O pároco passeava devagar pelo quarto, enrolando o seu cigarro.
- Diga lá tudo, Dionísia. As mulheres matam-nas?
Então a excelente matrona declarou que não queria acusar
ninguém! Ela não fora espreitar. Não sabia o que se passava nas casas
alheias. Mas as crianças morriam todas...
- Mas quem vai então entregar uma criança a uma mulher dessas?
A Dionísia sorriu, apiedada daquela inocência de homem.
- Entregam, sim senhor, às dúzias!
Houve um silêncio. O pároco continuava o seu passeio do
lavatório para a janela, de cabeça baixa.
- Mas que proveito tira a mulher, se as crianças morrem? perguntou
de repente. Perde as soldadas...
- É que se lhe paga um ano de criação adiantado, senhor pároco. A
dez tostões ao mês, ou quartinho, segundo as posses...
O pároco, agora encostado à janela, rufava devagar nos vidros.
- Mas que fazem as autoridades, Dionísia?
A boa Dionísia encolheu silenciosamente os ombros.
O pároco então sentou-se, bocejou, e estirando as pernas disse:
- Bem, Dionísia, vejo que a única coisa a fazer é falar à tal ama que
vive ao pé da Ricoça, à Joana Carreira. Eu arranjarei isso...
312
A Dionísia falou ainda nas peças de enxoval que já tinha
comprado por conta do pároco, dum berço muito barato em segunda mão
que vira no Zé Carpinteiro - e ia sair com a carta para o correio, quando o
pároco erguendo-se e galhofando:
- Ó tia Dionísia, essa coisa da tecedeira de anjos é uma história,
hem?
Então a Dionísia escandalizou-se. O senhor pároco sabia que ela
não era mulher de intrigas. Conhecia a tecedeira de anjos há mais de oito
anos, de lhe falar e de a ver na cidade quase todas as semanas. Ainda no
sábado passado a vira sair da taberna do Grego... O senhor pároco já tinha
ido à Barrosa?
Esperou a resposta do pároco, e continuou:
- Pois bem, sabe o começo da freguesia. Há um muro caído. Depois é
um caminho que desce. Ao fundo desse corregozito encontra um poço
atulhado. Adiante, retirada, há uma casita que tem um alpendre. É lá que
ela vive... Chama-se Carlota... Isto é para lhe mostrar que sei, amiguinho!
O pároco ficou toda a manhã em casa, passeando pelo quarto,
alastrando o chão de pontas de cigarros. Ali estava agora diante daquele
episódio fatal, que até aí fora apenas um cuidado distante - dispor do filho!
Era bem grave entregá-lo assim a uma ama desconhecida, na
aldeia. A mãe, naturalmente, havia de querer ir a todo o momento vê-lo, a
ama poderia falar aos vizinhos. O rapaz viria a ser, na freguesia, o filho
do pároco... Algum invejoso, que lhe cobiçasse a paróquia, poderia
denunciá-lo ao senhor vigário-geral. Escândalo, sermão, devassa: e, se não
fosse suspenso, poderia como o pobre Brito ser mandado para longe, para a
serra, outra vez para os pastores... Ah! se o fruto nascesse morto! Que
solução natural e perpétua! E para a criança, uma felicidade! Que destino
podia ele ter neste duro mundo? Era o enjeitado, era o filho do padre. Ele
era pobre, a mãe pobre... O rapaz cresceria na miséria, vadiando,
apanhando o estrume das bestas, remeloso e tosco... De necessidade em
necessidade iria conhecendo todas as formas do inferno humano: os dias
sem pão, as noites regeladas, a brutalidade da taberna, a cadeia por fim.
Uma enxerga na vida, uma vala na morte... E se morresse - era um anjinho
que Deus recolhia ao Paraíso...
E continuava passeando tristemente pelo quarto. Realmente o
nome era bem posto, tecedeira de anjos... Com razão. Quem prepara uma
criança para a vida com o leite do seu peito, prepara-a para os trabalhos e
para as lágrimas... Mais vale torcer-lhe o pescoço, e mandá-la direita para a
eternidade bem-aventurada! Olha ele! Que vida a sua, nesses trinta anos
atrás! Uma infância melancólica, com aquela pega da marquesa de
Alegros; depois a casa na Estrela, com o alarve do tio toucinheiro; e daí as
clausuras do seminário, a neve constante de Feirão, e ali em Leiria tantos
313
transes, tantas amarguras... Se lhe tivessem esmagado o crânio ao nascer,
estava agora com duas asas brancas, cantando nos coros eternos.
Mas enfim não havia que filosofar: era partir para Poiais e falar à ama, à
Sra. Joana Carreira.
Saiu, dirigindo-se para a estrada, sem pressa. Ao pé da ponte veio-lhe
porém de repente a idéia, a curiosidade de ir à Barrosa ver a tecedeira...
Não lhe falaria: examinaria apenas a casa, a figura da mulher, os aspectos
sinistros do sítio... Demais como pároco, como autoridade eclesiástica,
devia observar aquele pecado organizado num recanto de estrada, impune e
rendoso. Podia mesmo denunciá-lo ao senhor vigário-geral ou ao secretário
do governo civil...
Tinha ainda tempo, eram apenas quatro horas. Por aquela tarde
suave e lustrosa fazia-lhe bem um passeio a cavalo. Não hesitou, então; foi
alugar uma égua à estalagem do Cruz; e daí a pouco, de espora no pé
esquerdo, choutava a direito pelo caminho da Barrosa.
Ao chegar ao córrego, de que lhe falara a Dionísia, apeou, foi
andando com a égua pela arreata. A tarde estava admirável; muito alto no
azul, uma grande ave fazia semicírculos vagarosos.
Encontrou enfim o poço atulhado ao pé de dois castanheiros
onde pássaros ainda chilreavam; adiante, num terreno plano, muito isolada,
lá estava a casa com o seu alpendre; o sol declinando batia-lhe na única
janela do lado, acendendo-a num resplendor de ouro e brasa; e, muito
delgado, elevava-se da chaminé um fumo claro no ar sereno.
Uma grande paz estendia-se em redor; no monte, escuro da rama dos
pinheiros baixos, a capelinha da Barrosa punha a alvura alegre da
sua parede muito caiada.
Amaro ia imaginando então a figura da tecedeira; sem saber por
quê, supunha-a muito alta, com um carão trigueiro onde dois olhos de
bruxa refulgiam.
Defronte da casa prendeu a égua à cancela, e olhou pela porta aberta:
era uma cozinha térrea, de grande lareira, com saída para o pátio estradado
de mato onde dois bacorinhos fossavam. Na prateleira da
chaminé rebrilhava a louça branca. Dos lados pendiam grandes caçarolas
de cobre, dum lustro de casa rica. Num velho armário meio aberto
branquejavam pilhas de roupa: e havia tanta ordem que uma claridade
parecia sair do asseio e do arranjo das coisas.
Amaro então bateu forte as palmas. Uma rola pulou assustada, dentro
da sua gaiola de vime pendurada da parede. Depois chamou alto:
- Sra. Carlota!
Imediatamente do lado do pátio uma mulher apareceu, com um
crivo na mão. E Amaro, surpreendido, viu uma agradável criatura de quase
quarenta anos, forte de peitos, ampla de encontros, muito branca no
314
pescoço, com duas ricas arrecadas, e uns olhos negros que lhe lembraram
os de Amélia ou antes o brilho mais repousado dos da S. Joaneira.
Assombrado, balbuciou:
- Creio que me enganei... Aqui é que mora a Sra. Carlota?
Não se enganara, era ela; mas com a idéia que a figura medonha "que
tecia os anjos" devia estar algures, agachada num vão tenebroso da casa,
perguntou ainda:
- Vossemecê vive aqui só?
A mulher olhou-o desconfiada:
- Não senhor, disse por fim, vivo com o meu marido...
Justamente o marido saía do pátio, - medonho, esse, quase anão, com
a cabeça embrulhada num lenço e muito enterrada nos ombros, a face de
uma amarelidão de cera oleosa e lustrosa; no queixo anelavam-se os pêlos
raros duma barba negra; e sob as arcadas fundas sem sobrancelhas,
vermelhejavam dois olhos raiados de sangue, olhos de insônia e
de bebedeira.
- Para o seu serviço, vossa senhoria quer alguma coisa? disse,
muito colado à saia da mulher.
Amaro foi entrando pela cozinha, e tartamudeando uma história que ia
forjando laboriosamente. Era uma parente que ia ter o seu bom sucesso. O
marido não pudera vir falar-lhes porque estava doente... Queria uma ama
para lhes ir para casa, e tinham-lhe dito...
- Não, fora de casa, não. Cá em casa - disse o anão que não
se despegava das saias da mulher, mirando o pároco de lado com o seu
medonho olho injetado.
Ah, então tinham-no informado mal... Sentia; mas o que o
parente queria era uma ama para casa.
Veio dirigindo-se para a égua, devagar; parou, e abotoando o
casacão:
- Mas em casa recebem crianças para criação?... - perguntou ainda.
- Convindo o ajuste, disse o anão que o seguia.
Amaro arranjou a espora no pé, deu um puxão ao estribo,
demorando-se, rondando em tomo da cavalgadura:
- É necessário trazer-lha cá, já se sabe.
O anão voltou-se, trocou um olhar com a mulher que ficara à
porta da cozinha.
- Também se lhe vai buscar, disse.
Amaro batia palmadas no pescoço da égua.
- Mas sendo a coisa de noite, agora com esse frio, é matar a criança...
Então os dois, falando ao mesmo tempo, afirmaram que não lhe fazia
mal. Havendo, já se sabe, carinho e agasalho...
315
Amaro cavalgou vivamente a égua, deu as boas-tardes e trotou
pelo córrego.
···
Amélia agora começava a andar assustada. De dia e de noite só
pensava naquelas horas, que se avizinhavam, em que devia sentir
chegarem as dores. Sofria mais que durante os primeiros meses; tinha
tonturas, perversões de gosto - que o doutor Gouveia observava, franzindo
a testa descontente. As noites eram más, numa turbação de pesadelos. Já
não eram as alucinações religiosas: isso cessara numa súbita aplacação de
todo o terror devoto: não sentiria menos temor de Deus, se já fosse uma
santa canonizada. Eram outros medos, sonhos em que o parto se lhe
representava de modos monstruosos: ora era um ser medonho que lhe
saltava das entranhas, metade mulher e metade cabra; ora era uma cobra
infindável que lhe saía de dentro, durante horas, como uma fita de léguas,
enrolando-se no quarto em roscas sucessivas que ganhavam a altura do
teto; e acordava em tremuras nervosas que a deixavam prostrada.
Mas ansiava por ter a criança. Estremecia à idéia de ver um dia
inesperadamente a mãe aparecer na Ricoça. Ela escrevera-lhe, queixandose
do senhor cônego que a retinha na Vieira, dos temporais que já
reinavam, da solidão que se ia fazendo na praia. Além disso D. Maria da
Assunção voltara; felizmente, uma noite providencialmente gelada dera-lhe
durante a jornada uma inflamação dos brônquios - e estava de cama para
semanas, segundo dizia o doutor Gouveia. O Libaninho, esse, também
viera à Ricoça; e saíra lastimando-se de não ter visto a Amelinha "que tinha
nesse dia enxaqueca".
- Se isto demora mais quinze dias, vem-se a descobrir tudo, dizia ela,
choramigando, a Amaro.
- Paciência, filha. Não se pode forçar a natureza...
- O que tu me tens feito sofrer! suspirava ela, o que tu me tens
feito sofrer!
Ele calava-se resignado - muito bom, muito temo agora com
ela. Vinha-a ver quase todas as manhãs, porque não queria pelas tardes
encontrar o abade Ferrão.
Tranqüilizara-a a respeito da ama, dizendo-lhe que falara à mulher da
Ricoça inculcada pela Dionísia. Era uma escolha rica a Sra. Joana Carreira!
Mulher forte como um carvalho, com barricas de leite, e dentes
de marfim...
- Fica-me tão longe para vir ver depois a criança... - suspirava ela.
Tomavam-na agora pela primeira vez entusiasmos de mãe.
Desesperava-se em não poder ela mesma costurar o resto do enxoval.
316
Queria que o rapaz - porque havia de ser um rapaz! - se chamasse Carlos.
Cismava-o já homem, e oficial de cavalaria. Enternecia-se com a esperança
de o ver gatinhar...
- Ai, eu é que o queria criar, se não fosse a vergonha!...
- Vai muito bem para onde vai, dizia Amaro.
Mas o que a torturava, a fazia chorar todos os dias era a idéia de
ele ser um enjeitadinho!
Um dia veio ao abade com um plano extraordinário "que Lhe
inspirara Nossa Senhora": ela casaria já com João Eduardo, mas o rapaz
devia por uma escritura adotar o Carlinhos! Que para que o anjinho não
fosse um enjeitado, casava até com um calceteiro da estrada! E apertava
as mãos do abade, numa suplicação loquaz. Que convencesse João
Eduardo, que desse um papá ao Carlinhos! Queria ajoelhar aos pés dele, do
senhor abade, que era o seu pai e o seu protetor.
- Oh, minha senhora, sossegue, sossegue. Esse é também o
meu desejo, como lhe disse. E há-de arranjar-se, mas mais tarde, disse o
bom velho, atarantado daquela excitação.
Depois, daí a dias, foi outra exaltação: descobrira de repente,
uma manhã, que não devia trair Amaro, "porque era o papá do seu
Carlinhos". E disse-o ao abade; fez corar os sessenta anos do bom velho,
palrando muito convencidamente dos seus deveres de esposa para com o
pároco.
O abade, que ignorava as visitas do pároco todas as manhãs,
assombrou-se.
- Minha senhora, que está a dizer? que está a dizer? Caia em si... Que
vergonha!... Imaginei que lhe tinham passado essas loucuras.
- Mas é o pai do meu filho, senhor abade, disse ela, olhando-o muito
séria.
Fatigou então Amaro toda uma semana com uma ternura
pueril. Lembrava-lhe cada meia hora que era o "papá do seu Carlinhos".
- Bem sei, filha, bem sei, dizia ele impaciente. Obrigado. Não
me gabo da honra...
Ela chorava, então, aninhada no sofá. Era necessária toda uma
complicação de carícias para a calmar. Fazia-o sentar num banquinho
junto dela; tinha-o ali como um boneco, contemplando-o, coçando-lhe
devagarinho a coroa; queria que se tirasse a fotografia ao Carlinhos para a
trazerem ambos numa medalha ao pescoço; e se ela morresse, ele havia de
levar o Carlinhos à sepultura, ajoelhá-lo, pôr-lhe as mãozinhas, fazê-lo
rezar pela mamã. Atirava-se então para a almofada, tapando o rosto com as
mãos:
- Ai, pobre de mim, meu querido filho, pobre de mim!
- Cala-te, que vem gente! dizia-lhe Amaro furioso.
317
Ah, aquelas manhãs na Ricoça! Eram para ele como uma
penalidade injusta. Ao entrar tinha de ir à velha escutar-lhe as lamúrias.
Depois, era aquela hora com Amélia, que o torturava com as pieguices dum
sentimentalismo histérico, - estirada no sofá, grossa como um tonel, com a
face intumescida, os olhos papudos...
Numa dessas manhãs, Amélia, que se queixava de cãibras, quis
dar um passeio pelo quarto apoiada a Amaro: e ia-se arrastando, enorme
no seu velho robe-de-chambre, quando se sentiram, embaixo no caminho,
passos de cavalos; chegaram à janela - mas Amaro recuou vivamente,
deixando Amélia que embasbacara com a face contra a vidraça. Na
estrada galhardamente montado numa égua baia, passava João Eduardo de
paletó branco e chapéu alto; ao lado trotavam os dois Morgaditos, um num
pônei, outro acorreado num burro; e atrás, a distância, num passo de
respeito e de cortejo, um criado de farda, de bota de cano e esporões
enormes, com uma libré muito larga que lhe fazia na ilharga rugas
grotescas, e no chapéu a roseta escarlate. Ela ficara assombrada, seguindoos
até que as costas do lacaio desapareceram à esquina da casa. Sem uma
palavra, veio sentar- se no sofá. Amaro, que continuava passeando pelo
quarto, teve então um risinho sarcástico:
- O idiota, de lacaio à retaguarda!
Ela não respondeu, muito escarlate. E Amaro, chocado, saiu
atirando com a porta, foi para o quarto de D. Josefa contar-lhe a cavalgada,
e vituperar o Morgado.
- Um excomungado de criado de farda! exclamava a boa
senhora, com as mãos apertadas na cabeça. Que vergonha, senhor pároco,
que vergonha para a nobreza destes reinos!
Desde esse dia Amélia não tornou a choramigar, se pela manhã
o senhor pároco não vinha. Quem esperava agora com impaciência era o
Sr. abade Ferrão, pela tarde. Apoderava-se dele, queria-o numa cadeira
junto ao canapé: e depois de rodeios demorados de ave que tenteia a presa,
caía sobre a pergunta fatal - se tinha visto o Sr. João Eduardo?
Queria saber o que ele dissera, se falara nela, se a avistara à
janela. Torturava-o com curiosidades sobre a casa do Morgado, a mobília
da sala, o número de lacaios e de cavalos, se o criado de farda servia à
mesa...
E o bom abade respondia com paciência - contente de a ver
esquecida do pároco, ocupada de João Eduardo: tinha agora a certeza
que aquele casamento se faria: ela evitava, de resto, pronunciar sequer o
nome de Amaro, e uma vez mesmo respondeu ao abade que lhe perguntava
se o senhor pároco voltara à Ricoça:
- Ai, vem pela manhã ver a madrinha... Mas eu não lhe apareço, que
nem estou decente...
318
Todo o tempo que podia estar de pé, passava-o agora à janela,
muito arranjada da cinta para cima que era o que se podia ver da estrada -
enxovalhada das saias para baixo. Estava esperando João Eduardo, os
Morgados e o lacaio; e tinha de vez em quando, com efeito, o gozo de os
ver passar, naquele passo bem lançado de cavalos de preço, sobretudo o da
égua baia de João Eduardo, que ele defronte da Ricoça fazia sempre ladear,
de chicote atravessado e perna à Marialva, como lhe ensinara o
Morgado. Mas era o lacaio, sobretudo, que a encantava: e com o nariz nos
vidros seguia-o num olhar guloso, até que à volta da estrada via
desaparecer o pobre velho, de dorso corcovado, com a gola da farda até à
nuca e as pernas bamboleantes.
E para João Eduardo que delícia aqueles passeios com os
Morgaditos, na égua baia! Nunca deixava de ir à cidade: fazia-lhe bater o
coração o som das ferraduras sobre o lajedo: ia passar diante da Amparo da
botica, diante do cartório do Nunes, que tinha a sua banca ao pé da janela,
diante da Arcada, diante do senhor administrador que lá estava na varanda
de binóculo para a Teles - e o seu desgosto era não poder entrar com a
égua, os Morgaditos e o lacaio pelo escritório do doutor Godinho que era
no interior da casa.
Foi um dia, depois dum desses passeios triunfais, que voltando
às duas horas da Barrosa, ao chegar ao Poço das Bentas e ao subir para o
caminho de carros, viu de repente o Sr. padre Amaro que descia montado
num garrano. Imediatamente João Eduardo fez caracolar a égua. O caminho
era tão estreito, que apesar de se chegarem às sebes quase roçaram os
joelhos - e João Eduardo pôde então, do alto da sua égua de cinqüenta
moedas, agitando ameaçadoramente o chicote, esmagar com um olhar o
padre Amaro que se encolhia muito pálido, com a barba por fazer, a face
biliosa, esporeando ferozmente o garrano ronceiro. No alto do caminho
João Eduardo ainda parou, voltou-se sobre a sela, e viu o pároco que
apeava à porta do casebre isolado onde há pouco, ao passar, os Morgaditos
tinham rido "do anão".
- Quem vive ali? perguntou João Eduardo ao lacaio.
- Uma Carlota... Má gente, Sr. Joãozinho!
Ao passar na Ricoça, João Eduardo, como sempre, pôs a passo
a égua baia. Mas não viu por trás dos vidros a costumada face pálida sob
o lenço escarlate. As portadas da janela estavam meio cerradas; e ao
portão, desatrelado com os varões em terra, o cabriolé do doutor Gouveia.
···
É que tinha chegado enfim o dial Nessa manhã viera da Ricoça
um moço da quinta com um bilhete de Amélia quase ininteligível -
319
Dionísia depressa, a coisa chegou! Trazia ordem também de ir chamar o
senhor Gouveia. Amaro foi ele mesmo avisar a Dionísia.
Dias antes, tinha-lhe dito que D. Josefa, a própria D. Josefa,
lhe inculcara uma ama - que ele já ajustara, grande mulher, rija como
um castanheiro. E agora combinaram rapidamente que nessa noite Amaro
se postaria com a ama à portinha do pomar, e Dionísia viria dar-lhe a
criança bem atabafada.
- Às nove da noite, Dionísia. E não nos faça esperar! - recomendoulhe
ainda Amaro vendo-a abalar num espalhafato.
Depois voltou a casa e fechou-se no quarto, face a face com
aquela dificuldade que ele sentia como uma coisa viva fixá -lo e interrogálo:
- Que havia de fazer à criança? Tinha ainda tempo de ir aos Poiais
ajustar a outra ama, a boa ama que a Dionísia conhecia; ou podia montar
a cavalo e ir à Barrosa falar à Carlota... E ali estava, diante daqueles
dois caminhos, hesitando numa agonia. Queria serenar, discutir aquele
caso como se fosse um ponto de teologia, pesando-lhe os prós e os
contras: mas tinha temerariamente diante de si, em lugar de dois
argumentos, duas visões: - a criança a crescer e a viver nos Poiais, ou a
criança esganada pela Carlota a um canto da estrada da Barrosa... - E,
passeando pelo quarto, suava de angústia, quando no patamar a voz
inesperada do Libaninho gritou:
- Abre; parocozinho, que sei que estás em casa!
Foi necessário abrir ao Libaninho, apertar-lhe a mão, oferecerlhe
uma cadeira. Mas o Libaninho felizmente não se podia demorar.
Passara na rua, e subira a saber se o amigo pároco tinha noticia daquelas
santinhas da Ricoça.
- Vão bem, vão bem, disse Amaro que obrigava a face a sorrir,
a prazentear.
- Eu não tenho podido ir lá, que tenho andado mais ocupado!... Estou
de serviço no quartel... Não te rias, parocozinho, que estou lá fazendo muita
virtude... Meto-me com os soldadinhos, falo-lhes das chagas de Cristo...
- Andas a converter o regimento, disse Amaro que mexia nos
papéis da mesa, passeava, numa inquietação de animal preso.
- Não é para as minhas forças, pároco, que se eu pudesse!...
Olha, agora vou eu levar a um sargento uns bentinhos... Foram benzidos
pelo Saldanhinha, vão cheios de virtude. Ontem dei outros iguais a um
anspeçada, perfeito rapaz, um amor de rapaz. Pus-lhos eu mesmo por baixo
da camisola. Perfeito rapaz!...
- Devias deixar esses cuidados pelo regimento ao coronel,
disse Amaro abrindo a janela, abafando de impaciência.
320
- Credo, olha o ímpio! Se o deixassem desbatizava o regimento. Pois
adeus, parocozinho. Estás amarelinho, filho... Precisas purga, eu sei o que
isso é.
Ia a sair, mas à porta, parando:
- Ai, dize cá, parocozinho, dize cá: tu ouviste alguma coisa?
- De quê?
- Foi o padre Saldanha que mo disse. Diz que o nosso chantre
declarara (palavras do Saldanhinha) que lhe constava que ia na cidade um
escândalo com um senhor eclesiástico... Mas não disse quem nem o quê...
O Saldanha qui-lo sondar, mas o chantre diz que recebera só uma
denúncia vaga, sem nome... Tenho estado a pensar: quem será?
- Pataratas do Saldanha...
- Ai, filho ! Deus queira que sejam. Que quem folga, são os
ímpios... Quando fores pela Ricoça dá recados àquelas santinhas...
E pulou pelos degraus a ir levar "a virtude" ao batalhão.
Amaro ficara aterrado. Era ele decerto, eram os seus amores
com Amélia que já iam chegando ao vigário-geral em denúncias tortuosas!
E ali vinha agora aquele filho, criado a meia légua da cidade, ficar
como uma prova viva!... Parecia-lhe extraordinário, quase sobrenatural, ter
o Libaninho, que em dois anos não lhe viera a casa duas vezes, ter o
Libaninho entrado com aquela nova terrível, quando ele estava ali numa
batalha com a consciência. Era como a Providência, que sob a forma
grotesca do Libaninho, vinha trazer-lhe o seu aviso, murmurar-lhe: "Não
deixes viver quem te pode trazer o escândalo! Olha que jà se suspeita de
ti!".
Era decerto Deus apiedado que não queria que houvesse na
terra mais um enjeitado, mais um miserável, - e que reclamava o seu
anjo!...
Não hesitou: partiu para a estalagem do Cruz, e daí a cavalo para
a casa de Carlota.
Demorou-se lá até às quatro horas.
De volta a casa atirou o chapéu para cima da cama, e sentiu
enfim um alívio de todo o seu ser. Estava acabado! Lá falara à Carlota e
ao anão; lá lhe pagara um ano adiantado; agora era esperar pela noite!
Mas na solidão do quarto toda a sorte de imaginações mórbidas
o assaltavam: via a Carlota a esganar a criancinha roxa; via os cabos de
polícia mais tarde a desenterrar o cadáver, o Domingos da administração
redigindo sobre um joelho o auto de corpo de delito, e ele, de batina,
arrastado para cadeia de S. Francisco, em ferros, ao lado do anão! Tinha
quase vontade de montar a cavalo, voltar à Barrosa desfazer o ajuste. Mas
uma inércia retinha-o. Depois, nada o forçava à noite a entregar a criança
321
à Carlota... Podia levá-la bem agasalhada à Joana Carreira, a boa ama
dos Poiais...
Para escapar àquelas idéias que lhe faziam sob o crânio um ruído de
tormenta, saiu, foi ver Natário que já se erguia - e que lhe gritou
imediatamente do fundo da poltrona:
- Então você viu, Amaro? O idiota, de lacaio atrás!
João Eduardo passara-lhe na rua, na égua baia, com os Morgadinhos;
e Natário desde então rugia de impaciência de estar ali amarrado à cadeira e
não poder recomeçar a campanha, expulsá-lo por uma boa intriga da casa
do Morgado, arrancar-lhe a égua e o lacaio.
- Mas não as perde, em Deus me dando pemas...
- Deixe lá o homem, Natário, disse Amaro.
Deixá-lo! quando tinha uma idéia prodigiosa - que era provar
ao Morgado, com documentos, que o João Eduardo era um beato! Que
lhe parecia, ao amigo Amaro?
Era engraçado, com efeito. O homem não deixava de o merecer,
só pela maneira como olhava para a gente de bem, do alto da égua... -
E Amaro fazia-se vermelho, ainda indignado do encontro, de manhã,
no caminho de carros da Barrosa.
- Está claro! exclamou Natário. Para que somos nós sacerdotes
de Cristo? Para exaltar os humildes e derrubar os soberbos.
Dali, Amaro foi ver D. Maria da Assunção - que já se erguera
também - que lhe fez a história da sua bronquite e a enumeração dos
últimos pecados: o pior era que, para se distrair um bocado na
convalescença, recostava-se por trás da vidraça, e um carpinteiro que
morava defronte embasbacava para ela; e por influência do maligno, não
tinha forças para se retirar. para dentro, e vinham-lhe pensamentos maus...
- Mas vossa senhoria não está com atenção, senhor pároco.
- Ora essa, minha senhora!
E apressou-se a pacificar-lhe os escrúpulos - porque a
salvação daquela alma idiota era para ele um emprego melhor que a mesma
paróquia.
Já escurecia quando entrou em casa. A Escolástica queixou-se
da demora que lhe esturrara o jantar. Mas Amaro tomou apenas um copo
de vinho e uma garfada de arroz, que engoliu de pé, olhando com terror
pela janela a noite que impassivelmente caia.
Entrava no quarto a ver se os candeeiros já estavam acesos, quando o
coadjutor apareceu. Vinha falar-lhe sobre o batizado do filho do
Guedes, que estava marcado para o dia seguinte às nove horas.
- Trago luz? - disse de dentro a criada sentindo a visita.
- Não! gritou logo Amaro.
322
Temia que o coadjutor visse a alteração que sentia nas faces, ou
que se instalasse para toda a noite.
- Diz que vem na Nação de anteontem um artigo muito bom -
observou o coadjutor, grave.
- Ah! fez Amaro.
Passeava no seu trilho costumado, do lavatório para a janela;
parava às vezes a rufar nos vidros; já se tinham acendido os candeeiros.
Então o coadjutor, chocado com aquela treva do quarto e
aquele passear de fera numa jaula, ergueu-se, e com dignidade:
- Estou a incomodar talvez...
- Não!
E o coadjutor satisfeito sentou-se, com o seu guarda-chuva entre
os joelhos.
- Agora anoitece mais cedo, disse.
- Anoitece...
Enfim Amaro desesperado declarou-lhe que tinha uma
enxaqueca odiosa, que se ia encostar: e o homem saiu, depois de lhe
lembrar ainda o batizado do menino do seu amigo Guedes.
Amaro partiu logo para a Ricoça. Felizmente a noite estava
tenebrosa e quente, anunciando chuva. Ia agora tomado duma esperança
que lhe fazia bater o coração: era que a criança nascesse mortal E era bem
possível. A S. Joaneira em nova tivera duas crianças mortas; a ansiedade
em que vivera Amélia devia ter perturbado a gestação. E se ela morresse
também? Então a esta idéia, que nunca lhe acudira, invadiu-o
bruscamente uma piedade, uma ternura por aquela boa rapariga que o
amava tanto, e que agora, por obra dele, gritava dilacerada de dores. E
todavia, se ambos morressem, ela e a criança, era o seu pecado e o seu erro
que caíam para sempre nos escuros abismos da eternidade... Ele ficava,
como antes da sua vinda a Leiria, um homem tranqüilo, ocupado da sua
igreja, duma vida limpa e lavada como uma página branca!
Parou junto ao casebre em ruínas à beira da estrada, onde devia
estar a pessoa que da Barrosa vinha buscar a criança: não se tinha decidido
se seria o homem ou a Carlota: e Amaro receava encontrar o anão, para
lhe levar o filho, com aqueles olhos raiados dum sangue mau. Falou para
dentro, para as trevas do casebre.
- Olá!
Foi um alívio quando a clara voz da Carlota disse na negrura:
- Cá está!
- Bem, é esperar, Sra. Carlota.
Estava contente: parecia-lhe que não tinha nada a temer, se o
filho partisse aninhado contra aquele robusto seio de quarentona fecunda,
tão fresca e tão lavada.
323
Foi então rondar a casa. Estava apagada e muda, como um
empastamento mais denso de sombra naquela lúgubre noite de Dezembro.
Nem uma fenda de luz saía da janelas do quarto de Amélia. No ar muito
pesado nenhuma folhagem ramalhava. E a Dionísia não aparecia.
Aquela demora torturava-o. Podia passar gente e vê-lo rondar
na estrada. Mas repugnava-lhe ir ocultar-se no casebre em ruínas ao pé
de Carlota. Foi andando ao comprido do muro do pomar, voltou, - e
viu então na porta envidraçada do terraço uma claridade de luz aparecer.
Correu para a portinha verde do pomar que quase imediatamente
se abriu; e a Dionísia, sem uma palavra, pôs-lhe nos braços um embrulho.
- Morta? perguntou ele.
- Qual! Vivo! Um rapagão!
E fechou a porta devagarinho, quando os cães, farejando
rumor, começavam a ladrar.
Então o contato do seu filho, contra o seu peito, desmanchou
como um vendaval todas as idéias de Amaro. O quê! ir dá-lo àquela
mulher, à tecedeira de anjos, que na estrada o atiraria a algum valado, ou
em casa o arremessaria à latrina? Ah! não, era o seu filho!
Mas que fazer, então? Não tinha tempo de correr aos Poiais e acordar
a outra ama... A Dionísia não tinha leite... Não o podia levar para a cidade...
Oh! que desejo furioso de bater àquela porta da quinta, precipitar-se para o
quarto de Amélia, meter-lhe o pequerruchinho na cama, muito agasalhado,
e todos três ficarem ali como no conchego dum céu! Mas quê, era padre!
Maldita fosse a religião que assim o esmagava!
De dentro do embrulho saiu um gemido. Correu então para o casebre
- quase esbarrou com a Carlota, que se apoderou logo da criança.
- Aí está, disse ele. Mas ouça lá. Isto agora é sério. Agora é
outra coisa. Olhe que o não quero morto... É para o tratar. O que se
passou não vale... É para o criar! é para viver. Você tem a sua fortuna...
Trate dele!...
- Não tem dúvida, não tem dúvida, dizia a mulher apressada.
- Escute... A criança não vai bem agasalhada. Ponha-lhe o
meu capote.
- Vai bem, senhor, vai bem.
- Não vai, com mil diabos! É o meu filho! Há-de levar o capote! Não
quero que morra de frio!
Atirou-lho aos ombros com força, traçando-lho sobre o peito, agasalhando
a criança; - e a mulher já enfastiada meteu rapidamente pela estrada.
Amaro ficou ali plantado no meio do caminho, vendo o vulto perderse
na negrura. Então todos os seus nervos, depois daquele choque, se
relaxaram numa fraqueza de mulher sensível - e rompeu a chorar.
324
Muito tempo rondou a casa. Mas ela permanecia na mesma
escuridão, naquele silêncio que o aterrava. Depois, triste e fatigado, veio
voltando para a cidade, quando batiam as dez badaladas na Sé.
···
A essa hora, na sala de jantar da Ricoça, o doutor Gouveia
ceava tranqüilamente o frango assado que lhe preparara a Gertrudes, para
depois das canseiras do dia. O abade Ferrão, sentado junto da mesa,
assistia-lhe à ceia; viera munido dos sacramentos para o caso de haver
perigo. Mas o doutor estava satisfeito; durante as oito horas de dores a
rapariga mostrara- se corajosa; o parto fora feliz, de resto, e saíra um
rapagão que fazia muita honra ao papá.
O bom abade Ferrão baixava castamente os olhos àqueles
detalhes, no seu pudor de sacerdote.
- E agora, dizia o doutor trinchando o peito do frango, agora que eu
introduzi a criança no mundo, os senhores (e quando digo os
senhores, quero dizer a Igreja) apoderam-se dele e não o largam até a
morte. Por outro lado, ainda que menos sofregamente, o Estado não o perde
de vista... E aí começa o desgraçado a sua jornada do berço à sepultura,
entre um padre e um cabo de polícia!
O abade curvou-se, e tomou uma estrondosa pitada preparandose
para a controvérsia.
- A Igreja, continuava o doutor com serenidade, começa, quando a
pobre criatura ainda nem tem sequer consciência da vida, por lhe
impor uma religião...
O abade interrompeu, meio sério, meio rindo:
- Ó doutor, ainda que não seja senão por caridade com a sua
alma, devo adverti-lo que o sagrado Concílio de Trento, cânon décimo
terceiro, comina a pena de excomunhão contra todo o que disser que o
batismo é nulo, por ser imposto sem a aceitação da razão.
- Tomo nota, abade. Eu estou acostumado a essas amabilidades do
Concílio de Trento para comigo e outros colegas...
- Era uma assembléia respeitável! acudiu o abade já escandalizado.
- Sublime, abade. Uma assembléia sublime. O Concílio de Trento e a
Convenção foram as duas mais prodigiosas assembléias de homens que a
terra tem presenciado...
O abade fez uma visagem de repugnância àquele cotejo
irreverente entre os santos autores da doutrina e os assassinos do bom rei
Luís XVI.
Mas o doutor prosseguiu:
325
- Depois, a Igreja deixa a criança em paz algum tempo enquanto ela
faz a sua dentição e tem o seu ataque de lombrigas...
- Vá, vá, doutor! murmurava o abade, escutando-o pacientemente, de
olhos cerrados - como significando "anda, anda, enterra bem essa alma no
abismo de fogo e pez"!
- Mas quando se manifestam no pequeno os primeiros sintomas
de razão, continuava o doutor, quando se torna necessário que ele
tenha, para o distinguir dos animais, uma noção de si mesmo e do
Universo, então entra-lhe a Igreja em casa e explica-lhe tudo! Tudo! Tão
completamente, que um gaiato de seis anos que não sabe ainda o bê-a-bá
tem uma ciência mais vasta, mais certa, que as reais academias combinadas
de Londres, Berlim e Paris! O velhaco não hesita um momento para dizer
como se fez o Universo e os seus sistemas planetários; como apareceu na
Terra a criação; como se sucederam as raças; como passaram as revoluções
geológicas do globo; como se formaram as línguas; como se inventou a
escrita... Sabe tudo: possui completa e imutável a regra para dirigir todas as
ações e formar todos os juízos; tem mesmo a certeza de todos os mistérios;
ainda que seja míope como uma toupeira vê o que se passa na profundidade
dos céus e no interior do globo; conhece, como se não tivesse feito senão
assistir a esse espetáculo, o que lhe há-de suceder depois de morrer... Não
há problema que não decida... E quando a Igreja tem feito deste marmanjo
uma tal maravilha de saber, manda-o então aprender a ler... O que eu
pergunto é: para quê?
A indignação tinha emudecido o abade.
- Diga lá, abade, para que os mandam os senhores ensinar a
ler? Toda a ciência universal, o res scibilis, está no Catecismo: é meter-lho
na memória, e o rapaz possui logo a ciência e consciência de tudo...
Sabe tanto como Deus... De fato, é Deus mesmo.
O abade pulou.
- Isso não é discutir, exclamou, isso não é discutir!... Isso são
chalaças à Voltaire! Essas coisas devem-se tratar mais de alto...
- Como chalaças, abade? Tome um exemplo: a formação das línguas.
Como se formaram? Foi Deus, que descontente com a Torre de Babel...
Mas a porta da sala abriu-se, e apareceu a Dionísia. Havia pouco
o doutor tinha-lhe dado uma desanda no quarto de Amélia; e agora a
matrona falava-lhe sempre encolhida de terror.
- Senhor doutor, disse ela no silêncio que se fez, a menina acordou e
diz que quer o filho.
- E então? A criança levaram-na, não?
- A criança levaram-na... disse a Dionísia.
- Bem, acabou-se...
Dionísia ia fechar a porta, mas o doutor chamou-a.
326
- Ouça lá, diga-lhe que a criança vem amanhã... Que amanhã
sem falta lha trazem. Minta. Minta como um cão; aqui o senhor abade
dá licença... Que durma, que sossegue.
A Dionísia retirou-se. Mas a controvérsia não recomeçou:
diante daquela mãe que acordava depois da fadiga do parto e reclamava o
seu filho, o filho que lhe tinham levado para longe e para sempre, os
dois velhos esqueceram a Torre de Babel e a formação das línguas. O
abade, sobretudo, parecia comovido. Mas o doutor não tardou, sem
piedade, a lembrar-lhe que eram aquelas as conseqüências da situação do
padre na sociedade...
O abade baixou os olhos, ocupado na sua pitada, sem
responder, como ignorando que houvesse um padre naquela história infeliz.
O doutor, então, segundo a sua idéia, discursou contra a preparação e
educação eclesiástica.
- Aí tem o abade uma educação dominada inteiramente pelo
absurdo: resistência às mais justas solicitações da natureza, e resistência
aos mais elevados movimentos da razão. Preparar um padre é criar um
monstro que há-de passar a sua desgraçada existência numa batalha
desesperada contra os dois fatos irresistíveis do Universo - a força da
Matéria e a força da Razão!
- Que está o senhor a dizer? exclamou assombrado o abade.
- Estou a dizer a verdade. Em que consiste a educação dum
sacerdote? Primo: em o preparar para o celibato e para a virgindade; isto
é, para a supressão violenta dos sentimentos mais naturais. Secundo: em
evitar todo o conhecimento e toda a idéia que seja capaz de abalar a fé
católica; isto é, a supressão forçada do espírito de indagação e de exame,
portanto de toda a ciência real e humana...
O abade erguera-se, ferido duma piedosa indignação:
- Pois o senhor nega à Igreja a ciência?
- Jesus, meu caro abade, continuou tranqüilamente o doutor, Jesus, os
seus primeiros discípulos, o ilustre S. Paulo representaram em parábolas,
em epístolas, num prodigioso fluxo labial, que as produções do espírito
humano eram inúteis, pueris, e sobretudo perniciosas...
O abade passeava pela sala, indo contra um e outro móvel como um
boi espicaçado, apertando as mãos na cabeça na desolação
daquelas blasfêmias: não se conteve, gritou:
- O senhor não sabe o que diz!... Perdão, doutor, peço-lhe
humildemente perdão... O senhor faz-me cair em pecado mortal... Mas isso
não é discutir... Isso é falar com a leviandade dum jornalista...
Lançou-se então com calor numa dissertação sobre a sabedoria
da Igreja, os seus altos estudos gregos e latinos, toda uma filosofia
criada pelos santos padres...
327
- Leia S. Basílio! exclamou. Lá verá o que ele diz dos estudos
dos autores profanos, que são a melhor preparação para os estudos
sagrados! Leia a História dos mosteiros na meia-idade! Era lá que estava a
ciência, a filosofia...
- Mas que filosofia, senhor, mas que ciência! Por filosofia meia dúzia
de concepções dum espírito mitológico, em que o misticismo é posto em
lugar dos instintos sociais... E que ciência! Ciência de
comentadores, ciência de gramáticos... Mas vieram outros tempos,
nasceram ciências novas que os antigos tinham ignorado, a que o ensino
eclesiástico não oferecia nem base nem método, estabeleceu-se logo o
antagonismo entre elas e a doutrina católica!... Nos primeiros tempos, a
Igreja ainda tentou suprimi-las pela perseguição, a masmorra, o fogo!
Escusa de se torcer, abade... O fogo, sim, o fogo e a masmorra. Mas agora
não o pode fazer e limita-se a vituperá-las em mau latim... E no entanto
continua a dar nos seus seminários e nas suas escolas e ensino do passado,
o ensino anterior a essas ciências, ignorando-as, e desprezando-as,
refugiando-se na escolástica... Escusa de apertar as mãos na cabeça...
Estranha ao espírito moderno, hostil nos seus princípios e nos seus métodos
ao desenvolvimento espontâneo dos conhecimentos humanos... O senhor
não é capaz de negar isso! Veja o Syllabus no seu cânone décimo terceiro...
A porta abriu-se timidamente; era ainda a Dionísia:
- A pequena está a choramigar, diz que quer a criança.
- Mau, mau! disse o doutor.
E depois dum momento:
- Que tal aspecto tem ela? Está corada? Está inquieta?
- Não senhor, está bem. Só a choramigar, a falar no pequeno...
Diz que o quer hoje por força...
- Converse com ela, distraia-a... Veja se ela adormece...
A Dionísia retirou-se; e o abade logo com cuidado:
- Ó doutor, supõe que lhe possa fazer mal o afligir-se?
- Pode-lhe fazer mal, abade, pode - disse o doutor que rebuscava na
sua farmácia portátil. Mas eu vou-a fazer dormir... Pois é verdade, a Igreja
hoje é uma intrusa, abade!
O abade tornou a levar as mãos á cabeça.
- Escusa de ir mais longe, abade. Veja a Igreja em Portugal. É
grato observar-lhe o estado de decadência...
Pintou-lho a largos traços, de pé, com o seu frasco na mão. A
Igreja fora a Nação; hoje era uma minoria tolerada e protegida pelo
Estado. Dominara nos tribunais, nos conselhos da Coroa, na fazenda, na
armada, fazia a guerra e a paz; hoje um deputado da maioria tinha mais
poder que todo o clero do reino. Fora a ciência no país; hoje tudo o que
sabia era algum latim macarrônico. Fora rica, tinha possuído no campo
328
distritos inteiros e ruas inteiras na cidade; hoje dependia para o seu triste
pão diário do ministro da Justiça, e pedia esmola à porta das capelas.
Recrutara-se entre a nobreza, entre os melhores do reino; e hoje, para reunir
um pessoal, via-se no embaraço e tinha de o ir buscar aos enjeitados da
Misericórdia. Fora a depositária da tradição nacional, do ideal coletivo da
pátria; e hoje, sem comunicação com o pensamento nacional (se é que o há)
era uma estrangeira, uma cidadã de Roma, recebendo de lá a lei e o
espírito...
- Pois se está assim tão prostrada, mais uma razão para a amar! -
disse o abade, erguendo-se escarlate.
Mas a Dionísia tinha de novo aparecido à porta.
- Que temos mais?
- A menina está-se a queixar dum peso na cabeça. Diz que
sente faíscas diante dos olhos...
O doutor então imediatamente, sem uma palavra, seguiu a
Dionísia. O abade, só, passeava pela sala ruminando toda uma
argumentação erriçada de textos, de nomes formidáveis de teólogos, que ia
fazer desabar sobre o doutor Gouveia. Mas, meia hora passou, a luz do
candeeiro ia esmorecendo, e o doutor não voltou.
···
Então aquele silêncio da casa, onde só o som dos seus passos sobre o
soalho da sala punha uma nota viva, começou a impressionar o
velho. Abriu a porta devagarinho, escutou; mas o quarto de Amélia era
muito afastado, ao fim da casa, ao pé do terraço; não vinha de lá nem
rumor nem luz. Recomeçou o seu passeio solitário na sala, numa tristeza
indefinida que o ia invadindo. Desejaria bem ir ver também a doente; mas o
seu caráter, o pudor sacerdotal não lhe permitiam aproximar-se sequer
duma mulher no leito, em trabalho de parto, a não ser que o perigo
reclamasse os sacramentos. Outra hora mais longa, mais fúnebre, passou.
Então, em pontas de pés, corando na escuridão daquela audácia, foi até ao
meio do corredor: agora, aterrado, sentia no quarto de Amélia um ruído
confuso e surdo de pés movendo-se vivamente no soalho, como numa luta.
Mas nem um ai, nem um grito. Recolheu à sala, e abrindo o seu Breviário
começou a rezar. Sentiu os chinelos da Gertrudes passarem rapidamente,
numa carreira. Ouviu uma porta a distância bater. Depois o arrastar no
soalho duma bacia de latão. E enfim o doutor apareceu. A sua figura fez
empalidecer o abade: vinha sem gravata, com o colarinho espedaçado; os
botões do colete tinham saltado; e os punhos da camisa, voltados para trás,
estavam todos manchados de sangue.
- Alguma coisa, doutor?
329
O doutor não respondeu, procurando rapidamente pela sala o
seu estojo, com a face animada dum calor de batalha. Ia já sair com o
estojo, mas lembrando-lhe a pergunta ansiosa do abade:
- Tem convulsões, disse.
O abade então deteve-o à porta, e muito grave, muito digno:
- Doutor, se há perigo, peço-lhe que se lembre... É uma alma
cristã em agonia, e eu estou aqui.
- Certamente, certamente...
O abade tomou a ficar só, esperando. Tudo dormia na Ricoça,
D. Josefa, os caseiros, a quinta, os campos em redor. Na sala, um relógio de
parede, enorme e sinistro, que tinha no mostrador a carranca do sol e em
cima sobre o caixilho a figura esculpida em pau de uma coruja pensativa,
um móvel de castelo antigo, bateu meia-noite, depois uma hora. O abade a
cada momento ia até ao meio do corredor: era o mesmo rumor de pés numa
luta; outras vezes um silêncio tenebroso. Voltava então para o seu
Breviário. Meditava naquela pobre rapariga que, além no quarto, estava
talvez no momento que ia decidir da sua eternidade: não tinha ao pé nem a
mãe, nem as amigas: na memória apavorada devia passar-lhe a visão do
pecado: diante dos olhos turvos aparecia-lhe a face triste do Senhor
ofendido: as dores contorciam o seu corpo miserável: e na escuridão em
que ia penetrando, sentia já o hálito ardente da aproximação de Satanás.
Temeroso fim do tempo e da carne! - Então rezava fervorosamente por ela.
Mas depois pensava no outro que fora uma metade do seu pecado, e
que agora na cidade, estirado na cama, ressonava tranqüilamente. E rezava
então também por ele.
Tinha sobre o Breviário um pequeno crucifixo. E contemplava-o
com amor, abismava-se enternecido na certeza da sua força, contra a qual
era bem pouca a ciência do doutor e todas as vaidades da razão!
Filosofias, idéias, glórias profanas, gerações e impérios passam: são como
os suspiros efêmeros do esforço humano: só ela permanece e permanecerá,
a cruz - esperança dos homens, confiança dos desesperados, amparo dos
frágeis, asilo dos vencidos, força maior da humanidade: crux triumphus
adversus demonios, crux oppugnatorum murus...
Então o doutor entrou, muito escarlate, vibrante daquela
tremenda batalha que estava dando lá dentro à morte; vinha buscar outro
frasco; mas abriu a janela, sem uma palavra, para respirar um momento
uma golfada de ar fresco.
- Como vai ela? perguntou o abade.
- Mal, disse o doutor, saindo.
O abade, então, ajoelhou, balbuciou a oração de S. Fulgêncio:
- Senhor, dá-lhe primeiro a paciência, dá-lhe depois a misericórdia...
E ali ficou, com a face nas mãos, apoiado à beira da mesa.
330
A um rumor de passos na sala ergueu a cabeça. Era a Dionísia,
que suspirava, recolhendo todos os guardanapos que encontrava nas
gavetas do aparador.
- Então, senhora, então? perguntou-lhe o abade.
- Ai, senhor abade, está perdidinha... Depois das convulsões
que foram de arrepiar, caiu naquele sono, que é o sono da morte...
E olhando para todos os cantos como para se assegurar da
solidão, disse muito excitada:
- Eu não quis dizer nada... Que o senhor doutor tem um gênio!... Mas
sangrar a rapariga naquele estado é querer matá-la... Que ela tinha perdido
pouco sangue, é verdade... Mas nunca se sangra ninguém em semelhante
momento. Nunca, nunca!
- O senhor doutor é homem de muita ciência...
- Pode ter a ciência que quiser... Eu também não sou nenhuma tola...
Tenho vinte anos de experiência... Nunca me morreu nenhuma nas mãos,
senhor abade... Sangrar em convulsões? Até causa horror!...
Estava indignada. O senhor doutor tinha torturado a criaturinha. Até
lhe quisera administrar clorofórmio...
Mas a voz do doutor Gouveia berrou por ela do fundo do corredor - e
a matrona abalou, com o seu molho de guardanapos.
O medonho relógio, com a sua coruja pensativa, bateu as duas
horas, depois as três... O abade, agora, cedia a espaços a uma fadiga de
velho, cerrando um momento as pálpebras. Mas resistia bruscamente: ia
respirar o ar pesado da noite, olhar aquela treva de toda a aldeia; e voltava a
sentar-se, a murmurar, com a cabeça baixa, as mãos postas sobre o
Breviário:
- Senhor, volta os teus olhos misericordiosos para aquele leito
de agonia...
Foi então Gertrudes que apareceu comovida. O senhor doutor
mandara-a abaixo acordar o moço para pôr a égua ao cabriolé.
- Ai, senhor abade, pobre criaturinha! Ia tão bem, e de repente isto...
Que foi por lhe tirarem o filho... Eu não sei quem é o pai, mas o que sei é
que nisto tudo anda um pecado e um crime!...
O abade não respondeu, orando baixo pelo padre Amaro.
O doutor então entrou com o seu estojo na mão:
- Se quiser, abade, pode ir, disse.
Mas o abade não se apressava, olhando o doutor, com uma
pergunta a bailar-lhe nos lábios entreabertos, e retendo-a por timidez:
enfim, não se conteve, e num tom de medo:
- Fez-se tudo, não há remédio, doutor?
- Não.
331
- É que nós, doutor, não devemos aproximar-nos duma mulher em
parto ilegítimo senão num caso extremo...
- Está num caso extremo, senhor abade, disse o doutor, vestindo já o
seu grande casacão.
O abade então recolheu o Breviário, a cruz - mas antes de sair,
julgando do seu dever de sacerdote pôr diante do médico racionalista a
certeza da eternidade mística que se desprende do momento da morte,
murmurou ainda:
- É neste instante que se sente o terror de Deus, o vão do
orgulho humano...
O doutor não respondeu, ocupado a afivelar o seu estojo.
O abade saiu - mas, já no meio do corredor, voltou ainda, e
falando com inquietação:
- O doutor desculpe... Mas tem-se visto, depois dos socorros da
religião, os moribundos voltarem a si de repente, por uma graça especial...
A presença do médico então pode ser útil...
- Eu ainda não vou, ainda não vou, disse o doutor, sorrindo
involuntariamente de ver a presença da Medicina reclamada para auxiliar a
eficácia da Graça.
Desceu, a ver se estava pronto o cabriolé.
Quando voltou ao quarto de Amélia, a Dionísia e a Gertrudes,
de rojos ao lado da cama, rezavam. O leito, todo o quarto estava
revolvido como um campo de batalha. As duas velas consumidas
extinguiam-se. Amélia estava imóvel, com os braços hirtos, as mãos
crispadas duma dor de púrpura escura - e a mesma cor mais arroxeada
cobria-lhe a face rígida.
E debruçado sobre ela, com o crucifixo na mão, o abade dizia
ainda, numa voz de angústia:
- Jesu, Jesu, Jesu! Lembra-te da graça de Deus! Tem fé na
misericórdia divina! Arrepende-te no seio do Senhor! Jesu, Jesu, Jesu!
Por fim, sentindo-a morta, ajoelhou, murmurando o Miserere.
O doutor que ficara à porta retirou-se devagarinho, atravessou em bicos
de pés o corredor, e desceu à rua, onde o moço segurava a égua atrelada.
- Vamos ter água, senhor doutor, disse o rapaz bocejando de sono.
O doutor Gouveia ergueu a gola do paletó, acomodou o seu estojo no
assento - e daí a um momento o cabriolé rodava surdamente pela estrada,
sob a primeira pancada de chuva, cortando a escuridão da noite com o
darão vermelho das suas lanternas.
XXIV
332
Ao outro dia desde as sete da manhã, o padre Amaro esperava
a Dionísia em casa, postado à janela, com os olhos cravados na esquina
da rua, sem reparar na chuva miudinha que lhe fustigava a face. Mas a
Dionísia não aparecia: e ele teve de partir para a Sé, amargurado e doente,
a batizar o filho do Guedes.
Foi uma pesada tortura para ele ver aquela gente alegre que punha na
gravidade da Sé, mais sombria por esse escuro dia de Dezembro, todo um
rumor mal contido de regozijo doméstico e de festa paterna; o papá Guedes
resplandecente de casaca e gravata branca, o padrinho compenetrado com
uma grande camélia ao peito, as senhoras de gala, e sobretudo a parteira
rechonchuda, passeando com pompa um montão de rendas engomadas e de
laçarotes azuis, onde mal se percebiam duas bochechinhas trigueiras. Ao
fundo da igreja, com o pensamento bem longe da Ricoça e na Barrosa, foi
engorolando à pressa as cerimônias: soprando em cruz sobre a face do
pequerrucho, para expulsar o Demônio que já habitava aquelas carninhas
tenras; impondo-lhe o sal sobre a boca, para que ele se desgostasse para
sempre do sabor amargo do pecado e tomasse gosto a nutrir-se só da
verdade divina; tocando-o com saliva nas orelhas e nas narinas, para que
ele não escutasse jamais as solicitações da carne e jamais respirasse os
perfumes da terra. E em roda, com tochas na mão, os padrinhos, os
convidados, na fadiga que davam tantos latins rosnados à pressa, só se
ocupavam do pequeno, num receio que ele não respondesse com algum
desacato impudente às tremendas exortações que lhe fazia a Igreja sua Mãe.
Amaro, então, pondo de leve o dedo sobre a touquinha branca, exigiu
do pequerrucho que ele, ali em plena Sé, renunciasse para sempre
a Satanás, às suas pompas e às suas obras. O sacristão Matias, que dava em
latim as respostas rituais, renunciou por ele - enquanto o pobre pequerrucho
abria a boquinha a procurar o bico da mama. Enfim o pároco dirigiu-se à
pia batismal seguido de toda a família, das velhas devotas que se tinham
juntado, de gaiatos que esperavam uma distribuição de patacos. Mas foi
toda uma atrapalhação para fazer as unções: a parteira comovida não
atinava a desapertar os laçarotes do chambre, para pôr a nu os
ombrozinhos, o peito do pequeno; a madrinha quis ajudá-la; mas deixou
escorregar a tocha, alastrou de cera derretida o vestido duma senhora, uma
vizinha dos Guedes, que ficou embezerrada de raiva.
- Franciscus, credis? - perguntava Amaro.
O Matias apressou-se a afirmar, em nome de Francisco:
- Credo.
- Franciscus, vis baptisari?
O Matias:
- Volo.
333
Então a água lustral caiu sobre a cabecinha redonda como um
melão tenro: a criança agora perneava numa perrice.
- Ego te baptiso, Franciscus, in nomine Patris... et Filiis... et Spiritus
Sancti.. .
Enfim, acabara! Amaro correu à sacristia a desvestir-se - enquanto a
parteira grave, o papá Guedes, as senhoras enternecidas, as velhas devotas
e os gaiatos saíam ao repique dos sinos; e agachados sob os guarda-chuvas,
chapinhando a lama, lá iam levando em triunfo Francisco, o novo cristão.
Amaro galgou os degraus de casa com o pressentimento que ia
encontrar a Dionísia.
Lá estava, com efeito, sentada no quarto, esperando-o,
amarrotada, enxovalhada da luta da noite e da lama da estrada: e apenas o
viu começou choramigar.
- Que é, Dionísia?
Ela rompeu em soluços, sem responder.
- Morta! exclamou Amaro.
- Ai, fez-se-lhe tudo, filho, fez-se-lhe tudo! gritou enfim a matrona.
Amaro tombou para os pés da cama como morto também.
A Dionísia berrou pela criada. Inundaram-lhe a face de água, de
vinagre. Ele recuperou-se um pouco, muito pálido; afastou-as com a mão,
sem falar; e atirou-se de bruços para sobre o travesseiro, num choro
desesperado, - enquanto as duas mulheres consternadas iam recolhendo à
cozinha.
- Parece que tinha muita amizade à menina, começou a
Escolástica, falando baixo como na casa dum moribundo.
- Costume de ir por lá . Foi hóspede tanto tempo... Ai, eram
como irmãos... - disse a Dionísia, ainda chorosa.
Falaram então de doenças de coração - porque a Dionísia contara à
Escolástica que a pobre menina tinha morrido dum aneurisma rebentado. A
Escolástica também sofria do coração; mas nela eram flatos, dos
maus tratos que lhe dera o marido... Ah, tinha sido bem infeliz também!
- Vossemecê toma uma gotinha de café, Sra. Dionísia?
- Olhe, a falar a verdade, Sra. Escolástica, tomava uma gotinha de
jeropiga...
A Escolástica correu à taberna ao fim da rua, trouxe a jeropiga
num copo de quartilho debaixo do avental; e ambas à mesa, uma
molhando sopas no café, outra escorropichando o copo, concordavam, com
suspiros, que neste mundo tudo eram sustos e lágrimas.
Deram onze horas; e a Escolástica pensava em levar um caldo
ao senhor pároco, quando ele chamou de dentro. Estava de chapéu alto,
com o casaco abotoado, os olhos vermelhos como carvões...
334
- Escolástica, vá a correr ao Cruz que me mande um cavalo...
Mas depressa.
Chamou então a Dionísia: e sentado ao pé dela, quase contra os joelhos da
mulher, com a face rígida e lívida como um mármore, escutou em silêncio
a história da noite - as convulsões de repente, tão fortes que ela, a
Gertrudes e o senhor doutor mal a podiam segurar! o sangue, as prostrações
em que caía! depois a ansiedade da asfixia que a fazia tão roxa como a
túnica duma imagem...
Mas o moço do Cruz chegara com o cavalo. Amaro tirou
duma gaveta, de entre roupa branca, um pequeno crucifixo, e deu-o à
Dionísia que ia voltar à Ricoça para ajudar a amortalhar a menina.
- Que lhe ponham este crucifixo no peito, tinha-mo ela dado...
Desceu, montou; e apenas na estrada da Barrosa despediu a
galope. Não chovia, agora; e entre as nuvens pardas algum raio fraco do sol
de Dezembro fazia brilhar a relva, as pedras molhadas.
Quando chegou ao pé do poço entulhado, donde se avistava a casa da
Carlota, teve de parar, para deixar passar um longo rebanho de ovelhas que
tomavam o caminho; e o pastor, com uma pele de cobra ao ombro e a
borracha a tiracolo, fez-lhe lembrar de repente Feirão, toda a vida passada,
que lhe voltava por fragmentos bruscos - aquelas paisagens afogadas nos
vapores pardacentos da serra; a Joana rindo estupidamente dependurada da
corda do sino; as suas ceias de cabrito assado na Gralheira, com o abade,
defronte da chaminé, onde a lenha verde estalava; os longos dias em que se
desesperava na tristeza da residência, vendo fora sem cessar cair a neve... E
veio-lhe um desejo ansioso dessas solidões da serra, dessa existência de
lobo, longe dos homens e das cidades, sepultado lá com a sua paixão.
A porta de Carlota estava fechada. Bateu, foi de roda chamar,
atirando a voz por cima do telhado dos currais, para o pátio, onde sentia
cacarejar os galos. Ninguém respondeu. Seguiu então pelo caminho da
aldeia, levando a égua pela arreata; parou na taberna, onde uma mulher
obesa fazia meia, sentada à porta. Dentro, no escuro da baiúca, dois
homens com os seus quartilhos ao lado, batiam as cartas numa bisca
renhida; e um rapazola duma amarelidão de sezões, com um lenço
amarrado na cabeça, olhava-lhes o jogo tristemente.
A mulher tinha justamente visto passar a Sra. Carlota, que até
parara a comprar um quartilho de azeite. Devia estar em casa da Micaela,
ao adro. Chamou para dentro; uma rapariguita vesga apareceu detrás da
sombra das pipas.
- Corre, vai à Micaela, dize à Sra. Carlota que está aqui um senhor da
cidade.
Amaro voltou para a porta da Carlota, esperou sentado numa
pedra, com o seu cavalo pela rédea. Mas aquela casa fechada e muda
335
aterrava-o. Foi pôr o ouvido à fechadura, na esperança de ouvir um choro,
uma rabugem de criança. Dentro pesava um silêncio de caverna
abandonada. Mas tranqüilizava-o a idéia que a Carlota teria levado a
criança consigo, para a Micaela. Devia realmente ter perguntado à mulher
na taberna, se a Carlota trazia uma criança ao colo... E olhava a casa bem
caiada, com a sua janela em cima que tinha uma cortininha de cassa, um
luxo tão raro naquelas freguesias pobres; recordava a boa ordem, o
escarolado da louça da cozinha... Decerto, o pequerrucho devia ter também
um berço asseado...
Ah, estava doido decerto na véspera, quando pusera ali, na mesa da
cozinha, quatro libras de ouro, preço adiantado dum ano de criação,
e dissera cruelmente ao anão: "Conto consigo!" Pobre
pequerruchinho!... Mas a Carlota compreendera bem, à noite na Ricoça,
que ele agora queria-o vivo, o seu filho, e criado com mimo!... Todavia não
o deixaria ali, não, sob o olho raiado de sangue do anão... Levá-lo-ia nessa
noite à Joana Carreira dos Poiais...
Que as sinistras histórias da Dionísia, a tecedeira de anjos, eram
uma legenda insensata. A criança estava muito regalada em casa da
Micaela, chupando aquele bom peito de quarentona sã... E vinha-lhe então
o mesmo desejo de deixar Leiria, ir enterrar-se em Feirão, levar consigo a
Escolástica, educar lá a criança como sobrinho, revivendo nele largamente
todas as emoções daquele romance de dois anos; e ali passaria numa paz
triste, na saudade de Amélia, até ir como o seu antecessor, o abade Gustavo
que também criara um sobrinho em Feirão, repousar para sempre no
pequeno cemitério, de Verão sob as flores silvestres, de Inverno sob a neve
branca.
Então a Carlota apareceu; e ficou atônita ao reconhecer Amaro,
sem passar da cancela, com a testa franzida, a sua bela face muito grave.
- A criança? exclamou Amaro.
Depois dum momento, ela respondeu, sem perturbação:
- Nem me fale nisso, que me tem dado um desgosto... Ontem mesmo,
duas horas depois de ter chegado... O pobre anjinho começa a fazer-se
roxo, e ali me morreu debaixo dos olhos...
- Mente! gritou Amaro. Quero ver.
- Entre, senhor, se quer ver.
- Mas que lhe disse eu ontem, mulher?
- Que quer, senhor? Morreu. Veja...
Tinha aberto a porta, muito simplesmente, sem cólera nem
receio. Amaro entreviu num relance, ao pé da chaminé, um berço coberto
com um saiote escarlate.
Sem uma palavra voltou as costas, atirou-se para cima do
cavalo. Mas a mulher, muito loquaz subitamente, rompeu a dizer que tinha
336
ido justamente à aldeia para encomendar um caixãozinho decente... Como
vira que era filho de pessoa de bem, não o quisera enterrar embrulhado
num trapo. Mas enfim, como o senhor ali estava, parecia-lhe razoável que
desse algum dinheiro para a despesa... Uns dois mil-réis que fossem.
Amaro considerou-a um momento com um desejo brutal de a
esganar; por fim meteu-lhe o dinheiro na mão. E ia trotando no
carreiro, quando a sentiu ainda correndo, gritando pst! pst! A Carlota
queria-lhe restituir o capote que ele emprestara na véspera: tinha feito
muito bom serviço, que a criança chegara quente como um rojãozinho...
Infelizmente...
Amaro já a não escutava, esporeando furiosamente a ilharga
da cavalgadura.
Na cidade, depois de apear à porta do Cruz, não entrou em casa. Foi
direito ao paço do bispo. Tinha agora uma idéia só: era deixar
aquela cidade maldita, não ver mais as faces das devotas, nem a fachada
odiosa da Sé...
Foi só ao subir a larga escadaria de pedra do paço, que lhe
lembrou com inquietação o que o Libaninho dissera na véspera da
indignação do senhor vigário-geral, da denúncia obscura... Mas a
afabilidade do padre Saldanha, o confidente do paço, que o introduziu logo
na livraria de sua excelência, tranqüilizou-o. O senhor vigário-geral foi
muito amável. Estranhou o ar pálido e perturbado do senhor pároco!...
- É que tenho um grande desgosto, senhor vigário-geral. Minha irmã
está a morrer em Lisboa. E venho pedir a vossa excelência licença para lá
ir, por uns dias...
O senhor vigário-geral consternou-se com bondade.
- Decerto, consinto... Ah! somos todos passageiros forçados da barca
de Caronte.
Ipse ratem conto subigit, velisque ministrat
Et ferruginea subvectat corpora cymba.
Ninguém lhe escapa... Sinto, sinto... Não me esquecerei de a
recomendar nas minhas orações...
E muito metódico, sua excelência tomou uma nota a lápis.
Amaro, ao sair do paço, foi direito à Sé. Fechou-se na sacristia,
a essa hora deserta: e depois de pensar muito tempo com a cabeça entre
os punhos, escreveu ao cônego Dias:
"Meu caro padre-mestre. - Treme-me a mão ao escrever
estas linhas. A infeliz morreu. Eu não posso, bem vê, e vou-me
embora, porque, se aqui ficasse, estalava-me o coração. Sua
337
excelentíssima irmã lá estará tratando do enterro... Eu, como
compreende, não posso. Muito lhe agradeço tudo... Até um dia, se
Deus quiser que nos tomemos a ver. Por mim conto ir para longe,
para alguma pobre paróquia de pastores, acabar meus dias nas
lágrimas, na meditação e na penitência. Console como puder a
desgraçada mãe. Nunca me esquecerei do que lhe devo, enquanto
tiver um sopro de vida. E adeus, que nem sei onde tenho a cabeça. -
Seu amigo do C. - Amaro Vieira."
''P.S. - A criança morreu também, já se enterrou''.
···
Fechou a carta com uma obreia preta; e depois de arranjar os
seus papéis, foi abrir o grande portão chapeado de ferro, olhar um
momento o pátio, o barracão, a casa do sineiro... As névoas, as primeiras
chuvas já davam àquele recanto da Sé o seu ar lúgubre de Inverno.
Adiantou-se devagar, sob o silêncio triste dos altos contrafortes, espreitou à
vidraça da cozinha do tio Esguelhas: ele lá estava, sentado à chaminé, com
o cachimbo na boca, cuspilhando tristemente para as cinzas. Amaro bateu
de leve nos vidros - e quando o sineiro abriu a porta, aquele interior
conhecido, rapidamente entrevisto, a cortina da alcova da Totó, a escada
que ia para o quarto, agitaram o pároco de tantas recordações e de saudades
tão bruscas, que não pôde falar um momento, com a garganta tomada de
soluços.
- Venho-lhe dizer adeus, tio Esguelhas, murmurou por fim. Vou
a Lisboa, tenho minha irmã a morrer...
E acrescentou com os beiços trêmulos dum choro que ia romper:
- Todas as desgraças vêm juntas. Sabe, a pobre Ameliazinha
lá morreu de repente...
O sineiro emudeceu, assombrado.
- Adeus, tio Esguelhas. Dê cá a mão, tio Esguelhas. Adeus...
- Adeus, senhor pároco, adeus! disse o velho com os olhos arrasados
de água.
Amaro fugiu para casa, contendo-se para não soluçar alto pelas ruas.
Disse logo à Escolástica que ia partir nessa noite para Lisboa. O tio Cruz
devia mandar-lhe um cavalo, para ir tomar o comboio a Chão de Maçãs.
- Eu não tenho senão o dinheiro que é necessário para a jornada. Mas
o que aí me fica em lençóis e toalhas é para você...
A Escolástica, chorando de perder o senhor pároco, quis beijar-lhe a
mão por tanta generosidade: ofereceu-se para fazer a mala...
- Eu mesmo a arranjo, Escolástica, não se incomode.
338
Fechou-se no quarto. A Escolástica, ainda choramigando, foi
logo recolher, examinar as poucas roupas que estavam pelos armários.
Mas Amaro daí a pouco gritou por ela: diante da janela uma harpa e
uma rabeca, em desafinação, tocavam a valsa dos Dois mundos.
- Dê um tostão a esses homens, disse o padre furioso. E diga-lhes que
vão pro inferno... Que está aqui gente doente!
E até às cinco horas a Escolástica não tomou a sentir rumor
no quarto.
Quando o moço do Cruz veio com o cavalo, pensando que o
senhor pároco adormecera, ela foi-lhe bater devagarinho à porta do quarto,
choramigando já da despedida próxima. Ele abriu logo. Estava de capote
aos ombros; no meio do quarto pronta e acorreada a mala de lona que
devia ir à garupa da égua. Deu-lhe um maço de cartas para ir entregar
nessa noite à Sra. D. Maria da Assunção, ao padre Silvério e a Natário: e ia
descer, entre os prantos da mulher, quando sentiu na escada um ruído
conhecido de muleta, e o tio Esguelhas apareceu muito comovido.
