amoro e sou feliz nos meus amores;
Sou garboso e rapaz... Uma criada
Abrasada de amor por um soneto
Já um beijo me deu subindo a escada...
Oito dias lá vão que ando cismando
Na donzela que ali defronte mora.
Ela ao ver-me sorri tão docemente!
Desconfio que a moça me namora!...
Tenho por meu palácio as longas ruas;
Passeio a gosto e durmo sem temores:
Quando bebo, sou rei como um poeta,
E o vinho faz sonhar com os amores.
O degrau das igrejas é meu trono,
Minha pátria é o vento que respiro,
Minha mãe é a lua macilenta,
E a preguiça a mulher por quem suspiro.
Escrevo na parede as minhas rimas,
De painéis a carvão adorno a rua;
Como as aves do céu e as flores puras
Abro meu peito ao sol e durmo à lua.
Sinto-me um coração de lazzaroni;
Sou filho do calor, odeio o frio;
Não creio no diabo nem nos santos...
Rezo à Nossa Senhora, e sou vadio!
Ora, se por aí alguma bela
Bem doirada e amante da preguiça
Quiser a nívea mão unir à minha
Há de achar-me na Sé, domingo, à Missa.
IV
A LAGARTIXA
A lagartixa ao sol ardente vive
E fazendo verão o corpo espicha:
O clarão de teus olhos me dá vida,
Tu és o sol e eu sou a lagartixa.
Amo-te como o vinho e como o sono,
Tu és meu copo e amoroso leito...
Mas teu néctar de amor jamais se esgota,
Travesseiro não há como teu peito.
Posso agora viver: para coroas
Não preciso no prado colher flores;
39
Engrinaldo melhor a minha fronte
Nas rosas mais gentis de teus amores.
Vale todo um harém a minha bela,
Em fazer-me ditoso ela capricha;
Vivo ao sol de seus olhos namorados,
Como ao sol de verão a lagartixa.
V
LUAR DE VERÃO
O que vês, trovador? — Eu vejo a lua
Que sem lavor a face ali passeia;
No azul do firmamento inda é mais pálida
Que em cinzas do fogão uma candeia.
O que vês, trovador? — No esguio tronco
Vejo erguer-se o chinó de uma nogueira...
Além se entorna a luz sobre um rochedo
Tão liso como um pau-de-cabeleira.
Nas praias lisas a maré enchente
S'espraia cintilante d'ardentia...
Em vez de aromas as doiradas ondas
Respiram efluviosa maresia!
O que vês, trovador? — No céu formoso
Ao sopro dos favônios feiticeiros
Eu vejo — e tremo de paixão ao vê-las —
As nuvens a dormir, como carneiros.
E vejo além, na sombra do horizonte,
Como viúva moça envolta em luto,
Brilhando em nuvem negra estrela viva
Como na treva a ponta de um charuto.
Teu romantismo bebo, ó minha lua,
A teus raios divinos me abandono,
Torno-me vaporoso, e só de ver-te
Eu sinto os lábios meus se abrir de sono.
VI
O POETA MORIBUNDO
Poetas! amanhã ao meu cadáver
Minha tripa cortai mais sonorosa!...
Façam dela uma corda, e cantem nela
Os amores da vida esperançosa!
Cantem esse verão que me alentava...
40
O aroma dos currais, o bezerrinho,
As aves que na sombra suspiravam,
E os sapos que cantavam no caminho!
Coração, por que tremes? Se esta lira
Nas minhas mãos sem força desafina,
Enquanto ao cemitério não te levam,
Casa no marimbau a alma divina!
Eu morro qual nas mãos da cozinheira
O marreco piando na agonia . . .
Como o cisne de outr’ora... que gemendo
Entre os hinos de amor se enternecia.
Coração, por que tremes? Vejo a morte,
Ali vem lazarenta e desdentada. ..
Que noiva!. . . E devo então dormir com ela?...
Se ela ao menos dormisse mascarada!
Que ruínas! que amor petrificado!
Tão antediluviano e gigantesco!
Ora, façam idéia que ternuras
Terá essa lagarta posta ao fresco!
Antes mil vezes que dormir com ela,
Que dessa fúria o gozo, amor eterno. . .
Se ali não há também amor de velha,
Dêem-me as caldeiras do terceiro Inferno!
No inferno estão suavíssimas belezas,
Cleópatras, Helenas, Eleonoras;
Lá se namora em boa companhia,
Não pode haver inferno com Senhoras!
Se é verdade que os homens gozadores,
Amigos de no vinho ter consolos,
Foram com Satanás fazer colônia,
Antes lá que no Céu sofrer os tolos! —
Ora! e forcem um'alma qual a minha
Que no altar sacrifica ao Deus-Preguiça
A cantar ladainha eternamente
E por mil anos ajudar a Missa!
É ELA! É ELA! É ELA! É ELA!
É ela! é ela! — murmurei tremendo,
E o eco ao longe murmurou — é ela!
Eu a vi — minha fada aérea e pura —
A minha lavadeira na janela!
41
Dessas águas-furtadas onde eu moro
Eu a vejo estendendo no telhado
Os vestidos de chita, as saias brancas;
Eu a vejo e suspiro enamorado!
Esta noite eu ousei mais atrevido
Nas telhas que estalavam nos meus passos
Ir espiar seu venturoso sono,
Vê-la mais bela de Morfeu nos braços!
Como dormia! que profundo sono!...
Tinha na mão o ferro do engomado...
Como roncava maviosa e pura!...
Quase caí na rua desmaiado!
Afastei a janela, entrei medroso:
Palpitava-lhe o seio adormecido...
Fui beijá -la... roubei do seio dela
Um bilhete que estava ali metido...
Oh! de certo... (pensei) é doce página
Onde a alma derramou gentis amores;
São versos dela... que amanhã de certo
Ela me enviará cheios de flores...
Tremi de febre! Venturosa folha!
Quem pousasse contigo neste seio!
Como Otelo beijando a sua esposa,
Eu beijei-a a tremer de devaneio...
É ela! é ela! — repeti tremendo,
Mas cantou nesse instante uma coruja...
Abri cioso a página secreta...
Oh! meu Deus! era um rol de roupa suja!
Mas se Werther morreu por ver Carlota
Dando pão com manteiga às criancinhas,
Se achou-a assim mais bela, — eu mais te adoro
Sonhando-te a lavar as camisinhas!
É ela! é ela! meu amor, minh'alma,
A Laura, a Beatriz que o céu revela...
É ela! é ela! — murmurei tremendo,
E o eco ao longe suspirou — é ela!
SONETO
Um mancebo no jogo se descora,
Outro bêbado passa noite e dia,
Um tolo pela valsa viveria,
42
Um passeia a cavalo, outro namora.
Um outro que uma sina má devora
Faz das vidas alheias zombaria,
Outro toma rapé, um outro espia....
Quantos moços perdidos vejo agora!
Oh! não proíbam pois ao meu retiro
Do pensamento ao merencório luto
A fumaça gentil por que suspiro.
N’uma fumaça o canto d'alma escuto. . .
Um aroma balsâmico respiro,
Oh! deixai-me fumar o meu charuto!
SONETO
Ao sol do meio-dia eu vi dormindo
Na calçada da rua um marinheiro,
Roncava a todo o pano o tal brejeiro
Do vinho nos vapores se expandindo!
Além um Espanhol eu vi sorrindo
Saboreando um cigarro feiticeiro,
Enchia de fumaça o quarto inteiro.
Parecia de gosto se esvaindo!
Mais longe estava um pobretão careca
De uma esquina lodosa no retiro
Enlevado tocando uma rabeca!
Venturosa indolência! não deliro
Se morro de preguiça.... o mais é seca!
D’esta vida o que mais vale um suspiro?
* * * *
(sem título)
Toda aquela mulher tem a pureza
Que exala o jasmineiro no perfume,
Lampeja seu olhar nos olhos negros
Como em noite d'escuro um vaga-lume...
Que suave moreno o de seu rosto!
A alma parece que seu corpo inflama.
Ilude até que sobre os lábios d’ela
Na cor vermelha tem errante chama....
E quem dirá, meu Deus! que a lira d'alma
43
Ali não tem um som — nem de falsete!
E sob a imagem de aparente fogo
É frio o coração como um sorvete!
O CÔNEGO FILIPE
O cônego Filipe! Ó nome eterno!
Cinzas ilustres que da terra escura
Fazeis rir nos ciprestes as corujas!
Por que tão pobre lira o céu doou-me
Que não consinta meu inglório gênio
Em vasto e heróico poema decantar-te?
Voltemos ao assunto. A minha musa,
Como um falado Imperador Romano
Distrai-se às vezes apanhando moscas.
Por estradas mais longas ando sempre.
Com o cônego ilustre me pareço,
Quando ele já sentia vir o sono,
Para poupar. Caminho até a vela,
Sobre a vela atirava a carapuça.
Então no escuro, em camisola branca
Já apalpando procurar na sala —
Para o queijo flamengo da careca
Dos defluxos guardar — o negro saco.
À ordem, Musa! Canta agora como
O poeta Ali-Moon no harém entrando
Como um poeta que enamora a lua,
Ou que beija uma estátua de alabastro,
Suando de calor... de sol e amores...
Cantava no alaúde enamorado,
E como ele saiu-se do namoro.
Assunto bem moral, digno de prêmio,
E interessante como um catecismo,
Que tem ares até de ladainha!
Quem não sonhou a terra do Levante?
As noites do Oriente, o mar, as brisas,
Toda aquela sua natureza
Que amorosa suspira e encanta os olhos?
Principio no harém. Não é tão novo.
Mas esta vida é sempre deleitosa.
As almas d'homem ao harém se voltam —
Ser um dia sultão quem não deseja?
Quem não quisera das sombrias folhas
Nas horas do calor, junto do lago
As odaliscas espreitar no banho
E mais bela a sultana entre as formosas?
44
Mas ah! o plágio nem perdão merece!
Digam — pega ladrão! — Confesso o crime,
Não é Ovídio só que imito e sonho,
Quando pinta Acteon fitando os olhos
Nas formas nuas de Diana virgem!
Não! embora eu aqui não fale em ninfas,
Essa idéia é do cônego Filipe!
TERZA RIMA
É belo de entre a cinza ver ardendo
Nas mãos do fumador um bom cigarro,
Sentir o fumo em névoas recendendo,
Do cachimbo alemão no louro barro
Ver a chama vermelha estremecendo
E até... perdoem... respirar-lhe o sarro!
Porém o que há mais doce n’esta vida,
O que das mágoas desvanece o luto
E dá som a uma alma empobrecida,
Palavra d'honra, és tu, ó meu charuto!
NAMORO A CAVALO
Eu moro em Catumbi. Mas a desgraça
Que rege minha vida malfadada
Pôs lá no fim da rua do Catete
A minha Dulcinéia namorada.
Alugo (três mil réis) por uma tarde
Um cavalo de trote (que esparrela)!
Só para erguer meus olhos suspirando
A minha namorada na janela...
Todo o meu ordenado vai-se em flores
E em lindas folhas de papel bordado
Onde eu escrevo trêmulo, amoroso
Algum verso bonito... mas furtado.
Morro pela menina, junto d’ela
Nem ouso suspirar de acanhamento...
Se ela quisesse eu acabava a história
Como toda a comédia — em casamento.
Ontem tinha chovido. . . que desgraça!
Eu ia a trote inglês ardendo em chama,
Mas lá vai senão quando uma carroça
45
Minhas roupas tafuis encheu de lama...
Eu não desanimei. Se Dom Quixote
No Rocinante erguendo a larga espada
Nunca voltou de medo, eu, mais valente,
Fui mesmo sujo ver a namorada...
Mas eis que no passar pelo sobrado
Onde habita nas lojas minha bela
Por ver-me tão lodoso ela irritada
Bateu-me sobre as ventas a janela...
O cavalo ignorante de namoros
Entre dentes tomou a bofetada,
Arrepia-se, pula, e dá-me um tombo
Com pernas para o ar, sobre a calçada...
Dei ao diabo os namoros. Escovado
Meu chapéu que sofrera no pagode
Dei de pernas corrido e cabisbaixo
E berrando de raiva como um bode.
Circunstância agravante. A calça inglesa
Rasgou-se no cair de meio a meio,
O sangue pelas ventas me corria
Em paga do amoroso devaneio!...
O EDITOR
— A poesia transcrita é de Torquato,
Desse pobre poeta enamorado
Pelos encantos de Leonora esquiva,
Copiei-a do próprio manuscrito
E para prova da verdade pura
D’este prólogo meu, basta que eu diga
Que a letra era um garrancho indecifrável,
Mistura de borrões e linhas tortas,
Trouxe-me do Arquivo lá da lua
E decifrou-m’a familiar demônio...
Demais — infelizmente é bem verdade
Que Tasso lastimou-se da penúria
De não ter um ceitil para a candeia.
Provo com isso que do mundo todo
O sol é este Deus indefinível,
Ouro, prata, papel, ou mesmo cobre,
Mais santo do que os Papas — o dinheiro!
Byron no seu Don Juan votou-lhe cantos,
Filinto Elísio e Tolentino o sonham,
46
Foi o Deus de Bocage e d'Aretino,
Aretino, essa incrível criatura
Lívida e tenebrosa, impura e bela,
Sublime... e sem pudor, onda de lodo,
Em que do gênio profanou-se a pérola,
Vaso d'ouro que um óxido terrível
Envenenou de morte, alma poeta
Que tudo profanou com as mãos imundas,
E latiu como um cão mordendo um século...
.............................................................
Quem não ama o dinheiro? Não me engano
Se creio que Satã à noite veio
Aos ouvidos de Adão adormecido
Na sua hora primeira, murmurar-lhe
Essa palavra mágica da vida,
Que vibra musical em todo o mundo.
Se houvesse o Deus vintém no Paraíso
Eva não se tentava pelas frutas,
Pela rubra maçã não se perdera;
Preferira de certo o louro amante
Que tine tão suave e é tão macio!
Se não faltasse o tempo a meus trabalhos
Eu mostraria quanto o povo mente
Quando diz — que a poesia enjeita, odeia
As moedinhas doiradas. — É mentira!
Desde Homero (que até pedia cobre),
Virgílio, Horácio, Calderon, Racine,
Boileau e o fabuleiro Lafontaine
E tantos que melhor de certo fora
Dos poetas copiar algum catálogo,
Todos a mil e mil por ele vivem,
E alguns chegaram a morrer por ele!
