II Encontro” foi realizado nos Açores numa edição em que já esteve presente o músico Chico Lobo com a “Viola Caipira” do Brasil, Viola descendente das Violas de Arame Portuguesas. Em 2011, 2013 e 2017 o Encontro decorreu, novamente, no Alentejo.

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II Encontro de Violas de Arame, 2010 – Igreja de São Paulo, Ribeira Quente

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Desde 2009 que começaram a ser convidados tocadores de outras Violas pelo valioso trabalho que estavam a desenvolver. Primeiro foi possível a presença da Viola Beiroa (2013), depois seguiu-se a Viola Amarantina (2015) e, na última edição, em 2017, a Viola Toeira. A edição de 2013 contou ainda com a Viola Fandangueira do Brasil.

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O evento de 2009, em Castro Verde, teve reflexos imediatos nos músicos que participaram e já deu frutos nas Regiões de cada um pelas iniciativas que começaram a desenvolver. No caso dos Açores a Associação de Juventude Viola da Terra, seguindo essa ideia, organizou em 2011 o “I Encontro de Violas Açorianas” com tocadores de Viola de 5 Ilhas do Arquipélago.

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O Encontro de Violas de Arame teve duas edições no Brasil, em 2015 e 2016, com o nome de “Mostra Internacional de Violas de Arame”. Esta organização teve um sabor especial uma vez que, a génese deste movimento todo, surge de um contacto quase acidental entre os músicos Chico Lobo e Pedro Mestre.

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No ano de 2008 os músicos conheceram-se em Portugal, num contacto “fortuito”, iniciado por um amigo comum que ajudava na produção de um evento. Imediatamente estabeleceram uma relação de amizade e de colaboração musical que resultou em vários concertos em Portugal e no Brasil. Há 10 anos, esta relação musical viria mudar em muito o panorama da Viola de Arame no nosso País.

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Estes Encontros de Violas têm ainda a particularidade de envolver outros músicos, escolas de violas, investigadores e construtores, o que muito tem contribuído para um envolvimento e entusiasmo das pessoas que não se restringe aos 3 ou 4 dias dos Encontros.

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Há outros Encontros de Violas que vão surgindo, outras formas de diálogo inexistentes no passado, e espera-se que todo este trabalho contribua para que se reconheça o real valor das nossas Violas.

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Este grupo de músicos lançou, há algum tempo, a ideia de uma candidatura da Viola de Arame a Património da Unesco. Todo o trabalho desenvolvido em cada Região, em cada Encontro, por cada músico e investigador ao longo dos últimos anos, foi um contributo para a afirmação da Viola no nosso País e, até mesmo, da “redescoberta” da mesma em muitos locais. Com um trabalho conjunto, haverá a possibilidade de se conseguir concretizar mais este importante objectivo para a valorização das nossas Violas.

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Rafael Costa Carvalho

Músico e Professor

r_c_carvalho@hotmail.com


 

Repertorios da Viola

Posted by violadaterra on April 4, 2018 at 8:00 AM Comments comments (0)

9 Ilhas 2 Corações

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“Repertórios da Viola”

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As nossas Violas necessitam de ser tocadas e ouvidas para se poderem afirmar na actualidade. Por todo o País vemos cada vez mais pessoas interessadas no estudo da Viola e na procura e criação de repertório para o instrumento.

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Há Violas para as quais o repertório tradicional instrumental conhecido é muito pouco e quase inexistente. Não quer dizer que essas Violas não possam executar todo o género de música, mas deve-se compreender que, a sua execução tradicional, ao longo dos séculos, baseava-se em rasgar acordes. As Violas, nesses contextos, não tinham um papel solista nem se conhece repertório a solo para as mesmas.

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Noutros casos há mesmo uma inexistência de registos de repertório que deixam os tocadores de Viola da actualidade sem muitas bases de estudo. O processo tem passado pela adaptação de repertório e a criação de temas originais para os instrumentos.

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No caso dos Açores, inexplicavelmente, temos um vasto repertório a solo para a Viola, com centenas de modinhas que são executadas nas nossas Violas, nas várias Ilhas, e ao longo das diversas manifestações culturais do ano.

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Porquê, inexplicavelmente?

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Se a Viola chega aos Açores trazida nas bagagens de quem cá vinha viver, vindos de várias partes do País, seria lógico que se encontrasse, na origem (Continente Português), alguma região onde o repertório instrumental tradicional da Viola fosse rico e diversificado. No entanto, esta situação não se verifica.

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Tirando algumas excepções onde se encontram, numa ou outra região, algumas peças tradicionais ponteadas na Viola (como na Madeira), ou tocadas a duas vozes (como no Alentejo), não existem registos de grandes repertórios a serem “solados” nas Violas no nosso País.

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No entanto, quando analisamos o caso Açoriano, encontramos estas centenas de “modinhas”, que já referi, e, ainda, em algumas Ilhas, peças de um nível de execução extremamente elevado e só ao alcance dos tocadores mais virtuosos. Ao mesmo tempo, encontramos muitas variações do mesmo tema, em que cada tocador dava o seu cunho pessoal, acrescentando melodias e ornamentações que o destacavam de imediato em relação aos outros.

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Pezinhos, Sapateias, Saudades, Chamarritas, Remas, Auroras, e tantos outros temas, fazem parte do nosso quotidiano há séculos, com variações de um tocador para outro e de uma freguesia para outra. Há quem assuma que tal se deve à nossa insularidade, que ajudou a manter e preservar este conhecimento, e será uma de várias hipóteses, mas continuamos sem conseguir descobrir de onde veio toda esta riqueza musical.

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Temos peças dos Reis, das Estrelas, do Carnaval, do Espírito Santo, dos Arraiais hoje assumidos por grupos folclóricos e grupos de chamarritas, dos bailes de roda, da Cantoria, das Velhas e do Pezinho dos Bezerros, dos Ranchos de Natal e das “Rambóias” de amigos. E temos, ainda, peças “solitárias” que podem ser tocadas só por uma Viola, ou por duas Violas: uma Viola “sola” e a outra acompanha. Peças que dispensam a voz e que dispensam bailaricos. Peças para serem tocadas em silêncio e apreciação. Felizmente, este repertório foi sendo passado entre várias gerações começando a ser registado desde cedo.

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A “Library of Congress” na Califórnia tem registos dos anos 30 com tocadores de Viola da Terra emigrados naquele Estado, e onde se encontram temas que todos hoje reconhecem no nosso Cancioneiro Açoriano.

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O filme “Quando o mar galgou a terra”, realizado por Henrique Campos, rodado na Ilha de São Miguel e apresentado em 1954, teve na sua banda sonora os sons da Viola da Terra com o tocador Francisco Sabino acompanhado ao Violão por Bento de Lima. Há mais de 60 anos a Viola da Terra já figurava na banda sonora de um filme com as suas bonitas melodias.

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No final de década de 60, em São Miguel, este mesmo tocador, Francisco Sabino, grava um LP com 4 temas a solo em Viola da Terra: “Sapateia”, “Chamarrita”, “Saudade” e “Bailho da Povoação”, apresentando algumas variações com um elevado grau de dificuldade de execução. Este trabalho, apesar de não merecer destaque perante os “académicos” que estudam as nossas Violas, poderá ter sido o primeiro trabalho a solo de um tocador de Viola no nosso País.

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“S. Miguel em Viola da Terra” – Francisco Sabino, década de 60.

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Numa altura em que as peças tradicionais a solo, para Viola, eram algo quase inexistente nos registos das várias regiões de Portugal, e em que algumas Violas começavam a ser consideradas quase extintas, tínhamos esta particularidade nos Açores.

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Temos as recolhas do Professor Artur Santos, no final da década de 50 e início da década de 60, editadas em vinil, e também já editadas em CD. A recolha decorreu em 3 ilhas (Santa Maria, São Miguel e Terceira) mas contêm registos da nossa cultura popular e da execução da Viola da Terra enraizada na maior parte da música que existia na região. Encontram-se peças de simples execução, tocadas a solo ou a acompanhar a voz, mas, também, peças muitos difíceis de tocar. São registos que comprovam o virtuosismo dos tocadores nos Açores e a diversidade de repertório.

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Há outros registos, pontuais, onde aparece a Viola, numa ou outra Ilha, principalmente a partir da década de 60, e que demonstram a sua importância no dia a dia dos Açorianos.

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Seguiram-se outros trabalhos, com outros tocadores e com outros intervenientes, e ainda álbuns só de Viola que continuam a ser editados na actualidade e que serão referidos em outros artigos. O importante é haver a compreensão de que a Viola teve uma presença constante e bastante evidente ao longo do tempo no nosso Arquipélago e que houve quem, em boa hora, se lembrasse de registar.

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Devemos estar gratos pela riqueza que chegou aos nossos dias em ver de lamentar muito do que se perdeu, isto aconteceu no passado e vai continuar a acontecer no presente. A nossa missão é continuar a investigar e a registar o máximo possível, fazer uso das tecnologias, imortalizar a nossa música e a nossa cultura popular, pois é ela que melhor define quem somos enquanto pessoas e enquanto povo.

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Rafael Costa Carvalho

Músico e Professor

r_c_carvalho@hotmail.com


 

Sera dificil aprender viola...

Posted by violadaterra on March 28, 2018 at 11:10 AM Comments comments (0)

9 Ilhas 2 Corações

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“É difícil aprender Viola?…”

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Uma das afirmações que mais tenho ouvido ao longo dos meus anos de estudo da nossa Viola é a seguinte: é muito difícil aprender a tocar Viola! As justificações vão variando, mas a afirmação mais comum é de que “é difícil a sua aprendizagem por ser um instrumento que tem muitas cordas”.

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Este preconceito foi ficando tão enraizado na mente e cultura das pessoas que é frequente ouvir o mesmo comentário da boca de jovens, de amantes da viola, e até de desconhecidos quando tomam o primeiro contacto com o instrumento.