- Entre, tio Esguelhas, entre.
O sineiro cerrou a porta, e depois de hesitar um momento:
- Vossa senhoria há-de desculpar, mas... Tinha-me esquecido
de todo, com os desgostos que tenho passado. Já há tempo que achei
no quarto isto, e pensei que...
E meteu na mão de Amaro um brinco de ouro. Ele reconheceu-o logo: era
de Amélia. Muito tempo ela o procurara debalde; soltara-se decerto
nalguma manhã de amor, sobre a enxerga do sineiro. Amaro
então, sufocado, abraçou o tio Esguelhas.
- Adeus! adeus, Escolástica. Lembrem-se por cá de mim. Dê
lembranças ao Matias, tio Esguelhas...
O moço afivelou a maleta ao selim, e Amaro partiu, deixando a
Escolástica e o tio Esguelhas a chorar, ambos à porta.
Mas depois de ter passado os açudes, ao pé duma volta da
estrada, teve de apear para compor o estribo: e ia montar, quando
apareceram dobrando o muro o doutor Godinho, o secretário-geral e o
senhor administrador do concelho, muito amigos agora, e que vinham,
depois do passeio, recolhendo para a cidade. Pararam logo a falar ao senhor
pároco - admirando-se de o ver ali, de maleta na garupa, com ares de
jornada...
- É verdade, disse, vou para Lisboa!
O antigo Bibi e o administrador suspiraram invejando-lhe a
felicidade. - Mas quando o pároco falou da irmã moribunda, afligiram-se
com polidez: e o senhor administrador disse:
339
- Deve estar muito sentido, compreendo... De mais a mais essa outra
desgraça na casa daquelas senhoras suas amigas... A pobre Ameliazinha,
morta assim de repente...
O antigo Bibi exclamou:
- O quê? A Ameliazinha, aquela bonita que morava na Rua da
Misericórdia? Morreu?
O doutor Godinho também o ignorava, e pareceu consternado.
O senhor administrador soubera-o pela sua criada, que o ouvira
da Dionísia. Dizia-se que fora um aneurisma.
- Pois senhor pároco, exclamou Bibi, desculpe se aflijo as suas
crenças respeitáveis, que são as minhas de resto... Mas Deus cometeu um
verdadeiro crime... Levar-nos a rapariga mais bonita da cidade! Que olhos,
senhores! E depois com aquele picantezinho da virtude...
Então, num tom de pêsames, todos lamentaram aquele golpe
que devia ter afetado tanto o senhor pároco.
Ele disse muito grave:
- Senti-o deveras... Conhecia-a bem... E com as suas boas qualidades,
devia fazer, sem dúvida, uma esposa modelo... Senti-o muito!
Apertou silenciosamente as mãos em redor - e enquanto os
cavalheiros recolhiam à cidade, o padre Amaro foi trotando pela estrada,
que já escurecia, para a estação de Chão de Maçãs.
···
Ao outro dia, pelas onze horas, o enterro de Amélia saiu da
Ricoça. Era uma manhã áspera: o céu e os campos estavam afogados numa
névoa pardacenta; e caia muito miúda, uma chuva regelada. Era longe da
quinta à capela dos Poiais. O menino do coro adiante, de cruz alçada,
apressava. se, chapinhando a lama a grandes pernadas; o abade Ferrão, de
estola negra, abrigava-se, murmurando o Exultabunt Domino, sob o
guarda-chuva que sustentava ao lado o sacristão com o hissope; quatro
trabalhadores da quinta, abaixando a cabeça contra a chuva oblíqua,
levavam numa padiola o esquife que tinha dentro o caixão de chumbo; e,
sob o vasto guarda-chuva do caseiro, a Gertrudes de mantéu pela cabeça ia
desfiando as suas contas. Ao lado do caminho o vale triste dos Poiais
cavava-se, todo pardo na neblina, num grande silêncio; e a voz enorme do
vigário, mugindo o Miserere, rolava pela quebrada úmida onde
murmuravam os riachos muito cheios.
Mas às primeiras casas da aldeia os moços do caixão pararam
derreados; e então um homem, que estava esperando debaixo duma árvore
sob o seu guarda-chuva, veio juntar-se silenciosamente ao enterro. Era
João Eduardo, de luvas pretas, carregado de luto, com as olheiras cavadas
340
em dois sulcos negros, grossas lágrimas a correrem-lhe nas faces. E
imediatamente, por trás dele, vieram colocar-se dois criados de farda, com
as calças muito arregaçadas e tochas na mão - dois lacaios que mandara o
Morgado, para honrar o enterro duma dessas senhoras da Ricoça, amigas
do abade.
Então, vendo estas duas librés que vinham afidalgar o préstito,
o menino do coro rompeu logo, erguendo mais alto a cruz; os
quatro homens, já sem fadiga, empertigaram-se às varas da padiola: o
sacristão bramiu um Requiem tremendo. E pelas lamas do íngreme caminho
da aldeia foi subindo o enterro, enquanto às portas as mulheres se
ficavam persignando, olhando as sobrepelizes brancas e o caixão de galões
de ouro, que se iam afastando seguidos do grupo de guarda-chuvas abertos,
sob a chuva triste.
A capela era no alto, num adro de carvalheiras: o sino dobrava: e
o enterro sumiu-se para o interior da igreja escura, ao canto do
Subvenite sancti que o sacristão entoou em ronco. - Mas os dois criados de
farda não entraram porque o Sr. Morgado assim o tinha ordenado.
Ficaram à porta, sob o guarda-chuva, escutando, batendo os pés regelados.
Dentro seguia o cantochão; depois era um ciciar de orações que
se amortecia; e de repente latins fúnebres lançados pela voz grossa do
vigário.
Então os dois homens, enfastiados, desceram do adro, entraram
um momento na taberna do tio Serafim. Dois moços de gado da quinta
do Morgado, que bebiam em silêncio o seu quartilho, ergueram-se logo
vendo aparecer os dois criados de farda.
- À vontade, rapazes, é sentar e beber, disse o velho baixito
que acompanhava João Eduardo a cavalo. Nós lá estamos, na maçada
do enterro... Boas-tardes, Sr. Serafim.
Apertaram a mão ao Serafim, que lhes mediu duas aguardentes - e
informou-se se a defunta era a noiva do Sr. Joãozinho. Tinham-lhe dito que
morrera duma veia rebentada.
O baixito riu:
- Qual veia rebentada! Não lhe rebentou coisa nenhuma. O que
lhe rebentou foi um rapagão pelo ventre...
- Obra do Sr. Joãozinho? perguntou o Serafim, arregalando o
olho brejeiro.
- Não me parece, disse o outro com importância. O Sr.
Joãozinho estava em Lisboa... Obra de algum cavalheiro da cidade. Sabe
vossemecê de quem eu desconfio, Sr. Serafim?
Mas a Gertrudes, esbaforida, rompeu pela taberna gritando que
o saimento já ia ao pé do cemitério, e que não faltavam senão
"aqueles senhores"! Os lacaios abalaram logo, e alcançaram o enterro
341
quando ia passando a pequena grade do cemitério, ao último versículo do
Miserere. João Eduardo agora levava uma vela na mão, ia logo atrás do
caixão de Amélia, tocando-o quase, com os olhos enevoados de lágrimas
fitos no veludilho negro que o cobria. Sem cessar o sino na capela dobrava
desoladamente. A chuva caía mais miúda. E todos calados, no silêncio
fusco do cemitério, com passos abafados pela terra mole, iam-se dirigindo
para o canto do muro onde estava cavada de fresco a cova de Amélia,
negra e profunda entre a relva úmida. O menino do coro cravou no chão a
haste da cruz prateada, e o abade Ferrão, adiantando-se até à beira do
buraco escuro, murmurou o Deus cujus miseratione... Então João
Eduardo, muito pálido, vacilou de repente, e o guarda-chuva caiu-lhe das
mãos; um dos criados de farda correu, segurou-o pela cinta; queriam-no
levar, arrancá-lo de ao pé da cova; mas ele resistiu, e ali ficou, com os
dentes cerrados, segurando-se desesperadamente à manga do criado, vendo
o coveiro e os dois moços amarrarem as cordas no caixão, fazerem-no
resvalar devagar entre a terra esfarelada que rolava, com um ranger
de tábuas mal pregadas.
- Requiem aeternam dona ei, Domine!
- Et lux perpetua luceat ei, mugiu o sacristão.
O caixão bateu no fundo com uma pancada surda: o abade
espalhou em cima uma pouca de terra em forma de cruz: e sacudindo
lentamente o hissope sobre o veludilho, a terra, a relva em redor:
- Requiescat in pace.
- Amém, responderam a voz cava do sacristão e a voz aguda
do menino do coro.
- Amém, disseram todos num murmúrio, que ciciou, se perdeu
entre os ciprestes, as ervas, os túmulos e as névoas frias daquele triste dia
de Dezembro.
XXV
Nos fins de Maio de 1871 havia grande alvoroço na Casa Havanesa,
ao Chiado, em Lisboa. Pessoas esbaforidas chegavam, rompiam
pelos grupos que atulhavam a porta, e alçando-se em bicos de pés
esticavam o pescoço, por entre a massa dos chapéus, para a grade do
balcão, onde numa tabuleta suspensa se colavam os telegramas da Agência
Havas; sujeitos de faces espantadas saíam consternados, exclamando logo
para algum amigo mais pacato que os esperava fora:
- Tudo perdido! Tudo a arder!
342
Dentro, na multidão de grulhas que se apertava contra o balcão,
questionava-se forte; e pelo passeio, no Largo do Loreto, defronte ao pé
do estanco, pelo Chiado até ao Magalhães, era, por aquele dia já quente
do começo de Verão, toda uma gralhada de vozes impressionadas onde as
palavras - Comunistas! Versalhes! Petroleiros! Thiers! Crime!
Internaciona1! voltavam a cada momento, lançadas com furor, entre o
ruído das tipóias e os pregões dos garotos gritando suplementos.
Com efeito, a cada hora, chegavam telegramas anunciando os
episódios sucessivos da insurreição batalhando nas ruas de Paris:
telegramas despedidos de Versalhes num terror dizendo os palácios que
ardiam, as ruas que se aluíam; fuzilamentos em massa nos pátios dos
quartéis e entre os mausoléus dos cemitérios; a vingança que ia saciar-se
até à escuridão dos esgotos; a fatal demência que desvairava as fardas e as
blusas; e a resistência que tinha o furor duma agonia com os métodos duma
ciência, e fazia saltar uma velha sociedade pelo petróleo, pela dinamite e
pela nitroglicerina! Uma convulsão, um fim do mundo - que vinte, trinta
palavras de repente mostravam, num relance, a um clarão de fogueira.
O Chiado lamentava com indignação aquela ruína de Paris.
Recordavam-se com exclamações os edifícios ardidos, o Hotel de Ville,
"tão bonito", a Rua Royale, "aquela riqueza". Havia indivíduos tão furiosos
com o incêndio das Tulherias como se fosse uma propriedade sua; os que
tinham estado em Paris um ou dois meses abriam-se em invectivas,
arrogando-se uma participação de parisienses na riqueza da cidade,
escandalizados por a insurreição não ter respeitado os monumentos em que
eles tinham posto os seus olhos.
- Vejam vocês! exclamava um sujeito gordo. O palácio da Legião de
Honra destruído! Ainda não há um mês que eu lá estive com
minha mulher... Que infâmia! Que patifaria!
Mas espalhara-se que o ministério recebera outro telegrama mais
desolador: toda a linha do boulevard da Bastilha à Madalena ardia, e ainda
a Praça da Concórdia, e as avenidas dos Campos Elísios até ao Arco
do Triunfo. E assim tinha a revolta arrasado, numa demência, todo aquele
sistema de restaurantes, cafés-concertos, bailes públicos, casas de jogo
e ninhos de prostitutas! Então houve por todo o Largo do Loreto até
ao Magalhães um estremecimento de furor. Tinham pois as chamas
aniquilado toda aquela centralização tão cômoda da patuscada! Oh que
infâmia! O mundo acabava! Onde se comeria melhor que em Paris? Onde
se encontrariam mulheres mais experientes? Onde se tornaria a ver aquele
desfilar prodigioso duma volta do Bois, nos dias ásperos e secos de
Inverno, quando as vitórias das cocottes resplandeciam ao pé dos fáetons
dos agentes da Bolsa? Que abominação! Esqueciam-se as bibliotecas e os
343
museus: mas a saudade era sincera pela destruição dos cafés e pelo
incêndio dos lupanares. Era o fim de Paris, era o fim da França!
Num grupo ao pé da Casa Havanesa os questionadores
politicavam: pronunciava-se o nome de Proudhon que, por esse tempo, se
começava a citar vagamente em Lisboa como um monstro sanguinolento; e
as invectivas rompiam contra Proudhon. A maior parte imaginava que era
ele que tinha incendiado. Mas o poeta estimado das Flores e Ais acudiu
dizendo "que, à parte as asneiras que Proudhon dizia, era ainda assim um
estilista bastante ameno". Então o jogador França berrou:
- Qual estilo, qual cabaça! Se aqui o pilhasse no Chiado rachava-lhe
os ossos!
E rachava. Depois do conhaque o França era uma fera.
Alguns moços, porém, a quem o elemento dramático da
catástrofe revolvia o instinto romântico, aplaudiam a heroicidade da
Comuna - Vermorel abrindo os braços como o Crucificado, e sob as balas
que o traspassavam gritando: Viva a humanidade! O velho Delecluze, com
um fanatismo de santo, ditando do seu leito de agonia as violências da
resistência...
- São grandes homens! exclamava um rapaz exaltado.
Em redor as pessoas graves rugiam. Outras afastavam-se
pálidas, vendo já as suas casas na Baixa a escorrer de petróleo e a mesma
Casa Havanesa presa de chamas socialistas. Então era em todos os grupos
um furor de autoridade e repressão: era necessário que a sociedade, atacada
pela Internacional, se refugiasse na força dos seus príncipes conservadores
e religiosos, cercando-os bem de baionetas! Burgueses com tendas de
capelistas falavam da "canalha" com o desdém imponente dum La
Tremouille ou dum Ossuna. Sujeitos, palitando os dentes, decretavam a
vingança. Vadios pareciam furiosos "contra o operário que quer viver como
príncipe". Falava-se com devoção na propriedade, no capital!
Doutro lado eram moços verbosos, localistas excitados que
declaravam contra o velho mundo, a velha idéia, ameaçando-os de alto,
propondo-se a derruí-los em artigos tremendos.
E assim uma burguesia entorpecida esperava deter, com alguns polícias,
uma evolução social: e uma mocidade, envernizada de literatura, decidia
destruir num folhetim uma sociedade de dezoito séculos. Mas ninguém se
mostrava mais exaltado que um guarda-livros de hotel, que do alto
do degrau da Casa Havanesa brandia a bengala, aconselhando à França a
restauração dos Bourbons.
Então um homem vestido de preto, que saíra do estanco e
atravessava por entre os grupos, parou, sentindo uma voz espantada que
exclamava ao lado:
- Ó padre Amaro! Ó maganão!
344
Voltou-se: era o cônego Dias. Abraçaram-se com veemência, e
para conversarem mais tranqüilamente foram andando até ao Largo de
Camões, e ali pararam, junto à estátua:
- Então você quando chegou, padre-mestre?
Tinha chegado na véspera. Trazia uma demanda com os Pimentas da
Pojeira por causa duma servidão na quinta, tinha apelado para a Relação, e
vinha seguir de perto a questão na capital.
- E você, Amaro? Na última carta dizia-me que tinha vontade de sair
de Santo Tirso.
Era verdade. A paróquia tinha vantagens; mas vagara Vila Franca, e
ele, para estar mais perto da capital, viera falar com o Sr. conde de
Ribamar, o seu conde, que lá andava obtendo a transferência. Devia-lhe
tudo, sobretudo à senhora condessa!
- E de Leiria? A S. Joaneira, vai melhor?
- Não, coitada... Você sabe; ao princípio tivemos um susto dos
diabos... Pensávamos que lhe ia suceder como à Amélia. Mas não, era
hidropisia... E ali o que há é anasarca...
- Coitada, santa senhora! E o Natário?
- Avelhado! Tem tido os seus desgostos. Muita língua.
- E diga lá, padre-mestre, o Libaninho?
- Eu escrevi-lhe a esse respeito, disse o cônego rindo.
O padre Amaro riu também: e durante um momento os dois
sacerdotes pararam, apertando as ilhargas.
- Pois é verdade, disse o cônego. A coisa tinha sido realmente
escandalosa... Porque enfim, repare o amigo que o pilharam com o
sargento, de tal modo que não havia a duvidar... E às dez horas da noite, na
alameda! Já é imprudência... Mas enfim a coisa esqueceu, e quando o
Matias morreu, lá lhe demos o lugar de sacristão, que é bem boa posta...
Muito melhor que o que ele tinha no cartório... E há-de cumprir com zelo!
- Há-de cumprir com zelo, concordou muito sério o padre Amaro. E
a propósito, a D. Maria da Assunção?
- Homem, rosnam-se coisas... Criado novo. Um carpinteiro
que morava defronte... O rapaz anda no trinque.
- Palavra?
- No trinque. Charuto, relógio, luva! Tem pilhéria, hem?
- É divino!
- As Gansosos na mesma, continuou o cônego. Têm agora a
sua criada, a Escolástica.
- E da besta do João Eduardo?
- Eu mandei-lhe dizer, não? Lá está ainda nos Poiais. O
Morgado está mal do fígado! E o João Eduardo diz que está tísico... que eu
não sei, nunca mais o vi... Quem mo disse foi o Ferrão.
345
- Como vai ele, o Ferrão?
- Bem. Sabe quem eu vi há dias? A Dionísia.
- E então?
O cônego disse uma palavra baixo ao ouvido do padre Amaro.
- Deveras, padre-mestre?
- Na Rua das Sousas, a dois passos da sua antiga casa. O D. Luís da
Barrosa é que lhe deu o dinheiro para montar o estabelecimento. Pois aqui
estão as novidades. E você está mais forte, homem! Fez-lhe bem
a mudança...
E pondo-se diante, galhofando:
- Ó Amaro, e você a escrever-me que queria retirar-se para a serra, ir
para um convento, passar a vida em penitência.
O padre Amaro encolheu os ombros:
- Que quer você, padre-mestre?... Naqueles primeiros
momentos... Olhe que me custou! Mas tudo passa...
- Tudo passa, disse o cônego. E depois de uma pausa: - Ah!
Mas Leiria já não é Leiria!
Passearam então um momento em silêncio, numa recordação
que lhes vinha do passado, os quinos divertidos da S. Joaneira, as
palestras ao chá, as passeatas ao Morenal, o Adeus e o Descrido cantados
pelo Artur Couceiro e acompanhados pela pobre Amélia que, agora, lá
dormia no cemitério dos Poiais, sob as flores silvestres...
- E que me diz você a estas coisas da França, Amaro? - exclamou de
repente o cônego.
- Um horror, padre-mestre... O arcebispo, uma súcia de padres
fuzilados!... Que brincadeira!
- Má brincadeira, rosnou o cônego.
E o padre Amaro:
- E cá pelo nosso canto parece que começam também essas idéias...
O cônego assim o ouvira. Então indignaram-se contra essa turba
de mações, de republicanos, de socialistas, gente que quer a destruição
de tudo o que é respeitável - o clero, a instrução religiosa, a família, o
exército e a riqueza... Ah! a sociedade estava ameaçada por monstros
desencadeados! Eram necessárias as antigas repressões, a masmorra e a
forca. Sobretudo inspirar aos homens a fé e o respeito pelo sacerdote.
- Aí é que está o mal, disse Amaro, é que nos não respeitam!
Não fazem senão desacreditar-nos... Destroem no povo a veneração pelo
sacerdócio...
- Caluniam-nos infamemente, disse num tom profundo o cônego.
Então junto deles passaram duas senhoras, uma já de cabelos
brancos, o ar muito nobre; a outra, uma criaturinha delgada e pálida, de
346
olheiras batidas, os cotovelos agudos colados a uma cinta de esterilidade,
pouff enorme no vestido, cuia forte, tacões de palmo.
- Cáspite! disse o cônego baixo, tocando o cotovelo do colega.
Hem, seu padre Amaro?... Aquilo é que você queria confessar.
- Já lá vai o tempo, padre-mestre, disse e pároco rindo, já as
não confesso senão casadas!
O cônego abandonou-se um momento a uma grande hilaridade;
mas retomou o seu ar poderoso de padre obeso, vendo Amaro tirar
profundamente o chapéu a um cavalheiro de bigode grisalho e óculos de
ouro, que entrava na praça, do lado do Loreto, com o charuto cravado nos
dentes e o guarda-sol debaixo do braço.
Era o Sr. conde de Ribamar. Adiantou-se com bonomia para os
dois sacerdotes; e Amaro, descoberto e perfilado, apresentou "o seu amigo,
o Sr. cônego Dias, da Sé de Leiria". Conversaram um momento da
estação, que já ia quente. Depois o padre Amaro falou dos últimos
telegramas.
- Que diz vossa excelência a estas coisas de França, senhor conde?
O estadista agitou as mãos, numa desolação que lhe assombreava a
face:
- Nem me fale nisso, Sr. padre Amaro, nem me fale nisso... Ver meia
dúzia de bandidos destruir Paris... O meu Paris!... Creiam vossas senhorias
que tenho estado doente.
Os dois sacerdotes, com uma expressão consternada, uniram-se à do
estadista.
E então o cônego:
- E qual pensa vossa excelência que será o resultado?
O Sr. conde de Ribamar, com pausa, em palavras que saíam
devagar, sobrecarregadas do peso das idéias, disse:
- O resultado?... Não é difícil prevê-lo. Quando se tem alguma
experiência da História e da Política, o resultado de tudo isto vê-se
distintamente. Tão distintamente como os vejo a vossas senhorias. .
Os dois sacerdotes pendiam dos lábios proféticos do homem do
governo.
- Sufocada a insurreição, continuou o senhor conde olhando a direito
de si com o dedo no ar, como seguindo, apontando os futuros históricos que
a sua pupila, ajudada pelos óculos de ouro, penetrava - sufocada a
insurreição, dentro de três meses temos de novo o império. Se vossas
senhorias tivessem visto como eu uma recepção nas Tulherias ou no Hotel
de Ville, nos tempos do império, haviam de dizer, como eu, que a França é
profundamente imperialista e só imperialista... Temos pois Napoleão III: ou
talvez ele abdique, e a imperatriz tome a regência na menoridade do
príncipe imperial... Eu aconselharia antes, e já o fiz saber, que era esta
347
talvez a solução mais prudente. Como conseqüência imediata temos o papa
em Roma, outra vez senhor do poder temporal... Eu, a falar a verdade, e já
o fiz saber, não aprovo uma restauração papal. Mas eu não lhes estou aqui a
dizer o que aprovo, ou o que reprovo. Felizmente não sou o dono da
Europa. Seria um encargo superior à minha idade e às
minhas enfermidades. Estou a dizer o que a minha experiência da Política e
da História me aponta como certo. Dizia eu...? Ah! a imperatriz no trono
de França, Pio Nono no trono de Roma, aí temos a democracia
esmagada entre estas duas forças sublimes, e creiam vossas senhorias um
homem que conhece a sua Europa e os elementos de que se compõe a
sociedade moderna, creiam que depois deste exemplo da Comuna não se
torna a ouvir falar de república, nem de questão social, nem de povo, nestes
cem anos mais chegados!...
- Deus Nosso Senhor o ouça, senhor conde, fez com unção o cônego.
Mas Amaro, radiante de se achar ali, numa praça de Lisboa, em
conversação íntima com um estadista ilustre, perguntou ainda, pondo nas
palavras uma ansiedade de conservador assustado:
- E crê vossa excelência que essas idéias de república, de
materialismo, se possam espalhar entre nós?
O conde riu: e dizia, caminhando entre os dois padres, até
quase junto das grades que cercam a estátua de Luís de Camões:
- Não lhes dê isso cuidado, meus senhores, não lhes dê isso
cuidado! É possível que haja aí um ou dois esturrados que se queixem,
digam tolices sobre a decadência de Portugal, e que estamos num marasmo,
e que vamos caindo no embrutecimento, e que isto assim não pode durar
dez anos, etc., etc. Baboseiras!...
Tinham-se encostado quase às grades da estátua, e tomando uma
atitude de confiança:
- A verdade, meus senhores, é que os estrangeiros invejam-nos... E o
que vou a dizer não é para lisonjear a vossas senhorias: mas enquanto neste
país houver sacerdotes respeitáveis como vossas senhorias, Portugal há-de
manter com dignidade o seu lugar na Europa! Porque a fé, meus senhores, é
a base da ordem!
- Sem dúvida, senhor conde, sem dúvida, disseram com força os dois
sacerdotes.
- Senão, vejam vossas senhorias isto! Que paz, que animação,
que prosperidade!
E com um grande gesto mostrava-lhes o Largo do Loreto, que
àquela hora, num fim de tarde serena, concentrava a vida da cidade.
Tipóias vazias rodavam devagar; pares de senhoras passavam, de cuia cheia
e tacão alto, com os movimentos derreados, a palidez clorótica duma
degeneração de raça; nalguma magra pileca, ia trotando algum moço de
348
nome histórico, com a face ainda esverdeada da noitada de vinho; pelos
bancos de praça gente estirava-se num torpor de vadiagem; um carro de
bois, aos solavancos sobre as suas altas rodas, era como o símbolo de
agriculturas atrasadas de séculos; fadistas gingavam, de cigarro nos dentes;
algum burguês enfastiado lia nos cartazes o anúncio de operetas obsoletas;
nas faces enfezadas de operários havia como a personificação das
indústrias moribundas... E todo este mundo decrépito se movia lentamente,
sob um céu lustroso de clima rico, entre garotos apregoando a lotaria e a
batota pública, e rapazitos de voz plangente oferecendo o Jornal das
pequenas novidades: e iam, num vagar madraço. Entre o largo onde se
erguiam duas fachadas tristes de igreja, e o renque comprido das casarias
da praça onde brilhavam três tabuletas de casas de penhores, negrejavam
quatro entradas de taberna, e desembocavam, com um tom sujo de esgoto
aberto, as vielas de todo um bairro de prostituição e de crime.
- Vejam, ia dizendo o conde: vejam toda esta paz, esta prosperidade,
este contentamento... Meus senhores, não admira realmente que sejamos a
inveja da Europa!
E o homem de Estado, os dois homens de religião, todos três
em linha, junto às grades do monumento, gozavam de cabeça alta esta
certeza gloriosa da grandeza do seu país, - ali ao pé daquele pedestal, sob o
frio olhar de bronze do velho poeta, ereto e nobre, com os seus largos
ombros de cavaleiro forte, a epopéia sobre o coração, a espada firme,
cercado dos cronistas e dos poetas heróicos da antiga pátria - pátria para
sempre passada, memória quase perdida!
Outubro 1878 - Outubro 1879.
···
Os Maias, de Eça de Queirós
Fonte:
QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. 1.ed. Porto : Livraria Internacional de Ernesto Chardron, 1888. 2v.
Texto proveniente de:
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro
A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo
Permitido o uso apenas para fins educacionais.
Texto-base digitalizado por:
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Os Maias
Eça de Queirós
Livro Primeiro
I
A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no outono de 1875, era
conhecida na visinhança da rua de S. Francisco de Paula, e em todo o bairro
das Janellas Verdes, pela casa do Ramalhete ou simplesmente o Ramalhete.
Apesar d'este fresco nome de vivenda campestre, o Ramalhete, sombrio
casarão de paredes severas, com um renque de estreitas varandas de ferro no
primeiro andar, e por cima uma timida fila de janellinhas abrigadas à beira do
telhado, tinha o aspecto tristonho de Residencia Ecclesiastica que competia a
uma edificação do reinado da sr.ª D. Maria I: com uma sineta e com uma cruz
no topo assimilhar-se-hia a um Collegio de Jesuitas. O nome de Ramalhete
provinha de certo d'um revestimento quadrado de azulejos fazendo painel no
logar heraldico do Escudo d'Armas, que nunca chegara a ser collocado, e
representando um grande ramo de girasoes atado por uma fita onde se
distinguiam letras e numeros d'uma data.
Longos annos o Ramalhete permanecera deshabitado, com teias d'aranha
pelas grades dos postigos terreos, e cobrindo-se de tons de ruina. Em 1858
Monsenhor Buccarini, Nuncio de S. Santidade, visitara-o com idéa d'installar
lá a Nunciatura, seduzido pela gravidade clerical do edificio e pela paz
dormente do bairro: e o interior do casarão agradara-lhe tambem, com a sua
disposição apalaçada, os tectos apainelados, as paredes cobertas de frescos
onde já desmaiavam as rosas das grinaldas e as faces dos Cupidinhos.
Mas Monsenhor, com os seus habitos de rico prelado romano, necessitava na
sua vivenda os arvoredos e as agoas d'um jardim de luxo: e o Ramalhete
possuia apenas, ao fundo dum terraço de tijolo, um pobre quintal inculto,
abandonado ás hervas bravas, com um cypreste, um cedro, uma cascatasinha
secca, um tanque entulhado, e uma estatua de marmore (onde Monsenhor
reconheceu logo Venus Citherêa) ennegrecendo a um canto na lenta humidade
das ramagens silvestres. Além d'isso, a renda que pedio o velho Villaça,
procurador dos Maias, pareceu tão exagerada a Monsenhor, que lhe perguntou
sorrindo se ainda julgava a Egreja nos tempos de Leão X. Villaça respondeu -
que tambem a nobreza não estava nos tempos do sr. D. João V. E o
Ramalhete, continuou deshabitado.
Este inutil pardieiro (como lhe chamava Villaça Junior, agora por morte de
seu pae administrador dos Maias) só veio a servir, nos fins de 1870, para lá se
arrecadarem as mobilias e as louças provenientes do palacete de familia em
Bemfica, morada quasi historica, que, depois de andar annos em praça, fôra
então comprada por um commendador brazileiro. N'essa occasião vendera-se
outra propriedade dos Maias, a Tojeira; e algumas raras pessoas que em
Lisboa ainda se lembravam dos Maias, e sabiam que desde a
Regeneração elles viviam retirados na sua quinta de Santa Olavia, nas
margens do Douro, tinham perguntado a Villaça se essa gente estava
atrapalhada.
- Ainda teem um pedaço de pão, disse Villaça sorrindo, e a manteiga para
lhe barrar por cima.
Os Maias eram uma antiga familia da Beira, sempre pouco numerosa, sem
linhas collateraes, sem parentellas - e agora reduzida a dois varões, o senhor
da casa, Affonso da Maia, um velho já, quasi um antepassado, mais edoso que
o seculo, e seu neto Carlos que
estudava medicina em Coimbra. Quando Affonso se retirara definitivamente
para Santa Olavia, o rendimento da casa excedia já cincoenta mil cruzados:
mas desde então tinham-se accumulado as economias de vinte annos de aldêa;
viera tambem a herança d'um
ultimo parente, Sebastião da Maia, que desde 1830 vivia em Napoles, só,
occupando-se de numismatica; - e o procurador podia certamente sorrir com
segurança quando fallava dos Maias e da sua fatia de pão.
A venda da Tojeira fôra realmente aconselhada por Villaça: mas nunca
elle approvara que Affonso se desfizesse de Bemfica – só pela rasão d'aquelles
muros terem visto tantos desgostos domesticos. Isso, como dizia Villaça,
acontecia a todos os muros. O resultado
era que os Maias, com o Ramalhete inhabitavel, não possuiam agora uma casa
em Lisboa; e se Affonso n'aquella edade amava o socego de Santa Olavia, seu
neto, rapaz de gosto e de luxo que passava as ferias em Paris e Londres, não
quereria, depois de formado, ir sepultar-se nos penhascos do Douro. E com
effeito, mezes antes de elle deixar Coimbra, Affonso assombrou Villaça
annunciando-lhe que decidira vir habitar o Ramalhete! O procurador compoz
logo um relatorio a enumerar os inconvenientes do casarão: o maior era
necessitar tantas obras e tantas despezas; depois, a falta d'um jardim devia ser
muito sensivel a quem sahia dos arvoredos de Santa Olavia; e por fim alludia
mesmo a uma lenda, segundo a qual eram sempre fataes aos Maias as paredes
do Ramalhete, «ainda que (acrescentava elle n'uma phrase meditada) até me
envergonho de mencionar taes frioleiras n'este seculo de Voltaire, Guisot e
outros philosophos liberaes ... »
Affonso riu muito da phrase, e respondeu que aquellas razões eram
excellentes - mas elle desejava habitar sob tectos tradiccionalmente seus; se
eram necessarias obras, que se fizessem e largamente; e emquanto a lendas e
agoiros, bastaria abrir de par em par as janellas e deixar entrar o sol.
S. ex.ª mandava: - e, como esse inverno ia secco, as obras começaram
logo, sob a direcção d'um Esteves, architecto, politico, e compadre de Villaça.
Este artista enthusiasmára o procurador com um projecto de escada
apparatosa, flanqueada por duas figuras symbolisando as conquistas da Guiné
e da India. E estava ideando tambem uma cascata de louça na sala de jantar -
quando, inesperadamente, Carlos appareceu em Lisboa com um architectodecorador
de Londres, e, depois de estudar com elle á pressa algumas
ornamentações e alguns tons de estofos, entregou-lhe as quatro paredes do
Ramalhete, para elle ali crear, exercendo o seu gosto, um interior confortavel,
de luxo intelligente e sobrio.
Villaça resentiu amargamente esta desconsideração pelo artista nacional;
Esteves foi berrar ao seu Centro politico que isto era um paiz perdido. E
Affonso lamentou tambem que se tivesse despedido o Esteves, exigiu mesmo
que o encarregassem da construcção das
cocheiras. O artista ia acceitar - quando foi nomeado governador civil.
Ao fim d'um anno, durante o qual Carlos viera frequentemente a Lisboa
collaborar nos trabalhos, «dar os seus retoques estheticos» - do antigo
Ramalhete só restava a fachada tristonha, que Affonso não quizera alterada
por constituir a phisionomia da casa. E Villaça
não duvidou declarar que Jones Bule (como elle chamava ao inglez) sem
despender despropositadamente, aproveitando até as antigualhas de Bemfica,
fizera do Ramalhete «um museu.»
O que surprehendia logo era o pateo, outr'ora tão lobrego, nú, lageado de
pedregulho - agora resplandecente, com um pavimento quadrilhado de
marmores brancos e vermelhos, plantas decorativas, vazos de Quimper, e dois
longos bancos feudaes que Carlos trouxera de Hespanha, trabalhados em talha,
solemnes como córos de cathedral. Em cima, na antecamara, revestida como
uma tenda de estofos do Oriente, todo o rumor de passos morria: e ornavamn'a
divans cobertos de tapetes persas, largos pratos mouriscos com
reflexos metalicos de cobre, uma harmonia de tons severos, onde destacava,
na brancura immaculada do marmore, uma figura de rapariga friorenta,
arripiando-se, rindo, ao metter o pésinho n'agoa. D'ahi partia um amplo
corredor, ornado com as peças ricas de Bemfica, arcas gothicas, jarrões da
India, e antigos quadros devotos. As melhores salas do Ramalhete abriam para
essa galeria. No salão nobre, raramente usado, todo em brocados de velludo
côr de musgo d'outono, havia uma bella téla de Constable, o retrato da sogra
de Affonso, a condessa de Runa, de tricorne de plumas e vestido escarlate de
caçadora ingleza, sobre um fundo de paisagem enevoada. Uma sala mais
pequena, ao lado, onde se fazia musica, tinha um ar de seculo XVIII com seus
moveis enramelhetados d'ouro, as suas sedas de ramagens brilhantes: duas
tapeçarias de Gobelins, desmaiadas, em tons cinzentos, cobriam as paredes de
pastores e d'arvoredos.
Defronte era o bilhar, forrado d'um couro moderno trazido por Jones Bule,
onde, por entre a desordem de ramagens verde-garrafa, esvoaçavam cegonhas
prateadas. E, ao lado, achava-se o fumoir, a sala mais commoda do
Ramalhete: as ottomanas tinham a fôfa
vastidão de leitos; e o conchego quente, e um pouco sombrio dos estofos
escarlates e pretos era alegrado pelas cores cantantes de velhas faienças
hollandezas.
Ao fundo do corredor ficava o escriptorio de Affonso, revestido de
damascos vermelhos como uma velha camara de prelado. A macissa meza de
pau preto, as estantes baixas de carvalho lavrado, o solemne luxo das
encadernações, tudo tinha ali uma feição austera
de paz estudiosa - realçada ainda por um quadro attribuido a Rubens, antiga
reliquia da casa, um Christo na Cruz, destacando a sua nudez de athleta sobre
um ceu de poente revolto e rubro. Ao lado do fogão Carlos arranjara um canto
para o avô com um biombo japonez bordado a ouro, uma pelle d'urso branco,
e uma veneravel cadeira de braços, cuja tapeçaria mostrava ainda as armas dos
Maias no desmaio da trama de sêda.
No corredor do segundo andar, guarnecido com retratos de farmlia,
estavam os quartos de Affonso. Carlos despozera os seus, n'um angulo da
casa, com uma entrada particular, e janellas sobre o jardim: eram tres
gabinetes a seguir, sem portas, unidos pelo mesmo
tapete: e, os recostos acolchoados, a sêda que forrava as paredes, faziam dizer
ao Villaça que aquillo não eram aposentos de medico - mas de dançarina!
A casa, depois de arranjada, ficou vazia emquanto Carlos, já formado,
fazia uma longa viagem pela Europa; - e foi só nas vesperas
da sua chegada, n'esse lindo outono de 1875, que Affonso se resolveu emfim a
deixar Santa Olavia e vir installar-se no Ramalhete. Havia vinte e cinco annos
que elle não via Lisboa; e, ao fim de alguns curtos dias, confessou ao Villaça
que estava suspirando outra vez pelas suas sombras de Santa Olavia. Mas, que
remedio! Não queria viver muito separado do neto; e Carlos agora, com idéas
sérias de carreira activa, devia necessariamente habitar Lisboa... De resto, não
desgostava do Ramalhete, apezar de Carlos, com o seu fervor pelo luxo dos
climas frios, ter prodigalisado de mais as tapeçarias, os pesados reposteiros, e
os velludos. Agradava-lhe tambem muito a visinhança, aquela dôce quietação
de suburbio adormecido ao sol. E gostava até do seu quintalejo. Não era de
certo o jardim de Santa Olavia: mas tinha o ar sympathico, com os seus
girasoes perfilados ao pé dos degraus do terraço, o cypreste e o cedro
envelhecendo juntos como dois amigos tristes, e a Venus Cytherêa parecendo
agora, no seu tom claro de estatua de parque, ter chegado de Versalhes, do
fundo do grande seculo... E desde que a agoa abundava, a cascatasinha era
deliciosa, dentro do nicho de conchas, com os seus tres pedregulhos
arranjados em despenhadeiro bucolico, melancolisando aquelle fundo de
quintal soalheiro com um pranto de nayade domestica, esfiado gota a gota na
bacia de marmore.
O que desconsolara Affonso, ao principio, fôra a vista do terraço - d'onde
outr'ora, de certo, se abrangia até ao mar. Mas as casas edificadas em redor,
nos ultimos annos, tinham tapado esse horizonte explendido. Agora, uma
estreita tira de agoa e monte que se avistava entre dois predios de cinco
andares, separados por um córte de rua, formava toda a paizagem defronte do
Ramalhete. E, todavia, Affonso terminou por lhe descobrir um encanto intimo.
Era como uma téla marinha, encaixilhada em cantarias brancas, suspensa do
céu azul em face do terraço, mostrando, nas variedades infinitas de côr e luz,
os episodios fugitivos d'uma pacata vida de rio: ás vezes uma véla de barco da
Trafaria fugindo airosamente á bolina; outras vezes uma galera toda em
panno, entrando n'um favor
da aragem, vagarosa, no vermelho da tarde; ou então a melancolia d'um
grande paquete, descendo, fechado e preparado para a vaga, entrevisto um
momento, desapparecendo logo, como já devorado pelo mar incerto; ou ainda
durante dias, no pó d'ouro das sestas silenciosas, o vulto negro de um
couraçado inglez... E sempre ao fundo o pedaço de monte verde-negro, com
um moinho parado no alto, e duas casas brancas ao rez d'agoa, cheias de
expressão - ora faiscantes e despedindo raios das vidraças accezas em braza;
ora tomando aos fins de tarde um ar pensativo, cobertas dos rosados tenros de
poente, quasi similhantes a um rubor humano; e d'uma tristeza arripiada nos
dias de chuva, tão sós, tão brancas, como nuas, sob o tempo agreste.
O terraço communicava por tres portas envidraçadas com o escriptorio - e
foi n'essa bella camara de prelado que Affonso se acostumou logo a passar os
seus dias, no recanto aconchegado que o neto lhe preparara ternamente, ao
lado do fogão. A sua longa residencia em Inglaterra dera-lhe o amor dos
suaves vagares junto do lume. Em Santa Olavia as chaminés ficavam accezas
até Abril; depois ornavam-se de braçadas de flôres, como um altar domestico;
e era ainda ahi, n'esse aroma e n'essa frescura, que elle gozava melhor o seu
cachimbo, o seu Tacito, ou o seu querido Rabelais.
Todavia, Affonso ainda ia longe, como elle dizia, de ser um velho
borralheiro. N'aquella edade, de verão ou de inverno, ao romper do sol, estava
a pé, sahindo logo para a quinta, depois da sua boa oração da manhã que era
um grande mergulho na agoa fria. Sempre tivera o amor supersticioso da agoa;
e costumava dizer que nada havia melhor para o homem - que sabor d'agoa,
som d'agoa, e vista d'agoa. O que o prendera mais a Santa Olavia fôra a sua
grande riqueza d'agoas vivas, nascentes, repuxos, tranquillo espelhar d'agoas
paradas, fresco murmurio de agoas regantes... E a esta viva tonificação da
agoa attribuia elle o ter vindo assim, desde o começo do seculo, sem uma dôr
e sem uma doença, mantendo a rica tradição de saude da sua familia, duro,
resistente aos desgostos e annos – que passavam por elle, tão em vão, como
passavam em vão, pelos seus robles de Santa Olavia, annos e vendavaes.
Affonso era um pouco baixo, macisso, de hombros quadrados e fortes: e
com a sua face larga de nariz aquilino, a pelle córada, quasi vermelha, o
cabello branco todo cortado á escovinha, e a barba de neve aguda e longa -
lembrava, como dizia Carlos, um varão esforçado das edades heroicas, um D.
Duarte de Menezes ou um Affonso d'Albuquerque. E isto fazia sorrir o velho,
recordar ao neto, gracejando, quanto as apparencias illudem!
Não, não era Menezes, nem Albuquerque; apenas um antepassado
bonacheirão que amava os seus livros, o conchego da sua poltrona, o seu whist
ao canto do fogão. Elle mesmo costumava dizer, que era simplesmente um
egoista: - mas nunca, como agora na velhice, as generosidades do seu coração
tinham sido tão profundas e largas. Parte do seu rendimento ia-se-lhe por entre
os dedos, esparsamente, n'uma caridade enternecida. Cada vez amava mais o
que é pobre e o que é fraco. Em Santa Olavia, as creanças corriam para elle,
dos portaes, sentindo-o acariciador e paciente. Tudo o que vive lhe merecia
amor: - e era dos que não pisam um formigueiro, e se compadece da sêde
d'uma planta.
Villaça costumava dizer que lhe lembrava sempre o que se conta dos
patriarchas, quando o vinha encontrar ao canto da chaminé, na sua coçada
quinzena de velludilho, sereno, risonho, com um livro na mão, o seu velho
gato aos pés. Este pesado e enorme angorá, branco com malhas louras, era
agora (desde a morte de Tobias, o soberbo cão de S. Bernardo) o fiel
companheiro de Affonso. Tinha nascido em Santa Olavia, e recebera então o
nome de Bonifacio: depois, ao chegar á edade do amor e da caça fora-lhe dado
o appellido mais cavalheiresco de D. Bonifacio de Calatrava: agora,
dorminhoco e obeso, entrara definitivamente no remanso das dignidades
ecclesiasticas, e era o Reverendo Bonifacio...
Esta existencia nem sempre assim correra com a tranquillidade larga e
clara d'um bello rio de verão. O antepassado, cujos olhos se enchiam agora
d'uma luz de ternura diante das suas rosas, e que ao canto do lume relia com
gosto o seu Guisot, fôra, na opinião de seu
pae, algum tempo, o mais feroz Jacobino de Portugal! E todavia, o furor
revolucionario do pobre moço consistira em lêr Rousseau, Volney, Helvetius,
e a Encyclopedia; em atirar foguetes de lagrimas á Constituição; e ir, de
chapeu á liberal e alta gravata azul, recitando
pelas lojas maçonicas Odes abominaveis ao Supremo Architecto do Universo.
Isto, porém, bastára para indignar o pae. Caetano da Maia era um portuguez
antigo e fiel que se benzia ao nome de Robespierre, e que, na sua apathia de
fidalgo beato e doente, tinha só um sentimento vivo - o horror, o odio ao
Jacobino, aquem attribuia todos os males, os da patria e os seus, desde a perda
das colonias até ás crises da sua gota. Para extirpar da nação o Jacobino, déra
elle o seu amor ao sr. infante D. Miguel, Messias forte e Restaurador
providencial... E ter justamente por filho um Jacobino, parecia-lhe uma
provação comparavel só ás de Job!
Ao principio, na esperança que o menino se emendasse, contentou-se em
lhe mostrar um carão severo e chamar-lhe com sarcasmo - cidadão! Mas
quando soube que seu filho, o seu herdeiro, se misturara á turba que, n'uma
noite de festa civica e de luminarias, tinha
apedrejado as vidraças apagadas do sr. Legado d'Áustria, enviado da Santa
Alliança - considerou o rapaz um Marat e toda a sua colera rompeu. A gota
cruel, cravando-o na poltrona, não lhe deixou espancar o mação, com a sua
bengala da India, á lei de bom pae portuguez: mas decidiu expulsal-o de sua
casa, sem mezada e sem benção, renegado como um bastardo! Que aquelle
pedreiro livre não podia ser do seu sangue!
As lagrimas da mamã amolleceram-n'o; sobretudo as razões d'uma
cunhada de sua mulher, que vivia com elles em Bemfica, senhora irlandeza de
alta instrucção, Minerva respeitada e tutelar, que ensinara inglez ao menino e
o adorava como um bébé. Caetano da Maia limitou-se a desterrar o filho para
a quinta de Santa Olavia; mas não cessou de chorar no seio dos padres, que
vinham a Bemfica, a desgraça da sua casa. E esses santos lá o consolavam,
affirmando-lhe que Deus, o velho Deus d'Ourique, não permittiria jámais que
um Maia pactuasse com Belzebut e com a Revolução! E, á falta de Deus
Padre, lá estava Nossa Senhora da Soledade, padroeira da casa e madrinha do
menino, para fazer o bom milagre.
E o milagre fez-se. Mezes depois, o Jacobino, o Marat, voltava de Santa
Olavia um pouco contricto, enfastiado sobretudo d'aquella solidão, onde os
chás do brigadeiro Senna eram ainda mais tristes que o terço das primas
Cunhas. Vinha pedir ao pae a benção, e
alguns mil cruzados, para ir a Inglaterra, esse paiz de vivos prados e de
cabellos d'ouro de que lhe fallara tanto a tia Fanny. O pae beijou-o, todo em
lagrimas, accedeu a tudo fervorosamente, vendo ali a evidente, a gloriosa
intercessão de Nossa Senhora da Soledade! E o mesmo Frei Jeronymo da
Conceição seu confessor, declarou este milagre - não inferior ao de Carnaxide.
Affonso partiu. Era na primavera - e a Inglaterra toda verde, os seus
parques de luxo, os copiosos confortos, a harmonia penetrante dos seus nobres
costumes, aquella raça tão séria e tão forte - encantaram-n'o. Bem depressa
esqueceu o seu odio aos sorumbaticos padres da Congregação, as horas
ardentes passadas no café dos Romulares a recitar Mirabeau, e a Republica
que quizera fundar, classica e voltarianna, com um triumvirato de Scipiões e
festas ao Ente Supremo. Durante os dias da Abrilada estava elle nas corridas
d'Epsom, no alto d'uma sege de posta, com um grande nariz postiço, dando
hurrahs medonhos - bem indifferente aos seus irmãos de Maçonaria, que a
essas horas o sr. infante espicaçava a chuço, pelas viellas do Bairro Alto, no
seu rijo cavallo d'Alter.
Seu pae morreu de subito, elle teve de regressar a Lisboa. Foi então que
conheceu D. Maria Eduarda Runa, filha do conde de Runa, uma linda morena,
mimosa e um pouco adoentada. Ao fim do luto casou com ella. Teve um filho,
desejou outros; e começou logo, com bellas idéas de patriarcha moço, a fazer
obras no palacete de Bemfica, a plantar em redor arvoredos, preparando tectos
e sombras á descendencia amada que lhe encantaria a velhice.
Mas não esquecia a Inglaterra: - e tornava-lh'a mais appetecida essa Lisboa
miguelista que elle via, desordenada como uma Tunis barbaresca; essa rude
conjuração apostolica de frades e bolieiros, atroando tavernas e capellas; essa
plebe beata, suja e feroz, rolando do lausperenne para o curro, e anciando
tumultuosamente pelo principe que lhe encarnava tão bem os vicios e as
paixões...
Este espectaculo indignava Affonso da Maia; e muitas vezes, na paz do
serão, entre amigos, com o pequeno nos joelhos, exprimiu a indignação da sua
alma honesta. Já não exigia de certo, como em rapaz, uma Lisboa de Catões e
de Mucios-Scevolas. Já admittia
mesmo o esforço d'uma nobreza para manter o seu privilegio historico; mas
então queria uma nobreza intelligente e digna, como a Aristocracia tory (que o
seu amor pela Inglaterra lhe fazia idealisar), dando em tudo a direcção moral,
formando os costumes e inspirando a litteratura, vivendo com fausto e
fallando com gosto, exemplo de idéas altas e espelho de maneiras patricias...
O que não tolerava era o mundo de Queluz, bestial e sordido.
Taes palavras, apenas soltas, voavam a Queluz. E quando se reuniram as
côrtes geraes, a policia invadiu Bemfica, «a procurar papeis e almas
escondidas.»
Affonso da Maia, com o seu filho nos braços e a mulher tremendo ao lado
- viu, impassivelmente e sem uma palavra, a busca, as gavetas arrombadas
pela coronha das escopetas, as mãos sujas do malsim rebuscando os colxões
do seu leito. O sr. juiz de fóra não descobriu nada: acceitou mesmo na copa
um calice de vinho, e confessou ao mordomo «que os tempos iam bem
duros...» Desde essa manhã as janellas do palacete conservaram-se cerradas;
não se abriu mais o portão nobre para sahir o coche da senhora; e d'ahi a
semanas, com a mulher e com o filho, Affonso da Maia partia para Inglaterra e
para o exilio.
Ahi installou-se, com luxo, para uma longa demora, nos arredores de
Londres, junto a Richmond, ao fundo d'um parque, entre as suaves e calmas
paisagens de Surrey.
Os seus bens, graças ao credito do conde de Runa, antigo mimoso de D.
Carlota Joaquina, hoje conselheiro rispido do sr. D. Miguel, não tinham sido
confiscados; e Affonso da Maia podia viver largamente.
Ao principio os emigrados liberaes, Palmella e a gente do Belfast, ainda o
vieram desassocegar e consumir. A sua alma recta não tardou a protestar
vendo a separação de castas, de gerarchias, mantidas ali na terra estranha entre
os vencidos da mesma idéa - os
fidalgos e os desembargadores vivendo no luxo de Londres á forra, e a plebe,
o exercito, depois dos padecimentos da Galliza, succumbindo agora á fome, á
vermina, á febre nos barracões de Plymouth. Teve logo conflictos com os
chefes liberaes; foi accusado de
vintista e demagogo; descreu por fim do liberalismo. Isolou-se então - sem
fechar todavia a sua bolsa, d'onde sahiam ás cincoenta, ás cem moedas... Mas
quando a primeira expedição partiu, e pouco a pouco se foram vasando os
depositos de emigrados, respirou emfim
- e, como elle disse, pela primeira vez lhe soube bem o ar d'Inglaterra!
Mezes depois sua mãe, que ficara em Bemfica, morria d'uma apoplexia: e
a tia Fanny veiu para Richmond completar a felicidade d'Affonso, com o seu
claro juizo, os seus caracóes brancos, os seus modos de discreta Minerva. Alli
estava elle pois no seu sonho,
numa digna residência ingleza, entre arvores seculares, vendo em redor nas
vastas relvas dormirem ou pastarem os gados de luxo, e sentindo em torno de
si tudo são, forte, livre e solido, - como o amava o seu coração.
Teve relações; estudou a nobre e rica litteratura ingleza; interessou-se,
como convinha a um fidalgo em Inglaterra, pela cultura, pela cria dos
cavallos, pela pratica da caridade; - e pensava com prazer em ficar ali para
sempre n'aquella paz e n'aquella ordem.
Sómente Affonso sentia que sua mulher não era feliz. Pensativa e triste,
tossia sempre pelas salas. Á noite sentava-se ao fogão, suspirava e ficava
calada...
Pobre senhora! a nostalgia do paiz, da parentella, das egrejas, ia-a
minando. Verdadeira lisboeta, pequenina e trigueira, sem se queixar e sorrindo
pallidamente, tinha vivido desde que chegara n'um odio surdo áquella terra
d'herejes e ao seu idioma barbaro: sempre arripiada, abafada em pelles,
olhando com pavor os ceus fuscos ou a neve nas arvores, o seu coração não
estivera nunca alli, mas longe, em Lisboa, nos adros, nos bairros batidos do
sol. A sua devoção (a devoção dos Runas!) sempre grande, exaltara-se,
exacerbara-se áquella hostilidade ambiente que ella sentia em redor contra os
«papistas». E só se satisfazia á noite, indo refugiar-se no sotão com as creadas
portuguezas, para resar o terço agachada n'uma esteira - gosando ali, n'esse
murmurio d'ave-marias em paiz protestante, o
encanto de uma conjuração catholica!
Odiando tudo o que era inglez, não consentira que seu filho, o Pedrinho,
fosse estudar ao collegio de Richmond. Debalde Affonso lhe provou que era
um collegio catholico! Não queria: aquelle catholicismo sem romarias, sem
fogueiras pelo S. João, sem imagens do
Senhor dos Passos, sem frades nas ruas - não lhe parecia a religião. A alma do
seu Pedrinho não abandonaria ella á heresia; - e para o educar mandou vir de
Lisboa o padre Vasques, capellão do Conde de Runa.
O Vasques ensinava-lhe as declinações latinas, sobretudo a cartilha: e a
face d'Affonso da Maia cobria-se de tristeza, quando ao voltar d'alguma
caçada ou das ruas de Londres, d'entre o forte rumor da vida livre - ouvia no
quarto dos estudos a voz dormente do reverendo, perguntando como do fundo
d'uma treva:
- Quantos são os inimigos da alma?
E o pequeno, mais dormente, lá ia murmurando:
-Tres. Mundo, Diabo e Carne...
Pobre Pedrinho! Inimigo da sua alma só havia alli o reverendo Vasques,
obeso e sordido, arrotando do fundo da sua poltrona, com o lenço do rapé
sobre o joelho...
Ás vezes Affonso, indignado, vinha ao quarto, interrompia a doutrina,
agarrava a mão do Pedrinho - para o levar, correr com elle sob as arvores do
Tamisa, dissipar-lhe na grande luz do rio o pesadume crasso da cartilha. Mas a
mamã accudia de dentro, em terror, a
abafal-o n'uma grande manta: depois lá fóra o menino, acostumado ao collo
das creadas e aos recantos estofados, tinha medo do vento e das arvores: e
pouco a pouco, n'um passo desconsolado, os dois iam pisando em silencio as
folhas seccas - o filho todo acobardado das sombras do bosque vivo, o pae
vergando os hombros pensativo, triste d'aquella fraqueza do filho...
Mas o menor esforço d'elle para arrancar o rapaz áquelles braços de mãe
que o amolleciam, áquella cartilha mortal do padre Vasques - trazia logo á
delicada senhora accessos de febre. E Affonso não se atrevia já a contrariar a
pobre doente, tão virtuosa, e que o amava tanto! Ia então lamentar-se para o pé
da tia Fanny: a sabia irlandeza mettia os oculos entre as folhas do seu livro,
tratado d'Addisson ou poema de Pope, e encolhia melancolicamente os
hombros. Que podia ella fazer!...
Por fim a tosse de Maria Eduarda foi augmentando - como a tristeza das
suas palavras. Já fallava da «sua ambição derradeira», que era ver o sol uma
vez mais! Por que não voltariam a Bemfica, ao seu lar, agora que o sr. Infante
estava tambem desterrado e que havia uma grande paz? Mas a isso Affonso
não cedeu: não queria ver outra vez as suas gavetas arrombadas a coronhadas -
e os soldados do sr. D. Pedro não lhe davam mais garantias que os malsins do
sr. D. Miguel.
Por esse tempo veio um grave desgosto á casa: a tia Fanny morreu, d'uma
pneumonia, nos frios de março; e isto ennegreceu mais a melancolia de Maria
Eduarda, que a amava muito tambem - por ser irlandeza e catholica.
Para a distrahir, Affonso levou-a para a Italia, para uma deliciosa villa ao
pé de Roma. Ahi não lhe faltava o sol: tinha-o ponctual e generoso todas as
manhãs, banhando largamente os terraços, dourando loureiraes e myrtos. E
depois, lá em baixo, entre marmores, estava a coisa preciosa e santa, o Papa!
Mas a triste senhora continuava a choramigar. O que realmente appetecia
era Lisboa, as suas novenas, os santos devotos do seu bairro, as procissões
passando n'um rumor de pachorrenta penitencia por tardes de sol e de poeira...
Foi necessario calmal-a, voltar a Bemfica.
Ahi começou uma vida desconsolada. Maria Eduarda definhava
lentamente, todos os dias mais pallida, levando semanas immovel sobre um
canapé, com as mãos transparentes cruzadas sobre as suas grossas pelles
d'lnglaterra. O padre Vasques, apoderando-se d'aquella alma aterrada para
quem Deus era um amo feroz, tornára-se o grande homem da casa. De resto
Affonso encontrava a cada momento pelos corredores outras figuras
canonicas, de capote e solideo, em que reconhecia antigos franciscanos, ou
algum magro
capuchinho parasitando no bairro; a casa tinha um bafio de sachristia; e dos
quartos da senhora vinha constantemente, dolente e vago, um rumor de
ladainha.
Todos aquelles santos varões comiam, bebiam o seu vinho do Porto na
copa. As contas do administrador appareciam sobrecarregadas com as
mesadas piedosas que dava a senhora: um Frei Patricio surripiára-lhe duzentas
missas de cruzado por alma do
Sr. D. José I...
Esta carolice que o cercava ia lançando Affonso n'um atheismo rancoroso:
quereria as egrejas fechadas como os mosteiros, as imagens escavacadas a
machado, uma matança de reverendos... Quando sentia na casa a voz de resas,
fugia, ia para o fundo da quinta, sob as trepadeiras do mirante, ler o seu
Voltaire: ou então partia a desabafar com o seu velho amigo, o coronel
Sequeira, que vivia n'uma quinta a Queluz.
O Pedrinho no entanto estava quasi um homem. Ficara pequenino e
nervoso como Maria Eduarda, tendo pouco da raça, da força dos Maias; a sua
linda face oval d'um trigueiro calido, dois olhos maravilhosos e irresistiveis,
promptos sempre a humedecer-se,
faziam-n'o assemelhar a um bello arabe. Desenvolvera-se lentamente, sem
curiosidades, indifferente a brinquedos, a animaes, a flores, a livros. Nenhum
desejo forte parecera jámais vibrar n'aquella alma meia adormecida e passiva:
só ás vezes dizia que gostaria muito de voltar para a Italia. Tomára birra ao
Padre Vasques, mas não ousava desobedecer-lhe. Era em tudo um fraco; e
esse abatimento continuo de todo o seu ser resolvia-se a espaços em crises de
melancolia negra, que o traziam dias e dias mudo, murcho, amarello, com as
olheiras fundas e já velho. O seu unico sentimento vivo, intenso, até ahi, fôra a
paixão pela mãe.
Affonso quizera-o mandar para Coimbra. Mas, á idéa de se separar do seu
Pedro, a pobre senhora cahira de joelhos deante d'Affonso, balbuciando e
tremendo: e elle, naturalmente, lá cedeu perante essas mãos supplicantes,
essas lagrimas que cahiam quatro a
quatro pela pobre face de cera. O menino continuou em Bemfica dando os
seus lentos passeios a cavallo, de creado de farda atraz, começando já a ir
beber a sua genebra aos botequins de Lisboa... Depois foi despontando
n'aquella organisação uma grande tendencia
amorosa: aos dezenove annos teve o seu bastardosinho.
Affonso da Maia consolava-se pensando que, apesar de tão desgraçados
mimos, não faltavam ao rapaz qualidades: era muito esperto, são, e, como
todos os Maias, valente: não havia muito que elle só, com um chicote,
dispersara na estrada tres saloios de
varapau que lhe tinham chamado palmito.
Quando a mãe morreu, n'uma agonia terrivel de devota, debatendo-se dias
nos pavores do inferno, Pedro teve na sua dôr os arrebatamentos d'uma
loucura. Fizera a promessa hysterica, se ella escapasse, de dormir durante um
anno sobre as lageas do pateo: e
levado o caixão, sahidos os padres, cahio n'uma angustia soturna, obtusa, sem
lagrimas, de que não queria emergir, estirado de bruços sobre a cama n'uma
obstinação de penitente. Muitos mezes ainda não o deixou uma tristeza vaga: e
Affonso da Maia já se desesperava
de ver aquelle rapaz, seu filho e seu herdeiro, sahir todos os dias a passos de
monge, lugubre no seu luto pesado, para ir visitar a sepultura da mamã...
Esta dôr exagerada e morbida cessou por fim; e succedeu-lhe, quasi sem
transição, um periodo de vida dissipada e turbulenta, estroinice banal, em que
Pedro, levado por um romantismo torpe, procurava affogar em lupanares e
botequins as saudades da mamã.
Mas essa exhuberancia anciosa que se desencadeara tão subitamente, tão
tumultuosamente, na sua natureza desequilibrada, gastou-se depressa tambem.
Ao fim d'um anno de disturbios no Marrare, de façanhas nas esperas de
toiros, de cavallos esfalfados, de pateadas em S. Carlos, começaram a
reapparecer as antigas crises de melancolia nervosa; voltavam esses dias
taciturnos, longos como desertos, passados em
casa a bocejar pelas salas, ou sob alguma arvore da quinta todo estirado de
bruços, como despenhado n'um fundo de amargura. N'esses periodos tornavase
tambem devoto: lia Vidas de Santos, visitava o Lausperenne: eram d'esses
bruscos abatimentos d'alma que
outr'ora levavam os fracos aos mosteiros.
Isto penalisava Affonso da Maia: preferia saber que elle recolhera de
Lisboa, de madrugada, exhausto e bebedo, - do que vel-o, de ripanço debaixo
do braço, com um ar velho, marchando para a Egreja de Bemfica.
E havia agora uma idéa que, a seu pesar, ás vezes o torturava: descobrira a
grande parecença de Pedro com um avô de sua mulher, um Runa, de quem
existia um retrato em Bemfica: este homem extraordinario, com que na casa se
mettia medo ás creanças,enlouquecera - e julgando-se Judas enforcara-se
n'uma figueira...
Mas um dia, excessos e crises findaram. Pedro da Maia amava! Era um
amor á Romeu, vindo de repente n'uma troca de olhares fatal e deslumbradora,
uma d'essas paixões que assaltam uma existencia, a assolam como um furacão,
arrancando a vontade, a rasão,
os respeitos humanos e empurrando-os de roldão aos abysmos.
N'uma tarde, estando no Marrare, vira parar defronte, á porta de Mme.
Levaillant, uma caleche azul onde vinha um velho de chapéo branco, e uma
senhora loira, embrulhada num chale de Cashmira.
O velho, baixote e reforçado, de barba muito grisalha talhada por baixo do
queixo, uma face tisnada d'antigo embarcadiço e o ar gôche, desceu todo
encostado ao trintanario como se um rheumatismo o tolhesse, entrou
arrastando a perna o portal da modista; e ella voltando de vagar a cabeça olhou
um momento o Marrare.
Sob as rosinhas que ornavam o seu chapeu preto os cabellos loiros, d'um
oiro fulvo, ondeavam de leve sobre a testa curta e classica: os olhos
maravilhosos illuminavam-n'a toda; a friagem fazia-lhe mais pallida a
carnação de marmore: e com o seu perfil grave de
estatua, o modelado nobre dos hombros e dos braços que o chale cingia -
pareceu a Pedro n'eses instantes alguma cousa d'immortal e superior á terra.
Não a conhecia. Mas um rapaz alto, macilento, de bigodes negros, vestido
de negro, que fumava encostado á outra hombreira, n'uma pose de tedio -
vendo o violento interesse de Pedro, o olhar acceso e perturbado com que
seguia a caleche trotando Chiado
acima, veiu tomar-lhe o braço, murmurou-lhe junto á face, na sua voz grossa e
lenta:
- Queres que te diga o nome, meu Pedro? O nome, as origens, as datas e os
feitos principaes? E pagas ao teu amigo Alencar, ao teu sequioso Alencar, uma
garrafa de Champagne?
Veiu o Champagne. E o Alencar, depois de passar os dedos magros pelos
anneis da cabelleira e pelas pontas do bigode, começou, todo recostado e
dando um puchão aos punhos:
- Por uma dourada tarde d'outomno...
- André, gritou Pedro ao creado, martellando o marmore da mesa, retira o
Champagne!
O Alencar bradou, imitando o actor Epiphanio:
- O quê! Sem saciar a avidez de meu labio?...
Pois bem, o Champagne ficaria: mas o amigo Alencar, esquecendo que era
o poeta das Vozes d'Aurora, explicaria aquella gente da caleche azul n'uma
linguagem christã e pratica!...
- Ahi vae, meu Pedro, ahi vae!
Havia dois annos, justamente quando Pedro perdera a mamã, aquelle
velho, o papá Monforte, uma manhã rompera subitamente pelas ruas e pela
sociedade de Lisboa n'aquella mesma caleche com essa bella filha ao seu lado.
Ninguem os conhecia. Tinham alugado
a Arroios um primeiro andar no palacete dos Vargas; e a rapariga principiou a
apparecer em S. Carlos, fazendo uma impressão – uma impressão de causar
aneurismas, dizia o Alencar! Quando ella atravessava o salão os hombros
vergavam-se no deslumbramento de auréola que vinha d'aquella magnifica
creatura, arrastando com um passo de Deusa a sua cauda de côrte, sempre
decotada como em noites de gala, e apesar de solteira resplandecente de joias.
O papá nunca lhe dava o braço: seguia atraz, entalado n'uma grande gravata
branca de mordomo, parecendo mais tisnado e mais embarcadiço na claridade
loira que sahia da filha, encolhido e quasi apavorado, trazendo nas mãos o
oculo, o libretto, um saco de bonbons, o leque e o seu proprio guardachuva.
Mas era no camarote, quando a luz cahia sobre o seu collo eburneo e as suas
tranças de oiro, que ella offerecia verdadeiramente a encarnação d'um ideal da
Renascença, um modelo de Ticiano... Elle, Alencar, na primeira noite em que
a vira, exclamara, mostrando-a a ella e ás outras, ás trigueirotas da
assignatura:
- Rapazes! é como um ducado de ouro novo entre velhos patacos do tempo
do Sr. D. João VI!
O Magalhães, esse torpe pirata, pozera o dito n'um folhetim do Portuguez.
Mas o dito era d'elle, Alencar!
Os rapazes, naturalmente, começaram logo a rondar o palacete de Arroios.
Mas nunca n'aquella casa se abria uma janella. Os criados interrogados
disseram apenas que a menina se chamava Maria, e que o senhor se chamava
Manoel. Emfim uma creada, amaciada com seis pintos, soltou mais: o homem
era taciturno, tremia deante da filha, e dormia n'uma rêde; a senhora, essa,
vivia n'um ninho de sedas todo azul-ferrête, e passava o seu dia a ler novellas.
Isto não podia satisfazer a soffreguidão de Lisboa. Fez-se uma devassa
methodica, habil, paciente... Elle, Alencar, pertencera á devassa.
E souberam-se horrores. O papá Monforte era dos Açores: muito moço,
uma facada n'uma rixa, um cadaver a uma esquina tinham-n'o forçado a fugir
a bordo d'um brigue americano. Tempos depois um certo Silva, procurador da
casa de Taveira, que o conhecera nos Açores, estando na Havana a estudar a
cultura do tabaco que os Taveiras queriam implantar nas Ilhas encontrára lá o
Monforte (que verdadeiramente se chamava Forte) rondando pelo caes, de
chinellas de esparto, á procura de embarque para a Nova-Orleans. Aqui havia
uma treva na historia do Monforte. Parece que servira algum tempo de feitor
n'uma plantação da Virginia... Emfim, quando reappareceu á face dos céos
commandava o brigue Nova Linda, e levava cargas de pretos para o Brazil,
para a Havana
e para a Nova Orleans.
Escapara aos cruzeiros inglezes, arrancára uma fortuna da pelle do
africano, e agora rico, homem de bem, proprietario, ia ouvir a
Corelli a S. Carlos. Todavia esta terrivel chronica, como dizia o Alencar,
obscura e mal provada, claudicava aqui e além...
- E a filha? perguntou Pedro, que o escutara, serio e pallido.
Mas isso não o sabia o amigo Alencar. Onde a arranjara assim tão loira e
bella? Quem fôra a mamã? Onde estava? Quem a ensinara a embrulhar-se com
aquelle gesto real no seu chale de Cashmira?...
- Isso, meu Pedro, são
mysterios que jámais poude Lisboa
astuta devassar e só Deus sabe!
Em todo o caso quando Lisboa descobriu aquella legenda de sangue e
negros, o enthusiasmo pela Monforte calmou. Que diabo! Juno tinha sangue
de assassino, a beltà do Ticiano era filha de negreiro! As senhoras, deliciandose
em villipendiar uma mulher tão loira, tão linda e com tantas joias,
chamaram-lhe logo a negreira! Quando ella apparecia agora no theatro, D.
Maria da Gama affectava esconder a face detraz do leque, porque lhe parecia
ver na rapariga (sobretudo quando ella usava os seus bellos rubis) o sangue
das
facadas que dera o papázinho! E tinham-n'a calumniado abominavelmente.