Eu só peço licença de fazer-vos
Uma simples pergunta. Na gaveta
Se Camões visse o brilho do dinheiro —
Malfilâtre, Gilbert, o altivo Chatterton
Se o tivessem nas rotas algibeiras
Acaso blasfemando morreriam?
D I N H E I R O
Oh! argent! Avec toi on est beau, jeune
adoré; on a considération, honneur,
qualités, vertus. Quand on n'a point d'argent,
on est dans la dépendance de toutes
choses et de tout le monde.
47
Chateaubriand
Sem ele não há cova — quem enterra
Assim gratis a Deo? O batizado
Também custa dinheiro. Quem namora
Sem pagar as pratinhas ao Mercúrio?
Demais as Danáes também o adoram.
Quem imprime seus versos, quem passeia,
Quem sobe a Deputado, até Ministro,
Quem é mesmo Eleitor, embora sábio,
Embora gênio, talentosa fronte,
Alma Romana, se não tem dinheiro?
Fora a canalha de vazios bolsos!
O mundo é para todos.... Certamente,
Assim o disse Deus — mas esse texto
Explica-se melhor e d’outro modo.
Houve um erro de imprensa no Evangelho:
O mundo é um festim — concordo nisso,
Mas não entra ninguém sem ter as louras.
MINHA DESGRAÇA
Minha desgraça, não, não é ser poeta,
Nem na terra de amor não ter um eco,
E meu anjo de Deus, o meu planeta
Tratar-me como trata-se um boneco...
Não é andar de cotovelos rotos,
Ter duro como pedra o travesseiro...
Eu sei... O mundo é um lodaçal perdido
Cujo sol (quem m’o dera)! é o dinheiro...
Minha desgraça, ó cândida donzela,
O que faz que o meu peito assim blasfema,
É ter para escrever todo um poema,
E não ter um vintém para uma vela.
SONETO
Passei ontem a noite junto dela.
Do camarote a divisão se erguia
Apenas entre nós — e eu vivia
No doce alento dessa virgem bela...
Tanto amor, tanto fogo se revela
Naqueles olhos negros! só a via!
Música mais do céu, mais harmonia
Aspirando nessa alma de donzela!
Como era doce aquele seio arfando!
48
Nos lábios que sorriso feiticeiro!
Daquelas horas lembro-me chorando!
Mas o que é triste e dói ao mundo inteiro
É sentir todo o seio palpitando...
Cheio de amores! e dormir solteiro!
EUTANÁSIA
Ergue-te daí, velho, — ergue essa fronte onde o passado afundou suas
rugas como o vendaval no Oceano, onde a morte assombrou sua palidez como na
face do cadáver — onde o simoun do tempo ressicou os anéis louros do
mancebo nas cãs alvacentas de ancião?
Por que tão lívido, ó monge taciturno, debruças a cabeça macilenta no peito que é
murcho, onde mal bate o coração sobre a cogula negra do asceta?
Escuta: A lua ergueu-se hoje mais prateada nos céus cor-de-rosa do verão — as montanhas se azulam no
crepuscular da tarde — e o mar cintila seu manto azul palhetado de aljôfares. A hora da tarde é bela — quem aí
na vida lhe não sagrou uma lágrima de saudade?
Tens os olhares turvos, luzem-te baços os olhos negros nas pálpebras roxas, e o beijo frio da doença te azulou
nos lábios a tinta do moribundo. — E por que te abismas em fantasias profundas sentado à borda de um fosso
aberto, sentado na pedra de um túmulo?
Por que pensá-la — a noite dos mortos, fria e trevosa como os ventos de inverno? Por que antes não banhas tua
fronte nas virações da infância, nos sonhos de moço? Sob essa estamenha não arfa um coração que palpitara
outrora por uns olhos gázeos de mulher?
Sonha — sonha antes no passado — no passado belo e doirado em seu dossel de escarlate, em seus mares azuis,
em suas luas límpidas, e suas estrelas românticas.
O velho ergueu a cabeça. Era uma fronte larga e calva, umas faces contraídas e amarelentas, uns lábios secos,
gretados, em que sobreaguava amargo sorriso, uns olhares onde a febre tresnoitava suas insônias...
E quem to disse — que a morte é a noite escura e fria, o leito de terra úmida, a podridão e o lodo? Quem to disse
— que a morte não era mais bela que as flores sem cheiro da infância, que os perfumes peregrinos e sem flores
da adolescência? Quem to disse — que a vida não é uma mentira — que a morte não é o leito das trêmulas
venturas?
GLÓRIA MORIBUNDA
Une fille de joie attendait sur la borne.
Théophile Gautier
I
É uma visão medonha uma caveira?
Não tremas de pavor, ergue-a do lodo.
Foi a cabeça ardente de um poeta,
Outr’ora à sombra dos cabelos loiros.
Quando o reflexo do viver fogoso
Ali dentro animava o pensamento,
Esta fronte era bela. Aqui nas faces
Formosa palidez cobria o rosto;
Nessas órbitas — ocas, denegridas! —
Como era puro seu olhar sombrio!
Agora tudo é cinza. Resta apenas
A caveira que a alma em si guardava,
Como a concha no mar encerra a pérola,
49
Como a caçoila a mirra incandescente.
Tu outr’ora talvez desses-lhe um beijo,
Por que repugnas levantá-lo agora?
Olha-o comigo! Que espaçosa fronte!
Quanta vida ali dentro fermentava,
Como a seiva nos ramos do arvoredo!
E a sede em fogo das idéias vivas
Onde está? onde foi? Essa alma errante
Que um dia no viver passou cantando,
Como canta na treva um vagabundo,
Perdeu-se acaso no sombrio vento,
Como noturna lâmpada apagou-se?
E a centelha da vida, o eletrismo
Que as fibras tremulantes agitava
Morreu para animar futuras vidas?
Sorris? eu sou um louco. As utopias,
Os sonhos da ciência nada valem.
A vida é um escárnio sem sentido,
Comédia infame que ensangüenta o lodo.
Há talvez um segredo que ela esconde;
Mas esse a morte o sabe e o não revela.
Os túmulos são mudos como o vácuo.
Desde a primeira dor sobre um cadáver,
Quando a primeira mãe entre soluços
Do filho morto os membros apertava
Ao ofegante seio, o peito humano
Caiu tremendo interrogando o túmulo...
E a terra sepulcral não respondia.
Levanta-me do chão essa caveira!
Vou cantar-te uma página da vida
De uma alma que penou, e já descansa.
II
— Por quem esperas trêmula a desoras,
Mulher da noite, na deserta rua?
A miséria venceu os teus orgulhos,
E vens na treva contratar teu leito?
Vem pois. És bela. Tens no rosto frio
A imagem das Madonas descoradas.
Vagabunda de amor, és bela e pálida.
Será doce em teu seio de morena
Um momento sentir os meus suspiros
Estuantes nos lábios doloridos.
Se inda podes amar, ergue-te ainda,
Une teu peito ao meu, pálida sombra!
III
50
Era uma fronte olímpica e sombria,
Nua ao vento da noite que agitava
As loiras ondas do cabelo solto;
Cabeça de poeta e libertino
Que fogo incerto de embriaguez corava.
Na fronte a palidez, no olhar aceso
O lume errante de uma febre insana.
IV
— Mancebo, quem és tu?
— Que importa o nome?
Um poeta de santas harmonias
Que a Musa obscena do bordel profana.
Na aparição balsâmica dos anjos
Porventura enlevei a mocidade.
Das virgens no cheiroso travesseiro
Porventura dormi... Meu Deus! que sonhos!
Em seios que a inocência adormecia
Repousei minha fronte embevecida.
Amei, mulher! amei!
Que sede intensa!
Secou-se-me a torrente do deserto
Que as folhas de frescura borrifava.
Tudo! tudo passou... Amei... Embora!
Quero agora dormir nos teus joelhos.
Nessa esponja da vida inda uma gota
Talvez reste a meus lábios anelantes
Que me dê um assomo de ventura
E um leito onde morrer amando ainda.
E que vida, mulher! que dor profunda,
Faminta como um verme aqui no peito!
Murcha desfaleceu a flor da vida
E cedo morrerá. . . E vós, meus anjos,
Ó Virgem Santa, que eu amei, na lira
A quem votei meu canto deliroso;
Amantes que eu sonhei, que eu amaria
Com todo o fogo juvenil que ainda
Me abrasa o coração, por que fugistes,
Brancas sombras, do céu das esperanças?
Oh! ríamos da vida! tudo mente!
Os meus versos gotejam de ironias!
Esse mundo sem fé merece prantos?
À orgia! na saturnal entre a loucura
Derrama o vinho sono e esquecimento.
Vinde, belezas que a volúpia inflama!
Bebamos juntos... Cantarei de novo:
51
A minha alma nas asas do improviso,
Como as aves do céu, voe cantando. . .
Todos caíram ébrios?.. . só eu resto?
Embora! em minha mão a lira pulsa,
Meu peito bate, a inspiração agora
Cânticos imortais ao lábio inspira.
Voai ao céu — não morrereis, meus cantos!
V
A glória! a glória! meu amor foi ela,
Foi meu Deus, o meu sangue... até meu gênio. . .
E agora!... Além os sonhos desta vida!
Quando eu morrer, meus versos incendeiem!
Apague-se meu nome — e ao cadáver
Nem lágrima nem cruz o mundo vote.
Sou um ímpio (disseram-n’o)! pois deixem-me
Descansar no sepulcro!
Por que choras,
Descorada mulher? Sabes acaso
Quem é o triste, o malfadado obscuro
Que delira e desvaira aqui na treva
E tuas mãos aperta convulsivo?
Eu não te posso amar. Meu peito morto
É como a rocha que o oceano bate
E branqueia de escuma: ali não pode
Medrar a flor cheirosa dos enlevos...
Teu amor... Eu descri até dos sonhos...
Demais dentro em tua alma eu vejo trevas,
Uma estrela de Deus não a ilumina.
Quem pudera nas ondas do passado,
Ditoso pescador, erguer no lodo
O ramo de coral de teus amores?
VI
Amei! amei! no sonho, nas vigílias
Esse nome gemi que eu adorava!
Votei amor a tudo quanto é belo!
Escuta... A rua é queda. A noite escura
É negra como um túmulo. Durmamos
No leito dos amores do perdido.
Vês? nem lua no céu... tudo é medonho!
Nem estrela de luz!... — Silêncio! Embora!
Escuta, anjo da noite! no meu peito
Não ouves palpitar o som da vida?
Deixa encostar meus lábios incendidos
No teu seio que bate. Vem, meu anjo!
A alma da formosura é sempre virgem!
Minha virgem — irmã — meu Deus! contigo
Oh! deixa-me viver! Eu sinto bela
52
A tua alma acordando refletir-te
Nesses olhos tão negros d'Espanhola.
Quero amar e viver — sonhar — em fogo
Meus frouxos dias exaurir n’um beijo,
Derramar a teus pés os meus amores,
Minhas santas canções a ti erguê-las,
A ti, e só a ti! —
VII
— Que tens? desmaias?
Que tens, mancebo?
— Nada. É cedo ainda.
Não é ela inda não. Chamei por ela...
Foi em vão... delirei...
— Por quem?
— A morte.
— Morrer! pobre de ti, ó meu poeta!
— Se a morte é sofrimento, eu sofro tanto,
Que a mudança do mal será consolo;
Se a morte é sono, meu cansado corpo
No descanso eternal deixai que durma.
— Eu também sofro. . . mas a morte assusta.
Eu mísera mulher nas amarguras
Descorei e perdi a formosura...
No amor impuro profanei minha'alma...
E nesta vida não amei contudo!
Não sou a virgem melindrosa e casta
Que nos sonhos da infância os anjos beijam
E entre as rosas da noite adormecera
Tão pura como a noite e como as flores;
Mas na minh'alma dorme amor ainda.
Levanta-me, poeta, dos abismos
Até ao puro sol do amor dos anjos!
Ó minha vida, minha vida pura,
Por que foram tão breves da inocência
Das crenças virginais os belos dias?
Chamei por Deus em vão. Sobre meu leito
Em vez do anjo do céu senti gelada
Sombra desconhecida vir sentar-se,
Em beijos frios roxear meus lábios,
Em abraços de morte unir-me ao seio.
Douda! chamei por Deus! a meu reclamo
Veio o torvo Satã... Oh! não maldigas
A mísera que os seios inocentes
Entregou sem pudor a mãos impuras:
Eram taças de Deus... eu bem sabia!
53
Mas todo o pesadelo do passado
Foi uma horrenda sina... tudo aquilo
Escrevera Satã... —
VIII
— Fatalidade!
É pois a voz unânime dos mundos,
Das longas gerações que se agonizam,
Que sobe aos pés do Eterno como incenso?
Serás tu como os bonzos te fingiram?
Sublime Criador, por que enjeitaste
A pobre criação? Por que a fizeste
Da argila mais impura e negro lodo,
E a lançaste nas trevas errabunda
Co'a palidez na fronte como anátema,
Qual lança a borboleta a raça d'oiro
No pântano e no sangue?
Tudo é sina:
O crime é um destino — o gênio, a glória
São palavras mentidas — a virtude
É a máscara vil que o vício cobre.
O egoísmo! eis a voz da humanidade.
Foste sublime, Criador dos mundos!
IX
Tudo morre, meu Deus! No mundo exausto
Bastardas gerações vagam descridas.
E a arte se vendeu, essa arte santa
Que orava de joelhos e vertia
O seu raio de luz e amor no povo,
E o gênio soluçando e moribundo
Olvidou-se da vida e do futuro
E blasfema lutando na agonia.
Agonia de morte! Só em torno
No leito do morrer as almas gemem.
E o fantasma da morte gela tudo.
Por que um ardente amor não mais suspira
Notas do coração pelo silêncio
Da noite enamorada? A chama pura
Por que das almas se apagou nas cinzas?
E a lira do poeta, se murmura
As ilusões de um mundo visionário,
Por que estala tão cedo? Vagabundo
Adormeci das árvores na sombra
E nos campos em flor errei sonhando
Coroando-me dos lírios da alvorada.
Árvore prateada da esperança,
Sombra das ilusões, ó vida bela
E sempre bela, e no morrer ainda,
54
Por que pousei a fronte sobre a relva
À sombra vossa, delirante um dia?
Oh! que morro também! na noite d'alma
Sinto-o no peito que um ardor consome,
No meu gênio que apaga-se nas orgias,
Que foge o mundo, e o sepulcro teme...
Exilei-me dos homens blasfemando...
Concentrei-me no fundo desespero,
E exausto de esperança e zombarias
Como um corpo no túmulo lancei-me,
Suicida da fé, no vício impuro.