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Todas as vezes que tenho a oportunidade de fazer um concerto mais longo, ou de dar uma conferência em escolas, foco esse tema. A minha abordagem, no intuito de manter o interesse das pessoas e de não afastar potenciais entusiastas logo no primeiro contacto com a Viola, é bastante diferente. Refiro, sempre, que a Viola, como qualquer instrumento, para ser bem tocada, depende de muito empenho e estudo, anos de dedicação, mas que é um instrumento difícil como qualquer outro.

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A Viola é um instrumento que está ao alcance de qualquer pessoa que decida investir o seu tempo na sua aprendizagem. O aperfeiçoamento de conhecimentos, repertório, técnicas, esse sim, como em qualquer outro caso, exige muitos anos de estudo, mas tocar o suficiente para podermos pertencer aos “ranchos de natal”, grupos folclóricos, grupos de cantares, ou só para tocar com amigos quando assim quiserem, é algo que é possível a qualquer um. Só é preciso força de vontade para começar.

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Se temos Violas de 12 ou 15 cordas as mesmas organizam-se em 5 ou 6 ordens, havendo cordas pressionadas em simultâneo, como inúmeros instrumentos de cordas, por isso o argumento de que quanto mais cordas maior a dificuldade, não pode ser utilizado neste caso e não tem qualquer fundamento.

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Há a tendência a comparar a Viola com o “Violão” que, nos Açores, tem, principalmente, a função de fazer acordes e os pontos de acompanhamento, enquanto que a Viola “ponteia” a melodia, sendo, portanto, mais difícil de aprender.

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Este tipo de comparações não serve de base para aferir do grau de dificuldade de aprendizagem de um instrumento, pois há um “mundo” para além da utilização mais “tradicional” do “Violão”. Mesmo essa função de acompanhamento tem o seu grau de dificuldade e requer uma boa preparação do tocador para saber manter a pulsação, marcar bem com os “baixos” e respeitar o espaço para as Violas solarem. É difícil ser-se um bom Violão, mas muita gente toca Violão.

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A explicação para este tipo de mito negativo que se formou em torno da aprendizagem da Viola vem, a meu ver, de duas questões principais no que diz respeito aos tocadores: Em primeiro lugar, temos a questão do contexto social que já referi em outros artigos. Era importante manter o conhecimento sobre a Viola dentro da mesma família de Tocadores, limitado a poucas pessoas, pois este conhecimento poderia significar ter mais uma refeição ou mais uma gratificação que ajudasse às despesas familiares. Sendo assim, não seria lógico tentar cativar executantes para a Viola, antes pelo contrário.

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A segunda questão prende-se com o estatuto e reconhecimento do Tocador. Não só na arte de tocar viola como em muitos outros ofícios, tudo quanto seja visto com mais complexo e ao alcance de poucos torna-se mais valioso. O Tocador era alguém que tinha o seu estatuto na sua Freguesia, que era visto com muito respeito, e essa mística da complexidade do instrumento ajudava a manter essa ideia.

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Consigo entender essa mentalidade como defesa da sobrevivência de cada um, no passado, mas não a consigo admitir nos nossos dias. A época é de mudança. Há algumas décadas que as Violas se ensinam em Escolas de Violas, Academias, e Escolas Oficiais. Não é admissível continuarmos a disseminar estes mitos que afastam muita gente da aprendizagem da Viola mesmo antes de chegarem sequer a tentar tocar. Criam-se barreiras, todos os dias, baseadas em afirmações presunçosas que só pretendem aumentar orgulho pessoal de cada um.

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É difícil tocar Viola, como é difícil tocar Trompete, Piano, Violino, Violão, Clarinete, Bandolim… Não é mais difícil aprender a tocar Viola do que nenhum destes instrumentos ou outros que possam imaginar. É preciso vontade e motivação, uma Viola (com cordas), e alguém com vontade de partilhar conhecimentos.

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Alunos de Viola da Terra que iniciaram a aprendizagem com 6 anos. (Fev. 2011)

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Rafael Costa Carvalho

Músico e Professor

r_c_carvalho@hotmail.com

 


 

Sera dificil aprender viola...

Posted by violadaterra on March 28, 2018 at 11:05 AM Comments comments (0)

9 Ilhas 2 Corações

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“É difícil aprender Viola?…”

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Uma das afirmações que mais tenho ouvido ao longo dos meus anos de estudo da nossa Viola é a seguinte: é muito difícil aprender a tocar Viola! As justificações vão variando, mas a afirmação mais comum é de que “é difícil a sua aprendizagem por ser um instrumento que tem muitas cordas”.

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Este preconceito foi ficando tão enraizado na mente e cultura das pessoas que é frequente ouvir o mesmo comentário da boca de jovens, de amantes da viola, e até de desconhecidos quando tomam o primeiro contacto com o instrumento.

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Todas as vezes que tenho a oportunidade de fazer um concerto mais longo, ou de dar uma conferência em escolas, foco esse tema. A minha abordagem, no intuito de manter o interesse das pessoas e de não afastar potenciais entusiastas logo no primeiro contacto com a Viola, é bastante diferente. Refiro, sempre, que a Viola, como qualquer instrumento, para ser bem tocada, depende de muito empenho e estudo, anos de dedicação, mas que é um instrumento difícil como qualquer outro.

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A Viola é um instrumento que está ao alcance de qualquer pessoa que decida investir o seu tempo na sua aprendizagem. O aperfeiçoamento de conhecimentos, repertório, técnicas, esse sim, como em qualquer outro caso, exige muitos anos de estudo, mas tocar o suficiente para podermos pertencer aos “ranchos de natal”, grupos folclóricos, grupos de cantares, ou só para tocar com amigos quando assim quiserem, é algo que é possível a qualquer um. Só é preciso força de vontade para começar.

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Se temos Violas de 12 ou 15 cordas as mesmas organizam-se em 5 ou 6 ordens, havendo cordas pressionadas em simultâneo, como inúmeros instrumentos de cordas, por isso o argumento de que quanto mais cordas maior a dificuldade, não pode ser utilizado neste caso e não tem qualquer fundamento.

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Há a tendência a comparar a Viola com o “Violão” que, nos Açores, tem, principalmente, a função de fazer acordes e os pontos de acompanhamento, enquanto que a Viola “ponteia” a melodia, sendo, portanto, mais difícil de aprender.

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Este tipo de comparações não serve de base para aferir do grau de dificuldade de aprendizagem de um instrumento, pois há um “mundo” para além da utilização mais “tradicional” do “Violão”. Mesmo essa função de acompanhamento tem o seu grau de dificuldade e requer uma boa preparação do tocador para saber manter a pulsação, marcar bem com os “baixos” e respeitar o espaço para as Violas solarem. É difícil ser-se um bom Violão, mas muita gente toca Violão.

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A explicação para este tipo de mito negativo que se formou em torno da aprendizagem da Viola vem, a meu ver, de duas questões principais no que diz respeito aos tocadores: Em primeiro lugar, temos a questão do contexto social que já referi em outros artigos. Era importante manter o conhecimento sobre a Viola dentro da mesma família de Tocadores, limitado a poucas pessoas, pois este conhecimento poderia significar ter mais uma refeição ou mais uma gratificação que ajudasse às despesas familiares. Sendo assim, não seria lógico tentar cativar executantes para a Viola, antes pelo contrário.

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A segunda questão prende-se com o estatuto e reconhecimento do Tocador. Não só na arte de tocar viola como em muitos outros ofícios, tudo quanto seja visto com mais complexo e ao alcance de poucos torna-se mais valioso. O Tocador era alguém que tinha o seu estatuto na sua Freguesia, que era visto com muito respeito, e essa mística da complexidade do instrumento ajudava a manter essa ideia.

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Consigo entender essa mentalidade como defesa da sobrevivência de cada um, no passado, mas não a consigo admitir nos nossos dias. A época é de mudança. Há algumas décadas que as Violas se ensinam em Escolas de Violas, Academias, e Escolas Oficiais. Não é admissível continuarmos a disseminar estes mitos que afastam muita gente da aprendizagem da Viola mesmo antes de chegarem sequer a tentar tocar. Criam-se barreiras, todos os dias, baseadas em afirmações presunçosas que só pretendem aumentar orgulho pessoal de cada um.

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É difícil tocar Viola, como é difícil tocar Trompete, Piano, Violino, Violão, Clarinete, Bandolim… Não é mais difícil aprender a tocar Viola do que nenhum destes instrumentos ou outros que possam imaginar. É preciso vontade e motivação, uma Viola (com cordas), e alguém com vontade de partilhar conhecimentos.

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Alunos de Viola da Terra que iniciaram a aprendizagem com 6 anos. (Fev. 2011)

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Rafael Costa Carvalho

Músico e Professor

r_c_carvalho@hotmail.com


 

Rafael Carvalho prepara CD com temas de todas as Ilhas dos Acores

Posted by violadaterra on March 26, 2018 at 7:55 AM Comments comments (0)

Rafael Carvalho prepara CD com temas de todas as Ilhas dos Açores.

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O músico Açoriano Rafael Carvalho está a preparar a edição do seu quarto CD de Viola da Terra intitulado “9 Ilhas, 2 Corações”.

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O seu novo trabalho consiste num CD duplo com temas tradicionais de todas as Ilhas dos Açores. São algumas dezenas de temas, executados numa só Viola, a solo, com o objectivo de compilar, num único trabalho, temas de todas as Ilhas e deixar um registo da nossa história cultural ligada à música tradicional dos Açores.

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O músico refere que este CD surge agora, como uma necessidade, uma vez que nos últimos anos tem sido desenvolvido um grande trabalho de valorização e divulgação da Viola da Terra e que os seus 3 Álbuns anteriores, com temas tradicionais e temas originais, combinando ainda a Viola com outros instrumentos, têm servido como um cartão de visita às pessoas que querem conhecer a nossa Viola, a sua sonoridade e as suas potencialidades técnicas. Neste momento, em que já se conseguiu esta atenção e entusiasmo para a Viola, é necessário dar a conhecer o nosso repertório tradicional.

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Há uma procura no mercado regional e não só de um CD desta natureza, sem arranjos, sem mais instrumentos, só com uma Viola a interpretar as melodias.