Assim, depois de passarem em Lisboa o primeiro inverno, os Monfortes
sumiram-se: pois disse-se logo, com furor, que estavam arruinados, que a
policia perseguia o velho, mil perversidades... O
excellente Monforte, que soffre de rheumatismos articulares, achava-se
tranquillamente, ricamente, tomando as aguas dos Piryneus... Fora lá que o
Mello os conhecera...
- Ah! o Mello conhece-os? exclamou Pedro.
- Sim, meu Pedro, o Mello os conhece.
Pedro d'ahi a um momento deixou o Marrare; e n'essa noite, antes de
recolher, apesar da chuva fria e miuda, andou rondando uma hora, com a
imaginação toda accesa, o palacete dos Vargas apagado e mudo. Depois, d'ahi
a duas semanas o Alencar, entrando em S.
Carlos ao fim do primeiro acto do Barbeiro, ficou assombrado ao ver Pedro da
Maia installado na frisa da Monforte, á frente, ao lado de Maria, com uma
camelia escarlate na casaca - egual ás d'um ramo pousado no rebordo de
velludo.
Nunca Maria Monforte apparecera mais bella: tinha uma d'essas toilettes
excessivas e theatraes que offendiam Lisboa, e faziam dizer ás senhoras que
ella se vestia «como uma comica». Estava de seda côr de trigo, com duas rosas
amarellas e uma espiga nas tranças, opalas sobre o collo e nos braços; e estes
tons de ceara madura batida do sol, fundindo-se com o ouro dos cabellos,
illuminando-lhe a carnação eburnea, banhando as suas fórmas de estatua,
davam-lhe o esplendor d'uma Ceres. Ao fundo entreviam-se os grandes
bigodes loiros do Mello, que conversava de pé com o papá Monforte -
escondido como sempre no canto negro da frisa.
O Alencar foi observar «o caso» do camarote dos Gamas. Pedro voltára á
sua cadeira, e de braços cruzados contemplava Maria. Ella conservou algum
tempo a sua attitude de Deusa insensivel; mas, depois, no duetto de Rosina e
Lindor, duas vezes os seus olhos
azues e profundos se fixaram n'elle, gravemente e muito tempo. O Alencar,
correu ao Marrare, de braços ao ar, a berrar a novidade.
Não tardou de resto a fallar-se em toda a Lisboa da paixão de Pedro da
Maia pela negreira. Elle tambem namorou-a publicamente, á antiga, plantado
a uma esquina, defronte do palacete dos Vargas, com os olhos cravados na
janella d'ella, immovel e pallido d'extasi.
Escrevia-lhe todos os dias duas cartas em seis folhas de papel - poemas
desordenados que ia compôr para o Marrare: e ninguem lá ignorava o destino
d'aquellas paginas de linhas encruzadas que se accumulavam deante d'elle
sobre o taboleiro da genebra. Se algum amigo vinha á porta do café perguntar
por Pedro da Maia, os criados já respondiam muito naturalmente:
- O sr. D. Pedro? Está a escrever á menina.
E elle mesmo, se o amigo se acercava, estendia-lhe a mão, exclamava
radiante, com o seu bello e franco sorriso:
- Espera ahi um bocado, rapaz, estou a escrever á Maria!
Os velhos amigos de Affonso da Maia que vinham fazer o seu whist a
Bemfica, sobretudo o Villaça, o administrador dos Maias, muito zeloso da
dignidade da casa, não tardaram em lhe trazer a nova d'aquelles amores do
Pedrinho. Affonso já os suspeitava: via
todos os dias um criado da quinta partir com um grande ramo das melhores
camelias do jardim; todas as manhãs cedo encontrava no corredor o escudeiro,
dirigindo-se ao quarto do menino, a cheirar regaladamente o perfume d'um
enveloppe com sinete de lacre dourado; - e não lhe desagradava que um
sentimento qualquer, humano e forte, lhe fosse arrancando o filho á estroinice
bulhenta, ao jogo, ás melancolias sem rasão em que reapparecia o negro
ripanço...
Mas ignorava o nome, a existencia sequer dos Monfortes; e as
particularidades que os amigos lhe revelaram, aquella facada nos Açores, o
chicote de feitor na Virginia, o brigue Nova Linda, toda a sinistra legenda do
velho contrariou muito Affonso da Maia.
Uma noite que o coronel Sequeira, á mesa do whist, contava que vira
Maria Monforte e Pedro passeando a cavallo, «ambos muito bem e muito
distingués», Affonso, depois d'um silencio, disse com um ar enfastiado:
- Emfim, todos os rapazes teem as suas amantes... Os costumes são assim,
a vida é assim, e seria absurdo querer reprimir taes cousas. Mas essa mulher,
com um pae d'esses, mesmo para amante acho má.
O Villaça suspendeu o baralhar das cartas, e ageitando os oculos d'ouro
exclamou com espanto:
- Amante! Mas a rapariga é solteira, meu senhor, é uma menina honesta!...
Affonso da Maia enchia o seu cachimbo; as mãos começaram a tremerlhe;
e voltando-se para o administrador, n'uma voz que tremia um pouco
tambem:
- O Villaça de certo não suppõe que meu filho queira casar com essa
creatura...
O outro emmudeceu. E foi o Sequeira que murmurou:
- Isso não, está claro que não...
E o jogo continuou algum tempo em silencio.
Mas Affonso da Maia principiou a andar descontente. Passavam-se
semanas que Pedro não jantava em Bemfica. De manhã, se o via, era um
momento, quando elle descia ao almoço, já com uma luva calçada, apressado
e radiante, gritando para dentro se estava
sellado o cavallo; depois, mesmo de pé, bebia um gole de chá, perguntava a
correr «se o papá queria alguma cousa», dava um geito ao bigode deante do
grande espelho de Veneza sobre o fogão, e lá partia, enlevado. Outras vezes
todo o dia não sahia do quarto: a tarde
descia, accendiam-se as luzes; até que o pae, inquieto, subia, ia encontral-o
estirado sobre o leito, com a cabeça enterrada nos braços.
- Que tens tu? - perguntava-lhe.
- Enchaqueca, - respondia n'um tom surdo e rouco.
E Affonso descia indignado, vendo em toda aquella angustia covarde
alguma carta que não viera, ou talvez uma rosa offerecida que não fôra posta
nos cabellos...
Depois, por vezes, entre dois robbers ou conversando em volta da bandeja
do chá, os seus amigos tinham observações que o inquietavam, partindo
d'aquelles homens que habitavam Lisboa, lhe conheciam os rumores -
emquanto elle passava alli, inverno e verão,
entre os seus livros e as suas rosas. Era o excellente Sequeira que perguntava
porque não faria Pedro uma viagem longa, para se instruir, á Allemanha, ao
Oriente? Ou o velho Luiz Runa, o primo d'Affonso, que, a proposito de cousas
indifferentes, rompia lamentando os
tempos em que o Intendente da policia podia livremente expulsar de Lisboa as
pessoas importunas... Evidentemente alludiam á Monforte, evidentemente
julgavam-n'a perigosa.
No verão, Pedro partiu para Cintra; Affonso soube que os Monfortes
tinham lá alugado uma casa. Dias depois o Villaça appareceu em Bemfica,
muito preoccupado: na vespera Pedro visitara-o no cartorio, pedira-lhe
informações sobre as suas propriedades, sobre o
meio de levantar dinheiro. Elle lá lhe dissera que em setembro, chegando á sua
maioridade, tinha a legitima da mamã...
- Mas não gostei d'isto, meu senhor, não gostei d'isto...
- E porque, Villaça? O rapaz quererá dinheiro, quererá dar presentes á
creatura... O amor é um luxo caro, Villaça.
- Deus queira que seja isso, meu senhor, Deus o ouça!
E aquella confiança tão nobre de Affonso da Maia no orgulho patricio, nos
brios de raça de seu filho, chegava a tranquillisar Villaça.
D'ahi a dias, Affonso da Maia viu emfim Maria Monforte. Tinha jantado
na quinta do Sequeira ao pé de Queluz, e tomavam ambos o seu café no
mirante, quando entrou pelo caminho estreito que seguia o muro a caleche
azul com os cavallos cobertos de redes. Maria, abrigada sob uma sombrinha
escarlate, trazia um vestido côr de rosa cuja roda, toda em folhos, quasi cobria
os joelhos de Pedro sentado ao seu lado: as fitas do seu chapéo, apertadas
n'um grande laço que lhe enchia o peito, eram tambem côr de rosa: e a sua
face,
grave e pura como um marmore grego, apparecia realmente adoravel,
illuminada pelos olhos d'um azul sombrio, entre aquelles tons rosados. No
assento defronte, quasi todo tomado por cartões de modista, encolhia-se o
Monforte, de grande chapéo panamá, calça de
ganga, o mantelete da filha no braço, o guarda sol entre os joelhos. Iam
callados, não viram o mirante; e, no caminho verde e fresco, a caleche passou
com balanços lentos, sob os ramos que roçavam a sombrinha de Maria. O
Sequeira ficara com a chavena de café junto
aos labios, de olho esgazeado, murmurando:
- Caramba! É bonita!
Affonso não respondeu: olhava cabisbaixo aquella sombrinha escarlate,
que agora se inclinava sobre Pedro, quasi o escondia, parecia envolvel-o todo -
como uma larga mancha de sangue alastrando a caleche sob o verde triste das
ramas.
O outono passou, chegou o inverno, frigidissimo. Uma manhã, Pedro
entrou na livraria onde o pae estava lendo junto ao fogão; recebeu-lhe a
benção, passou um momento os olhos por um jornal aberto, e voltando-se
bruscamente para elle:
- Meu pae, - disse, esforçando-se por ser claro e decidido - venho pedir-lhe
licença para casar com uma senhora que se chama Maria Monforte.
Affonso pousou o livro aberto sobre os joelhos, e n'uma voz grave e lenta:
- Não me tinhas fallado d'isso... Creio que é a filha d'um assassino, d'um
negreiro, a quem chamam tambem a negreira...
- Meu pae!
Affonso ergueu-se diante d'elle, rigido e inexoravel como a encarnação
mesma da honra domestica.
- Que tens a dizer-me mais? Fazes-me corar de vergonha.
Pedro, mais branco que o lenço que tinha na mão, exclamou todo a tremer,
quasi em soluços:
- Pois póde estar certo, meu pae, que hei de casar! Sahiu, atirando
furiosamente com a porta. No corredor gritou pelo escudeiro, muito alto para
que o pae ouvisse, e deu-lhe ordem para levar as suas malas ao hotel da
Europa.
Dois dias depois Villaça entrou em Bemfica, com as lagrimas nos olhos,
contando que o menino casára n'essa madrugada – e segundo lhe dissera o
Sergio, procurador do Monforte, ia partir com a noiva para a Italia.
Affonso da Maia sentára-se n'esse instante á mesa do almoço, posta ao pé
do fogão: ao centro, um ramo esfolhava-se n'um vaso do Japão, á chamma
forte da lenha: e junto ao talher de Pedro estava o numero da Grinalda, jornal
de versos que elle costumava receber...
Affonso ouviu o procurador, grave e mudo, continuando a desdobrar
lentamente o seu guardanapo.
- Já almoçou, Villaça?
O procurador, assombrado d'aquella serenidade, balbuciou:
- Já almocei, meu senhor...
Então Affonso, apontando para o talher de Pedro, disse ao escudeiro:
- Póde tirar d'alli esse talher, Teixeira. D'aqui por diante ha só um talher á
mesa... Sente-se, Villaça, sente-se.
O Teixeira, ainda novo na casa, levantou com indifferença o talher do
menino. Villaça sentára-se. Tudo em redor era correto e calmo como nas
outras manhãs em que almoçara em Bemfica. Os passos do escudeiro não
faziam ruido no tapete fofo; o lume estalava
alegremente, pondo retoques d'ouro nas pratas polidas; o sol discreto que
brilhava fóra no azul d'inverno fazia scintillar crystaes de geada nas ramas
seccas; e á janella o papagaio, muito patulêa e educado por Pedro, rosnava
injurias aos Cabraes.
Por fim Affonso ergueu-se; esteve olhando abstrahidamente a quinta, os
pavões no terrasso; depois ao sahir da sala tomou o braço de Villaça, apoiouse
n'elle com força, como se lhe tivesse chegado a primeira tremura da
velhice, e no seu abandono sentisse alli uma
amizade segura. Seguiram o corredor, callados. Na livraria Affonso foi
occupar a sua poltrona ao pé da janella, começou a encher de vagar o seu
cachimbo. Villaça, de cabeça baixa, passeava ao comprido das altas estantes,
nas pontas dos pés, como no quarto d'um
doente. Um bando de pardaes veiu gralhar um momento nos ramos d'uma alta
arvore que roçava a varanda. Depois houve um silencio, e Affonso da Maia
disse:
- Então, Villaça, o Saldanha lá foi demittido do Paço?...
O outro respondeu, vaga e machinalmente:
- É verdade, meu senhor, é verdade...
E não se fallou mais de Pedro da Maia.
II
Pedro e Maria, no entanto, numa felicidade de novella, iam descendo a
Italia, a pequenas jornadas, de cidade em cidade, n'essa via sagrada que vae
desde as flores e das messes da planicie lombarda até ao molle paiz de
romanza, Napoles, branca sob o azul. Era lá que tencionavam passar o
inverno, n'esse ar sempre tepido junto a um mar sempre manso, onde as
preguiças de noivado teem uma suavidade mais longa... Mas um dia, em
Roma, Maria sentiu o appetite de Paris. Parecia-lhe fatigante o viajar assim,
aos balouços das caleças, só para ir ver lazzaroni engolir fios de macarrão.
Quanto melhor seria habitar um ninho acolchoado nos Campos Elyseos, e
gozarem alli um lindo inverno de amor! Paris estava seguro, agora, com o
principe Luiz Napoleão... Além d'isso, aquella velha Italia
classica enfastiava-a já: tantos marmores eternos, tantas madonas começavam
(como ella dizia pendurada languidamente do pescoço de Pedro) a dar tonturas
á sua pobre cabeça! Suspirava por uma boa loja de modas, sob as chammas do
gaz, ao rumor do boulevard...
Depois tinha medo da Italia onde todo mundo conspirava.
Foram para França.
Mas por fim aquelle Paris ainda agitado, onde parecia restar um vago
cheiro de polvora pelas ruas, onde cada face conservava um calor de batalha,
desagradou a Maria. De noite accordava com a Marselheza; achava um ar
feroz á policia; tudo permanecia triste; e as
duquezas, pobres anjos, ainda não ousavam vir ao Bois, com medo dos
operarios, corja insaciavel! Emfim demoraram-se lá até a primavera, no ninho
que ella sonhára, todo de velludo azul, abrindo sobre os Campos Elyseos.
Depois principiou a fallar-se de novo em revolução, em golpe d'estado. A
admiração absurda de Maria pelos novos uniformes da garde-mobile fazia
Pedro nervoso. E quando ella appareceu gravida, anciou por a tirar d'aquelle
Paris batalhador e fascinante, vir
abrigal-a na pacata Lisboa adormecida ao sol.
Antes de partir porém escreveu ao pae.
Fôra um conselho, quasi uma exigencia de Maria. A recusa de Affonso da
Maia ao principio desesperara-a. Não a affligia a desunião domestica: mas
aquelle não affrontoso de fidalgo puritano marcara muito publicamente, muito
brutalmente, a sua origem suspeita! Odiou o velho: e tinha apressado o
casamento, aquella partida triumphante para Italia, para lhe mostrar bem que
nada valiam genealogias, avós godos, brios de familia - deante dos seus braços
nus... Agora porém que ia voltar a Lisboa, dar soirées, crear côrte, a
reconciliação tornava-se indispensavel: aquelle pae retirado em Bemfica, com
o rigido orgulho de outras edades, faria lembrar constantemente, mesmo entre
os seus espelhos e os seus estofos, o brigue Nova Linda carregado de negros...
E queria mostrar-se a Lisboa pelo braço d'esse sogro tão nobre e tão
ornamental, com as suas barbas de Viso-rei.
-Dize-lhe que já o adoro, murmurava ella curvada sobre a escrivaninha
acariciando os cabellos de Pedro. Dize-lhe que se tiver um pequeno lhe hei de
pôr o nome d'elle... Escreve-lhe uma carta bonita, hein!
E foi bonita, foi terna a carta de Pedro ao papá. O pobre rapaz amava-o.
Fallou-lhe commovido da esperança de ter um filho varão; as desintelligencias
deviam findar em torno do berço d'aquelle pequeno Maia que alli vinha,
morgado e herdeiro do nome...
Contava-lhe a sua felicidade com uma effusão de namorado indiscreto: a
historia da bondade de Maria, das suas graças, da sua instrucção, enchia duas
paginas: e jurava-lhe que apenas chegasse não tardaria uma hora em ir atirarse
aos seus pés...
Com effeito, apenas desembarcou, correu n'um trem a Bemfica. Dois dias
antes o pae partira para Santa Olavia: isto pareceu-lhe uma desfeita - e feriu-o
acerbamente.
Fez-se então entre o pae e o filho uma grande separação. Quando lhe
nasceu uma filha Pedro não lh'o participou – dizendo dramaticamente ao
Villaça «que já não tinha pae!» Era uma linda bébé, muito gorda, loira e côr
de rosa, com os bellos olhos negros dos
Maias. Apesar do desejo de Pedro, Maria não a quiz crear; mas adorava-a com
phrenesi; passava dias de joelhos ao pé do berço, em extasi, correndo as suas
mãos cheias de pedrarias pelas carninhas tenras, pondo-lhe beijos de devota
nos pésinhos, na rosquinha das
côxas, balbuciando-lhe n'um enlevo nomes de grande amor, e perfurmando-a
já, enchendo-a já de laçarotes.
E n'estes delirios pela filha, brotava, mais amarga, a sua colera contra
Affonso da Maia. Considerava-se então insultada em si mesma e n'aquelle
cherubim que lhe nascera. Injuriava o velho grosseiramente, chamava-lhe o D.
Fuas, o Barbatanas...
Pedro um dia ouviu isto, e escandalisou-se: ella replicou desabridamente: e
deante d'aquella face abrazada, onde entre lagrimas os olhos azues pareciam
negros de colera, elle só poude balbuciar timidamente:
- É meu pae, Maria...
Seu pae! E á face de toda a Lisboa tratava-a então como uma concubina!
Podia ser um fidalgo, as maneiras eram de villão. Um D. Fuas, um Barbatanas,
nada mais!...
Arrebatou a filha, e abraçada n'ella, romperam as queixas por entre os
prantos:
- Ninguem nos ama, meu anjo! Ninguem te quer! Tens só a tua mãe!
Tratam-te como se fosses bastarda!
A bébé, sacudida nos braços da mãe, desatou a gritar. Pedro correu,
envolveu-as ambas no mesmo abraço, já enternecido, já humilde; e tudo
terminou n'um longo beijo.
E elle, por fim, no seu coração, justificava aquella colera de mãe que vê
desprezado o seu anjo. De resto, mesmo alguns amigos de Pedro, o Alencar, o
D. João da Cunha, que começavam agora a frequentar Arroios, riam d'aquella
obstinação de pae gothico, amuado
na provincia, porque sua nora não tivera avós mortos em Aljubarrota! E onde
havia outra em Lisboa, com aquellas toilettes, aquella graça, recebendo tão
bem? Que diabo, o mundo marchara, sahira-se já das attitudes empertigadas
do seculo XVI!
E o proprio Villaça, um dia que Pedro lhe fôra mostrar a pequerruchinha
adormecida entre as rendas do seu berço, sensibilisou-se, veio-lhe uma da suas
faceis lagrimas, declarou, com a mão no coração, que aquillo era uma
caturrice do sr. Affonso da Maia!
- Pois peior para elle! não querer ver um anjo destes! disse Maria, dando
deante do espelho um lindo geito ás flores do cabello.
Tambem não faz cá falta...
E não fazia falta. N'esse outubro, quando a pequena completou o seu
primeiro anno, houve um grande baile na casa de Arroios, que elles agora
occupavam toda, e que fôra ricamente remobilada. E as senhoras que outr'ora
tinham horror á negreira, a D. Maria da Gama que escondia a face por traz do
leque, lá vieram todas, amaveis e decotadas, com o beijinho prompto,
chamando-lhe «querida», admirando as grinaldas de camelias que
emmolduravam os espelhos de quatrocentos mil réis, e gozando muito os
gelados.
Começara então uma existencia festiva e luxuosa, que, segundo dizia o
Alencar, o intimo da casa, o cortesão de Madame, «tinham um saborsinho
d'orgia distinguée como os poemas de Byron.» Eram realmente as soirées mais
alegres de Lisboa: ceiava-se á uma hora
com Champagne; talhava-se até tarde um monte forte; inventavam-se quadros
vivos, em que Maria se mostrara soberanamente bella sob as roupagens
classicas de Helena ou no luxo sombrio do luto oriental de Judith. Nas noites
mais intimas, ella costumava vir fumar
com os homens uma cigarrilha perfumada. Muitas vezes, na sala de bilhar, as
palmas estalaram, vendo-a bater á carambola franceza D. João da Cunha, o
grande taco da epoca.
E no meio d'esta festança, atravessada pelo sopro romantico da
Regeneração, lá se via sempre, taciturno e encolhido, o papá Monforte, d'alta
gravata branca, com as mãos atraz das costas, rondando pelos cantos,
refugiado pelos vãos das janellas, mostrando-se só para salvar alguma
bobèche que ia estalar - e não desprendendo nunca da filha o olho embevecido
e senil.
Nunca Maria fôra tão formosa. A maternidade dera-lhe um esplendor mais
copioso; e enchia verdadeiramente, dava luz áquellas altas salas de Arroios,
com a sua radiante figura de Juno loira, os diamantes das tranças, o eburneo e
o lacteo do collo nu, e o rumor das grandes sedas. Com rasão, querendo ter, á
maneira das damas da Renascença, uma flôr que a symbolisasse, escolhera a
tulipa real opulenta e ardente.
Citavam-se os requintes do seu luxo, roupas brancas, rendas do valor de
propriedades!... Podia fazel-o! o marido era rico, e ella sem escrupulo
arruinal-o-hia, a elle e ao papá Monforte...
Todos os amigos de Pedro, naturalmente, a amavam. O Alencar esse
proclamava-se com alarido seu «cavalleiro e seu poeta». Estava sempre em
Arroios, tinha lá o seu talher: por aquellas salas soltava as suas phrases
ressoantes, por esses sophás arrastava as suas poses de melancolia. Ia dedicar
a Maria (e nada havia mais extraordinario que o tom langoroso e plangente, o
olho turvo, fatal, com que elle pronunciava este nome - MARIA!) ia dedicarlhe
o seu poema, tão annunciado, tão esperado - FLOR DE MARTYRIO! E
citavam-se as estrophes que lhe fizera ao gosto cantante do tempo:
Vi-te essa noite no explendor das sallas
Com as loiras tranças volteando louca...
A paixão do Alencar era innocente: mas, dos outros intimos da casa, mais
d'um de certo balbuciara já a sua declaração no boudoir azul em que ella
recebia ás tres horas, entre os seus vasos de tulipas; as suas amigas porém,
mesmo as peiores, affirmavam que os seus
favores nunca teriam passado de alguma rosa dada n'um vão de janella, ou de
algum longo e suave olhar por traz do leque. Pedro todavia começava a ter
horas sombrias. Sem sentir ciumes, vinha-lhe ás vezes, de repente, um tedio
d'aquella existencia de luxo e de festa, um desejo violento de sacudir da sala
esses homens, os seus intimos, que se atropellavam assim tão ardentemente
em volta dos hombros decotados de Maria.
Refugiava-se então n'algum canto, trincando com furor o charuto: e ahi,
era em toda a sua alma um tropel de cousas dolorosas e sem nome...
Maria sabia perceber bem na face do marido «estas nuvens», como ella
dizia. Corria para elle, tomava-lhe ambas as mãos, com força, com dominio:
- Que tens tu, amor? Estás amuado!
- Não, não estou amuado...
- Olha então para mim!...
Collava o seu bello seio contra o peito d'elle; as suas mãos corriam-lhe os
braços n'uma caricia lenta e quente, dos pulsos aos hombros; depois, com um
lindo olhar, estendia-lbe os labios. Pedro colhia n'elles um longo beijo, e
ficava consolado de tudo.
Durante esse tempo Affonso da Maia não sahia das sombras de Sta.
Olavia, tão esquecido para lá como se estivesse no seu jazigo. Já se não fallava
d'élle em Arroios, D. Fuas estava roendo a teima. Só Pedro ás vezes
perguntava a Villaça «como ia o papá.» E as
noticias do administrador enfureciam sempre Maria: o papá estava optimo;
tinha agora um cosinheiro francez explendido; Sta. Olavia enchera-se de
hospedes, o Sequeira, André da Ega, D. Diogo Coutinho...
- O Barbatanas trata-se! ia ella dizer ao pae com rancor.
E o velho negreiro esfregava as mãos, satisfeito de o saber assim feliz em
Sta. Olavia; porque nunca cessara de tremer á idéa de ver em Arroios, deante
de si, aquelle fidalgo tão severo e de vida tão pura.
Quando porém Maria teve outro filho, um pequeno, o socego que então se
fez em Arroios trouxe de novo muito vivamente ao coração de Pedro a
imagem do pae abandonado n'aquella tristeza do Douro. Fallou a Maria de
reconciliação, a medo, aproveitando a fraqueza da convalescença. E a sua
alegria foi grande, quando Maria, depois de ficar um momento pensativa,
respondeu:
- Creio que me havia de fazer feliz tel-o aqui...
Pedro, enthusiasmado com um assentimento tão inesperado, pensou em
abalar para Sta. Olavia. Mas ella tinha um plano melhor: Affonso, segundo
dizia o Villaça, devia recolher em breve a Bemfica; pois bem, ella iria lá com
o pequeno, toda vestida de preto, e de
repente, atirando-se-lhe aos pés, pedir-lhe-hia a benção para seu neto! Não
podia falhar! Não podia, realmente; e Pedro viu alli uma alta inspiração de
maternidade...
Para abrandar desde já o papá, Pedro quiz dar ao pequeno o nome de
Affonso. Mas n'isso Maria não consentiu. Andava lendo uma novella de que
era heroe o ultimo Stuart, o romanesco principe Carlos Eduardo; e, namorada
d'elle, das suas aventuras e desgraças, queria dar esse nome a seu filho...
Carlos Eduardo da Maia! Um tal nome parecia-lhe conter todo um destino de
amores e façanhas.
O baptisado teve de ser retardado; Maria adoecera com uma angina. Foi
muito benigna porém; e d'ahi a duas semanas Pedro podia já sahir para uma
caçada na sua quinta da Tojeira, adiante d'Almada. Devia demorar-se dois
dias. A partida arranjara-se unicamente
para obsequiar um italiano, chegado por então a Lisboa, distincto rapaz que
lhe fôra apresentado pelo secretario da Legação Ingleza, e com quem Pedro
sympathisara vivamente; dizia-se sobrinho dos Principes de Soria; e vinha
fugido de Napoles, onde conspirára contra os Bourbons, e fôra condemnado á
morte. O Alencar e D. João Coutinho iam tambem á caçada - e a partida foi de
madrugada.
N'essa tarde, Maria jantava só no seu quarto, quando sentiu carruagens
parando á porta, um grande rumor encher a escada; quasi immediatamente
Pedro apparecia-lhe tremulo e enfiado:
- Uma grande desgraça, Maria!
- Jesus!
- Feri o rapaz, feri o napolitano!...
- Como?
Um desastre estupido!... Ao saltar um barranco, a espingarda dispara-selhe,
e a carga, zás, vae cravar-se no napolitano! Não era possivel fazer
curativos na Tojeira, e voltaram logo a Lisboa. Elle naturalmente não
consentira que o homem que tinha ferido recolhesse
ao hotel: trouxera-o para Arroios, para o quarto verde por cima, mandara
chamar o medico, duas enfermeiras para o velar, e elle mesmo lá ia passar a
noite...
- E elle?
- Um heroe!... Sorri, diz que não é nada, mas eu vejo-o pallido como um
morto. Um rapaz adoravel! Isto só a mim, Senhor! E então o Alencar que ia
mesmo ao pé d'elle... Podia antes ter ferido o Alencar, um rapaz intimo, de
confiança! até a gente se ria. Mas não, zás, logo o outro, o de cerimonia ...
Uma sege, n'esse instante, entrava o pateo.
- É o medico!
E Pedro abalou.
Voltou d'ahi a pouco mais tranquillo. O Dr. Guedes quasi rira d'aquella
bagatella, uma chumbada no braço, e alguns grãos perdidos nas costas.
Promettera-lhe que d'ahi a duas semanas podia caçar outra vez na Tojeira; e o
principe estava já fumando o seu charuto.
Bello rapaz! Parecia sympathisar com o papá Monforte...
Toda essa noite Maria dormiu mal, na excitação vaga que lhe dava aquella
idéa d'um principe enthusiasta, conspirador, condemnado á morte, ferido agora
por cima do seu quarto.
Logo de manhã cedo - apenas Pedro sahira a fazer transportar, elle mesmo,
do hotel, as bagagens do napolitano - Maria mandou a sua criada franceza de
quarto, uma bella moça d'Arles, acima, saber da parte d'ella como S. Alteza
passara, e «ver que figura tinha». A
arlesiana appareceu, com os olhos brilhantes, a dizer á senhora, nos seus
grandes gestos de Provençal, que nunca vira um homem tão formoso! Era uma
pintura de Nosso Senhor Jesus Christo! Que pescoço, que brancura de
marmore! Estava muito pallido ainda; agradecia enternecido os cuidados de
Madame Maia; e ficara a ler o jornal encostado aos travesseiros...
Maria, desde então, não pareceu interessar-se mais pelo ferido. Era Pedro
que vinha, a cada instante, fallar-lhe d'elle, enthusiasmado por aquella
existencia pathetica de principe conspirador, partilhando já o seu odio aos
Bourbons, encantado com a similitude de gostos que encontrava n'elle, o
mesmo amor da caça, dos cavallos, das armas. Agora logo de manhã, subia
para o quarto do Principe, de robe-de-chambre e cachimbo na boca, e passava
lá horas n'uma camaradagem, fazendo grogs quentes – permittidos pelo Dr.
Guedes. Levava mesmo para lá os seus amigos, o Alencar, o D. João da
Cunha. Maria sentia-lhes por cima as risadas. Ás vezes tocava-se viola. E o
velho Monforte, pasmado para o heroe, não cessava de lhe rondar o leito.
A Arlesiana, essa, tambem a cada momento apparecia lá a levar toalhas de
rendas, um assucareiro que ninguem reclamara, ou algum vaso com flores
para alegrar a alcova... Maria, por fim, perguntou a Pedro, muito seria, se além
de todos os amigos da casa, duas
enfermeiras, dois escudeiros, o papá e elle Pedro - era necessaria tambem
constantemente a sua propria criada no quarto de Sua Alteza!
Não era. Mas Pedro riu muito á idéa de que a Arlesiana se tivesse
namorado do principe. N'esse caso Venus era-lhe propicia! O napolitano
tambem a achava picante: un très joli brin de femme, tinha elle dito.
A bella face de Maria impallideceu de colera. Julgava tudo isso de mau
gosto, grosseiro, impudente! Pedro fôra realmente um doido em trazer assim
para a intimidade de Arroios um estrangeiro, um fugido, um aventureiro!
Demais, aquella troça em cima, entre grogs quentes, com guitarra, sem
respeito por ella ainda toda nervosa, toda fraca da convalescença, indignava-a!
Apenas Sua Alteza podesse accommodar-se com almofadas n'uma sege,
queria-o fóra, na estalagem...
- O que ahi vae! Jesus! o que ahi vae!... disse Pedro.
- É assim.
E de certo foi muito severa tambem com a Arlesiana, por que n'essa tarde
Pedro encontrou a moça aos ais no corredor, limpando ao avental os olhos
affogueados.
D'ahi a dias, porém, o napolitano, já convalescente, quiz recolher ao seu
hotel. Não vira Maria: mas em agradecimento da sua hospitalidade mandoulhe
um admiravel ramo, e, com uma galanteria de principe artista da
Renascença, um soneto em italiano enrolado entre as flores e tão perfumado
como ellas: comparava-a a uma nobre dama da Syria dando a gota de agua da
sua bilha ao cavalleiro arabe, ferido na estrada ardente; comparava-a á Beatriz
do Dante.
Isto affigurou-se a todos de uma rara distincção, e, como disse o Alencar,
um rasgo á Byron.
Depois, na soirée do baptisado de Carlos Eduardo, dada d'ahi a uma
semana, o napolitano mostrou-se, e impressionou tudo. Era um homem
esplendido, feito como um Apollo, de uma pallidez de marmore rico: a sua
barba curta e frisada, os seus longos cabellos castanhos, cabellos de mulher,
ondeados e com reflexos de ouro, apartados á nazarena - davam-lhe realmente,
como dizia a Arlesiana, uma physionomia de bello Christo.
Dançou apenas uma contradança com Maria, e pareceu, na verdade, um
pouco taciturno e orgulhoso: mas tudo n'elle fascinava, a sua figura, o seu
mysterio, até o seu nome de Tancredo. Muitos corações de mulher palpitavam
quando elle, encostado a uma hombreira, de claque na mão, uma melancolia
na face, exhalando o encanto pathetico de um condemnado á morte,
derramava lentamente pela sala o langor sombrio do seu olhar de velludo. A
marqueza d'Alvenga, para o examinar de perto, pediu o braço a Pedro, e foi
applicar-lhe, como a um marmore de museo, a sua luneta de ouro.
- É de appetite! exclamou ella. É uma imagem!... E são amigos, são
amigos, Pedro?
- Somos como dois irmãos d'armas, minha senhora.
N'essa mesma soirée, o Villaça informára Pedro que o pae era esperado no
dia seguinte em Bemfica. E Pedro, logo que se recolheram, fallou a Maria em
«irem fazer a grande scena ao papá.» Ella, porém, recusou, e com as razões
mais imprevistas, as mais sensatas. Tinha cogitado muito! Reconhecia agora
que um dos motivos d'aquella teima do papá - ultimamente chamava-lhe
sempre o papá - era essa extraordinaria existencia de Arroios...
- Mas filha, disse Pedro, escuta, nós não vivemos tambem em plena
orgia... Alguns amigos que veem...
Pois sim, pois sim... Mas, realmente, estava decidida a ter um interior mais
calmo e mais domestico. Era mesmo melhor p'ra os bébés. Pois bem, queria
que o papá estivesse convencido d'essa transformação, para que as pazes
fossem mais faceis e eternas.
- Deixa passar dois ou tres mezes... Quando elle souber como nós vivemos
quietinhos, eu o trarei, socega... É bom tambem que seja quando meu pae
partir para as aguas, para os Pyrineos. Que o pobre papá, coitado, tem medo
do teu... Filho, não achas assim melhor?
- És um anjo, foi a resposta de Pedro, beijando-lhe ambas as mãos.
Toda a antiga maneira de Maria pareceu com effeito ir mudando.
Suspendera as soirées. Começou a passar as noites muito recolhidas, com
alguns intimos, no seu boudoir azul. Já não fumava; abandonara o bilhar; e
vestida de preto, com uma flôr nos cabellos, fazia crochet ao pé do candieiro.
Estudava-se musica classica quando vinha o velho Cazoti. O Alencar, que,
imitando a sua dama, entrara tambem na gravidade, recitava traducções de
Klopstock. Fallava-se com sisudez de politica; Maria era muito regeneradora.
E todas essas noites, Tancredo lá estava, indolente e bello, desenhando
alguma flôr para ella bordar, ou tangendo á guitarra canções populares de
Napoles. Todos alli o adoravam; mas ninguem mais que o velho Monforte,
que passava horas, enterrado na sua alta gravata, contemplando o Principe
com enternecimento. Depois, de repente, erguia-se, atravessava a sala, ia-se
debruçar sobre elle, palpal-o, sentil-o, respiral-o, murmurando no seu francez
de embarcadiço:
- Ça aller bien... Hein? Beaucoup bien... Ora estimo...
E estas correntes bruscas de affecto communicavam-se decerto, porque
n'esse momento Maria tinha sempre um dos seus lindos sorrisos para o papá
ou vinha beijal-o na testa.
De dia occupava-se de cousas serias. Organisara uma util associação de
caridade, a Obra pia dos cobertores, com o fim de fazer no inverno ás familias
necessitadas distribuições de agasalhos; e presidia no salão de Arroios, com
uma campainha, as reuniões em que se elaboravam os estatutos. Visitava os
pobres. Ia tambem amiudadas vezes a uma devoção ás Egrejas, toda vestida de
preto, a pé, com um véo muito espesso no rosto.
O esplendor da sua belleza apparecia agora velado por uma sombra
tocante de ternura grave: a Deusa idealisava-se em Madona; e não era raro
ouvil-a de repente suspirar sem razão.
Ao mesmo tempo a sua paixão pela filha crescia. Tinha então dois annos e
estava realmente adoravel; vinha todas as noites um momento á sala, vestida
com um luxo de princeza; e as exclamações, os extasis de Tancredo não
findavam! Fizera-lhe o retrato a
carvão, a esfuminho, a aquarella; ajoelhava-se para lhe beijar a mãosinha côr
de rosa, como ao bambino sagrado. E Maria, agora, apesar dos protestos de
Pedro, dormia sempre com ella entre os braços.
Ao começo d'esse setembro o velho Monforte partiu para os Pyrineos.
Maria chorou, dependurada do pescoço do velho, como se elle largasse de
novo para as travessias de Africa.
Ao jantar, porém, chegou já consolada e radiante; e Pedro voltou a fallar
da reconciliação, parecendo-lhe bom o momento de ir a Bemfica recuperar
para sempre aquelle papá tão teimoso...
- Ainda não, disse ella reflectindo, olhando o seu calice de Bordeus. Teu
pae é uma especie de santo, ainda o não merecemos...
Mais para o inverno.
Uma sombria tarde de dezembro, de grande chuva, Affonso da Maia
estava no seu escriptorio lendo, quando a porta se abriu violentamente, e,
alçando os olhos do livro, viu Pedro deante de si. Vinha todo enlameado,
desalinhado, e na sua face livida, sob os cabellos revoltos, luzia um olhar de
loucura. O velho ergueu-se aterrado. E Pedro sem uma palavra atirou-se aos
braços do pae, rompeu a chorar perdidamente.
- Pedro! que succedeu, filho?
Maria morrera, talvez! Uma alegria cruel invadiu-o, á idéa do filho livre
para sempre dos Monfortes, voltando-lhe, trazendo á sua solidão os dois netos,
toda uma descendencia para amar! E repetia, tremulo tambem, desprendendoo
de si com grande amor:
- Socega, filho, que foi?
Pedro então cahiu para o canapé, como cae um corpo morto; e levantando
para o pae um rosto devastado, envelhecido, disse, palavra a palavra, n'uma
voz surda:
- Estive fóra de Lisboa dois dias... Voltei esta manhã... A Maria tinha
fugido de casa com a pequena... Partiu com um homem, um italiano... E aqui
estou!
Affonso da Maia ficou deante do filho, quedo, mudo, como uma figura de
pedra; e a sua bella face, onde todo o sangue subira enchia-se pouco a pouco,
de uma grande colera. Viu, n'um relance, o escandalo, a cidade galhofando, as
compaixões, o seu nome pela lama. E era aquelle filho que, despresando a sua
auctoridade, ligando-se a essa creatura, estragara o sangue da raça, cobria
agora a sua casa de vexame. E alli estava! alli jazia sem um grito, sem um
furor, um arranque brutal de homem trahido! Vinha atirar-se para um sophá,
chorando miseravelmente! Isto indignou-o, e rompeu a passeiar pela sala,
rigido e aspero, cerrando os labios para que não lhe escapassem as palavras de
ira e de injuria que lhe enchiam o peito em tumulto... - Mas era pae: ouvia, alli
ao seu lado, aquelle soluçar
de funda dôr; via tremer aquelle pobre corpo desgraçado que elle outr'ora
emballara nos braços; - parou junto de Pedro, tomou-lhe gravemente a cabeça
entre as mãos, e beijou-o na testa, uma vez, outra vez, como se elle fosse ainda
creança, restituindo-lhe alli e para
sempre a sua ternura inteira.
- Tinha razão, meu pae, tinha razão, murmurava Pedro entre lagrimas.
Depois ficaram callados. Fóra, as pancadas successivas da chuva batiam a
casa, a quinta, n'um clamor prolongado; e as arvores, sob as janellas,
ramalhavam n'um vasto vento de inverno.
Foi Affonso que quebrou o silencio:
- Mas para onde fugiram, Pedro? Que sabes tu, filho? Não é só chorar...
- Não sei nada, respondeu Pedro n'um longo esforço. Sei que fugiu. Eu
sahi de Lisboa na segunda feira. N'essa mesma noite, ella partiu de casa numa
carruagem, com uma maleta, o cofre de joias, uma creada italiana que tinha
agora, e a pequena. Disse á governante e á ama do pequeno que ia ter comigo.
Ellas estranharam, mas que haviam de dizer?... Quando voltei, achei esta
carta.
Era um papel já sujo, e desde essa manhã de certo muitas vezes relido,
amarrotado com furia. Continha estas palavras:
«É uma fatalidade, parto para sempre com Tancredo, esquece-me que não
sou digna de ti, e levo a Maria que me não posso separar d'ella.»
- E o pequeno, onde está o pequeno? exclamou Affonso.
Pedro pareceu recordar-se:
- Está lá dentro com a ama, trouxe-o na sege.
0 velho correu, logo; e d'ahi a pouco apparecia, erguendo nos braços o
pequeno, na sua longa capa branca de franjas e a sua touca de rendas. Era
gordo, de olhos muito negros, com uma adoravel bochecha fresca e côr de
rosa. Todo elle ria, grulhando, agitando o seu
guiso de prata. A ama não passou da porta, tristonha, com os olhos no tapete e
uma trouxasinha na mão.
Affonso sentou-se lentamente na sua poltrona, e accommodou o neto no
collo. Os olhos enchiam-se-lhe de uma bella luz de ternura; parecia esquecer a
agonia do filho, a vergonha domestica; agora só havia alli aquella facesinha
tenra, que se lhe babava nos braços...
- Como se chama elle?
- Carlos Eduardo, murmurou a ama.
- Carlos Eduardo, hein?
Ficou a olha-lo muito tempo, como procurando n'elle os signaes da sua
raça: depois tomou-lhe na sua as duas mãosinhas vermelhas
que não largavam o guiso, e muito grave, como se a creança o percebesse,
disse-lhe:
- Olha bem para mim. Eu sou o avô. É necessario amar o avô!
E áquella forte voz, o pequeno, com effeito, abriu os seus lindos olhos para
elle, serios de repente, muito fixos, sem medo das barbas grisalhas: depois
rompeu a pular-lhe nos braços, desprendeu a mãosinha, e martellou-lhe
furiosamente a cabeça com o guiso.
Toda a face do velho sorria áquella viçosa alegria; apertou-o ao seu largo
peito muito tempo, poz-lhe na face um beijo longo, consolado, enternecido, o
seu primeiro beijo d'avô; depois, com todo o cuidado, foi collocal-o nos braços
da ama.
- Vá, ama, vá... A Gertrudes já lá anda a arranjar-lhe o quarto, vá vêr o que
é necessario.
Fechou a porta, e veiu sentar-se junto do filho que se não movera do canto
do sophá, nem despregára os olhos do chão.
- Agora desabafa, Pedro, conta-me tudo... Olha que nos não vemos ha tres
annos, filho...
- Ha mais de tres annos, murmurou Pedro.
Ergueu-se, allongou a vista á quinta, tão triste sob a chuva; depois,
derramando-a morosamente pela livraria, considerou um momento o seu
proprio retrato, feito em Roma aos doze annos, todo de velludo azul, com uma
rosa na mão. E repetia ainda amargamente:
- Tinha razão, meu pae, tinha razão...
E pouco a pouco, passeiando e suspirando, começou a fallar d'aquelles
ultimos annos, o inverno passado em Paris, a vida em Arroios, a intimidade do
italiano na casa, os planos de reconciliação, por fim aquella carta infame, sem
pudor, invocando a fatalidade, arremessando-lhe o nome do outro!... No
primeiro momento tivera só idéas de sangue e quizera perseguil-os. Mas
conservava um clarão de razão. Seria ridiculo, não é verdade? De certo a fuga
fora d'antemão preparada, e não havia de ir correndo as estalagens da Europa á
busca de sua mulher... Ir lamentar-se á policia, fazel-os prender? Uma
imbecillidade; nem impedia que ella fosse já por esses caminhos fóra
dormindo com outro... Restava-lhe sómente o desprezo. Era uma bonita
amante que tivera alguns annos, e fugira com um
homem. Adeus! Ficava-lhe um filho, sem mãe, com um mau nome. Paciencia!
Necessitava esquecer, partir para uma longa viagem, para a America talvez; e
o pae veria, havia de voltar consolado e forte.
Dizia estas cousas sensatas, passeiando devagar, com o charuto apagado
nos dedos, n'uma voz que se calmava. Mas de repente parou deante do pae,
com um riso secco, um brilho feroz nos olhos.
- Sempre desejei ver a America, e é boa occasião agora... É uma occasião
famosa, hein? Posso até naturalisar-me, chegar a presidente, ou rebentar... Ah!
Ah!
- Sim, mais tarde, depois pensarás n'isso, filho, accudiu o velho assustado.
N'esse momento a sineta do jantar começou a tocar lentamente, ao fundo
do corredor.
- Ainda janta cedo, hein? disse Pedro.
Teve um suspiro cançado e lento, murmurou:
- Nós jantavamos ás sete...
Quiz então que o pae fosse para a mesa. Não havia motivo para que se não
jantasse. Elle ia um bocado acima, ao seu antigo quarto de solteiro... Ainda lá
tinha a cama, não é verdade? Não, não queria tomar nada...
- O Teixeira que me leve um calice de genebra... Ainda cá está o Teixeira,
coitado!
E vendo Affonso sentado, repetiu, já impaciente:
- Vá jantar meu pae, vá jantar, pelo amor de Deus...
Saiu. O pae ouviu-lhe os passos por cima, e o ruido de janellas
desabridamente abertas. Foi então andando para a sala de jantar, onde os
criados que pela ama sabiam de certo o desgosto se moviam em pontas de pés,
com a lentidão contristada d'uma casa onde ha
morte. Affonso sentou-se á mesa só; mas já lá estava outra vez o talher de
Pedro; rosas de inverno esfolhavam-se n'um vaso do Japão; e o velho papagaio
agitado com a chuva mexia-se furiosamente no poleiro.
Affonso tomou uma colher de sopa, depois rolou a sua poltrona para junto
do fogão; e ali ficou envolvido pouco a pouco n'aquelle melancolico
crepusculo de dezembro, com os olhos no lume, escutando o sudoeste contra
as vidraças, pensando em todas as cousas
terriveis que assim invadiam n'um tropel pathetico a sua paz de velho. Mas no
meio da sua dôr, funda como era, elle percebia um ponto, um recanto do seu
coração onde alguma cousa de muito doce, de muito novo, palpitava com uma
frescura de renascimento, como se
algures, no seu ser, estivesse rompendo, burbulhando uma nascente rica de
alegrias futuras; e toda a sua face sorria á chama alegre, revendo a
bochechinha rosada, sob as rendas brancas da touca...
Pela casa no entanto tinham-se accendido as luzes. Já inquieto subiu ao
quarto do filho; estava tudo escuro, tão humido e frio, como se a chuva caisse
dentro. Um arrepio confrangeu o velho, e quando chamou, a voz de Pedro veiu
do negro da janella: estava lá, com a vidraça aberta, sentado fóra na varanda,
voltado para a noite brava, para o sombrio rumor das ramagens, recebendo na
face o vento, a agua, toda a invernia agreste.
- Pois estás aqui filho! exclamou Affonso. Os criados hão de querer
arranjar o quarto, desce um momento... Estás todo molhado, Pedro!
Apalpava-lhe os joelhos, as mãos regeladas. Pedro ergueu-se com um
estremeção, desprendeu-se, impaciente d'aquella ternura do velho.
- Querem arranjar o quarto, hein? Faz-me bem o ar, faz-me tão bem!
O Teixeira trouxe luzes, e atraz d'elle appareceu o criado de Pedro, que
chegára n'esse momento de Arroios, com um largo estojo de viagem recoberto
de oleado. As malas tinha-as deixado em baixo; e o cocheiro viera tambem,
como nenhum dos senhores estava em
casa...
- Bem, bem, interrompeu Affonso. O sr. Villaça lá irá amanhã, e elle dará
as ordens.
O criado então, em bicos de pés, foi depôr o estojo sobre o marmore da
commoda: ainda lá restavam antigos frascos de toilette de Pedro: e os
castiçaes sobre a meza allumiavam o grande leito triste de solteiro com os
colxões dobrados ao meio.
A Gertrudes toda atarefada entrara com os braços carregados de roupa de
cama; o Teixeira bateu vivamente os travesseiros; o criado d'Arroios pousando
o chapéo a um canto, e sempre em ponta de pés, veiu ajudal-os tambem. Pedro
no entanto, como somnambulo, voltara para a varanda, com a cabeça á chuva,
attraido por aquella treva da quinta que se cavava em baixo com um rumor de
mar bravo.
Affonso, então, puxou-lhe o braço quasi com aspereza.
- Pedro! Deixa arranjar o quarto! Desce um momento.
Elle seguiu maquinalmente o pae á livraria, mordendo o charuto apagado
que desde tarde conservava na mão. Sentou-se longe da luz, ao canto do
sophá, ali ficou mudo e entorpecido. Muito tempo só os passos lentos do
velho, ao comprido das altas estantes,
quebraram o silencio em que toda a sala ia adormecendo. Uma braza morria
no fogão. A noite parecia mais aspera. Eram de repente vergastadas d'agua
contra as vidraças, trazidas n'uma rajada, que longamente, n'um clamor
teimoso, faziam escoar um diluvio dos telhados; depois havia uma calma
tenebroza, com uma susurração distante de vento fugindo entre ramagens:
n'esse silencio as goteiras punham um pranto lento; e logo uma corda de
vendaval corria mais furioso, envolvia a casa n'um bater de janellas,
redomoinhava, partia
com silvos desolados.
- Está uma noite de Inglaterra, disse Affonso, debruçando-se a espertar o
lume.
Mas a esta palavra Pedro erguera-se, impetuosamente. De certo o ferira a
idéa de Maria, longe, n'um quarto alheio, agazalhando-se-lhe no leito do
adulterio entre os braços do outro. Apertou um instante a cabeça nas mãos,
depois veiu junto do pae, com o passo mal firme, mas a voz muito calma.
- Estou realmente cançado, meu pae, vou-me deitar. Boa noite... Amanhã
conversaremos mais.
Beijou-lhe a mão e saiu de vagar.
Affonso demorou-se ainda ali, com um livro na mão, sem ler, attento só a
algum rumor que viesse de cima; mas tudo jazia em silencio.
Deram dez horas. Antes de se recolher foi ao quarto onde se fizera a cama
da ama. A Gertrudes, o criado de Arroios, o Teixeira, estavam lá cochichando
ao pé da commoda, na penumbra que dava um folio posto deante do candieiro;
todos se esquivaram em pontas
de pés quando lhe sentiram os passos, e a ama continuou a arrumar em
silencio os gavetões. No vasto leito, o pequeno dormia como um Menino Jesus
cançado, com o seu guiso apertado na mão. Affonso não ousou beijal-o, para o
não acordar com as barbas asperas;
mas tocou-lhe na rendinha da camisa, entalou a roupa contra a parede, deu um
geito ao cortinado, enternecido, sentindo toda a sua dôr calmar-se n'aquella
sombra de alcova onde o seu neto dormia.
- É necessário alguma cousa, ama? perguntou, abafando a voz.
- Não, meu senhor...
Então, sem ruido, subiu ao quarto de Pedro. Havia uma fenda clara,
entreabriu a porta. O filho escrevia, á luz de duas vellas, com o estojo aberto
ao lado. Pareceu espantado de ver o pae: e na face que ergueu, envelhecida e
livida, dois sulcos negros faziam-lhe os
olhos mais refulgentes e duros.
- Estou a escrever, disse elle.
Esfregou as mãos, como arripiado da friagem do quarto, e accrescentou:
- Amanhã cedo é necessario que o Villaça vá a Arroios... Estão lá os
criados, tenho lá dois cavallos meus, emfim uma porção de arranjos. Eu estoulhe
a escrever. É numero 32 a casa d'elle, não é? O Teixeira ha de saber. Boas
noites, papá, boas noites.
No seu quarto, ao lado da livraria, Affonso não poude socegar, n'uma
oppressão, uma inquietação que a cada momento o faziam erguer sobre o
travesseiro, escutar: agora, no silencio da casa e do vento que calmara,
ressoavam por cima lentos e continuos os passos
de Pedro.
A madrugada clareava, Affonso ia adormecendo - quando de repente um
tiro atroou a casa. Precipitou-se do leito, despido e gritando: um creado acudia
tambem com uma lanterna. Do quarto de Pedro ainda entreaberto vinha um
cheiro de polvora; e aos pés da
cama, caido de bruços, n'uma poça de sangue que se ensopava no tapete,
Affonso encontrou seu filho morto, apertando uma pistola na mão.
Entre as duas vélas que se extinguiam, com fogachos lividos, deixára-lhe
uma carta lacrada com estas palavras sobre o enveloppe, numa letra firme:
Para o papá.
D'ahi a dias fechou-se a casa de Bemfica. Affonso da Maia partia com o
neto e com todos os criados para a quinta de Sta. Olavia.
Quando Villaça, em fevereiro, foi lá acompanhar o corpo de Pedro, que ia
ser depositado no jazigo de familia, não pôde conter as lagrimas ao avistar
aquella vivenda onde passára tão alegres nataes. Um baetão preto recobria o
brazão d'armas, e esse panno de esquife parecia ter distingido todo o seu
negrume sobre a fachada muda, sobre os castanheiros que ornavam o pateo;
dentro os criados abafavam a voz, carregados de luto; não havia uma flor nas
jarras; o proprio encanto de Sta. Olavia, o fresco cantar das aguas vivas por
tanques e repuchos, vinha agora com a cadencia saudosa de um choro. E
Villaça foi encontrar Affonso na livraria, com as janellas cerradas ao lindo sol
de inverno, caido para uma poltrona, a face cavada sob os cabellos crescidos e
brancos, as mãos magras e
ociosas sobre os joelhos...
O procurador veio dizer para Lisboa que o velho não durava um anno.
III
Mas esse anno passou, outros annos passaram.
Por uma manhã de abril, nas vesperas de Paschoa, Villaça chegava de
novo a Sta. Olavia.
Não o esperavam tão cedo; e como era o primeiro dia bonito d'essa
primavera chuvosa os senhores andavam para a quinta. O mordomo, o
Teixeira, que ia já embranquecendo, mostrou-se todo satisfeito de ver o sr.
administrador com quem ás vezes se correspondia, e conduziu-o á sala de
jantar onde a velha governante, a Gertrudes, tomada de surpreza, deixou cair
uma pilha de guardanapos e para lhe saltar ao pescoço.
As tres portas envidraçadas estavam abertas para o terraço, que se estendia
ao sol, com a sua balustrada de marmore coberta de trepadeiras: e Villaça,
adiantando-se para os degraus que desciam ao jardim, mal poude reconhecer
Affonso da Maia n'aquelle velho de
barba de neve, mas tão robusto e corado, que vinha subindo a rua de
romanzeiras com o seu neto pela mão.
Carlos, ao avistar no terraço um desconhecido, de chapéo alto, abafado
n'um cache-nez de pelucia, correu a miral-o, curioso – e achou-se arrebatado
nos braços do bom Villaça, que largara o guarda sol, o beijava pelo cabello,
pela face, balbuciando:
- Oh meu menino, meu querido menino! Que lindo que está! que crescido
que está...
- Então, sem avisar, Villaça? exclamava Affonso da Maia, chegando de
braços abertos. Nós só o esperavamos para a semana, creatura!
Os dois velhos abraçaram-se; depois um momento os seus olhos
encontraram-se, vivos e humidos, e tornaram a apertar-se commovidos.
Carlos ao lado, muito serio, todo esbelto, com as mãos enterradas nos
bolsos das suas largas bragas de flanella branca, o casquete da mesma flanella
posta de lado sobre os bellos anneis do cabello negro - continuava a mirar o
Villaça, que com o beiço tremulo, tendo tirado a luva, limpava os olhos por
baixo dos oculos.
- E ninguem a esperal-o, nem um criado lá em baixo no rio! dizia Affonso.
Emfim, cá o temos, é o essencial... E como você está rijo, Villaça!
- E v. ex.ª meu senhor! balbuciou o administrador, engulindo um soluço.
Nem uma ruga! Branco sim, mas uma cara de moço... Eu nem o conhecia!...
Quando me lembro, a ultima vez que o vi... E cá isto! cá esta linda flor!...
Ia abraçar Carlos outra vez enthusiasmado, mas o rapaz fugiu-lhe com
uma bella risada, saltou do terraço, foi pendurar-se d'um trapesio armado entre
as arvores, e ficou lá, balançando-se em cadencia, forte e airoso, gritando: «tu
és o Villaça!»
O Villaça, de guarda sol debaixo do braço, contemplava-o embevecido.
- Está uma linda creança! Faz gosto! E parece-se com o pae. Os mesmo
olhos, olhos dos Maias, o cabello encaracolado... Mas há de ser muito mais
homem!
- É são, é rijo, dizia o velho risonho, anediando as barbas. E como ficou o
seu rapaz, o Manuel? Quando é esse casamento? Venha você cá para dentro,
Villaça, que ha muito que conversar...
Tinham entrado na sala de jantar, onde um lume de lenha na chaminé de
azulejo esmorecia na fina e larga luz de abril; porcelanas e pratas
resplandeciam nos aparadores de pau santo; os canarios pareciam doudos de
alegria.
A Gertrudes, que ficára a observar, acercou-se, com as mãos cruzadas sob
o avental branco, familiar, terna.
- Então, meu senhor, aqui está um regalo, vêr outra vez este ingrato em
Sta. Olavia!
E, com um clarão de sympathia na face, alva e redonda como uma velha
lua, ornada já de um buço branco:
-Ah! sr. Villaça, isto agora é outra cousa! Até os canarios cantam! E
tambem eu cantava, se ainda podesse.
E foi saindo, subitamente commovida, já com vontade de chorar.
O Teixeira esperava, com um riso superior e mudo que lhe ia d'uma á
outra ponta dos seus altos collarinhos de mordomo.
- Eu creio que prepararam o quarto azul ao sr. Villaça, hein? disse
Affonso. No quarto em que você costumava ficar dorme agora a viscondessa...
Então o Villaça apressou-se a perguntar pela sr.ª viscondessa. Era uma
Runa, uma prima da mulher de Affonso, que, no tempo em que os poetas de
Caminha a cantavam, casára com um fidalgote gallego, o sr. visconde de
Urigo-de-la-Sierra, um borracho, um brutal que lhe batia: depois, viuva e
pobre, Affonso recolhera-a por dever de parentella, e para haver uma senhora
em Sta. Olavia.
Ultimamente passara mal... Mas, olhando o relogio, Affonso interrompeu a
relação desses achaques.
- Villaça, vá-se arranjar, depressa, que d'aqui a pouco é o jantar.
O administrador surprehendido olhou tambem o relogio, depois a mesa já
posta, os seis talheres, o cesto de flores, as garrafas de Porto.
- Então v. ex.ª agora janta de manhã? Eu pensei que era o almoço...
- Eu lhe digo, o Carlos necessita ter um regimen. De madrugada está já na
quinta; almoça ás sete; e janta á uma hora. E eu, emfim, para vigiar as
maneiras do rapaz...
- E o sr. Affonso da Maia, exclamou Villaça, a mudar de habitos, n'essa
edade! O que é ser avô, meu senhor!
- Tolice! não é isso... É que me faz bem. Olhe que me faz bem!... Mas
avie-se, Villaça, avie-se que Carlos não gosta de esperar... Talvez tenhamos o
abbade.
- O Custodio? Rica cousa! Então, se v. ex.ª me dá licença...
Apenas no corredor, o mordomo, ancioso por conversar com o sr.
administrador, perguntou-lhe, desembaraçando-o do guarda sol e do chalemanta:
- Com franqueza, como nos acha por cá, pela quinta sr. Villaça?
- Estou contente, Teixeira, estou contente. Pode-se vir por gosto a Sta.
Olavia.
E, pousando familiarmente a mão no hombro do escudeiro, piscando o
olho ainda humido:
- Tudo isto é o menino. Fez reviver o patrão! O Teixeira riu
respeitosamente. O menino realmente era a alegria da casa...
- Olá! Quem toca por cá? exclamou Villaça, parando nos degraus da
escada, ao ouvir em cima um afinar gemente de rebeca.
- É o sr. Brown, o inglez, o preceptor do menino... Muito habilidoso, é um
regalo ouvil-o; toca ás vezes á noite na sala, o sr. juiz de direito acompanha-o
na concertina... Aqui, sr. Villaça, o quarto de v. s.ª...
- Muito bonito, sim senhor!
O verniz dos moveis novos brilhava na luz das duas janellas, sobre o
tapete alvadio semeado de florsinhas azues: e as bambinellas,os reposteiros de
cretóne, repetiam as mesmas folhagens azuladas sobre fundo claro. Este
conforto fresco e campestre deleitou o bom Villaça.
Foi logo apalpar os cretónes, esfregou o marmore da commoda, provou a
solidez das cadeiras. Eram as mobilias compradas no Porto, hein? Pois,
elegantes. E, realmente, não tinham sido caras. Nem elle fazia idéa! Ficou
ainda em bicos de pés a examinar duas
aguarellas inglezas representando vaccas de luxo, deitadas na relva, á sombra
de ruinas romanticas. O Teixeira, observou-lhe, com o relogio na mão:
- Olhe que v. s.ª tem só dez minutos... O menino não gosta de esperar.
Então o Villaça decidiu-se a desenrolar o cache-nez; depois tirou o seu
pesado collete de malha de lã; e pela camisa entreaberta via-se ainda uma
flanella escarlate por causa dos rheumatismos, e os bentinhos de seda bordada.
O Teixeira desapertava as correias da
maleta; ao fundo do corredor, a rebeca atacara o Carnaval de Veneza; e
atravez das janellas fechadas sentia-se o grande ar, a frescura, a paz dos
campos, todo o verde d'abril.
Villaça, sem oculos, um pouco arripiado, passava a ponta da toalha
molhada pelo pescoço, por traz da orelha, e ia dizendo:
- Então, o nosso Carlinhos não gosta de esperar, hein? Já se sabe, é elle
quem governa... Mimos e mais mimos, naturalmente...
Mas o Teixeira muito grave, muito serio, desilludiu o sr. administrador.
Mimos e mais mimos, dizia s. s.ª? Coitadinho d'elle, que tinha sido educado
com uma vara de ferro! Se elle fosse a contar ao sr. Villaça! Não tinha a
creança cinco annos já dormia n'um quarto só,
sem lamparina; e todas as manhãs, zás, para dentro d'uma tina d'agua fria, ás
vezes a gear lá fóra... E outras barbaridades. Se não se soubesse a grande
paixão do avô pela creança, havia de se dizer que a queria morta. Deus lhe
perdoe, elle, Teixeira, chegara a pensal-o... Mas não, parece que era systema
inglez! Deixava-o correr, cair, trepar ás arvores, molhar-se, apanhar
soalheiras, como um filho de caseiro. E depois o rigor com as comidas! Só a
certas horas e de certas cousas... E ás vezes a creancinha, com os olhos
abertos, a aguar! Muita, muita dureza.
E o Teixeira accrescentou:
- Emfim era a vontade de Deus, saiu forte. Mas que nós approvassemos a
educação que tem levado, isso nunca approvámos, nem eu, nem a Gertrudes.
Olhou outra vez o relogio, preso por uma fita negra sobre o collete branco,
deu alguns passos lentos pelo quarto: depois, tomando de sobre a cama a
sobrecasaca do procurador, foi-lhe passando a escova pela gola, de leve e por
amabilidade, em quanto dizia, junto
ao toucador onde o Villaça acamava as duas longas repas sobre a calva:
- Sabe v. s.ª, apenas veiu o mestre inglez, o que lhe ensinou? A remar! A
remar, sr. Villaça, como um barqueiro! Sem contar o trapesio, e as habilidades
de palhaço; eu n'isso nem gosto de fallar... Que eu sou o primeiro a dizel-o: o
Brown é boa pessoa, calado,
asseado, excellente musico. Mas é o que eu tenho repetido á Gertrudes: póde
ser muito bom para inglez, não é para ensinar um fidalgo portuguez... Não é.
Vá v. s.ª fallar a esse respeito com a sr.ª D. Anna Silveira...
Bateram de manso á porta, o Teixeira emmudeceu. Um escudeiro entrou,
fez um signal ao mordomo, tirou-lhe do braço respeitosamente a sobrecasaca,
e ficou com ella junto do toucador, onde o Villaça, vermelho e apressado,
luctava ainda com as repas rebeldes.
O Teixeira, da porta, disse com o relogio na mão:
- É o jantar. Tem v. s.ª dois minutos, sr. Villaça.
E o administrador d'ahi a um momento abalava tambem, abotoando ainda
o casaco pelas escadas.
Os senhores já estavam todos na sala. Junto do fogão, onde as achas
consumidas morriam na cinza branca, o Brown percorria o Times. Carlos, a
cavallo nos joelhos do avô, contava-lhe uma grande historia de rapazes e de
bulhas; e ao pé o bom abbade Custodio,
com o lenço de rapé esquecido nas mãos, escutava, de bocca aberta, n'um riso
paternal e terno.
- Olhe quem alli vem, abbade, disse-lhe Affonso.
O abbade voltou-se, e deu uma grande palmada na côxa:
- Esta é nova! Então é o nosso Villaça? E não me tinham dito nada!
Venham de lá esses ossos, homem!...
Carlos pulava nos joelhos do avô, muito divertido com aquelles longos
abraços que juntavam as duas cabeças dos velhos – uma com as repas
achatadas sobre a calva, outra com uma grande corôa aberta n'uma matta de
cabello branco. E como elles, de mãos
dadas, continuavam a admirar-se, a estudarem um no outro as rugas dos
annos, Affonso disse:
- Villaça! a sr.ª viscondessa...
O administrador porém procurou-a debalde, com os olhos abertos pela
sala. Carlos ria, batendo as mãos: - e Villaça descobriu-a emfim a um canto,
entre o aparador e a janella, sentada n'uma cadeirinha baixa, vestida de preto,
timida e queda, com os braços rechonchudos pousados sobre a obesidade da
cinta. O rosto anafado e molle, branco como papel, as roscas do pescoço,
cobriram-se-lhe subitamente de rubor; não achou uma palavra para dizer ao
Villaça, e estendeu-lhe a mão papuda e pallida, com um dedo embrulhado
n'um pedaço de seda negra. Depois ficou a abanar-se com um grande leque de
lentejoulas, o seio a arfar, os olhos no regaço, como exhausta d'aquelle
esforço.
Dois escudeiros tinham começado a servir a sopa, o Teixeira esperava,
perfilado por traz do alto espaldar da cadeira de Affonso.
Mas Carlos cavalgava ainda o avô, querendo acabar outra historia. Era o
Manuel, trazia uma pedra na mão... Elle primeiro pensára ir ás boas; mas os
dois rapazes começaram a rir... De maneira que os correu a todos...
- E maiores que tu?
- Tres rapagões, vôvô, póde perguntar á tia Pedra... Ella viu, que estava na
eira. Um d'elles trazia uma foice...
- Está bom, senhor, está bom, ficamos inteirados... Vá, desmonte, que está
a sopa a esfriar. Upa! upa!
E o velho, com o seu aspecto resplandecente de patriarcha feliz, veiu
sentar-se ao alto da meza, sorrindo e dizendo:
- Já se vae fazendo pesado, já não está para collo...
Mas reparou então no Brown, e tornando a erguer-se fez a apresentação do
procurador.
- O sr. Brown, o amigo Villaça... Peço perdão, descuidei-me, foi culpa
d'aquelle cavalheiro lá ao fundo da meza, o sr. D. Carlos de mata-sete!
O perceptor, solidamente abotoado na sua longa sobrecasaca militar, deu
toda a volta á meza, rigido e teso, para vir sacudir o Villaça n'um tremendo
shake-hands; depois, sem uma palavra, reoccupou o seu logar, desdobrou o
guardanapo, cofiou os formidaveis bigodes, e foi então que disse ao Villaça,
com o seu forte accento inglez:
- Muito bello dia... glorioso!
- Tempo de rosas, respondeu o Villaça, comprimentando, intimidado
diante d'aquelle athleta.
Naturalmente, n'esse dia, fallou-se da jornada de Lisboa, do bom serviço
da malla-posta, do caminho de ferro que se ia abrir... O Villaça já viera no
comboyo até ao Carregado.
- De causar horror, hein? perguntou o abbade, suspendendo a colher que ia
levar á bocca.
O excellente homem nunca saira de Resende; e todo o largo mundo, que
ficava para além da penumbra da sua sachristia e das arvores do seu passal,
lhe dava o terror d'uma Babel. Sobre tudo essa estrada de ferro, de que tanto se
fallava...
- Faz arripiar um bocado, affirmou com experiencia Villaça. Digam o que
disserem, faz arripiar!
Mas o abbade assustava-se sobre tudo com as inevitaveis desgraças d'essas
machinas!
O Villaça então lembrou os desastres da mala-posta. No de Alcobaça,
quando tudo se virou, ficaram esmagadas duas irmãs de caridade! Emfim de
todos os modos havia perigos. Podia-se quebrar uma perna a passear no
quarto...
O abbade gostava do progresso... Achava até necessario o progresso. Mas
parecia-lhe que se queria fazer tudo á lufa-lufa... O paiz não estava para essas
invenções; o que precisava eram boas estradinhas...
- E economia! disse o Villaça, puxando para si os pimentões.
- Bucellas? murmurou-lhe sobre o hombro o escudeiro.
O administrador ergueu o copo, depois de cheio, admirou-lhe á luz a côr
rica, provou-o com a ponta do labio, e piscando o olho para Affonso:
- É do nosso!
- Do velho, disse Affonso. Pergunte ao Brown... Hein, Brown, um bom
nectar?
- Magnificente! exclamou o perceptor com uma energia fogosa.
Então Carlos, estendendo o braço por cima da meza, reclamou tambem
Bucellas. E a sua razão era haver festa por ter chegado o Villaça. O avô não
consentiu; o menino teria o seu calice de Collares, como de costume, e um só.
Carlos crusou os braços sobre o guardanapo que lhe pendia do pescoço,
espantado de tanta injustiça! Então nem para festejar o Villaça poderia
apanhar uma gotinha de Bucellas? Ahi estava uma linda maneira de receber os
hospedes na quinta... A Gertrudes dissera-lhe que como viera o sr.
administrador, havia de pôr á noite para o chá o fato novo de velludo. Agora
observavam-lhe que não era festa, nem caso para Bucellas... Então não
entendia.