X
E o mundo? não me entende. Para as turbas
Eu sou um doudo que se aponta ao dedo.
A glória é essa. P'ra viver um dia
Troquei o manto de cantor divino
Pelas roupas do insano. — Os sons profundos
Ninguém os aplaudia sobre a terra.
Para um pouco de pão ganhar da turba,
Como teu corpo no bordel profanas,
— Fiz mais ainda! — prostituí meu gênio!
Oh! ditoso Filinto! ele sim pôde
Na miséria guardar seu gênio puro;
Nunca infame beijou a mão dos grandes:
Morreu como Camões, morreu sem nódoa!
Mas eu! A voz do vício arrebatou-me,
Fascinou-me da infâmia o revérbero...
Maldições sobre mim! Abre-te, ó campa!
Ali obscuro dormirei na treva...
XI
Ó santa inspiração! fada noturna,
Por que a fronte não beijas do poeta?
Por que não lhe descansas nos cabelos
A coroa dos sonhos, e rebentam-lhe
Entre as lívidas mãos uma por uma
As cordas do alaúde no vibrá-las?
Ó santa inspiração! por que nas sombras
Não escuta o poeta à meia -noite
Os sons perdidos da harmonia santa
Que o pobre coração de amor lhe enchiam?
Eu fui à noite da taverna à mesa
Bater meu copo à taça do bandido,
Na louca saturnal beber com ele,
Ouvir-lhe os cantos da sangrenta vida
E as lendas de punhal e morticínio.
De vinho e febre pálido deitei-me
55
Sobre o leito venal de uma perdida...
Comprimi-a no meu exausto peito,
Falei-lhe em meu amor, contei-lhe sonhos,
Do meu passado a flor, as glórias murchas
E os longos beijos da primeira amante...
Amor! amor! meu sonho de mancebo!
Minha sede! meu canto de saudade!
Amor! Meu coração, lábios e vida
A ti, sol do viver, erguem-se ainda,
E a ti, sol do viver, erguem-se embalde!
Ouvi, ouvi no leito da miséria
A pálida mulher junto a meu peito
Contar-me seus amores que passaram,
Falar-me de purezas, d'esperanças...
E soluçava a triste, e ardentes, longas.
As lágrimas em fio deslizando
Eu vi caindo sobre o seio dela...
Oh! suas emoções, úmidos beijos,
Dos seios o tremor, aqueles prantos,
E os ofegantes ais... eram mentira!...
XII
Ah! vem, alma sombria que pranteias.
Por quem choras? Por mim? Em vez de prantos
Deixa-me suspirar em teus joelhos.
Tu sim és pura. Os anjos da inocência
Poderiam amar sobre teu seio.
Aperta minha mão! Senta-te um pouco
Bem unida a minha alma em meus joelhos:
Assim parece que um abraço aperta
Nossas almas que sofrem. Revivamos!
O passado é um sonho — o mundo é largo,
Fugiremos à pátria. Iremos longe
Habitar n’um deserto. No meu peito
Eu tenho amores para encher de encantos
Uma alma de mulher... Por que sorriste?
Sou um louco. Maldita a folha negra
Em que Deus escreveu a minha sina...
Maldita minha mãe, que entre os joelhos
Não soubeste apertar, quando eu nascia,
O meu corpo infantil! Maldita!...
XIII
Escuta.
Sinto uma voz no peito que suspira...
É a alma do poeta que desperta
E canta como as aves acordando.
56
Oh! cantemos! até que a morte fria
Gele nos lábios meus o último canto!
Um cântico de amor, ó minha lira!
Anália! Armia! aparições formosas!
Eu amei sobre a terra as vossas sombras.
O ideal que vos anima e eu buscava,
Vive apenas no céu! vou entre os anjos,
Entre os braços da morte amar com eles! —
XIV
O poeta a tremer caiu no lodo.
A perdida tomou-lhe a fronte branca,
Pô-la ao colo — era lívida — inda o fogo
Lá dentro vacilava agonizando,
Como flutua a claridão da lâmpada
Apagando-se ao vento.
E quando a aurora
Nos céus de nácar acordava o dia,
E nas nuvens azuis o sol purpúreo
Se embalava no eflúvio de ventura
Das flores que se abriam, dos perfumes,
Da brisa morna que tremia as folhas,
Macilenta a mulher no chão da rua
Sentada, a fronte curva, sobre os seios
Embalava cantando aquele morto.
Na manta o encobriu. Medrosa a furto
A infeliz o beijou — o pobre amante
Que uma noite pernoitou com ela
Para aos pés lhe morrer — e sem ao menos
Nas faces dela estremecer um beijo.
Alguém que ali passou, vendo-a tão pálida
Sentada sobre a laje, e tão ardente,
Chegou ao pé — ergueu ao malfadado
A manta.
Como súbito acordando
Disse a moça a tremer:
— Deixa-o agora.
Ele penou de febre toda a noite,
Deitou-se descansando sobre o leito...
Oh! deixa-m’o dormir.
— Mulher, no peito
Sabes quem tu dormiu?
— "Que importa o nome?"
57
Assim falava-me…
— Ai de ti, misérrima!
Um poeta morreu. Fronte divina,
Alma cheia de sol, fronte sublime
Que de um anjo devera no regaço
Amorosa viver. . . Morreu Bocage! —
SE EU MORRESSE AMANHÃ!
Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar os olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!
Quanta glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que manhã!
Eu perdera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã!
Que sol! que céu azul! que doce n’alva
Acorda a natureza mais louçã!
Não me batera tanto amor no peito,
Se eu morresse amanhã!
Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o dolorido afã...
A dor no peito emudecera ao menos,
Se eu morresse amanhã!
1
O Crime do Padre Amaro , de Eça de Queirós
Fonte:
QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. 12ª ed., São Paulo: Ática, 1998.
Texto proveniente de:
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro
A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo
Permitido o uso apenas para fins educacionais.
Texto-base gentilmente digitalizado por:
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PREFÁCIO DA SEGUNDA EDIÇÃO
A designação inscrita no frontispício deste livro - Edição Definitiva -
necessita uma explicação.
O Crime do Padre Amaro foi escrito há quatro ou cinco anos,
e desde essa época esteve esquecido entre os meus papéis - como
um esboço informe e pouco aproveitável.
Por circunstâncias que não são bastante interessantes para
serem impressas - este esboço de romance, em que a ação, os caracteres e o
estilo eram uma improvisação desleixada, foi publicado em 1875 nos
primeiros fascículos da Revista Ocidental, sem alterações, sem
correções, conservando toda a sua feição de esboço, e de um improviso
...............................................................................................................
............................................
Hoje O Crime do Padre Amaro aparece em volume - refundido
e transformado. Deitou-se parte da velha casa abaixo para erguer a
casa nova. Muitos capítulos foram reconstruídos linha por linha; capítulos
novos acrescentados; a ação modificada e desenvolvida; os caracteres mais
estudados, e completados; toda a obra enfim mais trabalhada.
Assim, O Crime do Padre Amaro da Revista Ocidental era
um rascunho, a edição provisória; o que hoje se publica é a obra acabada,
a edição definitiva .
Este trabalho novo conserva todavia - naturalmente - no estilo, no
desenho dos personagens, em certos traços da ação e do diálogo, muitos
dos defeitos do trabalho antigo: conserva vestígios consideráveis de certas
preocupações de Escola e de Partido, - lamentáveis sob o ponto de vista
2
da pura Arte - que tiveram outrora uma influência poderosa no
plano original do livro. Mas como estes defeitos provêm da
concepção mesma da obra, e do seu desenvolvimento lógico - não podiam
ser eliminados, sem que o romance fosse totalmente refeito na idéia e na
forma. Todo o mundo compreenderá que - correções, emendas, entrelinhas,
folhas intercaladas não bastam para alterar absolutamente a concepção
primitiva de um livro, e a sua primitiva execução.
Akenside Tewace -
5 de Julho de 1875.
EÇA DE QUEIRÓS
3
PREFÁCIO DA TERCEIRA EDIÇÃO
O Crime do Padre Amaro recebeu no Brasil e em Portugal alguma
atenção da Crítica, quando foi publicado ulteriormente um romance
intitulado - O Primo Basílio. E no Brasil e em Portugal escreveu-se (sem
todavia se aduzir nenhuma prova efetiva) que O Crime do Padre Amaro era
uma imitação do romance do Sr. E. Zola - La Faute de L'Abbé Mouret; ou
que este livro do autor do Assomoir e de outros magistrais estudos sociais
sugerira a idéia, os personagens, a intenção de O Crime do Padre Amaro.
Eu tenho algumas razões para crer que isto não é correto. O Crime do
Padre Amaro foi escrito em 1871, lido a alguns amigos em 1872,
e publicado em 1874 [sic]. O livro do Sr. Zola, La Faute de L'Abbé
Mouret (que é o quinto volume da série Rougon Macquart), foi escrito
e publicado em 1875.
Mas (ainda que isto pareça sobrenatural) eu considero esta razão
apenas como subalterna e insuficiente. Eu podia, enfim, ter penetrado no
cérebro, no pensamento do Sr. Zola, e ter avistado, entre as formas
ainda indecisas das suas criações futuras, a figura do abade Mouret, -
exatamente como o venerável Anquises no vale dos Elísios podia ver,
entre as sombras das raças vindouras flutuando na névoa luminosa do Lete,
aquele que um dia devia ser Marcelo. Tais coisas são possíveis. Nem o
homem prudente as deve considerar mais extraordinárias que o carro de
fogo que arrebatou Elias aos Céus - e outros prodígios provados.
O que, segundo penso, mostra melhor que a acusação carece
de exatidão, é a simples comparação dos dois romances. La Faute
de L'Abbé Mouret é, no seu epis6dio central, o quadro aleg6rico
da iniciação do primeiro homem e da primeira mulher no amor. O abade
Mouret (Sérgio), tendo sido atacado duma febre cerebral,
trazida principalmente pela sua exaltação mística no culto da Virgem,
na solidão de um vale abrasado da Provença (primeira parte do livro), é
levado para convalescer ao Paradou, antigo parque do século XVII a que o
abandono refez uma virgindade selvagem, e que é a representação alegórica
do Paraíso. Ai, tendo perdido na lebre a consciência de si mesmo a
ponto de se esquecer do seu sacerdócio e da existência da aldeia, e
a consciência do universo a ponto de ter medo do Sol e das árvores
do Paradou como de monstros estranhos - erra, durante meses, pelas
profundidades do bosque inculto, com Albina que é o gênio, a Eva desse
lugar de legenda; Albina e Sérgio, seminus como no Paraíso, procuram sem
cessar, por um instinto que os impele, urna árvore misteriosa, da rama da
qual cai a influência afrodisíaca da matéria procriadora; sob este símbolo
4
da Árvore da Ciência se possuem, depois de dias angustiosos em
que tentam descobrir, na sua inocência paradisíaca, o meio físico de
realizar o amor; depois, numa mútua vergonha súbita, notando a sua nudez,
cobrem-se de folhagens; e dai os expulsa, os arranca o padre Arcangias,
que é a personificação teocrática do antigo Arcanjo. Na última parte do
livro o abade Mouret recupera a consciência de si mesmo, subtrai-se á
influência dissolvente da adoração da Virgem, obtém por um esforço da
oração e um privilégio da graça a extinção da sua virilidade, e torna-se um
asceta sem nada de humano, uma sombra caída aos pés da cruz; e, é sem
que lhe mude a cor do rosto que asperge e responsa o esquife de Albina,
que se asfixiou no Paradou sob um montão de flores de perfumes fortes.
Os críticos inteligentes que acusaram O Crime do Padre Amaro de
ser apenas uma imitação da Faute de L'Abbé Mouret não
tinham infelizmente lido o romance maravilhoso do Sr. Zola, foi talvez a
origem de toda a sua g16ria. A semelhança casual dos dois títulos induziuos
em erro.
Com conhecimento dos dois livros, só uma obtusidade córnea ou máfé
cínica poderia assemelhar esta bela alegoria idílica, a que está misturado
o patético drama duma alma mística, a'O Crime do Padre Amaro que,
como podem ver neste novo trabalho, é apenas, no fundo, uma intriga de
clérigos e de beatas tramada e murmurada à sombra duma velha Sé de
província portuguesa.
Aproveito este momento para agradecer á Crítica do Brasil e
de Portugal a atenção que ela tem dado aos meus trabalhos.
Bristol, 1 de Janeiro de 1880.
EÇA DE QUEIRÒS
5
I
Foi no domingo de Páscoa que se soube em Leiria, que o pároco da
Sé, José Miguéis, tinha morrido de madrugada com uma apoplexia.
O pároco era um homem sangüíneo e nutrido, que passava entre o clero
diocesano pelo comilão dos comilões. Contavam-se histórias singulares da
sua voracidade. O Carlos da Botica - que o detestava - costumava dizer,
sempre que o via sair depois da sesta, com a face afogueada de sangue,
muito enfartado:
- Lá vai a jibóia esmoer. Um dia estoura!
Com efeito estourou, depois de uma ceia de peixe - à hora em
que defronte, na casa do doutor Godinho que fazia anos, se polcava com
alarido. Ninguém o lamentou, e foi pouca gente ao seu enterro. Em geral
não era estimado. Era um aldeão; tinha os modos e os pulsos de um
cavador, a voz rouca, cabelos nos ouvidos, palavras muito rudes.
Nunca fora querido das devotas; arrotava no confessionário, e,
tendo vivido sempre em freguesias da aldeia ou da serra, não compreendia
certas sensibilidades requintadas da devoção: perdera por isso, logo ao
princípio, quase todas as confessadas, que tinham passado para o polido
padre Gusmão, tão cheio de lábia!
E quando as beatas, que lhe eram fiéis, lhe iam falar de escrúpulos de
visões, José Miguéis escandalizava-as, rosnando:
- Ora histórias, santinha! Peça juízo a Deus! Mais miolo na bola!
As exagerações dos jejuns sobretudo irritavam-no:
- Coma-lhe e beba-lhe, costumava gritar, coma-lhe e beba-lhe,
criatura!
Era miguelista - e os partidos liberais, as suas opiniões, os
seus jornais enchiam-no duma cólera irracionável:
- Cacete! cacete! exclamava, meneando o seu enorme guardasol
vermelho.
Nos últimos anos tomara hábitos sedentários, e vivia isolado -
com uma criada velha e um cão, o Joli. O seu único amigo era o chantre
Valadares, que governava então o bispado, porque o senhor bispo D.