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Rafael Carvalho colaborou na Série Documental da RTP A “Açores 9 Ilhas na Europa”, um projecto de Herberto Gomes com imagem e edição de César Macedo, onde gravou um tema de cada ilha dos Açores para ser passado nos respectivos programas. Participou, também, tocando um tema de cada Ilha, no Programa “Viola de Dois Corações”, realizado por Zeca Medeiros, Tiago Rosas e Francisco Rosas. Tem ainda participado em recolhas de realizadores como Tiago Pereira, para o canal “A Música Portuguesa A Gostar Dela Própria”, e do músico e editor Emiliano Toste, para o seu trabalho de recolhas “As Violas dos Açores”.

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Estes são alguns dos exemplos onde há uma procura da sonoridade da nossa Viola e de temas de todas as Ilhas do Arquipélago, havendo, ainda, as pessoas que se dedicam ao estudo da Viola, ao estudo da música tradicional, os amantes da nossa música e todos os que visitam os Açores, que anseiam encontrar um CD desta natureza.

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No Ano Europeu do Património Cultural Rafael Carvalho assume a edição de mais um trabalho discográfico, que está a ser gravado num registo sonoro de “recolha musical” para manter a característica áudio desse tipo de trabalhos, e que pretende colmatar uma lacuna existente no mercado e deixar um arquivo sonoro único para o futuro da Região.

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As gravações do CD terminam nas próximas semanas estando a edição prevista para o início do Verão e com o objectivo de ser apresentado, ainda este ano, em algumas Ilhas dos Açores. O músico espera, em 2019, poder organizar vários concertos para divulgar o CD e num novo projecto musical, formado para o efeito, intitulado de “9 Ilhas, 2 Corações”, para dar a conhecer os temas musicais e a riqueza de todas as Ilhas do nosso Arquipélago.

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Mais informações: r_c_carvalho@hotmail.com

Pode reservar já o seu CD.

 

Cantigas a Viola

Posted by violadaterra on March 21, 2018 at 11:20 AM Comments comments (0)

9 Ilhas 2 Corações

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“Cantigas à Viola”

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Um pouco por todas as Ilhas dos Açores sempre foi frequente fazerem-se “Cantigas à Viola”.

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Sobre a Viola conhecem-se várias quadras que foram sendo passadas, oralmente, ao longo dos séculos, havendo variantes dos versos entre as diversas Ilhas do Arquipélago.

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A Viola tem dez cordas,

Juntamente dois bordões;

E, acima do cavalete,

Também tem dois corações.

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Viola, minha viola,

Viola, minha alegria;

Eu não te posso largar,

Pois és minha companhia.

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A viola sem a prima

É como a filha sem pai,

Cada corda, um suspiro,

Cada suspiro, seu ai.

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Viola, minha viola,

Tu comes comigo à mesa;

Tu és a minha alegria

Quando eu tenho tristeza.

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Viola, teu braço d’oiro,

Tuas cordas de marfim,

Oh, tu és o meu tesouro,

Não te separes de mim!

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As quadras saíam improvisadas, a meio de um bailarico, ou a meio de um despique, e podiam visar o instrumento ou o tocador. O Tocador era alvo de admiração por parte das pessoas, pela sua capacidade de tocar e de impulsionar ambientes de verdadeira festa.

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O tocador de viola

Toca com grande primor;

Por isso muito lhe quero,

É o meu primeiro amor.

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Viva o que toca viola

Que traz bem junto ao peito;

Viva quem te há-de lograr

Cara linda, amor perfeito.

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Ó tocador de Viola

Repenica-me esses dedos;

Se faltar alguma corda,

Aqui tens os meus cabelos.

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A Viola era de oiro,

As cordas de prata fina;

Dedos que nela tocavam

Eram de glória divina.

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Algumas quadras poderiam ser de carácter elogioso, como descrito acima, mas outras tinham o cunho de espicaçar o Tocador, com uma crítica subjacente.

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A viola tem catarro,

Mais catarro tem o dono;

Vá-se deitar a dormir,

Que está caindo com sono.

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O tocador de viola

É um grande comilão;

Deixa as moças no terreiro,

Vai à caixa tirar pão.

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Viola, minha viola,

Viola de pau de aresta;

Viola, estás incapaz,

Ou o tocador não presta.

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O tocador de viola

Merece uma rapariga,

Daquelas que andam no mato

Comendo os olhos à silva.

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Na minha viola nova

Ninguém há-de pôr a mão,

Senão a minha cunhada,

A mulher de meu irmão.

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Qualquer assunto do dia-a-dia podia dar fruto a um bom despique, dependendo do contexto onde se estava a tocar, a cantar e a balhar. O tocador, parte fulcral em qualquer destas situações, tinha de ser mencionado, havendo os que melhor se sabiam defender, respondendo em improviso à letra. Também poderia acontecer que algum Tocador, mais sensível de temperamento, podia não aceitar bem as brincadeiras e arrumar a viola no saco. Aí já não havia mais cantoria, bailaricos ou festa e, acreditem, as piadas sobre o tocador ficariam suspensas largos meses.

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É disto que vive a nossa cultura popular. Do convívio, da partilha e da provocação saudável, que gera risos e boa disposição, com a imaginação e talento dos improvisadores, sabendo insinuar o suficiente para entendermos aonde querem chegar mas sem ultrapassarem os limites.

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A viola é um sino,

O tocador o pendente;

Deus lhe dê muita saúde

Para divertir bem a gente.

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Rafael Costa Carvalho

Músico e Professor

r_c_carvalho@hotmail.com

 

Afinacoes da Viola

Posted by violadaterra on March 14, 2018 at 10:25 AM Comments comments (0)

9 Ilhas, 2 Corações

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“Afinações da Viola”

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A Viola de Arame Portuguesa tem algumas variantes na sua forma de afinar. Temos exemplos de afinações idênticas entre Regiões, de afinações diferentes dentro da mesma Região, como podemos ter afinações que aparentam ser completamente distintas mas onde há uma semelhança na relação dos intervalos musicais (distância de uma nota a outra), que as aproxima muito mais do que é comum pensar-se.

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Há quem sinta a necessidade de tentar encontrar e justificar a existência de uma afinação original e comum a todas as Violas de Arame. Entendo que é, da mesma forma, importante aceitar essa diversidade como algo que surgiu dentro do contexto de cada local, fruto do passar dos anos, das necessidades de quem tocava, da exigência do repertório, sendo esta diferença motivo de grande riqueza para todos e nunca o contrário.

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Nos Açores temos várias afinações, de acordo com determinada Ilha e com as características do instrumento. Mesmo dentro da mesma Ilha (pontualmente), há alterações à afinação da Viola, para se tocar este ou aquele tema.

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No entanto, são duas as afinações principais e mais utilizadas. No caso das Ilhas de Santa Maria e São Miguel a Viola afina em Ré, Si, Sol, Ré, Lá (afinação da ordem mais aguda para a mais grave). Esta é a afinação da Viola de 12 cordas divididas em 5 ordens. A explicação das ordens de cordas já foi abordada no meu segundo artigo “Da Viola, suas cordas e seus nomes”.

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Fig. 1 - Esquema de afinação da Viola de 5 Ordens (1ª ordem em Ré)

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Temos depois, nas restantes sete Ilhas (Terceira, Pico, Faial, São Jorge, Graciosa, Flores e Corvo), uma outra afinação, onde só se altera, em relação à fórmula anterior, a 1ª ordem de cordas, a mais aguda (ordem “prima”), passando o Ré a ser afinado em Mi. A afinação nessas Ilhas é de Mi, Si, Sol, Ré, Lá (da ordem mais aguda para a mais grave).

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Fig. 2 - Esquema de afinação da Viola de 5 Ordens (1ª ordem em Mi)

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Na Ilha Terceira, no caso da Viola de 6 ordens (a Viola mais tocada naquela Ilha), a afinação é Mi, Si, Sol, Ré, Lá, Mi. Também há um ou outro tocador nas Ilhas Graciosa e de São Jorge que toca esta Viola de 15 cordas, com esta afinação.

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Temos depois outros casos peculiares, como nas Flores, onde tive um testemunho de um músico que lá fez recolhas, de que um dos tocadores de Viola afinava a primeira ordem em Ré, para tocar um “Fado Antigo”, denominando-a de “afinar à moda de São Miguel”.

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Na Ilha de São Miguel era comum alterar-se a afinação da 5ª ordem (a mais grave), baixando-a de Lá para Sol, para se tocarem as “Sapateias”. Também poderia ocorrer em mais algum tema executado na tonalidade de Sol. Esta alteração permitia ao Tocador ter o “Bordão de Sol” como uma espécie de “nota pedal” que vai sendo pulsada em intervalos regulares, ao longo da execução da melodia, para manter a sustentação de som. Esta situação ainda se verifica nos nossos dias e tem-se investido em passar essa tradição aos mais novos de modo a que não se perca.

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Quanto mais vamos conhecendo e investindo tempo em conversar com Tocadores de várias Ilhas, de várias idades, quanto mais tempo dedicamos a investigar, melhor poderemos compreender que teremos sempre, quanto às afinações, técnicas, repertórios, contextos e realidades, muitas excepções às regras que passaram a ser aceites como verdades absolutas.

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Há as generalizações sobre estas temáticas que são importantes conhecer, que ajudam a diferenciar mais facilmente cada caso e que é fundamental que sejam cada vez mais claras, discutidas e difundidas, mas que não podem ser assumidas com definições absolutas de um Instrumento, de uma Ilha ou de uma Região.

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Rafael Costa Carvalho

Músico e Professor

r_c_carvalho@hotmail.com

 

 


 

A Viola não se ensinava, aprendia-se

Posted by violadaterra on March 7, 2018 at 1:05 PM Comments comments (0)

9 Ilhas 2 Corações

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“A Viola não se ensinava… aprendia-se”

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A Viola não se ensinava… aprendia-se!

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Já ouvi esta afirmação proferida por mais do que um Tocador da “velha” geração.