O avô, que lhe bebia as palavras, enlevado, fez subitamente um carão
severo.
- Parece-me que o senhor está palrando de mais. As pessoas grandes é que
palram á meza.
Carlos recolheu-se logo ao seu prato, murmurando muito mansamente:
- Está bom, vôvô, não te zangues. Esperarei para quando for grande...
Houve um sorriso em volta da meza. A propria viscondessa, deleitada,
agitou preguiçosamente o leque: o abbade, com a sua boa face banhada em
extasi para o menino, apertava as mãos cabelludas contra o peito, tanto aquillo
lhe parecia engraçado: e Affonso tossia por traz do guardanapo, como
limpando as barbas - a esconder o riso, a admiração que lhe brilhava nos
olhos.
Tanta vivacidade surprehendeu tambem Villaça. Quiz ouvir mais o
menino, e pousando o seu talher:
- E diga-me, Carlinhos, já vae adiantado nos seus estudos?
O rapaz, sem o olhar, repoltreou-se, mergulhou as mãos pelo cós das
flanellas, e respondeu com um tom superior:
- Já faço ladear a Brigida.
Então o avô, sem se conter, largou a rir, cahido para o espaldar da cadeira:
- Essa é boa! Eh ! Eh! Já faz ladear a Brigida! E é verdade, Villaça, já a faz
ladear... Pergunte ao Brown; não é verdade, Brown? E a eguasita é uma
piorrita, mas fina...
- Oh vôvô, gritou Carlos já excitado, dize ao Villaça, anda. Não é verdade
que eu era capaz de governar o dog-cart?
Affonso reassumio um ar severo.
- Não o nego... Talvez o governasse, se lh'o consentissem. Mas faça-me
favor de se não gabar das suas façanhas, porque um bom cavalleiro deve ser
modesto... E sobre tudo não enterrar assim as mãos pela barriga abaixo...
O bom Villaça, no entanto, dando estalinhos aos dedos, preparava uma
observação. Não se podia de certo ter melhor prenda que montar a cavallo
com as regras... Mas elle queria dizer se o Carlinhos já entrava com o seu
Phedro, o seu Tito Liviosinho...
- Villaça, Villaça, advertiu o abbade, de garfo no ar e um sorriso de santa
malicia, não se deve fallar em latim aqui ao nosso nobre amigo... Não admitte,
acha que é antigo... Elle, antigo é...
- Ora sirva-se d'esse fricassé, ande abbade, disse Affonso, que eu sei que é
o seu fraco, e deixe lá o latim...
O abbade obedeceu com deleite; e escolhendo no molho rico os bons
pedaços de ave, ia murmurando:
- Deve-se começar pelo latimsinho, deve-se começar por lá... É a base; é a
basesinha!
- Não! latim mais tarde! exclamou o Brown, com um gesto possante.
Prrimeiro forrça! Forrça! Musculo...
E repetio, duas vezes, agitando os formidaveis punhos:
- Prrimeiro musculo, musculo!...
Affonso appoiava-o, gravemente. O Brown estava na verdade. O latim era
um luxo d'erudito... Nada mais absurdo que começar a ensinar a uma creança
n'uma lingua morta quem foi Fabio, rei dos Sabinos, o caso dos Grachos, e
outros negocios d'uma nação
extincta, deixando-o ao mesmo tempo sem saber o o que é a chuva que o
molha, como se faz o pão que come, e todas as outras cousas do Universo em
que vive...
- Mas emfim os classicos, arriscou timidamente o abbade.
- Qual classicos! O primeiro dever do homem é viver. E para isso é
necessario ser são, e ser forte. Toda a educação sensata consiste n'isto: crear a
saude, a força e os seus habitos, desenvolver exclusivamente o animal, armal'o
d'uma grande superioridade physica. Tal qual como se não tivesse alma. A
alma vem depois... A alma é outro luxo. É um luxo de gente grande...
O abbade coçava a cabeça, com o ar arripiado.
- A instrucçãosinha é necessaria, disse elle. Você não acha, Villaça? Que
v. ex.ª, sr. Affonso da Maia, tem visto mais mundo do que eu... Mas emfim a
instrucçãosinha...
- A instrucção para uma creança não é recitar Tityre, tu patulae recubans...
É saber factos, noções, cousas uteis, cousas praticas...
Mas suspendeu-se: e, com o olho brilhante, n'um signal ao Villaça,
mostrou-lhe o neto que palrava inglez com o Brown. Eram de certo feitos de
força, uma historia de briga com rapazes que elle lhe estava a contar, animado
e jogando com os punhos. O perceptor
approvava, retorcendo os bigodes. E á mesa os senhores com os garfos
suspensos, por traz os escudeiros de pé e guardanapo no braço, todos, n'um
silencio reverente, admiravam o menino a fallar inglez.
- Grande prenda, grande prenda, murmurou Villaça, inclinando-se para a
Viscondessa.
A excellente senhora córou, atravez d'um sorriso. Parecia assim mais
gorda, toda acaçapada na cadeira, silenciosa, comendo sempre; e, a cada gole
de Bucellas, refrescava-se languidamente com o seu grande leque negro e
lentejoulado.
Quando o Teixeira serviu o vinho do Porto, Affonso fez uma saude ao
Villaça. Todos os copos se ergueram n'um rumor de amizade. Carlos quiz
gritar Hurrah! O avô, com um gesto reprehensivo, immobilisou-o; e na pausa
satisfeita que se fez, o pequeno disse
com uma grande convicção:
- Oh avô, eu gosto do Villaça. O Villaça é nosso amigo.
- Muito, e ha muitos annos, meu senhor! exclamou o velho procurador, tão
commovido que mal podia erguer o calice na mão.
O jantar findava. Fóra, o sol deixára o terrasso e a quinta verdejava na
grande doçura do ar tranquillo, sob o azul ferrete. Na chaminé só restava uma
cinza branca: os lilazes das jarras exhalavam um aroma vivo, a que se
misturava o do creme queimado, tocado
de um fio de limão: os creados, de colletes brancos, moviam o serviço d'onde
se escapava algum som argentino: e toda a alva toalha adamascada
desapparecia sob a confusão da sobremesa onde os tons dourados do vinho do
Porto brilhavam entre as compoteiras de
crystal. A Viscondessa affogueada abanava-se. Padre Custodio enrolava
devagar o guardanapo, a sua batina coçada luzia nas pregas das mangas.
Então Affonso, sorrindo ternamente, fez a ultima saude.
- Viva v. s.ª, snr. Carlos de Matta-sete!
- Sr. Vôvô! dizia o pequeno escorropichando o copo. A cabeçinha de
cabellos negros, a velha face de barbas de neve, saudavam-se das
extremidades da mesa - em quanto todos sorriam, no enternecimento d'aquella
cerimonia. Depois o abbade, de palito na bocca, murmurou as graças. A
Viscondessa, cerrando os olhos, juntou tambem as mãos. E Villaça que tinha
crenças religiosas não gostou de vêr Carlos, sem se importar com as graças,
saltar da cadeira, vir atirar-se ao pescoço do avô, fallar-lhe ao ouvido.
- Não senhor! não senhor! dizia o velho.
Mas o rapaz, abraçando-o mais forte, dava-lhe grandes razões, n'um
murmurio de mimo dôce como um beijo, que ia pondo na face do velho uma
fraqueza indulgente.
- É por ser festa, disse elle emfim vencido. Mas veja lá, veja lá...
O rapaz pulou, bateu as palmas, agarrou Villaça pelos braços, fêl-o
redomoinhar, e foi cantando n'um rythmo seu:
- Fizeste bem em vir, bem, bem, bem!... Vou buscar a Therezinha, inha,
inha, inha!
- É a noiva, disse o avô, erguendo-se da mesa. Já tem amores, é a pequena
das Silveiras... O café para o terraço, Teixeira.
O dia fóra convidava, adoravel, d'um azul suave, muito puro e muito alto,
sem uma nuvem. Defronte do terraço os geranios vermelhos estavam já
abertos; as verduras dos arbustos, muito tenras ainda, d'uma delicadeza de
renda, pareciam tremer ao menor
sopro; vinha por vezes um vago cheiro de violetas, misturado ao perfume
adocicado das flôres do campo; o alto repuxo cantava; e nas ruas do jardim,
bordadas de buxos baixos, a areia fina faiscava de leve áquelle sol timido de
primavera tardia, que ao longe envolvia os
verdes da quinta, adormecida a essa hora de sesta n'uma luz fresca e loura.
Os tres homens sentaram-se á mesa do café. Defronte do terraço, o Brown,
de bonet escossez posto ao lado e grande cachimbo na bocca, puchava ao alto
a barra do trapezio para Carlos se balouçar. Então o bom Villaça pedio para
voltar as costas. Não gostava de
vêr gymnasticas; bem sabia que não havia perigo; mas mesmo nos
cavallinhos, as cabriolas, os arcos, atordoavam-n'o; sahia sempre com o
estomago embrulhado...
- E parece-me imprudente, sobre o jantar...
- Qual! é só balouçar-se... Olhe para aquillo!
Mas Villaça não se moveu, com a face sobre a chavena.
O abbade, esse, admirava, de labios entreabertos, e o pires cheio de café
esquecido na mão.
- Olhe para aquillo Villaça, repetio Affonso. Não lhe faz mal, homem!
O bom Villaça voltou-se, com esforço. O pequeno muito alto no ar, com as
pernas retesadas contra a barra do trapezio, as mãos ás cordas, descia sobre o
terraço, cavando o espaço largamente, com os cabellos ao vento; depois
elevava-se, serenamente, crescendo
em pleno sol; todo elle sorria; a sua blusa, os calções enfunavam-se á aragem;
e via-se passar, fugir, o brilho dos seus olhos muito negros e muito abertos.
- Não está mais na minha mão, não gosto, disse o Villaça. Acho
imprudente!
Então Affonso bateu as palmas, o abbade gritou bravo, bravo. Villaça
voltou-se para applaudir, mas Carlos tinha já desapparecido; o trapezio parava,
em oscillações lentas; e o Brown, retomando o Times que pozera ao lado
sobre o pedestal d'um busto, foi descendo
para a quinta envolvido n'uma nuvem de fumo do cachimbo.
- Bella cousa, a gymnastica! exclamou Affonso da Maia, accendendo com
satisfação outro charuto.
Villaça já ouvira que enfraquecia muito o peito. E o abbade, depois de dar
um sorvo ao café, de lamber os beiços, soltou a sua bella phrase, arranjada em
maxima:
- Esta educação faz athletas mas não faz christãos. Já o tenho dito..
- Já o tem dito abbade, já! exclamou Affonso alegremente. Diz-m'o todas
as semanas... Quer você saber, Villaça? O nosso Custodio matta-me o bicho
do ouvido para que eu ensine a cartilha ao rapaz. A cartilha!...
Custodio ficou um momento a olhar Affonso, com uma face desconsolada
e a caixa de rapé aberta na mão; a irreligião d'aquelle
velho fidalgo, senhor de quasi toda a freguezia, era uma das suas dôres:
- A cartilha, sim meu senhor, ainda que v. ex.ª o diga assim com esse
modo escarnica... A cartilha. Mas já não quero fallar na cartilha... Ha outras
cousas. E se o digo tantas vezes, sr. Affonso da Maia, é pelo amor que tenho
ao menino.
E recomeçou a discussão, que voltava sempre ao café, quando Custodio
jantava na quinta.
O bom homem achava horroroso que n'aquella edade um tão lindo moço,
herdeiro d'uma casa tão grande, com futuras responsabilidades na sociedade,
não soubesse a sua doutrina. E narrou logo ao Villaça a historia da D. Cecilia
Macedo: esta virtuosa senhora, mulher do escrivão, tendo passado deante do
portão da quinta, avistara o Carlinhos, chamara-o, carinhosa e amiga de
creanças como era, e pedira-lhe que lhe dissesse o acto de contricção. E que
respondeu o menino? Que nunca em tal ouvira fallar! Estas cousas
entristeciam. E o sr. Affonso da Maia achava-lhe graça, ria-se! Ora alli estava
o amigo Villaça que podia dizer se era caso para jubilar. Não, o sr. Affonso da
Maia tinha muito saber, e correra muito mundo; mas d'uma cousa não o podia
convencer, a elle pobre padre que nem mesmo o Porto vira ainda, é que
houvesse felicidade e bom comportamento na vida sem a moral do
cathecismo.
E Affonso da Maia respondia com bom humor:
- Então que lhe ensinava você, abbade, se eu lhe entregasse o rapaz? Que
se não deve roubar o dinheiro das algibeiras, nem mentir, nem maltratar os
inferiores, por que isso é contra os mandamentos da lei de Deus, e leva ao
inferno, hein? É isso?...
- Ha mais alguma cousa...
- Bem sei. Mas tudo isso que você lhe ensinaria que se não deve fazer, por
ser um peccado que offende a Deus, já elle sabe que se não deve praticar, por
que é indigno d'um cavalheiro e d'um homem de bem...
- Mas, meu senhor...
- Ouça abbade. Toda a differença é essa. Eu quero que o rapaz seja
virtuoso por amor da virtude e honrado por amor da honra; mas não por medo
ás caldeiras de Pero Botelho, nem com o engodo de ir para o reino do céu...
E accrescentou, erguendo-se e sorrindo:
- Mas o verdadeiro dever de homens de bem, abbade, é quando vem,
depois de semanas de chuva, um dia d'estes, ir respirar pelos campos e não
estar aqui a discutir moral. Portanto arriba! e se o Villaça não está muito
cançado, vamos dar ahi um giro pelas fazendas...
O abbade suspirou como um santo que vê a negra impiedade dos tempos e
Belzebut arrebatando as melhores rezes do rebanho;
depois olhou a chavena e sorveu com delicias o resto do seu café.
Quando Affonso da Maia, Villaça e o abbade recolheram do seu passeio
pela freguezia, escurecera, havia luzes pelas salas, e tinham chegado já as
Silveiras, senhoras ricas da quinta da Lagoaça.
D. Anna Silveira, a solteira e mais velha, passava pela talentosa da familia,
e era em pontos de doutrina e de etiqueta uma grande auctoridade em
Resende. A viuva, D. Eugenia, limitava-se a ser uma excellente e pachorrenta
senhora, de agradavel nutrição, trigueirota
e pestanuda; tinha dois filhos, a Theresinha, a noiva de Carlos, uma
rapariguinha magra e viva com cabellos negros como tinta, e o morgadinho, o
Eusebiosinho, uma maravilha muito fallada n'aquelles sitios.
Quasi desde o berço este notavel menino revelara um edificante amor por
alfarrabios e por todas as coisas do saber. Ainda gatinhava e já a sua alegria
era estar a um canto, sobre uma esteira, embrulhado n'um cobertor, folheando
in-folios, com o craneosinho calvo de sabio curvado sobre as lettras garrafaes
de boa doutrina: depois de crescidinho tinha tal proposito que permanecia
horas immovel n'uma cadeira, de perninhas bambas, esfuracando o nariz:
nunca appetecera um tambor ou uma arma: mas cosiam-lhe cadernos de papel,
onde o precoce letrado, entre o pasmo da mamã e da titi, passava dias a traçar
algarismos, com a lingoasinha de fora.
Assim na familia tinha a sua carreira destinada: era rico, havia de ser
primeiro bacharel, e depois desembargador. Quando vinha a Santa Olavia, a
tia Annica installava-o logo á mesa, ao pé do candieiro, a admirar as pinturas
d'um enorme e rico volume, os Costumes
de todos os povos do Universo. Já lá estava essa noite, vestido como sempre
de escossez, com o plaid de flamejante xadrez vermelho e negro posto a
tiracollo e preso ao hombro por uma dragona; para que conservasse o ar nobre
d'um Stuart, d'um valoroso cavalleiro de Walter Scott, nunca lhe tiravam o
bonet onde se arqueava com heroismo uma rutilante penna de gallo; e nada
havia mais melancolico que a sua facesinha trombuda, a que o excesso de
lombrigas dava uma molleza e uma amarellidão de manteiga, os seus olhinhos
vagos e azulados, sem pestanas como se a sciencia lh'as tivesse já
consummido, pasmando com sisudez para as camponesas da Sicilia, e para os
guerreiros ferozes do Montenegro
appoiados a escupetas, em pincaros de serranias.
Deante do canapé das senhoras lá se achava tambem o fiel amigo, o dr.
delegado, grave e digno homem, que havia cinco annos andava ponderando e
meditando o casamento com a Silveira viuva, sem se decidir - contentando-se
em comprar todos os annos mais meia duzia de lençoes, ou uma peça mais de
bretanha, para arredondar o bragal. Estas compras eram discutidas em casa das
Silveiras, á brazeira: e as allusões recatadas, mas inevitaveis, ás duas
fronhasinhas, ao tamanho dos lençoes, aos cobertores de papa para os
conchegos de janeiro - em logar de inflammar o magistrado, inquietavam-n'o.
Nos dias seguintes apparecia preoccupado - como se a perspectiva da santa
consummação do matrimonio lhe désse o arrepio de uma façanha a
emprehender,o ter de agarrar um toiro, ou nadar nos cachões do Douro. Então,
por qualquer rasão especiosa, adiava-se o casamento até ao S. Miguel
seguinte. E alliviado, tranquillo, o respeitavel Dr. continuava a acompanhar as
Silveiras a chás, festas de egreja ou pezames, vestido de preto, affavel,
serviçal, sorrindo a D. Eugenia, não desejando mais prazeres que os d'essa
convivencia paternal.
Apenas Affonso entrou na sala deram-lhe logo noticia do contratempo: o
dr. juiz de direito e a senhora não podiam vir, por que o magistrado tivera a
dôr; e as Brancos tinham mandado recado a desculpar-se, coitadas, que era dia
de tristeza em casa, por fazer desesete annos que morrera o mano Manuel...
- Bem, disse Affonso, bem. A dôr, a tristeza, o mano Manuel... Fazemos
nós um voltaretesinho de quatro. Que diz o nosso dr. delegado?
O excellente homem dobrou a sua fronte calva, murmurando que «estava
ás ordens.»
- Então ao dever, ao dever! exclamou logo o abbade, esfregando as mãos,
no ardor já da partida.
Os parceiros dirigiram-se á saleta do jogo - que um reposteiro de damasco
separava da sala, franzido agora, deixando ver a mesa verde, e nos circulos de
luz que cahiam dos abat-jour os baralhos abertos em leque. D'ahi a um
momento o dr. delegado voltou, risonho, dizendo que «os deixara para um
roquesinho de tres»; e retomou o seu logar ao lado de D. Eugenia, cruzando os
pés debaixo da cadeira e as mãos em cima do ventre. As senhoras estavam
fallando da dôr do dr. juiz de direito. Costumava dar-lhe todos os tres mezes: e
era condemnavel a sua teima em não querer consultar medicos. Quanto mais
que elle andava acabado, ressequindo, amarellando - e a D. Augusta, a mulher,
a nutrir á larga, a ganhar côres!... A Viscondessa, enterrada em toda a sua
gordura ao canto do canapé, com o leque aberto sobre o peito, contou que em
Hespanha vira um caso egual: o homem chegara a parecer um esqueleto, e a
mulher uma pipa; e ao principio fôra o contrario; até sobre isso se tinham feito
uns versos...
- Humores, disse com melancolia o dr. delegado.
Depois fallou-se nas Brancos; recordou-se a morte de Manuel Branco,
coitadinho, na flor de idade! E que perfeição de rapaz! E
que rapaz de juizo! D. Anna Silveira não se esquecera, como todos os annos,
de lhe accender uma lamparina por alma, e de lhe resar
tres padre-nossos. A viscondessa pareceu toda afflicta por se não ter
lembrado... E ella que tinha o proposito feito!
- Pois estive para t'o mandar dizer! exclamou D. Anna. E as Brancos que
tanto o agradecem, filha!
- Ainda está a tempo, observou o magistrado.
D. Eugenia deu uma malha indolente no crochet de que nunca se separava,
e murmurou com um suspiro:
- Cada um tem os seus mortos.
E no silencio que se fez, saiu do canto do canapé outro suspiro, o da
viscondessa, que de certo se recordára do fidalgo d'Urigo de la Sierra, e
murmurava:
- Cada um tem os seus mortos...
E o digno dr. delegado terminou por dizer egualmente, depois de passar
reflectidamente a mão pela calva:
- Cada um tem os seus mortos!
Uma somnolencia ia pesando. Nas serpentinas douradas, sobre as
consoles, as chammas das velas erguiam-se altas e tristes. Eusebiosinho
voltava com cautella e arte as estampas dos Costumes de todos os Povos. E na
saleta de jogo, atravez do reposteiro aberto, sentia-se a voz já arrenegada do
abbade, rosnando com um rancor tranquillo, «passo, que é o que tenho feito
toda a santa noite!»
N'esse momento Carlos arremettia pela sala dentro arrastando a sua noiva,
a Theresinha, toda no ar e vermelha de brincar; e logo a grulhada das suas
vozes reanimou o canapé dormente.
Os noivos tinham chegado d'uma pittoresca e perigosa viagem, e Carlos
parecia descontente de sua mulher; comportara-se d'uma maneira atroz;
quando elle ia governando a mala-posta, ella quizera empoleirar-se ao pé d'elle
na almofada... Ora senhoras não viajam
na almofada.
- E elle atirou-me ao chão, titi!
- Não é verdade! De mais a mais é mentirosa! Foi como quando chegámos
á estalagem... Ella quiz-se deitar, e eu não quiz... A gente, quando se apeia de
viagem, a primeira cousa que faz é tratar do gado... E os cavallos vinham a
escorrer...
A voz de D. Anna interrompeu, muito severa:
- Está bom, está bom, basta de tolices! Já cavallaram bastante. Senta-te ahi
ao pé da sr.ª Viscondessa, Thereza... Olhe essa travessa do cabello... Que
desproposito!
Sempre detestára ver a sobrinha, uma menina delicada de dez annos,
brincar assim com o Carlinhos. Aquelle bello e impetuoso rapaz, sem doutrina
e sem proposito, aterrava-a; e pela sua imaginação de solteirona passavam sem
cessar idéas, suspeitas de ultrages que elle poderia fazer á menina. Em casa, ao
agasalhal-a antes de vir para Sta. Olavia, recommendava-lhe com força que
não fosse com o Carlos para os recantos escuros! que o não deixasse mecherlhe
nos vestidos!... A menina, que tinha os olhos muito langorosos, dizia:
«Sim, titi.» Mas, apenas na quinta, gostava de abraçar o seu maridinho. Se
eram casados, por que não haviam de fazer néné, ou ter uma loja e ganharem a
sua vida aos beijinhos? Mas o violento rapaz só queria guerras, quatro
cadeiras lançadas a galope, viagens a terras de nomes barbaros que o Brown
lhe ensinava. Ella, despeitada, vendo o seu coração mal comprehendido,
chamava-lhe arrieiro; elle ameaçava boxal-a, á ingleza; - e separavam-se
sempre arrenegados.
Mas quando ella se accomodou ao lado da Viscondessa, gravesinha e com
as mãos no regaço - Carlos veiu logo estirar-se ao pé d'ella, meio deitado para
as costas do canapé, bamboleando as pernas.
- Vamos, filho, tem maneiras, rosnou-lhe muito secca D. Anna.
- Estou cançado, governei quatro cavallos, replicou elle, insolente e sem a
olhar.
De repente porém, d'um salto, precipitou-se sobre o Eusebiosinho. Queriao
levar á Africa, a combatter os selvagens: e puchava-o já pelo seu bello plaid
de cavalleiro d'Escossia, quando a mamã accudiu atterrada.
- Não, com o Eusebiosinho não, filho! Não tem saude para essas
cavalladas... Carlinhos, olhe que eu chamo o avô!
Mas o Eusebiosinho, a um repellão mais forte, rolara no chão, soltando
gritos medonhos. Foi um alvoroço, um levantamento. A mãe, tremula,
agachada junto d'elle, punha-o de pé sobre as perninhas molles, limpando-lhe
as grossas lagrimas, já com o lenço, já com beijos, quasi a chorar tambem. O
delegado, consternado, apanhara o bonet escossez, e cofiava
melancolicamente a bella pena de gallo. E a Viscondessa apertava ás mãos
ambas o enorme seio, como se as palpitações a suffocassem.
O Eusebiosinho foi então preciosamente collocado ao lado da titi; e a
severa senhora, com um fulgôr de colera na face magra, apertando o leque
fechado como uma arma, preparava-se a repellir o Carlinhos que, de mãos
atraz das costas e aos pulos em roda do
canapé, ria, arreganhando para o Eusebiosinho um labio feroz. Mas n'esse
momento davam nove horas, e a desempenada figura do Brown appareceu á
porta.
Apenas o avistou, Carlos correu a refugiar-se por detraz da Viscondessa,
gritando:
- Ainda é muito cedo, Brown, hoje é festa, não me vou deitar!
Então Affonso da Maia, que se não movera aos uivos lacinantes do
Silveirinha, disse de dentro, da mesa do voltarete, com severidade:
- Carlos, tenha a bondade de marchar já para a cama.
- Oh vôvô, é festa, que está cá o Villaça!
Affonso da Maia pousou as cartas, atravessou a sala sem uma palavra,
agarrou o rapaz pelo braço, e arrastou-o pelo corredor – em quanto elle, de
calcanhares fincados no soalho, resistia, protestando com desespero:
- É festa, vôvô... É uma maldade!... O Villaça póde-se escandalisar... Oh
vovô, eu não tenho somno!
Uma porta fechando-se abafou-lhe o clamor. As senhoras censuraram logo
aquella rigidez: ahi estava uma cousa incomprehensivel; o avô deixava-lhe
fazer todos os horrores, e recusava-lhe então o bocadinho da soirée...
- Oh sr. Affonso da Maia, por que não deixou estar a creança?
- É necessario methodo, é necessario methodo, balbuciou elle, entrando,
todo pallido do seu rigor.
E á mesa do voltarete, apanhando as cartas com as mãos tremulas, repetia
ainda:
- É necessario methodo. Creanças á noite dormem.
D. Anna Silveira voltando-se para o Villaça - que cedera o seu lugar ao dr.
delegado e vinha palestrar com as senhoras – teve aquelle sorriso mudo que
lhe franzia os labios, sempre que Affonso da Maia fallava em «methodos.»
Depois, reclinando-se para as costas da cadeira e abrindo o leque,
declarou, a transbordar d'ironia, que, talvez por ter a intelligencia
curta, nunca comprehendera a vantagem dos «methodos»... Era á ingleza,
segundo diziam: talvez provassem bem em Inglaterra; mas ou ella estava
enganada, ou Sta. Olavia era no reino de Portugal...
E como Villaça inclinava timidamente a cabeça, com a sua pitada nos
dedos, a esperta senhora, baixo para que Affonso dentro não ouvisse,
desabafou. O sr. Villaça naturalmente não sabia, mas aquella educação do
Carlinhos nunca fôra approvada pelos amigos da casa. Já a presença do
Brown, um heretico, um protestante, como perceptor na familia dos Maias,
causara desgosto em Resende. Sobretudo quando o sr. Affonso tinha aquelle
santo do abbade Custodio, tão estimado, homem de tanto saber... Não
ensinaria á creança habilidades de acrobata; mas havia de lhe dar uma
educação de fidalgo, preparal-o para fazer boa figura em Coimbra.
N'esse momento, o abbade, suspeitando uma corrente d'ar, erguera-se da
mesa de jogo a fechar o reposteiro: então, como Affonso já não podia ouvir,
D. Anna ergueu a voz:
- E olhe que o Custodio teve desgosto, sr. Villaça. Que o Carlinhos,
coitadinho, nem uma palavra sabe de doutrina... Sempre lhe quero contar o
que succedeu com a Macedo.
Villaça já sabia.
- Ah já sabe? Lembras-te viscondessa? Com a Macedo, do acto de
contricção...
A viscondessa suspirou, erguendo um olhar mudo ao ceu atravez do tecto.
- Horroroso! continuou D. Anna. A pobre mulher chegou lá a nossa casa
embuchada... E eu fez-me impressão. Até sonhei com aquillo tres noites a
fio...
Calou-se um momento. Villaça, embaraçado, acanhado, fazia girar a caixa
de rapé nos dedos, com os olhos postos no tapete. Outro langor de
somnolencia passou na sala; D. Eugenia, com as palpebras pesadas, fazia de
vez em quando uma malha molle no
crochet; e a noiva de Carlos, estirada para o canto do sophá, já dormia, com a
boquinha aberta, os seus lindos cabellos negros caindo-lhe pelo pescoço.
D. Anna, depois de bocejar de leve, retomou a sua idéa:
- Sem contar que o pequeno está muito atrazado. A não ser um bocado de
inglez, não sabe nada... Nem tem prenda nenhuma!
- Mas é muito esperto, minha rica senhora! accudiu Villaça.
- É possivel, respondeu seccamente a intelligente Silveira.
E, voltando-se para Euzebiosinho, que se conservava ao lado d'ella, quieto
como se fosse de gesso:
- Oh filho, dize tu aqui ao sr. Villaça aquelles lindos versos que sabes...
Não sejas atado, anda!... Vá, Euzebio, filho, sê bonito...
Mas o menino, mollengão e tristonho, não se descollava das saias da titi:
teve ella de o pôr de pé, amparal-o, para que o tenro prodigio não alluisse
sobre as perninhas flacidas; e a mamã prometteu-lhe que, se dissesse os
versinhos, dormia essa noite com ella...
Isto decidio-o: abrio a bocca, e como d'uma torneira lassa veio de lá
escorrendo, n'um fio de voz, um recitativo lento e babujado:
É noite, o astro saudoso
Rompe a custo um plumbeo céu,
Tolda-lhe o rosto formoso
Alvacento, humido véo...
Disse-a toda - sem se mexer, com as mãosinhas pendentes, os olhos
mortiços pregados na titi. A mamã fazia o compasso com a agulha do crochet;
e a viscondessa, pouco a pouco, com um sorriso de quebranto, banhada no
langor da melopea, ia cerrando as palpebras.
- Muito bem, muito bem! exclamou o Villaça, impressionado, quando o
Euzebiosinho findou coberto de suor. Que memoria! Que memoria! É um
prodigio!...
Os creados entravam com o chá. Os parceiros tinham findado a partida; e o
bom Custodio, de pé, com a sua chavena na mão, queixava-se amargamente
da maneira porque aquelles senhores o tinham esfolado.
Como ao outro dia era domingo, e havia missa cedo, as senhoras
retiraram-se ás nove e meia. O serviçal dr. delegado dava o braço a D.
Eugenia; um creado da quinta allumiava adiante com o lampeão; e o moço das
Silveiras levava ao collo o Eusebiosinho que parecia
um fardo escuro, abafado em mantas, com um chale amarrado na cabeça.
Depois da ceia Villaça acompanhou ainda um momento Affonso da Maia
á livraria, onde, antes de recolher, elle tomava sempre á ingleza o seu cognac e
soda.
O aposento, a que as velhas estantes de pau preto davam um ar severo,
estava adormecido tepidamente, na penumbra suave, com as cortinas bem
fechadas, um resto de lume na chaminé, e o globo do candieiro pondo a sua
claridade serena na mesa coberta de livros. Em baixo, os repuchos cantavam
alto no silencio da noite.
Emquanto o escudeiro rolava para o pé da poltrona de Affonso, n'uma
mesa baixa, os crystaes e as garrafas de soda, Villaça, com as mãos nos
bolsos, de pé e pensativo, olhava a braza da acha que morria na cinza branca.
Depois ergueu a cabeça, para murmurar, como ao acaso:
- Aquelle rapazito é esperto...
- Quem? O Euzebiosinho? disse Affonso, que se accomodava junto ao
fogão, enchendo alegremente o cachimbo. Eu tremo de o ver cá, Villaça! O
Carlos não gosta d'elle, e tivemos ahi um desgosto horroroso... Foi já ha
mezes. Havia uma procissão e o Eusebiosinho ia de anjo... As Silveiras,
excellentes mulheres, coitadas, mandaram-n'o cá para o mostrar á viscondessa,
já vestido de anjo. Pois senhores, distrahimo-nos, e o Carlos que o andava a
rondar apodera-se d'elle, leva-o para o sotão, e, meu caro Villaça... Em
primeiro logar ia-o matando porque embirra com anjos... Mas o peior não foi
isso. Imagine você o nosso terror, quando nos apparece o Eusebiosinho aos
berros pela titi, todo desfrizado, sem uma aza, com a outra a bater-lhe os
calcanhares dependurada de um barbante, a corôa de rosas enterrada até ao
pescoço, e os galões de ouro, os tulles, as lentejoulas, toda a vestimenta
celeste em frangalhos!... Emfim, um anjo depennado e sovado... Eu ia dando
cabo do Carlos.
Bebeu metade da sua soda, e passando a mão pelas barbas, accrescentou,
com uma satisfação profunda:
- É levado do diabo, Villaça!
O administrador, sentado agora á borda de uma cadeira, esboçou uma
risadinha muda; depois ficou calado, olhando Affonso, com as mãos nos
joelhos, como esquecido e vago. Ia abrir os labios, hesitou ainda, tossio de
leve; e continuou a seguir pensativamente as
faiscas que erravam sobre as achas.
Affonso da Maia, no entanto, com as pernas estiradas para o lume,
recomeçara a fallar do Silveirinha. Tinha tres ou quatro mezes mais que
Carlos, mas estava enfesado, estiolado, por uma educação á portugueza:
d'aquella edade ainda dormia no chôco com as criadas, nunca o lavavam para
o não constiparem, andava couraçado de rolos de flanellas! Passava os dias
nas saias da titi a decorar versos, paginas inteiras do Cathecismo de
Perseverança. Elle por curiosidade um dia abrira este livreco e vira lá, «que o
sol é que anda em volta da terra (como antes de Galileu), e que Nosso Senhor
todas as manhãs dá as ordens ao sol, para onde ha d'ir e onde ha de parar etc.,
etc.» E assim lhe estavam arranjando uma almasinha de bacharel...
Villaça teve outra risadinha silenciosa. Depois, como subitamente
decidido, ergueu-se, fez estalar os dedos, disse estas palavras:
- V. Ex.ª sabe que appareceu a Monforte?
Affonso, sem mover a cabeça, reclinado para as costas da poltrona,
perguntou tranquillamente, envolvido no fumo do cachimbo:
- Em Lisboa?
- Não senhor, em Paris. Viu-a lá o Alencar, esse rapaz que escreve, e que
era muito de Arroios... Esteve até em casa d'ella.
E ficaram calados. Havia annos que entre elles se não pronunciara o nome
de Maria Monforte. Ao principio, quando se retirara para Santa Olavia, a
preoccupação ardente de Affonso da Maia fôra tirar-lhe a filha que ella levara.
Mas a esse tempo ninguem sabia
onde Maria se refugiara com o seu principe: nem pela influencia das legações,
nem pagando regiamente a policia secreta de Paris, de Londres, de Madrid, se
poude descobrir a «toca da fera» como disia então o Villaça. Ambos decerto
tinham mudado de nome; e,
dadas essas naturezas bohemias, quem sabe se não errariam agora pela
America, pela India, em regiões mais exoticas? Depois, pouco a pouco,
Affonso da Maia descorçoado com aquelles esforços vãos, todo occupado do
neto que crescia bello e forte ao seu lado, no
enternecimento continuo que elle lhe dava foi esquecendo a Monforte e a sua
outra neta, tão distante, tão vaga, a quem ignorava as feições, de quem mal
sabia o nome. E agora de repente a Monforte apparecia outra vez em Paris! e o
seu pobre Pedro estava morto! e
aquella creança que dormia ao fundo do corredor nunca vira sua mãe...
Erguera-se, passeiava na livraria, pesado e lento, com a cabeça baixa.
Junto á mesa, ao pé do candieiro, o Villaça ia percorrendo um a um os papeis
da sua carteira.
- E está em Paris com o italiano? perguntou Affonso do fundo sombrio do
aposento.
O Villaça ergueu a cabeça de sobre a carteira, e disse:
- Não senhor, está com quem lhe paga.
E como Affonso se aproximava da mesa, sem uma palavra, Villaça,
dando-lhe um papel dobrado, accrescentou:
- Todas estas cousas são muito graves, sr. Affonso da Maia, e eu não quiz
fiar-me só na minha memoria. Por isso pedi ao Allencar, que é um excellente
rapaz, que me escrevesse n'uma carta tudo o que me contou. Assim temos um
documento. Eu não sei mais do que
ahi está escripto. Póde V. Ex.ª ler...
Affonso desdobrou as duas folhas de papel. Era uma historia simples, que
o Alencar, o poeta das Vozes d'Aurora, o estylista de Elvira, ornára de flores e
de galões dourados como uma capella em dia de festa.
Uma noite, ao sahir da Maison d'Or, elle vira a Monforte saltar d'um coupé
com dois homens de gravata branca; tinham-se logo reconhecido: e um
momento ficaram hesitando, um defronte do outro, debaixo do candieiro do
gaz, no trottoir. Foi ella que, muito
decidida, rindo, estendeu a mão ao Alencar, pediu-lhe que a visitasse, deu-lhe
a adresse, o nome por que devia perguntar: Mme. de l'Estorade. E no seu
boudoir, na manhã seguinte a Monforte fallou largamente de si: vivera tres
annos em Vienna d'Austria com Tancredo, e com o papá que se lhes fôra
reunir - e que lá continuava de certo, como em Arroios, refugiando-se pelos
cantos das salas, pagando as toilettes da filha, e dando palmadinhas ternas no
hombro do amante como outr'ora no hombro do marido. Depois tinham estado
em Monaco; e ahi, dizia o Alencar, «n'um drama sombrio de paixão que ella
me fez entrever» o napolitano fora morto em duello. O papá morrera tambem
n'esse anno, deixando apenas da sua fortuna uns magros contos de réis, e a
mobilia da casa em Vienna: o velho arruinara-se com o luxo da filha, com as
viagens, com as perdas de Tancredo ao baccarat. Passára então um tempo em
Londres: e d'ahi viera habitar Paris, com Mr. de l'Estorade, um jogador, um
espadachim, que acabou de a arrasar, e que a abandonou legando-lhe esse
nome de l'Estorade, que lhe era a elle d'ora em diante inutil porque passava a
adoptar outro mais sonoro de Vicomte de Manderville. Emfim, pobre,
formosa, doida, excessiva, lançara-se na existencia d'aquellas mulheres de
quem, dizia o Alencar, «a pallida Margarida Gautier, a gentil Dama das
Camelias é o typo sublime, o symbolo poetico, a quem muito será perdoado
porque muito amaram.» E o poeta terminava: «ella está ainda no esplendor da
belleza, mas as rugas virão, e então que avistará em redor de si? As rosas
seccas e ensanguentadas da sua coroa de esposa. Sahi d'aquelle boudoir
perfumado, com a alma dilacerada, meu Villaça! Pensava no meu pobre
Pedro, que lá jaz sob o raio de luar, entre as raizes dos cyprestes. E,
desilludido d'esta cruel vida, vim pedir ao absintho, no boulevard, uma hora de
esquecimento.»
Affonso da Maia deu um repellão á carta, menos enojado das torpezas da
historia, que d'aquelles lyrismos relambidos.
E recomeçou a passear, emquanto o Villaça recolhia religiosamente o
documento que tinha relido muitas vezes, na admiração do sentimento, do
estylo, do ideal d'aquella pagina.
- E a pequena? perguntou Affonso.
- Isso não sei. O Alencar não lhe fallaria na filha, nem elle mesmo sabe
que ella a levou. Ninguem o sabe em Lisboa. Foi um detalhe que passou
desapercebido no grande escandalo. Mas emquanto a mim, a pequena morreu.
Senão, siga V. Ex.ª o meu raciocinio... Se a
menina fosse viva, a mãe podia reclamar a legitima que cabe á creança... Ella
sabe a casa que V. Ex.ª tem; ha de haver dias, e são frequentes na vida d'essas
mulheres, em que lhe falte uma libra... Com o pretexto da educação da
menina, ou de alimentos, já nos tinha importunado... Escrupulos não tem ella.
Se o não faz é que a filha morreu. Não lhe parece a V. Ex.ª?
- Talvez, disse Affonso.
E accrescentou, parando deante de Villaça - que olhava outra vez a braza
morta tirando estalinhos dos dedos:
- Talvez... Sopônhamos que morreram ambas, e não se falle mais n'isso.
Estava dando meia noite, os dois homens recolheram-se. E durante os dias
que Villaça passou em Sta. Olavia não se proferiu mais o nome de Maria
Monforte.
Mas, na vespera da partida do administrador para Lisboa, Affonso subio
ao quarto d'elle, a entregar-lhe as amendoas da Paschoa que Carlos mandava a
Villaça Junior, um alfinete de peito com uma magnifica saphira - e disse-lhe
em quanto o outro, sensibilisado,
balbuciava os agradecimentos:
- Agora outra cousa, Villaça. Tenho estado a pensar. Vou escrever a meu
primo Noronha, ao André que vive em Paris como você sabe, pedir-lhe que
procure essa creatura, e que lhe offereça dez ou quinze contos de réis, se ella
me quizer entregar a filha... No caso,
está claro, que esteja viva... E quero que você saiba d'esse Alencar a morada
da mulher em Paris.
O Villaça não respondeu, occupado a metter entre as camisas, bem no
fundo da maleta, a caixinha com o alfinete. Depois, erguendo-se, ficou deante
d'Affonso, a coçar reflectidamente o queixo.
- Então que lhe parece, Villaça?
- Parece-me arriscado.
E deu as suas razões. A menina devia ir nos seus treze annos. Estava uma
mulher, com o seu temperamento formado, o caracter feito, talvez os seus
habitos... Nem fallaria o portuguez. As saudades da mãe haviam de ser
terriveis... Emfim, o sr. Affonso da Maia
trazia uma extranha para casa...
- Você tem rasão, Villaça. Mas a mulher é uma prostituta, e a pequena é do
meu sangue.
N'esse momento Carlos, cuja voz gritava no corredor pelo vôvô,
precipitou-se no quarto, esguedelhado, escarlate como uma romã.
- O Brown tinha achado uma corujasinha pequena! Queria que o vôvô
viesse ver, andara a buscal-o por toda a casa... Era de morrer a rir... Muito
pequena, muito feia, toda pellada, e com dois olhos de gente grande! E sabiam
onde havia o ninho...
- Vem depressa, ó vôvô! Depressa, que é necessario ir pol-a no ninho, por
causa da coruja velha que se póde affligir... O Brown está-lhe a dar azeite. Oh
Villaça vem ver! Ó vôvô, pelo amor de Deus! Tem uma cara tão engraçada!
Mas depressa, depressa, que a
coruja velha póde dar pela falta!...
E impaciente com a lentidão risonha do vôvô, tanta indifferença pela
inquietação da coruja velha, abalou atirando com a porta.
- Que bom coração! exclamou o Villaça commovido. A pensar nas
saudades da coruja... A mãe d'elle é que não tem saudades! Sempre o disse, é
uma fera!
Affonso encolheu tristemente os hombros. Iam já no corredor quando elle,
parando um momento, baixando a voz:
- Tem-me esquecido de lhe contar, Villaça, o Carlos sabe que o pae que se
matou...
Villaça arredondou os olhos d'espanto. Era verdade. Uma manhã entraralhe
pela livraria, e dissera-lhe: - ó vôvô, o papá matou-se com uma pistola! -
Naturalmente algum creado que lh'o contara...
- E vossa excellencia?
- Eu... Que havia de fazer? Disse-lhe que sim. Em tudo tenho obedecido ao
que Pedro me pediu, n'essas quatro ou cinco linhas da carta que me deixou.
Quiz ser enterrado em Sta. Olavia, ahi está. Não queria que o filho jámais
soubesse da fuga da mãe; e por mim, de
certo, nunca o saberá. Quiz que dois retratos que havia d'ella em Arroios
fossem destruidos; como você sabe, obtiveram-se e destruiram-se. Mas não
me pedio que occultasse ao rapaz o seu fim. E por isso, disse ao pequeno a
verdade: disse-lhe que n'um momento de loucura, o papá tinha dado um tiro
em si...
- E elle?
- E elle, replicou Affonso sorrindo, perguntou-me quem lhe tinha dado a
pistola, e torturou-me toda uma manhã para lhe dar tambem uma pistola... E
ahi está o resultado d'essa revelação: é que tive de mandar vir do Porto uma
pistola de vento...
Mas, sentindo Carlos em baixo, aos berros ainda pelo avô, os dois
apressaram-se a ir admirar a corujazinha.
Villaça ao outro dia partiu para Lisboa.
Passadas duas semanas, Affonso recebia uma carta do administrador,
trasendo-lhe, com a adresse da Monforte, uma revelação imprevista. Tinha
voltado a casa do Alencar; e o poeta, recordando outros incidentes da sua
visita a Mme. de l'Estorade, contara-lhe que no boudoir d'ella havia um
adoravel retrato de creança, de olhos negros, cabello d'azeviche, e uma
pallidez de nacar. Esta pintura ferira-o, não só por ser d'um grande pintor
inglez, mas por ter, pendente sob o caixilho como um voto funerario, uma
linda coroa de flores de cera brancas e roxas. Não havia outro quadro no
boudoir: e elle perguntara á Monforte se era um retrato ou uma phantasia. Ella
respondera que era o retrato da filha que lhe morrera em Londres. «Estão
assim dissipadas todas as duvidas, accrescentava o Villaça. O pobre anjinho
está n'uma patria melhor. E para ella, bem melhor!»
Affonso, todavia, escreveu a André de Noronha. A resposta tardou.
Quando o primo André procurara Mme.de l'Estorade, havia semanas que ella
partira para Allemanha, depois de vender mobilia e cavallos. E no Club
Imperial, a que elle pertencia, um amigo que conhecia bem Mme. de
l'Estorade e a vida galante de Paris, contara-lhe que a doida fugira com um
certo Catanni, acrobata do Circo d'Inverno nos campos Elyseos, homem de
fórmas magnificas, um Appolo de feira, que todas as cocottes se disputavam e
que a Monforte empolgára. Naturalmente corria agora a Allemanha com a
companhia de cavallinhos.
Affonso da Maia, enojado, remetteu esta carta ao Villaça sem um
commentario. E o honrado homem respondeu: «Tem V. Ex.ª rasão, é atroz: e
mais vale suppor que todos morreram, e não gastar mais cera com tão ruins
defuntos...» E depois n'um post-scriptum
accrescentava: «Parece certo abrir-se em breve o caminho de ferro até ao
Porto: em tal caso, com permissão de V. Ex.ª, ahi irei e o meu rapaz a
pedirmos-lhe alguns dias d'hospitalidade.»
Esta carta foi recebida em Sta. Olavia um domingo, ao jantar. Affonso lera
alto o P.S. Todos se alegraram,na esperança de ver o bom Villaça em breve na
quinta; e fallou-se mesmo em arranjar um grande pic-nic, rio acima.
Mas, terça feira á noite, chegava um telegramma de Manuel Villaça
annunciando que o pae morrera, n'essa manhã, d'uma apoplexia: dois dias
depois vinham mais longos e tristes pormenores. Fora depois do almoço que,
de repente, Villaça se sentira muito suffocado e com tonturas: ainda tivera
forças d'ir ao quarto respirar um pouco d'ether: mas ao voltar á sala
cambaleava, queixava-se de vêr tudo amarello, e caiu de bruços, como um
fardo, sobre o canapé. O seu pensamento, que se extinguia para sempre, ainda
n'esse momento se occupou da casa que ha trinta annos administrava:
balbuciou, a respeito d'uma venda de cortiça, recomendações que o filho já
não poude perceber: depois deu um grande ai; e só tornou a abrir os olhos,
para murmurar no derradeiro sopro estas derradeiras palavras: Saudades ao
patrão!
Affonso da Maia ficou profundamente affectado, e em Sta. Olavia, mesmo
entre os creados, a morte de Villaça foi como um lucto domestico. Uma
d'essas tardes, o velho, muito melancolico, estava na livraria com um jornal
esquecido nas mãos, os olhos cerrados - quando Carlos, que ao lado rabiscava
carantonhas num papel, veio passar-lhe um braço pelo pescoço, e como
comprehendendo os seus pensamentos perguntou-lhe se o Villaça não voltaria
a vel-os á quinta.
- Não filho, nunca mais. Nunca mais o tornamos a vêr.
O pequeno, entre os joelhos e os braços do velho, olhava o tapete, e, como
recordando-se, murmurou tristemente:
- O Villaça, coitado... Dava estalinhos com os dedos... Oh vôvô, para onde
o levaram?
- Para o cemiterio, filho, para debaixo da terra.
Então Carlos desprendeu-se devagar do abraço do avô, e muito sério, com
os olhos n'elle:
- Ó vôvô! porque não lhe mandas fazer uma capellinha bonita, toda de
pedra, com uma figura, como tem o papá?
O velho achegou-o ao peito, beijou-o, commovido:
- Tens razão, filho. Tens mais coração que eu!
Assim o bom Villaça teve no cemiterio dos Prazeres o seu jazigo - que
fôra a alta ambição da sua existencia modesta.
Outros annos tranquillos passaram sobre Santa Olavia.
Depois uma manhã de julho, em Coimbra, Manuel Villaça (agora
administrador da casa) trepava as escadas do Hotel Mondego, onde Affonso se
hospedára com o neto, e entrava-lhe pela sala, vermelho, suando, berrando:
- Neminè! Neminè!
Fizera Carlos o seu primeiro exame! E que exame! Teixeira que tinha
acompanhado os senhores de Santa Olavia correu á porta, abraçou-se quasi
chorando no menino, agora mais alto que elle, e muito formoso na sua batina
nova.
Em cima no quarto, Manuel Villaça, soprando ainda, limpando as bagas de
suor, exclamava:
- Ficou tudo espantado, snr. Affonso da Maia! Os lentes até estavam
commovidos. Ih Jesus! que talento! Vem a ser um grande homem, é o que
todo o mundo disse... E que faculdade vai elle seguir, meu senhor?
Affonso, que passeava, todo tremulo, respondeu com um sorriso:
- Não sei, Villaça... Talvez nos formemos ambos em Direito.
Carlos assomou á porta, radiante, seguido do Teixeira e do outro escudeiro
- que trazia champagne n'uma salva.
- Então venha cá, seu maroto, disse Affonso muito branco, com os braços
abertos. Bom exame, hein?... Eu...
Mas não pôde proseguir: as lagrimas, duas a duas, corriam-lhe pela barba
branca.
IV
Carlos ia formar-se em Medicina. E como dizia o dr. Trigueiros houvera
sempre n'aquelle menino realmente uma «vocação para Esculapio».
A «vocação» revelára-se bruscamente um dia que elle descobriu no sotão,
entre rumas de velhos alfarrabios, um rolo manchado e antiquado de estampas
anatomicas; tinha passado dias a recortal-as, pregando pelas paredes do quarto
figados, liaças de intestinos,
cabeças de perfil «com o recheio á mostra». Uma noite mesmo rompera pela
sala em triumpho, a mostrar ás Silveiras, ao Euzebio, a pavorosa lithographia
de um feto de seis mezes no utero materno. D. Anna recuou, com um grito,
collando o leque á face: e o dr.
delegado, escarlate tambem, arrebatou prudentemente Euzebiosinho para entre
os joelhos, tapou-lhe a face com a mão. Mas o que escandalisou mais as
senhoras foi a indulgencia de Affonso.
- Então que tem, então que tem? dizia elle sorrindo.
- Que tem, snr. Affonso da Maia!? exclamou D. Anna. São indecencias!
- Não ha nada indecente na natureza, minha rica senhora. Indecente é a
ignorancia... Deixar lá o rapaz. Tem curiosidade de saber como é esta pobre
machina por dentro, não ha nada mais louvavel...
D. Anna abanava-se, suffocada. Consentir taes horrores nas mãos da
criança!... Carlos começou a apparecer-lhe como um libertino «que já sabia
coisas»; e não consentiu mais que a Therezinha brincasse só com elle pelos
corredores de Santa Olavia.
As pessoas sérias porém, o dr. juiz de direito, o proprio abbade,
lamentando, sim, que não houvesse mais recato, concordavam que aquillo
mostrava no pequeno uma grande queda para a medicina.
- Se péga, dizia então com um gesto prophetico o dr. Trigueiros, temos
d'alli coisa grande!
E parecia pegar.
Em Coimbra, estudante do Lyceu, Carlos deixava os seus compendios de
logica e rhetorica para se occupar de anatomia: n'umas ferias, ao abrir das
malas, a Gertrudes fugiu espavorida vendo alvejar entre as dobras d'um casaco
o riso d'uma caveira: e se algum
criado da quinta adoecia, lá estava Carlos logo revolvendo o caso em velhos
livros de medicina da livraria, sem lhe largar a beira do catre, fazendo
diagnosticos que o bom dr. Trigueiros escutava respeitoso e pensativo. Diante
do avô já chamava mesmo ao menino «o
seu talentoso collega».
Esta inesperada carreira de Carlos (pensára-se sempre que elle tomaria
capello em Direito) era pouco approvada entre os fieis amigos de Santa
Olavia. As senhoras sobretudo lamentavam que um rapaz que ia crescendo tão
formoso, tão bom cavalleiro, viesse a estragar a vida receitando emplastros, e
sujando as mãos no jorro das sangrias. O dr. juiz de direito confessou mesmo
um dia a sua descrença de que o snr. Carlos da Maia quizesse «ser medico a
sério».
- Ora essa! exclamou Affonso. E porque não ha de ser medico a sério? Se
escolhe uma profissão é para a exercer com sinceridade e com ambição, como
os outros. Eu não o educo para vadio, muito menos para amador; educo-o para
ser util ao seu paiz...
- Todavia, arriscou o dr. juiz de direito com um sorriso fino, não lhe
parece a v. exc.ª que ha outras coisas, importantes tambem, e mais proprias
talvez, em que seu neto se poderia tornar util?...
- Não vejo, replicou Affonso da Maia. N'um paiz em que a occupação
geral é estar doente, o maior serviço patriotico é incontestavelmente saber
curar.
- V. exc.ª tem resposta para tudo, murmurou respeitosamente o
magistrado.
E o que justamente seduzia Carlos na medicina era essa vida «a sério»,
pratica e util, as escadas de doentes galgadas á pressa no fogo de uma vasta
clinica, as existencias que se salvam com um golpe de bisturí, as noites
veladas á beira de um leito, entre o terror de
uma familia, dando grandes batalhas á morte. Como em pequeno o tinham
encantado as fórmas pittorescas das visceras - attrahiam-no agora estes lados
militantes e heroicos da sciencia.
Matriculou-se realmente com enthusiasmo. Para esses longos annos de
quieto estudo o avô preparára-lhe uma linda casa em Cellas, isolada, com
graças de cottage inglez, ornada de persianas verdes, toda fresca entre as
arvores. Um amigo de Carlos (um certo João da
Ega) poz-lhe o nome de «Paços de Cellas», por causa de luxos então raros na
Academia, um tapete na sala, poltronas de marroquim, panoplias d'armas, e
um escudeiro de libré.
Ao principio este esplendor tornou Carlos venerado dos fidalgotes, mas
suspeito aos democratas; quando se soube porém que o dono d'estes confortos
lia Proudhon, Augusto Comte, Herbert Spencer, e considerava tambem o paiz
uma choldra ignobil - os mais
rigidos revolucionarios começaram a vir aos Paços de Cellas tão
familiarmente como ao quarto do Trovão, o poeta bohemio, o duro socialista,
que tinha apenas por mobilia uma enxerga e uma Biblia.
Ao fim d'alguns mezes, Carlos, sympathico a todos, conciliára Dandys e
Philosophos: e trazia muitas vezes no seu break, lado a
lado, o Serra Torres, um monstro que já era addido honorario em Berlim e
todas as noites punha casaca, e o famoso Craveiro que
meditava a Morte de Satanaz, encolhido no seu gabão d'Aveiro, com o seu
grande barrete de lontra.
Os Paços de Cellas, sob a sua apparencia preguiçosa e campestre,
tornaram-se uma fornalha de actividades. No quintal fazia-se uma gymnastica
scientifica. Uma velha cozinha fôra convertida em sala d'armas - porque
n'aquelle grupo a esgrima passava como uma
necessidade social. Á noite, na sala de jantar, moços sérios faziam um whist
sério: e no salão, sob o lustre de crystal, com o Figaro, o Times e as Revistas
de Paris e de Londres espalhadas pelas mesas, o Gamacho ao piano tocando
Chopin ou Mozart, os litteratos estirados pelas poltronas - havia ruidosos e
ardentes cavacos, em que a Democracia, a Arte, o Positivismo, o Realismo, o
Papado, Bismark, o Amor, Hugo e a Evolução, tudo por seu turno flammejava
no fumo do tabaco, tudo tão ligeiro e vago como o fumo. E as
discussões metaphysicas, as proprias certezas revolucionarias adquiriam um
sabor mais requintado com a presença do criado de farda desarrolhando a
cerveja, ou servindo croquettes.
Carlos, naturalmente, não tardou a deixar pelas mesas, com as folhas
intactas, os seus expositores de medicina. A Litteratura e a Arte, sob todas as
fórmas, absorveram-no deliciosamente. Publicou sonetos no Instituto - e um
artigo sobre o Parthenon: tentou, n'um
atelier improvisado, a pintura a oleo: e compoz contos archeologicos, sob a
influencia da Salammbô. Além d'isso todas as tardes passeava os seus dois
cavallos. No segundo anno levaria um R se não fosse tão conhecido e rico.
Tremeu, pensando no desgosto do avô: moderou a dissipação intellectual,
acantoou-se mais na sciencia que escolhera: immediatamente lhe deram um
accessit. Mas tinha nas veias o veneno do dilettantismo: e estava destinado,
como dizia João da Ega, a ser um d'esses medicos litterarios que inventam
doenças de que a humanidade papalva se presta logo a morrer!
O avô, ás vezes, vinha passar uma, duas semanas a Cellas. Nos primeiros
tempos a sua presença, agradavel aos cavalheiros da partilha de whist,
desorganisou o cavaco litterario. Os rapazes mal ousavam estender o braço
para o copo da cerveja; e os vossa excellencia isto, vossa excellencia aquillo,
regelavam a sala. Pouco a pouco, porém, vendo-o apparecer em chinelas e de
cachimbo na boca, estirar-se na poltrona com ares sympathicos de patriarcha
bohemio, discutir arte e litteratura, contar anecdotas do seu tempo d'Inglaterra
e d'Italia, começaram a consideral-o como um camarada de barbas brancas.
Diante d'elle já se fallava de mulheres e de estroinices. Aquelle velho fidalgo,
tão rico, que lêra Michelet e o admirava - chegou mesmo a enthusiasmar os
democratas. E Affonso gozava alli tambem horas felizes, vendo o seu Carlos
centro d'aquelles moços de estudo, de ideal e de veia.
Carlos passava as ferias grandes em Lisboa, ás vezes em Paris ou Londres;
mas por Nataes e Pascoas vinha sempre a Santa Olavia, que o avô mais só se
entretinha a embellezar com amor. As salas tinham agora soberbos pannos
d'Arraz, paizagens de
Rousseau e Daubigny, alguns moveis de luxo e d'arte. Das janellas a quinta
offerecia aspectos nobres de parque inglez: através dos macios taboleiros de
relva, davam curvas airosas as ruas areadas: havia marmores entre as verduras;
e gordos carneiros de luxo
dormiam sob os castanheiros. Mas a existencia n'este meio rico não era agora
tão alegre: a viscondessa, cada dia mais nutrida, cahia em somnos congestivos
logo depois do jantar; o Teixeira primeiro, a Gertrudes depois, tinham
morrido, ambos de pleurizes, ambos no
entrudo: e já se não via tambem á mesa a bondosa face do abbade, que lá jazia
sob uma cruz de pedra, entre os goivos e as rosas de todo o anno. O dr. juiz de
direito com a sua concertina passára para a Relação do Porto; D. Anna
Silveira, muito doente, nunca sahia; a
Therezinha fizera-se uma rapariguinha feia, amarella como uma cidra; o
Euzebiosinho, mollengão e tristonho, já sem vestigios sequer do seu primeiro
amor aos alfarrabios e ás letras, ia casar na Regoa. Só o dr. delegado,
esquecido n'aquella comarca, estava o mesmo, mais calvo talvez, sempre
affavel, amando sempre a pachorrenta Eugenia. E quasi todas as tardes, o
velho Trigueiros se apeava da sua egoa branca ao portão para vir cavaquear
com o collega.
As ferias, realmente, só eram divertidas para Carlos quando trazia para a
quinta o seu intimo, o grande João da Ega, a quem Affonso da Maia se
affeiçoára muito, por elle e pela sua originalidade, e por ser sobrinho d'André
da Ega, velho amigo da sua mocidade e, muitas vezes outr'ora, hospede
tambem em Santa Olavia.
Ega andava-se formando em Direito, mas devagar, muito pausadamente –
ora reprovado, ora perdendo o anno. Sua mãi, rica, viuva e beata, retirada
n'uma quinta ao pé de Celorico de Basto com uma filha, beata, viuva e rica
tambem, tinha apenas uma noção vaga do que o Joãozinho fizera, todo esse
tempo, em Coimbra. O capellão affirmava-lhe que tudo havia de acabar a
contento, e que o menino seria um dia doutor como o papá e como o titi: e esta
promessa bastava á boa senhora, que se occupava sobretudo da sua doença de
entranhas e dos confortos d'esse padre Seraphim. Estimava mesmo que o filho
estivesse em Coimbra, ou algures, longe da quinta, que elle escandalisava com
a sua irreligião e as suas facecias hereticas.
João da Ega, com effeito, era considerado não só em Celorico, mas
tambem na Academia que elle espantava pela audacia e pelos ditos, como o
maior atheu, o maior demagogo, que jámais apparecera nas sociedades
humanas. Isto lisonjeava-o: por systema exagerou o seu odio á Divindade, e a
toda a Ordem social: queria o massacre das classes-médias, o amor livre das
ficções do matrimonio, a repartição das terras, o culto de Satanaz. O esforço
da intelligencia n'este sentido terminou por lhe influenciar as maneiras e a
hysionomia; e, com a sua figura esgrouviada e sêcca, os pêllos do bigode
arrebitados sob o nariz adunco, um quadrado de vidro entalado no olho direito
- tinha realmente alguma coisa de rebelde e de satanico. Desde a sua entrada
na Universidade renovára as tradições da antiga Bohemia: trazia os rasgões da
batina cozidos a linha branca; embebedava-se com carrascão; á noite, na
Ponte, com o braço erguido, atirava injurias a Deus. E no fundo muito
sentimental, enleado sempre em amores por meninas de quinze annos, filhas
de empregados, com quem ás vezes ia passar a soirée, levando-lhes
cartuchinhos de dôce. A sua fama de fidalgote rico tornava-o appetecido nas
familias.
Carlos escarnecia estes idyllios futricas; mas tambem elle terminou por se
enredar n'um episodio romantico com a mulher d'um empregado do governo
civil, uma lisboetasinha, que o seduziu pela graça d'um corpo de boneca e por
uns lindos olhos verdes. A ella o que a fantisára fôra o luxo, o groom, a egoa
ingleza de Carlos. Trocaram-se cartas; e elle viveu semanas banhado na poesia
aspera e tumultuosa do primeiro amor adultero. Infelizmente a rapariga tinha o
nome barbaro de Hermengarda; e os amigos de Carlos, descoberto o segredo,
chamavam-lhe já Eurico o presbytero, dirigiam para Cellas missivas pelo
correio com este nome odioso.
Um dia Carlos, andava tomando o sol na Feira, quando o empregado do
governo civil passou junto d'elle com o filhinho pela mão. Pela primeira vez
via tão de perto o marido de Hermengarda. Achou-o enxovalhado e macilento.
Mas o pequerrucho era adoravel, muito gordo, parecendo mais roliço por
aquelle dia de janeiro sob os agasalhos de lã azul, tremelicando nas pobres
perninhas roxas de frio, e rindo na clara luz - rindo todo elle, pelos olhos,
pelas covinhas do queixo, pelas duas rosas das faces. O pae amparava-o; e o
encanto, o cuidado com que o rapaz ia assim guiando os passos do seu filho,
impressionou Carlos. Era no momento em que elle lia Michelet - e enchia-lhe
a alma a veneração litteraria da santidade domestica. Sentiu-se canalha em
andar alli de cima do seu dog-cart, a preparar friamente a vergonha, e as
lagrimas d'aquelle pobre pae tão inofensivo no seu paletot coçado! Nunca
mais respondeu ás cartas em que Hermengarda lhe chamava seu ideal. Decerto
a rapariga se vingou, intrigando-o; porque o empregado do governo civil, d'ahi
por diante, dardejava sobre elle olhares sangrentos.
Mas a grande «topada sentimental de Carlos», como disse o Ega, foi
quando elle, ao fim d'umas ferias, trouxe de Lisboa uma soberba rapariga
hespanhola, e a installou n'uma casa ao pé de Cellas. Chamava-se
Encarnacion. Carlos alugou-lhe ao mez uma vittoria com um cavallo branco e
Encarnacion fanatisou Coimbra como a apparição d'uma Dama das Camelias,
uma flôr de luxo das civilisações superiores. Pela Calçada, pela estrada da
Beira, os rapazes paravam, pallidos de emoção, quando ella passava, reclinada
na vittoria, mostrando o sapato de setim, um pouco da meia de sêda, languida
e desdenhosa, com um cãosinho branco no regaço.
Os poetas da Academia fizeram-lhe versos em que Encarnacion foi
chamada Lirio d'Israel, Pomba da Arca, e Nuvem da Manhã. Um estudante de
theologia, rude e sebento transmontano, quiz casar com ella. Apesar das
instancias de Carlos, Encarnacion recusou; e
o theologo começou a rondar Cellas, com um navalhão, para «beber o sangue»
ao Maia. Carlos teve de lhe dar bengaladas.
Mas a creatura, desvanecida, tornou-se intoleravel, fallando sem cessar
d'outras paixões que inspirára em Madrid e em Lisboa, do muito que lhe dera
o conde de tal, o marquez sicrano, da grande posição da sua familia ainda
aparentada com os Medina-Coeli: os seus
sapatos de setim verde eram tão antipathicos como a sua voz estridula: e
quando tentava elevar-se ás conversações que ouvia, rompia a chamar ladrões
aos republicanos, a celebrar os tempos de D. Isabel, a sua gracia, o seu salero -
sendo muito conservadora como todas
as prostitutas. João da Ega odiava-a. E Craveiro declarou que não voltava aos
Paços de Cellas emquanto por lá apparecesse aquelle montão de carne, pago
ao arratel, como a de vacca.
Emfim, uma tarde Baptista, o famoso criado de quarto de Carlos
surprehendeu-a com um Juca que fazia de dama no Theatro Academico. Ahi
estava, emfim, um pretexto! E, convenientemente paga, a parenta dos Medina-
Coeli, o Lirio d'Israel, a admiradora dos
Bourbons, foi recambiada a Lisboa e á rua de S. Roque, seu elemento natural.
Em agosto, no acto da formatura de Carlos, houve uma alegre festa em
Cellas. Affonso viera de Santa Olavia, Villaça de Lisboa; toda a tarde no
quintal, d'entre as acacias e as bella-sombras, subiram ao ar mólhos de
foguetes; e João da Ega, que levára o seu ultimo
R no seu ultimo anno, não descansou, em mangas de camisa, pendurando
lanternas venezianas pelos ramos, no trapesio e em roda do poço, para a
illuminacão da noite. Ao jantar, a que assistiam lentes, Villaça, enfiado e
tremulo, fez um speech; ia citar o nosso immortal Castilho quando sob as
janellas rompeu, a grande ruido de tambor e pratos, o Hymno Academico. Era
uma serenata. - Ega, vermelho, de batina desabotoada, a luneta para traz das
costas, correu á sacada, a perorar:
- Ahi temos o nosso Maia, Carolus Eduardus ab Maia, começando a sua
gloriosa carreira, preparado para salvar a humanidade enferma - ou acabar de
a matar, segundo as circumstancias! A que parte remota d'estes reinos não
chegou já a fama do seu genio, do
seu dog-cart, do sebaceo accessit que lhe ennodôa o passado, e d'este vinho do
Porto, contemporaneo dos heroes de 20, que eu, homem de revolução e
homem de carraspana, eu, João da Ega, Johanes ab Ega...
O grupo escuro em baixo desatou aos vivas. A philarmonica, outros
estudantes, invadiram os Paços. Até tarde, sob as arvores do quintal, na sala
atulhada de pilhas de pratos, os criados correram com salvas de dôce, não
cessou d'estalar o champagne. E Villaça, limpando a testa, o pescoço, abafado
de calor, ia dizendo a um, a outro, a si mesmo tambem:
- Grande coisa, ter um curso!
E então Carlos Eduardo partira para a sua longa viagem pela Europa. Um
anno passou. Chegára esse outono de 1875: e o avô installado emfim no
Ramalhete esperava por elle anciosamente. A ultima carta de Carlos viera de
Inglaterra, onde andava, dizia elle, a
estudar a admiravel organização dos hospitaes de crianças. Assim era: mas
passeava tambem por Brighton, apostava nas corridas de Goodwood, fazia um
idyllio errante pelos lagos da Escocia, com uma senhora hollandeza, separada
de seu marido, veneravel magistrado da Haya, uma Mme. Rughel, soberba
creatura de cabellos d'ouro fulvo, grande e branca como uma nympha de
Rubens.
Depois começaram a chegar, dirigidas ao Ramalhete, caixas successivas
de livros, outras de instrumentos e apparelhos, toda uma bibliotheca e todo um
laboratorio - que trazia o Villaça, manhãs inteiras, aturdido pelos armazens da
alfandega.
- O meu rapaz vem com grandes idéas de trabalho, dizia Affonso aos
amigos.
Havia quatorze mezes que elle o não via, o «seu rapaz», a não ser n'uma
photographia mandada de Milão, em que todos o acharam magro e triste. E o
coracão batia-lhe forte, na linda manhã de outono, quando do terraço do
Ramalhete, de binoculo na mão, viu assomar vagarosamente, por traz do alto
predio fronteiro, um grande paquete do Royal Mail que lhe trazia o seu neto.
Á noite os amigos da casa, o velho Sequeira, D. Diogo Coutinho, o Villaça
- não se fartavam d'admirar «o bem que a viagem fizera a Carlos». Que
differença da photographia! Que forte, que saudavel!
Era decerto um formoso e magnifico moço, alto, bem feito, de hombros
largos, com uma testa de marmore sob os anneis dos cabellos pretos, e os
olhos dos Maias, aquelles irresistiveis olhos do pai, de um negro liquido,
ternos como os d'elle e mais graves. Trazia a barba toda, muito fina, castanhoescura,
rente na face, aguçada no queixo - o que lhe dava, com o bonito bigode
arqueado aos cantos da boca, uma physionomia de bello cavalleiro da
Renascença. E o avô, cujo olhar risonho e humido transbordava d'emoção,
todo se orgulhava de o vêr, de o ouvir, n'uma larga veia, fallando da viagem,
dos bellos dias de Roma, do seu mau humor na Prussia, da originalidade de
Moscow, das paizagens da Hollanda...