Joaquim gemia, havia dois anos, o seu reumatismo, numa quinta do Alto
Minho. O pároco tinha um grande respeito pelo chantre, homem seco, de
grande nariz, muito curto de vista, admirador de Ovídio - que falava
fazendo sempre boquinhas, e com alusões mitológicas.
O chantre estimava-o. Chamava-lhe Frei Hércules.
- Hércules pela força - explicava sorrindo, Frei pela gula.
6
No seu enterro ele mesmo lhe foi aspergir a cova; e, como costumava
oferecer-lhe todos os dias rapé da sua caixa de ouro, disse aos
outros cônegos, baixinho, ao deixar-lhe cair sobre o caixão, segundo o
ritual, o primeiro torrão de terra:
- É a última pitada que lhe dou!
Todo o cabido riu muito com esta graça do senhor governador
do bispado; o cônego Campos contou-o à noite ao chá em casa do
deputado Novais; foi celebrada com risos deleitados, todos exaltaram as
virtudes do chantre, e afirmou-se com respeito - que sua excelência tinha
muita pilhéria!
Dias depois do enterro apareceu, errando pela Praça, o cão do
pároco, o Joli. A criada entrara com sezões no hospital; a casa fora fechada;
o cão, abandonado, gemia a sua fome pelos portais. Era um gozo
pequeno, extremamente gordo, - que tinha vagas semelhanças com o
pároco. Com o hábito das batinas, ávido dum dono, apenas via um padre
punha-se a segui-lo, ganindo baixo. Mas nenhum queria o infeliz Joli;
enxotavam-no com as ponteiras dos guarda-sóis; o cão, repelido como um
pretendente, toda a noite uivava pelas ruas. Uma manhã apareceu morto ao
pé da Misericórdia; a carroça do estrume levou-o e, como ninguém tomou a
ver o cão, na Praça, o pároco José Miguéis foi definitivamente esquecido.
Dois meses depois soube-se em Leiria que estava nomeado
outro pároco. Dizia-se que era um homem muito novo, saído apenas do
seminário. O seu nome era Amaro Vieira. Atribuía-se a sua escolha a
influências políticas, e o jornal de Leiria, A Voz do Distrito, que estava na
oposição, falou com amargura, citando o Gólgota, no favoritismo da corte
e na reação clerical. Alguns padres tinham-se escandalizado com o artigo;
conversou-se sobre isso, acremente, diante do senhor chantre.
- Não, não, lá que há favor, há; e que o homem tem padrinhos, tem -
disse o chantre. - A mim quem me escreveu para a confirmação foi o Brito
Correia (Brito Correia era então ministro da Justiça). Até me diz na carta
que o pároco é um belo rapagão. De sorte que - acrescentou sorrindo com
satisfação - depois de Frei Hércules vamos talvez ter Frei Apolo.
Em Leiria havia só uma pessoa que conhecia o pároco novo: era
o cônego Dias, que fora nos primeiros anos do seminário seu mestre
de Moral. No seu tempo, dizia o cônego, o pároco era um rapaz
franzino, acanhado, cheio de espinhas carnais...
- Parece que o estou a ver com a batina muito coçada e cara de quem
tem lombrigas!... De resto bom rapaz! E espertote...
O cônego Dias era muito conhecido em Leiria. Ultimamente
engordara, o ventre saliente enchia-lhe a batina e a sua cabecinha grisalha,
as olheiras papudas, o beiço espesso faziam lembrar velhas anedotas de
frades lascivos e glutões.
7
O tio Patrício, o Antigo, negociante da Praça, muito liberal e
que quando passava pelos padres rosnava como um velho cão de fila, dizia
às vezes ao vê-lo atravessar a Praça, pesado, ruminando a digestão,
encostado ao guarda-chuva:
- Que maroto! Parece mesmo D. João VI!
O cônego vivia só com uma irmã velha, a Sra. D. Josefa Dias, e uma
criada, que todos conheciam também em Leiria, sempre na rua, entrouxada
num xale tingido de negro, e arrastando pesadamente as suas chinelas de
ourelo. O cônego Dias passava por ser rico; trazia ao pé de Leiria
propriedades arrendadas, dava jantares com peru, e tinha reputação o seu
vinho duque de 1815. Mas o fato saliente da sua vida - o fato comentado e
murmurado - era a sua antiga amizade com a Sra. Augusta Caminha, a
quem chamavam a S. Joaneira, por ser natural de S. João da Foz. A S.
Joaneira morava na Rua da Misericórdia, e recebia hóspedes. Tinha uma
filha, a Ameliazinha, rapariga de vinte e três anos, bonita, forte, muito
desejada.
O cônego Dias mostrara um grande contentamento com a
nomeação de Amaro Vieira. Na botica do Carlos, na Praça, na sacristia da
Sé, exaltou os seus bons estudos no seminário, a sua prudência de
costumes, a sua obediência: gabava-lhe mesmo a voz: "um timbre que é um
regalo.'"
- Para um bocado de sentimento nos sermões da Semana Santa, está
a calhar!
Predizia-lhe com ênfase um destino feliz, uma conezia decerto,
talvez a glória de um bispado!
E um dia, enfim, mostrou com satisfação ao coadjutor da Sé, criatura
servil e calada, uma carta que recebera de Lisboa de Amaro Vieira.
Era uma tarde de Agosto e passeavam ambos para os lados da
Ponte Nova. Andava então a construir-se a estrada da Figueira: o velho
passadiço de pau sobre a ribeira do Lis tinha sido destruído, já se passava
sobre a Ponte Nova, muito gabada, com os seus dois largos arcos de pedra,
fortes e atarracados. Para diante as obras estavam suspendidas por
questões de expropriação; ainda se via o lodoso caminho da freguesia de
Marrazes, que a estrada nova devia desbastar e incorporar; camadas de
cascalho cobriam o chão; e os grossos cilindros de pedra, que acalcam e
recamam os macadames, enterravam-se na terra negra e úmida das chuvas.
Em roda da Ponte a paisagem é larga e tranqüila. Para o lado de onde
o rio vem são colinas baixas, de formas arredondadas, cobertas da rama
verde-negra dos pinheiros novos; embaixo, na espessura dos arvoredos,
estão os casais que dão àqueles lugares melancólicos uma feição mais viva
e humana - com as suas alegres paredes caiadas que luzem ao sol, com os
fumos das lareiras que pela tarde se azulam nos ares sempre claros e
8
lavados. Para o lado do mar, para onde o rio se arrasta nas terras baixas
entre dois renques de salgueiros pálidos, estende-se até os primeiros areais
o campo de Leiria, largo, fecundo, com o aspecto de águas abundantes,
cheio de luz. Da Ponte pouco se vê da cidade; apenas uma esquina
das cantarias pesadas e jesuíticas da Sé, um canto do muro do cemitério
coberto de parietárias, e pontas agudas e negras dos ciprestes; o resto está
escondido pelo duro monte ouriçado de vegetações rebeldes, onde
destacam as ruínas do Castelo, todas envolvidas à tarde nos largos vôos
circulares dos mochos, desmanteladas e com um grande ar histórico.
Ao pé da Ponte, uma rampa desce para a alameda que se estende um
pouco à beira do rio. É um lugar recolhido, coberto de árvores
antigas. Chamam-lhe a Alameda Velha. Ali, caminhando devagar, falando
baixo, o cônego consultava o coadjutor sobre a carta de Amaro Vieira, e
sobre ''uma idéia que ela lhe dera, que lhe parecia de mestre! De mestre!''
Amaro pedia-lhe com urgência que lhe arranjasse uma casa de aluguel,
barata, bem situada, e se fosse possível mobilada; falava sobretudo de
quartos numa casa de hóspedes respeitável. "Bem vê o meu caro padremestre,
dizia Amaro, que era isto o que verdadeiramente me convinha; eu
não quero luxos, está claro: um quarto e uma saleta seria o bastante. O que
é necessário é que a casa seja respeitável, sossegada, central, que a patroa
tenha bom gênio e que não peça mundos e fundos; deixo tudo isto à sua
prudência e capacidade, e creia que todos estes favores não cairão em
terreno ingrato. Sobretudo que a patroa seja pessoa acomodada e de boa
língua."
- Ora a minha idéia, amigo Mendes, é esta: metê-lo em casa da
S. Joaneira! resumiu o cônego com um grande contentamento. É rica idéia,
hem!
- Soberba idéia, disse o coadjutor com a sua voz servil.
- Ela tem o quarto de baixo, a saleta pegada e o outro quarto
que pode servir de escritório. Tem boa mobília, boas roupas...
- Ricas roupas, disse o coadjutor com respeito.
O cônego continuou:
- É um belo negócio para a S. Joaneira: dando os quartos,
roupas, comida, criada, pode muito bem pedir os seus seis tostões por dia.
E depois sempre tem o pároco de casa.
- Por causa da Ameliazinha é que eu não sei - considerou
timidamente o coadjutor. - Sim, pode ser reparado. Uma rapariga nova...
Diz que o senhor pároco é ainda novo... Vossa senhoria sabe o que são
línguas do mundo.
O cônego tinha parado:
- Ora histórias! Então o padre Joaquim não vive debaixo das mesmas
telhas com a afilhada da mãe? E o cônego Pedroso não vive com
9
a cunhada, e uma irmã da cunhada, que é uma rapariga de dezenove
anos? Ora essa!
- Eu dizia... atenuou o coadjutor.
- Não, não vejo mal nenhum. A S. Joaneira aluga os seus quartos, é
como se fosse uma hospedaria. Então o secretário-geral não esteve lá
uns poucos de meses?
- Mas um eclesiástico... insinuou o coadjutor.
- Mais garantias, Sr. Mendes, mais garantias! exclamou o cônego. E
parando, com uma atitude confidencial: - E depois a mim é que
me convinha, Mendes! A mim é que me convinha, meu amigo!
Houve um pequeno silêncio. O coadjutor disse, baixando a voz:
- Sim, vossa senhoria faz muito bem à S. Joaneira...
- Faço o que posso, meu caro amigo, faço o que posso, disse
o cônego. E com uma entonação terna, risonhamente paternal: - que ela
é merecedora! é merecedora. Boa até ali, meu amigo! - Parou,
esgazeando os olhos: - Olhe que dia em que eu não lhe apareça pela manhã
às nove em ponto, está num frenesi! Oh criatura! digo-lhe eu, a senhora
rala-se sem razão. Mas então, é aquilo! Pois quando eu tive a cólica o ano
passado! Emagreceu, Sr. Mendes! E depois não há lembrança que não
tenha! Agora, pela matança do porco, o melhor do animal é para o padre
santo, você sabe? é como ela me chama.
Falava com os olhos luzidos, uma satisfação babosa.
- Ah, Mendes! acrescentou, é uma rica mulher!
- E bonita mulher, disse o coadjutor respeitosamente.
- Lá isso! exclamou o cônego parando outra vez. Lá isso! Bem
conservada até ali! Pois olhe que não é uma criança! Mas nem um
cabelo branco, nem um, nem um só! E então que cor de pele! - E mais
baixo, com um sorriso guloso: - E isto aqui! ó Mendes, e isto aqui! -
Indicava o lado do pescoço debaixo do queixo, passando-lhe devagar por
cima a sua mão papuda: - É uma perfeição! E depois mulher de asseio,
muitíssimo asseio! E que lembrançazinhas! Não há dia que me não mande
o seu presente! é o covilhete de geléia, é o pratinho de arroz-doce, é a bela
morcela de Arouca! Ontem me mandou ela uma torta de maçã. Ora havia
de você ver aquilo! A maçã parecia um creme! Até a mana Josefa disse:
"Está tão boa que parece que foi cozida em água benta!" - E pondo a mão
espalmada sobre o peito: - São coisas que tocam a gente cá por dentro,
Mendes! Não, não é lá por dizer, mas não há outra.
O coadjutor escutava com a taciturnidade da inveja.
- Eu bem sei, disse o cônego parando de novo e tirando lentamente as
palavras, eu bem sei que por ai rosnam, rosnam... Pois é uma grandíssima
calúnia! O que é, é que eu tenho muito apego àquela gente. Já o tinha em
tempo do marido. Você bem o sabe, Mendes.
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O coadjutor teve um gesto afirmativo.
- A S. Joaneira é uma pessoa de bem! olhe que é uma pessoa de bem,
Mendes! exclamava o cônego batendo no chão fortemente com a ponteira
do guarda. sol.
- As línguas do mundo são venenosas, senhor cônego, disse o
coadjutor com uma voz chorosa. E depois dum silêncio, acrescentou
baixo: - Mas aquilo a vossa senhoria deve-lhe sair caro!
- Pois aí está, meu amigo! Imagine você que desde que o secretáriogeral
se foi embora a pobre da mulher tem tido a casa vazia: eu é que
tenho dado para a panela, Mendes!
- Que ela tem uma fazendita, considerou o coadjutor.
- Uma nesga de terra, meu rico senhor, uma nesga de terra! E depois
as décimas, os jornais! Por isso digo eu, o pároco é uma mina. Com os seis
tostões que ele der, com que eu ajudar, com alguma coisa que ela tire da
hortaliça que vende da fazenda, já se governa. E para mim é um alívio,
Mendes.
- É um alívio, senhor cônego! repetiu o coadjutor.
Ficaram calados. A tarde descaía muito límpida; o alto céu tinha uma
pálida cor azul; o ar estava imóvel. Naquele tempo o rio ia muito vazio;
pedaços de areia reluziam em seco; e a água baixa arrastava-se com um
marulho brando, toda enrugada do roçar dos seixos.
Duas vacas, guardadas por uma rapariga, apareceram então
pelo caminho lodoso que do outro lado do rio, defronte da alameda, corre
junto de um silvado; entraram no rio devagar, e estendendo o pescoço
pelado da canga, bebiam de leve, sem ruído; a espaços erguiam a cabeça
bondosa, olhavam em redor com a passiva tranqüilidade dos seres fartos - e
fios de água, babados, luzidios à luz, pendiam-lhes dos cantos do focinho.
Com a inclinação do sol a água perdia a sua claridade espelhada,
estendiam-se as sombras dos arcos da Ponte. Do lado das colinas ia subindo
um crepúsculo esfumado, e as nuvens cor de sangüínea e cor de laranja que
anunciam o calor faziam, sobre os lados do mar, uma decoração muito rica.
- Bonita tarde! disse o coadjutor.
O cônego bocejou, e fazendo uma cruz sobre o bocejo:
- Vamo-nos chegando às Ave-Marias, hem?