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O ensino da Viola, ao longo dos séculos, foi sendo feito por transmissão oral. Há quem denomine de “ensinar de ouvido”, “ensinar por imitação”, “ensinar ponto a ponto”. Havendo nomes diferentes de acordo com as expressões de cada local, o conteúdo e intenção são os mesmos.

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Nos nossos dias a transmissão oral continua a ser a principal forma de ensinar os instrumentos tradicionais portugueses. No entanto, em relação ao passado, a grande diferença será a de terem surgido Escolas de Violas, aulas em Associações Musicais e Culturais ou outras Instituições que passaram a promover o ensino destes instrumentos.

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No passado não existiam Escolas de Violas. Não havia locais nas freguesias ou aldeias onde as pessoas se podiam dirigir para aprender estes instrumentos. O ensino era feito dentro da mesma família de Tocadores. Quem não tivesse alguém na família que soubesse tocar dificilmente teria acesso à aprendizagem.

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Mesmo nos casos entre familiares seria frequente não haver um momento de ensino propriamente dito. O pai poderia passar a noite a tocar mas não dedicar tempo a ensinar o filho. Como é que o filho aprendia? Vendo e ouvindo! Via, ouvia, fixava, memorizava auditivamente. Depois, na ausência do pai, lá experimentava colocar os dedos na Viola e produzir sons. Muitas vezes esse atrevimento de tocar na Viola do Pai resultaria numa chamada de atenção.

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Noutras casas os pais passavam esse conhecimento aos filhos ou outros familiares, alguns com mais paciência do que outros, dentro da “pedagogia” pessoal de cada um e do contexto de cada época. Alguns aprenderam comprando uma Viola e ouvindo tocar na rua, ou espreitando pela porta do vizinho, indo depois para casa experimentar, persistindo até conseguirem reproduzir um som que se assemelhasse ao que escutaram. Muitas variações que conhecemos, sobre o mesmo tema tradicional, surgiram devido à forma de aprendizagem de ouvido e ao ensino quase autodidacta de grande parte dos tocadores.

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Esta atitude, perante a disseminação dos conhecimentos musicais de cada um, deve ser compreendida dentro de cada contexto. O Tocador era uma pessoa que tinha algum estatuto em cada freguesia pois sem ele não havia festa, não havia convívio e bailarico, facto que já referi em artigos anteriores. Ser convidado para tocar em alguma festa podia garantir mais alguma comida em cima da mesa para a família e até mesmo uma refeição oferecida fora de casa e isso era, em tempos de grande pobreza do nosso País, uma mais-valia para qualquer lar. Neste contexto é de compreender a grande resistência das pessoas em partilharem os seus conhecimentos quer ao nível do ensino quer ao nível de quaisquer registos.

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A aprendizagem acontecia fruto de muita força de vontade e persistência.

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Felizmente que os tempos foram mudando e que alguns “Mestres” passaram a ensinar em Escolas de Violas. Desde os Grupos Folclóricos que tinham interesse em formar novos tocadores, a Casas do Povo e Sociedades Recreativas que queriam ter Escolas de Violas ou Tunas que fizessem apresentações musicais, os instrumentos tradicionais passaram a ser ensinados com mais regularidade. Ensinados por um tocador conhecedor do instrumento e do repertório e já com abordagens de ensino menos “restritivas”. A aprendizagem passou a estar ao alcance de mais pessoas, as próprias instituições passaram a adquirir instrumentos para emprestar aos alunos que não pudessem adquiri-los, e foi-se criando uma estrutura de continuidade na oferta do ensino destes instrumentos.

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Fig. 1 - III Encontro de Escolas de Violas da Ilha de São Miguel

(fotografia de Ana Sousa)

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Não há Escolas de Violas em todas as Ilhas dos Açores, mas tem-se assistido a um acréscimo de interesse dos mais novos em frequentar este tipo de cursos, fruto de um trabalho de divulgação da Viola cada vez maior, por parte de diversos músicos e algumas entidades. É de aproveitar o momento de grande dinamismo que vivemos com as nossas Violas para tentar potenciar, em todas as Ilhas, o aparecimento dessas Escolas.


 

Fig.2 - Exemplo de partituras utilizadas no ensino da Viola da Terra

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Hoje em dia há um trabalho muito sólido no ensino da Viola nos Conservatórios Regionais dos Açores (Terceira e São Miguel), com muitos alunos a frequentarem a disciplina e com um trabalho de registo em partitura, de mais de uma década, onde já se transcreveram e editaram para o ensino da Viola centenas de temas tradicionais. Estes registos permitem “imortalizar” as peças que foram sendo transmitidas durante muitas gerações, nota a nota, ponto a ponto, quebrando a cabeça, descabeçando as pontas dos dedos, mas num esforço que tinha e tem de existir para a preservação do nosso espólio musical, que é a mais importante linguagem cultural do nosso povo.

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Rafael Costa Carvalho

Músico e Professor

r_c_carvalho@hotmail.com

 


 

Rasgueados, Ponteados e outras questões

Posted by violadaterra on February 28, 2018 at 7:20 PM Comments comments (0)

9 Ilhas 2 Corações

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“Rasgueados, Ponteados e outras questões”

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A Viola da Terra tem, como tenho referido, uma enorme riqueza e diversidade nas nossas Ilhas.

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Desde aspectos diferenciados de construção, de repertório, de contextos onde é tocada, às diferentes técnicas de execução.

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Um Arquipélago pequeno, como o nosso, tem tratado a Viola com muito carinho, com muita diversidade e com abordagens técnicas que, sendo distintas, só contribuem para a sua valorização, bem como para a afirmação de que temos, um caso único, em toda a realidade nacional, de grande relevo na história das Violas de Arame.

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Hoje abordo a questão das diferentes técnicas de execução da nossa Viola.

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Nas Ilhas de Santa Maria e São Miguel a Viola é tocada (tangida, ponteada) recorrendo, apenas, ao polegar da mão direita. Quer isto dizer que a pulsação das cordas, com a mão direita, é efectuada apenas com o polegar, independentemente, da velocidade e dificuldade das passagens. Na Ilha das Flores a Viola é também tocada com o polegar, nos acompanhamentos (execução de acordes). Há um ou outro executante, naquela Ilha, que, sendo também tocador de Guitarra Portuguesa, utiliza o indicador para fazer os solos (ponteados) na Viola da Terra mas, o mais habitual, é que a execução seja com o polegar.

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No caso das Ilhas Graciosa, São Jorge e Terceira, a Viola é tocada com o indicador. Nessas Ilhas a melodia das modas é executada com o indicador ficando para o polegar a tarefa de tocar os baixos (ordens de cordas mais graves). É importante assinalar que em São Jorge, por exemplo, quando estão a fazer acompanhamentos (acordes), fazem-no de modo rasgado (rasgueado).

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Há diferentes formas de aplicar a combinação da execução com o indicador (melodia) e polegar (acompanhamento, baixos, nota pedal) nestas Ilhas. Há executantes que utilizam o polegar de forma mais regular, “enchendo” a música que executam com melodia e acompanhamento quase em simultâneo. Outros executantes utilizam o polegar de modo mais pontual, tocando o “baixo” em momentos mais “dispersos” ao longo da melodia. Esta combinação é algo que varia, acima de tudo, de acordo com gosto pessoal e conhecimentos de cada um, não havendo uma forma de execução que se possa considerar mais correcta em relação à outra. O importante, a meu ver, é que se conheça, estude e explore estas duas formas de articulação entre os dedos e que se aplique da melhor forma de acordo com cada contexto musical.

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Nas Ilhas do Faial e Pico a Viola é tocada com a técnica do rasgado (rasgueado). A função de solar a melodia recai sobre o bandolim e o violino. Deste modo, à Viola, cabe o papel de dar o “ritmo” da música, de manter a dinâmica e vivacidade dos bailes. Há tocadores que referem que a Viola também faria e faz solos, pontualmente, mas que, no contexto dos bailes e serões de Chamarritas, a Viola é rasgada para melhor se afirmar e se fazer ouvir.

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Ilustração de Luís Cardoso in “Método para Viola da Terra”

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O Corvo é a única Ilha na qual desconheço registos de executantes de Viola da Terra. Seria bom que alguns documentos aparecessem e pudéssemos chegar a algumas conclusões sobre a execução da Viola naquela Ilha, que, de momento, só podemos inferir, pela proximidade com as Flores, que pudesse ter as mesmas características.

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Em relação a estas questões é de referir que a Viola, no passado e no presente, tocava e toca, às vezes, sozinha. A Viola, para se fazer ouvir, é tocada muitas vezes rasgada. Há registos, na Ilha de São Miguel, de tocadores no meio do baile, a dançar e a tocar, mas de modo rasgado, sozinhos, para conseguirem projectar o som da Viola e manter o baile vivinho.

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Havendo estas 3 técnicas tradicionais de execução (polegar, indicador e polegar e o rasgado) que, de modo generalista podemos identificar e atribuir a cada Ilha, a realidade é que o contexto de cada Ilha, de cada momento musical, dos conhecimentos de cada músico, podem condicionar e orientar para determinada execução, havendo, ainda, novas explorações técnicas do instrumento no presente, de acordo com as linguagens musicais que cada um revê na Viola, fruto das suas próprias influências. Independentemente disso, o conhecimento das técnicas originais e tradicionais é fulcral para o real conhecimento do instrumento.

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Temos ainda a questão das origens dos povos das nossas Ilhas, de proveniências diferentes, que também influenciaram a forma de se tocar as nossas Violas. Mas isso são questões para outras conversas, em outros artigos.

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Rafael Costa Carvalho

Músico e Professor

r_c_carvalho@hotmail.com

In "Atlântico Expresso", 26 de Fevereiro de 2018

 

 

Símbolos, Saudades, Coroas e Fortuna

Posted by violadaterra on February 28, 2018 at 7:15 PM Comments comments (0)

9 Ilhas 2 Corações

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“Símbolos, Saudades, Coroas e Fortuna”

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Tenho estado a apresentar as características físicas da nossa Viola: caixa, braço e cabeça/pá. A especificidade de cada parte da Viola dá-nos referências que nos permitem identificar, na generalidade, de que instrumento se trata.