- E agora? perguntou-lhe o Sequeira, depois de um momento de silencio
em que Carlos estivera bebendo o seu cognac e soda. Agora que tencionas tu
fazer?
- Agora, general? respondeu Carlos, sorrindo e pousando o copo.
Descançar primeiro e depois passar a ser uma gloria nacional!
Ao outro dia, com effeito, Affonso veiu encontral-o na sala de bilhar -
onde tinham sido collocados os caixotes - a despregar, a desempacotar, em
mangas de camisa e assobiando com enthusiasmo. Pelo chão, pelos sophás,
alastrava-se toda uma litteratura em rumas de volumes graves; e aqui e além,
por entre a palha, através das lonas descozidas, a luz faiscava n'um crystal, ou
reluziam os vernizes, os metaes polidos de apparelhos. Affonso pasmava em
silencio para aquelle pomposo apparato do saber.
- E onde vaes tu accommodar este museo?
Carlos pensara em arranjar um vasto laboratorio alli perto no bairro, com
fornos para trabalhos chimicos, uma sala disposta para estudos anatomicos e
physiologicos, a sua bibliotheca, os seus apparelhos, uma concentração
methodica de todos os instrumentos de
estudo...
Os olhos do avô illuminavam-se ouvindo este plano grandioso.
- E que não te prendam questões de dinheiro, Carlos! Nós fizemos n'estes
ultimos annos de Santa Olavia algumas economias...
- Boas e grandes palavras, avô! Repita-as ao Villaça.
As semanas foram passando n'estes planos de installação. Carlos trazia
realmente resoluções sinceras de trabalho: a sciencia como mera
ornamentação interior do espirito, mais inutil para os outros que as proprias
tapessarias do seu quarto, parecia-lhe apenas um luxo de solitario: desejava ser
util. Mas as suas ambições fluctuavam, intensas e vagas; ora pensava n'uma
larga clinica; ora na composição macissa de um livro iniciador; algumas vezes
em experiencias physiologicas, pacientes e reveladoras... Sentia em si, ou
suppunha sentir, o tumulto de uma força, sem lhe discernir a linha
d'applicação. «Alguma cousa de brilhante,» como elle dizia: e isto para elle,
homem de luxo e homem d'estudo, significava um conjuncto de representação
social e de actividade scientifica; o remecher profundo de idéas entre as
influencias delicadas da riqueza; os elevados vagares da philosophia
entremeados com requintes de sport e de gosto; um Claude Bernard que fosse
tambem um Morny... No fundo era um dilletante.
Villaça fôra consultado sobre a localidade propria para o laboratorio; e o
procurador, muito lisongeado, jurou uma diligencia incançavel. Primeira
cousa a saber, o nosso doutor tencionava fazer clinica?...
Carlos não decidira fazer exclusivamente clinica: mas desejava de certo
dar consultas, mesmo gratuitas, como caridade e como pratica. Então Villaça
suggeriu que o consultorio estivesse separado do laboratorio.
- E a minha razão é esta: a vista de apparelhos, machinas, cousas, faz
esmorecer os doentes...
- Tem você razão, Villaça! exclamou Affonso. Já meu pae dizia: poupe-se
ao boi a vista do malho.
- Separados, separados, meu senhor, affirmou o procurador n'um tom
profundo.
Carlos concordou. E Villaça bem depressa descobriu, para o laboratorio,
um antigo armazem, vasto e retirado, ao fundo de um pateo, junto ao largo das
Necessidades.
- E o consultorio, meu senhor, não é aqui, nem acolá; é no Rocio, alli em
pleno Rocio!
Esta idéa do Villaça não era desinteressada. Grande enthusiasta da Fusão,
membro do Centro progressista, Villaça Junior aspirava a ser vereador da
camara, e mesmo em dias de satisfação superior (como quando o seu
anniversario natalicio vinha annunciado no Illustrado, ou quando no Centro
citava com applauso a Belgica) parecia-lhe que tantas aptidões mereciam do
seu partido uma cadeira em S. Bento. Um consultorio gratuito, no Rocio, o
consultorio do dr. Maia, «do seu Maia» reluziu-lhe logo vagamente como um
elemento de influencia. E tanto se agitou, que d'ahi a dois dias tinha lá alugado
um primeiro andar d'esquina.
Carlos mobilou-o com luxo. N'uma antecamara, guarnecida de banquetas
de marroquim, devia estacionar, á franceza, um creado de libré. A sala de
espera dos doentes alegrava com o seu papel verde de ramagens prateadas, as
plantas em vasos de Rouen, quadros de muita côr, e ricas poltronas cercando a
jardineira coberta de collecções do Charivari, de vistas estereoscopicas,
d'albuns de actrizes semi-nuas; para tirar inteiramente o ar triste de consultorio
até um piano mostrava o seu teclado branco.
O gabinete de Carlos ao lado era mais simples, quasi austero, todo em
velludo verde-negro, com estantes de pau preto. Alguns amigos que
começavam a cercar Carlos, Taveira, seu contemporaneo e agora visinho do
Ramalhete, o Cruges, o marquez de Souzellas,
com quem percorrera a Italia - vieram vêr estas maravilhas. O Cruges correu
uma escala no piano e achou-o abominavel; Taveira absorveu-se nas
photographias d'actrizes; e a unica approvação franca veiu do marquez, que
depois de contemplar o divan do gabinete, verdadeiro movel de serralho,
vasto, voluptuoso, fôfo, experimentou-lhe a doçura das molas e disse,
piscando o olho a Carlos:
- A calhar.
Não pareciam acreditar n'estes preparativos. E todavia eram sinceros.
Carlos até fizera annunciar o consultorio nos jornaes; quando viu porem o seu
nome em letras grossas, entre o de uma engommadeira á Boa Hora e um
reclamo de casa de hospedes, - encarregou
Villaça de retirar o annuncio.
Occupava-se então mais do laboratorio, que decidira installar no armazem,
ás Necessidades. Todas as manhãs, antes de almoço, ia visitar as obras.
Entrava-se por um grande pateo, onde uma bella sombra cobria um poço, e
uma trepadeira se mirrava nos ganchos de ferro que a prendiam ao muro.
Carlos já decidira transformar aquelle espaço em fresco jardinete inglez; e a
porta do casarão encantava-o, ogival e nobre, resto de fachada d'ermida,
fazendo um accesso veneravel para o seu sanctuario de sciencia. Mas dentro
os trabalhos arrastavam-se sem fim; sempre um vago martellar preguiçoso
n'uma poeira alvadia; sempre as mesmas coifas de ferramentas jazendo nas
mesmas camadas de aparas! Um carpinteiro esgouroviado e triste parecia estar
alli, desde seculos, aplainando uma taboa
eterna com uma fadiga langorosa; e no telhado os trabalhadores que andavam
alargando a claraboia, não cessavam de assobiar, no sol d'inverno, alguma
lamuria de fado.
Carlos queixava-se ao sr. Vicente, o mestre d'obras, que lhe asseverava
invariavelmente «como d'ahi a dois dias havia de s. ex.ª vêr a differença.» Era
um homem de meia edade, risonho, de fallar doce, muito barbeado, muito
lavado, que morava ao pé do Ramalhete, e
tinha no bairro fama de republicano. Carlos, por sympathia, como visinho,
apertava-lhe sempre a mão: e o sr. Vicente, considerando-o por isso um
«avançado», um democrata, confiava-lhe as suas esperanças. O que elle
desejava primeiro que tudo era um 93, como em
França...
- O que, sangue? dizia Carlos, olhando a fresca, honrada e roliça face do
demagogo.
- Não, senhor, um navio, um simples navio...
- Um navio?
- Sim, senhor, um navio fretado á custa da nação, em que se mandasse pela
barra fóra o rei, a familia real, a cambada dos ministros, dos politicos, dos
deputados, dos intrigantes, etc. e etc.
Carlos sorria, ás vezes argumentava com elle.
- Mas está o sr. Vicente bem certo, que apenas a cambada, como tão
exactamente diz, desapparecesse pela barra fóra, ficavam resolvidas todas as
cousas e tudo atolado em felicidade?
Não, o sr. Vicente não era tão «burro» que assim pensasse. Mas,
supprimida a cambada, não via s. ex.ª? Ficava o paiz desatravancado; e
podiam então começar a governar os homens de saber e de progresso...
- Sabe v. ex.ª qual é o nosso mal? Não é má vontade d'essa gente; é muita
somma de ignorancia. Não sabem. Não sabem nada. Elles não são maus, mas
são umas cavalgaduras!
- Bem, então essas obras, amigo Vicente, dizia-lhe Carlos, tirando o
relogio e despedindo-se d'elle com um valente shakehands, veja se me andam.
Não lh'o peço como proprietario, é como correligionario.
- D'aqui a dois dias ha de v. ex.ª vêr a differença, respondia o mestre
d'obras, desbarretando-se.
No Ramalhete, pontualmente ao meio dia, tocava a sineta do almoço.
Carlos encontrava quasi sempre o avô já na sala de jantar, acabando de
percorrer algum jornal junto ao fogão, onde a tepida suavidade d'aquelle fim
de outono não permittia accender lume, mas verdejando todo de plantas
d'estufa.
Em redor, nos aparadores de carvalho lavrado, rebrilhavam suavemente,
no seu luxo macisso e sobrio, as baixellas antigas; pelas tapeçarias ovaes dos
muros apainelados corriam scenas de ballada, caçadores medivaes soltando o
falcão, uma dama entre pagens
alimentando os cysnes de um lago, um cavalleiro de viseira callada seguindo
ao longo d'um rio; e contrastando com o tecto escuro de castanho entalhado a
meza resplandecia com as flôres entre os crystaes.
O reverendo Bonifacio, que desde que se tornara dignatario da Egreja
comia com os senhores, lá estava já, magestosamente sentado sobre a alvura
nevada da toalha, á sombra de algum grande ramo. Era alli, no aroma das
rosas, que o veneravel gato gostava de lamber, com o seu vagar estupido, as
sopas de leite servidas n'um covilhete de Strasburgo, depois agachava-se,
traçava por diante do peito a fofa pluma da sua cauda, e, de olhos cerrados, os
bigodes tesos, todo elle uma bola entufada de pello branco malhado de
ouro, gosava de leve uma sesta macia.
Affonso, - como confessava, sorrindo e humilhado - ía-se tornando com a
velhice um gourmet exigente; e acolhia, com uma concentração de critico, as
obras d'arte do chef francez que tinham agora, um cavalheiro de mau genio,
todo bonapartista, muito
parecido com o imperador, e que se chamava Mr. Theodore. Os almoços no
Ramalhete eram sempre delicados e longos; depois, ao café, ficavam ainda
conversando; e passava da uma hora, da hora e meia, quando Carlos, com uma
exclamação, precipitando-se sobre
o relogio, se lembrava do seu consultorio. Bebia um calice de Chartreuse,
accendia á pressa um charuto:
- Ao trabalho, ao trabalho! exclamava.
E o avô, enchendo de vagar o seu cachimbo, invejava-lhe aquella
occupação, emquanto elle ficava alli a vadiar toda a manhã...
- Quando esse eterno laboratorio estiver acabado, talvez vá para lá passar
um bocado, occupar-me de chimica.
- E ser talvez um grande chimico. O avô tem já a feitio.
O velho sorria.
- Esta carcassa já não dá nada, filho. Está pedindo eternidade!
- Quer alguma cousa da Baixa, de Babylonia? perguntava Carlos,
abotoando á pressa as suas luvas de governar.
- Bom dia de trabalho.
- Pouco provavel...
E no dog-cart, com aquella linda egoa, a Tunante ou no phaeton com que
maravilhava Lisboa, Carlos lá partia em grande estylo para a Baixa, para «o
trabalho.»
O seu gabinete, no consultorio, dormia n'uma paz tepida entre os espessos
velludos escuros, na penumbra que faziam as stores de seda verde corridas. Na
sala, porém, as tres janellas abertas bebiam á farta a luz; tudo alli parecia
festivo; as poltronas em torno da
jardineira estendiam os seus braços, amaveis e convidativas; o teclado branco
do piano ria e esperava, tendo abertas por cima as Canções de Gounod; mas
não apparecia jámais um doente. E Carlos, - exactamente como o creado que,
na ociosidade da antecamara, dormitava sobre o Diario de Noticias, acaçapado
na banqueta - accendia um cigarro Laferme, tomava uma Revista, e estendiase
no divan. A prosa porém dos artigos estava como embebida do tedio
moroso do gabinete: bem depressa bocejava, deixava cair o volume.
Do Rocio, o ruido das carroças, os gritos errantes de pregões, o rolar dos
americanos, subiam, n'uma vibração mais clara, por aquelle ar fino de
novembro: uma luz macia, escorregando docemente do azul ferrete, vinha
doirar as fachadas enxovalhadas, as cópas
mesquinhas das arvores de municipio, a gente vadiando pelos bancos: e essa
sussurração lenta de cidade preguiçosa, esse ar avelludado de clima rico,
pareciam ir penetrando pouco a pouco n'aquelle abafado gabinete e resvelando
pelos velludos pesados, pelo verniz dos
moveis, envolver Carlos n'uma indolencia e n'uma dormencia... Com a cabeça
na almofada, fumando, alli ficava, n'essa quietação de sesta, n'um scismar que
se ía desprendendo, vago e tenue, como o tenuo e leve fumo que se eleva
d'uma brazeira meia apagada; até que com um esforço sacudia este torpor,
passeiava na sala, abria aqui e além pelas estantes um livro, tocava no piano
dois compassos de walsa, espriguiçava-se - e, com os olhos nas flores do
tapete, terminava por decidir que aquellas duas horas de consultorio eram
estupidas!
- Está ahi o carro? ía perguntar ao creado.
Accendia bem depressa outro charuto, calçava as luvas, descia, bebia um
largo sorvo de luz e ar, tomava as guias e largava, murmurando comsigo:
- Dia perdido!
Foi uma d'essas manhãs que preguiçando assim no sophá com a Revista
dos Dois Mundos na mão, elle ouviu um rumor na antecamara, e logo uma voz
bem conhecida, bem querida, que dizia por trás do reposteiro:
- Sua Alteza Real está visivel?
- Oh Ega! gritou Carlos, dando um salto do sophá.
E cahiram nos braços um do outro, beijando-se na face, enternecidos.
- Quando chegaste tu?
- Esta manhã. Caramba! exclamava Ega, procurando pelo peito, pelos
hombros, o seu quadrado de vidro, e entalando-o emfim no olho. Caramba! Tu
vens esplendido d'esses Londres, d'essas civilisações superiores. Estás com um
ar Renascença, um ar Valois... Não
ha nada como a barba toda!
Carlos ria, abraçando-o outra vez.
- E d'onde vens tu, de Celorico?
- Qual Celorico! Da Foz. Mas doente, menino, doente... O figado, o baço,
uma infinidade de visceras compromettidas. Emfim, doze annos de vinhos e
aguas ardentes...
Depois fallaram das viagens de Carlos, do Ramalhete, da demora do Ega
em Lisboa... Ega vinha para sempre. Tinha dito do alto da diligencia, ás
varzeas de Celorico, o adeus de eternidade.
- Imagina tu, Carlos, amigo, a historia deliciosa que me succede com
minha mãe... Depois de Coimbra, naturalmente, sondei-a a respeito de vir
viver para Lisboa, confortavelmente, com uns dinheiros largos. Qual, não
caíu! Fiquei na quinta, fazendo epigrammas ao padre Seraphim e a toda a
côrte do céu. Chega julho, e apparece nos arredores uma epidemia de anginas.
Um horror, creio que vocês lhe chamam diphtericas... A mamã salta
immediatamente á conclusão que é a minha presença, a presença do atheo, do
demagogo, sem jejuns e sem missa, que offendeu Nosso Senhor e attrahiu o
flagello. Minha irmã concorda. Consultam o padre Seraphim. O homem, que
não gosta de me vêr na quinta, diz que é possivel que haja indignação do
Senhor - e minha mãe vem pedir-me quasi de joelhos, com a bolsa aberta, que
venha para Lisboa, que a arruine, mas que não esteja alli chamando a ira
divina. No dia seguinte bati para a Foz...
- E a epidemia...
- Desappareceu logo, disse o Ega, começando a puxar devagar dos dedos
magros uma longa luva cor de canário.
Carlos mirava aquellas luvas do Ega; e as polainas de casemira; e o
cabello que elle trazia crescido com uma mecha frisada na testa; e na gravata
de setim uma ferradura de opalas! Era outro Ega, um Ega dandy, vistoso,
paramentado, artificial e com pó d'arroz - e
Carlos deixou emfim escapar a exclamação impaciente que lhe bailava nos
labios:
- Ega, que extraordinario casaco!
Por aquelle sol macio e morno de um fim de outono portuguez, o Ega, o
antigo bohemio de batina esfarrapada, trazia uma pelliça, uma sumptuosa
pelliça de principe russo, agasalho de trenò e de neve, ampla, longa, com
alamares trespassados á Brandeburgo, e pondo-lhe em torno do pescoço
esganiçado e dos pulsos de thisico uma rica e fôfa espessura de pelles de
marta.
- É uma boa pelliça, hein? disse elle logo, erguendo-se, abrindo-a,
exhibindo a opulencia do forro. Mandei-a vir pelo Strauss... Beneficios da
epidemia.
- Como podes tu supportar isso?
- É um bocado pesada, mas tenho andado constipado.
Tornou a recostar-se no sophá, adiantando o sapato de verniz muito
bicudo, e, de monocolo no olho, examinou o gabinete.
- E tu que fazes? conta-me lá... Tens isto explendido!
Carlos fallou dos seus planos, de altas idéas de trabalho, das obras do
laboratorio...
- Um momento, quanto te custou tudo isto? exclamou o Ega
interrompendo-o, erguendo-se para ir apalpar o velludo dos reposteiros, mirar
os torneados da secretária de pau preto.
- Não sei. O Villaça é que deve saber...
E Ega, com as mãos enterradas nos vastos bolsos da pelliça, inventariando
o gabinete, fazia considerações:
- O velludo dá seriedade... E o verde escuro é a côr suprema, é a côr
esthetica... Tem a sua expressão propria, enternece e faz pensar... Gosto d'este
divan. Movel de amor...
Foi entrando para a sala dos doentes, de vagar, de luneta no olho,
estudando os ornatos.
- Tu és o grandioso Salomão, Carlos! O papel é bonito... E o cretonesinho
agrada-me.
Apalpou-o tambem. Uma begonia, manchada da sua ferrugem de prata,
n'um vaso de Rouen, interessou-o. Queria saber o preço de tudo; e diante do
piano, olhando o livro de musica aberto, as Canções de Gounod, teve uma
surpreza enternecida:
- Homem, é curioso... Cá me apparece! A Barcarolla! É deliciosa, hein?...
Dites, la jeune belle,
Ou voulez-vous aller?
La voile...
Estou um bocado rouco... Era a nossa canção na Foz!
Carlos teve outra exclamação, e crusando os braços diante d'elle:
- Tu estás extraordinario, Ega! Tu és outro Ega!... A proposito da Foz...
Quem é essa Madame Cohen, que estava tambem na Foz, de quem tu, em
cartas successivas, verdadeiros poemas, que recebi em Berlin, na Haia, em
Londres, me fallavas como os arrobos do Cantico dos Canticos?
Um leve rubor subiu ás faces do Ega. E limpando negligentemente o
monocolo ao lenço de seda branca:
- Uma judia. Por isso usei o lyrismo biblico. É a mulher do Cohen, has de
conhecer, um que é director do Banco Nacional... Démos-nos bastante. É
sympathica... Mas o marido é uma besta... Foi uma flitartion de praia. Voila
tout.
Isto era dito aos bocados, passeiando, puchando o lume ao charuto, e ainda
córado.
- Mas conta-me tu, que diabo, que fazem vocês no Ramalhete? O avô
Affonso? Quem vae por lá?...
No Ramalhete, o avô fazia o seu whist com os velhos parceiros. Ia o D.
Diogo, o decrepito leão, sempre de rosa ao peito, e frisando ainda os bigodes...
Ia o Sequeira, cada vez mais atarracado, a estoirar de sangue, á espera da sua
apoplexia... Ia o conde de Steinbroken...
- Não conheço. Refugiado?... Polaco?...
- Não, ministro da Filandia... Queria-nos alugar umas cocheiras e
complicou esta simples transacção com tantas finuras diplomaticas, tantos
documentos, tantas cousas com o sello real da Filandia, que o pobre Villaça
aturdido, para se desembaraçar, remetteu-o ao avô. O avô, desnorteado
tambem, offereceu-lhe as cocheiras de graça. Steinbroken considera isto um
serviço feito ao rei da Filandia, á Filandia, vae visitar o avô, em grande estado,
com o secretario da legação, o consul, o vice-cousul...
- Isso é sublime!
- O avô convida-o a jantar... E como o homem é muito fino, um
gentleman, enthusiasta da Inglaterra, grande entendedor de vinhos, uma
auctoridade no whist, o avô adopta-o. Não sae do Ramalhete.
- E de rapazes?
De rapazes, apparecia Taveira, sempre muito correcto, empregado agora
no Tribunal de Contas: um Cruges, que o Ega não conhecia, um diabo
adoidado, maestro, pianista, com uma pontinha de genio; o marquez de
Souzellas...
- Não ha mulheres?
- Não ha quem as receba. É um covil de solteirões. A viscondessa,
coitada...
- Bem sei. Um apopleté...
- Sim, uma hemorragia cerebral. Ah, temos tambem o Silveirinha, chegounos
ultimamente o Silveirinha...
- O de Resende, o cretino?
- O cretino. Euviuvou, vem da Madeira, ainda um bocado thisico, todo
carregado de luto... Um funebre.
O Ega, repoltreado, com aquelle ar de tranquilla e solida felicidade que
Carlos já notara, disse puchando lentamente os punhos:
- É necessario reorganisar essa vida. Precisamos arranjar um cenaculo,
uma bohemiasinha dourada, umas soirées de inverno, com arte, com
litteratura... Tu conheces o Craft?
- Sim, creio que tenho ouvido fallar...
Ega teve um grande gesto. Era indispensavel conhecer o Craft! O Craft era
simplesmente a melhor cousa que havia em Portugal...
- É um inglez, uma especie de doido?...
Ega encolheu os hombros. Um doido!... Sim, era essa a opinião da rua dos
Fanqueiros; o indigena, vendo uma originalidade tão forte como a de Craft,
não podia explical-a senão pela doidice. O Craft era um rapaz
extraordinario!... Agora tinha elle chegado da Suecia, de passar tres mezes
com os estudantes de Upsala. Estava tambem na Foz... Uma individualidade
de primeira ordem!
- É um negociante do Porto, não é?
- Qual negociante do Porto! exclamou o Ega erguendo-se, franzindo a
face, enojado de tanta ignorancia. O Craft é filho d'um clergiman da egreja
ingleza do Porto. Foi um tio, um negociante de Calcutá ou d'Australia, um
Nababo, que lhe deixou a fortuna. Uma grande fortuna. Mas não negoceia,
nem sabe o que isso é. Dá largas ao séu temperamento byroneano, é o que faz.
Tem viajado por todo o universo, collecciona obras d'arte, bateu-se como
voluntario na Abyssinia e em Marrocos, emfim vive, vive na grande, na forte,
na heroica accepção da palavra. É necessario conhecer o Craft. Vaes-te babar
por elle... Tens razão, caramba, está calor.
Desembaraçou-se da opulenta pelliça, e appareceu em peitilho de camisa.
- O que! tu não trazias nada por baixo? exclamou Carlos. Nem collete?
- Não; então não a podia aguentar... Isto é para o effeito moral, para
impressionar o indigena... Mas, não ha negal-o, é pesada!
E immediatamente voltou á sua idéa: apenas Craft chegasse do Porto
relacionavam-se, organisava-se um Cenaculo, um Decameron d'arte e
dilletantismo, rapazes e mulheres - tres ou quatro mulheres para cortarem,
com a graça dos decotes, a severidade das philosophias...
Carlos ria-se d'esta idéa do Ega. Tres mulheres de gosto e de luxo, em
Lisboa, para adornar um cenaculo! Lamentavel illusão de um homem de
Celorico! O marquez de Souzella tinha tentado, e para uma vez só, uma cousa
bem mais simples - um jantar no campo com actrizes. Pois fôra o escandalo
mais engraçado e mais caracteristico: uma não tinha creada e queria levar
comsigo para a festa uma tia e cinco filhos; outra temia que, acceitando, o
brazileiro lhe tirasse a mezada; uma consentiu, mas o amante, quando soube,
deu-lhe uma cóça. Esta não tinha vestido para ir; aquella pretendia que lhe
garantissem uma libra; houve uma que se escandalisou com o convite como
com um insulto. Depois, os chulos, os queridos, os pôlhos, complicaram
medonhamente a questão; uns exigiam ser convidados, outros tentavam
desmanchar a festa; houve partidos, fizeram-se intrigas, - emfim esta cousa
banal, um jantar com actrizes, resultou em o Tarquinio do Gymnasio levar
uma facada...
- E aqui tens tu Lisboa.
- Emfim, exclamou o Ega, se não apparecerem mulheres, importam-se,
que é em Portugal para tudo o recurso natural. Aqui importa-se tudo. Leis,
idéas, philosophias, theorias, assumptos, estheticas, sciencias, estylo,
industrias, modas, maneiras, pilherias, tudo nos vem em caixotes pelo paquete.
A civilisação custa-nos carissima com os direitos da alfandega: e é em
segunda mão, não foi feita para nós, fica-nos curta nas mangas... Nós julgamonos
civilisados como os negros de S. Thomé se suppõem cavalheiros, se
suppõem
mesmo brancos, por usarem com a tanga uma casaca velha do patrão... Isto é
uma choldra torpe. Onde puz eu a charuteira?
Desembaraçado da magestade que lhe dava a pelissa o antigo Ega
reapparecia, perorando com os seus gestos aduncos de Mephistopheles em
verve, lançando-se pela sala como se fosse voar ao vibrar as suas grandes
phrases, n'uma lucta constante com o monocolo, que lhe caía do olho, que elle
procurava pelo peito, pelos hombros, pelos rins, retorcendo-se, deslocando-se,
como mordido por bichos. Carlos animava-se tambem, a fria sala aquecia;
discutiam o Naturalismo, Gambetta, o Nihilismo; depois, com ferocidade e á
uma, malharam sobre o paiz...
Mas o relogio ao lado bateu quatro horas; immediatamente Ega saltou
sobre a pelissa, sepultou-se n'ella, aguçou o bigode ao espelho, verificou a
pose, e, encouraçado nos seus alamares, sahio com um arsinho de luxo e
d'aventura.
- John, disse Carlos que o achava esplendido e o ia seguindo ao patamar,
onde estás tu?
- No Universal, esse sanctuario!
Carlos abominava o Universal, queria que elle viesse para o Ramalhete.
- Não me convém...
- Em todo o caso vaes hoje lá jantar, ver o avô.
- Não posso. Estou compromettido com a besta do Cohen... Mas vou lá
ámanhã almoçar.
Já nos degraus da escada, voltou-se, entalou o monocolo, gritou para cima:
- Tinha-me esquecido dizer-te, vou publicar o meu livro!
- O quê! está prompto? exclamou Carlos, espantado.
- Está esboçado, á brocha larga...
O Livro do Ega! Fôra em Coimbra, nos dois ultimos annos, que elle
começára a fallar do seu livro, contando o plano, soltando titulos de capitulos,
citando pelos cafés phrases de grande sonoridade. E entre os amigos do Ega
discutia-se já o livro do Ega como devendo iniciar, pela fórma e pela idéa,
uma evolução litteraria. Em Lisboa (onde elle vinha passar as ferias e dava
ceias no Silva) o livro fôra annunciado como um acontecimento. Bachareis,
contemporaneos ou seus condiscipulos, tinham levado de Coimbra, espalhado
pelas provincias e pelas ilhas a fama do livro do Ega. Já de qualquer modo
essa noticia chegára ao Brazil... E sentindo esta ansiosa espectativa em torno
do seu livro - o Ega decidira-se emfim a escrevel-o.
Devia ser uma epopêa em prosa, como elle dizia, dando, sob episodios
symbolicos, a historia das grandes phases do Universo e da Humanidade.
Intitulava-se Memorias d'um Atomo, e tinha a fórma d'uma autobiographia.
Este atomo (o atomo do Ega, como se lhe
chamava a serio em Coimbra) apparecia no primeiro capitulo, rolando ainda
no vago das Nebuloses primitivas: depois vinha embrulhado, faisca candente,
na massa de fogo que devia ser mais tarde a Terra: emfim, fazia parte da
primeira folha de planta que surgiu da crosta ainda molle do globo. Desde
então, viajando nas incessantes transformações da substancia, o atomo do Ega
entrava na rude structura do Orango, pae da humanidade - e mais tarde vivia
nos labios de Platão. Negrejava no burel dos santos, refulgia na espada dos
heroes, palpitava no coração dos poetas. Gota de agua nos lagos de Galiléa,
ouvira o fallar de Jesus, aos fins da tarde, quando os apostolos recolhiam as
redes; nó de madeira na tribuna da Convenção, sentira o frio da mão de
Robespierre. Errara nos vastos anneis de Saturno; e as madrugadas da terra
tinham-n'o orvalhado, petala resplandecente de um dormente e languido lyrio.
Fôra omnipresente, era omnisciente. Achando-se finalmente no bico da penna
do Ega, e cançado d'esta jornada atravez do Ser, repousava - escrevendo as
suas Memorias... Tal era este formidavel trabalho - de que os admiradores do
Ega, em Coimbra, diziam, pensativos e como esmagados de respeito:
- É uma Biblia!
V
No escriptorio de Affonso da Maia ainda durava, apesar de ser tarde, a
partida de whist. A mesa estava ao lado da chaminé, onde a chamma morria
nos carvões escarlates, no seu recanto costumado, abrigada pelo biombo
japonez, por causa da bronchite de D. Diogo e do seu horror ao ar.
Esse velho dandy, - a quem as damas de outras eras chamavam o «Lindo
Diogo», gentil toureiro que dormira n'um leito real - acabava justamente de ter
um dos seus accessos de tosse, cavernosa, aspera, dolorosa, que o sacudiam
como uma ruina, que elle abafava no lenço, com as veias inchadas, rôxo até á
raiz dos cabellos.
Mas passára. Com a mão ainda tremula, o decrepito leão limpou as
lagrimas que lhe embaciavam os olhos avermelhados, compoz a rosa de
musgo na botoeira da sobrecasaca, tomou um golo da sua agua chasada, e
perguntou a Affonso, seu parceiro, n'uma voz rouca
e surda:
- Paus, hein?
E de novo, sobre o panno verde, as cartas foram cahindo n'um d'aquelles
silencios que se seguiam ás tosses de D. Diogo. Sentia-se só a respiração
assobiada, quasi silvante, do general Sequeira, muito infeliz essa noite,
desesperado com o Villaça seu parceiro, resingão, e com todo o sangue na
face.
Um tom fino retiniu, o relogio Luiz XV foi ferindo alegremente,
vivamente, a meia noite; - depois a toada argentina do seu minuete vibrou um
momento e morreu. Houve de novo um silencio. Uma renda vermelha recobria
os globos de dois grandes candieiros Carcel; e a luz assim coada, cahindo
sobre os damascos vermelhos das paredes, dos assentos, fazia como uma doce
refracção côr de rosa, um vaporoso de nuvem em que a sala se banhava e
dormia: só, aqui e além, sobre os carvalhos sombrios das estantes, rebrilhava
em silencio o ouro d'um Sèvres, uma pallidez de marfim, ou algum tom
esmaltado de velha majolica.
- O que! ainda encarniçados! exclamou Carlos que abrira o reposteiro,
entrava, e com elle o rumor distante de bolas de bilhar.
Affonso, que recolhia a sua vasa, voltou logo a cabeça, a perguntar com
interesse:
- Como vae ella? Está socegada?
- Está muito melhor!
Era a primeira doente grave de Carlos, uma rapariga de origem alsacianna,
casada com o Marcellino padeiro, muito conhecida no bairro pelos seus bellos
cabellos, loiros, e penteados sempre em tranças soltas. Tinha estado á morte
com uma pneumonia; e apesar de
melhor, como a padaria ficava defronte, Carlos ainda ás vezes á noite
atravessava a rua para a ir vêr, tranquillisar o Marcellino, que, defronte do
leito e de gabão pelos hombros, suffocava soluços d'amante, escrevinhando no
livro de contas.
Affonso interessara-se anciosamente por aquella pneumonia; e agora
estava realmente agradecido á Marcellina por ter sido salva por Carlos.
Fallava d'ella commovido; gabava-lhe a linda figura, o aceio alsacianno, a
prosperidade que trouxera á padaria... Para a
convalescença, que se approximava, já lhe mandára até seis garrafas de
Chateau-Margaux.
- Então fóra de perigo, inteiramente fóra de perigo? - perguntou Villaça,
com os dedos na caixa do rapé, sublinhando muito a sua sollicitude.
- Sim, quasi rija - disse Carlos, que se approximara da chaminé,
esfregando as mãos, arrepiado.
É que a noite, fóra, estava regelada! Desde o anoitecer geava, d'um céu
fino e duro, transbordando de estrellas que rebrilhavam como pontas afiadas
d'aço; e nenhum d'aquelles cavalheiros, desde que se entendia, conhecera
jámais o thermometro tão baixo. Sim,
Villaça lembrava-se d'um janeiro peor no inverno de 64...
- É necessario carregar no punch, hein, general! - exclamou Carlos,
batendo galhofeiramente nos hombros macissos do Sequeira.
- Não me opponho, rosnou o outro, que fixava com concentração e rancor
um valete de copas sobre a meza.
Carlos, ainda com frio, remexeu, esfuracou os carvões: uma chuva d'oiro
cahiu por baixo, uma chamma mais forte ressaltou, rugiu, alegrando tudo,
avermelhando em redor as pelles de urso onde o Reverendo Bonifacio,
espapado, torrava ao calor, ronronava de gôso.
- O Ega deve estar radiante, dizia Carlos com os pés á chamma. Tem,
emfim, justificada a pellissa. A proposito, algum dos senhores tem visto o Ega
estes ultimos dias?
Ninguem respondeu, no interesse subito que causava a cartada. A longa
mão de D. Diogo recolhia de vagar a vasa – e languidamente, no mesmo
silencio, soltou uma carta de paus.
- Ó Diogo! ó Diogo! gritou Affonso, estorcendo-se, como se o trespassasse
um ferro.
Mas conteve-se. O general, cujos olhos despediam faiscas, collocou o seu
valete; Affonso, profundamente infeliz, separou-se do rei de paus; Villaça
bateu de estalo com o az. E immediatamente foi em redor uma discussão
tremenda sobre a puchada de D. Diogo – em quanto Carlos, a quem as cartas
sempre enfastiavam, se debruçava a coçar o ventre fofo do veneravel
Reverendo.
- Que perguntavas tu, filho? disse emfim Affonso erguendo-se, ainda
irritado, a buscar tabaco para o cachimbo, sua consolação nas derrotas. O Ega?
Não, ninguem o viu, não tornou a apparecer! Está tambem um bom ingrato,
esse John...
Ao nome do Ega, Villaça, parando de baralhar as cartas, erguera a face
curiosa:
- Então sempre é certo que elle vae montar casa?
Foi Affonso que respondeu, sorrindo e accendendo o cachimbo:
- Montar casa, comprar coupé, deitar libré, dar soirées litterarias, publicar
um poema, o diabo!
- Elle esteve lá no escriptorio, dizia Villaça recomeçando a baralhar.
Esteve lá a indagar o que tinha custado o consultorio, a mobilia de velludo,
etc. O velludo verde deu-lhe no gôto... Eu, como é um amigo da casa, lá lhe
prestei informações, até lhe mostrei as contas. -
E respondendo a uma pergunta do Sequeira: - Sim, a mãe tem dinheiro, e creio
que lhe dá o bastante. Que em quanto a mim, elle vem-se metter na politica.
Tem talento, falla bem, o pae já era muito regenerador... Alli ha ambição.
- Alli ha mulher, disse D. Diogo, collocando com peso esta decisão e
accentuando-a com uma caricia languida á ponta frisada dos bigodes brancos.
Lê-se-lhe na cara, basta vêr-lhe a cara... Alli ha mulher.
Carlos sorria, gabando a penetração de D. Diogo, o seu fino olho á Balzac;
e Sequeira, logo, franco como velho soldado, quis saber quem era a Dulcinea.
Mas o velho dandy declarou, da profundidade da sua experiencia, que essas
cousas nunca se sabiam, e era
preferivel não se saberem. Depois passando os dedos magros e lentos pela
face, deixou cahir d'alto e com condescendencia este juizo:
- Eu gosto do Ega, tem apresentação; sobretudo tem degagè...
Tinham recebido as cartas, fez-se um silencio na meza. O general, vendo o
seu jogo, soltou um grunhido surdo, arrebatou o cigarro do cinzeiro, e puxoulhe
uma fumaça furiosa.
- Os senhores são muito viciosos, vou vêr a gente do bilhar, disse Carlos.
Deixei o Steinbroken engalfinhado com o marquez, a perder já quatro mil réis.
Querem o punch aqui?
Nenhum dos parceiros respondeu.
E em torno do bilhar Carlos encontrou o mesmo silencio de solemnidade.
O marquez, estirado sobre a tabella, com a perna meia no ar, o começo de
calva alvejando á luz crua que cahia dos abat-jours de porcelana, preparava a
carambola decisiva. Cruges, que apostára por elle, deixára o divan, o
cachimbo turco, e, coçando com um gesto nervoso a grenha crespa que lhe
ondeava até á gola do jaquetão, vigiava a bola inquieto, com os olhinhos
piscos, o nariz espetado. Do fundo da sala, destacando em preto, o Silveirinha,
o
Eusebiosinho de Sta. Olavia, estendia tambem o pescoço, affogado n'uma
gravata de viuvo de merino negro e sem collarinho, sempre macambuzio, mais
mollengo que outr'ora, com as mãos enterradas nos bolsos - tão funebre que
tudo n'elle parecia complemento do luto
pesado, até o preto do cabello chato, até o preto das lunetas de fumo. Junto ao
bilhar, o parceiro do marquez, o conde Steinbroken, esperava: e apesar do
susto, da emoção d'homem do norte aferrado ao dinheiro, conservava-se
correcto, encostado ao taco, sorrindo, sem desmanchar a sua linha britanica, -
vestido como um inglez, inglez tradicional d'estampa, com uma sobrecasaca
justa de manga um pouco curta, e largas calças de xadrez sobre sapatões de
tacão raso.
- Hurrah! gritou de repente Cruges. Os dez tostõesinbos para cá,
Silveirinha!
O marquez carambolára, ganhando a partida, e triumphava tambem:
- Você trouxe-me a sorte, Carlos!
Steinbroken depozera logo o taco, e alinhava já sobre a tabella,
lentamente, uma a uma, as quatro placas perdidas.
Mas o marquez, de giz na mão, reclamava-o para outras refregas,
esfaimado d'ouro filandez.
- Nada mach!... Vôcê hoje 'stá têrivêl! dizia o diplomata, no seu portuguez
fluente, mas de accento barbaro.
O marquez insistia, plantado diante d'elle, de taco ao hombro como uma
vara de campino, dominando-o com a sua macissa, desempenada estatura. E
ameaçava-o de destinos medonhos n'uma voz possante habituada a ressoar nas
lezirias; queria-o arruinar ao
bilhar, forçal-o a empenhar aquelles bellos anneis, leval-o elle, ministro da
Filandia e representante d'uma raça de reis fortes, a vender senhas á porta da
Rua dos Condes!
Todos riam; e Steinbroken tambem, mas com um riso franzido e difficil,
fixando no marquez o olhar azul-claro, claro e frio, que tinha no fundo da sua
myopia a dureza d'um metal. Apesar da sua sympathia pela illustre casa de
Souzella, achava estas familiaridades, estas tremendas chalaças, incompativeis
com a sua dignidade e com a dignidade da Filandia. O marquez, porém,
coração d'ouro, abraçava-o já pela cinta, com expansão:
- Então se não quereis mais bilhar, um bocadinho de canto, Steinbroken
amigo!
A isto o ministro accedeu, affavel, preparando-se logo, dando caricias
ligeiras ás suissas, e aos anneis do cabello d'um loiro de espiga desbotada.
Todos os Steinbrokens, de paes a filhos (como elle dissera a Affonso)
eram bons barytonos: e isso trouxera á familia não poucos proventos sociaes.
Pela voz captivara seu pae o velho rei Rudolpho III, que o fizera chefe das
caudelarias, e o tinha noites inteiras nos
seus quartos, ao piano, cantando psalmos lutheranos, coraes escolares, sagas
da Dallecarlia - em quanto o taciturno monarcha cachimbava e bebia, até que
saturado de emoção religiosa, saturado de cerveja preta, tombava do sophá,
soluçando e babando-se. Elle mesmo, Steinbroken, levara parte da sua carreira
ao piano, já como addido, já como segundo secretario. Feito chefe de missão,
absteve-se: foi só quando vio o Figaro celebrar repetidamente as walsas do
principe Artoff, embaixador da Russia em Paris, e a voz de
basso do conde de Baspt, embaixador d'Austria em Londres, que elle,
seguindo tão altos exemplos, arriscou, aqui e alem, em soirées mais intimas,
algumas melodias filandezas. Emfim cantou no Paço. E desde então exerceu
com zelo, com formalidades, com praxes, o
seu cargo de «barytono plenipotenciario,» como dizia o Ega. Entre homens, e
com os reposteiros corridos, Steinbroken não duvidava todavia cantarolar o
que elle chamava «cançonetas brejêras» - o Amant d'Amanda, ou uma certa
ballada ingleza:
On the Serpentine,
Oh my Caroline...
Oh!
Este oh! como elle o expellia, gemido, bem puxado, n'um movimento de
batuque, expressivo e todavia digno... Isto entre rapazes e com os reposteiros
fechados.
N'essa noite, porém, o marquez, que o conduzia pelo braço á sala do piano,
exigia uma d'aquellas canções da Filandia, de tanto sentimento e que lhe
faziam tão bem á alma...
- Uma que tem umas palavrinhas de que eu gosto, frisk, gluzk... La ra lá,
lá, lá!
- A Primavera, disse o diplomata sorrindo.
Mas antes de entrar na sala, o marquez soltou o braço de Steinbroken, fez
um signal ao Silveirinha para o fundo do corredor - e ahi,
sob um sombrio painel de Santa Magdalena no deserto penitenciando-se e
mostrando nudezas ricas de nympha lubrica, interpellou-o
quasi com aspereza:
- Vamos nós a saber. Então, decide-se ou não?
Era uma negociação que havia semanas se arrastava entre elles, a respeito
d'uma parelha d'egoas. Silveirinha nutria o desejo de montar carruagem; e o
marquez procurava vender-lhe umas egoas brancas, a que elle dizia «ter
tomado enguiço, apesar de serem dois
nobres animaes». Pedia por ellas um conto e quinhentos mil réis. Silveirinha
fôra avisado pelo Sequeira, por Travassos, por outros entendedores, que era
uma espiga: o marquez tinha a sua moral propria para negocios de gado, e
exultaria em intrujar um pichote. Apesar de advertido, Eusebio cedendo á
influencia da grossa voz do marquez, da robustez do seu phisico, da
antiguidade do seu titulo, não ousava recusar. Mas hesitava; e n'essa noite deu
a resposta usual de forreta, coçando o queixo, cosido ao muro:
- Eu verei, marquez... Um conto e quinhentos é dinheiro...
O marquez ergueu dois braços ameaçadores como duas trancas:
- Homem, sim ou não! Que diabo... Dois animaes que são duas estampas...
Irra ! Sim ou não!
Eusebio ageitou as lunetas, rosnou:
- Eu verei... Elle é dinheiro. Sempre é dinheiro...
- Queria você, talvez, pagal-as com feijões? Voce leva-me a commetter
um excesso!
O piano resoou, em dois accordes cheios, sob os dedos do Cruges; e o
marquez, baboso por musica, immediatamente largou a questão das egoas,
recolheu em pontas de pés. Eusebiosinho ainda ficou a remoer, a coçar o
queixo; emfim, ás primeiras notas de Steinbroken, veiu pousar como uma
sombra silenciosa entre a hombreira e o reposteiro.
Afastado do piano segundo o seu costume, curvado, com a cabelleira
como pousada ás costas, Cruges feria o acompanhamento, d'olhos cravados no
livro de Melodias Filandezas. Ao lado, empertigado, quasi official, com o
lenço de seda na mão, a mão fincada contra o peito, Steinbroken soltava um
canto festivo, n'um movimento de tarantella triumphante, em que passavam,
como um entrechocar de seixos, esses bocados de palavras de que o marquez
gostava, frisk, slécht, clikst, glukst. Era a Primavera - fresca e silvestre,
primavera do norte em paiz de montanhas, quando toda uma aldêa dança em
córos sob os fuscos abetos, a neve se derrete em cascatas, um sol pallido
avelluda os musgos, e a brisa traz o aroma das resinas... Nos graves e cheios,
as cantoneiras de Steinbroken ruborisavam-se, inchavam. Nos tons agudos
todo elle se ía alçando sobre a ponta dos pés, como levado no compasso vivo;
despegava então a mão do peito, alargava um gesto, as bellas joias dos seus
anneis faiscavam.
O marquez, com as mãos esquecidas nos joelhos, parecia beber o canto.
Na face de Carlos passava um sorriso enternecido pensando em Madame
Rughel, que viajara na Filandia, e cantava ás vezes aquella Primavera nas suas
horas de sentimentalismo flamengo...
Steinbroken soltou um stacato agudo, isolado como uma voz n'um alto, - e
immediatamente, afastando-se do piano, passou o lenço sobre as fontes, sobre
o pescoço, rectificou com um puchão a linha da sobrecasaca, e agradeceu o
acompanhamento ao Cruges n'um silencioso shake-hands.
- Bravo! bravo! berrava o marquez, batendo as mãos como malhos.
E outros applausos resoaram á porta, dos parceiros do whist, que tinham
findado a partida. Quasi immediatamente os escudeiros entravam com um
serviço frio de croquettes e sandwiches, offerecendo St. Emilion ou Porto; e
sobre uma meza, entre os renques de
calices, a puncheira fumegou n'um aroma doce e quente de cognac e limão.
- Então, meu pobre Steinbroken, exclamou Affonso, vindo-lhe bater
amavelmente no hombro, ainda dá d'esses bellos cantos a estes bandidos, que
o maltratam assim ao bilhar?
- Fui essfôladito, si, essfôladito. Agradecido, nô, prefiro um copita Porto...
- Hoje fomos nós as victimas, disse-lhe o general respirando com delicia o
seu punch.
- Você tãbem, meu genêral?
- Sim, senhor, tambem me cascaram...
E que dizia o amigo Steinbroken ás noticias da manhã? perguntava
Affonso. A queda de Mac-Mahon, a eleição de Grevy... O que o alegrava
n'isto, era o desapparecimento definitivo do antipathico senhor de Broglie e da
sua clique. A impertinencia d'aquelle
academico estreito, querendo impôr a opinião de dois ou tres salões
doutrinarios á França inteira, a toda uma Democracia! Ah, o Times cantavalh'as!
- E o Punch? Não viu o Punch? Oh, delicioso!...
O ministro pousara o calice, e esfregando cautelosamente as mãos disse
n'uma meia voz grave a sua phrase, a phrase definitiva com que julgava todos
os acontecimentos que apparecem em telegrammas :
- É gràve... É eqsessivemente gràve...
Depois fallou-se de Gambetta; e como Affonso lhe attribuia uma dictadura
proxima, o diplomata tomou mysteriosamente o braço de Sequeira, murmurou
a palavra suprema com que definia todas as personalidades superiores,
homens d'estado, poetas, viajantes ou tenores.
- É um homè mûto forte. É um homè eqsessivemente forte!
- O que elle é, é um ronha! exclamou o general, escorropichando o seu
calice.
E todos tres deixaram a sala, discutindo ainda a republica - em quanto
Cruges continuava ao piano, vagueando por Mendelsshon e por Choppin,
depois de ter devorado um prato de croquettes.
O marquez e D. Diogo, sentados no mesmo sophá, um com a sua chasada
d'invalido, outro com um copo de St. Emilion, a que aspirava o bouquet,
fallavam tambem de Gambetta. O marquez gostava de Gambetta: fôra o unico
que durante a guerra mostrara ventas de homem; lá que tivesse «comido» ou
que «quizesse comer» como diziam, - não sabia nem lhe importava. Mas era
teso! E o sr. Grevy tambem lhe parecia um cidadão serio, optimo para chefe
do Estado...
Homem de sala? perguntou languidamente o velho leão.
O marquez só o vira na Assembléa, presidindo e muito digno...
D. Diogo murmurou, com um melancolico desdem na voz, no gesto, no
olhar:
- O que eu queria a toda essa canalha era a saude, marquez!
O marquez consolou-o, galhofeiro e amavel. Toda essa gente, parecendo
forte por se occupar de cousas fortes, no fundo tinha asthma, tinha pedra, tinha
gota... E o Dioguinho era um Hercules...
- Um Hercules! O que é, é que você apaparica-se muito... A doença é um
mau habito em que a gente se põe. É necessario reagir... Você devia fazer
gymnastica, e muita agua fria por essa espinha. Você, na realidade, é de ferro!
- Enferrujadote, enferrujadote... - replicou o outro, sorrindo e desvanecido.
- Qual enferrujadote! Se eu fosse cavallo ou mulher, antes o queria a você
que a esses badamecos que por ahi andam meio
podres... Já não ha homens da sua tempera, Dioguinho!
- Já não ha nada, disse o outro grave e convencido, e como o derradeiro
homem nas ruinas d'um mundo.
Mas era tarde, ia-se agasalhar, recolher, depois de acabar a sua chasada. O
marquez ainda se demorou, preguiçando no sophá, enchendo lentamente o
cachimbo, dando um olhar áquella sala que o encantava com o seu luxo Luiz
XV, os seus floridos e os seus
dourados, as cerimoniosas poltronas de Beauvais feitas para a amplidão das
anquinhas, as tapeçarias de Gobelins de tons desmaiados, cheias de galantes
pastoras, longes de parques, laços e lãs de cordeiros, sombras d'idyllios
mortos, transparecendo n'uma trama de seda... Áquella hora, no
adormecimento que ía pesando, sob a luz suave e quente das velas que
findavam, havia ali a harmonia e o ar de um outro seculo: e o marquez
reclamou do Cruges um minuete, uma gavotta, alguma cousa que evocasse
Versalhes, Maria Antonietta, o rythmo das bellas maneiras e o aroma dos
empoados. Cruges deixou morrer sob os dedos a melodia vaga que estava
diluindo em suspiros, preparou-se, alargou os braços - e atacou, com um pedal
solemne, o Hymno da Carta. O marquez fugiu.
Villaça e Euzebiozinho conversavam no corredor, sentados n'uma das
arcas baixas de carvalho lavrado.
- A fazer politica? perguntou-lhes o marquez ao passar.
Ambos sorriram; Villaça respondeu jocosamente:
- É necessario salvar a patria!
Eusebio pertencia tambem ao centro progressista, aspirava a influencia
eleitoral no circulo de Resende, e alli ás noites no Ramalhete faziam
conciliabulos. N'esse momento porém fallavam dos Maias: Villaça não
duvidava confiar ao Silveirinha, homem de propriedade, visinho de Sta.
Olavia, quasi creado com Carlos, certas cousas que lhe desagradavam na casa,
onde a auctoridade da sua palavra parecia diminuir; assim, por exemplo, não
podia approvar o ter Carlos tomado uma frisa de assignatura.
- Para que, exclamava o digno procurador, para que, meu caro senhor?
Para lá não pôr os pés, para passar aqui as noites... Hoje diz que ha
enthusiasmo, e elle ahi esteve. Tem ido lá, eu sei? duas ou tres vezes... E para
isto dá cá uns poucos de centos de mil réis
Podia fazer o mesmo com meia duzia de libras! Não, não é governo. No fim a
frisa é para o Ega, para o Taveira, para o Cruges... Olhe, eu não me utiliso
d'ella; nem o amigo. É verdade, que o amigo está de luto.
Eusebio pensou, com despeito, que se podia metter para o fundo da frisa -
se tivesse sido convidado. E murmurou, sem conter um sorriso molle:
- Indo assim, até se podem encalacrar...
Uma tal palavra, tão humilhante, applicada aos Maias, á casa que elle
administrava, escandalisou Villaça. Encalacrar! Ora essa!
- O amigo não me comprehendeu... Ha despezas inuteis, sim, mas, louvado
Deus, a casa póde bem com ellas! É verdade que o rendimento gasta-se todo,
até o ultimo ceitil; os cheques voam, voam, como folhas seccas; e até aqui o
costume da casa foi pôr de lado, fazer bolo, fazer reserva. Agora o dinheiro
derrete-se...
Eusebio rosnou algumas palavras sobre os trens de Carlos, os nove
cavallos, o cocheiro inglez, os grooms... O procurador acudiu:
- Isso, amigo, é de razão. Uma gente d'estas deve ter a sua representação,
as suas cousas bem montadas. Ha deveres na sociedade... É como o sr.
Affonso... Gasta muito, sim, come dinheiro. Não é com elle, que lhe conheço
aquelle casaco ha vinte annos... Mas são esmolas, são pensões, são
emprestimos que nunca mais vê...
- Desperdicios...
- Não lh'o censuro... É o costume da casa; nunca da porta dos Maias, já
meu pae dizia, sahiu ninguem descontente... Mas uma frisa, de que ninguem
usa! só para o Cruges, só para o Taveira!...
Teve de se callar. Justamente ao fundo do corredor assomava o Taveira,
abafado até aos olhos na gola d'uma ulster, d'onde sahiam as pontas d'um
cachenez de seda clara. O escudeiro desembaraçou-o dos agasalhos; e elle, de
casaca e collete branco, limpando o
bonito bigode humido da geada, veiu apertar a mão ao caro Villaça, ao amigo
Eusebio, arrepiado, mas achando o frio elegante, desejando a neve e o seu
chic...
- Nada, nada, dizia Villaça todo amavel, cá o nosso solzinho portuguez
sempre é melhor...
E foram entrando no fumoir, onde se ouviam as vozes do marquez, de
Carlos, n'uma das suas sabias e prolixas cavaqueiras sobre cavallos e sport.
- Então? que tal? A mulher? foi a interrogação que acolheu o Taveira.
Mas antes de dar noticia da estreia da Morelli, a dama nova, Taveira
reclamou alguma cousa quente. E enterrado n'uma poltrona junto do fogão,
com os sapatos de verniz estendidos para as brazas, respirando o aroma do
punch, saboreando uma cigarette, declarou emfim que não tinha sido um
fiasco.
- Que ella, a meu vêr, é uma insignificancia, não tem nada, nem voz, nem
escola. Mas, coitada, estava tão atrapalhada, que nos fez pena. Houve
indulgencia, deram-se-lhe umas palmas... Quando fui ao palco, ella estava
contente...
- Vamos a saber, Taveira, que tal é ella? inquiria o marquez.
- Cheia, dizia o Taveira collocando as palavras como pinceladas; alta;
muito branca; bons olhos; bons dentes...
- E o pésinho? - E o marquez, já com os olhos accesos, passava de vagar a
mão pela calva.
Taveira não reparara no pé. Não era amador de pés...
- Quem estava? perguntou Carlos, indolente e bocejando.
- A gente do costume... É verdade, sabes quem tomou a frisa ao lado da
tua? Os Gouvarinhos. Lá appareceram hoje...
Carlos não conhecia os Gouvarinhos. Em redor explicaram-lhe: o conde de
Gouvarinho, o par do reino, um homem alto, de lunetas, poseur... E a
condessa, uma senhora inglesada, de cabello côr de cenoura, muito bem feita...
Emfim, Carlos não conhecia.
Villaça encontrava o conde no centro progressista, onde elle era uma
columna do partido. Rapaz de talento, segundo o Villaça. O que o espantava é
que elle podesse ter assim frisa de assignatura, atrapalhado como estava: ainda
não havia tres mezes lhe tinham
protestado uma letra de oitocentos mil réis, no tribunal do commercio...
- Um asno, um caloteiro! disse o marquez com nojo.
- Passa-se lá bem, ás terças feiras... - disse Taveira, mirando a sua meia de
seda.
Depois fallou-se do duello do Azevedo da Opinião com o Sá Nunes,
auctor d'El-Rei Bolacha, a grande magica da Rua dos Condes, e ultimamente
ministro da marinha: tinham-se tratado furiosamente nos jornaes de pulhas e
de ladrões: e havia dez interminaveis dias que estavam desafiados e que
Lisboa, em pasmaceira, esperava o sangue. Cruges ouvira que Sá Nunes não
se queria bater, por estar de luto por uma tia; dizia-se tambem que o Azevedo
partira precipitadamente para o Algarve. Mas a verdade, segundo Villaça, era
que o ministro do reino, primo do Azevedo, para evitar o recontro, conservava
a casa dos dois cavalheiros bloqueada pela policia...
- Uma canalha! exclamou o marquez com um dos seus resumos brutaes
que varriam tudo.
- O ministro não deixa de ter razão, observou Villaça. Isto ás vezes, em
duellos, póde bem succeder uma desgraça...
Houve um curto silencio. Carlos, que caía de somno, perguntou ao
Taveira, atravez doutro bocejo, se vira o Ega no theatro.
- Podera! La estava de serviço, no seu posto, na frisa dos Cohens, todo
puxado...
- Então essa cousa do Ega com a mulher do Cohen, disse o marquez,
parece clara...
- Transparente, diaphana! um crystal!...
Carlos, que se erguera a accender uma cigarette para despertar, lembrou
logo a grande maxima de D. Diogo: essas cousas nunca se sabiam, e era
preferivel não se saberem! Mas o marquez, a isto, lançou-se em considerações
pesadas. Estimava que o Ega se atirasse; e
via ahi um facto de represalia social, por o Cohen ser judeu e banqueiro. Em
geral não gostava de judeus; mas nada lhe ofendia tanto o gosto e a razão
como a especie banqueiro. Comprehendia o salteador de clavina, n'um
pinheiral; admittia o communista, arriscando a
pelle sobre uma barricada. Mas os argentarios, os Fulanos e Cas. faziam-n'o
encavacar... E achava que destruir-lhes a paz domestica era acto meritorio!
- Duas horas e um quarto! exclamou Taveira, que olhara o relogio. E eu
aqui, empregado publico, tendo deveres para com o Estado, logo ás dez horas
da manhã.
- Que diabo se faz no tribunal de contas? perguntou Carlos. Joga-se?
Cavaquea-se?
- Faz-se um bocado de tudo, para matar tempo... Até contas!
Affonso da Maia já estava recolhido. Sequeira e Steinbroken tinham
partido; e D. Diogo, no fundo da sua velha traquitana, lá fôra tambem a tomar
ainda gemada, a pôr ainda o emplastro, sob o olho solicito da Margarida, sua
cozinheira e seu derradeiro amor. E os
outros não tardaram a deixar o Ramalhete. Taveira, de novo sepultado na
ulster, trotou até casa, uma vivendasinha perto com um bonito jardim. O
marquez conseguiu levar Cruges no coupé, para lhe ir fazer musica a casa, no
orgão, até ás tres ou quatro horas, musica religiosa e triste, que o fazia chorar,
pensando nos seus amores e comendo frango frio com fatias de salame. E o
viuvo, o Eusebiosinho, esse, batendo o queixo, tão morosa e soturnamente
como se caminhasse para a sua propria sepultura, lá se dirigiu ao lupanar onde
tinha uma paixão.
O laboratorio de Carlos estava prompto - e muito convidativo, com o seu
soalho novo, fornos de tijolo fresco, uma vasta meza de marmore, um amplo
divan de clina para o repouso depois das grandes descobertas, e em redor, por
sobre peanhas e prateleiras, um
rico brilho de metaes e crystaes; mas as semanas passavam, e todo esse bello
material de experimentação, sob a luz branca da claraboia, jazia virgem e
ocioso. Só pela manhã um servente ia ganhar o seu tostão diario, dando lá uma
volta preguiçosa com um espanador na mão.
Carlos realmente não tinha tempo de se occupar do laboratorio; e deixaria
a Deus mais algumas semanas o privilegio exclusivo de saber o segredo das
cousas - como elle dizia rindo ao avô. Logo pela manhã cedo ía fazer as suas
duas horas d'armas com o velho Randon; depois via alguns doentes no bairro
onde se espalhara, com um brilho de legenda, a cura da Marcellina - e as
garrafas de Bordeus que lhe mandara Affonso. Começava a ser conhecido
como medico. Tinha visitas no consultorio - ordinariamente bachareis, seus
contemporaneos, que sabendo-o rico o consideravam gratuito, e lá entravam,
murchos e com má cara, a contar a velha e mal disfarçada historia de ternuras
funestas. Salvara d'um garrotilho a filha d'um brazileiro, ao Aterro - e ganhara
ahi a sua primeira libra, a primeira que pelo seu trabalho ganhava um homem
da sua familia. O dr. Barbedo convidara-o a assistir a uma operação
ovariotomica. E emfim (mas esta consagração não a esperava realmente
Carlos tão cedo) alguns dos seus bons collegas, que até ahi, vendo-o só a
governar os seus cavallos inglezes, fallavam do «talento do Maia» - agora
percebendo-lhe estas migalhas de clientella, começavam a dizer «que o Maia
era um asno.» Carlos já fallava a serio da sua carreira. Escrevera, com
laboriosos requintes d'estylista, dois artigos
para a Gazeta Medica; e pensava em fazer um livro d'idéas geraes, que se
devia chamar Medicina Antiga e Moderna. De resto occupava-se sempre dos
seus cavallos, do seu luxo, do seu bric-a-brac. E atravez de tudo isto, em
virtude d'essa fatal dispersão de curiosidade que, no meio do caso mais
interessante de pathologia, lhe fazia voltar a cabeça, se ouvia fallar d'uma
estatua ou d'um poeta, attrahia-o singularmente a antiga idéa do Ega, a creação
d'uma Revista, que dirigisse o gosto, pezasse na politica, regulasse a
sociedade, fosse a força pensante de Lisboa...
Era porém inutil lembrar ao Ega este bello plano. Abria um olho vago,
respondia:
- Ah, a Revista... Sim, está claro, pensar n'isso! Havemos de fallar, eu
apparecerei...
Mas não apparecia no Ramalhete, nem no consultorio; apenas se
avistavam, ás vezes, em S. Carlos, onde o Ega, todo o tempo que não passava
no camarote dos Cohens, vinha invariavelmente refugiar-se no fundo da frisa
de Carlos, por trás de Taveira ou do Cruges;
d'onde podesse olhar de vez em quando Rachel Cohen - e ali ficava,
silencioso, com a cabeça appoiada ao tabique, repousando e como saturado de
felicidade...
O dia (dizia elle) tinha-o todo tomado: andava procurando casa, andava
estudando mobilias... Mas era facil encontral-o pelo Chiado e pelo Loreto, a
rondar e a farejar - ou então no fundo de tipoias de praça, batendo a meio
galope, n'um espalhafato de
aventura.
O seu dandysmo requintava; arvorara, com o desplante soberbo d'um
Brummel, casaca de botões amarellos sobre collete de setim branco; e Carlos
entrando uma manhã cedo no Universal, deu com elle pallido de colera, a
despropositar com um creado, por causa d'uns sapatos mal envernisados. Os
seus companheiros constantes, agora, eram um Damaso Salcede, amigo do
Cohen, e um primo da Rachel Cohen, mocinho imberbe, d'olho esperto e duro,
já com ares de emprestar a trinta por cento.
Entre os amigos, no Ramalhete, sobretudo na frisa, discutia-se ás vezes
Rachel, e as opiniões discordavam. Taveira achava-a «deliciosa!» - e dizia-o
rilhando o dente: ao marquez não deixava de parecer appetitosa, para uma vez,
aquella carnezinha faisandée de
mulher de trinta annos: Cruges chamava-lhe uma «lambisgoia relamboria».
Nos jornaes, na secção do High-life, ella era «uma das nossas primeiras
elegantes»: e toda a Lisboa a conhecia, e a sua luneta d'ouro presa por um fio
d'ouro, e a sua caleche azul com cavallos
pretos. Era alta, muito pallida, sobre tudo ás luzes, delicada de saude, com um
quebranto nos olhos pisados, uma infinita languidez em toda a sua pessoa, um
ar de romance e de lyrio meio murcho: a sua maior belleza estava nos
cabellos, magnificamente negros,
ondeados, muito pesados, rebeldes aos ganchos, e que ella deixava habilmente
cahir n'uma massa meia solta sobre as costas, como n'um desalinho de nudez.
Dizia-se que tinha litteratura, e fazia phrases. O seu sorriso lasso, pallido,
constante, dava-lhe um ar de
insignificancia. O pobre Ega adorava-a.
Conhecera-a na Foz, na Assembléa; n'essa noite, cervejando com os
rapazes, ainda lhe chamou camelia melada; dias depois já adulava o marido; e
agora esse demagogo, que queria o massacre em massa das classes medias,
soluçava muita vez por causa d'ella, horas inteiras, cahido para cima da cama.
Em Lisboa, entre o Gremio o a Casa Havaneza, já se começava a fallar
«do arranjinho do Ega». Elle todavia procurava pôr a sua felicidade ao abrigo
de todas as suspeitas humanas. Havia nas suas complicadas precauções tanta
sinceridade como prazer romantico
do mysterio: e era nos sitios mais desageitados, fóra de portas, para os lados
do Matadouro, que ia furtivamente encontrar a creada que lhe trazia as cartas
d'ella... Mas em todos os seus modos (mesmo no disfarce affectado com que
espreitava as horas) transbordava a immensa vaidade d'aquelle adulterio
elegante. De resto sentia bem que os seus amigos conheciam a gloriosa
aventura, o sabiam em pleno drama: era mesmo talvez por isso, que, diante de
Carlos e dos outros, nunca até ahi mencionara o nome d'ella, nem deixara
jámais escapar um lampejo de exaltação.
Uma noite, porém, acompanhando Carlos até ao Ramalhete, noite de lua
calma e branca, em que caminhavam ambos callados, Ega, invadido decerto
por uma onda interior de paixão, soltou desabafadamente um suspiro, alargou
os braços, declamou com os olhos no astro, um tremor na voz:
Oh! laisse-toi donc aimer, oh! l'amour c'est la vie!
Isto fugira-lhe dos labios como um começo de confissão; Carlos ao lado
não disse nada, soprou ao ar o fumo do charuto.
Mas Ega sentiu-se decerto ridiculo, porque se calmou, refugiou-se
immediatamente no puro interesse litterario:
- No fim de contas, menino, digam lá o que disserem, não ha senão o velho
Hugo...
Carlos, comsigo, lembrava furores naturalistas do Ega, rugindo contra
Hugo, chamando-lhe «saco-roto de espiritualismo», «boca-aberta de sombra»,
«avôsinho lyrico», injurias peiores.
Mas n'essa noite o grande phraseador continuou:
- Ah o velho Hugo! o velho Hugo é o campeão heroico de verdades
eternas... É necessario um bocado d'ideal, que diabo!... De resto o ideal póde
ser real...
E foi, com esta palinodia, acordando os silencios do Aterro.
Dias depois Carlos, no consultorio, acabava de despedir um doente, um
Viegas, que todas as semanas vinha alli fazer a fastidiosa chronica da sua
dyspepsia - quando do reposteiro da sala d'espera lhe surgiu o Ega, de
sobrecasaca azul, luva gris-perle e um rolo de papel na mão.
- Tens que fazer, doutor?
- Não, ía a sahir, janota!
- Bem. Venho-te impingir prosa... Um bocado do Atomo... Senta-te ahi.
Ouve lá.
Immediatamente abancou, afastou papeis e livros, desenrolou o
manuscripto, espalmou-o, deu um puxão ao collarinho - e Carlos, que se
pousara á borda do divan, com a face espantada e as mãos nos joelhos, achouse
quasi sem transição transportado dos rugidos
do ventre do Viegas para um rumor de populaça, n'um bairro de judeus, na
velha cidade de Heidelberg.
- Mas espera lá! exclamou elle. Deixa-me respirar. Isso não é o começo do
livro! Isso não é o cahos...
Ega então recostou-se, desabotoou a sobrecasaca, respirou tambem.
- Não, não é o primeiro episodio... Não é o cahos. É já no seculo XV...
Mas n'um livro d'estes póde-se começar pelo fim... Conveiu-me fazer este
episodio: chama-se a Hebrea.
A Cohen! pensou Carlos.
Ega tornou a alargar o collarinho - e foi lendo, animando-se, ferindo as
palavras para as fazer viver, soltando grandes cheios de voz nas sonoridades
finaes dos periodos. Depois da sombria pintura d'um bairro medival de
Heidelberg, o famoso Atomo, o Atomo do Ega,
apparecia alojado no coração do esplendido principe Franck, poeta, cavalleiro,
e bastardo do imperador Maximiliano. E todo esse coração de heroe palpitava
pela judia Esther, perola maravilhosa do Oriente, filha do velho rabbino
Salomão, um grande doutor da Lei, perseguido pelo odio theologico do Geral
dos Dominicanos.
Isto contava-o o Atomo n'um monologo, tão recamado d'imagens como
um manto da Virgem está recamado d'estrellas - e que era uma declaração
d'elle, Ega, á mulher do Cohen. Depois abria-se um intermedio pantheista:
rompiam coros de flores, coros de astros,
cantando na linguagem da luz, ou na eloquencia dos perfumes, a belleza, a
graça, a pureza, a alma celeste de Esther - e de Rachel... Emfim, chegava o
negro drama da perseguição: a fuga da familia hebraica, atravéz de bosques de
bruxas e brutas aldêas feudaes; a apparição, n'uma encrusilhada, do principe
Franck que vem proteger Esther, de lança alta, no seu grande corcel; o tropel
da turba fanatica, correndo a queimar o rabbino e os seus livros herejes; a
batalha, e o principe atravessado pelo chuço d'um reitre, indo morrer no peito
d'Esther, que morre com elle n'um beijo. Tudo isto se precipitava como um
sonoro e tumultuoso soluço; e era tratado com as maneiras modernas d'estylo,
o esforço atormentado inchando a expressão, as camadas de côr atiradas á
larga para fazer ressaltar o tom de vida...
Ao findar o Atomo exclamava, com a vasta solemnidade d'um cheio
d'orgão: - «assim arrefeceu, parou, aquelle coração de heroe que eu habitava; e
evaporado o principio de vida, eu, agora livre, remontei aos astros, levando
comigo a essencia pura d'esse amor
immortal.»
- Então?... disse Ega, esfalfado, quasi tremulo.
Carlos só poude responder:
- Está ardente.
Depois elogiou a serio alguns lances, o coro das florestas, a leitura do
Ecclesiastes, de noite, entre as ruinas da torre d'Othon, certas imagens d'um
grande vôo lyrico.