Quando, daí a pouco, iam subindo as escadarias da Sé, o
cônego parou, e voltando-se para o coadjutor:
- Pois está decidido, amigo Mendes, ferro o Amaro na casa da
S. Joaneira! É uma pechincha para todos.
- Uma grande pechincha! disse respeitosamente o coadjutor.
Uma grande pechincha!
E entraram na igreja, persignando-se.
11
II
Uma semana depois, soube-se que o novo pároco devia chegar
pela diligência de Chão de Maçãs, que traz o correio à tarde; e desde as
seis horas o cônego Dias e o coadjutor passeavam no Largo do Chafariz,
à espera de Amaro.
Era então nos fins de Agosto. Na longa alameda macadamizada
que vai junto do rio, entre os dois renques de velhos choupos, entreviam-se
vestidos claros de senhoras passeando. Do lado do Arco, na correnteza de
casebres pobres, velhas fiavam à porta; crianças sujas brincavam pelo
chão, mostrando seus enormes ventres nus; e galinhas em redor iam
picando vorazmente as imundícies esquecidas. Em redor do chafariz cheio
de ruído, onde os cântaros arrastam sobre a pedra, criadas ralham, soldados,
com a sua fardeta suja, enormes botas cambadas, namoravam, meneando a
chibata de junco; com o seu cântaro bojudo de barro equilibrado à
cabeça sobre a rodilha, raparigas iam-se aos pares, meneando os quadris; e
dois oficiais ociosos, com a farda desapertada sobre o estômago,
conversavam, esperando, a ver quem viria. A diligência tardava. Quando o
crepúsculo desceu, uma lamparina luziu no nicho do santo, por cima do
Arco; e defronte iam-se iluminando uma a uma, com uma luz soturna, as
janelas do hospital.
Já tinha anoitecido quando a diligência, com as lanternas
acesas, entrou na Ponte ao trote esgalgado dos seus magros cavalos
brancos, e veio parar ao pé do chafariz, por baixo da estalagem do Cruz; o
caixeiro do tio Patrício partiu logo a correr para a Praça com o maço dos
Diários Populares; o tio Baptista, o patrão, com o cachimbo negro ao canto
da boca, desatrelava, praguejando tranqüilamente; e um homem que
vinha na almofada, ao pé do cocheiro, de chapéu alto e comprido capote
eclesiástico, desceu cautelosamente, agarrando-se às guardas de ferro dos
assentos, bateu com os pés no chão para os desentorpecer, e olhou em
redor.
- Oh, Amaro! gritou o cônego, que se tinha aproximado, oh ladrão!
- Oh, padre-mestre! disse o outro com alegria. E abraçaramse,
enquanto o coadjutor, todo curvado, tinha o barrete na mão.
Daí a pouco as pessoas que estavam nas lojas viram atravessar
a Praça, entre a corpulência vagarosa do cônego Dias e a figura esguia
do coadjutor, um homem um pouco curvado, com um capote de padre.
Soube- se que era o pároco novo; e disse-se logo na botica que era uma boa
12
figura de homem. O João Bicha levava adiante um baú e um saco de chita;
e como aquela hora já estava bêbedo, ia resmungando o Bendito.
Eram quase nove horas, a noite cerrara. Em redor da Praça as
casas estavam já adormecidas: das lojas debaixo da arcada saía a luz triste
dos candeeiros de petróleo, entreviam-se dentro figuras sonolentas,
caturrando em cavaqueira, ao balcão. As ruas que vinham dar à Praça,
tortuosas, tenebrosas, com um lampião mortiço, pareciam desabitadas. E no
silêncio o sino da Sé dava vagarosamente o toque das almas.
O cônego Dias ia explicando pachorrentamente ao pároco "o que lhe
arranjara". Não lhe tinha procurado casa: seria necessário comprar mobília,
buscar criada, despesas inumeráveis! Parecera-lhe melhor tomar- lhe
quartos numa casa de hóspedes respeitável, de muito conchego - e nessas
condições (e ali estava o amigo coadjutor que o podia dizer), não
havia como a da S. Joaneira. Era bem arejada, muito asseio, a cozinha não
deitava cheiro; tinha lá estado o secretário-geral e o inspetor dos estudos; e
a S. Joaneira (o Mendes amigo conhecia-a bem) era uma mulher temente
a Deus, de boas contas, muito econômica e cheia de condescendências...
- Você está ali como em sua casa! Tem o seu cozido, prato de
meio, café...
- Vamos a saber, padre-mestre: preço? disse o pároco.
- Seis tostões. Que diabo! é de graça! Tem um quarto, tem
uma saleta...
- Uma rica saleta, comentou o coadjutor respeitosamente.
- E é longe da Sé? perguntou Amaro.
- Dois passos. Pode-se ir dizer missa de chinelos. Na casa há
uma rapariga, continuou com a sua voz pausada o cônego Dias. E a filha da
S. Joaneira. Rapariga de vinte e dois anos. Bonita. Sua pontinha de
gênio, mas bom fundo... Aqui tem você a sua rua.
Era estreita, de casas baixas e pobres, esmagada pelas altas
paredes da velha Misericórdia, com um lampião lúgubre ao fundo.
- E aqui tem você o seu palácio! disse o cônego, batendo na
aldraba de uma porta esguia.
No primeiro andar duas varandas de ferro, de aspecto antigo,
faziam saliência, com os seus arbustos de alecrim, que se arredondavam
aos cantos em caixas de madeira; as janelas de cima, pequeninas, eram de
peitoril; e a parede, pelas suas irregularidades, fazia lembrar uma lata
amolgada.
A S. Joaneira esperava no alto da escada; uma criada, enfezada
e sardenta, alumiava com um candeeiro de petróleo; e a figura da S.
Joaneira destacava plenamente na luz sobre a parede caiada. Era gorda,
alta, muito branca, de aspecto pachorrento. Os seus olhos pretos tinham já
em redor a pele engelhada; os cabelos arrepiados, com um enfeite escarlate,
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eram já raros aos cantos da testa e no começo da risca; mas percebiam-se
uns braços rechonchudos, um colo copioso e roupas asseadas.
- Aqui tem a senhora o seu hóspede, disse o cônego subindo.
- Muita honra em receber o senhor pároco! muita honra! Há-de
vir muito cansado! por força! Para aqui, tem a bondade? Cuidado com
o degrauzinho.
Levou-o para uma sala pequena, pintada de amarelo, com um
vasto canapé de palhinha encostado à parede, e defronte, aberta, uma mesa
forrada de baeta verde.
- É a sua sala, senhor pároco, disse a S. Joaneira. Para receber, para
espairecer... Aqui - acrescentou abrindo uma porta - é o seu quarto de
dormir. Tem a sua cômoda, o seu guarda-roupa... - Abriu os
gavetões, gabou a cama batendo a elasticidade dos colchões. - Uma
campainha para chamar sempre que queira... As chavinhas da cômoda estão
aqui... Se gosta de travesseirinho mais alto... Tem um cobertor só, mas
querendo...
- Está bem, está tudo muito bem, minha senhora, - disse o
pároco com a sua voz baixa e suave.
- É pedir! O que há, da melhor vontade...
- Oh criatura de Deus! interrompeu o cônego jovialmente, o que ele
quer agora é cear!
- Também tem a ceiazinha pronta. Desde as seis que está o caldo a
apurar...
E saiu, para apressar a criada, dizendo logo do fundo da escada:
- Vá, Ruça, mexe-te, mexe-te!...
O cônego sentou-se pesadamente no canapé, e sorvendo a sua pitada:
- É contentar, meu rico. Foi o que se pôde arranjar.
- Eu estou bem em toda parte, padre-mestre, disse o pároco, caçando
os seus chinelos de ourelo. Olha o seminário!... E em Feirão! Caía- me a
chuva na cama.
Para o lado da Praça, então, sentiu-se o toque de cometas.
- Que é aquilo? perguntou Amaro, indo à janela.
- As nove e meia, o toque de recolher.
Amaro abriu a vidraça. Ao fim da rua um candeeiro esmorecia.
A noite estava muito negra. E havia sobre a cidade um silêncio côncavo,
de abóbada.
Depois das cometas, um rufar lento de tambores afastou-se para
o lado do quartel; por baixo da janela um soldado, que se demorara
nalguma viela do Castelo, passou correndo; e das paredes da
Misericórdia saía constantemente o agudo piar das corujas.
- É triste isto, disse Amaro.
Mas a S. Joaneira gritou de cima:
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- Pode subir, senhor cônego! Está o caldo na mesa!
- Ora vá, vá, que você deve estar a cair de fome, Amaro! - disse o
cônego, erguendo-se muito pesado.
E detendo um momento o pároco, pela manga do casaco:
- Vai você ver o que é um caldo de galinha feito cá pela senhora! Da
gente se babar!...
No meio da sala de jantar, forrada de papel escuro, a claridade
da mesa alegrava, com a sua toalha muito branca, a louça, os copos
reluzindo à luz forte dum candeeiro de abajur verde. Da terrina subia o
vapor cheiroso do caldo e, na larga travessa a galinha gorda, afogada num
arroz úmido e branco, rodeada de nacos de bom paio, tinha uma aparência
suculenta de prato morgado. No armário envidraçado, um pouco na
sombra, viam-se cores claras de porcelana; a um canto, ao pé da janela,
estava o piano, coberto com uma colcha de cetim desbotado. Na cozinha
frigia-se; e sentindo o cheiro fresco que vinha dum tabuleiro de roupa
lavada, o pároco esfregou as mãos, regalado.
- Para aqui, senhor pároco, para aqui, disse a S. Joaneira. Dai pode
vir-lhe frio. - Foi fechar as portadas das janelas; chegou-lhe um caixão de
areia para as pontas dos cigarros. - E o senhor cônego toma um copinho de
geléia, sim?
- Vá lá, para fazer companhia, disse jovialmente o cônego, sentandose
e desdobrando o guardanapo.
A S. Joaneira, no entanto, mexendo-se pela sala, ia admirando
o pároco, que, com a cabeça sobre o prato, comia em silêncio o seu
caldo, soprando a colher. Parecia bem-feito; tinha um cabelo muito preto,
levemente anelado. O rosto era oval, de pele trigueira e fina, os olhos
negros e grandes, com pestanas compridas.
O cônego, que não o via desde o seminário, achava-o mais
forte, mais viril.
- Você era enfezadito...
- Foi o ar da serra, dizia o pároco, fez-me bem! - Contou então a sua
triste existência em Feirão, na alta Beira, durante a aspereza do Inverno, só
com pastores. O cônego deitava-lhe o vinho de alto, fazendo-o espumar.
- Pois é beber-lhe, homem! é beber-lhe! Desta gota não pilhava você
no seminário.
Falaram do seminário.
- Que será feito do Rabicho, o despenseiro? disse o cônego.
- E do Carocho, que roubava as batatas?
Riram; e bebendo, na alegria das reminiscências, recordavam as
histórias de então, o catarro do reitor, e o mestre do cantochão que
deixara um dia cair do bolso as poesias obscenas de Bocage.
- Como o tempo passa, como o tempo passa! diziam.
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A S. Joaneira então pôs na mesa um prato covo com maçãs assadas.
- Viva! Não, lá nisso também eu entro! exclamou logo o cônego. A
bela maçã assada! nunca me escapa! Grande dona de casa, meu amigo, rica
dona de casa, cá a nossa S. Joaneira! Grande dona de casa!
Ela ria; viam-se os seus dois dentes de diante, grandes e
chumbados. Foi buscar uma garrafa de vinho do Porto; pôs no prato do
cônego, com requintes devotos, uma maçã desfeita, polvilhada de açúcar; e
batendo-lhe nas costas com a mão papuda e mole:
- Isto é um santo, senhor pároco, isto é um santo! Ai! devolhe
muitos favores!
- Deixe falar, deixe falar, dizia o cônego. - Espalhava-se-lhe no rosto
um contentamento baboso. - Boa gota! acrescentou, saboreando o seu
cálice de Porto. Boa gota!
- Olhe que ainda é dos anos da Amélia, senhor cônego.
- E onde está ela, a pequena?
- Foi ao Morenal com a D. Maria. Aquilo naturalmente foram para
casa das Gansosos passar a noite.
- Cá esta senhora é proprietária, explicou o cônego, falando
do Morenal. É um condado! - Ria com bonomia, e os seus olhos
luzidios percorriam ternamente a corpulência da S. Joaneira.
- Ah, senhor pároco, deixe falar, é uma nesga de terra... disse ela.
Mas vendo a criada encostada à parede, sacudida com aflições de
tosse:
- Ó mulher, vai tossir lá para dentro! credo!
A moça saiu, pondo o avental sobre a boca.
- Parece doente, coitada, observou o pároco.
Muito achacada, muito!... A pobre de Cristo era sua afilhada, órfã, e
estava quase tísica. Tinha-a tomado por piedade...
- E também porque a criada que cá tinha foi para o hospital, a
desavergonhada... Meteu-se aí com um soldado!...
O padre Amaro baixou devagar os olhos - e trincando
migalhas, perguntou se havia muitas doenças naquele Verão.
- Colerinas, das frutas verdes, rosnou o cônego. Metem-se
pelas melancias, depois tarraçadas de água... E suas febritas...
Falaram então das sezões do campo, dos ares de Leiria.
- Que eu agora, dizia o padre Amaro, ando mais forte. Louvado seja
Nosso Senhor Jesus Cristo, tenho saúde, tenho!
- Ai, Nosso Senhor lha conserve, que nem sabe o bem que é!
exclamou a S. Joaneira. - Contou imediatamente a grande desgraça que
tinha em casa, uma irmã meio idiota entrevada havia dez anos! Ia fazer
sessenta anos... No Inverno viera-lhe um catarro, e desde então, coitadinha,
definhava, definhava...
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- Há bocado, ao fim da tarde, teve ela um ataque de tosse! Pensei que
se ia embora. Agora descansou mais...
Continuou a falar "daquela tristeza", depois da sua Ameliazinha, das
Gansosos, do antigo chantre, da carestia de tudo - sentada, com o gato no
colo, rolando com os dois dedos, monotonamente, bolinhas de pão. O
cônego, pesado, cerrava as pálpebras; tudo na sala parecia ir gradualmente
adormecendo; a luz do candeeiro esmorecia.
- Pois senhores, disse por fim o cônego mexendo-se, isto são horas!
O padre Amaro ergueu-se, e com os olhos baixos deu as graças.
- O senhor pároco quer lamparina? perguntou cuidadosamente a
S. Joaneira.
- Não, minha senhora. Não uso. Boas noites!
E desceu devagar, palitando os dentes.