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No entanto, há também a visão popular que cria uma mística em torno da Viola nos Açores. Essas histórias vão sendo passadas, oralmente, ao longo dos anos, e ajudam a contar a história e a realçar a importância do instrumento, na vida dos Açorianos, por intermédio da simbologia que o povo revê nos embutidos e desenhos do tampo harmónico.

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Essas crenças populares podem ter semelhanças de uma ilha para outra, mas, depois, aparecem, por vezes, outras histórias/versões, de acordo com o contexto de cada local.

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A principal história popular em torno da nossa Viola diz respeito aos seus Dois Corações: O Coração que sai da Ilha e o Coração que fica na Ilha. A procura de uma melhor vida, o “salto”, a Emigração, deixando a terra Natal, a família, os amigos. Refere-se que, estes Dois Corações da Viola são o símbolo dessa “Saudade” que persegue os Açorianos há séculos. Os Corações estariam, ainda, ligados por um cordão, terminando numa lágrima, a lágrima da Saudade. Há quem diga que, a forma de losango, quase sempre apresentada no final desse cordão, representaria o “Ás de ouros”, uma vez que os que Emigravam faziam-no em busca da fortuna.

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Foi esta a primeira história que ouvi sobre a Viola, pela boca do meu Professor, Carlos Quental, na primeira aula que tive, aos 13 anos de idade. Ainda antes de pôr os dedos sobre as cordas e experimentar o seu som, eu já estava “enfeitiçado” e fascinado pelo instrumento.

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Os Corações, dizem, poderão ser, também, a representação do amor, da ligação entre as pessoas, não tendo, necessariamente, de ser algo ligado apenas à Emigração e Saudade. Outros falam de amores proibidos, celebrados, para sempre, no “rosto” da Viola, sem que mais ninguém, senão os dois amantes, soubesse a quem se dirigia a mensagem de amor.

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No Cavalete da Viola diz-se que estaria representado o “Açor”, pois reconhece-se a forma de um bico de pássaro e de um olho. Esta situação é comum a muitos modelos de Viola, mas não é exclusiva e obrigatória. Muitas vezes encontra-se as extremidades dos Cavaletes em forma de rabo de Baleia, ou, apenas, de forma angular ou quadrada, sem mais qualquer adorno.

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No fundo do tampo harmónico os embutidos mais frequentes são os da “Flor-de-Lis”, ou da Lira. Há quem veja nessa “Flor-de-Lis” a reprodução da espiga de trigo, e, com isso, a representação do trabalho árduo dos campos, e há quem interprete como sendo a figuração das plantas, da natureza dos Açores. Outros vêem a forma de bigodes ou o relevo/recorte das Ilhas. Estes embutidos variam de um construtor para outro, havendo exemplos de embutidos em forma de pássaro, peixes, montanhas, vaso de flores, ou outros, de acordo com a imaginação/marca de cada Construtor ou com pedidos directos dos Tocadores. A isto chamamos de personalização das Violas que é algo que acontecia no passado e continua a acontecer nos nossos dias.

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fig. 1 – Viola com “Flor-de-lis” (esq.) e Viola com Lira (dir.)

 

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Quanto à abertura do tampo harmónico esta pode ser em forma de dois corações; com três corações entrelaçados (viola de 5 bocas); com duas liras a substituir os corações, ou com abertura circular.

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Uma outra interpretação, do cordão que une os dois Corações da Viola, aparece-nos ao rodarmos o instrumento 180 graus. As pessoas viam, nesse cordão, a forma de uma Coroa. Sendo Açorianos, interpretaram a mesma como representação da Coroa do Espírito Santo. As Festas do Divino Espírito Santo são as maiores Festas dos Açores, celebradas em todas as Freguesias de todas as Ilhas do Arquipélago. Ter esta “suposta” representação da Coroa no tampo da Viola é algo que acrescenta uma mística, respeito e solenidade ao instrumento que, em algumas Ilhas, aparece a acompanhar as Coroações, a distribuir Pensões, a fazer Peditórios para as Irmandades e outras funções consoante a tradição de cada local.

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Fig.2 – Representação da Coroa do Espírito Santo

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Em relação ao espelho, como já referido no artigo da semana passada, o mesmo serviria para o Tocador se pentear ou para desfazer a barba antes de tocar.

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São estas algumas das crenças e visões populares em torno dos símbolos interpretados nos embutidos e pormenores de construção da Viola, que, não sendo considerados provas Históricas, são, sem dúvida alguma, formas de tornar a Viola ainda mais nossa, mais próxima dos sentimentos das pessoas e mais próxima das tradições dos Açorianos.

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Rafael Costa Carvalho

Músico e Professor

r_c_carvalho@hotmail.com

In "Atlântico Expresso", 19 de Fevereiro de 2018.

 

A Viola e o Carnaval

Posted by violadaterra on February 28, 2018 at 7:15 PM Comments comments (0)

9 Ilhas 2 Corações

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“A Viola e o Carnaval”

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A nossa Viola sempre teve um papel activo no quotidiano dos Açorianos, acompanhando o Povo nas Festividades e ajuntamentos, ao longo de todo o ano. Normalmente, só pela Quaresma é que a Viola era arrumada, em sinal de respeito, durante todo o período de preparação para a Celebração da Páscoa.

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Do Natal aos “Reis” ou no “Cantar às Estrelas”, a Viola estava e está presente, com maior ou menor presença do que no passado, consoante a realidade de cada local.

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Algumas tradições vão perdurando, em certas freguesias, mantendo a essência do passado, e outras foram-se actualizando. Umas desapareceram e outras ganharam mais projecção ou uma organização diferente.

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Estas tradições têm a particularidade de promoverem o convívio entre as pessoas: nos ensaios, arranjos de letras e músicas, elaboração das vestimentas, nas deslocações, no frenesim dos bastidores, nos momentos de apresentação (em palco ou pelas ruas) e, depois, na confraternização final, depois de um trabalho bem feito. Há, certamente, a vontade e o objectivo de apresentar um resultado artístico de qualidade, mas, a motivação do trabalho conjunto e da celebração de amizades é, provavelmente, o maior catalisador por detrás de cada grupo.

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A Viola aparece, no seio destas tradições, fazendo e mantendo o seu papel, graças ao esforço e dedicação dos que a ela se dedicam.

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O Carnaval não é excepção e, nestas Festas, a Viola marca a sua presença.

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Uma das grandes tradições da Ilha Graciosa, no Carnaval, são os Serões com “Modas de Viola”. As “Modas Novas” e as “Modas Velhas” dão o mote para grandes bailes de roda onde o Tocador aparece, tocando e cantando, mas, também, integrando a roda e fazendo parte do Baile.

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Esta tradição passou das casas particulares para os grandes Salões e é comum a vários espaços recreativos da Ilha. Mesmo havendo as Bandas que animam os Bailes de Carnaval estas interrompem a sua actuação, a meio da noite, para dar espaço aos acordes e solos das Violas, e aos Bailes com “Modas de Viola”. Uma convivência musical que a Graciosa tem sabido perpetuar, com jovens e velhos Tocadores.

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Outra tradição é a das “Danças de Carnaval”. Em várias Ilhas dos Açores estas Danças ocorrem, cada qual com características próprias.

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A Viola, mais uma vez, assume a sua presença, dando um contributo que já remonta a muitas décadas. A Viola pode aparecer acompanhada de outras Violas, ao lado do Violino, Bandolim, Acordeão e, até, pontualmente, de instrumentos de sopro.

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Em alguns locais as “Danças de Carnaval” eram e são interpretadas só por homens (fig. 1). No caso de Água Retorta esta Dança, da década de 50 do século passado, era bailada só por homens. Metade deles vestia-se, assim, de mulher. A Dança aparece acompanhada por dois Tocadores de Viola. Esta tradição repete-se, anualmente, na “Dança de Carnaval” da Vila da Povoação.

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Fig. 1 - Dança de Carnaval em Água Retorta, Ilha de São Miguel, década de 50. Fotografia de Silvério Machado.

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Noutras Ilhas, temos exemplos de “Danças de Carnaval” com homens e mulheres. Veja-se o caso da Ilha Graciosa, num registo, também, nos anos 50 do século passado (fig. 2), o que deve ter representado, certamente, um grande “avanço” para a época.

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Fig. 2 – Dança de Carnaval na Guadalupe, Ilha Graciosa, década de 50. Fotografia do Facebook "História dos Açores"

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Na Ilha Terceira temos os “Bailinhos de Carnaval”. Sem dúvida que, no nosso Arquipélago, é a tradição que mais pessoas movimenta em torno desta temática. São momentos de grande entusiamo, com Salões cheios para assistirem às apresentações dos vários grupos, que trazem a sátira popular, envolvida em momentos musicais e com representações teatrais de elevada qualidade.

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A presença da Viola da Terra, nestes Bailinhos, tornou-se mínima. Ainda subsiste, numa ou outra “Dança de Espada”, mas em número muito reduzido.

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A realidade é que, as nossas Violas, são instrumentos de pouca “potência acústica” (projecção de som). Se tentarmos compreender o contexto musical actual dos Bailinhos, os mesmos incluem muitos instrumentos de sopro, o acordeão, o bandolim, o violão e o violino. No meio de tudo isto a Viola não se faz ouvir. O Tocador de Viola prefere integrar o Bailinho tocando outro instrumento, pois, mesmo dando o melhor de si, a Viola fica “abafada” pelos restantes.

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Estes vários exemplos tiveram o intuito de documentar a presença da Viola nestas manifestações populares, que decorrem, um pouco, por todas as Ilhas dos Açores. Retratando o passado, valorizando as tradições, e revelando a presença que a Viola ainda tem no presente, principalmente, num mundo em mudança vertiginosa, mas que a Viola e seus intervenientes teimam em acompanhar.

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Rafael Costa Carvalho

Músico e Professor

r_c_carvalho@hotmail.com


In "Atlântico Expresso, 12 de Fevereiro de 2018

 

Trastos, pontos, espelhos e vaidades

Posted by violadaterra on February 28, 2018 at 7:10 PM Comments comments (0)

9 Ilhas 2 Corações

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“Trastos, pontos, espelhos e vaidades”

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Hoje pretendo retomar a explicação de algumas das características físicas da nossa Viola.