Ega, que tinha pressa, como sempre, enrolou o manuscripto, reabotoou a
sobrecasaca, e já de chapéu na mão:
- Então, parece-te apresentavel?...
- Vaes publicar?
- Não, mas emfim... - e ficou n'esta reticencia, fazendo-se corado.
Carlos comprehendeu tudo dias depois, encontrando na Gazeta do Chiado
uma descripção «da leitura feita em casa do exmo. sr. Jacob Cohen, pelo nosso
amigo João da Ega, de um dos mais brilhantes episodios do seu livro - As
memorias d'um atomo.» E o
jornalista accrescentava, dando a sua impressão pessoal: «é uma pintura dos
soffrimentos porque passaram, nos tempos da intolerancia religiosa, aquelles
que seguem a Lei d'Israel. Que poder de imaginação! Que fluencia d'estylo! O
effeito foi extraordinario, e quando o
nosso amigo fechou o manuscripto ao succumbir da protagonista - vimos
lagrimas em todos os olhos da numerosa e estimavel colonia hebraica!»
Oh, furor do Ega! Rompeu n'essa tarde pelo consultorio, pallido,
desorientado...
- Estas bestas! Estas bestas d'estes jornalistas! Leste? Lagrimas em todos
os olhos da numerosa e estimavel colonia hebraica! Faz cahir a cousa em
ridiculo... E depois a fluencia d'estylo. Que burros! Que idiotas!
Carlos, que cortava as folhas d'um livro, consolou-o. Aquella era a
maneira nacional de fallar d'obras d'arte... Não valia a pena
bramar...
- Não, palavra, tinha vontade de quebrar a cara áquelle folliculario!
- E porque lh'a não quebras?
- É um amigo dos Cohens.
E foi grunhindo improperios contra a imprensa, a passos de tigre pelo
gabinete. Por fim irritado com a indifferença de Carlos:
- Que diabo estás tu ahi a ler? Nature parasitaire des accidents de
l'impaludisme... Que blague, a medicina! Dize-me uma cousa. Que diabo
serão umas picadas que me veem aos braços, sempre que vou a adormecer?...
- Pulgas, bichos, vermina... - murmurou Carlos com os olhos no livro.
- Animal! rosnou Ega, arrebatando o chapéu.
- Vaes-te, John?
- Vou, tenho que fazer! - E junto do reposteiro, ameaçando o céu com o
guarda-chuva, chorando quasi de raiva: - Estes burros d'estes jornalistas! São a
escoria da sociedade!
D'ahi a dez minutos reappareceu, bruscamente: e já com outra voz, n'um
tom de caso serio:
- Ouve cá. Tinha-me esquecido. Tu queres ser apresentado aos
Gouvarinhos?
- Não tenho um interesse especial, respondeu Carlos, erguendo os olhos do
livro, depois de um silencio. Mas não tenho tambem uma repugnancia
especial.
- Bem, disse Ega. Elles desejam conhecer-te, sobretudo a condessa faz
empenho... Gente intelligente, passa-se lá bem... Então, decidido.! Terça feira
vou-te buscar ao Ramalhete, e vamo-nos gouvarinhar.
Carlos ficou pensando n'aquella proposta do Ega, na maneira como elle
sublinhára o empenho da condessa. Lembrava-se agora que ella era muito
intima da Cohen: e ultimamente, em S. Carlos, n'aquella facil visinhança de
frisa, surprehendera certos olhares d'ella... Mesmo, segundo o Taveira, ella
realmente fazia-lhe um olhão. E Carlos achava-a picante, com os seus cabellos
crespos e ruivos, o narizinho petulante, e os olhos escuros, d'um grande brilho,
dizendo mil cousas. Era deliciosamente bem feita - e tinha uma pelle muito
clara, fina e doce á vista, a que se sentia mesmo de longe o setim.
Depois d'aquelle dia tristônho de aguaceiros, elle resolvera passar um bom
serão de trabalho, ao canto do fogão, no conforto do seu robe-de-chambre.
Mas, ao café, os olhos da Gouvarinho começaram a faiscar-lhe por entre o
fumo do charuto, a fazer-lhe um olhão, collocando-se tentadoramente entre
elle a sua noite d'estudo, pondo-lhe nas veias um vivo calor de mocidade...
Tudo culpa do Ega, esse Mephistopheles de Celorico!
Vestiu-se, foi a S. Carlos. Ao sentar-se porém á boca da frisa, preparado,
de collete branco e perola negra na camisa, - em logar dos cabellos crespos e
ruivos, avistou a carapinha retinta de um preto, um preto de doze annos,
trombudo e lusidio, de grande
collarinho á mamã sobre uma jaqueta de botões amarellos; ao lado outro preto,
mais pequeno, com o mesmo uniforme de collegio, enterrava pela venta aberta
o dedo calçado de pellica pranca. Ambos elles lhe relancearam os olhos
bogalhudos, côr de prata embaciada. A pessoa que os acompanhava,
escondida para o fundo, parecia ter um catharro ascoroso.
Dava-se a Lucia em beneficio, com a segunda dama. Os Cohens não
tinham vindo - nem o Ega. Muitos camarotes estavam desertos, em toda a
tristeza do seu velho papel vermelho. A noite chuviscosa, com um bafo de
sudoeste, parecia penetrar alli, derramando o seu pesadume, a morna sensação
da sua humidade. Nas cadeiras, vasias, havia uma mulher solitaria, vestida de
setim claro; Edgardo e Lucia desafinavam; o gaz dormia, e os arcos das
rebecas, sobre as cordas, pareciam ir adormecendo tambem.
- Isto está lugubre, disse Carlos ao amigo Cruges, que occupava o escuro
da frisa.
Cruges, amodorroado n'um accesso de spleen, com o cotovello sobre as
costas da cadeira, os dedos por entre a cabelleira, todo elle embrulhado em
crepes sobrepostos de melancolia, respondeu, como do fundo d'um sepulchro:
- Pesadote.
Por indolencia, Carlos ficou. E pouco a pouco, aquelle preto de que os
seus olhos se não podiam despegar, alli enthronisado na poltrona de reps verde
da Gouvarinho, com a manga da jaqueta plantada no rebordo onde costumava
alvejar um lindo braço, - foi-lhe arrastando, a seu pesar, a imaginação para a
pessoa d'ella; relembrou toilettes com que ella alli estivera; e nunca lhe
pareceram tão picantes, como agora que os não via, os seus cabellos ruivos,
côr de braza ás luzes, d'um encrespado forte, como crestados da chamma
interna. A carapinha do preto, essa, em logar de risca tinha um sulco cavado á
thesoura na massa de lã espessa. Quem seriam, por que estavam alli, aquelles
africanos de perfil trombudo?
- Tu já reparaste n'esta extraordinaria carapinha, Cruges?
O outro, que se não mexera da sua attitude de estatua tumular, grunhiu da
sombra um monossyllabo surdo.
Carlos respeitou-lhe os nervos.
De repente, ao desafinar mais aspero d'um coro, Cruges deu um salto.
- Isto só a pontapé... Que empreza esta! rugio elle, envergando
furiosamente o paletot.
Carlos foi leval-o no coupé á rua das Flores, onde elle morava com a mãe
e uma irmã; e até ao Ramalhete não cessou de lamentar comsigo o seu serão
d'estudo perdido.
O creado de Carlos, o Baptista, (familiarmente, o Tista) esperava-o, lendo
o jornal, na confortavel antecamara dos «quartos do menino», forrada de
velludo cor de cereja, ornada de retratos de cavallos e panoplias de velhas
armas, com divans do mesmo velludo, e muito allumiada a essa hora por dois
candieiros de globo pousados sobre columnas de carvalho, onde se enrolavam
lavores de ramos de vide.
Carlos tinha desde os onze annos este creado de quarto, que viera com o
Brown para Sta. Olavia, depois de ter servido em Lisboa, na Legação ingleza,
e ter acompanhado o ministro, sir Hercules Morrisson, varias vezes a Londres.
Foi em Coimbra, nos Paços de
Cellas, que Baptista começou a ser um personagem: Affonso correspondia-se
com elle de Sta. Olavia. Depois viajou com Carlos; enjoaram nos mesmos
paquetes, partilharam dos mesmos sandwiches no buffete das gares; Tista
tornou-se um confidente. Era hoje um
homem de cincoenta annos, desempenado, robusto, com um collar de barba
grisalha por baixo do queixo, e o ar excessivamente gentleman. Na rua, muito
direito na sua sobrecasaca, com o par de luvas amarellas espetado na mão, a
sua bengala de cana da India, os sapatos bem envernisados, tinha a
consideravel apparencia de um alto funccionario. Mas conservava-se tão fino
e tão desembaraçado, como quando em Londres aprendera a walsar e a boxar
na rude balburdia dos salões-dançantes, ou como quando mais tarde, durante
as ferias de Coimbra, acompanhava Carlos a Lamego e o ajudava a saltar o
muro do quintal do sr. escrivão de fazenda - aquelle que tinha uma mulher tão
garota.
Carlos foi buscar um livro ao gabinete d'estudo, entrou no quarto,
estendeu-se, cansado, n'uma poltrona. Á luz opalina dos globos, o leito entreaberto
mostrava, sob a seda dos cortinados, um luxo effeminado de bretanhas,
bordados e rendas.
- Que ha hoje no Jornal da Noite? perguntou elle bocejando, em quanto
Baptista o descalçava.
- Eu li-o todo, meu senhor, e não me pareceu que houvesse cousa alguma.
Em França continúa socego... Mas a gente nunca póde saber, porque estes
jornaes portuguezes imprimem sempre os nomes estrangeiros errados.
- São umas bestas. O sr. Ega hoje estava furioso com elles...
Depois, em quanto Baptista preparava com esmero um grog quente, Carlos
já deitado, aconchegado, abriu preguiçosamente o livro, voltou duas folhas,
fechou-o, tomou uma cigarette, e ficou fumando com as palpebras cerradas,
n'uma immensa beatitude. Atravéz das cortinas pesadas sentia-se o sudoeste
que batia o arvoredo, e os aguaceiros alagando os vidros.
- Tu conheces os srs. condes de Gouvarinho, Tista?
- Conheço o Pimenta, meu senhor, que é creado de quarto do sr. conde...
Creado de quarto e serve a meza.
- E que diz então esse Tormenta? perguntou Carlos, n'uma voz indolente,
depois d'um silencio.
- Pimenta, meu senhor! O Manuel é Pimenta. O sr. Gouvarinho chama-lhe
Romão, por que estava acostumado ao outro creado que era Romão. E já isto
não é bonito, porque cada um tem o seu nome. O Manuel é Pimenta. O
Pimenta não está contente...
E Baptista, depois de collocar junto da cabeceira a salva com o grog, o
assucareiro, as cigarettes, transmittiu as revelações do Pimenta. O conde de
Gouvarinho, além de muito massador e muito pequinhento, não tinha nada de
cavalheiro: dera um fato de cheviot claro ao Romão (ao Pimenta), mas tão
coçado e tão cheio de riscas de tinta, de limpar a penna á perna e ao hombro,
que o Pimenta deitou o presente fóra. O conde e a senhora não se avam bem:
já no tempo do Pimenta, uma occasião, á mesa, tinham-se pegado de tal modo
que ella agarrou do copo e do prato, e esmigalhou-os no chão. E outra
qualquer teria feito o mesmo; por que o sr. conde, quando começava a repisar,
a remoer, não se podia aturar. As questões eram sempre por causa de dinheiro.
O Tompson velho estava farto de abrir os cordões á bolsa...
- Quem é esse Tompson velho, que nos apparece agora, a esta hora da
noite? perguntou Carlos, a seu pesar interessado.
- O Tompson velho é o pae da sr.ª condessa. A sr.ª condessa era uma miss
Tompson, dos Tompson do Porto... O sr. Tompson não tem querido
ultimamente emprestar nem mais um real ao genro: de sorte que, uma vez, já
no tempo do Pimenta tambem, o sr. conde, furioso, disse á senhora que ella e
o pae se deviam lembrar que eram gente de commercio e que fora elle que
fizera d'ella uma condessa; e com perdão de v. ex.ª, a senhora condessa ali
mesmo á mesa mandou o condado á tabúa... Estas cousas não estão no genero
do Pimenta.
Carlos bebeu um gole de grog. Bailava-lhe nos labios uma pergunta, mas
hesitava. Depois reflectiu na puerilidade de tão rigidos escrupulos, a respeito
d'uma gente, que ao jantar, diante do escudeiro, quebrava a porcelana,
mandava á tabua o titulo dos antepassados. E perguntou:
- Que diz o sr. Pimenta da senhora condessa, Baptista? Ella diverte-se?
- Creio que não, meu senhor. Mas a creada de confiança d'ella, uma
escosseza, essa é desobstinada. E não fica bem á senhora condessa ser assim
tão intima com ella...
Houve um silencio no quarto, a chuva cantou mais forte nos vidros.
- Passando a outro assumpto, Baptista. Vamos a saber, ha quanto tempo,
não escrevo eu a madame Rughel?
Baptista tirou do bolso interior da sua casaca um livro de apontamentos,
aproximou-se da luz, encavalou a luneta no nariz, e verificou, com methodo,
estas datas: - «Dia 1 de janeiro, telegramma expedido com felicitações do
começo d'anno a madame Rughel,
Hotel d'Albe, Champs Élyseés, Paris. Dia 3, telegramma recebido de madame
Rughel, reciprocando comprimentos, exprimindo amizade, annunciando
partida para Hamburgo. Dia 15, carta lançada ao correio, para madame
Rughel, William-Strasse, Hamburgo, Allemagne. Depois - mais nada. De
modo que havia já cinco semanas que o menino não escrevia a madame
Rughel...
- É necessario escrever ámanhã, disse Carlos.
Baptista tomou uma nota.
Depois, entre uma fumaça languida, a voz de Carlos ergueu-se de novo na
paz dormente do quarto:
- Madame Rughel era muito bonita, não é verdade, Baptista? É a mulher
mais bonita que tu tens visto na tua vida!
O velho creado metteu o livro no bolso da casaca, e respondeu, sem
hesitar, muito certo de si:
- Madame Rughel era uma senhora de muita vista. Mas a mulher mais
linda em que tenho posto os olhos, se o menino dá licença,
era aquella senhora do coronel de hussards que vinha ao quarto do hotel em
Vienna.
Carlos atirou a cigarette para a salva - e escorregando pela roupa abaixo,
todo invadido por uma onda de recordações alegres, exclamou da
profundidade do seu conforto, no antigo tom de emphase bohemia dos Paços
de Cellas.
- O sr. Baptista não tem gosto nenhum! Madame Rughel era uma nympha
de Rubens, senhor! Madame Rughel tinha o explendor d'uma deusa da
Renascença, senhor! Madame Rughel devia ter dormido no leito imperial de
Carlos Quinto... - Retire-se, senhor!
Baptista entalou mais o couvre-pieds, relanceou pelo quarto um olhar
solicito, e, contente da ordem em que as cousas adormeciam, saíu, levando o
candieiro. Carlos não dormia: e não pensava na coronela de hussards, nem em
madame Rughel. A figura que no escuro dos cortinados lhe apparecia, n'um
vago dourado que provinha do reflexo de seus cabellos soltos, era a
Gouvarinho - a Gouvarinho que não tinha o explendor d'uma deusa da
Renascença como madame Rughel, nem era a mulher mais linda em que
Baptista pozera os seus olhos como a coronela de hussards: mas, com o seu
nariz petulante e a sua boca grande, brilhava mais e melhor que todas na
imaginação de Carlos - porque elle esperara-a essa noite e ella não tinha
apparecido.
Na terça-feira promettida Ega não veiu buscar Carlos para se irem
gouvarinhar. E foi Carlos que d'ahi a dias, entrando como por acaso no
Universal, perguntou rindo ao Ega:
- Então quando nos gouvarinhamos?
N'essa noite, em S. Carlos, n'um entre-acto dos Huguenotes, Ega
apresentou-o ao Sr. conde de Gouvarinho, no corredor das frizas. O conde,
muito amavel, lembrou logo que já tivera, mais de uma vez, o prazer de passar
pela porta de Sta. Olavia, quando ía vêr os seus velhos amigos, os Tedins, a
Entre-Rios - uma formosa vivenda tambem. Fallaram então do Douro, da
Beira, compararam outras paisagens. Para o conde, nada havia, no nosso
Portugal, como os campos do Mondego: mas a sua parcialidade era perdoavel,
pois n'esses ferteis vales nascera e se creara: e fallou um momento de
Formozelha, onde tinha casa, onde vivia edosa e doente sua mãe, a sr.ª
condessa viuva...
Ega, que affectara beber as palavras do conde, começou então uma
controversia, sustentando como se se tratasse dos dogmas d'uma fé, a belleza
superior do Minho, «esse paraiso idillico.» O conde sorria: via ali, como elle
observou a Carlos, batendo amavelmente no hombro do Ega, a rivalidade das
duas provincias. Emulação fecunda, de resto, no seu pensar...
- Ahi está, por exemplo, dizia elle, o ciume entre Lisboa e Porto. É uma
verdadeira dualidade como a que existe entre a Hungria e a Austria... Ouço
por ali lamental-a. Pois bem, eu, se fosse poder, instigal-a-hia, acirral-a-hia, se
v. exas. me permittem a expressão.
N'esta lucta das duas grandes cidades do reino, podem outros vêr despeitos
mesquinhos, eu vejo elementos de progresso. Vejo civilisação!
Proferia estas cousas como do alto d'um pedestal, muito acima dos
homens, deixando-as providamente caír dos thesouros do seu intellecto á
maneira de dons inestimaveis. A voz era lenta e rotunda; os cristaes da sua
luneta d'ouro faiscavam vistosamente; e no bigode encerado, na pera curta,
havia ao mesmo tempo alguma cousa de doutoral e de casquilho.
Carlos dizia: «Tem v. ex.ª razão, sr. conde.» O Ega dizia: «Você vê essas
cousas d'alto, Gouvarinho». Elle cruzara as mãos por baixo das abas da casaca
- e estavam todos tres muito serios.
Depois o conde abriu a porta da friza, Ega desappareceu. E d'ahi a um
momento, Carlos, apresentado como «visinho de camarote», recebia da sr.ª
condessa um grande shake-hand, em que tilintaram uma infinidade d'aros de
prata e de blangles indios sobre a sua luva preta de doze botões.
A sr.ª condessa, um pouco corada, ligeiramente nervosa, lembrou logo a
Carlos que o vira no verão passado em Paris, no salão baixo do Café Inglez:
até por signal estava n'essa noite um velho abominavel com duas garrafas
vazias diante de si, e contando alto, para
uma meza defronte, historias horrorosas do sr. Gambetta: um sujeito ao lado
protestou; o outro não fez caso, era o velho duque de Grammont. O conde
passou os dedos lentos pela testa, com um ar quasi angustioso: não se
lembrava de nada d'isso! Queixou-se logo amargamente da sua falta de
memoria. Uma cousa tão indispensavel em quem segue a vida publica, a
memoria! e elle desgraçadamente, não possuia nem um atomo. Por exemplo,
lera (como todo o homem devia lêr) os vinte volumes da Historia Universal de
Cesar Cantu; lêra-os com attenção, fechado no seu gabinete, absorvendo-se na
obra. Pois, senhores, escapara-lhe tudo - e ali estava sem saber historia!
- V. ex.ª tem boa memoria, sr. Maia?
- Tenho uma rasoavel memoria.
- Inapreciavel bem de que goza!
A condessa voltara-se para a platéa, coberta com o leque, com o ar
constrangido, como se aquellas palavras pueris do marido a diminuissem, a
desfeiassem... Carlos então fallou da opera. Que bello escudeiro huguenote
fazia o Pandolli! A condessa não aturava o Corcelli, o tenor, com as suas notas
asperas e aquella obesidade que o tornava buffo. Mas tambem (lembrava
Carlos) onde havia hoje tenores? Passara essa grande raça dos Marios, homens
de belleza, de inspiração, realisando os grandes typos lyricos. Nicolini era já
uma degeneração... Isto fez lembrar a Patti. A condessa adorava-a, e a sua
graça de fada, e a sua voz semelhante a uma chuva d'ouro!...
Os olhos brilhavam-lhe, diziam mil cousas; em certos movimentos, o
cabello crespamente ondeado, tomava tons de oiro vermelho: e em torno d'ella
errava, no calor do gaz e da enchente, um aroma exagerado de verbena. Estava
de preto, com uma gargantilha de rendas negras, á Valois, affogando-lhe o
pescoço onde pousavam duas rosas escarlates. E toda a sua pessoa tinha um
arsinho de provocação e de ataque. De pé, callado, grave, o conde batia a coxa
com a claque fechada.
O quarto acto começara, Carlos ergueu-se; e os seus olhos encontraram
defronte, na frisa do Cohen, o Ega, de binoculo, observando-o, mirando a
condessa e fallando a Rachel, que sorria, movia o leque com um ar dolente e
vago.
- Nós recebemos ás terças feiras, disse a condessa a Carlos - e o resto da
phrase perdeu-se n'um murmurio e n'um sorriso.
O conde acompanhou-o fóra, ao corredor.
- É sempre uma honra para mim, dizia elle caminhando ao lado de Carlos,
fazer o conhecimento das pessoas que valem alguma
cousa n'este paiz... V. ex.ª é d'esse numero, bem raro infelizmente.
Carlos protestou, risonho. E o outro, na sua voz lenta e rotunda:
- Não o lisongeio. Eu nunca lisongeio... Mas a v. ex.ª podem-se dizer estas
cousas, porque pertence á elite: a desgraça de Portugal é a falta de gente. Isto é
um paiz sem pessoal. Quer-se um bispo? Não ha um bispo. Quer-se um
economista? Não ha um economista. Tudo assim! Veja v. ex.ª mesmo nas
profissões subalternas. Quer-se um bom estofador? Não ha um bom
estofador...
Um cheio de instrumentos e vozes, d'um tom sublime, passando pela porta
da frisa entreaberta, cortou-lhe umas ultimas palavras sobre a defficiencia dos
photographos... Escutou, com a mão no ar:
- É o coro dos punhaes, não? Ah vamos a ouvir... Ouve-se sempre isto com
proveito. Ha philosophia n'esta musica... É pena que lembre tão vivamente os
tempos da intolerancia religiosa, mas ha alli incontestavelmente philosophia!
VI
Carlos, n'essa manhã, ia visitar de surpreza a casa do Ega, a famosa «Villa
Balzac», que esse phantasista andára meditando e dispondo desde a sua
chegada a Lisboa, e onde se tinha emfim installado.
Ega dera-lhe esta denominação litteraria, pelos mesmos motivos porque a
alugára n'um suburbio longiquo, na solidão da Penha de França, - para que o
nome de Balzac, seu padroeiro, o silencio campestre, os ares limpos, tudo alli
fosse favoravel ao estudo, ás horas
d'arte e d'ideal. Por que ia fechar-se lá, como n'um claustro de lettras, a findar
as Memorias d'um Atomo! Sómente, por causa das
distancias, tinha tomado ao mez um coupé da companhia.
Carlos teve difficuldades em encontrar a «Villa Balzac»: não era, como
tinha dito Ega no Ramalhete,logo adiante do largo da Graça um chaletsinho
retirado, fresco, assombreado, sorrindo entre arvores. Passava-se primeiro a
Cruz dos Quatro Caminhos; depois penetrava-se n'uma vereda larga, entre
quintaes, descendo pelo pendor da collina, mas accessivel a carruagens; e ahi,
n'um recanto, ladeada de muros, apparecia emfim uma cazota de paredes
enxovalhadas, com dois degraus de pedra á porta, e transparentes novos dum
escarlate estridente.
N'essa manhã, porém, debalde Carlos deu puxões desesperados á corda da
campainha, martellou a aldrava da porta, gritou a toda a voz por cima do muro
do quintal e das copas das arvores o nome do Ega: - a «Villa Balzac»
permaneceu muda, como deshabitada, no seu retiro rustico. E todavia pareceu
a Carlos que, justamente antes de bater, ouvira o estalar de rolhas de
Champagne.
Quando Ega soube esta tentativa, mostrou-se indignado com os criados,
que assim abandonavam a casa, lhe davam um ar suspeito de Torre de Nesle...
- Vae lá ámanhã, se ninguem responder, escala as janellas, pega fogo ao
predio, como se fossem apenas as Tulherias.
Mas no dia seguinte, quando Carlos chegou, já a «Villa Balzac» o
esperava, toda em festa: á porta «o pagem», um garoto de feições
horrívelmente viciosas, perfilava-se na sua jaqueta azul de botões de metal,
com uma gravata muito branca e muito teza; as duas janellas em cima, abertas,
mostrando o reps verde das bambinellas, bebiam á larga todo o ar do campo e
o sol de inverno: e no topo da estreita escada, tapetada de vermelho, Ega, n'um
prodigioso robe-de-chambre, de um estofo adamascado do seculo dezoito,
vestido de côrte
de alguma das suas avós, exclamou dobrando a fronte ao chão:
- Bem vindo, meu principe, ao humilde tegurio do philosopho!
Ergueu, com um gesto rasgado, um reposteiro de reps verde, d'um verde
feio e triste, e introduziu o «principe» na sala onde tudo era verde tambem: o
reps que recobria uma mobilia de nogueira, o tecto de taboado, as listas
verticais do papel da parede, o pano franjado da mesa, e o reflexo d'um
espelho redondo, inclinado sobre o sophá.
Não havia um quadro, uma flôr, um ornato, um livro - apenas sobre a
jardineira uma estatueta de Napoleão I, de pé, equilibrado sobre o orbe
terrestre, n'essa conhecida attitude em que o heroe, com um ar pansudo e fatal,
esconde uma das mãos por traz das costas, e enterra a outra nas profundidades
do seu collete. Ao lado uma garrafa de Champagne, encarapuçada de papel
dourado, esperava entre dois copos esguios.
- Para que tens tu aqui Napoleão, John?
- Como alvo de injurias, disse Ega. Exercito-me sobre elle a fallar dos
tyrannos...
Esfregou as mãos, radiante. Estava n'essa manhã em alegria e em verve. E
quiz immediatamente mostrar a Carlos o seu quarto de cama: ahi reinava um
cretone de ramagens alvadias sobre fundo vermelho; e o leito enchia,
esmagava tudo. Parecia ser o motivo, o centro da «Villa Balzac»; e n'elle se
esgotara a imaginação artistica do Ega. Era de madeira, baixo como um divan,
com a barra alta, um roda-pé de renda, e d'ambos os lados um luxo de tapetes
de felpo escarlate; um largo cortinado de seda da India avermelhada envolviao
n'um apparato de tabernaculo; e dentro, á cabeceira, como n'um lupanar,
reluzia um espelho.
Carlos, muito seriamente, aconselhou-lhe que tirasse o espelho. Ega deu a
todo o leito um olhar silencioso e dôce, e disse depois do
passar uma pontinha de lingua pelo beiço:
- Tem seu chic...
Sobre a mesinha de cabeceira erguia-se um montão de livros: a Educação
de Spencer ao lado de Beaudelaire, a Logica de Stuart Mill por cima do
Cavalleiro da Casa Vermelha. No marmore da commoda havia outra garrafa
de Champagne entre dous copos; o toucador, um pouco em desordem,
mostrava uma enorme caixa de pó d'arroz no meio de plastrons e gravatas
brancas do Ega, e um masso de ganchos do cabello ao lado de ferros de frisar.
- E onde trabalhas tu, Ega, onde fazes tu a grande arte?
- Alli! disse o Ega, alegremente, apontando para o leito.
Mas foi mostrar logo o seu recantosinho estudioso, formado por um
biombo, ao lado da janella, e tomado todo por uma mesa de pé de gallo, onde
Carlos assombrado descobriu, entre o bello papel de cartas do Ega, um
Diccionario de Rimas...
E a visita á casa continuou.
Na sala de jantar, quasi nua, caiada de amarello, um armario de pinho
envidraçado abrigava melancolicamente um serviço barato de louça nova; e do
fecho da janella pendia um vestuario vermelho, que parecia roupão de mulher.
- É sobrio e simples - exclamou o Ega - como compete áquelle que se
alimenta d'uma codea d'Ideal e duas garfadas de Philosophia. Agora, á
cosinha!...
Abriu uma porta. Uma frescura de campos entrava pelas janellas abertas; e
entreviam-se arvores de quintal, um verde de terrenos vagos, depois lá em
baixo o branco de casarias rebrilhando ao sol; uma rapariga muito sardenta e
muito forte sacudiu o gato do collo, ergueu-se, com o Jornal de Noticias na
mão. Ega apresentou-a, n'um tom de farça:
- A sr.ª Josepha, solteira, de temperamento sanguineo, artista culinaria da
«Villa Balzac», e como se póde observar pelo papel que
lhe pende das garras, cultora das boas letras!
A moça sorria, sem embaraço, habituada de certo a estas familiaridades
bohemias.
- Eu hoje não janto cá, senhora Josepha, continuava o Ega no mesmo tom.
Este formoso mancebo que me acompanha, duque do Ramalhete, e principe de
Santa Olavia, dá hoje de papar ao seu amigo e philosopho... E, como quando
eu recolher, talvez a senhora Josepha esteja entregue ao somno da innocencia,
ou á vigilia da devassidão, aqui lhe ordeno que me tenha amanhã para meu
lunch duas formosas perdizes.
E subitamente, n'uma outra voz, com um olhar que ella devia perceber:
- Duas perdizesinhas bem assadas e bem córadinhas. Frias, está claro... O
costume.
Travou do braço de Carlos, voltaram á sala.
- Com franqueza, Carlos, que te parece a «Villa Balzac»?
Carlos respondeu como a respeito do episodio da Hebrea:
- Está ardente.
Mas elogiou o aceio, a vista da casa e a frescura dos cretones. De resto,
para um rapaz, para uma cella de trabalho...
- Eu, dizia o Ega, passeiando pela sala, com as mãos enterradas nos bolsos
do seu prodigioso robe de chambre, eu não tolero o bibelot, o bric-à-brac, a
cadeira archeologica, essas mobilias d'arte... Que diabo, o movel deve estar em
harmonia com a idéa e o sentir
do homem que o usa! Eu não penso, nem sinto como um cavalleiro do seculo
XVI, para que me hei de cercar de cousas do seculo XVI? Não ha nada que
me faça tanta melancolia, como ver n'uma sala um veneravel contador do
tempo de Francisco I recebendo pela
face conversas sobre eleições e altas de fundos. Faz-me o effeito d'um bello
heroe de armadura d'aço, viseira cahida e crenças profundas no peito, sentado
a uma mesa de voltarete a jogar copas. Cada seculo tem o seu genio proprio e
a sua attitude propria. O
seculo XIX concebeu a Democracia e a sua attitude é esta... - E enterrando-se
d'estalo n'uma poltrona, espetou as pernas magras para o ar. - Ora esta attitude
é impossivel n'um escabello do tempo do Prior do Crato. Menino, toca a beber
o Champagne.
E como Carlos olhava a garrafa desconfiado, Ega accudiu:
- É excellente, que pensas tu? Vem directamente da melhor casa
d'Epernay, arranjou-m'o o Jacob.
- Que Jacob?
- O Jacob Cohen, o Jacob.
Ia cortar as guitas da rolha, quando o atravessou uma subita recordação, e
pousando a garrafa outra vez, entalando o monocolo no olho:
- É verdade! Então, n'outro dia, que tal, em casa dos Gouvarinhos? Eu
infelizmente não poude ir.
Carlos contou a soirée. Havia dez pessoas, espalhadas pelas duas salas,
n'um zum-zum dormente, á meia luz dos candieiros. O conde massara-o
indiscretamente com a politica, admirações idiotas por um grande orador, um
deputado de Mesão Frio, e explicações sem fim sobre a reforma da instrucção.
A condessa, que estava muito constipada, horrorisou-o, dando sobre a
Inglaterra, apesar de ingleza, as opiniões da rua de Cedofeita. Imaginava que a
Inglaterra é um paiz sem poetas, sem artistas, sem ideaes, occupando-se só de
amontoar libras... Emfim, seccara-se.
- Que diabo! murmurou o Ega n'um tom de viva desconsolação.
A rolha estalou, elle encheu os copos em silencio; e n'uma saude muda os
dois amigos beberam o Champagne - que Jacob arranjara ao Ega, para o Ega
se regalar com Rachel.
Depois, de pé, com os olhos no tapete, agitando de vagar o copo
novamente cheio onde a espuma morria, Ega tornou a murmurar, n'aquella
entoação triste de inesperado desapontamento:
- Que ferro!...
E após um momento:
- Pois menino, pensei que a Gouvarinho te appetecia...
Carlos confessou que nos primeiros dias, quando Ega lhe fallara d'ella,
tivera um caprichosinho, interessara-se por aquelles cabellos côr de brasa...
- Mas agora, mal a conheci, o capricho foi-se...
Ega sentara-se, com o copo na mão; e depois de contemplar algum tempo
as suas meias de seda, escarlates como as d'um prelado, deixou cair, muito
serio, estas palavras:
- É uma mulher deliciosa, Carlinhos.
E, como Carlos encolhia os hombros, Ega insistio: a Gouvarinho era uma
senhora de intelligencia e de gosto; tinha originalidade, tinha audacia, uma
pontinha de romantismo muito picante...
- E, como corpinho de mulher, não ha melhor que aquillo de Badajoz para
cá!
- Vae-te d'ahi, Mephistopheles de Celorico!
E Ega, divertido, cantarolou:
Je suis Mephisto...
Je suis Mephisto...
Carlos no entanto, fumando preguiçosamente, continuava a fallar na
Gouvarinho e n'essa brusca saciedade que o invadira, mal trocara com ella tres
palavras n'uma sala. E não era a primeira vez que tinha d'estes falsos
arranques de desejo, vindo quasi com as formas do amor, ameaçando
absorver, pelo menos por algum tempo, todo o seu ser, e resolvendo-se em
tedio, em «secca». Eram como os fogachos de polvora sobre uma pedra; uma
fagulha atêa-os, n'um momento tornam-se chamma vehemente que parece que
vae consumir o Universo, e por fim fazem apenas um rastro negro que suja a
pedra. Seria o seu um d'esses corações de fraco, molles e flaccidos, que não
podem conservar um sentimento, o deixam fugir, escoar-se pelas malhas
lassas do tecido relles?
- Sou um ressequido! disse elle sorrindo. Sou um impotente de sentimento,
como Satanaz... Segundo os padres da Egreja, a grande tortura de Satanaz é
que não póde amar...
- Que phrases essas, menino! murmurou Ega.
Como phrases? Era uma atroz realidade! Passava a vida a ver as paixões
falharem-lhe nas mãos como phosphoros. Por exemplo, com a coronela de
hussards em Vienna! Quando ella faltou ao primeiro rendez-vous, chorara
lagrimas como punhos, com a cabeça enterrada no travesseiro e aos coices á
roupa. E d'ahi a duas semanas, mandava postar o Baptista á janella do hotel,
para elle se safar, mal a pobre coronela dobrasse a esquina! E com a
hollandeza, com Madame Rughel, peior ainda. Nos primeiros dias foi uma
insensatez: queria-se estabelecer para sempre na Hollanda, casar com ella
(apenas ella se divorciasse), outras loucuras; depois os braços que ella lhe
deitava ao pescoço, e que lindos braços, pareciam-lhe pesados como
chumbo...
- Passa fóra, pedante! E ainda lhe escreves! gritou Ega.
- Isso é outra cousa. Ficamos amigos, puras relações de intelligencia.
Madame Rughel é uma mulher de muito espirito. Escreveu um romance, um
d'esses estudos intimos e delicados, como os de Miss Brougthon: chama-se as
Rosas Murchas. Eu nunca li‚ é em
hollandez...
- As Rosas Murchas! em hollandez! exclamou Ega apertando as mãos na
cabeça.
Depois vindo plantar-se diante de Carlos, de monocolo no olho:
- Tu és extraordinário, menino!... Mas o teu caso é simples, é o caso de D.
Juan. D. Juan tambem tinha essas alternações de chamma e cinza. Andava
á busca do seu ideal, da sua mulher, procurando-a principalmente, como
de justiça, entre as mulheres dos outros. E après avoir couché, declarava que
se tinha enganado, que não era aquella. Pedia desculpa e retirava-se. Em
Hespanha experimentou assim mil e
tres. Tu és simplesmente, como elle, um devasso; e has de vir a acabar
desgraçadamente como elle, n'uma tragedia infernal!
Esvasiou outro copo de Champagne, e a grandes passadas pela sala:
- Carlinhos da minha alma, é inutil que ninguem ande á busca da sua
mulher. Ella virá. Cada um tem a sua mulher, e necessariamente
tem de a encontrar. Tu estás aqui, na Cruz dos Quatro Caminhos, ella está
talvez em Pekin: mas tu, ahi a raspar o meu reps com o verniz dos sapatos, e
ella a orar no templo de Confucio, estaes ambos insensivelmente,
irresistivelmente, fatalmente, marchando um para
o outro!... Estou eloquentissimo hoje, e temos dito cousas idiotas. Toca a
vestir. E, em quanto eu adorno a carcassa, prepara mais phrases sobre Satanaz!
Carlos ficou na sala verde, acabando o charuto - em quanto dentro o Ega
batia com as gavetas, lançando, a todo o desafinado da sua voz roufenha, a
Barcarolla de Gounod. Quando appareceu, vinha de casaca, gravata branca,
enfiando o paletot - com o olho brilhante do Champagne.
Desceram. O pagem lá estava á porta perfilado, ao pé do coupé de Carlos,
que esperara. E a sua fardeta azul de botões amarellos, a magnifica parelha
baia reluzindo como um setim vivo, as pratas dos arreios, a magestade do
cocheiro louro com o seu ramo na libré, tudo alli fazia, junto da «Villa
Balzac», um quadro rico que deleitou o Ega.
- A vida é agradavel, disse elle.
O coupé partiu, ia entrar no largo da Graça, quando uma caleche de praça,
aberta, o cruzou a largo trote. Dentro um sujeito de chapéo baixo ia
lendo um grande jornal.
- É o Craft! gritou Ega, debruçando-se pela portinhola.
O coupé parou. Ega de um pulo estava na calçada, correndo, bradando:
- Oh Craft! oh Craft!
Quando, d'ahi a um momento, sentiu duas vozes approximarem-se, Carlos
desceu tambem do coupé, achou-se em face d'um homem baixo, louro, de
pelle rosada e fresca, e apparencia fria. Sob o fraque correcto percebia-se-lhe
uma musculatura de athleta.
- O Carlos, o Craft, gritou o Ega, lançando esta apresentação com uma
simplicidade classica.
Os dois homens, sorrindo, tinham-se apertado a mão. E Ega insistia para
que voltassem todos á Villa Balzac, fossem beber a outra garrafa de
Champagne, a celebrar o advento do Justo! Craft recusou, com o seu modo
calmo e placido; chegara na vespera do Porto, abraçara já o nobre Ega, e
aproveitava agora a viagem áquelle bairro longinquo para ir vêr o velho
Shlegen, um allemão que vivia á Penha de França.
- Então outra cousa! exclamou Ega. Para conversarmos, para que vocês se
conheçam mais, venham vocês jantar comigo ámanhã ao Hotel Central. Dito,
hein? Perfeitamente. Ás seis.
Apenas o coupé partiu de novo, Ega rompeu nas costumadas admirações
pelo Craft, encantado com aquelle encontro que dava mais um retoque
luminoso á sua alegria. O que o enthusiasmava no Craft era aquelle ar
imperturbavel de gentleman correcto, com que elle egualmente jogaria uma
partida de bilhar, entraria n'uma batalha, arremetteria com uma mulher, ou
partiria para a Patagonia...
- É das melhores cousas que tem Lisboa. Vaes-te morrer por elle... E que
casa que elle tem nos Olivaes, que sublime bric-a-brac!
Subitamente estacou, e com um olhar inquieto, uma ruga na testa:
- Como diabo soube elle da Villa Balzac?
- Tu não fazes segredo d'ella, hein?
- Não... Mas tambem não a puz nos annuncios! E o Craft chegou hontem,
ainda não esteve com ninguem que eu conheça... É curioso!
- Em Lisboa sabe-se tudo...
- Canalha de terra! murmurou Ega.
O jantar no Central foi addiado, porque o Ega, alargando pouco a pouco a
idéa, convertera-o agora n'uma festa de ceremonia em honra do Cohen.
- Janto lá muitas vezes, disse elle a Carlos, estou lá todas as noites... É
necessario repagar a hospitalidade... Um jantar no Central é o que basta. E
para o effeito moral, pespego-lhe á meza o marquez e a besta do Steinbroken.
O Cohen gosta de gente assim...
Mas o plano teve ainda de ser alterado: o marquez partira para a Gollegã, e
o pobre Steinbroken estava soffrendo d'um incommodo de entranhas. Ega
pensou no Cruges e no Taveira - mas receiou a cabelleira desleixada do
Cruges, e alguns dos seus ataques de amargo spleen que estragaria o jantar.
Terminou por convidar dois intimos do Cohen; mas teve então de supprimir o
Taveira, que estava de mal com um d'esses cavalheiros por palavras que
tinham trocado em casa da «Lola gorda».
Decididos os convidados, fixado o jantar para uma segunda feira, Ega teve
uma conferencia com o maitre de hotel do Central, em que lhe recommendou
muita flôr, dois ananazes para enfeitar a meza, e exigiu que um dos pratos do
menu, qualquer d'elles, fosse à la Cohen; e elle mesmo suggeriu uma idéa:
tomates farcies à la Cohen...
N'essa tarde, ás seis horas, Carlos, ao descer a rua do Alecrim para o Hotel
Central, avistou Craft dentro da loja de bric-a-brac do tio Abrahão.
Entrou. O velho judeo, que estava mostrando a Craft uma falsa faiença do
Rato, arrancou logo da cabeça o sujo barrete de borla, e ficou curvado em
dois, diante de Carlos, com as duas mãos sobre o coração.
Depois, n'uma linguagem exotica, misturada d'inglez, pediu ao seu bom
senhor D. Carlos da Maia, ao seu digno senhor, ao seu beautiful gentleman,
que se dignasse examinar uma maravilhasinha que lhe tinha reservada; e o seu
muito generous gentleman tinha só a
voltar os olhos, a maravilhasinha estava alli ao lado, n'uma cadeira. Era um
retrato d'hespanhola, apanhado a fortes brochadellas de primeira impressão, e
pondo, sobre um fundo audaz de côr de rosa murcha, uma face gasta de velha
garça, picada das bexigas, caiáda, ressudando vicio, com um sorriso bestial
que promettia tudo.
Carlos, tranquillamente, offereceu dez tostões. Craft pasmou d'uma tal
prodigalidade; e o bom Abrahão, n'um riso mudo que lhe abria entre a barba
grisalha uma grande boca d'um só dente, saboreou muito a «chalaça dos seus
ricos senhores.» Dez tostõesinhos! Se o quadrinho tivesse por baixo o
nomesinho de Fortuny, valia dez continhos de réis. Mas não tinha esse
nomesinho bemdito... Ainda assim valia dez notasinhas de vinte mil réis...
- Dez cordas para te enforcar, hebreu sem alma! exclamou Carlos.
E sahiram, deixando o velho intrujão á porta, curvado em dois, com as
mãos sobre o coração, desejando mil felicidades aos seus generosos fidalgos...
- Não tem uma unica cousa boa, este velho Abrahão, disse Carlos.
- Tem a filha, disse o Craft.
Carlos achava-a bonita, mas horrivelmente suja.
Então, a proposito do Abrahão, fallou a Craft d'essas bellas collecções dos
Olivaes, que o Ega, apesar do desdem que affectava pelo bibelot e pelo movel
d'arte, lhe descrevera como sublimes.
Craft encolheu os hombros.
- O Ega não entende nada. Mesmo em Lisboa, não se póde chamar ao que
eu tenho uma collecção. É um bric-a-brac d'acaso... De que, de resto, me vou
desfazer!
Isto surprehendeu Carlos. Comprehendera das palavras do Ega ser essa
uma collecção formada com amor, no laborioso decurso de annos, orgulho e
cuidado d'uma existencia de homem...
Craft sorrio d'aquella legenda. A verdade era que só em 1872, elle
começara a interessar-se pelo bric-a-brac; chegava então da America do Sul; e
o que fora comprando, descobrindo aqui e além, accumulara-o n'essa casa dos
Olivaes, alugada então por phantasia, uma manhã que aquelle pardieiro, com o
seu bocado de quintal em redor, lhe parecera pittoresco, sob o sol de abril.
Mas agora se podesse desfazer-se do que tinha, ia dedicar-se então a formar
uma collecção homogenea e compacta d'arte do seculo desoito.
- Aqui nos Olivaes?
- Não. N'uma quinta que tenho ao pé do Porto, junto mesmo ao rio.
Entravam então no peristilo do Hotel Central - e n'esse momento um coupé
da Companhia, chegando a largo trote do lado da rua
do Arsenal, veiu estacar á porta.
Um esplendido preto, já grisalho, de casaca e calção, correu logo á
portinhola; de dentro um rapaz muito magro, de barba muito negra, passou-lhe
para os braços uma deliciosa cadelinha escosseza, de pellos esguedelhados,
finos como seda e côr de prata; depois apeando-se, indolente e poseur,
offereceu a mão a uma senhora alta, loura, com um meio véo muito apertado e
muito escuro que realçava o explendor da sua carnação eburnea. Craft e
Carlos affastaram-se, ella passou diante d'elles, com um passo soberano de
deusa, maravilhosamente bem feita, deixando atraz de si como uma claridade,
um reflexo de cabellos d'ouro, e um aroma no ar. Trazia um casaco collante de
velludo branco de Genova, e um momento sobre as lages do peristillo brilhou
o verniz das suas bottinas. O rapaz ao lado, esticado n'um fato de xadresinho
inglez, abria negligentemente um telegramma; o preto seguia com a
cadelhinha nos braços. E no silencio a voz de Craft murmurou:
- Très chic.
Em cima, no gabinete que o creado lhes indicou, Ega esperava, sentado no
divan de marroquim, e conversando com um rapaz baixote, gordo, frisado
como um noivo de provincia, de camelia ao peito e plastron azul celeste. O
Craft conhecia-o; Ega apresentou a
Carlos o sr. Damaso Salcêde, e mandou servir vermouth, por ser tarde,
segundo lhe parecia, para esse requinte litterario e satanico do absintho...
Fôra um dia d'inverno suave e luminoso, as duas janellas estavam ainda
abertas. Sobre o rio, no céu largo, a tarde morria, sem uma aragem, n'uma paz
elysea, com nuvensinhas muito altas, paradas, tocadas de côr de rosa; as terras,
os longes da outra banda já se iam
affogando n'um vapor avelludado, do tom de violeta; a agoa jazia liza e luzidia
como uma bela chapa d'aço novo; e aqui e alem, pelo vasto ancoradouro,
grossos navios de carga, longos paquetes estrangeiros, dois couraçados
inglezes, dormiam, com as mastreações
immoveis, como tomados de preguiça, cedendo ao affago do clima doce...
- Vimos agora lá em baixo, disse Craft indo sentar-se no divan, uma
esplendida mulher, com uma esplendida cadellinha griffon, e servida por um
esplendido preto!
O sr. Damaso Salcêde, que não despegava os olhos de Carlos, acudiu logo:
- Bem sei! Os Castro Gomes... Conheço-os muito... Vim com elles de
Bordeus... Uma gente muito chic que vive em Paris.
Carlos voltou-se, reparou mais n'elle, perguntou-lhe, affavel e
interessando-se:
- O senhor Salcêde chegou agora de Bordeus?
Estas palavras pareceram deleitar Damaso como um favor celeste: ergueuse
immediatamente, approximou-se do Maia, banhado n'um sorriso:
- Vim aqui ha quinze dias, no Orenoque. Vim de Paris... Que eu em
podendo é lá que me pilham! Esta gente conheci-a em Bordeus. Isto é,
verdadeiramente conheci-a a bordo. Mas estavamos todos no Hotel de
Nantes... Gente muito chic: creado de quarto, governanta ingleza para a filhita,
femme de chambre, mais de vinte malas... Chic a valer! Parece incrivel, uns
brazileiros... Que ella na voz não tem sutaque nenhum, falla como nós. Elle
sim, elle muito sutaque... Mas elegante tambem, v. ex.ª não lhe pareceu?
- Vermouth? perguntou-lhe o creado, offerecendo a salva.
- Sim, uma gotinha para o appetite. V. ex.ª não toma, sr. Maia? Pois eu,
assim que posso, é direitinho para Paris! Aquillo é que é terra! Isto aqui é um
chiqueiro... Eu, em não indo lá todos os annos, acredite v. ex.ª, até começo a
andar doente. Aquelle boulevarsinho,
hein!... Ai, eu goso aquillo!... E sei gosar, sei gosar, que eu conheço aquillo a
palmo... Tenho até um tio em Paris.
- E que tio! exclamou Ega, approximando-se. Intimo de Gambetta,
governa a França... O tio do Damaso governa a França, menino!
Damaso, escarlate, estourava de gôso.
- Ah, lá isso influencia tem. Intimo do Gambetta, tratam-se por tu, até
vivem quasi juntos... E não é só com o Gambetta; é com o Mac-Mahon, com o
Rochefort, com o outro de que me esquece agora o nome, com todos os
republicanos, emfim!... É tudo quanto elle
queira. V. ex.ª não o conhece? É um homem de barbas brancas... Era irmão de
minha mãe, chama-se Guimarães. Mas em Paris chamam-lhe Mr. de
Guimaran...
N'esse momento a porta envidraçada abriu-se de golpe, Ega exclamou:
«Saude ao poeta»!
E appareceu um individuo muito alto, todo abotoado n'uma sobrecasaca
preta, com uma face escaveirada, olhos encovados, e sob o nariz aquilino,
longos, espessos, romanticos bigodes grisalhos: já todo calvo na frente, os
anneis fôfos d'uma grenha muito secca cahiam-lhe inspiradamente sobre a
golla: e em toda a sua pessoa havia alguma cousa de antiquado, de artificial e
de lugubre.
Estendeu silenciosamente dous dedos ao Damaso, e abrindo os braços
lentos para Craft, disse n'uma voz arrastada, cavernosa, atheatrada:
- Então és tu, meu Craft! Quando chegaste tu, rapaz? Dá-me cá esses ossos
honrados, honrado inglez!
Nem um olhar dera a Carlos. Ega adiantou-se, apresentou-os:
- Não sei se são relações. Carlos da Maia... Thomaz d'Alencar, o nosso
poeta...
Era elle! o illustre cantor das Vozes d'Aurora, o estylista de Elvira, o
dramaturgo do Segredo do Commendador. Deu dois passos graves para
Carlos, esteve-lhe apertando muito tempo a mão em silencio - e sensibilisado,
mais cavernoso:
- V. ex.ª, já que as etiquetas sociaes querem que eu lhe dê excellencia, mal
sabe a quem apertou agora a mão...
Carlos, surprehendido, murmurou:
- Eu conheço muito de nome...
E o outro com o olho cavo, o labio tremulo:
- Ao camarada, ao inseparavel, ao intimo de Pedro da Maia, do meu pobre,
do meu valente Pedro!
- Então, que diabo, abracem-se! gritou Ega. Abracem-se, com um berro,
segundo as regras...
Alencar já tinha Carlos estreitado ao peito, e quando o soltou, retomandolhe
as mãos, sacudindo-lh'as, com uma ternura ruidosa:
- E deixemo-nos já de excellencias! que eu vi-te nascer, meu rapaz!
trouxe-te muito ao collo! sujaste-me muita calça! Co'os diabos, dá cá outro
abraço!
Craft olhava estas cousas vehementes, impassivel; Damaso parecia
impressionado; Ega apresentou um copo de vermouth ao poeta:
- Que grande scena, Alencar! Jesus, Senhor! Bebe, para te recuperares da
emoção...
Alencar esgotou-o d'um trago: e declarou aos amigos que não era a
primeira vez que via Carlos. Já o admirara no seu phaeton, muitas vezes, e aos
seus bellos cavallos inglezes. Mas não se quizera dar a conhecer. Elle
nunca se atirava aos braços de ninguem, a não ser das mulheres... Foi encher
outro calice de vermouth, e com elle na mão, plantado diante de Carlos,
começou, n'um tom pathetico:
- A primeira vez que te vi, filho, foi no Pote das Almas! Estava eu no
Rodrigues, esquadrinhando alguma d'essa velha litteratura, hoje tão
despresada... Lembro-me até que era um volume das Eclogas do nosso
delicioso Rodrigues Lobo, esse verdadeiro poeta da
natureza, esse rouxinol tão portuguez, hoje, está claro, mettido a um canto,
desde que para ahi appareceu o Satanismo, o Naturalismo e o Bandalhismo, e
outros esterquilinios em ismo... N'esso momento passaste, disseram-me quem
eras, e cahiu-me o livro da mão... Fiquei alli uma hora, acredita, a pensar, a
rever o passado...
E atirou o vermouth ás goellas. Ega, impaciente, olhava o relogio. Um
creado, entrando, accendeu o gaz; a mesa surgiu da penumbra, com um brilho
de cristaes e louças, um luxo de camelias em ramos.
No entanto Alencar (que á luz viva parecia mais gasto e mais velho)
começara uma grande historia, e como fôra elle o primeiro que vira Carlos
depois de nascer, e como fôra elle que lhe dera o nome.
- Teu pae, dizia elle, o meu Pedro, queria-te pôr o nome d'Affonso, d'esse
santo, d'esse varão d'outras edades, Affonso da Maia! Mas tua mãe que tinha
lá as suas idéas teimou em que havias de ser Carlos. E justamente por causa
d'um romance que eu lhe emprestára; n'esses tempos podiam-se emprestar
romances a senhoras, ainda não havia a pustula e o puz... Era um romance
sobre o ultimo Stuart, aquelle bello typo do principe Carlos Eduardo, que
vocês, filhos, conhecem todos bem, e que na Escossia, no tempo de Luiz
XIV... Emfim, adiante! Tua mãe, devo dizel-o, tinha litteratura e da melhor.
Consultou-me, consultava-me sempre, n'esse tempo eu era alguem, e lembrome
de lhe ter respondido... (Lembro-me apesar de já lá irem vinte e cinco
annos... Que digo eu? Vinte e sete! Vejam vocês isto, filhos, vinte e sete
annos!) Emfim, voltei-me para tua mãe, e disse-lhe, palavras textuaes:
«Ponha-lhe o nome de Carlos Eduardo, minha rica senhora, Carlos Eduardo,
que é o verdadeiro nome para o frontespicio d'um poema, para a fama d'um
heroismo ou para o labio d'uma mulher!»
Damaso, que continuava a admirar Carlos, deu bravos estrondosos; Craft
bateu ligeiramente os dedos; e o Ega, que rondava a porta, nervoso, de relogio
na mão, soltou de lá um muito bem desenxabido.
Alencar, radiante com o seu effeito, derramava em roda um sorriso que lhe
mostrava os dentes estragados. Abraçou outra vez Carlos, atirou uma palmada
ao coração, exclamou:
- Caramba, filhos, sinto uma luz cá dentro!
A porta abriu-se, o Cohen entrou, todo apressado, desculpando-se logo da
sua demora - emquanto Ega, que se precipitara para elle, lhe ajudava a despir
o palletot. Depois apresentou-o a Carlos - a unica pessoa alli de quem o Cohen
não era intimo. E dizia,
tocando o botão da campainha electrica:
- O marquez não pôde vir, menino, e o pobre Steinbroken, coitado, está
com a sua gôtta, a gôtta de diplomata, de lord e de banqueiro... A gôtta que tu
has de ter, velhaco!
Cohen, um homem baixo, apurado, de olhos bonitos, e suissas tão pretas e
luzidias que pareciam ensopadas em verniz, sorria, descalçando as luvas,
dizendo, que, segundo os inglezes, havia tambem a gôtta de gente pobre; e era
essa naturalmente a que lhe
competia a elle...
Ega, no entanto, travara-lhe do braço, collocara-o preciosamente á mesa, á
sua direita: depois offereceu-lhe um botão de camelia d'um ramo: o Alencar
florio-se tambem - e os creados serviram as ostras.
Fallou-se logo do crime da Mouraria, drama fadista que impressionava
Lisboa, uma rapariga com o ventre rasgado á navalha por uma companheira,
vindo morrer na rua em camisa, dois faias esfaqueando-se, toda uma viella em
sangue - uma sarrabulhada como disse o Cohen, sorrindo e provando o
Bucellas.
Damaso teve a satisfação de poder dar detalhes; conhecera a rapariga, a
que dera as facadas, quando ella era amante do visconde da Ermidinha... Se
era bonita? Muito bonita. Umas mãos de duqueza... E como aquillo cantava o
fado! O peior era que mesmo no
tempo do visconde, quando ella era chic, já se empiteirava... E o visconde,
honra lhe seja, nunca lhe perdera a amisade; respeitava-a, mesmo depois de
casado ía vel-a, e tinha-lhe promettido que se ella quizesse deixar o fado lhe
punha uma confeitaria para os lados da
Sé. Mas ella não queria. Gostava d'aquillo, do Bairro Alto, dos cafés de lepes,
dos chulos...
Esse mundo de fadistas, de faias, parecia a Carlos merecer um estudo, um
romance... Isto levou logo a fallar-se do Assommoir, de Zola e do realismo: - e
o Alencar immediatamente, limpando os bigodes dos pingos de sôpa,
supplicou que se não discutisse, á hora aceada do jantar, essa litteratura
latrinaria. Alli todos eram homens d'aceio, de sala, hein? Então, que se não
mencionasse o excremento!
Pobre Alencar! O naturalismo; esses livros poderosos e vivazes, tirados a
milhares de edições; essas rudes analyses, apoderando-se da Egreja, da
Realeza, da Bureocracia, da Finança, de todas as cousas santas, dissecando-as
brutalmente e mostrando-lhes a lesão,
como a cadaveres n'um amphitheatro; esses estylos novos, tão precisos e tão
ducteis, apanhando em flagrante a linha, a côr, a palpitação mesma da vida;
tudo isso (que elle, na sua confusão mental, chamava a Idéa nova) caíndo
assim de chofre e escangalhando a
cathedral romantica, sob a qual tantos annos elle tivera altar e celebrara missa,
tinha desnorteado o pobre Alencar e tornara-se o desgosto litterario da sua
velhice. Ao principio reagiu. «Para pôr um dique definitivo á torpe maré»,
como elle disse em plena Academia,
escreveu dois folhetins crueis; ninguem os leu; a «maré torpe» alastrou-se,
mais profunda, mais larga. Então Alencar refugiou-se na moralidade como
n'uma rocha solida. O naturalismo, com as suas alluviões de obscenidade,
ameaçava corromper o pudor social? Pois bem. Elle, Alencar, seria o paladino
da Moral, o gendarme dos bons costumes. Então o poeta das Vozes d'Aurora,
que durante vinte annos, em cançoneta e ode, propozera commercios lubricos
a todas as damas da capital; então o romancista de Elvira que, em novella e
drama, fizera a propaganda do amor illegitimo, representando os deveres
conjugaes como montanhas de tedio, dando a todos os maridos fórmas
gordurosas e bestiaes, e a todos os amantes a belleza, o esplendor e o genio
dos antigos Apollos; então Thomaz Alencar que (a acreditarem-se as
confissões autobiographicas da Flôr de Martyrio) passava elle proprio uma
existencia medonha de adulterios, lubricidades, orgias, entre velludos e vinhos
de Chypre - d'ora em diante austero, incorruptivel, todo elle uma torre de
pudicicia, passou a vigiar attentamente o jornal, o livro, o theatro. E mal
lobrigava symptomas nascentes de realismo n'um beijo que estalava mais alto,
n'uma brancura de saia que se arregaçava de mais - eis o nosso Alencar que
soltava por sobre o paiz um grande grito de alarme, corria á penna, e as suas
imprecações lembravam (a academicos faceis de contentar) o rugir de Isaias.
Um dia porém, Alencar teve uma d'estas revelações que prostram os mais
fortes; quanto mais elle denunciava um livro como immoral, mais o livro se
vendia como agradavel! O Universo pareceu-lhe cousa torpe, e o auctor de
Elvira encavacou...
Desde então reduziu a expressão do seu rancor ao minimo, a essa phrase
curta, lançada com nojo:
- Rapazes, não se mencione o excremento!
Mas n'essa noite teve o regosijo de encontrar alliados. Craft não admittia
tambem o naturalismo, a realidade feia das cousas e da sociedade estatelada
nua n'um livro. A arte era uma idealisação! Bem: então que mostrasse os typos
superiores d'uma humanidade aperfeiçoada, as fórmas mais bellas do viver e
do sentir... Ega horrorisado apertava as mãos na cabeça - quando do outro lado
Carlos declarou que o mais intoleravel no realismo eram os seus grandes ares
scientificos, a sua pretenciosa esthetica deduzida d'uma philosophia alheia, e a
invocação de Claude Bernard, do experimentalismo, do positivismo, de Stuart
Mill e de Darwin, a proposito d'uma lavadeira que dorme com um carpinteiro!
Assim atacado, entre dois fogos, Ega trovejou: justamente o fraco do
realismo estava em ser ainda pouco scientifico, inventar
enredos, crear dramas, abandonar-se á phantasia litteraria! a fórma pura da
arte naturalista devia ser a monographia, o estudo secco d'um typo, d'um vicio,
d'uma paixão, tal qual como se se tratasse d'um caso pathologico, sem
pittoresco e sem estylo!...
- Isso é absurdo, dizia Carlos, os caracteres só se podem manifestar pela
acção...
- E a obra d'arte, accrescentou Craft, vive apenas pela fórma...
Alencar interrompeu-os, exclamando que não eram necessarias tantas
philosophias.
- Vocês estão gastando cêra com ruins defuntos, filhos. O realismo criticase
d'este modo: mão no nariz! Eu quando vejo um d'esses livros, enfrasco-me
logo em agua de colonia. Não discutamos o excremento.
- Sole normande? perguntou-lhe o creado, adiantando a travessa.
Ega ía fulminal-o. Mas, vendo que o Cohen dava um sorriso enfastiado e
superior a estas controversias de litteraturas, calou-se; occupou-se só d'elle,
quiz saber que tal elle achava aquelle St. Emilion; e, quando o viu
confortavelmente servido de sole normande,
lançou com grande alarde de interesse esta pergunta:
- Então, Cohen, diga-nos você, conte-nos cá... O emprestimo faz-se ou não
se faz?
E acirrou a curiosidade, dizendo para os lados, que aquella questão do
emprestimo era grave. Uma operação tremenda, um verdadeiro episodio
historico!...
O Cohen collocou uma pitada de sal á beira do prato, e respondeu, com
auctoridade, que o emprestimo tinha de se realisar absolutamente. Os
emprestimos em Portugal constituiam hoje uma das fontes de receita, tão
regular, tão indispensavel, tão sabida como
o imposto. A unica occupação mesmo dos ministerios era esta - cobrar o
imposto e fazer o emprestimo. E assim se havia de continuar...
Carlos não entendia de finanças: mas parecia-lhe que, d'esse modo, o paiz
ia alegremente e lindamente para a banca-rota.
- N'um galopesinho muito seguro e muito a direito, disse o Cohen,
sorrindo. Ah, sobre isso, ninguem tem illusões, meu caro senhor.
Nem os proprios ministros da fazenda!... A banca-rota é inevitavel: é como
quem faz uma somma...
Ega mostrou-se impressionado. Olha que brincadeira, hein! E todos
escutavam o Cohen. Ega, depois de lhe encher o calice de novo, fincara os
cotovellos na meza para lhe beber melhor as palavras.
- A banca-rota é tão certa, as cousas estão tão dispostas para ella -
continuava o Cohen - que seria mesmo facil a qualquer, em dois ou tres annos,
fazer fallir o paiz...
Ega gritou soffregamente pela receita. Simplesmente isto: manter uma
agitação revolucionaria constante; nas vesperas de se lançarem os
emprestimos haver duzentos maganões decididos que cahissem á pancada na
municipal e quebrassem os candieiros com
vivas á Republica; telegraphar isto em letras bem gordas para os jornaes de
Paris, Londres e do Rio de Janeiro; assustar os mercados, assustar o brazileiro,
e a banca-rota estalava. Sómente, como elle disse, isto não convinha a
ninguem.
Então Ega protestou com vehemencia. Como não convinha a ninguem?
Ora essa! Era justamente o que convinha a todos! Á banca-rota seguia-se uma
revolução, evidentemente. Um paiz que vive da inscripção, em não lh'a
pagando, agarra no cacete; e procedendo por principio, ou procedendo apenas
por vingança - o primeiro cuidado que tem é varrer a monarchia que lhe
representa o calote, e com ella o crasso
pessoal do constitucionalismo. E passada a crise, Portugal livre da velha
divida, da velha gente, d'essa collecção grotesca de bestas...
A voz do Ega sibillava... Mas, vendo assim tratados de grotescos, de
bestas, os homens d'ordem que fazem prosperar os Bancos, Cohen pousou a
mão no braço do seu amigo e chamou-o ao bom-senso. Evidentemente, elle
era o primeiro a dizel-o, em toda essa gente que figurava desde 46 havia
mediocres e patetas, - mas tambem homens de grande valor!
- Ha talento, ha saber, dizia elle com um tom de experiencia. Você deve
reconhecel-o, Ega... Você é muito exagerado! Não senhor, ha talento, ha
saber.
E, lembrando-se que algumas d'essas bestas eram amigos do Cohen, Ega
reconheceu-lhes talento e saber. O Alencar porém cofiava sombriamente o
bigode. Ultimamente pendia para idéas radicaes, para a democracia
humanitaria de 1848: por instincto, vendo o romantismo desacreditado nas
letras, refugiava-se no romantismo politico, como n'um asylo pararello: queria
uma republica governada por genios, a fraternisação dos povos, os Estados
Unidos da Europa... Além d'isso, tinha longas queixas d'esses politiquotes,
agora
gente de Poder, outr'ora seus camaradas de redacção, de café e de batota...
- Isso, disse elle, lá a respeito de talento e de saber, historias... Eu conheçoos
bem, meu Cohen...
O Cohen acudiu:
- Não senhor, Alencar, não senhor! Você tambem é dos taes... Até lhe fica
mal dizer isso... É exageração. Não senhor, há talento, ha saber.
E o Alencar, perante esta intimação do Cohen, o respeitado director do
Banco Nacional, o marido da divina Rachel, o dono d'essa hospitaleira casa da
rua do Ferregial onde se jantava tão bem, recalcou o despeito - admittiu que
não deixava de haver talento e saber.
Então, tendo assim, pela influencia do seu Banco, dos bellos olhos da sua
mulher e da excellencia do seu cosinheiro, chamado estes espiritos rebeldes ao
respeito dos Parlamentares e á veneração da Ordem, Cohen condescendeu em
dizer, no tom mais suave da sua voz, que o paiz necessitava reformas...
Ega porém, incorrigivel n'esse dia, soltou outra enormidade:
- Portugal não necessita refórmas, Cohen, Portugal o que precisa é a
invasão hespanhola.
Alencar, patriota á antiga, indignou-se. O Cohen, com aquelle sorriso
indulgente de homem superior que lhe mostrava os bonitos dentes, vio alli
apenas «um dos paradoxos do nosso Ega.» Mas o Ega fallava com seriedade,
cheio de razões. Evidentemente, dizia elle,
invasão não significa perda absoluta de independencia. Um receio tão estupido
é digno só de uma sociedade tão estupida como a do Primeiro de Dezembro.
Não havia exemplo de seis milhões de habitantes serem engolidos, de um só
trago, por um paiz que tem apenas
quinze milhões de homens. Depois ninguem consentiria em deixar cahir nas
mãos de Hespanha, nação militar e maritima, esta bella linha de costa de
Portugal. Sem contar as allianças que teriamos, a troco das colonias - das
colonias que só nos servem, como a prata de familia aos morgados arruinados,
para ir empenhando em casos de crise...
Não havia perigo; o que nos aconteceria, dada uma invasão, n'um
momento de guerra europea, seria levarmos uma sova tremenda, pagarmos
uma grossa indemnisação, perdermos uma ou duas provincias, ver talvez a
Galliza estendida até ao Douro...
- Poulet aux champignons, murmurou o creado, apresentando-lhe a
travessa.
E em quanto elle se servia, perguntavam-lhe dos lados onde via elle a
salvação do paiz, nessa catastrophe que tornaria povoação
hespanhola Celorico de Basto, a nobre Celorico, berço de heroes, berço dos
Egas...
- N'isto: no ressuscitar do espirito publico e do genio portuguez! Sovados,
humilhados, arrasados, escalavrados, tinhamos de fazer um esforço
desesperado para viver. E em que bella situação nos achavamos! Sem
monarchia, sem essa caterva de politicos, sem esse
tortulho da inscripção, porque tudo desapparecia, estavamos novos em folha,
limpos, escarollados, como se nunca tivessemos servido. E recomeçava-se
uma historia nova, um outro Portugal, um Portugal serio e intelligente, forte e
decente, estudando, pensando, fazendo civilisação como outr'ora... Meninos,
nada regenera uma nação como uma medonha tarêa... Oh Deus d'Ourique,
manda-nos o castelhano! E você, Cohen, passe-me o St. Emilion.
Agora, n'um rumor animado, discutia-se a invasão. Ah, podia-se fazer uma
bella resistencia! Cohen affiançava o dinheiro. Armas, artilheria, iam comprarse
á America - e Craft offereceu logo a sua collecção de espadas do seculo
XVI. Mas generaes? Alugavam-se. Mac-Mahon, por exemplo, devia estar
barato...
- O Craft e eu organisamos uma guerrilha, gritou Ega.
- Ás ordens, meu coronel.
- O Alencar, continuava Ega, é encarregado de ir despertar pela provincia
o patriotismo, com cantos e com odes!
Então o poeta, pousando o calice, teve um movimento de leão que sacode
a juba:
- Isto é uma velha carcassa, meu rapaz, mas não está só para odes! Ainda
se agarra uma espingarda, e como a pontaria é boa, ainda vão a terra um par de
gallegos... Caramba, rapazes, só a idéa d'essas cousas me põe o coração negro!
E como vocés podem fallar n'isso, a rir, quando se trata do paiz, d'esta terra
onde nascemos, que diabo! Talvez seja má, de accordo, mas, caramba! é a
única que temos, não temos outra! É aqui que vivemos, é aqui que
rebentamos... Irra, fallemos d'outra cousa, fallemos de mulheres!
Dera um repellão ao prato, os olhos humedeciam-se-lhe de paixão
patriotica...
E no silencio que se fez Damaso, que desde as informações sobre a
rapariga do Ermidinha emmudecera, occupado a observar Carlos com religião,
ergueu a voz pausadamente, disse, com um ar de bom senso e de finura:
- Se as cousas chegassem a esse ponto, se pozessem assim feias, eu cá, á
cautela, ia-me raspando para Paris...