A S. Joaneira alumiava no patamar, com o candeeiro. Mas nos
primeiros degraus o pároco parou, e voltando-se, afetuosamente:
- É verdade, minha senhora, amanhã é sexta-feira, é jejum...
- Não, não, acudiu o cônego que se embrulhava na capa de
lustrina, bocejando, você amanhã janta comigo. Eu venho por cá, vamos ao
chantre, á Sé, e por aí... E olhe que tenho lulas. É um milagre, que isto
aqui nunca há peixe.
A S. Joaneira tranqüilizou logo o pároco.
- Ai, é escusado lembrar os jejuns, senhor pároco. Tenho o
maior escrúpulo!
- Eu dizia, explicou o pároco, porque infelizmente hoje em dia
ninguém cumpre.
- Tem vossa senhoria muita razão, atalhou ela. - Mas eu! credo!... A
salvação da minha alma antes de tudo!
A campainha embaixo, então, retiniu fortemente.
- Há-de ser a pequena, disse a S. Joaneira. Abre, Ruça!
A porta bateu, sentiram-se vozes, risinhos.
- És tu, Amélia?
Uma voz disse adeusinho! adeusinho! E apareceu, subindo quase
a correr, com os vestidos um pouco apanhados adiante, uma bela
rapariga, forte, alta, bem-feita, com uma manta branca pela cabeça e na
mão um ramo de alecrim.
- Sobe, filha. Aqui está o senhor pároco. Chegou agora à
noitinha, sobe!
Amélia tinha parado um pouco embaraçada, olhando para os
degraus de cima, onde o pároco ficara, encostado ao corrimão. Respirava
fortemente de ter corrido; vinha corada; os seus olhos vivos e negros
luziam; e saía dela uma sensação de frescura e de prados atravessados.
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O pároco desceu, cingido ao corrimão, para a deixar passar,
murmurando boas-noites! com a cabeça baixa. O cônego, que descia atrás,
pesadamente, tomou o meio da escada, diante de Amélia:
- Então isto são horas, sua brejeira?
Ela teve um risinho, encolheu-se.
- Ora vá-se encomendar a Deus, vá! disse batendo-lhe no
rosto devagarinho com a sua mão grossa e cabeluda.
Ela subiu a correr, enquanto o cônego, depois de ir buscar o guardasol
à saleta, saía, dizendo à criada, que erguia o candeeiro sobre a escada:
- Está bem, eu vejo, não apanhes frio, rapariga. Então às
oito, Amaro! Esteja a pé! Vai-te, rapariga, adeus! Reza à Senhora da
Piedade que te seque essa catarreira.
O pároco fechou a porta do quarto. A roupa da cama
entreaberta, alva, tinha um bom cheiro de linho lavado. Por cima da
cabeceira pendia a gravura antiga dum Cristo crucificado. Amaro abriu o
seu Breviário, ajoelhou aos pés da cama, persignou-se; mas estava fatigado,
vinham-lhe grandes bocejos; e então por cima, sobre o teto, através das
orações rituais que maquinalmente ia lendo, começou a sentir o tique-tique
das botinas de Amélia e o ruído das saias engomadas que ela sacudia ao
despir-se.
.
III
Amaro Vieira nascera em Lisboa em casa da senhora marquesa
de Alegros. Seu pai era criado do marquês; a mãe era criada de quarto;
quase uma amiga da senhora marquesa. Amaro conservava ainda um livro,
o Menino das Selvas, com bárbaras imagens coloridas que tinha escrito
na primeira página branca: À minha muito estimada criada Joana Vieira e
verdadeira amiga que sempre tem sido, - Marquesa de Alegros. Possuía
também um dagtterreótipo de sua mãe: era uma mulher forte, de
sobrancelhas cerradas, a boca larga e sensualmente fendida, e uma cor
ardente. O pai de Amaro tinha morrido de apoplexia; e a mãe, que fora
sempre tão sã, sucumbiu, daí a um ano, a uma tísica de laringe. Amaro
completara então seis anos. Tinha uma irmã mais velha que desde pequena
vivia com a avó em Coimbra, e um tio, merceeiro abastado do bairro da
Estrela. Mas a senhora marquesa ganhara amizade a Amaro; conservou-o
em sua casa, por uma adoção tácita: e começou, com grandes escrúpulos, a
vigiar a sua educação.
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A marquesa de Alegros ficara viúva aos quarenta e três anos, e
passava a maior parte do ano retirada na sua quinta de Carcavelos. Era
uma pessoa passiva, de bondade indolente, com capela em casa, um
respeito devoto pelos padres de S. Luís, sempre preocupada dos interesses
da Igreja. As suas duas filhas, educadas no receio do céu e nas
preocupações da Moda, eram beatas e faziam o chique falando com igual
fervor da humildade cristã e do último figurino de Bruxelas. Um jornalista
de então dissera delas: - Pensam todos os dias na toalete com que hão-de
entrar no Paraíso.
No isolamento de Carcavelos, naquela quinta de alamedas
aristocráticas onde os pavões gritavam, as duas meninas enfastiavam-se. A
Religião, a Caridade eram então ocupações avidamente aproveitadas:
cosiam vestidos para os pobres da freguesia, bordavam frontais para os
altares da igreja. De Maio a Outubro estavam inteiramente absorvidas pelo
trabalho de salvar a sua alma; liam os livros beatos e doces; como não
tinham S. Carlos, as visitas, a Aline, recebiam os padres e cochichavam
sobre a virtude dos santos. Deus era o seu luxo de Verão.
A senhora marquesa resolvera desde logo fazer entrar Amaro na
vida eclesiástica. A sua figura amarelada e magrita pedia aquele destino
recolhido: era já afeiçoado às coisas de capela, e o seu encanto era estar
aninhado ao pé das mulheres, no calor das saias unidas, ouvindo falar de
santas. A senhora marquesa não o quis mandar ao colégio porque receava a
impiedade dos tempos, e as camaradagens imorais. O capelão da casa
ensinava- lhe o latim, e a filha mais velha, a Sra. D. Luísa, que tinha um
nariz de cavalete e lia Chateaubriand, dava-lhe lições de francês e de
geografia.
Amaro era, como diziam os criados, um mosquinha-morta.
Nunca brincava, nunca pulava ao sol. Se à tarde acompanhava a senhora
marquesa às alamedas da quinta, quando ela descia pelo braço do padre
Liset ou do respeitoso procurador Freitas, ia a seu lado, mono, muito
encolhido, torcendo com as mãos úmidas o forro das algibeiras, -
vagamente assustado das espessuras de arvoredos e do vigor das relvas
altas.
Tomou-se muito medroso. Dormia com lamparina, ao pé de uma ama
velha. As criadas de resto feminizavam-no; achavam-no bonito,
aninhavam-no no meio delas, beijocavam-no, faziam-lhe cócegas, e ele
rolava por entre as saias, em contato com os corpos, com gritinhos de
contentamento. Às vezes, quando a senhora marquesa saía, vestiam-no de
mulher, entre grandes risadas; ele abandonava-se, meio nu, com os seus
modos lânguidos, os olhos quebrados, uma roseta escarlate nas faces. As
criadas, além disso, utilizavam-no nas suas intrigas umas com as outras: era
Amaro o que fazia as queixas. Tomou-se enredador, muito mentiroso.
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Aos onze anos ajudava à missa, e aos sábados limpava a capela.
Era o seu melhor dia; fechava-se por dentro, colocava os santos em plena
luz em cima duma mesa, beijando-os com ternuras devotas e satisfações
gulosas; e toda a manhã, muito atarefado, cantarolando o Santíssimo, ia
tirando a traça dos vestidos das Virgens e limpando com gesso e cré as
auréolas dos Mártires.
No entanto crescia; o seu aspecto era o mesmo, miúdo e
amarelado; nunca dava uma boa risada; trazia sempre as mãos nos bolsos.
Estava constantemente metido nos quartos das criadas, remexendo as
gavetas; bulia nas saias sujas, cheirava os algodões postiços. Era
extremamente preguiçoso, e custava de manhã arrancá-lo a uma sonolência
doentia em que ficava amolecido, todo embrulhado nos cobertores e
abraçado ao travesseiro. Já corcovava um pouco, e os criados chamavamlhe
o padreca.
···
Num domingo gordo, uma manhã, depois da missa, ao chegar-se ao
terraço, a senhora marquesa de repente caiu morta com uma
apoplexia. Deixava no seu testamento um legado para que Amaro, o filho
da sua criada Joana, entrasse aos quinze anos no seminário e se ordenasse.
O padre Liset ficava encarregado de realizar esta disposição piedosa.
Amaro tinha então treze anos.
As filhas da senhora marquesa deixaram logo Carcavelos e
foram para Lisboa, para a casa da Sra. D. Bárbara de Noronha, sua tia
paterna. Amaro foi mandado para casa do tio, para a Estrela. O merceeiro
era um homem obeso, casado com a filha dum pobre empregado público,
que o aceitara para sair da casa do pai, onde a mesa era escassa, ela devia
fazer as camas e nunca ia ao teatro. Mas odiava o marido, as suas mãos
cabeludas, a loja, o bairro, e o seu apelido de Sra. Gonçalves. O marido,
esse adorava-a como a delícia da sua vida, o seu luxo; carregava-a de jóias
e chamava-lhe a sua duquesa.
Amaro não encontrou ali o elemento feminino e carinhoso, em
que estivera tepidamente envolvido em Carcavelos. A tia quase não
reparava nele; passava os seus dias lendo romances, as análises dos teatros
nos jornais, vestida de seda, coberta de pó-de-arroz, o cabelo em cachos,
esperando a hora em que passava debaixo das janelas, puxando os punhos,
o Cardoso, galã da Trindade. O merceeiro apropriou-se então de Amaro
como duma utilidade imprevista, mandou-o para o balcão. Fazia-o erguer
logo às cinco horas da manhã; e o rapaz tremia na sua jaqueta de pano
azul, molhando à pressa o pão na chávena de café, ao canto da mesa da
cozinha. De resto detestavam-no; a tia chamava-lhe o cebola e o tio
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chamava-lhe o burro. Pesava-lhes até o magro pedaço de vaca que ele
comia ao jantar. Amaro emagrecia, e todas as noites chorava.
Sabia já que aos quinze anos devia entrar no seminário. O tio
todos os dias lho lembrava:
- Não penses que ficas aqui toda a vida na vadiagem, burro.
Em tendo quinze anos, é para o seminário. Não tenho obrigação de
carregar contigo! Besta na argola, não está nos meus princípios!
E o rapaz desejava o seminário, como um libertamento.
Nunca ninguém consultara as suas tendências ou a sua
vocação. Impunham-lhe uma sobrepeliz; a sua natureza passiva, facilmente
dominável, aceitava-a, como aceitaria uma farda. De resto não lhe
desagradava ser padre. Desde que saíra das rezas perpétuas de Carcavelos
conservara o seu medo do Inferno, mas perdera o fervor pelos santos;
lembravam-lhe porém os padres que vira em casa da senhora marquesa,
pessoas brancas e bem tratadas, que comiam ao lado das fidalgas, e
tomavam rapé em caixas de ouro; e convinha-lhe aquela profissão em que
se cantam bonitas missas, se comem doces finos, se fala baixo com as
mulheres, - vivendo entre elas, cochichando, sentindo-lhes o calor
penetrante, - e se recebem presentes em bandejas de prata. Recordava o
padre Liset com um anel de rubi no dedo mínimo; monsenhor Saavedra
com os seus belos óculos de ouro, bebendo aos goles o seu copo de
Madeira. As filhas da senhora marquesa bordavam-lhes chinelas. Um dia
tinha visto um bispo que fora padre na Baia, viajara, estivera em Roma, era
muito jovial; e na sala, com as suas mãos ungidas que cheiravam a águade-
colônia, apoiadas ao castão de ouro da bengala, todo rodeado de
senhoras em êxtase e cheias dum riso beato, cantava, para as entreter, com
a sua bela voz:
Mulatinha da Baia,
Nascida no Capujá...
Um ano antes de entrar para o seminário, o tio fê-lo ir a um
mestre para se afirmar mais no latim, e dispensou-o de estar ao balcão. Pela
primeira vez na sua existência, Amaro possuiu liberdade. Ia só à escola,
passeava pelas ruas. Viu a cidade, o exército de infantaria, espreitou às
portas dos cafés, leu os cartazes dos teatros. Sobretudo começara a
reparar muito nas mulheres - e vinham-lhe, de tudo o que via, grandes
melancolias. A sua hora triste era ao anoitecer, quando voltava da escola,
ou aos domingos depois de ter ido passear com o caixeiro ao jardim da
Estrela. O seu quarto ficava em cima, na trapeira, com uma janelinha num
vão sobre os telhados. Encostava-se ali olhando, e via parte da cidade
baixa, que a pouco e pouco se alumiava de pontos de gás: parecia-lhe
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perceber, vindo de lá, um rumor indefinido: era a vida que não conhecia e
que julgava maravilhosa, com cafés abrasados de luz, e mulheres que
arrastam ruge-ruges de sedas pelos peristilos dos teatros; perdia-se em
imaginações vagas, e de repente apareciam-lhe no fundo negro da noite
formas femininas, por fragmentos, uma perna com botinas de duraque e a
meia muito branca, ou um braço roliço arregaçado até ao ombro... Mas
embaixo, na cozinha, a criada começava a lavar a louça, cantando: era uma
rapariga gorda, muito sardenta; e vinham-lhe então desejos de descer, ir
roçar-se por ela, ou estar a um canto a vê-la escaldar os pratos; lembravamlhe
outras mulheres que vira nas vielas, de saias engomadas e ruidosas,
passeando em cabelo, com botinas cambadas: e, da profundidade do seu
ser, subia-lhe uma preguiça, como que a vontade de abraçar alguém, de
não se sentir só. Julgava-se infeliz, pensava em matar-se. Mas o tio
chamava-o de baixo:
- Então tu não estudas, mariola?
E daí a pouco, sobre o Tito Lívio cabeceando de sono, sentindose
desgraçado, roçando os joelhos um contra o outro, torturava o
dicionário.
Por esse tempo começava a sentir um certo afastamento pela vida de
padre, porque não poderia casar. Já as convivências da escola
tinham introduzido na sua natureza efeminada curiosidades, corrupções. Às
escondidas fumava cigarros: emagrecia e andava mais amarelo.