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A Viola tem a caixa em forma de “8”, tampo, ilhargas, costas, braço e pá (cabeça).

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Na pá temos as cravelhas (afinadores). Antigamente, eram cravelhas de madeira, utilizadas ainda hoje, mas com menor expressão. As cravelhas de madeira foram sendo substituídas por cravelhas metálicas, pela facilidade de afinação. Hoje em dia já se começam a utilizar outras cravelhas, de outros materiais, a imitar o cravelhal antigo, e com outras garantias de afinação, tornando, desta forma, o instrumento e o peso do braço mais leve. Também há Ilhas em que o cravelhal é em forma de leque. Para quem desconhece, é o mesmo esquema de afinação das Guitarras Portuguesas.

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Na pá temos, ainda, o espelho. Muitos instrumentos mais antigos não tinham espelho. Aliás, em algumas Ilhas, essa situação quase não ocorre, mas o espelho acabou por ser colocado, dizem os Velhos Mestres, para o Tocador se aprimorar antes de se apresentar em palco, penteando o cabelo e desfazendo a barba. Vaidades de quem pretendia tocar a Viola sempre bem-apresentado e mantendo uma reputação de elegância.

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No braço temos a escala e os trastos. A escala é rasa com o tampo em determinados modelos, mas também aparece sobreposta a este em outras Ilhas.

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Os trastos são as peças metálicas que dividem a escala. Ao espaço entre cada trasto chamamos de pontos. A escala da Viola de 5 ordens (12 cordas), tem 12 pontos no braço e 9 pontos sobre o tampo, podendo haver oscilações do número de pontos sobre o tampo. No caso da Viola de 6 ordens (15 cordas) que, como já referido em artigos anteriores, é característica, principalmente, da Ilha Terceira, esta Viola tem 10 pontos sobre o braço e 6 a 9 sobre o tampo (podendo também variar de um construtor para outro). Quanto à Viola de 12 cordas da Ilha Terceira, conhecem-se exemplares com 12 pontos sobre o braço, mas, também, com 10 pontos. Sendo um instrumento do qual há poucos exemplares, não parece haver uma posição em que se possa aferir de uma predominância de um modelo sobre o outro.

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Em relação às Violas com 12 pontos sobre o braço e mais 9 sobre o tampo, temos uma Viola com uma escala de 21 pontos. Esta situação é única no contexto das Violas em Portugal. Da família de Violas de Arame a que pertence a Viola da Terra e que já antes referi: Amarantina, Beiroa, Braguesa, Campaniça, Madeirense e Toeira, o caso Açoriano é o único onde a Viola ocorre com 12 pontos sobre o braço. Esta situação, bastante particular, merece destaque e merecia um estudo mais aprofundado por parte dos investigadores das nossas Violas.

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Ilustração de Luís Cardoso no Livro “Método para Viola da Terra – Iniciação”

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Uma Viola, ao possuir 12 pontos sobre o braço, permite obter uma oitava musical, avaliando a distância da corda tocada solta até à corda tocada/pressionada no 12.º ponto. Quer isto dizer que temos um maior número de notas que podem ser tocadas sobre o braço, onde a execução é mais facilitada do que nos pontos por cima do tampo. As Violas da Terra mais antigas que conhecemos, de registos fotográficos, dos nossos museus ou mesmo na posse de colecionadores, apresentam esta característica.

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Actualmente, no caso do Arquipélago da Madeira, por exemplo, mas também em outras Violas Portuguesas, começaram-se a construir Violas com os 12 pontos no braço, sendo algo afirmado como uma “evolução” para uma maior exploração do instrumento. No caso da Viola Brasileira (Caipira), descendente das Violas Portuguesas, essa evolução dos 10 para os 12 pontos também ocorreu há décadas, como uma necessidade de exploração maior do instrumento. Como podemos explicar que, nos Açores, a Viola tenha essas características há pelo menos século e meio? Será que é daí que resulta termos a Viola com mais repertório tradicional instrumental de todas no nosso País? São questões que, normalmente, não parecem fascinar os investigadores, mas que reflectem uma evolução, no caso da Viola Açoriana, séculos antes das suas congéneres Continentais e Madeirense.

 

Rafael Costa Carvalho

Músico e Professor

r_c_carvalho@hotmail.com

In "Atlântico Expresso", 5 de fevereiro de 2018

 

A Viola e o Convívio

Posted by violadaterra on January 31, 2018 at 9:10 AM Comments comments (0)

"9 Ilhas 2 Corações"

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“A Viola e o convívio”

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Fazendo uma pequena pausa sobre a explicação das características físicas da nossa Viola, acho importante contextualizar a mesma, por ser o instrumento que impulsionava o convívio entre as pessoas.

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Em momentos de apresentação musical gosto sempre de falar um pouco desta vertente da Viola e da forma como esta fazia as Comunidades envolverem-se. Com esta ideia em mente e, com o auxílio de 3 testemunhos que encontrei em livros, espero conseguir ajudar-vos a visualizar essa realidade.

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Um dos textos mais bonitos que já li sobre a Viola, é de Dias de Melo, no seu livro “As Pedras Negras”. Não sendo possível transcrever todo o texto, faço uma pequena sinopse da narrativa que culmina num Capítulo intitulado: “Noite do Casamento. Folguedos, Latas, Violas e Cantigas”.

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A história principal é a de um jovem que abandona a Ilha do Pico dando “o salto” numa Baleeira. Seguiram-se anos de muita fome, muito esforço, sofrimentos, desgostos e trabalho duro. Um dia ele regressa a casa, já melhor da vida e para se casar.
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No dia em que o filho partiu o pai arrumou a Viola e a família “entrou de luto”. Nunca mais tocou Viola, nunca mais se cantou nem bailou naquela casa. No entanto, com o regresso do filho, na altura da festa do casamento e com todos querendo bailar, imediatamente, o pai decidiu encordoar a Viola, “sacudiu o pó e as teias de aranha (…) e, de olhos em brasa, rasgava estridente a chamarrita: chamarrita nova, chamarrita velha, chamarrita de cima, chamarrita de baixo e mais a do meio e a choradinha…”

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Da Revista “Illustração Portugueza”, 23 de Dezembro de 1907

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Outra crónica, que faz parte do livro “Summer in the Azores with a Glimpse of Madeira”, de C. Alice Baker, de 1882, intitulada “A Ball in the Furnas”, descreve uma noite de baile nas Furnas. Os visitantes queriam experienciar um baile e acabaram por conseguir assistir a um. Descreve-se que estava a haver alguma demora e começou a circular a piada de que o tocador levava sempre 3 meses a vestir-se para um baile. Acabou por chegar o tocador, cantando, tocando, mais bem vestido do que todos os restantes. Assim que entrou em casa logo os homens se colocaram atrás dele até formarem uma roda à qual se juntaram as mulheres. Assim estiveram a cantar e dançar, ao ritmo da Viola, em quadras quase sempre improvisadas.

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Um outro grande apaixonado pela Viola era o Tenente Francisco José Dias. No seu livro “Cantigas do Povo dos Açores” há um trabalho único na recolha de temas com a transcrição para voz e viola. Ele dedica vários Capítulos a falar sobre a Viola referindo-a como “a mola real a incentivar à folgança; a companhia mais intima dos ranchos (…) A Viola era o chamariz”.

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No Capítulo “Festas do Menino Jesus” ele faz uma narrativa deliciosa sobre um momento de Serão e Convívio que seria, certamente, o espelho de muitas freguesias por todo o Arquipélago. Refere as moças sentadas no quarto e a mães nas cadeiras por detrás delas. Os jovens na rua, com os pais, por falta de espaço no quarto e, mesmo nas noites frias, com o coração quente pela expectativa de bailarem com a rapariga que tinham “em vista”. Os tocadores chegavam, “importantes, cheios de presunção, com os instrumentos levantados no ar p’ra dar nas vistas…”. Depois passavam à afinação, demorada, de modo propositado, para fazerem render a expectativa e a atenção dos presentes. Toda a gente aguarda, sem conseguir conter o entusiamo e a ansiedade de começar o bailarico.

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A horas tantas, quando o tocador decidiu, finalmente, que a Viola estava afinada, começaram então a formar-se os pares, os rapazes e raparigas solteiras e formar a roda e depois os casados para completar. Depois… depois bailava-se toda a noite, cantava-se, sorria-se.

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Mas, sem a Viola, como fariam aqueles rapazes e aquelas raparigas para estarem juntos, para encostar uma mão, para uns sussurros malandros entre o derriço da noite?

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Rafael Costa Carvalho

Músico e Professor

r_c_carvalho@hotmail.com

 


 

9 Ilhas, 2 Coracoes - Da viola, suas cordas e seus nomes

Posted by violadaterra on January 31, 2018 at 9:05 AM Comments comments (0)

-9 Ilhas 2 Corações-

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“Da viola, suas cordas e seus nomes”

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Hoje começo por apresentar a nossa Viola: suas características e os vários nomes por que é conhecida nas nossas Ilhas e no nosso País.

A Viola tocada nos Açores é um instrumento com a caixa em forma de “8”, com tampo harmónico paralelo às costas, sendo constituída por 12 cordas.

Estas 12 cordas são dispostas em 5 ordens (parcelas) sendo a 1ª, 2ª e 3ª ordem dupla e a 4ª e 5ª ordem tripla (do som do mais agudo para o mais grave: da 1ª corda de baixo para a última corda de cima).

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Esta pormenorização toda, que é muito usada na linguagem musical, pode ser confusa por ser pouco conhecida do público em geral.

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Tentando simplificar isto quer dizer o seguinte: quando em comparação, por exemplo com um “Violão”, mais conhecido de todos, este tem 6 cordas e a cada corda corresponde uma ordem simples. 6 cordas = 6 ordens de cordas uma vez que cada corda é tocada/pressionada individualmente.