Ega triumphou, pulou de gosto na cadeira. Eis alli, no labio synthetico de
Damaso, o grito espontaneo e genuino do brio portuguez! Raspar-se, pirarse!...
Era assim que d'alto a baixo pensava a sociedade de Lisboa, a malta
constitucional, desde El-Rei nosso Senhor até aos cretinos de secretaria!...
- Meninos, ao primeiro soldado hespanhol que appareça á fronteira, o paiz
em massa foge como uma lebre! Vae ser uma debandada unica na historia!
Houve uma indignação, Alencar gritou:
- Abaixo o traidor!
Cohen interveio, declarou que o soldado portuguez era valente, á maneira
dos turcos - sem disciplina, mas teso. O proprio Carlos disse, muito serio:
- Não senhor... Ninguem ha de fugir, e ha de se morrer bem.
Ega rugiu. Para quem estavam elles fazendo essa pose heroica? Então
ignoravam que esta raça, depois de cincoenta annos de constitucionalismo,
creada por esses saguões da Baixa, educada na piolhice dos lyceus, roída de
syphlis, apodrecida no bolôr das secretarías, arejada apenas ao domingo pela
poeira do Passeio, perdera o musculo como perdera o caracter, e era a mais
fraca, a mais covarde raça da Europa?...
- Isso são os lisboetas, disse Craft.
- Lisboa é Portugal, gritou o outro. Fóra de Lisboa não há nada. O paiz
está todo entre a Arcada e S. Bento!...
A mais miseravel raça da Europa! continuava elle a berrar. E que exercito!
Um regimento, depois de dois dias de marcha, dava entrada em massa no
hospital! Com seus olhos tinha elle visto, no dia da abertura das Côrtes, um
marujo sueco, um rapagão do Norte, fazer debandar, a soccos, uma companhia
de soldados; as praças tinham litteralmente largado a fugir, com a patrona a
batter-lhe os rins; e o officíal, enfiado de terror, metteu-se para uma escada, a
vomitar!...
Todos protestaram. Não, não era possivel... Mas se elle tinha visto, que
diabo!... Pois sim, talvez, mas com os olhos fallazes da phantasia...
- Juro pela saude da mamã! gritou Ega furioso.
Mas emmudeceu. O Cohen tocara-lhe no braço. O Cohen ía fallar.
O Cohen queria dizer que o futuro pertence a Deus. Que os hespanhoes
porém pensassem na invasão isso parecia-lhe certo - sobretudo se viessem,
como era natural, a perder Cuba. Em Madrid todo o mundo lh'o dissera. Já
havia mesmo negocios de fornecimentos entabolados...
- Hespanholadas, gallegadas! rosnou Alencar, por entre dentes, sombrio e
torcendo os bigodes.
- No Hotel de Paris, continuou Cohen, em Madrid, conheci eu um
magistrado, que me disse com um certo ar que não perdia a esperança de se vir
estabelecer de todo em Lisboa; tinha-lhe agradado muito Lisboa, quando cá
estivera a banhos. E em quanto a mim, estou que ha muitos hespanhoes que
estão á espera d'este augmento de territorio para se empregarem!
Então Ega cahiu em extasi, apertou as mãos contra o peito. Oh que
delicioso traço! Oh que admiravelmente observado!
- Este Cohen! exclamava elle para os lados. Que finamente observado!
Que traço adoravel! Hein, Craft?
Hein, Carlos? Delicioso!
Todos cortezmente admiraram a finura do Cohen. Elle agradecia, com o
olho enternecido, passando pelas suissas a mão onde reluzia um diamante. E
n'esse momento os creados serviam um prato de ervilhas n'um molho branco,
murmurando:
- Petits pois a la Cohen.
A la Cohen? Cada um verificou o seu menu mais attentamente. E lá
estava, era o legume: petit pois a la Cohen! Damaso, enthusiasmado, declarou
isto «chic a valer!» E fez-se, com o Champagne que se abria, a primeira saude
ao Cohen!
Esquecera-se a banca rota, a invasão, a patria - o jantar terminava
alegremente. Outras saudes crusaram-se, ardentes e loquazes: o proprio
Cohen, com o sorriso de quem cede a um capricho de creança, bebeu á
Revolução e á Anarchia, brinde complicado, que o
Ega erguera, já com o olho muito brilhante. Sobre a toalha, a sobremeza
alastrava-se, destroçada; no prato do Alencar as pontas de cigarros
misturavam-se a bocados de ananaz mastigado. Damaso, todo debruçado
sobre Carlos, fazia-lhe o elogio da parelha ingleza, e
d'aquelle phaeton que era a cousa mais linda que passeiava Lisboa. E logo
depois do seu brinde de demagogo, sem razão, Ega arremettera contra Craft,
injuriando a Inglaterra, querendo excluil-a d'entre as nações pensantes,
ameaçando-a de uma revolução social
que a ensoparia em sangue: o outro respondia com acenos de cabeça,
imperturbavel, partindo nozes.
Os creados serviram o café. E como havia já tres longas horas que estavam
á meza, todos se ergueram, acabando os charutos, conversando, na animação
viva que dera o Champagne. A sala, de tecto baixo, com os cinco bicos de gaz
ardendo largamente,
enchera-se de um calor pesado, onde se ia espalhando agora o aroma forte das
chartreuses e dos licores por entre a nevoa alvadia do fumo.
Carlos e Craft, que abafavam, foram respirar para a varanda; e ahi
recomeçou logo, n'aquella communidade de gostos que os começava a ligar, a
conversa da rua do Alecrim sobre a bella collecção dos Olivaes. Craft dava
detalhes; a cousa rica e rara que tinha
era um armario hollandez do seculo XVI; de resto, alguns bronzes, faianças e
boas armas...
Mas ambos se voltaram ouvindo, no grupo dos outros, junto á meza,
estridencias de voz, e como um conflicto que rompia: Alencar, sacudindo a
grenha, gritava contra a palhada philosophica; e do outro lado, com o calice de
cognac na mão, Ega, pallido e afectando uma tranquillidade superior,
declarava toda essa babuge lyrica que por ahi se publica digna da policia
correccional...
- Pegaram-se outra vez, veiu dizer Damaso a Carlos, approximando-se da
varanda. É por causa do Craveiro. Estão ambos divinos!
Era com effeito a proposito de poesia moderna, de Simão Craveiro, do seu
poema a Morte de Satanaz. Ega estivera citando, com enthusiasmo, estrophes
do episodio da Morte, quando o grande esqueleto symbolico passa em pleno
sol no Boulevard, vestido como
uma cocotte, arrastando sedas rumorosas
«E entre duas costellas, no decotte,»
«Tinha um bouquet de rosas!»
E o Alencar, que detestava o Craveiro, o homem da Idéa nova, o paladino
do Realismo, triumphara, cascalhara, denunciando logo n'essa simples
estrophe dois erros de grammatica, um verso errado, e uma imagem roubada a
Beaudelaire!
Então Ega, que bebera um sobre outro dois calices de cognac, tornou-se
muito provocante, muito pessoal.
- Eu bem sei por que tu fallas, Alencar, dizia elle agora. E o motivo não é
nobre. É por causa do epigramma que elle te fez:
O Alencar d'Alemquer,
Acceso com a primavera...
- Ah, vocês nunca ouviram isto? continuou elle voltando-se, chamando os
outros. É delicioso, é das melhores cousas do Craveiro. Nunca ouviste,
Carlos? É sublime, sobre tudo esta estrophe:
O Alencar d'Alemquer
Que quer? Na verde campina
Não colhe a tenra bonina
Nem consulta o malmequer...
Que quer? Na verde campina
O Alencar d'Alemquer
Quer menina!
Eu não me lembro do resto, mas termina com um grito de bom senso, que
é a verdadeira critica de todo esse lyrismo pandilha:
O Alencar d'Alemquer
Quer cacete!
Alencar passou a mão pela testa livida, e com o olho cavo fito no outro, a
voz rouca e lenta:
- Olha, João da Ega, deixa-me dizer-te uma cousa, meu rapaz... Todos
esses epigrammas, esses dichotes lorpas do rachitico e dos que o admiram,
passam-me pelos pés como um enxurro de cloaca... O que faço é arregaçar as
calças! Arregaço as calças... Mais
nada, meu Ega. Arregaço as calças!
E arregaçou-as realmente, mostrando a ceroula, n'um gesto brusco e de
delirio.
- Pois quando encontrares enchurros d'esses, gritou-lhe o Ega, agacha-te e
bebe-os! Dão-te sangue e força ao lyrismo!
Mas Alencar, sem o ouvir, berrava para os outros, esmurrando o ar:
- Eu, se esse Craveirete não fosse um rachitico, talvez me entretivesse a
rolal-o aos pontapés por esse Chiado abaixo, a elle e á versalhada, a essa
lambisgonhice excrementicia com que seringou Satanaz! E depois de o
besuntar bem de lama, esborrachava-lhe o craneo!
- Não se esborracham assim craneos, disse de lá o Ega n'um tom frio de
troça.
Alencar voltou para elle uma face medonha. A colera e o cognac
incendiavam-lhe o olhar; todo elle tremia:
- Esborrachava-lh'o, sim, esborrachava, João da Ega! Esborrachava-lh'o
assim, olha, assim mesmo! - Rompeu a atirar patadas ao soalho, abalando a
sala, fazendo tilintar crystaes e louças. - Mas não quero, rapazes! Dentro
d'aquelle craneo só ha excremento, vomito, puz, materia verde, e se lh'o
esborrachasse, por que lh'o esborrachava, rapazes, todo o miollo podre sahia,
empestava a cidade, tinhamos o cholera! Irra! Tinhamos a peste!
Carlos, vendo-o tão excitado, tomou-lhe o braço, quiz calmal-o:
- Então, Alencar! Que tolice... Isso vale lá pena!...
O outro desprendeu-se, arquejante, desabotoou a sobrecasaca, soltou o
ultimo desabafo:
- Com effeito, não vale a pena ninguem zangar-se por causa d'esse
Craveirote da Idéa nova, esse caloteiro, que se não lembra que a porca da irmã
é uma meretriz de doze vintens em Marco de Canavezes!
- Não, isso agora é de mais, pulha! gritou Ega, arremeçando-se, de punhos
fechados.
Cohen e Damaso, assustados, agarraram-n'o. Carlos puchara logo para o
vão da janella o Alencar que se debatia, com os olhos chammejantes, a gravata
solta. Tinha cahido uma cadeira; a correcta sala, com os seus divans de
marroquim, os seus ramos de camelias, tomava um ar de taverna, n'uma bulha
de faias, entre a fumaraça de cigarros. Damaso, muito pallido, quasi sem voz,
ía d'um a outro:
- Oh meninos, oh meninos, aqui, no Hotel Central! Jesus!... Aqui no Hotel
Central!...
E, d'entre os braços do Cohen, Ega berrava, já rouco:
- Esse pulha, esse covarde... Deixe-me, Cohen! Não, isso hei de
esbofeteal-o!... A D. Anna Craveiro, uma santa!... Esse calumniador... Não,
isso hei de esganal-o!...
Craft, no entanto, impassivel, bebia aos golos a sua chartreuse. Já
presenceára, mais vezes, duas litteraturas rivaes engalphinhando-se, rolando
no chão, n'um latir de injurias: a torpeza do Alencar sobre a irmã do outro
fazia parte dos costumes de critica em Portugal: tudo isso o deixava
indifferente, com um sorriso de desdem. Além d'isso sabia que a reconciliação
não tardaria, ardente e com abraços. E não tardou. Alencar sahiu do vão da
janella, atraz de Carlos, abotoando a sobrecasaca, grave e como arrependido.
A um canto da sala, Cohen fallava ao Ega com auctoridade, severo, á maneira
d'um pae: depois voltou-se, ergueu a mão, ergueu a voz, disse que alli todos
eram cavalheiros: e como homens de talento e de coração fidalgo os dois
deviam abraçar-se...
- Vá, um shake-hands, Ega, faça isso por mim!... Alencar, vamos, peçolh'o
eu!
O auctor de Elvira deu um passo, o auctor das Memorias d'um Atomo
estendeu a mão: mas o primeiro aperto foi gôche e molle. Então Alencar,
generoso e rasgado, exclamou que entre elle e o Ega não devia ficar uma
nuvem! Tinha-se excedido... Fôra o seu desgraçado genio, esse calor de
sangue, que durante toda a existencia só lhe trouxera lagrimas! E alli
declarava bem alto que Anna Craveiro era uma santa! Tinha-a conhecido em
Marco de Canavezes, em casa dos Peixotos... Como esposa, como mãe, Anna
Craveiro era impeccavel. E reconhecia, do fundo d'alma, que o Craveiro tinha
carradas de talento!...
Encheu um copo de Champagne, ergueu-o alto, diante do Ega, como um
calice de altar:
- Á tua, João!
Ega, generoso tambem, respondeu:
- Á tua, Thomaz!
Abraçaram-se. Alencar jurou que ainda na vespera, em casa de D. Joanna
Coutinho, elle dissera que não conhecia ninguem mais scintillante que o Ega!
Ega affirmou logo que em poemas nenhuns corria, como nos do Alencar, uma
tão bella veia lyrica. Apertaram-se
outra vez, com palmadas pelos hombros. Trataram-se de irmãos na arte,
trataram-se de genios!...
- São extraordinarios, disse Craft baixo a Carlos, procurando o chapéo.
Desorganisam-me, preciso ar!...
A noite alongava-se, eram onze horas. Ainda se bebeu mais cognac.
Depois Cohen sahiu levando o Ega. Damaso e Alencar desceram com Carlos -
que
ía recolher a pé pelo Aterro.
Á porta, o poeta parou com solemnidade.
- Filhos, exclamou elle tirando o chapéo e refrescando largamente a fronte,
então? Parece-me que me portei como um gentleman!
Carlos concordou, gabou-lhe a generosidade...
- Estimo bem que me digas isso, filho, porque tu sabes o que é ser
gentleman! E agora vamos lá por esse Aterro fóra... Mas deixa-me ir alli
primeiro comprar um pacote de tabaco...
- Que typo! exclamou Damaso, vendo-o affastar-se. E a cousa ía-se pondo
feia...
E immediatamente, sem transição, começou a fazer elogios a Carlos. 0 sr.
Maia não imaginava ha quanto tempo elle desejava conhecel-o!
- Oh senhor...
Creia v. ex.ª... Eu não sou de sabujices... Mas pode v. ex.ª perguntar ao
Ega, quantas vezes o tenho dito: v. ex.ª é a cousa melhor
que ha em Lisboa! Carlos, baixava a cabeça, mordendo o riso. Damaso,
repetia, do fundo do peito.
- Olhe que isto é sincero, sr. Maia! Acredite v ex.ª que isto é do coração!
Era realmente sincero. Desde que Carlos habitava Lisboa, tivera alli,
n'aquelle moço gordo e bochechudo, sem o saber, uma adoração muda e
profunda; o proprio verniz dos seus sapatos, a côr das suas luvas eram para o
Damaso motivo de veneração, e tão importantes como principios. Considerava
Carlos um typo supremo de chic, do seu querido chic, um Brummel, um
d'Orsay, um Morny, - uma «d'estas cousas que só se vêem lá fóra», como elle
dizia arregalando os olhos. N'essa tarde sabendo que vinha jantar com o
Maia, conhecer o Maia, estivera duas horas ao espelho experimentando
gravatas, perfumara-se como para os braços d'uma mulher; - e por causa de
Carlos mandara estacionar alli o coupé, ás dez horas, com o cocheiro de ramo
ao peito.
- Então essa senhora brazileira vive aqui? perguntou Carlos, que dera dous
passos, olhava uma janella allumiada no segundo andar.
Damaso seguiu-lhe o olhar.
- Vive lá do outro lado. Estão aqui ha quinze dias... Gente chic... E ella é
de appetecer, v. ex.ª reparou? Eu a bordo atirei-me... E ella dava cavaco! Mas
tenho andado muito preso desde que cheguei, jantar aqui, soirée acolá, umas
aventurasitas...Não tenho podido
cá vir, deixei-lhes só bilhetes; mas trago-a d'olho, que ella demora-se... Talvez
venha cá ámanhã, estou cá agora a sentir umas cocegas... E se me pilho só
com ella, zás, ferro-lhe logo um beijo! Que eu cá, não sei se v. ex.ª é a mesma
cousa, mas eu cá, com mulheres, a minha theoria é esta: attracão! Eu cá, é
logo: attracão!
N'esse momento Alencar voltava do estanco, de charuto na boca. Damaso
despediu-se, atirando muito alto ao cocheiro, para que Carlos ouvisse, a
adresse da Morelli, segunda dama de S. Carlos.
- Bom rapaz, este Damaso, dizia Alencar, travando de braço de Carlos, ao
seguirem ambos pelo Aterro. É lá muito dos Cohens, muito querido na
sociedade. Rapaz de fortuna, filho do velho Silva, o agiota, que esfolou muito
teu pae; e a mim tambem. Mas elle
assigna Salcede; talvez nome da mãe; ou talvez inventado. Bom rapaz... O pae
era um velhaco! Parece que estou a ouvir o Pedro dizer-lhe com o seu ar de
fidalgo, que o tinha e do grande: «Silva judeu, dinheiro, e a rôdo!»... Outros
tempos, meu Carlos, grandes
tempos. Tempos de gente!
E então por esse longo Aterro, triste no ar escuro, com as luzes do gaz
dormente luzindo em fila d'enterro, Alencar foi fallando d'esses «grandes
tempos» da sua mocidade e da mocidade de Pedro; e, atravéz das suas phrases
de lyrico, Carlos sentia vir como um
aroma antiquado d'esse mundo defunto... Era quando os rapazes ainda tinham
um resto de calor das guerras civis, e o calmavam indo em bando varrer
botequins ou rebentando pilecas de sejes em galopadas para Cintra. Cintra era
então um ninho de amores, e sob as
suas romanticas ramagens as fidalgas abandonavam-se aos braços dos poetas.
Ellas eram Elviras, elles eram Antonys. O dinheiro abundava; a côrte era
alegre; a Regeneração litterata e galante ia engrandecer o paiz, bello jardim da
Europa; os bachareis chegavam de
Coimbra, frementes de eloquencia; os ministros da corôa recitavam ao piano;
o mesmo sopro lyrico inchava as odes e os projectos de lei...
- Lisboa era bem mais divertida, disse Carlos.
- Era outra cousa, meu Carlos! Vivia-se! Não existiriam esses ares
scientificos, toda essa palhada philosophica, esses badamecos positivistas...
Mas havia coração, rapaz! Tinha-se faisca! Mesmo n'essas cousas da politica...
Vê esse chiqueiro agora ahi, essa malta de
bandalhos... N'esse tempo ía-se alli á camara e sentia-se a inspiração, sentia-se
o rasgo!... Via-se luz nas cabeças!... E depois, menino, havia muitissimo boas
mulheres.
Os hombros descahiam-lhe na saudade d'esse mundo perdido. E parecia
mais lugubre, com a sua grenha d'inspirado sahindo-lhe de sob as abas largas
do chapéo velho, a sobrecasaca coçada e mal feita collando-se-lhe
lamentavelmente ás ilhargas.
Um momento caminharam em silencio. Depois, na rua das Janellas
Verdes, o Alencar quiz refrescar. Entraram n'uma pequena venda, onde a
mancha amarella d'um candieiro de petroleo destacava n'uma penumbra de
subterraneo, allumiando o zinco humido do balcão, garrafas nas prateleiras, e
o vulto triste da patroa com um lenço amarrado nos queixos. Alencar parecia
intimo no estabelecimento: apenas soube que a sr.ª Candida estava com dôr de
dentes, aconselhou logo remedios, familiar, descido das nuvens romanticas,
com os cotovellos sobre o balcão. E quando Carlos quiz pagar a canna branca
zangou-se, bateu a sua placa de dois tostões sobre o zinco polido, exclamou
com nobreza:
- Eu é que faço a honra da bodega, meu Carlos! Nos palacios os outros
pagarão... Cá na taberna pago eu!
Á porta tomou o braço de Carlos. Depois d'alguns passos lentos no
silencio da rua, parou de novo, e murmurou n'uma voz vaga, contemplativa,
como repassada da vasta solemnidade da noite:
- Aquella Rachel Cohen é divinamente bella, menino! Tu conhecel'a?
- De vista.
- Não te faz lembrar uma mulher da Biblia? Não digo lá uma d'essas
viragos, uma Judith, uma Dalila... Mas um d'esses lyrios poeticos da Biblia...É
seraphica!
Era agora a paixão platonica do Alencar, a sua dama, a sua Beatriz...
- Tu viste ha tempos, no Diario Nacional, os versos que eu lhe fiz?
«Abril chegou! Sê minha»
Dizia o vento á rosa.
Não me sahiu mau! Aqui ha uma maliciasinha: Abril chegou, sê minha...
Mas logo: dizia o vento á rosa. Comprehendes? Calhou bem este effeito. Mas
não imagines lá outras cousas, ou que lhe faço a côrte... Basta ser a mulher do
Cohen, um amigo, um irmão... E a
Rachel, para mim, coitadinha, é como uma irmã... Mas é divina. Aquelles
olhos, filho, um velludo liquido!...
Tirou o chapeu, refrescou a fronte vasta. Depois n'outro tom, e como a
custo:
- Aquelle Ega tem muito talento... Vae lá muito aos Cohens... A Rachel
acha-lhe graça...
Carlos parára, estavam defronte do Ramalhete. Alencar deu um olhar á
severa frontaria de convento, adormecida, sem um ponto de luz.
- Tem bom ar esta vossa casa... Pois entra tu, meu rapaz, que eu vou
andando por aqui para a minha toca. E quando quizeres, filho, lá me tens na
rua do Carvalho, 52, 3.º andar. O predio é meu, mas eu occupo o terceiro
andar. Comecei por habitar no primeiro, mas tenho ido trepando... A unica
cousa mesmo que tenho trepado, meu Carlos, é de andares...
Teve um gesto, como desdenhando essas miserias.
- E has de ir lá jantar um dia. Não te posso dar um banquete, mas has de
ter uma sopa e um assado... O meu Matheus, um preto, (um amigo!) que
me serve ha muito anno, quando ha que cosinhar, sabe cosinhar! Fez muito
jantar a teu pae, ao meu pobre Pedro... Que aquillo foi casa de alegria, meu
rapaz. Dei lá cama e mesa, e dinheiro para a algibeira, a muita d'essa canalha
que hoje por ahi trota em coupé da companhia e de correio atraz... E agora,
quando me avistam, voltam para o lado o focinho...
- Isso são imaginações, disse Carlos com amisade.
- Não são, Carlos, respondeu o poeta, muito grave, muito amargo. Não
são. Tu não sabes a minha vida. Tenho soffrido muito repellão, rapaz. E não o
merecia! Palavra, que o não merecia...
Agarrou o braço de Carlos, e com a voz abalada:
- Olha que esses homens que por ahi figuram embebedavam-se comigo,
emprestei-lhes muito pinto, dei-lhes muita ceia... E agora são ministros, são
embaixadores, são personagens, são o diabo. Pois offereceram-te elles um
bocado do bolo agora que o teem na
mão? Não. Nem a mim. Isto é duro, Carlos, isto é muito duro, meu Carlos. E
que diabo, eu não queria que me fizessem conde, nem que me dessem uma
embaixada... Mas ahi alguma cousa n'uma secretaría... Nem um chavelho!
Emfim, ainda há para o bocado do pão,
e para a meia onça do tabaco... Mas esta ingratidão tem-me feito cabellos
brancos... Pois não te quero massar mais, e que Deus te faça feliz como tu
mereces, meu Carlos!
- Tu não queres subir um bocado, Alencar?
Tanta franqueza enterneceu o poeta.
- Obrigado, rapaz, disse elle, abraçando Carlos. E agradeço-te isso, porque
sei que vem do coração... Todos vocês teem coração... Já teu pae o tinha, e
largo, e grande como o d'um leão! E agora crê uma cousa: é que tens aqui um
amigo. Isto não é palavriado, isto vem de dentro... Pois adeus, meu rapaz.
Queres tu um charuto?
Carlos acceitou logo, como um presente do ceu.
- Então ahi tens um charuto, filho! exclamou Alencar com enthusiasmo.
E aquelle charuto dado a um homem tão rico, ao dono do Ramalhete,
fazia-o por um momento voltar aos tempos em que n'esse Marrare elle
estendia em redor a charuteira cheia, com o seu grande ar de Manfredo triste.
Interessou-se então pelo charuto. Accendeu
elle mesmo um phosphoro. Verificou se ficava bem acceso. E que tal, charuto
rasoavel? Carlos achava um excellente charuto!
- Pois ainda bem que te dei um bom charuto!
Abraçou-o outra vez; e estava batendo uma hora, quando elle emfim se
affastou, mais ligeiro, mais contente de si, trauteando um trecho de fado.
Carlos no seu quarto, antes de se deitar, acabando o pessimo charuto do
Alencar estirado n'uma chaiselongue, em quanto Baptista lhe fazia uma
chavena de chá, ficou pensando n'esse estranho passado que lhe evocara o
velho lyrico...
E era sympathico o pobre Alencar! Com que cuidado exagerado, ao fallar
de Pedro, d'Arroios, dos amigos e dos amores d'então, elle evitara pronunciar
sequer o nome de Maria Monforte! Mais de uma vez, pelo Aterro fóra,
estivera para lhe dizer: - pódes fallar da
mamã, amigo Alencar, que eu sei perfeitamente que ella fugiu com um
italiano!
E isto fêl-o insensivelmente recordar da maneira como essa lamentavel
historia lhe fôra revelada, em Coimbra, n'uma noite de troça, quasi
grotescamente. Por que o avô, obdecendo á carta testamentaria de Pedro,
contara-lhe um romance decente: um casamento de paixão, incompatibilidades
de naturezas, uma separação cortez, depois a retirada da mamã com a filha
para a França, onde tinham morrido ambas. Mais nada. A morte de seu pae
fôra-lhe apresentada sempre como o brusco remate d'uma longa nevrose...
Mas Ega sabia tudo, pelos tios... Ora uma noite tinham ceiado ambos; Ega
muito bebedo, e n'um accesso de idealismo, lançara-se n'um paradoxo
tremendo, condemnando a honestidade das mulheres como origem da
decadencia das raças: e dava por prova os
bastardos, sempre intelligentes, bravos, gloriosos! Elle, Ega, teria orgulho se
sua mãe, sua propria mãe, em logar de ser a santa burgueza que resava o terço
á lareira, fosse como a mãe de Carlos, uma inspirada, que por amor d'um
exilado abandonara fortuna, respeitos,
honra, vida! Carlos, ao ouvir isto, ficara petrificado, no meio da ponte, sob o
calmo luar. Mas não poude interrogar o Ega, que já taramellava, agoniado, e
que não tardou a vomitar-lhe ignobilmente nos braços. Teve de o arrastar á
casa das Seixas, despil-o, aturar-lhe os beijos e a ternura borracha, até que o
deixou abraçado ao travesseiro, babando-se, balbuciando - «que queria ser
bastardo, que queria que a mamã fosse uma marafona!...»
E elle mal podera dormir essa noite, com a idéa d'aquella mãe, tão outra do
que lhe haviam contado, fugindo nos braços d'um desterrado - um polaco
talvez! Ao outro dia, cedo, entrava pelo quarto do Ega, a pedir-lhe, pela sua
grande amisade, a verdade toda...
Pobre Ega! Estava doente: fez-se branco como o lenço que tinha amarrado
na cabeça com pannos de agua sedativa: e não achava uma palavra, coitado!
Carlos, sentado na cama, como nas noites de cavaco, tranquillisou-o. Não
vinha alli offendido, vinha alli curioso!
Tinham-lhe occultado um episodio extraordinario da sua gente, que diabo,
queria sabel-o! Havia romance? Para alli o romance!
Ega, então, lá ganhou animo, lá balbuciou a sua historia - a que ouvira ao
tio Ega - a paixão de Maria por um principe, a fuga, o longo silencio d'annos
que se fizera sobre ella...
Justamente as ferias chegavam. Apenas em Sta. Olavia, Carlos contou ao
avô a bebedeira do Ega, os seus discursos doidos, aquella revelação vinda
entre arrotos. Pobre avô! Um momento nem poude fallar - e a voz por fim
veiu-lhe tão debil e dolente como se
dentro do peito lhe estivesse morrendo o coração. Mas narrou-lhe, detalhe a
detalhe, o feio romance todo até áquella tarde em que Pedro lhe apparecera,
livido, coberto de lama, a cahir-lhe nos braços, chorando a sua dôr com a
fraqueza d'uma creança. - E o desfecho d'esse amor culpado, accrescentara o
avô, fôra a morte da mãe em Vienna d'Austria, e a morte da pequenita, da neta
que elle nunca vira, e que a Monforte levara... E eis ahi tudo. E assim, aquella
vergonha domestica estava agora enterrada, alli, no jazigo de Sta. Olavia, e em
duas sepulturas distantes, em paiz estrangeiro...
Carlos recordava-se bem que n'essa tarde, depois da melancolica conversa
com o avô, devia elle experimentar uma egoa ingleza: e ao jantar não se fallou
senão da egoa que se chamava Sultana. E a verdade era que d'ahi a dias tinha
esquecido a mamã. Nem lhe era
possivel sentir por esta tragedia senão um interesse vago e como litterario.
Isso passara-se havia vinte e tantos annos, n'uma sociedade quasi
desapparecida. Era como o episodio historico de uma velha chronica de
familia, um antepassado morto em Alcacer-Kebir, ou
uma das suas avós dormindo n'um leito real. Aquillo não lhe dera uma
lagrima, não lhe pozera um rubor na face. De certo, prefiriria poder orgulharse
de sua mãe, como d'uma rara e nobre flôr de honra: mas não podia ficar
toda a vida a amargurar-se com os seus
erros. E porque? A sua honra d'elle não dependia dos impulsos falsos ou
torpes que tivera o coração d'ella. Peccara, morrera, acabou-se. Restava, sim,
aquella idéa do pae, findando n'uma poça de sangue, no desespero d'essa
traição. Mas não conhecera seu pae: tudo o que possuia d'elle e da sua
memoria, para amar, era uma fria tela mal pintada, pendurada no quarto de
vestir, representando um moço moreno, de grandes olhos, com luvas de
camurça amarellas e um chicote na mão... De sua mãe não ficara nem um
daguerreotypo, nem sequer um contorno a lapis. O avô tinha-lhe dito que era
loura. Não sabia mais nada. Não os conhecera; não lhes dormira nos braços;
nunca recebera o calor da sua ternura. Pae, mãe, eram para elle como
symbolos d'um culto convencional. O papá, a mamã, os seres amados,
estavam alli todos - no avô.
Baptista trouxera o chá, o charuto do Alencar acabara; - e elle continuava
na chaise-longue, como amollecido n'estas recordações, e cedendo já, n'um
meio adormecimento, á fadiga do longo jantar... E então, pouco a pouco,
diante das suas palpebras cerradas, uma
visão surgiu, tomou côr, encheu todo o aposento. Sobre o rio, a tarde morria
n'uma paz elysia. O peristillo do Hotel Central alargava-se, claro ainda. Um
preto grisalho vinha, com uma cadelinha no collo. Uma mulher passava, alta,
com uma carnação eburnea, bella como
uma Deusa, n'um casaco de velludo branco de Genova. O Craft dizia ao seu
lado très-chic. E elle sorria, no encanto que lhe davam estas imagens, tomando
o relevo, a linha ondeante, e a coloração de cousas vivas.
Eram tres horas quando se deitou. E apenas adormecera, na escuridão dos
cortinados de seda, outra vez um bello dia de inverno morria sem uma aragem,
banhado de côr de rosa: o banal peristillo de Hotel alargava-se, claro ainda na
tarde; o escudeiro preto voltava, com a cadellinha nos braços; uma mulher
passava, com um casaco de velludo branco de Genova, mais alta que uma
creatura humana, caminhando sobre nuvens, com um grande ar de Juno que
remonta ao Olympo: a ponta dos seus sapatos de verniz enterrava-se na luz do
azul, por trás as saias batiam-lhe como bandeiras ao vento. E passava
sempre... O Craft dizia très-chic. Depois tudo se confundia, e era só o Alencar,
um Alencar colossal, enchendo todo o céu, tapando o brilho das estrellas com
a sua sobrecasaca negra e mal feita, os bigodes esvoaçando ao vendaval das
paixões, alçando os braços, clamando no espaço:
Abril chegou, sê minha!
VII
No Ramalhete, depois do almoço, com as tres janellas do escriptorio
abertas bebendo a tepida luz do bello dia de março, Affonso da Maia e Craft
jogavam uma partida de xadrez ao pé da chaminé já sem lume, agora cheia de
plantas, fresca e festiva como um altar
domestico. N'uma facha obliqua de sol, sobre o tapete, o Reverendo
Bonifacio, enorme e fôfo, dormia de leve a sua sesta.
Craft tornara-se, em poucas semanas, intimo no Ramalhete. Carlos e elle,
tendo muitas similitudes de gosto e de idéas, o mesmo fervor pelo bric-a-brac
e pelo bibelot, o uso apaixonado da esgrima, egual dillettantismo d'espirito,
uniram-se immediatamente em relações de superficie, faceis e amaveis. Affonso, por seu lado começara logo
a sentir uma estima elevada por aquelle gentleman de boa raça ingleza, como
elle os admirava, cultivado e forte, de maneiras graves, de habitos rijos,
sentindo finamente e pensando com rectidão.
Tinham-se encontrado ambos enthusiastas de Tacito, de Macaulay, de Burke,
e até dos poetas lakistas; Craft era grande no xadrez; o seu carater ganhara nas
longas e trabalhadas viagens a rica solidez d'um bronze; para Affonso da Maia
«aquillo era deveras um
homem». Craft, madrugador, sahia cedo dos Olivaes a cavallo, e vinha assim
ás vezes almoçar de surpreza com os Maias; por vontade de Affonso jantaria
lá sempre; - mas ao menos as noites passava-as invariavelmente no
Ramalhete, tendo emfim, como elle dizia,
encontrado em Lisboa um recanto onde se podia conversar bem sentado, no
meio de idéas, e com boa educação.
Carlos sahia pouco de casa. Trabalhava no seu livro. Aquella revoada de
clientella que lhe dera esperanças d'uma carreira cheia, activa, tinha passado
miseravelmente, sem se fixar; restavam-lhe tres doentes no bairro; e sentia
agora que as suas carruagens, os cavallos, o Ramalhete, os habitos de luxo, o
condemnavam irremediavelmente ao dillettantismo. Já o fino dr. Theodosio
lhe dissera um dia, francamente: «você é muito elegante p'ra medico! As suas
doentes, fatalmente, fazem-lhe olho! Quem é o burguez que lhe vae confiar a
esposa dentro d'uma alcova?... Você aterra o pater-familias!» O laboratorio
mesmo prejudicara-o. Os collegas diziam que o Maia, rico, intelligente, avido
de innovações, de modernismos, fazia sobre os doentes experiencias fataes.
Tinha-se troçado muito a sua idéa, apresentada na Gazeta Medica, a prevenção
das epidemias pela inoculação dos virus. Consideravam-no um phantasista. E
elle, então, refugiava-se todo n'esse livro sobre a medicina antiga e moderna, o
seu livro, trabalhado com vagares d'artista rico, tornando-se o interesse
intellectual de um ou dous annos.
N'essa manhã, em quanto dentro proseguia grave e silenciosa a partida de
xadrez, Carlos no terrasso, estendido n'uma vasta cadeira india de bambu, á
sombra do toldo, acabava o seu charuto, lendo uma Revista ingleza, banhado
pela caricia tepida d'aquelle bafo de primavera que avelludava o ar, fazia já
desejar arvores e relvas...
Ao lado d'elle, n'uma outra cadeira de bambu, tambem de charuto na boca,
o sr. Damaso Salcede percorria o Figaro. De perna estirada, n'uma indolencia
familiar, tendo o amigo Carlos ao seu lado, vendo junto ao terrasso as rosas
das roseiras de Affonso, sentindo
por trás, atravez das janellas abertas, o rico e nobre interior do Ramalhete - o
filho do agiota saboreava alli uma d'essas horas deliciosas que ultimamente
encontrava na intimidade dos Maias.
Logo na manhã seguinte ao jantar do Central, o sr. Salcede fôra ao
Ramalhete deixar os seus bilhetes, objectos complicados e vistosos, tendo ao
angulo, n'uma dobra simulada, o seu retratosinho em photographia, um
capacete com plumas por cima do nome - DAMASO CANDIDO DE
SALCEDE, por baixo as suas honras - COMMENDADOR DE CHRISTO, ao
fundo a sua adresse – Rua de S. Domingos, á Lapa; mas esta indicação estava
riscada, e ao lado, a tinta azul, esta outra mais apparatosa - GRAND HOTEL,
BOULEVARD DES CAPUCINES, CHAMBRE N.º l03. Em seguida
procurou Carlos no consultorio, confiou ao creado outro cartão. Emfim, uma
tarde, no Aterro, vendo passar Carlos a pé, correu para elle, pendurou-se
d'elle, conseguiu acompanhal-o ao Ramalhete.
Ahi, logo desde o pateo, rompeu em admirações extaticas, como dentro
d'um museu, lançando, diante dos tapetes, das faienças e dos quadros, a sua
grande phrase - «chic a valer!» Carlos levou-o para o fumoir, elle aceitou um
charuto; e começou a explicar, de
perna traçada, algumas das suas opiniões e alguns dos seus gostos.
Considerava Lisboa chinfrin, e só estava bem em Paris - sobre tudo por causa
do genero «femea» de que em Lisboa se passavam fomes: ainda que n'esse
ponto a Providencia não o tratava mal. Gostava
tambem do bric-a-brac; mas apanhava-se muita espiga, e as cadeiras antigas,
por exemplo, não lhe pareciam commodas para a gente se sentar. A leitura
entretinha-o, e ninguem o pilhava sem livros á cabeceira da cama;
ultimamente andava ás voltas com Daudet, que lhe
diziam ser muito chic, mas elle achava-o confusote. Em rapaz perdia sempre
as noites, até ás quatro ou cinco da madrugada, no delirio! Agora não, estava
mudado e pacato; emfim, não dizia que de vez em quando não se abandonasse
a um excessozinho; mas só em dias
duples... E as suas perguntas foram terriveis. O sr. Maia achava chic ter um
cab inglez? Qual era mais elegante, assim para um rapaz de sociedade que
quizesse ir passar o verão lá fóra, Nice ou Trouville?... Depois ao sahir, muito
serio, quasi commovido, perguntou ao sr.
Maia (se o sr.Maia não fazia segredo) quem era o seu alfaiate.
E desde esse dia, não o deixou mais. Se Carlos apparecia no theatro,
Damaso immediatamente arrancava-se da sua cadeira, ás vezes na
solemnidade d'uma bella aria, e pisando os botins dos cavalheiros,
amarrotando a compostura das damas, abalava, abria
d'estalo a claque, vinha-se installar na frisa, ao lado de Carlos, com a bochecha
corada, camelia na casaca, exhibindo os botões de punho que eram duas
enormes bolas. Uma ou duas vezes que Carlos entrara casualmente no
Gremio, Damaso abandonou logo a
partida, indifferente á indignação dos parceiros, para se vir collar á ilharga do
Maia, offerecer-lhe marrasquino ou charutos, seguil-o de sala em sala como
um rafeiro. N'uma d'essas occasiões, tendo Carlos soltado um trivial gracejo,
eis o Damaso rompendo em risadas soluçantes, rebolando-se pelos sophás,
com as mãos nas ilhargas, a gritar que rebentava! Juntaram-se socios; elle,
suffocado, repetia a pilheria; Carlos fugiu vexado. Chegou a odial-o;
respondia-lhe só com monossyllabos; dava voltas perigosas com o dog-cart se
lhe avistava de longe a bochecha, a coxa roliça. Debalde: Damaso Candido
Salcede filara-o, e para sempre.
Depois, um dia, Taveira appareceu no Ramalhete com uma extraordinaria
historia. Na vespera, no Gremio (tinham-lhe contado, elle não presenceara)
um sujeito, um Gomes, n'um grupo onde se commentavam os Maias, erguera a
voz, exclamara que Carlos era um
asno! Damaso, que estava ao lado mergulhado na Illustração, levantou-se,
muito pallido, declarou que, tendo a honra de ser amigo do sr. Carlos da Maia,
quebrava a cara com a bengala ao sr. Gomes se elle ousasse babujar outra vez
esse cavalheiro; e o sr. Gomes
tragou, com os olhos no chão, a affronta, por ser rachitico de nascença - e
porque era inquilino de Damaso e andava muito atrasado na renda. Affonso da
Maia achou este feito brilhante: e foi por desejo seu que Carlos trouxe o sr.
Salcede uma tarde a jantar ao
Ramalhete.
Este dia pareceu bello a Damaso como se fosse feito de azul e oiro. Mas
melhor ainda foi a manhã em que Carlos, um pouco incommodado e ainda
deitado, o recebeu no quarto, como entre rapazes... D'ahi datava a sua
intimidade: começou a tratar Carlos por você. Depois, n'essa semana, revelou
aptidões uteis. Foi despachar á alfandega (Villaça achava-se no Alemtejo) um
caixote de roupa para Carlos. Tendo apparecido n'um momento em que Carlos
copiava um artigo para a Gazeta Medica offereceu a sua boa letra, letra
prodigiosa, de uma belleza lithographica; e d'ahi por diante passava horas á
banca de Carlos, applicado e vermelho, com a ponta da lingua de fóra, o olho
redondo, copiando apontamentos, transcripções de Revistas, materiaes para o
livro... Tanta dedicação merecia um tu de familiaridade. Carlos deu-lh'o.
Damaso, no entanto, imitava o Maia com uma minuciosidade inquieta,
desde a barba que começava agora a deixar crescer até á forma dos sapatos.
Lançara-se no bric-a-brac. Trazia sempre o coupé cheio de lixos
archeologicos, ferragens velhas, um bocado de tijolo, a aza rachada de um
bule... E se avistava um conhecido, fazia parar, entreabria a portinhola como
um addito de sacrario, exhibia a preciosidade:
- Que te parece? Chic a valer!... Vou mostral-a ao Maia. Olha-me isto,
hein! Pura meia edade, do reinado de Luiz XIV. O Carlos vae-se roer de
inveja!
N'esta intimidade de rosas havia todavia para Damaso horas pesadas. Não
era divertido assistir em silencio, do fundo d'uma poltrona, ás infindaveis
discussões de Carlos e de Craft sobre arte e sobre sciencia. E, como elle
confessou depois, chegara a encavacar um pouco quando o levaram ao
laboratorio para fazer no seu corpo experiencias de electricidade... -
«Pareciam dois demonios engalphinhados em mim, disse elle á sr.ª condessa
de Gouvarinho; e eu então que embirro com o spiritismo!...»
Mas tudo isto ficava regiamente compensado, quando á noite, n'um sophá
do Gremio, ou ao chá n'uma casa amiga, elle podia dizer, correndo a mão pelo
cabello:
- Passei hoje um dia divino com o Maia. Fizemos armas, bric-a-brac,
discutimos... Um dia, chic! Ámanhã tenho uma manhã de trabalho com o
Maia... Vamos ás colxas.
N'esse domingo, justamente, deviam ir ás colxas, ao Lumiar. Carlos
concebera um boudoir, todo revestido de colxas antigas de setim, bordadas a
dous tons especiaes, perola e botão d'ouro. O tio Abrahão esquadrinhava-as
por toda a Lisboa e pelos suburbios; e
n'essa manhã viera annunciar a Carlos a existencia de duas preciosidades, so
beautiful! oh! so lovely! em casa de umas senhoras Medeiros que esperavam o
sr. Maia ás duas horas...
Já tres vezes Damaso tossira, olhara o relogio, - mas, vendo Carlos
confortavelmente mergulhado na Revista, recahia tambem na sua indolencia
de homem chic, investigando o Figaro. Emfim, dentro, o relogio Luiz XV
cantou argentinamente as duas...
- Esta é boa, exclamou Damaso ao mesmo tempo, com uma palmada na
coxa. Olha quem aqui me apparece! A Suzanna! A minha Suzanna!
Carlos não despegara os olhos da pagina.
- Oh Carlos, accrescentou elle, fazes favor? Ouve. Ouve esta que é boa.
Esta Suzanna é uma pequena que eu tive em Paris... Um romance! Apaixonouse
por mim, quiz-se envenenar, o diabo!... Pois diz aqui o Figaro que debutou
nas Folies-Bergeres. Falla n'ella...
É boa, hein? E era rapariguita chic... E o Figaro diz que ella teve aventuras,
naturalmente sabia o que se passou comigo... Todo o mundo sabia em Paris.
Ora a Suzanna!... Tinha bonitas pernas. E custou-me a vêr livre d'ella!
- Mulheres! murmurou Carlos, refugiando-se mais no fundo da Revista.
Damaso era interminavel, torrencial, inundante a fallar das «suas
conquistas», n'aquella solida satisfação em que vivia de que todas as mulheres,
desgraçadas d'ellas, soffriam a fascinação da sua pessoa e da sua toilette. E em
Lisboa, realmente, era exacto. Rico, estimado na sociedade, com coupé e
parelha, todas as meninas tinham para elle um olhar doce. E no démi-monde,
como elle dizia, «tinha prestigio a valer.» Desde moço fôra celebre, na capital,
por pôr casas a hespanholas; a uma mesmo dera carruagem ao mez; e
este fausto excepcional tornara-o bem depressa o D. João V dos prostibulos.
Conhecia-se tambem a sua ligação com a viscondessa da Gafanha, uma
carcassa esgalgada, caiada, rebocada, gasta por todos os homens validos do
paiz: ía nos cincoenta annos, quando chegou a vez do Damaso - e não era
decerto uma delicia ter nos braços aquelle esqueleto rangente e lubrico; mas
dizia-se que em nova dormira n'um leito real, e que augustos bigodes a tinham
lambuzado; tanta honra fascinou Damaso, e collou-se-lhe ás saias com uma
fidelidade tão sabuja, que a decrepita creatura, farta, enojada já, teve de o
enxotar á força e com desfeitas. Depois gozou uma tragedia: uma actriz do
Principe Real, uma montanha de carne, apaixonada por elle, n'uma noite de
ciume e de genebra, engoliu uma caixa de phosphoros; naturalmente d'ahi a
horas estava boa, tendo vomitado abominavelmente sobre o collete do
Damaso que chorava ao lado - mas desde então este homem de amor julgou-se
fatal! Como elle dizia a Carlos, depois de tanto drama na sua vida quasi
tremia, tremia verdadeiramente de fitar uma mulher...
- Passaram-se scenas com esta Suzanna! mumurou elle depois de um
silencio em que estivera catando pelliculas nos beiços.
E, com um suspiro, retomou o Figaro. Houve outra vez um silencio no
terrasso. Dentro, a partida continuava. Para lá da sombra do toldo, agora, o sol
ía aquecendo, batendo a pedra, os vasos de louça branca, n'uma refracção
d'ouro claro em que palpitavam as azas
das primeiras borboletas voando em redor dos craveiros sem flor: em baixo, o
jardim verdejava, immovel na luz, sem um bolir de ramo, refrescado pelo
cantar do repuxo, pelo brilho liquido da agoa do tanque, avivado, aqui e além,
pelo vermelho ou o amarello das rosas, pela carnação das ultimas camelias...
O bocado de rio que se avistava entre os predios era azul ferrete como o céu: e
entre rio e céu o monte punha uma grossa barra verde-escura, quasi negra no
resplendor do dia, com os dois moinhos parados no alto, as duas casinhas
alvejando em baixo, tão luminosas e cantantes que pareciam viver. Um
repouso dormente de domingo envolvia o bairro: e, muito alto, no ar, passava
o claro repique d'um sino.
- O duque de Norfolk chegou a Paris, disse Damaso n'um tom entendido e
traçando a perna. O duque de Norfolk é chic, não é verdade, ó Carlos?
Carlos, sem erguer os olhos, lançou para os céus um gesto, como
exprimindo o infinito do chic!
Damaso largara o Figaro para metter um charuto na boquilha; depois
desapertou os ultimos botões do collete, deu um puchão á camisa para mostrar
melhor a marca que era um S enorme sob uma corôa de conde, e de palpebra
cerrada, com o beiço trombudo, ficou mamando gravemente a boquilha...
- Tu estás hoje em belleza, Damaso, disse-lhe Carlos que deixara tambem
a Revista e o contemplava com melancolia.
Salcede corou de gozo. Escorregou um olhar ao verniz dos sapatos, á meia
côr de carne, e revirando para Carlos o bogalho azulado da orbita:
- Eu agora ando bem... Mas, muito blazè.
E foi realmente com um ar blazè que se ergueu a ir buscar a uma mesa de
jardim, ao lado, onde estavam jornaes e charutos, a Gazeta Illustrada, «para
vêr o que ia pela patria.» Apenas lhe deitou os olhos soltou uma exclamação.
- Outro debute? perguntou Carlos.
- Não, é a besta do Castro Gomes!
A Gazeta Illustrada annunciava que «o sr. Castro Gomes, o cavalheiro
brasileiro que no Porto fôra victima da sua dedicação por occasião da desgraça
occorrida na Praça Nova, e de que o nosso correspondente J. T. nos deu uma
descripção tão opulenta de colorido realista, acha-se restabelecido e é hoje
esperado no Hotel Central. Os nossos parabens ao arrojado gentleman.»
- Ora está s. ex.ª restabelecida! exclamou Damaso, atirando para o lado o
jornal. Pois deixa estar, que agora é a occasião de lhe dizer na cara o que
penso... Aquelle pulha!
- Tu exageras, murmurou Carlos, que se apoderara vivamente do jornal, e
relia a noticia.
- Ora essa! exclamou Damaso, erguendo-se. Ora essa! Queria vêr, se fosse
comtigo... É uma besta! É um selvagem!
E repetiu mais uma vez a Carlos essa historia que o magoava. Desde a sua
chegada de Bordeus, logo que o Castro Gomes se installara no Hotel Central,
elle fôra deixar-lhe bilhetes duas vezes - a ultima na manhã seguinte ao jantar
do Ega. Pois bem, s. ex.ª não
se dignara agradecer a visita! Depois elles tinham partido para o Porto; fôra
ahi que, passeiando só na Praça Nova, vendo a parelha deuma caleche
desbocada, duas senhoras em gritos, Castro Gomes se lançára ao freio dos
cavallos - e, cuspido contra as grades, tinha
deslocado um braço. Teve de ficar no Porto, no Hotel, cinco semanas. E elle
immediatamente (sempre com o olho na mulher) mandara-lhe dois
telegrammas: um de sentimento, lamentando, outro de interesse, pedindo
noticias. Nem a um, nem a outro, o animal respondeu!
- Não, isso - exclamava Salcede, passeiando pelo terraço, e recordando
estas injurias - hei de lhe fazer uma desfeita!... Não pensei ainda o quê, mas ha
de amargar-lhe... Lá isso, desconsiderações não admitto a ninguem! a
ninguem!
Arredondava o olho, ameaçador. Desde o seu feito no Gremio, quando o
rachitico apavorado emmudecera diante d'elle, Damaso ia-se tornando feroz.
Pela menor cousa fallava em «quebrar caras.»
- A ninguem! repetia elle, com puxões ao collete. Desconsiderações, a
ninguem!
N'esse momento ouviu-se dentro, no escriptorio, a voz rapida do Ega - e
quasi immediatamente elle appareceu, com um ar de pressa, e atarantado.
- Olá, Damasosinho!... Carlos, dás-me aqui em baixo uma palavra?
Desceram do terraço, penetraram no jardim, até junto de duas olaias em
flôr.
- Tu tens dinheiro? - foi ahi logo a exclamação anciosa do Ega.
E contou a sua terrivel atrapalhação. Tinha uma letra de noventa libras que
se vencia no dia seguinte. Além d'isso, vinte e cinco libras que devia ao
Eusebiosinho, e que elle lhe reclamara n'uma carta indecente: e era isto que
desesperava o Ega...
- Quero pagar a esse canalha, e quando o vir collar-lhe a carta á cara com
um escarro. Além d'isso a letra! E tenho para tudo isto quinze tostões...
- O Eusebiosinho é homem de ordem... Emfim, queres cento e quinze
libras, disse Carlos.
Ega hesitou, com uma côr no rosto. Já devia dinheiro a Carlos. Estava-se
sempre dirigindo áquella amisade, como a um cofre inexgotavel...
- Não, bastam-me oitenta. Ponho o relogio no prego, e a pelissa, que já não
faz frio...
Carlos sorriu, subiu logo ao quarto a escrever um cheque - em quanto Ega
procurava cuidadosamente um bonito botão de rosa para florir a sobrecasaca.
Carlos não tardou, trazendo na mão o cheque, que alargara até cento e vinte
libras, para o Ega ficar armado...
- Seja pelo amor de Deus, menino! disse o outro, embolsando o papel, com
um bello suspiro de allivio.
Immediatamente trovejou contra o Eusebiosinho, esse villão! Mas tinha já
uma vingança. Ia remetter-lhe a somma toda em cobre, n'um sacco de carvão,
com um rato morto dentro, e um bilhete, começando assim: - ascorosa
lombriga e immunda osga, ahi te atiro ao focinho, etc....
- Como tu podes consentir aqui, usando as tuas cadeiras, respirando o teu
ar, aquelle ser repulsivo!...
Mas era até sujo mencionar o Eusebiosinho!... Quiz saber dos trabalhos de
Carlos, do grande livro. Fallou tambem do seu Atomo: - e, por fim, n'uma voz
diferente, applicando o monocolo a Carlos:
- Dize-me outra cousa. Porque não tens tu voltado aos Gouvarinhos?
Carlos tinha só esta rasão: não se divertia lá.
Ega encolheu os hombros. Parecia-lhe aquillo uma puerilidade...
- Tu não percebeste nada, exclamou elle. Aquella mulher tem uma paixão
por ti... Basta que se pronuncie o teu nome, sobe-lhe todo o sangue á cara.
E como Carlos ria, incredulo, Ega, muito grave, deu a sua palavra de
honra. Ainda na vespera, estava-se fallando de Carlos, e elle espreitara-a. Sem
ser um Balzac, nem uma broca de observação, tinha a visão correcta: pois
bem, lá lhe vira na face, nos olhos, toda a
expressão de um sentimento sincero...
- Não estou a fazer romance, menino... Gosta de ti, palavra! Tenl-a quando
quiseres.
Carlos achava deliciosa aquella naturalidade mephistophelica com que Ega
o induzia a quebrar uma infinidade de leis religiosas, moraes, sociaes,
domesticas...
- Ah bem, exclamou Ega, se tu me vens com essa blague da cartilha e do
codigo, então não fallemos mais n'isso! Se apanhaste a sarna da virtude, com
comichões por qualquer cousa, então era uma vez um homem, vae para a
Trappa commentar o Ecclesiastes..
- Não - disse Carlos, sentando-se n'um banco sob as arvores, ainda com
uns restos da preguiça do terraço - o meu motivo não é tão nobre. Não vou lá,
porque acho o Gouvarinho um massador.
Ega teve um sorriso mudo.
- Se a gente fosse a fugir das mulheres que tem maridos massadores...
Sentou-se ao lado de Carlos, começou a riscar em silencio o chão areado; e
sem erguer os olhos, deixando cahir as palavras, uma a uma, com melancolia:
- Antes de hontem, toda a noite, a pé firme, das dez á uma, estive a ouvir a
historia da demanda do Banco Nacional!
Era quasi uma confidencia, e como o desabafo dos tedios secretos em que
se debatia, n'aquelle mundo dos Cohens, o seu temperamento de artista. Carlos
enterneceu-se.
- Meu pobre Ega, então toda a demanda?
- Toda! E a leitura do relatorio da assembléa geral! E interessei-me! E tive
opiniões!... A vida é um inferno.
Subiram ao terraço. Damaso reoccupara a sua cadeira de vime, e, com um
canivetesinho de madreperola, estava tratando das unhas.
- Então decidiu-se? perguntou elle logo ao Ega.
- Decidiu-se hontem! Não ha cotillon.
Tratava-se de uma grande soirée mascarada que íam dar os Cohens, no dia
dos annos de Rachel. A idéa d'esta festa sugerira-a o Ega, ao principio com
grandes proporções de gala artistica, a ressurreição historica de um sarau no
tempo de D. Manuel. Depois viu-se que uma tal festa era irrealisavel em
Lisboa - e desceu-se a um plano mais sobrio, um simples baile costumé, a
capricho...
- Tu, Carlos, já decidiste como vaes?
- De dominó, um severo dominó preto, como convém a um homem de
sciencia...
- Então, exclamou Ega se se trata de sciencia, vae de rabona e chinellas de
ourello!... A sciencia faz-se em casa e de chinellas... Nunca ninguem
descobriu uma lei do Universo mettido dentro de um dominó... Que
sensaboria, um dominó!...
Justamente a sr.ª D. Rachel desejava evitar, no seu baile, essa monotonia
dos dominós. E em Carlos não havia desculpa. Não o prendiam vinte ou trinta
libras; e, com aquelle esplendido physico de cavalleiro da Renascença, devia
ornar a sala pelo menos com um
soberbo Francisco I.
- É n'isto, ajuntava elle com fogo, que está a belleza de uma soirée de
mascaras! Não lhe parece você, Damaso? Cada um deve aproveitar a sua
figura... Por exemplo, a Gouvarinho vae muito bem. Teve uma inspiração:
com aquelle cabello ruivo, o nariz curto, as maçãs do rosto salientes, é
Margarida de Navarra...
- Quem é Margarida de Navarra? perguntou Affonso da Maia,
apparecendo no terraço com Craft.
- Margarida, a duqueza d'Angouleme, a irmã de Francisco I, a Margarida
das Margaridas, a perola dos Valois, a padroeira da Renascença, a sr.ª
condessa de Gouvarinho!...
Rio muito, foi abraçar Affonso, explicou-lhe que se discutia o baile dos
Cohens. E appellou logo para elle, para o Craft tambem, ácerca do nefando
dominó de Carlos. Não estava aquelle mocetão, com os seus ares de homem
d'armas, talhado para um soberbo
Francisco I, em toda a gloria de Marignan?
O velho deu um olhar enternecido á belleza do neto.
- Eu te digo, John, talvez tenhas razão; mas Francisco I, rei de França, não
se póde apear de uma tipoia e entrar n'uma sala, só. Precisa côrte, arautos,
cavalleiros, damas, bobos, poetas... Tudo isso é difficil.
Ega curvou-se. Sim senhor, d'accordo! Alli estava uma maneira
intelligente de comprehender o baile dos Cohens!
- E tu, de que vaes? perguntou-lhe Affonso.
Era um segredo. Tinha a theoria de que, n'aquellas festas, um dos encantos
consistia na surpreza: dois sujeitos por exemplo que tendo jantado juntos, de
jaquetão, no Bragança, se encontram á noite, um na purpura imperial de
Carlos V, outro com a escopeta de bandido da Calabria...
- Eu cá não faço segredo, disse ruidosamente Damaso. Eu cá vou de
selvagem.
- Nú?
- Não. De Nelusko na Africana. Oh sr. Affonso da Maia, que lhe parece?
Acha chic?
- Chic não exprime bem, disse Affonso sorrindo. Mas grandioso, é,
decerto.
Quizeram então saber como ía Craft. Craft não ía de cousa nenhuma; Craft
ficava nos Olivaes, de robe de chambre.
Ega encolheu os hombros com tedio, quasi com colera. Aquellas
indiferenças pelo baile dos Cohens feriam-n'o como injurias pessoaes. Elle
estava dando a essa festa o seu tempo, estudos na bibliotheca, um trabalho
fumegante de imaginação; e pouco a pouco ella tomava aos seus olhos a
importancia de uma celebração d'arte, provando o genio de uma cidade. Os
«dominós», as abstenções, pareciam-lhe evidencias de inferioridade de
espirito. Citou então o exemplo do Gouvarinho: alli estava um homem de
occupações, de posição politica, nas vesperas de ser ministro, que não só ía ao
baile, mas estudara o seu costume: estudara, e ía muito bem, ía de marquez de
Pombal!
- Reclame para ser ministro, disse Carlos.
- Não o precisa, exclamou Ega. Tem todas as condições para ser ministro:
tem voz sonora, leu Mauricio Block, está encalacrado, e é um asno!...
E no meio das risadas dos outros, elle, arrependido de demolir assim um
cavalheiro que se interessava pelo baile dos Cohens, acudiu logo:
- Mas é muito bom rapaz, e não se dá ares nenhuns! É um anjo!
Affonso reprehendia-o, risonho e paternal:
- Ora tu, John, que não respeitas nada...
O desacato é a condição do progresso, sr. Affonso da Maia. Quem respeita
decahe. Começa-se por admirar o Gouvarinho, vae-se a gente esquecendo,
chega a reverenciar o monarcha, e quando mal se precata tem descido a
venerar o Todo-Poderoso!... É necessario cautela!
- Vae-te embora, John, vae-te embora! Tu és o proprio Anti-Christo...
Ega ía responder, exhuberante e em veia - mas dentro o tinir argentino do
relogio Luiz XV, com o seu gentil minuete, emmudeceu-o.
- O que? quatro horas!
Ficou aterrado, verificou no seu proprio relogio, deu em redor rapidos,
silenciosos apertos de mão, desappareceu como um sopro.
Todos de resto estavam pasmados de ser tão tarde! E assim passara a hora
de ir ao Lumiar vêr as colxas antigas das senhoras Medeiros...
- Quer você então meia hora de florete, Craft? perguntou Carlos.
- Seja: e é necessario dar a lição ao Damaso...
- É verdade, a lição... - murmurou Damaso sem enthusiasmo, com um
sorriso murcho.
A sala de esgrima era uma casa terrea, debaixo dos quartos de Carlos, com
janellas gradeadas para o jardim, por onde resvalava, atravez das arvores, uma
luz esverdinhada. Em dias enevoados era neccessario accender os quatro bicos
de gaz. Damaso seguiu, atraz
dos dois, com uma lentidão de rez desconfiada.
Aquellas lições, que elle sollicitara por amor do chic, íam-se-lhe tornando
odiosas. E n'essa tarde como sempre, apenas se enchumaçou com o plastrão
d'anta, se cobriu com a caraça de arame, começou a transpirar, a fazer-se
branco. Diante d'elle Craft de florete na mão, parecia-lhe cruel e bestial, com
aquelles seus hombros de Hercules sereno, o olhar claro e frio. Os dois ferros
rasparam. Damaso estremeceu todo.
- Firme, gritou-lhe Carlos.
O desgraçado equilibrava-se sobre a perna roliça; o florete de Craft vibrou,
rebrilhou, voou sobre elle; Damaso recuou, suffocado, cambaleando e com o
braço frouxo...
- Firme! berrava-lhe Carlos.
Damaso, exhausto, abaixou a arma.
- Então que querem vocês, é nervoso! É por ser a brincar... Se fosse a
valer, vocês veriam.
Assim acabava sempre a lição; e ficava depois abatido sobre uma banqueta
de marroquim, arejando-se com o lenço, pallido como a cal dos muros.
- Vou-me até casa, disse elle d'ahi a pouco, fatigado de tanto crusar de
ferro. Queres alguma cousa, Carlinhos?
- Quero que venhas cá jantar ámanhã... Tens o marquez.
- Chic a valer... Não faltarei.
Mas faltou. E, como toda essa semana aquelle moço ponctual não
appareceu no Ramalhete, Carlos sinceramente inquieto, julgando-o
moribundo, foi uma manhã a casa d'elle, á Lapa. Mas ahi, o creado (um
gallego achavascado e triste, que, desde as suas relações com os Maias,
Damaso trazia entalado n'uma casaca e mortalmente aperreado em sapatos de
verniz) affirmou-lhe que o sr. Damasosinho estava de boa saude, e até sahira a
cavallo. Carlos veiu então ao tio Abrahão; o tio Abrahão tambem não avistara,
havia dias, aquelle bom senhor Salcede, that beautiful gentleman! A
curiosidade de Carlos levou-o ao Gremio: no Gremio nenhum creado vira
ultimamente o sr. Salcede. «Está por ahi de lua de mel com alguma bella
andaluza» pensou Carlos.
Chegara ao fim da rua do Alecrim quando viu o conde de Steinbroken que
se dirigia ao Aterro, a pé, seguido da sua vittoria a passo. Era a segunda vez
que o diplomata fazia exercicio depois do seu desgraçado ataque de entranhas.
Mas não tinha já vestigios da doença: vinha todo rosado e loiro, muito solido
na sua sobrecasaca, e com uma bella rosa de chá na botoeira. Declarou mesmo
a Carlos que estava «mais forrte». E não lamentava os soffrimentos, porque
elles lhe tinham dado o meio de apreciar as sympathias que gosava em Lisboa.
Estava enternecido. Sobretudo o cuidado de S. M. - o augusto cuidado de S.
M. - fizera-lhe melhor que «todos os drogues de botique»! Realmente nunca
as relações entre esses dois paizes, tão estreitamente alliados, Portugal e
Filandia, tinham sido «màs firmes, pur assi dizerre màs intimes, que durrante
seu ataque de intestinaes»!
Depois, travando do braço a Carlos, alludiu commovido ao offerecimento
de Affonso da Maia, que pozera á sua disposição Sta. Olavia, para elle se
restabelecer n'esses ares fortes e limpos do Douro. Oh esse convite tocara-o au
plus profond de son coeur. Mas,
infelizmente, Sta. Olavia era longe, tão longe!... Tinha de se contentar com
Cintra, d'onde podia vir todas as semanas, uma, duas vezes, vigiar a Legação.
C'était ennuyeux, mais... A Europa estava n'um d'esses momentos de crise, em
que homens d'estado, diplomatas, não
podiam affastar-se, gosar as menores ferias. Precisavam estar alli, na brecha,
observando, informando...
- C'est très grave, murmurou elle, parando, com um pavor vago no olhar
azulado... C'est excessivement grave!
Pediu a Carlos que olhasse em torno de si para a Europa. Por toda a parte
uma confusão, um gachis. Aqui a questão do Oriente; alem o socialismo; por
cima o Papa, a complicar tudo... Oh, très grave!
- Tenez, la France, par exemple... D'abord Gambetta. Oh, je ne dis pas
non, il est très fort, il est excessivement fort... Mais... Voilá! C'est très grave...
Por outro lado os radicaes, les nouvelles couches... Era excessivamente
grave...
- Tenez, je vais vous dire une chose, entre nous!
Mas Carlos não escutava, nem sorria já. Do fim do Aterro approximava-se,
caminhando depressa, uma senhora - que elle reconheceu logo, por esse andar
que lhe parecia de uma deusa pisando a terra, pela cadellinha côr de prata que
lhe trotava junto ás saias, e por aquelle corpo maravilhoso, onde vibrava, sob
linhas ricas de marmore antigo, uma graça quente, ondeante e nervosa. Vinha
toda vestida de escuro, n'uma toilette de serge muito simples que era como o
complemento natural da sua pessoa, collando-se bem sobre ella, dando-lhe, na
sua correcção, um ar casto e forte; trazia na mão um guarda-sol inglez,
apertado e fino como uma cana; e toda ella, adiantando-se assim no luminoso
da tarde, tinha, n'aquelle caes triste de cidade antiquada, um destaque
estrangeiro, como o
requinte raro de civilisações superiores. Nenhum véo, n'essa tarde, lhe
assombreava o rosto. Mas Carlos não poude detalhar-lhe as feições; apenas
d'entre o esplendor eburneo da carnação sentiu o negro profundo de dois olhos
que se fixaram nos seus. Insensivelmente deu um passo para a seguir. Ao seu
lado Steinbroken, sem vêr nada, estava achando Bismarch assustador. Á
maneira que ella se affastava, parecia-lhe maior, mais bella: e aquella imagem
falsa e litteraria de uma deusa marchando pela terra prendia-se-lhe á
imaginação. Steinbroken ficara aterrado com o discurso do Chanceller no
Reichstag... Sim, era bem uma deusa. Sob o chapéo n'uma fórma de trança
enrolada, apparecia o tom do seu cabello castanho, quasi louro á luz; a
cadellinha trotava ao lado, com as orelhas direitas.
- Evidentemente, disse Carlos, Bismarck é inquietador...
Steinbroken porém já deixara Bismark. Steinbroken agora atacava lord
Beaconsfield.
- Il est très fort... Oui, je vous l'accorde, il est excessivement fort... Mais
voilà... Où va-t-il?
Carlos olhava para o caes de Sodré. Mas tudo lhe parecia deserto.
Steinbroken antes de adoecer, justamente, tinha dito ao ministro dos negocios
estrangeiros aquillo mesmo: lord Beaconsfield é muito forte, mas para onde
vae elle? O que queria elle?... E s. ex.ª tinha
encolhido os hombros... S. ex.ª não sabia...
- Eh, oui! Beaconsfield est très fort... Vous avez lu son speech chez le
Lord-Maire? Epatant, mon cher, epatant!... Mais voilà... Où va-t-il?
- Steinbroken, não me parece que seja prudente deixar-se estar aqui a
arrefecer no Aterro...
- Devérras? exclamou o diplomata, passando logo a mão rapidamente pelo
estomago e pelo ventre.
E não se quiz demorar um instante mais! Como Carlos ía recolher
tambem, offereceu-lhe um logar na vittoria até ao Ramalhete.
- Venha então jantar comnosco, Steinbroken.
- Charmé, mon cher, charmé...
A vittoria partiu. E o diplomata agazalhando as pernas e o estomago n'um
grande plaid escossez:
- Pôs, Maia, fezemos um bello passêo... Mas este Atêrro no é deverrtido.
Não era divertido o Aterro!... Carlos achara-o n'essa tarde o mais delicioso
logar da terra!
Ao outro dia, voltou mais cedo; e, apenas dera alguns passos entre as
arvores, viu-a logo. Mas não vinha só; ao seu lado o marido, esticado, apurado
n'uma jaqueta de casimira quasi branca, com uma ferradura de diamantes no
setim negro da gravata, fumava, indolente e languido, e trazia a cadellinha
debaixo do braço. Ao passar, deu um olhar surprehendido a Carlos - como
descobrindo emfim entre os barbaros um ser de linha civilisada, e disse-lhe
algumas palavras baixo, a ella.
Carlos encontrara outra vez os seus olhos, profundos e serios: mas não lhe
parecera tão bella; trazia uma outra toilette menos simples, de dois tons, côr de
chumbo e côr de creme, e no chapéo, d'abas grandes á ingleza, vermelhava
alguma cousa, flôr ou penna. N'essa tarde não era a deusa descendo das
nuvens d'ouro que se enrolavam alem sobre o mar; era uma bonita senhora
estrangeira que recolhia ao seu hotel.
Voltou ainda tres vezes ao Aterro, não a tornou a vêr; e então
envergonhou-se, sentiu-se humilhado com este interesse romanesco que o
trazia assim n'uma inquietação de rafeiro perdido, farejando o Aterro, da
rampa de Santos ao caes de Sodré, á espera de uns olhos negros e de uns
cabellos louros de passagem em Lisboa, e que um paquete da Royal Mail
levaria uma d'essas manhãs...