···
Entrou no seminário. Nos primeiros dias os longos corredores de
pedra um pouco úmidos, as lâmpadas tristes, os quartos estreitos e
gradeados, as batinas negras, o silêncio regulamentado, o toque das sinetas
- deram-lhe uma tristeza lúgubre, aterrada. Mas achou logo amizades; o seu
rosto bonito agradou. Começaram a tratá-lo por tu, a admiti-lo, durante as
horas de recreio ou nos passeios do domingo, às conversas em que se
contavam anedotas dos mestres, se caluniava o reitor, e perpetuamente se
lamentavam as melancolias da clausura: porque quase todos falavam com
saudade das existências livres que tinham deixado: os da aldeia não podiam
esquecer as claras eiras batidas do sol, as esfolhadas cheias de cantigas e de
abraços, as filas da boiada que recolhe, enquanto um vapor se exala dos
prados; os que vinham das pequenas vilas lamentavam as ruas tortuosas e
tranqüilas de onde se namoravam as vizinhas, os alegres dias de mercado,
as grandes aventuras do tempo em que se estuda latim. Não lhes bastava o
pátio do recreio lajeado, com as suas árvores definhadas, os altos muros
sonolentos, o monótono jogo da bola: abafavam na estreiteza dos
corredores, na sala de Santo Inácio, onde se faziam as meditações da
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manhã e se estudavam à noite as lições; e invejavam todos os destinos
livres ainda os mais humildes - o almocreve que viam passar na estrada
tocando os seus machos, o carreiro que ia cantarolando ao áspero chiar das
rodas, e até os mendigos errantes, apoiados ao seu cajado, com o seu alforje
escuro.
Da janela dum corredor via-se uma volta de estrada: à tardinha
uma diligência costumava passar, levantando a poeira, entre os estalidos do
chicote, ao trote das três éguas, carregadas de bagagem; passageiros
alegres, que levavam os joelhos bem embrulhados, sopravam o fumo dos
charutos; quantos olhares os seguiam! quantos desejos iam viajando com
eles para as alegres vilas e para as cidades, pela frescura das madrugadas ou
sob a claridade das estrelas!
E no refeitório, diante do escasso caldo de hortaliça, quando o
regente de voz grossa começava a ler monotonamente as cartas de algum
missionário da China ou as Pastorais do senhor bispo, quantas saudades dos
jantares de família! As boas postas de peixe! O tempo da matança! Os
rijões quentes que chiam no prato! Os sarrabulhos cheirosos!
Amaro não deixava coisas queridas: vinha da brutalidade do tio,
do rosto enfastiado da tia coberto de pó-de-arroz; mas insensivelmente pôsse
também a ter saudades dos seus passeios aos domingos, da claridade
do gás e das voltas da escola, com os livros numa correia, quando
parava encostado à vitrina das lojas a contemplar a nudez das bonecas!
Lentamente, porém, com a sua natureza incaracterística, foi
entrando como uma ovelha indolente na regra do seminário. Decorava com
regularidade os seus compêndios; tinha uma exatidão prudente nos serviços
eclesiásticos; e calado, encolhido, curvando-se muito baixo diante dos
lentes - chegou a ter boas notas.
Nunca pudera compreender os que pareciam gozar o seminário
com beatitude e maceravam os joelhos, ruminando, com a cabeça baixa,
textos da Imitação ou de Santo Inácio; na capela, com os olhos em alvo,
empalideciam de êxtase; mesmo no recreio, ou nos passeios, iam lendo
algum volumezinho de Louvores a Maria; e cumpriam com delícia as
regras mais miúdas - até subir só um degrau de cada vez, como recomenda
S. Boaventura. A esses o seminário dava um antegosto do Céu: a ele só lhe
oferecia as humilhações duma prisão, com os tédios duma escola.
Não compreendia também os ambiciosos; os que queriam ser
caudatários dum bispo, e nas altas salas dos paços episcopais erguer os
reposteiros de velho damasco; os que desejavam viver nas cidades depois
de ordenados, servir uma Igreja aristocrática, e, diante das devotas ricas
que se acumulam no frufru das sedas sobre o tapete do altar-mor, cantar
com voz sonora. Outros sonhavam até destinos fora da Igreja:
ambicionavam ser militares e arrastar nas ruas lajeadas o tlintlim dum
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sabre; ou a farta vida da lavoura, e desde a madrugada, com um chapéu
desabado e bem montados, trotar pelos caminhos, dar ordens nas largas
eiras cheias de medas, apear à porta das adegas! E, a não ser alguns
devotos, todos, ou aspirando ao sacerdócio ou aos destinos seculares,
queriam deixar a estreiteza do seminário para comer bem, ganhar dinheiro e
conhecer as mulheres.
Amaro não desejava nada:
- Eu nem sei, dizia ele melancolicamente.
No entretanto, escutando por simpatia aqueles para quem o
seminário era o "tempo das galés", saia muito perturbado daquelas
conversas cheias de impaciente ambição da vida livre. Às vezes falavam de
fugir. Faziam planos, calculando a altura das janelas, as peripécias da noite
negra pelos negros caminhos: anteviam balcões de tabernas onde se bebe,
salas de bilhar, alcovas quentes de mulheres. Amaro ficava todo nervoso:
sobre o seu catre, alta noite, revolvia-se sem dormir, e, no fundo das suas
imaginações e dos seus sonhos, ardia como uma brasa silenciosa o desejo
da Mulher.
Na sua cela havia uma imagem da Virgem coroada de estrelas,
pousada sobre a esfera, com o olhar errante pela luz imortal, calcando aos
pés a serpente. Amaro voltava-se para ela como para um refúgio, rezavalhe
a Salve-Rainha: mas, ficando a contemplar a litografia, esquecia a
santidade da Virgem, via apenas diante de si uma linda moça loura; amavaa;
suspirava, despindo-se olhava-a de revés lubricamente; e mesmo a sua
curiosidade ousava erguer as pregas castas da túnica azul da imagem e
supor formas, redondezas, uma carne branca... Julgava então ver os olhos
do Tentador luzir na escuridão do quarto; aspergia a cama de água benta;
mas não se atrevia a revelar estes delírios, no confessionário, ao domingo.
Quantas vezes ouvira, nas prédicas, o mestre de Moral falar, com
a sua voz roufenha, do Pecado, compará-lo à serpente e com palavras
untuosas e gestos arqueados, deixando cair vagarosamente a pompa
melíflua dos seus períodos, aconselhar os seminaristas a que, imitando a
Virgem, calcassem aos pés a serpente ominosa! E depois era o mestre de
Teologia mística que falava, sorvendo o seu rapé, no dever de vencer a
Natureza! E citando S. João de Damasco e S. Crisólogo, S. Cipriano e S.
Jerônimo, explicava os anátemas dos santos contra a Mulher, a quem
chamava, segundo as expressões da Igreja, Serpente, Dardo, Filha da
Mentira, Porta do Inferno, Cabeça do Crime, Escorpião...
- E como disse o nosso padre S. Jerônimo - e assoava-se
estrondosamente - Caminho de iniqüidade, iniquita via!
Até nos compêndios encontrava a preocupação da Mulher! Que
ser era esse, pois, que através de toda a teologia ora era colocada sobre o
altar como a Rainha da Graça, ora amaldiçoada com apóstrofes bárbaras?
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Que poder era o seu, que a legião dos santos ora se arremessa ao seu
encontro, numa paixão extática, dando-lhe por aclamação o profundo reino
dos Céus, - ora vai fugindo diante dela como do Universal Inimigo, com
soluços de terror e gritos de ódio, e escondendo-se, para a não ver, nas
tebaidas e nos claustros, vai ali morrendo do mal de a ter amado? Sentia,
sem as definir, estas perturbações: elas renasciam, desmoralizavam-no
perpetuamente: e já antes de fazer os seus votos desfalecia no desejo de os
quebrar.
E em redor dele, sentia iguais rebeliões da natureza: os estudos,
os jejuns, as penitências podiam domar o corpo, dar-lhe hábitos
maquinais, mas dentro os desejos moviam-se silenciosamente, como num
ninho serpentes imperturbadas. Os que mais sofriam eram os sangüíneos,
tão doloridamente apertados na Regra como os seus grossos pulsos plebeus
nos punhos das camisas. Assim, quando estavam sós, o temperamento
irrompia: lutavam, faziam forças, provocavam desordens. Nos linfáticos a
natureza comprimida produzia as grandes tristezas, os silêncios moles:
desforravam-se então no amor dos pequenos vícios: jogar com um velho
baralho, ler um romance, obter de intrigas demoradas um maço de cigarros
- quantos encantos do pecado!
Amaro por fim quase invejava os estudiosos; ao menos esses
estavam contentes, estudavam perpetuamente, escrevinhavam notas no
silêncio da alta livraria, eram respeitados, usavam óculos, tomavam rapé.
Ele mesmo tinha às vezes ambições repentinas de ciência; mas diante dos
vastos infolios vinha-lhe um tédio insuperável. Era no entanto devoto:
rezava, tinha fé ilimitada em certos santos, um terror angustioso de Deus.
Mas odiava a clausura do seminário! A capela, os chorões do pátio, as
comidas monótonas do longo refeitório lajeado, os cheiros dos corredores,
tudo lhe dava uma tristeza irritada: parecia-lhe que seria bom, puro, crente,
se estivesse na liberdade duma rua ou na paz dum quintal, fora daquelas
negras paredes. Emagrecia, tinha suores éticos: e mesmo no último ano,
depois do serviço pesado da Semana Santa, como começavam os calores,
entrou na enfermaria com uma febre nervosa.
Ordenou-se enfim pelas têmporas de S. Mateus; e pouco
tempo depois recebeu, ainda no seminário, esta carta do Sr. padre Liset:
"Meu querido filho e novo colega.- Agora que está ordenado,
entendo em minha consciência que devo dar-lhe conta do estado dos
seus negócios, pois quero cumprir até o fim o encargo com
que carregou os meus ombros débeis a nossa chorada marquesa,
atribuindo-me a honra de administrar o legado que lhe deixou.
Porque, ainda que os bens mundanos pouco devam importar a uma
alma votada ao sacerdócio, são sempre as boas contas que fazem os
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bons amigos. Saberá, pois, meu querido filho, que o legado da
querida marquesa - para quem deve erguer em sua alma uma
gratidão eterna - está inteiramente exausto. Aproveito esta ocasião
para lhe dizer que depois da morte de seu tio, sua tia, tendo
liquidado o estabeleci mento, se entregou a um caminho que o
respeito me impede de qualificar: caiu sob o império das paixões, e
tendo-se ligado ilegitimamente, viu os seus bens perdidos juntamente
com a sua pureza, e hoje estabeleceu uma casa de hóspedes na Rua
dos Calafates n? 53. Se toco nestas impurezas, tão impróprias de
que um tenro levita, como o meu querido filho, tenha delas
conhecimento, é porque lhe quero dar cabal relação da sua
respeitável família. Sua irmã, como decerto sabe, casou rica em
Coimbra, e ainda que no casamento não é o ouro que devemos
apreciar, é todavia importante, para futuras circunstâncias, que o
meu querido filho esteja de posse deste fato. Do que me escreveu o
nosso querido reitor a respeito de o mandarmos para a freguesia de
Feirão, na Gralheira, vou falar com algumas pessoas importantes
que têm a extrema bondade de atender um pobre padre que só pede
a Deus misericórdia. Espero, todavia, conseguir. Persevere, meu
querido filho, nos caminhos da virtude, de que sei que a sua boa
alma está repleta, e creia que se encontra a felicidade neste nosso
santo ministério quando sabemos compreender quantos são os
bálsamos que derrama no peito e quantos os refrigérios que dá - o
serviço de Deus.' Adeus, meu querido filho e novo colega. Creia que
sempre o meu pensamento estará com o pupilo da nossa chorada
marquesa, que decerto do Céu, onde a elevaram as suas virtudes,
suplica à Virgem, que ela tanto serviu e amou, a felicidade do seu
caro pupilo ". Liset.
"P.S. - O apelido do marido de sua irmã é Trigoso. " Liset.
Dois meses depois Amaro foi nomeado pároco de Feirão, na
Gralheira, serra da Beira Alta. Esteve ali desde Outubro até o fim das
neves.
Feirão é uma paróquia pobre de pastores e naquela época quase
desabitada. Amaro passou o tempo muito ocioso, ruminando o seu tédio à
lareira, ouvindo fora o Inverno bramir na serra. Pela Primavera vagaram
nos distritos de Santarém e de Leiria paróquias populosas, com boas
côngruas. Amaro escreveu logo à irmã contando a sua pobreza em Feirão;
ela mandou- lhe, com recomendações de economia, doze moedas para ir a
Lisboa requerer. Amaro partiu imediatamente. Os ares lavados e vivos da
serra tinham- lhe fortificado o sangue; voltava robusto, direito, simpático,
com uma boa cor na pele trigueira.
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Logo que chegou a Lisboa foi à Rua dos Calafates no 53, a casa
da tia: achou-a velha, com laços vermelhos numa cuia enorme, toda
coberta de pó-de-arroz. Tinha-se feito devota, e foi com uma alegria
piedosa que abriu os seus magros braços a Amaro.
- Como estás bonito! Ora não há! Quem te viu? Ih, Jesus!
Que mudança!
Admirava-lhe a batina, a coroa: e contando-lhe as suas
desgraças, com exclamações sobre a salvação da sua alma e sobre a carestia
dos gêneros, foi-o levando para o terceiro andar, a um quarto que dava para
o saguão.
- Ficas aqui como um abade, disse-lhe ela. E baratinho!... Ai! ter- te
de graça queria eu, mas... Tenho sido muito infeliz, Joãozinho!...
Ai! desculpa, Amaro! Estou sempre com Joãozinho na cabeça...
Amaro procurou logo ao outro dia o padre Liset em S. Luís.
Tinha ido para França. Lembrou-se então da filha mais nova da senhora
marquesa de Alegros, a Sra. D. Luísa, que estava casada com o conde de
Ribamar, conselheiro de Estado, com influência, regenerador fiel desde
cinqüenta e um, duas vezes ministro do reino.
E, por conselho da tia, Amaro, logo que meteu o seu
requerimento, foi uma manhã a casa da Sra. condessa de Ribamar, a
Buenos Aires. Á porta um coupé esperava.
- A senhora condessa vai sair, disse um criado de gravata branca
e quinzena de alpaca, encostado à ombreira do pátio, de cigarro na boca.
Nesse momento, duma porta de batentes de baeta verde, sobre
um degrau de pedra, ao fundo do pátio lajeado, uma senhora saía, vestida
de claro. Era alta, magra, loura, com pequeninos cabelos frisados sobre a
testa, lunetas de ouro num nariz comprido e agudo, e no queixo um
sinalzinho de cabelos claros.