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No caso da Viola da Terra sempre que se pressiona uma ordem de cordas estamos a pressionar, em simultâneo, 2 cordas (ordens duplas) ou a pressionar 3 cordas, (ordens triplas). Daqui que tenhamos um instrumento com 12 cordas, mas divididas em 5 ordens (fig.1)

Ilustração de Luís Cardoso no Livro "Método para Viola da Terra - Iniciação"

No entanto, no caso da ilha Terceira, temos uma excepção a estas características uma vez que a Viola que hoje mais se toca naquela Ilha é a Viola de 15 cordas: Viola de 6 ordens. Temos, neste caso, um instrumento que tem a 1ª, 2ª e 3ª ordem dupla e a 4ª, 5ª e 6ª ordem tripla. Esta Viola também ocorre, pontualmente, nas Ilhas Graciosa e de São Jorge.

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Apesar de haver exemplares e indícios da sua existência no passado a Viola de 12 cordas na Ilha Terceira é, hoje, um instrumento que quase não se toca, exceptuando um ou outro tocador mais resiliente.

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Apresentadas algumas das características mais identificativas do Instrumento (noutros artigos falarei de outras particularidades) gostaria de abordar, numa segunda parte desta rubrica, os nomes por que é conhecido.

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Nos tempos mais antigos as nossas Violas eram apenas chamadas de Violas. Sem distinções por Regiões nem pelas suas diferentes características. De Norte a Sul do País e nos seus dois Arquipélagos tocava-se a Viola.

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Com o passar dos tempos a nossa Viola passou a chamar-se de “Viola de Arame”. Ganhou esse nome por as suas cordas serem de Arame.

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A título de exemplo, nas recolhas do Professor Artur Santos nos Açores, na década de 50 e 60, vem sempre referido o executante como tocador de “Viola de Arame”. Não só ele como outros investigadores referiram-se assim à Viola tocada nos Açores e em todo o território Português.

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Entretanto, com a necessidade de se identificar de modo mais imediato as Violas em cada Região, definiram-se nomes por que passaram a ser conhecidas as Violas: Viola Braguesa, Viola Beiroa, Viola Toeira, Viola Amarantina, Viola Campaniça, Viola de Arame Madeirense e, no caso dos Açores, Viola da Terra.

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Esta família de 7 Violas de Arame Portuguesas (podendo haver outros nomes utilizados em cada Região) é a que é mais conhecida e de certo modo aceite pelos que tocam, investigam e escrevem sobre a Viola em Portugal.

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No caso dos Açores o nome de Viola da Terra é o que prevaleceu e é o mais conhecido de todos. No entanto, há quem chame o instrumento de Viola Regional, Viola Açoriana, Viola Terceirense (no caso da Viola de 15 Cordas) e, ainda, de Viola de Dois Corações, podendo haver ainda mais designações utilizadas.

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Foi esta a minha partilha semanal pretendendo, pouco a pouco, dar a conhecer mais sobre a nossa Viola: com 5 ou 6 ordens, com diversas designações, mas sempre a nossa Viola.

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Rafael Costa Carvalho

Músico e Professor

r_c_carvalho@hotmail.com

Bons Anos e Anos Bons

Posted by violadaterra on January 11, 2018 at 4:05 AM Comments comments (0)

"9 Ilhas, 2 Corações"


Bons Anos e Anos Bons


Na passada 2ª feira, 8 de Janeiro, iniciei uma colaboração com artigos de opinião semanais sobre a Viola da Terra no jornal Atlântico Expresso intitulados: "9 Ilhas, 2 Corações".

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O artigo da próxima semana intitula-se: "Da viola, suas cordas e seus nomes"

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Aos interessados estejam atentos.

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Segue abaixo o texto do meu primeiro artigo:

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"Bons Anos e Anos Bons"

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É agradável iniciar um Novo Ano com o desafio de escrever, semanalmente, sobre a Viola da Terra.

Ao longo das várias segundas-feiras o Atlântico Expresso publicará artigos meus em que a Viola será a base de discussão. Um repto lançado há algum tempo e que, agora, espero ter o tempo e a devida capacidade para tentar corresponder da melhor forma.

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História, histórias, características, contextos, intervenientes, simbologia, eventos, diferenças, semelhanças, são tudo informações que importa dar a conhecer, divulgar e debater.

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Quem me conhece e ao trabalho que desenvolvo sabe que o meu principal objectivo como formador, palestrante, ou em cima dos palcos que percorro é, sempre, de explicar e transmitir o que sei, o que pesquiso e o que vou aprendendo sobre a Viola, nos Açores e não só, procurando desmistificar preconceitos, aproximar diferentes realidades e contextos culturais, e realçar a riqueza da nossa diversidade quando tantos fazem disso motivo de separação.

Partilhar, questionar, aprender e ensinar um instrumento que não se ensinava… aprendia-se!

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É difícil de aprender? Os jovens não se interessam? Antigamente é que era!

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Tudo comentários que ouço, ouvimos, frequentemente, frases que já se repetiam no passado e, provavelmente, se irão repercutir no tempo, mas que, em nada contribuem para a valorização do que é nosso. Pelo contrário, afastam as pessoas e destroem o entusiasmo de quem se quer aproximar da Viola bem como de quem quer fazer dela parte viva e integrante do nosso dia-a-dia.

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Acima de tudo o mais importante é que se fale, toque, divulgue e se aprecie a Nossa Viola.

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Respeitar o passado, beber da essência deixada pelos velhos mestres e, como eles também o fizeram no seu tempo, trazer o nosso cunho pessoal para o que tocamos e garantir a continuidade para as gerações vindouras.

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Somos 9 Ilhas, temos 9 formas de ver e viver a Viola:

De 12 cordas, de 15 cordas, com 2 ou 3 corações, abertura circular, abertura em forma de sinos, cravelhas de madeira, cravelhas metálicas, cabeça em leque, com espelho, sem espelho, toque com polegar, toque rasgado, toque com indicador, com embutidos em contorno de lira, flor-de-lis, pássaros, coroa do Espírito Santo, Açor…

O limite para a nossa diversidade só existirá quando deixarmos de sonhar, quando deixarmos de criar.

“9 Ilhas 2 Corações” é o nome que escolhi para esta rúbrica semanal.

Não têm de ser os 2 Corações da Viola. É muito mais do que isto.

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Corações que nos unem há séculos, mesmo quando circular entre as Ilhas era privilégio só de alguns, mas em que o bater do pé nos temas mais picadinhos e que convidavam ao baile, ou o aperto forte no peito de quem escutava as “Saudades” era igual. Fosse na Ribeira Quente, fosse na Almagreira, fosse na Fajã Grande ou nos Biscoitos, o Tanger da Viola despertava os mesmos sentimentos…

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O Tanger da Viola sempre uniu os Açorianos.

Falarei da Viola do e no passado, do e no presente e do que se poderá esperar dela no futuro. Em cada semana uma partilha diferente.

Despeço-me com Votos de Bons Anos e Anos Bons, esperando contar com a vossa atenção e leitura semanal.

Rafael Costa Carvalho

Músico e Professor

r_c_carvalho@hotmail.com


 

CDs e Livros de Viola da Terra - Promocao de Natal

Posted by violadaterra on October 26, 2017 at 11:45 AM Comments comments (0)

CDs e Livros de Viola da Terra -

Promoção de Natal

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Christmas Sales

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Books 15€ each (16€ after the 1st of January 2018)

CD 10€ each (12,50 after the 1st of January 2018)

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Novo CD - RELHEIRAS

Posted by violadaterra on July 15, 2017 at 11:25 AM Comments comments (0)

NEW CD - "RELHEIRAS"

NOVO CD - "RELHEIRAS"

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PRÉ VENDA - 15/07/2017 - 21/07/2017

PRESALE - 15/07/2017 - 21/07/2017

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Price 12,50€ until the 21st of July

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Books 15€ each (16€ after the 21st of July)

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Obrigado pela sua atenção.

Thank you for your time.


Rafael Carvalho representa os Acores no Encontro Internacional de Violas de Arame

Posted by violadaterra on April 28, 2017 at 11:40 AM Comments comments (0)

Rafael Carvalho representa os Açores no “Encontro Internacional de Violas de Arame”

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De 2 a 4 de Junho Castro Verde promove o Encontro Internacional de Violas de Arame.

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O Músico, Compositor e Professor Açoriano Rafael Carvalho, natural da Ribeira Quente, estará presente com a Viola da Terra, em representação dos Açores, ao lado de Pedro Mestre (Viola Campaniça/ Alentejo), José Barros (Viola Braguesa/Minho), Vítor Sardinha (Viola de Arame/Madeira), Eduardo Costa (Viola Amarantina/Douro Litoral), Júlio Pereira (Cavaquinho/Minho) e Chico Lobo (Viola Caipira / Minas Gerais, Brasil).


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A selecção dos músicos presentes é uma forma de reconhecimento do trabalho único que estes desenvolvem nas suas Regiões, tentando procurado salvaguardar a origem destas violas, enquanto músicos, investigadores e professores, sendo reconhecido o mérito por parte de várias entidades públicas e privadas, a nível nacional e internacional.

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Esta é a Sétima edição deste evento que, em 2010, esteve nos Açores, é uma organização da ACA – Associação de Cante Alentejano Os Cardadores e irá realizar-se no pólo de Castro Verde do Conservatório Regional do Baixo Alentejo.

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Este “encontro” visa preservar e valorizar a música tradicional através do dedilhar das violas de arame, as quais assumem denominações, formas e sonoridades próprias, que marcam uma dada região do nosso país, desde o Minho ao Alentejo, passando pelo Douro Litoral, Açores e Madeira, e além-fronteiras, como é o caso da viola caipira (Brasil).

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À semelhança das edições anteriores, o “VII Encontro de Violas de Arame” irá contar com Conversas, Oficinas e Concertos, e decorre em simultâneo com o “IV Encontro de Tocadores de Viola Campaniça”.