E pensar que toda essa semana deixara o seu trabalho abandonado sobre a
meza! E que todas as tardes, antes de sahir, se demorava ao espelho,
estudando a gravata! Ah, miseravel, miseravel natureza.
Ao fim d'essa semana, Carlos estava no consultorio, já para sahir, calçando
as luvas, quando o creado entreabriu o reposteiro, e murmurou com alvoroço:
- Uma senhora!
Appareceu um menino muito pallido, de caracoes louros, vestido de
velludo preto - e atraz uma mulher, toda de negro, com um véo justo e espesso
como uma mascara.
- Creio que vim tarde, disse ella, hesitando, junto da porta. O sr. Carlos da
Maia ia sahir...
Carlos reconheceu a Gouvarinho.
- Oh senhora condessa!
Desembaraçou logo o divan dos jornaes e das brochuras; ella olhou um
momento, como indecisa, aquelle amplo e molle assento de serralho; depois
sentou-se á borda e de leve, com o pequeno junto de si.
- Venho trazer-lhe um doente, disse ella sem erguer o véu, como fallando
do fundo d'aquella toilette negra que a dissimulava. Não o mandei chamar, por
que realmente pouco é, e tinha hoje de passar por aqui... Além d'isso, o meu
pequeno é muito nervoso; se vê entrar o medico, parece-lhe que vae morrer.
Assim é como uma visita que se faz... E não tens medo, não é verdade,
Charlie?
O pequeno não respondeu; de pé, quedo ao lado da mamã; mimoso e debil
sob os caracoes d'anjo que lhe cahiam até aos hombros, devorava Carlos com
uns grandes olhos tristes.
Carlos poz um interesse quasi terno na sua pergunta:
- Que tem elle?
Havia dias, apparecera-lhe uma empigem no pescoço. Além d'isso, por
traz da orelha, tinha como uma dureza de caroço. Aquillo inquietava-a. Ella
era forte, de uma boa raça, que dera athletas e velhos de grande edade. Mas na
familia do marido, em todos os Gouvarinhos, havia uma anemia hereditaria. O
conde mesmo, com aquella solida apparencia, era um achacado. E ella,
receiando que a influencia debilitante de Lisboa não conviesse a Charlie,
estava com o vago projecto de lhe fazer ir passar algum tempo ao campo, em
Formoselha, a casa da avó.
Carlos, approximando ligeiramente a cadeira, estendeu os braços a
Charlie:
- Ora venha cá o meu lindo amigo, para vermos isso. Que magnifico
cabello elle tem, senhora condessa!...
Ella sorrio. E Charlie, seriosinho, bem ensinado, sem aquelle terror do
medico de que fallara a mamã veio logo, desapertou delicadamente o seu
grande collarinho, e, quasi entre os joelhos de Carlos, dobrou o pescoço macio
e alvo como um lyrio.
Carlos vio apenas uma pequena mancha côr de rosa desvanecendo-se; do
«caroço» não havia vestigio; e então uma ligeira vermelhidão subiu-lhe ao
rosto, procurou vivamente os olhos da condessa, como comprehendendo tudo,
querendo vêr n'elles a confissão do sentimento que a trouxera alli com um
pretexto pueril, sob aquella toilette negra, aquelles véus que a mascaravam...
Mas ella permaneceu impenetravel, sentada á borda do divan, com as
mãos crusadas, attenta, como esperando as suas palavras, n'um vago susto de
mãe.
Carlos abotoou o collarinho do pequeno, e disse:
- Não é absolutamente nada, minha senhora.
No entanto, fez perguntas de medico sobre o regimen e a natureza de
Charlie. A condessa, n'um tom pesaroso, queixou-se de que a educação da
creança não fosse, como ella desejava, mais forte e mais viril; mas o pae
oppunha-se ao que elle chamava «a aberração ingleza», a agua fria, os
exercicios a todo o ar, a gymnastica...
- A agoa fria e a gymnastica, disse Carlos sorrindo, teem melhor reputação
do que merecem...
É o seu unico filho, senhora condessa?
- É, tem os mimos de morgado, disse ella passando a mão pelos cabellos
louros do pequeno.
Carlos assegurou-lhe que, apezar do seu aspecto nervoso e delicado,
Charlie não devia dar-lhe cuidado; nem havia necessidade de o exilar para os
ares de Formoselha... Depois ficaram um momento callados.
- Não imagina como me tranquillisou, disse ella, erguendo-se, dando um
geito ao veu. De mais a mais é um gosto vir consultal-o... Não ha aqui o
menor ar de doença, nem de remedios... E realmente tem isto muito bonito... -
accrescentou, dando um olhar lento em
redor aos velludos do gabinete.
- Tem justamente esse defeito, exclamou Carlos rindo. Não inspira
nenhum respeito pela minha sciencia... Eu estou com idêas d'alterar tudo, pôr
aqui um crocodilho empalhado, corujas, retortas, um esqueleto, pilhas d'infolios...
- A cella de Fausto.
- Justamente, a cella de Fausto.
- Falta-lhe Mephistopheles, disse ella alegremente, com um olhar que
brilhou sob o véo.
- O que me falta é Margarida!
A senhora condessa, com um lindo movimento, encolheu os hombros,
como duvidando discretamente; depois tomou a mão de Charlie, e deu um
passo lento para a porta, puxando outra vez o véo.
- Como v. ex.ª se interessa pela minha installação, acudiu Carlos querendo
retel-a, deixe-me mostrar-lhe a outra sala.
Correu o reposteiro. Ella approximou-se, murmurou algumas palavras,
approvando a frescura dos cretones, a harmonia dos tons claros: depois o
piano fel-a sorrir.
- Os seus doentes dançam quadrilhas?
- Os meus doentes, senhora condessa, respondeu Carlos, não são bastante
numerosos para formar uma quadrilha. Raras vezes mesmo tenho dois para
uma valsa... O piano está simplesmente alli para dar idêas alegres; é como
uma promessa tacita de saude, de futuras soirées, de bonitas arias do
Trovador, em familia...
- É engenhoso, disse ella dando familiarmente alguns passos na sala, com
Charlie collado aos vestidos.
E Carlos, caminhando ao lado d'ella:
- V. ex.ª não imagina como eu sou engenhoso!
- Já n'outro dia me disse... Como foi que disse? Ah! que era muito
inventivo quando odiava.
- Muito mais quando amo, disse elle rindo.
Mas ella não respondeu: parára junto do piano, remexeu um momento as
musicas espalhadas, feriu duas notas no teclado.
- É um chocalho.
- Oh, senhora condessa!
Ella seguiu, foi examinar um quadro a oleo, copiado de Landseer - um
focinho de cão de S. Bernardo, macisso e bonacheirão, adormecido sobre as
patas. Quasi roçando-lhe o vestido, Carlos sentia o fino perfume de verbena
que ella usava sempre exageradamente: e, entre aquelles tons negros que a
cobriam, a sua pelle parecia mais clara, mais doce á vista, e attrahindo como
um setim.
- Este é um horror, murmurou ella, voltando-se; mas disse-me o Ega que
ha quadros lindos no Ramalhete... Fallou-me sobretudo d'um Greuze e d'um
Rubens... É pena que se não possam vêr essas maravilhas.
Carlos lamentava tambem que uma existencia de solteirões lhes impedisse,
a elle e ao avô, de receberem senhoras. O Ramalhete estava tomando uma
melancolia de mosteiro. Se assim continuassem mais alguns mezes, sem que
se sentisse alli um calor de vestido, um aroma de mulher, vinha a nascer a
herva pelos tapetes.
- É por isso, accrescentou elle muito serio, que eu vou obrigar o avô a
casar-se.
A condessa riu, os seus lindos dentes miudinhos alvejaram na sombra do
véo.
- Gosto da sua alegria, disse ella.
- É uma questão de regimen. V. ex.ª não é alegre?
Ella encolheu os hombros, sem saber... Depois, batendo com a ponta do
guarda-sol na sua botina de verniz que brilhava sobre o tapete claro,
murmurou com os olhos baixos, deixando ir as palavras, n'um tom
d'intimidade e de confidencia:
- Dizem que não, que sou triste, que tenho spleen...
O olhar de Carlos seguira o d'ella, pousara-se na botina de verniz que
calçava delicadamente um pé fino e comprido: Charlie, entretido, mexia nas
teclas do piano - e elle baixou a voz para lhe dizer:
- É que a senhora condessa tem um mau regimen. É necessario tratar-se,
voltar aqui, consultar-me... Tenho talvez muito que lhe dizer!
Ella interrompeu-o vivamente, erguendo para elle os olhos, d'onde se
escapou um clarão de ternura e de triumpho:
- Venha-m'o antes dizer um d'estes dias, tomar chá comigo, ás cinco
horas... Charlie!
O pequeno veiu logo dependurar-se-lhe do braço.
Carlos, acompanhando-a abaixo á rua, lamentava a fealdade da sua escada
de pedra:
- Mas vou mandar tapetar tudo para quando a senhora condessa volte a
dar-me a honra de me vir consultar...
Ella gracejou, toda risonha:
Ah não! O sr. Carlos da Maia prometteu-nos a todos a saude... E
naturalmente não espera que seja eu que venha cá tomar chá comsigo...
- Oh, minha senhora, eu quando começo a esperar, não ponho limites
nenhuns ás minhas esperanças...
Ella parou, com o pequeno pela mão, olhou para elle, como pasmada,
encantada com aquella grandiosa certeza de si mesmo.
- Então vae por ahi além, por ahi além...?
- Vou por ahi além, por ahi além, minha senhora!
Estavam no ultimo degrau, diante da claridade e do rumor da rua.
- Mande-me chegar um coupé.
Um cocheiro, ao aceno de Carlos, lançou logo a tipoia.
- E agora, disse ella sorrindo, mande-o ir á egreja da Graça.
- A senhora condessa vai beijar o pé do Senhor dos Passos?
Ella corou de leve, murmurou:
- Ando fazendo as minhas devoções...
Depois saltou ligeiramente para o coupé - deixando Charlie, que Carlos
ergueu nos braços e lhe collocou ao lado, paternalmente.
- Que Deus a leve em sua santa guarda, senhora condessa!
Ella agradeceu com um olhar, um movimento de cabeça - ambos tão doces
como caricias.
Carlos subio: e, sem tirar o chapéo, ficou ainda enrolando uma cigarrette,
passeando n'aquella sala sempre deserta, sempre fria, onde ella deixara agora
alguma cousa do seu calor e do seu aroma...
Realmente gostava d'aquella audacia d'ella - ter vindo assim ao
consultorio, toda escondida, quasi mascarada n'uma grande toilette negra,
inventando um caroço no pescocinho são de Charlie, para o vêr, para dar um
nó brusco e mais apertado n'aquelle leve fio de relações que elle tão
negligentemente deixara cahir e quebrar...
O Ega d'esta vez não phantasiara: aquelle bonito corpo offerecia-se, tão
claramente como se se despisse. Ah! se ella fosse de sentimentos errantes e
faceis - que bella flôr a colher, a respirar, a deitar fóra depois! Mas não: como
dizia o Baptista, a senhora condessa nunca se tinha divertido. E o que elle não
queria era achar-se envolvido n'uma paixão ciosa, uma d'essas ternuras
tumultuosas de mulher de trinta annos, de que depois se desembaraçaria
difficilmente... Nos braços d'ella o seu coração ficaria mudo: e apenas
esgotada a primeira curiosidade, começaria o tedio dos beijos que se não
desejam, a horrivel massada do prazer a frio. Depois, teria de ser intimo da
casa, receber pelo hombro as palmadas do senhor conde, ouvir-lhe a voz
morosa distillando doutrina... Tudo isto o
assustava... E, todavia, gostara d'aquella audacia! Havia ali uma pontinha de
romantismo, muito irregular, e picante... E devia ser deliciosamente bem
feita... A sua imaginação despia-a, enrolava-se-lhe no setim das fórmas onde
sentia ao mesmo tempo alguma cousa
de maduro e de virginal... E outra vez, como nas primeiras noites que os vira
em S. Carlos, aquelles cabellos tentavam-n'o, assim avermelhados, tão crespos
e quentes...
Sahiu. E dera apenas alguns passos na rua Nova do Almada, quando
avistou o Damaso, n'um coupé lançado a grande trote, que o chamava,
mandava parar, com a face á portinhola, vermelho e radiante:
- Não tenho podido lá ir, exclamou elle, apoderando-se-lhe da mão, apenas
Carlos se approximou, e apertando-lh'a com enthusiasmo. Tenho andado n'um
turbilhão!... Eu te contarei! Um romance divino... Mas eu te contarei!... Tem
cuidado com a roda! Bate lá, ó Calção!
A parelha abalou; elle ainda se debruçou da portinhola, agitou a mão,
gritou no rumor da rua:
- Um romance divino, chic a valer!
Justamente, dias depois, no Ramalhete, na sala de bilhar, Craft que
acabava de «bater» o marquez, perguntou, pousando o taco e accendendo o
cachimbo:
- E noticias do nosso Damaso? Já se esclareceu esse lamentavel
desapparecimento?...
Carlos então contou como o encontrára, afogueado e triumphante,
atirando-lhe da portinhola do coupé, em plena rua Nova do Almada, a noticia
de um romance divino!
- Bem sei, disse o Taveira.
- Como sabes?... exclamou Carlos.
Taveira vira-o na vespera, n'um grande landeau da Companhia, com uma
esplendida mulher, muito elegante e que parecia estrangeira...
- Ora essa! gritou Carlos. E com uma cadelinha escoceza?
- Exactamente, uma cadelinha escoceza, um griffon côr de prata... Quem
são?
- E um rapaz magro, de barba muito preta, com um ar inglezado?
- Justamente... Muito correcto, um ar sport... Que gente é?
- Uma gente brazileira, penso eu.
Eram os Castros Gomes, de certo! Isto parecia-lhe espantoso. Havia
apenas duas semanas que no terraço o Damaso, de punhos fechados, bramara
contra os Castro Gomes e as suas «desconsiderações»! Ia pedir outros
pormenores ao Taveira - mas o marquez ergueu a voz do fundo da poltrona
onde se estirára, e quiz saber a opinião de Carlos sobre o grande
acontecimento d'essa manhã na Gazeta Illustrada. - Na Gazeta Illustrada?...
Carlos não sabia, essa manhã não vira jornal nenhum.
- Então não lhe digam nada, gritou o marquez. Venha a surpreza! Cá ha a
Gazeta? Manda buscar a Gazeta!
Taveira puxou o cordão da campanhia; - e quando o escudeiro trouxe a
Gazeta, elle apoderou-se d'ella, quiz fazer uma leitura solemne.
- Deixa-lhe vêr primeiro o retrato, berrou o marquez, erguendo-se.
- Primeiro o artigo! exclamava o Taveira, defendendo-se, com o jornal
atraz das costas.
Mas cedeu, e poz o papel deante dos olhos de Carlos, largamente, como
um sudario desdobrado. Carlos reconheceu logo o retrato do Cohen... E a
prosa que se alastrava em redor, encaixilhando a face escura de suissas
retintas, era um trabalho de seis columnas, em
estylo emplumado e cantante, celebrando até aos céus as virtudes domesticas
do Cohen, o genio financeiro do Cohen, os ditos d'espirito do Cohen, a
mobilia das salas do Cohen; havia ainda um paragrapho alludindo á festa
proxima, ao grande sarau de mascaras do Cohen. E tudo isto vinha assignado -
J. da E. - as iniciaes de João da Ega!
- Que tolice! exclamou Carlos, com tedio, atirando o jornal para cima do
bilhar.
- É mais que tolice, observou Craft; é uma falta de senso moral.
O marquez protestou. Gostava do artigo. Achava-o brilhante, e de
velhaco!... E de resto em Lisboa quem dava por uma falta de senso moral?...
- Você, Craft, não conhece Lisboa! Todo o mundo acha isto muito natural.
É intimo da casa, celebra os donos. É admirador da mulher, lisongea o marido.
Está na logica cá da terra... Você verá que successo isto vae ter... E lá que o
artigo está lindo, isso está!
Tomou-o de cima do bilhar, leu alto o trecho sobre o boudoir côr de rosa
de madame Cohen: «respira-se alli (dizia o Ega) alguma cousa de perfumado,
intimo e casto, como se todo aquelle côr de rosa exhalasse de si o aroma que a
rosa tem»!
- Isto, caramba, é lindo em toda a parte! exclamou o marquez. Tem muito
talento, aquelle diabo! Tomara eu ter o talento que elle tem!...
- Nada d'isso impede, repetiu Craft, cachimbando tranquillamente, que seja
uma extraordinaria falta de senso moral.
- Pura e simplesmente insensato! disse Cruges, desenroscando-se do canto
d'um sophá, para deixar cahir ás syllabas esta pesada opinião.
O marquez investiu com elle.
- Que entende você d'isso, seu maestro? O artigo é sublime! E saiba mais:
é de finorio!
O maestro, com preguiça de argumentar, foi-se enroscar em silencio ao
outro canto do sophá.
E então o marquez, de pé e bracejando, appellou para Carlos, e quiz saber
o que é que Craft em principio entendia por senso moral.
Carlos, que dava pela sala passos impacientes, não respondeu, tomou o
braço do Taveira, levou-o para o corredor.
- Dize-me uma cousa: onde viste tu o Damaso, com essa gente? Para que
lado iam?
- Iam pelo Chiado abaixo; ante-hontem, ás duas horas... Estou convencido
que iam para Cintra. Levavam uma maleta no landau, e atraz ia uma criada
n'um coupé com uma mala maior... Aquillo cheirava a ida a Cintra. E a mulher
é divina! Que toilette, que ar, que chic!.. É uma Venus, menino!... Como
conheceria elle aquillo?...
- Em Bordeus, n'um paquete, não sei onde!
- Eu do que gostei foi dos ares que elle se ia dando por aquelle Chiado!
Cumprimento para a direita, cumprimento para a esquerda... A debruçar-se, a
fallar muito baixo para a mulher, com olho terno, alardeando conquista...
- Que besta! exclamou Carlos, batendo com o pé no tapete.
- Chama-lhe besta, disse o Taveira. Vem a Lisboa, por acaso, uma mulher
civilisada e decente, e é elle que a conhece, e é elle que vae com ella para
Cintra! Chama-lhe besta!... Anda d'ahi, vamos á partidinha de dominó.
Taveira ultimamente introduzira o dominó no Ramalhete - e havia agora
alli, ás vezes, partidas ardentes, sobretudo quando apparecia o marquez.
Porque a paixão do Taveira era bater o marquez.
Mas foi necessario que o marquez acabasse de bracejar, de desenrolar o
arrazoado com que estava acabrunhando o Craft - que do fundo da poltrona,
de cachimbo na mão e com um ar de somno, respondia por monossyllabos.
Era ainda a proposito do artigo do Ega,
da definição de senso moral. Já tinha fallado de Deus, de Garibaldi, até do seu
famoso perdigueiro Finorio; e agora definia a Consciencia.... Segundo elle, era
o medo da policia. Tinha o amigo Craft visto já alguem com remorsos? Não, a
não ser no theatro da Rua dos Condes, em dramalhões...
- Acredite você uma cousa, Craft - terminou elle por dizer, cedendo ao
Taveira que o puchava para a meza - isto de consciencia é uma questão de
educação. Adquire-se como as boas maneiras; soffrer em silencio por ter
trahido um amigo, aprende-se exactamente como se aprende a não metter os
dedos no nariz. Questão d'educação... No resto da gente é apenas medo da
cadeia, ou da bengala... Ah! vocês querem levar outra sova ao dominó como a
de sabbado passado? Perfeitamente, sou todo vosso...
Carlos, que estivera passando de novo os olhos pelo artigo do Ega,
approximou-se tambem da meza. E estavam sentados, remexiam as pedras -
quando á porta da sala appareceu o conde de Steinbroken, de casaca e crachá,
gran-cruz sobre o colete branco,
loiro como uma espiga, esticado e resplandecente. Tinha jantado no Paço, e
vinha acabar no Ramalhete a sua soirée, em familia...
Então o marquez que o não via desde o famoso ataque de intestinos,
abandonou o dominó, correu a abraçal-o ruidosamente – e sem o deixar sequer
sentar, nem estender a mão aos outros, implorou-lhe logo uma das suas bellas
canções filandezas, uma só, d'aquellas que lhe faziam tão bem á alma!...
- Só a Ballada, Steinbroken... Eu tambem não me posso demorar, que
tenho aqui a partida á espera. Só a Ballada!... Vá, salta lá para dentro para o
piano, Cruges...
O diplomata sorria, dizia-se cançado, tendo já feito musica deliciosa no
Paço com Sua Magestade. Mas nunca sabia resistir áquelle modo folgazão do
marquez - e lá foram para a sala do piano, de braço dado, seguidos pelo
Cruges, que levara uma eternidade a desenroscar-se do canto do sophá. E d'ahi
a um momento, atravez dos resposteiros meio corridos, a bella voz de
barytono do diplomata espalhava pelas salas, entre os suspiros do piano, a
emballadora melancolia da Ballada, com a sua lettra traduzida em francez, que
o marquez adorava, e em que se fallava das nevoas tristes do Norte, de lagos
frios e de fadas loiras...
Taveira e Carlos, no entanto, tinham começado uma grande partida de
dominó, a tostão o ponto. Mas Carlos n'essa noite não se interessava, jogando
distrahido, a cantarolar tambem baixo bocados tristes da Ballada: depois,
quando já Taveira tinha só uma pedra
diante de si, e elle estava comprando interminavelmente as que restavam,
voltou-se para o lado, para o Craft, a perguntar se o hotel da Lawrence, em
Cintra, estava aberto todo o anno...
- A ida do Damaso para Cintra deu-te no goto, rosnou Taveira impaciente.
Anda, joga!
Carlos, sem responder, pousou mollemente uma pedra.
- Dominó! gritou Taveira.
E em triumpho, aos pulos, contou elle mesmo os sessenta e oito pontos
que Carlos perdia.
Justamente o marquez entrava, e a victoria de Taveira indignou-o.
- Agora nós, exclamou elle, puxando vivamente uma cadeira. Oh Carlos,
deixe-me você dar aqui uma sova n'este ladrão. Depois jogamos de tres...
Como queres tu isto, Taveirete? A dous tostões o ponto? Ah, queres só a
tostão... Muito bem, eu te ensinarei. Anda, desembaraça-te já d'esse dôbleseis,
miseravel...
Carlos ficou ainda um momento olhando o jogo, com uma cigarette
apagada nos dedos, o mesmo ar distrahido: de repente, pareceu tomar uma
decisão, atravessou o corredor, entrou na sala de musica. Steinbroken fôra ao
escriptorio vêr Affonso da Maia, e a partida
de whist; e Cruges só, entre as duas vélas do piano, com os olhos errantes pelo
tecto, improvisava para si, melancolicamente.
- Dize cá, Cruges, perguntou-lhe Carlos, queres vir ámanhã a Cintra?
O teclado callou-se, o maestro ergueu um olhar espantado. Carlos nem o
deixou falar.
- Está claro que queres, não te faz senão bem vir a Cintra... Ámanhã lá
estou á porta, com o break.
Mette sempre uma camisa n'uma maleta, que talvez passemos lá a noite...
Ás oito em ponto, hein?... E não digas nada lá dentro.
Carlos voltou para a sala, ficou a olhar a partida de dominó. Agora havia
um largo silencio. O marquez e Taveira moviam lentamente as pedras, sem
uma palavra, com um ar de rancor surdo. Em cima do pano verde do bilhar as
bolas brancas dormiam juntas, sob a luz que cahia dos abat-jours de porcelana.
Um som de piano, dolente e vago, passava por vezes. E Craft, com o braço
descahido ao longo da poltrona, dormitava, beatificamente.
VIII
Na manhã seguinte, ás oito horas pontualmente, Carlos parava o break na
rua das Flores, diante do conhecido portão da casa do Cruges. Mas o
trintanario, que elle mandara acima bater á campainha do terceiro andar,
desceu com a estranha nova de que o Sr. Cruges já não morava ali. Onde
diabo morava então o sr. Cruges? A criada dissera que o Sr. Cruges vivia
agora na rua de S. Francisco, quatro portas adiante do Gremio. Durante um
momento, Carlos, desesperado, pensou em partir só para Cintra. Depois lá
largou para a rua de S. Francisco, amaldiçoando o maestro, que mudara de
casa sem avisar, sempre vago, sempre tenebroso!... E era em tudo assim.
Carlos nada sabia do seu passado, do seu interior, das suas affeições, dos seus
habitos. O marquez uma noite levara-o ao Ramalhete, dizendo ao ouvido de
Carlos que estava alli um genio. Elle encantara logo todo o mundo pela
modestia das suas maneiras e a sua arte maravilhosa ao piano: e todo o mundo
no Ramalhete começou a tratar Cruges por maestro, a fallar tambem do
Cruges como de um genio, a declarar que Choppin nunca fizera obra egual á
Meditação de Outono do Cruges. E ninguem sabia mais nada. Fôra pelo
Damaso que Carlos conhecera a casa do Cruges e soubera que elle vivia lá
com a mãe, uma senhora viuva, ainda fresca, e dona de predios na Baixa.
Ao portão da rua de S. Francisco, Carlos teve de esperar um quarto de
hora. Primeiro appareceu furtivamente ao fundo da escada uma criada em
cabello, que espreitou o break, os criados de farda, e fugiu pelos degraus
acima. Depois veiu um creado em mangas de
camisa trazer a maleta do senhor e um chaile-manta. Emfim, o maestro
desceu, a correr, quasi aos trambulhões, com um cache-nez de seda na mão, o
guarda-chuva debaixo do braço, abotoando atarantadamente o paletot.
Quando vinha pulando os ultimos degraus, uma voz esganiçada de mulher
gritou-lhe de cima:
- Olha não te esqueçam as queijadas!
E Cruges subiu precipitadamente para a almofada, para o lado de Carlos,
rosnando que, com a preoccupação de se levantar tão cedo, tivera uma
insomnia abominavel...
- Mas que diabo de idéa é essa de mudar de casa, sem avisar a gente,
homem? - exclamou Carlos, atirando-lhe para cima dos joelhos um bocado do
plaid que o agasalhava, porque o maestro parecia arrepiado.
- É que esta casa tambem é nossa, disse simplesmente Cruges.
- Está claro, ahi está uma razão! murmurou Carlos rindo e encolhendo os
hombros.
Partiram.
Era uma manhã muito fresca, toda azul e branca, sem uma nuvem, com um
lindo sol que não aquecia, e punha nas ruas, nas fachadas das casas, barras
alegres de claridade dourada. Lisboa acordava lentamente: as saloias ainda
andavam pelas portas com os
seus ceirões d'hortaliças: varria-se de vagar a testada das lojas: no ar macio
morria a distancia um toque fino de missa.
Cruges, tendo acabado de arranjar o cache-nez e de abotoar as luvas,
estendeu um olhar á esplendida parelha baia reluzindo como um setim sob o
faiscar de prata dos arreios, aos criados com os seus ramos nas librés, a todo
aquelle luxo correcto e rolando em cadencia - onde fazia mancha o seu
paletot: mas o que o impressionou foi o aspecto resplandecente de Carlos, o
olhar acceso, as bellas côres, o bello riso, o quer que fosse de vibrante e de
luminoso, que, sob o seu simples veston de xadrezinho castanho, n'aquella
almofada burgueza de break, lhe dava um arranque de heroe jovial, lançando o
seu carro de guerra... Cruges farejou uma aventura, soltou logo a pergunta que
desde a vespera lhe ficara nos labios.
- Com franqueza, aqui para nós, que idéa foi esta de ir a Cintra?
Carlos gracejou. O maestro jurava o segredo pela alma melodiosa de
Mozart, e pelas fugas de Bach? Pois bem, a idéa era vir a Cintra, respirar o ar
de Cintra, passar o dia em Cintra... Mas, pelo amor de Deus, que o não
revelasse a ninguem!
E accrescentou, rindo:
- Deixa-te levar, que não te has de arrepender...
Não, Cruges não se arrependia. Até achava delicioso o passeio, gostara
sempre muito de Cintra... Todavia não se lembrava bem, tinha apenas uma
vaga idéa de grandes rochas e de nascentes d'aguas vivas... E terminou por
confessar que desde os nove annos não voltara a Cintra.
O que! o maestro não conhecia Cintra?... Então era necessario ficarem lá,
fazer as peregrinações classicas, subir á Pena, ir beber agua á Fonte dos
Amores, barquejar na varzea...
- A mim o que me está a appetecer muito é Sitiaes; e a manteiga fresca.
- Sim, muita manteiga, disse Carlos. E burros, muitos burros... Emfim,
uma ecloga!
O break rodava na estrada de Bemfica: iam passando muros enramados de
quintas, casarões tristonhos de vidraças quebradas, vendas com o seu masso
de cigarros á porta dependurado de uma guita: e a menor arvore, qualquer
bocado de relva com papoulas, um
fugitivo longe de collina verde, encantavam Cruges. Ha que tempos elle não
via o campo!
Pouco a pouco o sol elevara-se. O maestro desembaraçou-se do seu grande
cache-nez. Depois, encalmado, despiu o paletot – e declarou-se morto de
fome.
Felizmente estavam chegando á Porcalhota.
O seu vivo desejo seria comer o famoso coelho guisado, - mas, como era
cedo para esse acepipe, decidiu-se, depois de pensar muito, por uma bella
pratada de ovos com chouriço. Era uma cousa que não provava havia annos, e
que lhe daria a sensação de estar na aldêa... Quando o patrão, com um ar
importante e como fazendo um favor, pousou sobre a meza sem toalha a
enorme travessa com o petisco, Cruges esfregou as mãos, achando aquillo
deliciosamente campestre.
- A gente em Lisboa estraga a saude! disse elle, puxando para o prato uma
montanha de ovo e chouriço. Tu não tomas nada?...
Carlos, para lhe fazer companhia, acceitou uma chavena de café.
D'ahi a pouco Cruges, que devorava, exclamou com a bocca cheia:
- O Rheno tambem deve ser magnifico!
Carlos olhou-o espantado e rindo. A que vinha agora alli o Rheno?... É que
o maestro, desde que sahira as portas, estava cheio de idéas de viagens e de
paisagens; queria vêr as grandes montanhas onde ha neve, os rios de que se
falla na Historia. O seu ideal seria ir á
Allemanha, percorrer a pé, com uma mochilla, aquella patria sagrada dos seus
deuses, de Beethoven, de Mozart, de Wagner...
- Não te appetecia mais ir á Italia? perguntou Carlos accendendo o
charuto.
O maestro esboçou um gesto de desdem, teve uma das suas phrases
sybillinas:
- Tudo contradanças!...
Carlos então fallou de um certo plano de ir á Italia, com o Ega, no inverno.
Ir á Italia, para o Ega, era uma hygiene intellectual: precisava calmar aquella
imaginação tumultuosa de nervoso peninsular entre a placida magestade dos
marmores...
- O que elle precisava antes de tudo era chicote, rosnou o Cruges.
E voltou a fallar do caso da vespera, do famoso artigo da Gazeta. Achava
aquillo, como elle dissera, pura e simplesmente insensato, e de uma sabujice
indecorosa. E o que o affligia é que o Ega, com aquelle talento, aquella verve
fumegante, não fizesse nada...
- Ninguem faz nada, disse Carlos espreguiçando-se. Tu, por exemplo, que
fazes?
Cruges, depois de um siléncio, rosnou encolhendo os hombros:
- Se eu fizesse uma boa opera, quem é que m'a representava?
- E se o Ega fizesse um bello livro, quem é que lh'o lia?
O maestro terminou por dizer:
- Isto é um paiz impossivel... Parece-me que tambem vou tomar café.
Os cavallos tinham descançado, Cruges pagou a conta, partiram. D'ahi a
pouco entravam na charneca que lhes pareceu infindavel. D'ambos os lados, a
perder de vista, era um chão escuro e triste; e por cima um azul sem fim, que
n'aquella solidão parecia triste tambem. O trote compassado dos cavallos batia
monotonamente a estrada. Não havia um rumor: por vezes um passaro cortava
o ar, n'um vôo brusco, fugindo do ermo agreste. Dentro do break um dos
criados dormia; Cruges, pesado dos ovos com chouriço, olhava,
vaga e melancolicamente, as ancas lustrosas dos cavallos.
Carlos, no entanto, pensava no motivo que o trazia a Cintra. E realmente
não sabia bem porque vinha: mas havia duas semanas que elle não avistava
certa figura que tinha um passo de deusa pisando a terra, e que não encontrava
o negro profundo de dois olhos que se
tinham fixado nos seus: agora suppunha que ella estava em Cintra, corria a
Cintra. Não esperava nada, não desejava nada. Não sabia se a veria, talvez ella
tivesse já partido. Mas vinha: e era já delicioso o pensar n'ella assim por
aquella estrada fóra, penetrar, com essa
doçura no coração, sob as bellas arvores de Cintra... Depois, era possivel que
d'ahi a pouco, na velha Lawrence, elle a cruzasse de repente no corredor,
roçasse talvez o seu vestido, ouvisse talvez a sua voz. Se ella lá estivesse,
decerto viria jantar á sala, aquella sala que elle conhecia tão bem, que já lhe
estava appetecendo tanto, com as suas pobres cortininhas de cassa, os ramos
toscos sobre a meza, e os dois grandes candieiros de latão antigo... Ella
entraria alli, com o seu bello ar claro de Diana loira; o bom Damaso,
apresentaria o seu amigo Maia; aquelles olhos negros que elle vira passar de
longe como duas estrellas, pousariam mais de vagar nos seus; e, muito
simplesmente, á ingleza, ella estender-lhe-hia a mão...
- Ora até que finalmente! exclamou Cruges, com um suspiro de allivio e
respirando melhor.
Chegavam ás primeiras casas de Cintra, havia já verduras na estrada, e
batia-lhes no rosto o primeiro sopro forte e fresco da serra.
E a passo, o break foi penetrando sob as arvores do Ramalhão. Com a paz
das grandes sombras, envolvia-os pouco a pouco uma lenta e emballadora
sussurração de ramagens, e como o diffuso e vago murmurio de agoas
correntes. Os muros estavam cobertos de heras e de musgos: atravez da
folhagem, faiscavam longas flechas de sol. Um ar subtil e avelludado
circulava, rescendendo ás verduras novas; aqui e além, nos ramos mais
sombrios, passaros chilreavam de leve; e n'aquelle simples bocado de estrada,
todo salpicado de manchas do sol, sentia-se já, sem se vêr, a religiosa
solemnidade dos espessos arvoredos, a frescura distante das nascentes vivas, a
tristeza que cae das penedias e o repouso fidalgo das quintas de verão...
Cruges respirava largamente, voluptuosamente.
- A Lawrence onde é? Na serra? - perguntou elle com a idéa repentina de
ficar alli um mez n'aquelle paraiso.
- Nós não vamos para a Lawrence, disse Carlos sahindo bruscamente do
seu silencio, e espertando os cavallos. Vamos para o Nunes, estamos lá muito
melhor!
Era uma idéa que lhe viera de repente, apenas passara as primeiras casas
de S. Pedro, e o break começara a rolar n'aquellas estradas onde a cada
momento elle a poderia encontrar. Tomara-o uma timidez, a que se misturava
um laivo de orgulho, o receio melindrado de ser indiscreto, seguindo-a assim a
Cintra, ainda que ella o não reconhecesse, indo installar-se sob as mesmas
telhas, apoderando-se de um logar á mesma meza... E ao mesmo tempo
repugnou-lhe a idéa de lhe ser apresentado pelo Damaso: via-o já, bochechudo
e vestido de campo, a esboçar um gesto de ceremonia, a mostrar o seu amigo
Maia, a tratal-o por tu, affectando intimidades com ella, cocando-a com um
olho terno... Isto seria intoleravel.
- Vamos para o Nunes, que se come melhor!
Cruges não respondeu, mudo, enlevado, recebendo como uma impressão
religiosa de todo aquelle esplendor sombrio de arvoredo, dos altos fragosos da
serra entrevistos um instante lá em cima nas nuvens, d'esse aroma que elle
sorvia deliciosamente, e do sussurro
doce de aguas descendo para os valles...
Só ao avistar o Paço descerrou os labios:
- Sim senhor, tem cachet!
E foi o que mais lhe agradou - este macisso e silencioso palacio, sem
florões e sem torres, patriarchalmente assentado entre o casario da villa, com
as suas bellas janellas manuelinas que lhe fazem um nobre semblante real, o
valle aos pés, frondoso e fresco, e no
alto as duas chaminés collossaes, disformes, resumindo tudo, como se essa
residencia fosse toda ella uma cosinha talhada ás proporções de uma gula de
Rei que cada dia come todo um Reino...
E apenas o break parou á porta do Nunes, foi-lhe ainda dar um olhar,
timido e de longe - receiando alguma palavra rude da sentinella.
Carlos no entanto, saltando logo da almofada, tomou á parte o criado do
hotel, que descera a recolher as maletas.
- Vossê conhece o sr. Damaso Salcede? Sabe se elle está em Cintra?
O creado conhecia muito bem o sr. Damaso Salcede. Ainda na vespera
pela manhã o vira entrar defronte, no bilhar, com um sujeito de barbas pretas...
Devia estar na Lawrence, porque só com raparigas e em pandiga é que o sr.
Damaso vinha para o Nunes.
- Então, depressa, dous quartos! exclamou Carlos, com uma alegria de
creança, certo agora que ella estava em Cintra. E uma sala particular, só para
nós, para almoçarmos!
Cruges, que se approximava, protestou contra esta sala solitaria. Preferia a
meza redonda. Ordinariamente na meza redonda encontram-se typos...
- Bem, exclamou Carlos, rindo e esfregando as mãos, põe o almoço na sala
de jantar, põe-n'o até na Praça... E muita manteiga fresca para o sr. Cruges!
O cocheiro levou o break, o creado sobraçou as maletas. Cruges,
enthusiasmado com Cintra, rompeu pela escada acima, a assobiar -
conservando aos hombros o chaile-manta, de que se não queria separar,
porque lh'o emprestara a mamã. E apenas chegou á porta da sala de jantar,
estacou, ergueu os braços, teve um grito.
- Oh Euzebiosinho!
Carlos correu, olhou... Era elle, o viuvo, acabando de almoçar, com duas
raparigas hespanholas.
Estava no topo da meza, como presidindo, diante de uns restos de pudim e
de pratos de fructa, amarellado, despenteado, carregado de luto, com a larga
fita das lunetas pretas passada por traz da orelha, e uma rodela de taffetá negro
sobre o pescoço tapando alguma espinha rebentada.
Uma das hespanholas era um mulherão trigueiro, com sygnaes de bexigas
na cara; a outra muito franzina, de olhos meigos, tinha uma roseta de febre,
que o pó de arroz não desfarçava. Ambas vestiam de setim preto, e fumavam
cigarro. E na luz e na frescura que
entrava pela janella, pareciam mais gastas, mais molles, ainda pegajosas da
lentura morna dos colxões, e cheirando a bafio de alcova. Pertencendo á sucia
havia um outro sujeito, gordo, baixo, sem pescoço, com as costas para a porta
e a cabeça sobre o prato, babujando uma metade de laranja.
Durante um momento, Euzebiosinho ficou interdito, com o garfo no ar;
depois lá se ergueu, de guardanapo na mão, veiu apertar os dedos aos amigos,
balbuciando logo uma justificação embrulhada, a ordem do medico para
mudar de ares, aquelle rapaz que o
acompanhara, e que quizera trazer raparigas... E nunca parecera tão funebre,
tão relles, como resmungando estas cousas hypocritas, encolhido á sombra de
Carlos.
- Fizeste muito bem, Eusebiosinho, disse Carlos por fim, batendo-lhe no
hombro. Lisboa está um horror, e o amor é cousa doce.
O outro continuava a justificar-se. Então a hespanhola magrita, que
fumava, afastada da meza e com a perna traçada, elevou a voz, perguntou ao
Cruges se elle não lhe fallava. O maestro affirmou-se um momento, e partiu
de braços abertos para a sua amiga Lolla. E
foi, n'esse canto da meza, uma grulhada em hespanhol, grandes apertos de
mão, e hombre, que no se le ha visto! e mira, que me he accordado de ti! e
caramba, que reguapa estas... Depois a Lolla, tomando um arsinho espremido,
apresentou o outro mulherão, la señorita Concha...
Vendo isto, impressionado com tanta familiaridade - o sujeito obeso, que
apenas levantara um instante a cabeça do prato, decidiu-se a examinar mais
attentamente os amigos do Euzebio: crusou o talher, limpou com o
guardanapo a bocca, a testa e o pescoço, encavallou laboriosamente no nariz
uma grande luneta de vidros grossos, e erguendo a face larga, balofa e côr de
cidra, examinou detidamente Cruges, e depois Carlos, com uma impudencia
tranquilla.
Eusebiosinho apresentou o seu amigo Palma: e o seu amigo Palma,
ouvindo o nome conhecido de Carlos da Maia, quiz logo mostrar diante de um
gentleman, que era um gentleman tambem. Arrojou para longe o guardanapo,
arredou para fóra a cadeira; e de
pé, estendendo a Carlos os dedos molles e de unhas roidas, exclamou, com um
gesto para os restos da sobremeza:
- Se v. ex.ª é servido, é sem ceremonia... Que isto quando a gente vem a
Cintra, é para abrir o appetite e fazer bem á barriga...
Carlos agradeceu, e ia retirar-se. Mas Cruges, que se animava e gracejava
com a Lolla, fez tambem do outro lado da meza a sua apresentação:
- Carlos, quero que conheças aqui a lindissima Lolla, relações antigas, e a
señorita Concha, que eu tive agora o prazer...
Carlos saudou respeitosamente as damas.
O mulherão da Concha rosnou seccamente os buenos dias: parecia de mau
humor, pesada do almoço, amodorrada para alli, sem dizer uma palavra, com
os cotovellos fincados na meza, os olhos pestanudos meio cerrados, ora
fumando, ora palitando os dentes. Mas
a Lolla foi amavel, fez de senhora, ergueu-se, offereceu a Carlos a mãosita
suada. Depois retomando o cigarro, dando um geito ás pulseiras de ouro,
declarou com um requebro d'olhos, que conhecia de ha muito Carlos...
- No ha estado ustêd con Encarnacion?
Sim, Carlos tivera essa honra... E que era feito d'ella, d'essa bella
Encarnacion?
A Lolla sorriu com finura, tocou no cotovello do maestro. Não acreditava
que Carlos ignorasse o que era feito da Encarnacion... Emfim, terminou por
dizer que a Encarnacion estava agora com o Saldanha.
- Mas olhe que não é com o duque de Saldanha! exclamou Palma, que se
conservara de pé, com a bolsa do tabaco aberta sobre a meza, fazendo um
grande cigarro.
A Lolita, com um modo secco, replicou que o Saldanha não seria duque,
mas era um chico muy decente...
- Olha, disse o Palma lentamente, de cigarro na bocca e tirando a isca da
algibeira, duas boas bofetadas na cara lhe dei eu ainda não ha tres semanas...
Pergunta ao Gaspar, o Gaspar assistiu... Foi até no Montanha... Duas bofetadas
que lhe foi logo o chapéo parar ao meio da rua... O sr. Maia ha de conhecer o
Saldanha... Ha de conhecer, que elle tambem tem um carrito e um cavallo.
Carlos fez um gesto indicando que não; e despedia-se de novo, saudando
as damas, quando Cruges o chamou ainda, retendo-o mais um instante, em
quanto satisfazia uma curiosidade: queria saber qual d'aquellas meninas era a
esposa do amigo Eusebio.
Assim interpellado, o viuvo encordoou, rosnou com uma voz morosa, sem
erguer as lunetas da laranja que descascava, que estava alli de passeio, não
tinha esposa, e ambas aquellas meninas pertenciam ao amigo Palma...
E ainda elle mascava as ultimas palavras, quando Concha, que digeria de
perna estendida, se endireitou bruscamente como se fosse saltar, atirou um
murro á borda da meza, e com os olhos chammejantes, desafiou o Eusebio a
que repetisse aquillo! Queria que elle repetisse! Queria que dissesse se tinha
vergonha d'ella, e de dizer que a tinha trazido a Cintra!... E como o Eusebio, já
enfiado, tentava gracejar, fazer-lhe uma festa – ella despropositou, atirou-lhe
os peiores nomes, dando sempre punhadas na meza, com uma furia que lhe
torcia a bocca, lhe punha duas
manchas de sangue no carão trigueiro. A Lolita, vexada, puchava-lhe pelo
braço: a outra deu-lhe um repellão; e, mais excitada com a estridencia da
propria voz, esvasiou-se de toda a bilis, chamou-lhe porco, accusou-o de
forreta, usou-o como um trapo vil.
Palma afflicto, debruçado sobre a meza, exclamava n'um tom ancioso:
- Ó Concha, escuta lá!... Ouve lá!... Concha, eu te explico...
De repente, ella ergueu-se, a cadeira tombou para o lado: e o mulherão
abalou pela sala fóra, a grande cauda de setim varreu desabridamente o soalho,
ouviu-se dentro estalar uma porta. No chão ficara cahido um pedaço da
mantilha de renda.
O creado que entrava do outro lado com a cafeteira estacou, afiando o olho
curioso, farejando o escandalo; depois, calado e seccamente, foi servindo em
roda o café.
Durante um momento houve um silencio. Apenas porém o criado sahiu - a
Lolita e o Palma, agitados mas abafando a voz, atacaram o Eusebiosinho. Elle
portara-se muito mal! Aquillo não fôra de cavalheiro! Tinha trazido a rapariga
a Cintra, devia-a respeitar, não a ter renegado assim, á bruta, diante de todos...
- Esto no se hace, dizia a Lolita, de pé, gesticulando, com os olhos
brilhantes, voltada para Carlos, ha sido una cosa muy fêa!...
E como o Cruges lamentava, sorrindo, ter sido a causa involuntaria da
catastrophe - ella baixou a voz, contou que a Concha era uma furia, viera a
Cintra com pouca vontade, e desde manhã estava de muy malo humor... Pero
lo de Silbeira habia sido una gran pulhice...
Elle, coitado, com a cabeça cahida e as orelhas em braza, remexia
desoladamente o seu café; não se lhe viam os olhos escondidos pelas lunetas
pretas, mas percebia-se-lhe o grosso soluço que lhe affogava a garganta. Então
Palma pouzou a chavena, lambeu os beiços, e de pé no meio da sala, com a
face luzidia, o collete desabotoado, fez n'um tom entendido o resumo d'aquelle
desgosto.
- Tudo provém d'isto, e desculpe-me você dizel-o, Silveira: é que você não
sabe tratar com hespanholas!
A esta cruel palavra o viuvo succumbiu. A colher cahiu-lhe dos dedos.
Ergueu-se, acercou-se de Carlos e de Cruges, como refugiando-se n'elles,
vindo reconfortar-se ao calor da sua amizade, - e desabafou, estas palavras
angustiosas escaparam-se-lhe dos labios:
- Vejam vocês! vem a gente a um sitio d'estes para gosar um bocado de
poesia, e no fim é uma d'estas!...
Carlos bateu-lhe melancolicamente no hombro:
- A vida é assim, Eusebiosinho.
Cruges fez-lhe uma festa nas costas:
- Não se póde contar com prazeres, Silveirinha.
Mas Palma, mais pratico, declarou que era forçoso arranjarem-se as
cousas. Virem a Cintra, para questões e amuos, isso não! N'aquellas pandegas
queria-se harmonia, chalaça, e gosar. Couces, não. Então ficava-se em Lisboa,
que era mais barato.
Chegou-se a Lolla, passou-lhe os dedos pela face, com amor:
- Anda Lolita, vae tu lá dentro á Concha, dize-lhe que se não faça tola, que
venha tomar café... Anda, que tu sabe-l'a levar... Dize-lhe que peço eu!
Lolita esteve um momento escolhendo duas boas laranjas, foi dar um geito
ao cabello diante do espelho, apanhou a cauda - e sahiu, atirando a Carlos, ao
passar, um olhar e um sorrisinho.
Apenas ficaram sós, Palma voltou-se para o Eusebio, e deu-lhe conselhos
muito serios sobre o systema de tratar hespanholas. Era necessario leval-as por
bons modos; por isso é que ellas se pellavam por portuguezes, porque lá em
Hespanha era á bordoada... Emfim,
elle não dizia que em certos casos, duas boas bolachas, mesmo um bom par de
bengaladas, não fossem uteis... Sabiam, por exemplo, os amigos, quando se
devia bater? Quando ellas não gostavam da gente, e se faziam ariscas. Então,
sim. Então zás, tapona, que ellas ficavam logo pelo beiço... Mas depois bons
modos, delicadeza, tal qual como com francezas...
- Acredite você isto, Silveira. Olhe que eu tenho experiencia. E o sr. Maia
que lhe diga se isto não é verdade, elle que tem tambem experiencia e sabe
viver com hespanholas!
E isto foi dito com tanto calor, tanto respeito - que Cruges desatou a rir,
fez rir Carlos tambem.
O sr. Palma, um pouco chocado, compoz mais as lunetas, e olhou para
elles:
- Os senhores riem-se? Imaginam que eu que estou a mangar? Olhem que
eu comecei a lidar com hespanholas aos quinze annos! Não, escusam de rir,
que n'isso ninguem me ganha! Lá o que se chama ter geito para hespanholas,
cá o meco! E, vamos lá, que não é
facil! É necessario ter um certo talento!... Olhem, o Herculano é capaz de
fazer bellos artigos e estylo catita... Agora tragam-n'o cá para lidar com
hespanholas e veremos! Não dá meia...
Eusebiosinho no entanto fôra duas vezes escutar á porta. Todo o hotel
cahira n'um grande silencio, a Lolita não voltava. Então Palma aconselhou um
grande passo:
- Vá você lá dentro, Silveira, entre pelo quarto, e assim sem mais nem
menos, chegue-se ao pé d'ella...
- E tapona? perguntou Cruges, muito seriamente, gosando o Palma.
- Qual tapona! Ajoelhe e peça perdão... N'este caso é pedir perdão... E
como pretexto, Silveira, leve-lhe você mesmo o café.
Eusebiosinho, com um olhar ancioso e mudo, consultou os seus amigos.
Mas o seu coração já decidira: e d'ahi a um momento, com o pedaço de
mantilha n'uma das mãos, a chavena de café na outra, enfiado e commovido,
lá partia a passos lentos pelo corredor a pedir perdão á Concha.
E, logo atraz d'elle, Carlos e Cruges deixaram a sala, sem se despedirem
do sr. Palma - que de resto, indifferente tambem, já se accommodara á meza a
preparar regaladamente o seu grog.
Eram duas horas quando os dous amigos sahiram emfim do hotel, a fazer
esse passeio a Sitiaes - que desde Lisboa tentava tanto o maestro. Na praça,
por defronte das lojas vasias e silenciosas, cães vadios dormiam ao sol:
atravez das grades da cadêa os presos pediam esmola. Creanças, enxovalhadas
e em farrapos, garotavam pelos cantos; e as melhores casas tinham ainda as
janellas fechadas, continuando o seu somno de inverno, entre as arvores já
verdes. De vez em quando apparecia um bocado da serra, com a sua muralha
de ameias correndo sobre as penedias, ou via-se o castello da Pena, solitario,
lá no alto. E por toda a parte o luminoso ar de abril punha a doçura do seu
velludo.
Defronte do hotel da Lawrence, Carlos retardou o passo, mostrou-o ao
Cruges.
- Tem o ar mais sympathico, disse o maestro. Mas valeu muito a pena ir
para o Nunes, só para vêr aquella scena... E então com quê o sr. Carlos da
Maia tem experiencia de hespanholas?
Carlos não respondeu, os seus olhos não se despegavam d'aquella fachada
banal, onde só uma janella estava aberta com um par de botinas de duraque
seccando ao ar. Á porta, dous rapazes inglezes, ambos de knicker-bokers,
cachimbavam em silencio; e defronte,
sentados sobre um banco de pedra, dous burriqueiros ao lado dos burros, não
lhes tiravam o olho de cima, sorrindo-lhes, cocando-os como uma presa.
Carlos ia seguir, mas pareceu-lhe ouvir, distante e melancolico, sahindo do
silencio do hotel, um vago som de flauta; e parou ainda, remexendo as suas
recordações, quasi certo de Damaso lhe ter dito que a bordo Castro Gomes
tocava flauta...
- Isto é sublime! exclamou do lado o Cruges, commovido.
Parara diante da grade d'onde se domina o valle. E d'ali olhava,
enlevadamente, a rica vastidão de arvoredo cerrado, a que só se veem os
cimos redondos, vestindo um declive da serra como o musgo veste um muro, e
tendo áquella distancia, n'o brilho da luz, a suavidade macia de um grande
musgo escuro. E n'esta espessura verde-negra havia uma frontaria de casa que
o interessava, branquejando, affogada entre a folhagem, com um ar de nobre
repouso, debaixo de sombras seculares... Um momento teve uma idéa de
artista: desejou habital-a com uma mulher, um piano e um cão da Terra-nova.
Mas o que o encantava era o ar. Abria os braços, respirava a tragos
deliciosos:
- Que ar! Isto dá saude, menino! Isto faz reviver!...
Para o gosar mais docemente, sentou-se adiante, n'um bocado de muro
baixo, defronte de um alto terraço gradeado, onde velhas arvores assombreiam
bancos de jardim, e estendem sobre a estrada a frescura das suas ramagens,
cheias do piar das aves. E como
Carlos lhe mostrava o relogio, as horas que fugiam para ir vêr o palacio, a
Pena, as outras bellezas de Cintra - o maestro declarou que preferia estar ali,
ouvindo correr a agua, a vêr monumentos caturras...
- Cintra não são pedras velhas, nem cousas gothicas... Cintra é isto, uma
pouca de agua, um bocado de musgo... Isto é um paraiso!...
E, n'aquella satisfação que o tornava loquaz, acrescentou, repetindo a sua
chalaça:
- E v. ex.ª deve sabel-o, sr. Maia, porque tem experiencia de
hespanholas!...
- Poupa-me, respeita a natureza, murmurou Carlos, que riscava
pensativamente o chão com a bengala.
Ficaram callados. Cruges agora admirava o jardim, por baixo do muro em
que estavam sentados. Era um espesso ninho de verdura, arbustos, flores e
arvores, suffocando-se n'uma prodigalidade de bosque silvestre, deixando
apenas espaço para um tanquesinho redondo, onde uma pouca de agua,
immovel e gelada, com dous ou tres nenufares, se esverdinhava sob a sombra
d'aquella ramaria profusa. Aqui e alem, entre a bella desordem da folhagem,
distinguiam-se arranjos de gosto burguez, uma volta de ruasita estreita como
uma fita, faiscando ao sol, ou a banal palidez de um gesso. N'outros recantos,
aquelle jardim de gente rica, exposto ás vistas, tinha retoques pretenciosos de
estufa rara, aloes e cactos, braços
aguardasolados de auraucarias erguendo-se d'entre as agulhas negras dos
pinheiros bravos, laminas de palmeira, com o seu ar triste de planta exilada,
roçando a rama leve e perfumada das olaias floridas de côr de rosa. A espaços,
com uma graça discreta, branquejava um grande pé de margaridas; ou em
torno de uma rosa, solitaria na sua haste, palpitavam borboletas aos pares.
- Que pena que isto não pertença a um artista! murmurou o maestro. Só
um artista saberia amar estas flores, estas arvores, estes rumores...
Carlos sorriu. Os artistas, dizia elle, só amam na natureza os effeitos de
linha e côr; para se interessar pelo bem-estar de uma tulipa, para cuidar de que
um craveiro não soffra sede, para sentir magoa de que a geada tenha queimado
os primeiros rebentões das acacias - para isso só o burguez, o burguez que
todas as manhãs desce ao seu quintal com um chapéo velho e um regador, e vê
nas arvores e nas plantas uma outra familia muda, por que elle é tambem
responsavel...
Cruges, que escutara distrahidamente, exclamou:
- Diabo! É necessario que não me esqueçam as queijadas!
Um som de rodas interrompeu-os, uma caleche descoberta desembocou a
trote do lado de Sitiaes. Carlos ergueu-se logo, certo de que era ella, e que elle
ia vêr os seus bellos olhos brilhar e fugir como duas estrellas. A caleche
passou, levando um ancião de barbas de patriarcha, e uma velha ingleza com o
regaço cheio de flores e o véo azul fluctuando ao ar. E logo atraz, quasi no pó
que as rodas tinham erguido, appareceu, caminhando pensativamente, de mãos
atraz das costas, um homem alto, todo de preto, com um grande
chapéo Panamá sobre os olhos. Foi Cruges que reconheceu os longos bigodes
romanticos, que gritou:
- Olha o Alencar! Oh! grande Alencar!...
Durante um momento, o poeta ficou assombrado, com os braços abertos,
no meio da estrada. Depois, com a mesma effusão ruidosa, apertou Carlos
contra o coração, beijou o Cruges na face - porque conhecia Cruges desde
pequeno, Cruges era para elle como um filho. Caramba! Eis ahi uma surpreza
que elle não trocava pelo titulo de duque! Ora o alegrão de os vêr ali! Como
diabo tinham elles vindo ali parar?
E não esperou a resposta, contou elle logo a sua historia. Tivera um dos
seus ataques de garganta, com uma ponta de febre, e o Mello, o bom Mello,
recommendara-lhe mudança d'ares. Ora elle, bons ares, só comprehendia os de
Cintra: porque alli não eram só os pulmões que lhe respiravam bem, era
tambem o coração, rapazes!... De sorte que viera na vespera, no omnibus.
- E onde estás tu, Alencar? perguntou logo Carlos.
- Pois onde queres tu que eu esteja, filho? Lá estou com a minha velha
Lawrence. Coitada! está bem velha! mas para mim é sempre uma amiga, é
quasi uma irmã!... E vocês, que diabo? Para onde vão vocês com essas flores
nas lapellas?
- A Sitiaes... Vou mostrar Sitiaes ao maestro.
Então tambem elle voltava a Sitiaes! Não tinha nada que fazer senão
sorver bom ar, e scismar... Toda a manhã andara alli, vagamente, pendurando
sonhos dos ramos das arvores. Mas agora já os não largava; era mesmo um
dever ir elle proprio fazer ao maestro as honras de Sitiaes...
- Que aquillo é sitio muito meu, filhos! Não ha alli arvore que me não
conheça... Eu não vos quero começar já a impingir versos; mas emfim, vocês
lembram-se de uma cousa que eu fiz a Sitiaes, e de que por ahi se gostou...
Quantos luares eu lá vi!
Que doces manhãs d'abril!
E os ais que soltei alli
Não foram sete, mas mil!
Pois então já vocês vêem, rapazes, que tenho razão para conhecer Sitiaes...
O poeta lançou ao ar um vago suspiro, e durante um instante caminharam
todos tres callados.
- Dize-me uma cousa, Alencar, perguntou Carlos baixo, parando, e
tocando no braço do poeta. O Damaso está na Lawrence?
Não, que elle o tivesse visto. Verdade seja que na vespera, apenas chegara,
fôra-se deitar, fatigado; e n'essa manhã almoçara só com dois rapazes inglezes.
O unico animal que avistara fôra um lindo cãosinho de luxo, ladrando no
corredor...
- E vocês onde estão?
- No Nunes.
Então o poeta parando de novo, contemplando Carlos com sympathia:
- Que bem que fizeste em arrastar cá o maestro, filho!... Quantas vezes eu
tenho dito áquelle diabo, que se mettesse no omnibus, viesse passar dous dias
a Cintra. Mas ninguem o tira de martelar o piano. E olha tu que mesmo para a
musica, para compor, para entender um Mozart, um Choppin, é necessario ter
visto isto, escutado este rumor, esta melodia da ramagem...
Baixou a voz, apontando para o maestro, que caminhava adiante,
enlevado:
- Tem muito talento, tem muita idéa melodica!... Olha que andei com
aquillo ás cabritas... E a mãe, menino, foi muitissimo boa mulher.
- Vejam vocês isto! gritou Cruges que parara, esperando-os. Isto é
sublime.
Era apenas um bocadito d'estrada, apertada entre dous velhos muros
cobertos d'hera, assombreada por grandes arvores entrelaçadas, que lhe faziam
um toldo de folhagem aberto á luz como uma renda: no chão tremiam
manchas de sol: e, na frescura e no silencio, uma agoa que se não via ia
fugindo e cantando.
- Se tu queres sublime, Cruges, exclamou Alencar, então tens de subir á
serra. Ahi tens o espaço, tens a nuvem, tens a arte...
- Não sei, talvez goste mais d'isto, murmurou o maestro.
A sua natureza de timido preferiria, de certo, estes humildes recantos,
feitos de uma pouca de folhagem fresca e de um pedaço de muro musgoso,
logares de quietação e de sombra, onde se aninha com um conforto maior o
scismar dos indolentes...
- De resto, filho, continuou Alencar, tudo em Cintra é divino. Não ha
cantinho que não seja um poema... Olha, alli tens tu, por exemplo, aquella
linda florinha azul... - e, ternamente, apanhou-a.
- Vamos andando, vamos andando, murmurou Carlos impaciente, e agora,
desde que o poeta fallara do cãosinho de luxo, mais certo de que ella estava na
Lawrence, e que a ía brevemente encontrar.
Mas, ao chegar a Sitiaes, Cruges teve uma desillusão diante d'aquelle vasto
terreiro coberto de herva, com o palacete ao fundo, enxovalhado, de vidraças
partidas, e erguendo pomposamente sobre o arco, em pleno ceu, o seu grande
escudo de armas. Ficara-lhe a
idéa, de pequeno, que Sitiaes era um montão pittoresco de rochedos,
dominando a profundidade de um valle; e a isto misturava-se vagamente uma
recordação de luar e de guitarras... Mas aquillo que elle alli via era um
desapontamento.
- A vida é feita de desapontamentos, disse Carlos. Anda para diante!
E apressou o passo atravez do terreiro, em quanto o maestro, cada vez
mais animado, lhe gritava a chalaça do dia:
- E v. ex.ª deve sabel-o, sr. Maia, porque tem experiencia de
hespanholas!...
Alencar, que se demorara atraz a accender o cigarro, estendeu o ouvido,
curioso, quiz saber o que era isso de hespanholas? O maestro contou-lhe o
encontro no Nunes e os furores da Concha.
Iam ambos caminhando por uma das alamedas lateraes, verde e fresca, de
uma paz religiosa, como um claustro feito de folhagem. O terreiro estava
deserto; a herva que o cobria, crescia ao abandono, toda estrellada de botões
de ouro brilhando ao sol, e de
malmequersinhos brancos. Nenhuma folha se movia: atravez da ramaria
ligeira o sol atirava mólhos de raios de ouro. O azul parecia recuado a uma
distancia infinita, repassado de silencio luminoso; e só se ouvia, ás vezes,
monotona e dormente, a voz de um cuco nos
castanheiros.
Toda aquella vivenda, com a sua grade enferrujada sobre a estrada, os seus
florões de pedra roídos da chuva, o pesado brazão rococó, as janellas cheias de
teias de aranha, as telhas todas quebradas, parecia estar-se deixando morrer
voluntariamente n'aquella verde solidão, - amuada com a vida, desde que d'alli
tinham desapparecido as ultimas graças do tricorne e do espadim, e os
derradeiros vestidos de anquinhas tinham roçado essas relvas... Agora Cruges
ía descrevendo ao Alencar a figura do Eusebiosinho, com a chavena de café na
mão, a ir pedir perdão á Concha; e a cada momento o poeta, com o seu grande
chapéo panamá, se agachava a colher florinhas silvestres.
Quando passaram o Arco, encontraram Carlos sentado n'um dos bancos de
pedra, fumando pensativamente a sua cigarette. O palacete deitava sobre
aquelle bocado de terraço a sombra dos seus muros tristes; do valle subia uma
frescura e um grande ar; e algures, em baixo, sentia-se o prantear de um
repuxo. Então o poeta, sentando-se ao lado do seu amigo, fallou com nojo do
Eusebiosinho. - Ahi está uma torpeza que elle nunca commettera, trazer
meretrizes a Cintra! Nem a Cintra, nem a parte nenhuma... Mas muito menos a
Cintra! Sempre tivera, todo o mundo devia ter, a religião d'aquellas arvores e o
amor d'aquellas sombras...
- E esse Palma, accrescentou elle, é um traste! Eu conheço-o; elle teve
uma especie de jornal, e já lhe dei muita bofetada na rua do
Alecrim. Foi uma historia curiosa... Ora eu t'a conto, Carlos... Aquelle
canalha! quando me lembro!... Aquella vil bolinha de materia
putrida!... Aquelle chouricinho de pus!
Levantou-se, passando a mão nervosa sobre os bigodes, já excitado pela
lembrança d'aquella velha desordem, vergastando o
Palma com nomes ferozes, todo n'uma d'essas fervuras de sangue que eram a
sua desgraça.
Cruges, no entanto, encostado ao parapeito, olhava a grande planicie de
lavoura que se estendia em baixo, rica e bem trabalhada, repartida em
quadrados verde-claros e verde-escuros, que lhe faziam lembrar um panno
feito de remendos assim que elle tinha na meza
do seu quarto. Tiras brancas de estradas serpeavam pelo meio: aqui e além,
n'uma massa de arvoredo, branquejava um casal: e a cada passo, n'aquelle solo
onde as aguas abundam, uma fila de pequenos olmos revelava algum fresco
ribeiro, correndo e reluzindo entre as
hervas. O mar ficava ao fundo, n'uma linha unida, esbatida na tenuidade
diffusa da bruma azulada: e por cima arredondava-se um grande azul lustroso
como um bello esmalte, tendo apenas, lá no alto, um farraposinho de nevoa,
que ficara alli esquecido, e que dormia
enovellado e suspenso na luz...
- Tive nojo! exclamava o Alencar, rematando fogosamente a sua historia.
Palavra que tive nojo! Atirei-lhe a bengala aos pés, crusei os braços e disselhe:
ahi tem você a bengala, seu covarde, a mim bastam-me as mãos!
- Que diabo, não me hão de esquecer as queijadas! murmurou Cruges, para
si mesmo, affastando-se do parapeito.
Carlos erguera-se tambem, olhava o relogio. Mas antes de deixar Sitiaes,
Cruges quiz explorar o outro terraço ao lado: e, apenas subira os dous velhos
degraus de pedra, soltou de lá um grito alegre:
- Bem dizia eu! cá estão elles... E vocês a dizer que não!
Foram-n'o encontrar triumphante, diante de um montão de penedos,
polidos pelo uso, já com um vago feitio de assentos, deixados ali outr'ora,
poeticamente, para dar ao terraço uma graça agreste de selva brava. Então, não
dizia elle? Bem dizia elle que em Sitiaes havia penedos!
- Se eu me lembrava perfeitamente! Penedo da Saudade, não é que se
chama, Alencar?
Mas o poeta não respondeu. Diante d'aquellas pedras crusara os braços,
sorria dolorosamente; e immovel, sombrio no seu fato negro, com o panamá
carregado para a testa, envolveu todo aquelle recanto n'um olhar lento e triste.
Depois, no silencio, a sua voz ergueu-se, saudosa e dolente:
- Vocês lembram-se, rapazes, nas Flôres e Martyrios, de uma das cousas
melhores que lá tenho, em rimas livres, chamada 6 de Agosto? Não se
lembram talvez... Pois eu vol-a digo, rapazes!
Machinalmente tirara do bolso o lenço branco. E com elle fluctuante na
mão, puxando Carlos para junto de si, chamando do outro lado o Cruges,
baixou a voz como n'uma confidencia sagrada, recitou, com um ardor surdo,
mordendo as syllabas, tremulo, n'uma
paixão ephemera de nervoso:
Vieste! Cingi-te ao peito.
Em redor que noite escura!
Não tinha rendas o leito,
Nem tinha lavores na barra
Que era só a rocha dura...
Muito ao longe uma guitarra
Gemia vagos harpejos...
(Vê tu que não me esqueceu)...
E a rocha dura aqueceu
Ao calor dos nossos beijos!
Esteve um momento embebendo o olhar nas pedras brancas batidas do sol,
atirou para lá um gesto triste, e murmurou:
- Foi alli.
E affastou-se, alquebrado sob o seu grande chapéo panamá, com o lenço
branco na mão. Cruges, que aquelles romantismos impressionavam, ficou a
olhar para os penedos como para um sitio historico. Carlos sorria. E quando
ambos deixaram esse recanto do
terraço - o poeta, agachado junto do arco, estava apertando o atilho da ceroula.
Endireitou-se logo, já toda a emoção o deixara, mostrava os maus dentes
n'um sorriso amigo, e exclamou, apontando para o arco:
- Agora, Cruges, filho, repara tu n'aquella tela sublime.
O maestro embasbacou. No vão do arco, como dentro de uma pesada
moldura de pedra, brilhava, á luz rica da tarde, um quadro maravilhoso, de
uma composição quasi phantastica, como a illustração de uma bella lenda de
cavallaria e de amor. Era no primeiro plano o terreiro, deserto e verdejando,
todo salpicado de botões amarellos; ao fundo, o renque cerrado de antigas
arvores, com hera nos troncos, fazendo ao longo da grade uma muralha de
folhagem reluzente; e emergindo abruptamente d'essa copada linha de bosque
assoalhado, subia no pleno resplendor do dia, destacando vigorosamente n'um
relevo nitido sobre o fundo de céu azul claro, o cume airoso da serra, toda côr
de violeta escura, coroada pelo castello da Pena, romantico e solitario no alto,
com o seu parque sombrio aos pés, a torre esbelta perdida no ar, e as cupulas
brilhando ao sol como se fossem feitas de ouro...
Cruges achou aquelle quadro digno de Gustavo Doré. Alencar teve uma
bella phrase sobre a imaginação dos arabes. Carlos, impaciente, foi-os
apressando para diante.
Mas agora Cruges, impressionado, estava com desejo de subir á Pena.
Alencar, por si, ía tambem com prazer. A Pena para elle era outro ninho de
recordações. Ninho? Devia antes dizer cemiterio... Carlos hesitava, parado
junto da grade. Estaria ella na Pena? E
olhava a estrada, olhava as arvores, como se podesse adivinhar pelas pegadas
no pó, ou pelo mover das folhas, que direcção tinham tomado os passos que
elle seguia... Por fim teve uma idéa.
- Vamos indo primeiro á Lawrence. E depois se quizermos ir á Pena,
arranjam-se lá os burros...
E nem mesmo quiz escutar o Alencar, que tivera tambem uma idéa, fallava
de Collares, de uma visita ao seu velho Carvalhosa; accelerou o passo para a
Lawrence, emquanto o poeta tornava a arranjar o atilho da ceroula, e o
maestro, n'um enthusiasmo bucolico, ornava o chapéo de folhas de hera.
Defronte da Lawrence, os dois burriqueiros, de cigarro na bocca, não
tendo podido apoderar-se dos inglezes, preguiçavam ao sol.
- Vocês sabem, perguntou-lhes Carlos, se uma familia,