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A presença da Viola da Terra neste evento é de grande importância uma vez que se junta às suas “irmãs” portuguesas e do brasil, dando a conhecer o trabalho que está a ser desenvolvido nos Açores, a diversidade de eventos a favor da valorização da nossa Viola e a riqueza da música tradicional açoriana e dos seus intérpretes, do passado ao presente. É, ainda, a representação dos Açores que está assegurada e a defesa da nossa Viola e das nossas tradições.

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Ao mesmo tempo, existe uma troca de contactos, conhecimentos e projectos, formando-se amizades que têm contribuído para uma afirmação das Violas de Arame no panorama Regional, Nacional e Internacional.

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O músico Açoriano Rafael Carvalho é professor de Viola da Terra no Conservatório Regional de Ponta Delgada, responsável pela Associação de Juventude Viola da Terra e tem, ainda, 3 livros editados do seu “Método para Viola da Terra”, 2 álbuns a solo: “Origens” e “Paralelo 38”, estando já a preparar um terceiro CD que sairá no Verão composto, quase na sua totalidade, por temas originais em Viola da Terra.


 

 

Rafael Carvalho lanca o seu ultimo livro na sua Terra Natal

Posted by violadaterra on January 14, 2017 at 1:50 PM Comments comments (0)

Rafael Carvalho lança o seu último livro

na sua Terra Natal

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O músico e professor de Viola da Terra, Rafael Carvalho, vai apresentar o seu último livro na sua freguesia, Ribeira Quente, na próxima sexta-feira, dia 20 de janeiro, pelas 20:30, no Salão Nobre da Junta de Freguesia de Ribeira Quente.

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O “Método para Viola da Terra – Avançado” é o terceiro volume desta sua colecção, destinada ao ensino da Viola da Terra nos Açores, por graus de dificuldade, e com uma orientação pedagógica nunca antes produzida no nosso Arquipélago.

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O livro conta com mais de 40 partituras, de temas instrumentais para Viola da Terra e com um grau de dificuldade de execução já mais elevado, contendo ainda propostas de execução de escalas maiores, menores, cromáticas e, por último, dois mapas de acordes para Viola: Um primeiro “Mapa de Acordes em Ré”, para os músicos que utilizam a afinação tradicional das ilhas de São Miguel e Santa Maria e ainda um “Mapa de Acordes em Mi” para os músicos que utilizam a afinação comum às restantes 7 ilhas do Arquipélago. O autor pretende com isto alargar o leque de possíveis estudiosos que possam adoptar os seus 3 livros como base de estudo.

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Na próxima sexta- feira a Junta de Freguesia de Ribeira Quente recebe este evento como, aliás, tem recebido as apresentações dos dois livros anteriores do autor e dos seus dois CDs já editados também. A apresentação do livro estará a cargo do Dr. Rui Fravica, seguindo-se uma breve explicação do autor sobre o seu pensamento base do Método para Viola da Terra que criou. A finalizar a sessão decorrerá um momento musical em trio com Carolina Constância (Violino), César Carvalho (Violão) e Rafael Carvalho (Viola da Terra).

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2017 traz novo CD de Rafael Carvalho:

Apesar de o autor assumir que este terceiro volume é, para já, o último desta sua colecção, anuncia, em primeira mão, que está a trabalhar no seu terceiro CD, a apresentar no final do Verão, e cuja pré-produção iniciou-se em Outubro e as gravações em Dezembro. O CD promete muitos temas originais, como vem sendo hábito, alguns arranjos de temas tradicionais e mais algumas novidades nas explorações sonoras da Viola da Terra e da sua conjugação com outros instrumentos.

 

Associacao de Juventude Viola da Terra faz balanco positivo de 6 anos de existencia

Posted by violadaterra on December 27, 2016 at 1:40 PM Comments comments (0)

Associação de Juventude Viola da Terra faz balanço positivo de 6 anos de existência

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A Associação de Juventude Viola da Terra foi fundada a 20 de Dezembro de 2010, na freguesia de Ribeira Quente, com o intuito de se criar uma entidade que pudesse promover, valorizar e inovar dentro da prática da Viola da Terra na sua localidade, em primeiro lugar, e depois com abrangência mais alargada a toda a ilha de São Miguel, estendendo-se, entretanto, a várias ilhas dos Açores.

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A Associação, responsável por eventos como a “Orquestra de Violas da Terra”, “Conversas à Viola”, “Encontro de Violas Açorianas”, “Violas do Atlântico”, “A Viola que nos Toca” e ainda, mais recentemente, “Encontro de Escolas de Violas da Ilha de São Miguel” refere que, inicialmente, nem todo os seus projectos tiveram a melhor receptividade de apoios, apesar de todos elogiarem o esforço e pertinência dos mesmos, mas que, com o decorrer do tempo e com a apresentação de um trabalho credível, com qualidade e com uma continuidade que tem criado um novo entusiasmo generalizado em torno da Viola, as pessoas começaram a estar mais abertas a receber e a apoiar estas iniciativas.

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A Associação formou-se com elementos da Escola de Violas da Ribeira Quente e do Grupo de Violas da Ribeira Quente.

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Decorridos 6 anos desde a sua formação, a Associação faz um balanço muito positivo do percurso que tem vindo a fazer e das conquistas que tem conseguido para a Viola da Terra, assumindo que, vários dos eventos realizados ultrapassaram em muito as expectativas iniciais do que estava idealizado.

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A entidade defende que todas as suas actividades são importantes, podendo haver algumas mais mediáticas do que outras, mas que o objectivo inerente a cada qual é de valorizar a nossa Viola e os seus executantes e, ao mesmo tempo, desmistificar algumas questões sobre a Viola ser difícil de aprender ou estar direcionada para os mais velhos apenas, o que não é de todo verdade, e, ainda, aproximar as diferentes escolas de Violas e aproximar o diálogo entre tocadores de várias ilhas dos Açores.

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A “Orquestra de Violas da Terra da Ilha de São Miguel” é a nossa iniciativa com maior impacto por envolver cerca de 5 dezenas de tocadores da Ilha de São Miguel, num concerto anual realizado no Teatro Micaelense. Este evento tem por base relacionar os tocadores de Violas, proporcionar a partilha de conhecimentos entre estes e, ainda, possibilitar a aprendizagem de novo repertório a todos. Ao mesmo tempo o concerto final conta com a presença de músicos de outros instrumentos que criam um ambiente musical nunca antes experimentado e que resulta também num alargamento das influências de cada participante e numa maior motivação para que invistam em si próprios no dia-a-dia.

O “Encontro de Violas Açorianas” tem juntado tocadores de cinco ilhas dos Açores, que já percorreram cinco ilhas do Arquipélago, num concerto musical em que se explica a riqueza da Viola nos Açores e a sua diversidade no que diz respeito às técnicas de execução, afinação, construção e repertório.

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O “Violas do Atlântico” já trouxe aos Açores executantes da Viola de Arame Madeirense, Viola Caipira (Brasil), Viola Braguesa, Viola Toeira e Viola Campaniça. Estas trocas de experiências e conhecimentos musicais dos músicos de fora com os músicos da região é sempre muito rica, proporcionando a muitos, ainda, verem instrumentos de que só ouviram falar em livros, mas que estão vivos e a fazer o mesmo percurso e luta de afirmação que a Viola nos Açores.

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São estes e muitos outros eventos como as “Conversas à Viola” que percorreram vários Concelhos da Ilha de São Miguel, e, ainda, os Serões Musicais no Verão em Ponta Delgada e outras Ilhas dos Açores, e até o evento “A Viola que nos Toca”, que ajudam a aproximar a Viola às pessoas, das que cá residem às que nos visitam, e proporcionam aos executantes da Viola um momento musical digno, em palco, a solo, ou acompanhados, mas onde podem partilhar as suas histórias e o seu conhecimento sobre a Viola. Desses eventos têm resultado vários convites a estes executantes, nas suas localidades, para começarem a participar em eventos culturais.

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O último evento criado pela Associação foi o “Encontro de Escolas de Violas da Terra da Ilha de São Miguel, que tem decorrido no mês de Outubro, e onde cada Escola tem a possibilidade de mostrar o trabalho que desenvolve ao longo do ano.

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Todos estes eventos têm criado impacto nas freguesias ou Ilhas que percorrem, uma vez que, normalmente, ajudam a movimentar-se tocadores ou Escolas de Violas para abrir os concertos ou para assistirem a “Workshops”, levando a que, em algumas situações, se tenham criado raízes que já geraram outros grupos e outras iniciativas com a Viola da Terra por base.

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No sentido de criar uma estrutura anual de eventos a Associação criou a “Temporada de Violas da Terra” onde tem organizado, anualmente, todas estas iniciativas, com um cartaz diversificado ao longo do ano, de modo a poder proporcionar a todos um leque variado de eventos e, ainda, ter a Viola sempre em primeiro plano todo o ano.

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Para finalizar, a Associação colabora ainda com muita gente, ajudando com informações sobre a Viola, ajudando a localizar tocadores ou construtores, como o fez para o programa do realizador Tiago Pereira para a RTP2 todo dedicado à Viola da Terra, elaborando projectos de aulas de Viola, e, ainda, adquirindo muito material que tem sido editado com a Viola da Terra, para proceder a ofertas aos jovens ou às entidades que recebem os seus eventos, bem como enviando livros técnicos editados sobre a Viola da Terra para todas as Autarquias dos Açores de forma a constarem das suas Bibliotecas Municipais.

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Tem sido um longo percurso, difícil e com muitos dissabores mas, a custo da persistência dos seus membros, colaboradores, amigos e amantes da Viola nas várias Ilhas, e ainda com os pequenos apoios dos projectos Governamentais, Casas de Espectáculos dos Açores, apoios logísticos de Autarquias, Juntas de Freguesia, Casas do Povo, e muitas outras entidades, bem como uma atenção contínua da Comunicação Social Açoriana, foi possível criar uma série de eventos e uma onda de entusiasmo nunca antes vista nas nossas Ilhas, que nos fazem acreditar que os próximos anos, mantendo-se esta tendência e, pelo menos, os mesmos apoios, poderão trazer, novamente, a Viola da Terra ao local de destaque que sempre mereceu.

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Um obrigado a todos.


Associação de Juventude Viola da Terra.



 

 


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