- A senhora condessa já me não conhece? disse Amaro com o chapéu
na mão, adiantando-se curvado. Sou o Amaro.
- O Amaro? - disse ela, como estranha ao nome. Ah! bom
Jesus, quem ele é! Ora não há! Está um homem. Quem diria!
Amaro sorria-se.
- Eu podia lá esperar! continuou ela admirada. E está agora
em Lisboa?
Amaro contou a sua nomeação para Feirão, a pobreza da paróquia...
- De maneira que vim requerer, senhora condessa.
Ela escutava-o com as mãos apoiadas numa alta sombrinha de
seda clara, e Amaro sentia vir dela um perfume de pó-de-arroz e uma
frescura de cambraias.
- Pois deixe estar, disse ela, fique descansado. Meu marido háde
falar. Eu me encarrego disso. Olhe, venha por cá. - E com o dedo
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sobre o canto da boca: - Espere, amanhã vou para Sintra. Domingo, não.
O melhor é daqui a quinze dias. Daqui a quinze dias pela manhã, sou
certa. - E rindo com os seus largos dentes frescos: - Parece que o estou a
ver traduzir Chateaubriand com a mana Luísa! Como o tempo passa!
- Passa bem a senhora sua mana? perguntou Amaro.
- Sim, bem. Está numa quinta em Santarém.
Deu-lhe a mão, calçada de peau de suède, num aperto sacudido
que fez tilintar os seus braceletes de ouro, e saltou para o coupé, magra e
ligeira, com um movimento que levantou brancuras de saias.
Amaro começou então a esperar. Era em Julho, no pleno calor. Dizia missa
pela manhã em S. Domingos, e durante o dia, de chinelos e casaco de
ganga, arrastava a sua ociosidade pela casa. Às vezes ia conversar com a tia
para a sala de jantar; as janelas estavam cerradas, na penumbra zumbia a
monótona sussurração das moscas; a tia a um canto do velho canapé de
palhinha fazia croché, com a luneta encavalada na ponta do nariz; Amaro,
bocejando, folheava um antigo volume do Panorama.
À noitinha saía, a dar duas voltas no Rossio. Abafava-se, no
ar pesado e imóvel: a todos os cantos se apregoava monotonamente
água fresca! Pelos bancos, debaixo das árvores, vadios remendados
dormitavam; em redor da Praça, sem cessar, caleches de aluguel vazias
rodavam vagarosamente; as claridades dos cafés reluziam; e gente
encalmada, sem destino, movia, bocejando, a sua preguiça pelos passeios
das ruas.
Amaro então recolhia, e no seu quarto, com a janela aberta ao
calor da noite, estirado em cima da cama, em mangas de camisa, sem
botas, fumava cigarros, ruminava as suas esperanças. A cada momento lhe
acudiam, com rebates de alegria, as palavras da senhora condessa: fique
descansado, meu marido há-de falar! E via-se já pároco numa bonita
vila, numa casa com quintal cheio de couves e de saladas frescas, tranqüilo
e importante, recebendo bandejas de doce das devotas ricas.
Vivia então num estado de espirito muito repousado. As
exaltações, que no seminário lhe causava a continência, tinham-se
acalmado com as satisfações que lhe dera em Feirão uma grossa pastora,
que ele gostava de ver ao domingo tocar à missa, dependurada da corda do
sino, rolando nas saias de saragoça, e a face a estourar de sangue. Agora,
sereno, pagava pontualmente ao Céu as orações que manda o ritual, trazia a
carne contente e calada, e procurava estabelecer-se regaladamente.
No fim de quinze dias foi a casa da senhora condessa.
- Não está, disse-lhe um criado da cavalariça.
Ao outro dia voltou, já inquieto. Os batentes verdes estavam
abertos; e Amaro subiu devagar, pisando, muito acanhado, o largo tapete
vermelho, fixado com varões de metal. Da alta clarabóia caia uma luz
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suave; ao cimo da escada, no patamar, sentado numa banqueta de
marroquim escarlate, um criado encostado à parede branca envernizada,
com a cabeça pendente e o beiço caído, dormia. Fazia um grande calor;
aquele alto silêncio aristocrático aterrava Amaro; esteve um momento, com
o seu guarda-sol pendente do dedo mínimo, hesitando; tossiu devagarinho,
para acordar o criado que lhe parecia terrível com a sua bela suíça preta, o
seu rico grilhão de ouro; e ia descer, quando ouviu por detrás dum
reposteiro um riso grosso de homem. Sacudiu com o lenço o pó
esbranquiçado dos sapatos, puxou os punhos, e entrou muito vermelho
numa larga sala com estofos de damasco amarelo; uma grande luz entrava
das varandas abertas, e viam- se arvoredos de jardim. No meio da sala três
homens de pé conversavam. Amaro adiantou-se, balbuciou:
- Não sei se incomodo...
Um homem alto, de bigode grisalho e óculos de ouro, voltou-se
surpreendido, com o charuto ao canto da boca e as mãos nos bolsos. Era
o senhor conde.
- Sou o Amaro...
- Ah, disse o conde, o Sr. padre Amaro! Conheço muito bem! Tem a
bondade... Minha mulher falou-me. Tem a bondade.
E dirigindo-se a um homem baixo e repleto, quase calvo, de
calças brancas muito curtas:
- É a pessoa de quem lhe falei. - Voltou-se para Amaro: - É o senhor
ministro.
Amaro curvou-se, servilmente.
- O Sr. padre Amaro, disse o conde de Ribamar, foi criado
de pequeno em casa de minha sogra. Nasceu lá, creio eu...
- Saiba o senhor conde que sim, disse Amaro, que se
conservava afastado, com o guarda-sol na mão.
- Minha sogra, que era toda devota e uma completa senhora - já não
há disso! - fê-lo padre. Houve até um legado, creio eu... Enfim, aqui o
temos pároco... Onde, Sr. padre Amaro?
- Feirão, excelentíssimo senhor.
- Feirão?... disse o ministro estranhando o nome.
- Na serra da Gralheira, informou logo o outro sujeito, ao lado.
Era um homem magro, entalado numa sobrecasaca azul, muito
branco de pele, com soberbas suíças dum negro de tinta, e um admirável
cabelo lustroso de pomada, apartado até ao cachaço numa risca perfeita.
- Enfim, resumiu o conde, um horror! Na serra, uma freguesia pobre,
sem distrações, com um clima horrível...
- Eu meti já requerimento, excelentíssimo senhor, arriscou
Amaro timidamente.
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- Bem, bem, afirmou o ministro. Há-de arranjar-se, - e mascava o seu
charuto.
- É uma justiça, disse o conde. Mais, é uma necessidade! Os
homens novos e ativos devem estar nas paróquias difíceis, nas cidades... É
claro! Mas não; olhe, lá ao pé da minha quinta, em Alcobaça, há um velho,
um gotoso, um padre-mestre antigo, um imbecil!... Assim perde-se a fé.
- É verdade, disse o ministro, mas essas colocações nas boas
paróquias devem naturalmente ser recompensas dos bons serviços. É
necessário o estímulo...
- Perfeitamente, replicou o conde; mas serviços religiosos,
profissionais, serviços à Igreja, não serviços aos governos.
O homem das soberbas suíças negras teve um gesto de objeção.
- Não acha? perguntou-lhe o conde.
- Respeito muito a opinião de vossa excelência, mas se me permite...
Sim, digo eu, os párocos na cidade são-nos dum grande serviço nas crises
eleitorais. Dum grande serviço!
- Pois sim. Mas...
- Olhe vossa excelência, continuou ele, sôfrego da palavra.
Olhe vossa excelência em Tomar. Por que perdemos? Pela atitude dos
párocos. Nada mais.
O conde acudiu:
- Mas perdão, não deve ser assim; a religião, o clero não são agentes
eleitorais.
- Perdão.., queria interromper o outro.
O conde suspendeu-o, com um gesto firme; e gravemente, em
palavras pausadas, cheias da autoridade dum vasto entendimento:
- A religião, disse ele, pode, deve mesmo auxiliar os governos no seu
estabelecimento, operando, por assim dizer, como freio...
- Isso, isso! murmurou arrastadamente o ministro, cuspindo películas
mascadas de charuto.
- Mas descer às intrigas, continuou o conde devagar, aos
imbróglios... Perdoe-me meu caro amigo, mas não é dum cristão.
- Pois sou-o, senhor conde, exclamou o homem das suíças
soberbas. Sou-o a valer! Mas também sou liberal. E entendo que no
governo representativo... Sim, digo eu... com as garantias mais sólidas...
- Olhe, interrompeu o conde, sabe o que isso faz? desacredita o clero,
e desacredita a política.
- Mas são ou não as maiorias um princípio sagrado? gritava rubro o
das suíças, acentuando o adjetivo.
- São um principio respeitável.
- Upa! upa, excelentíssimo senhor! Upa!
O padre Amaro escutava, imóvel.
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- Minha mulher há-de querer vê-lo, disse-lhe então o conde. E
dirigindo-se a um reposteiro que levantou: - Entre. É o Sr. padre
Amaro, Joana!
Era uma sala forrada de papel branco acetinado, com móveis
estofados de casimira clara. Nos vãos das janelas, entre as cortinas de
pregas largas duma fazenda adamascada cor de leite, apanhadas quase junto
do chão por faixas de seda, arbustos delgados, sem flor, erguiam em vasos
brancos a sua folhagem fina. Uma meia-luz fresca dava a todas aquelas
alvuras um tom delicado de nuvem. Nas costas duma cadeira uma arara
empoleirada, firme num só pé negro, coçava vagarosamente, com
contrações aduncas, a sua cabeça verde. Amaro, embaraçado, curvou-se
logo para um canto do sofá, onde viu os cabelinhos louros e frisados da
senhora condessa que lhe enchiam vaporosamente a testa, e os aros de ouro
da sua luneta reluzindo. Um rapaz gordo, de face rechonchuda, sentado
diante dela numa cadeira baixa, com os cotovelos sobre os joelhos abertos,
ocupava- se em balançar, como um pêndulo, um pince-nez de tartaruga. A
condessa tinha no regaço uma cadelinha, e com a sua mão seca e fina cheia
de veias, acamava-lhe o pêlo branco como algodão.
- Como está, Sr. Amaro? - A cadela rosnou. - Quieta, Jóia. Sabe que
já falei no seu negócio? Quieta, Jóia... O ministro está ali.
- Sim, minha senhora, disse Amaro, de pé.
- Sente-se aqui, Sr. padre Amaro.
Amaro pousou-se à beira dum fauteuil, com o seu guarda-sol na mão,
- e reparou então numa senhora alta que estava de pé, junto do piano,
falando com um rapaz louro.
- Que tem feito estes dias, Amaro? disse a condessa. Diga-me
uma coisa: sua irmã?
- Está em Coimbra, casou.
- Ah! casou! disse a condessa, fazendo girar os seus anéis.
Houve um silêncio. Amaro, de olhos baixos, passava, com um
gesto embaraçado e errante, os dedos pelos beiços.
- O Sr. padre Liset está para fora? perguntou.
- Está em Nantes. Tinha uma irmã a morrer, disse a condessa. - Está
o mesmo sempre: muito amável, muito doce. É a alma mais virtuosa!...
- Eu prefiro o padre Félix, disse o rapaz gordo, estirando as pemas.
- Não diga isso, primo! Jesus, brada aos Céus! Pois então, o
padre Liset, tão respeitável!... E depois outras maneiras de dizer as coisas,
com uma bondade... Vê-se que é um coração delicado... '
- Pois sim, mas o padre Félix...
- Ai, nem diga isso! Que o padre Félix é uma pessoa de muita
virtude, decerto; mas o padre Liset tem uma religião mais... - e com
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um gesto delicado procurava a palavra: - mais fina, mais distinta...
Enfim, vive com outra gente. - E sorrindo para Amaro: - Pois não acha?
Amaro não conhecia o padre Félix, não se recordava do padre Liset.
- Já é velho o Sr. padre Liset, observou ao acaso.
- Crê? disse a condessa. Mas muito bem conservado! E que
vivacidade, que entusiasmo!... Ai, é outra coisa! - E voltando-se para a
senhora que estava junto do piano: - Pois não achas, Teresa?
- Já vou, respondeu Teresa, toda absorvida.
Amaro afirmou-se então nela. Pareceu-lhe uma rainha, ou uma
deusa, com a sua alta e forte estatura, uma linha de ombros e de seio
magnífica; os cabelos pretos um pouco ondeados destacavam sobre a
palidez do rosto aquilino semelhante ao perfil dominador de Maria
Antonieta; o seu vestido preto, de mangas curtas e decote quadrado,
quebrava, com as pregas da cauda muito longa toda adornada de rendas
negras, o tom monótono das alvuras da sala; o colo, os braços estavam
cobertos por uma gaze preta, que fazia aparecer através da brancura da
carne; e sentia-se nas suas formas a firmeza dos mármores antigos, com o
calor dum sangue rico.
Falava baixo, sorrindo, numa língua áspera que Amaro não
compreendia, cerrando e abrindo o seu leque preto - e o rapaz louro, bonito,
escutava-a retorcendo a ponta de um bigode fino, com um quadrado de
vidro entalado no olho.
- Havia muita devoção na sua paróquia, Sr. Amaro? perguntava, no
entanto, a condessa.
- Muita, muito boa gente.
- É onde ainda se encontra alguma fé, é nas aldeias, considerou
ela com um tom piedoso. - Queixou-se da obrigação de viver na cidade,
nos cativeiros do luxo: desejaria habitar sempre na sua quinta de
Carcavelos, rezar na pequena capela antiga, conversar com as boas almas
da aldeia! - e a sua voz tornara-se terna.
O rapaz rechonchudo ria-se:
- Ora, prima! dizia, ora, prima! - Não, ele, se o obrigassem a ouvir
missa, numa capelinha de aldeia, até lhe parecia que perdia a fé!... Não
compreendia, por exemplo, a religião sem música... Era lá possível uma
festa religiosa, sem uma boa voz de contralto?
- Sempre é mais bonito, disse Amaro.
- Está claro que é. É outra coisa! Tem cachet! Ó prima, lembrase
daquele tenor... como se chamava ele? O Vidalti! Lembra-se do
Vidalti, na quinta-feira de Endoenças, nos Inglesinhos? O tantum ergo?
- Eu preferia-o no Baile de Máscaras, disse a condessa.
- Olhe que não sei, prima, olhe que não sei!
32
No entanto o rapaz louro viera apertar a mão à senhora
condessa, falando-lhe baixo, muito risonho; Amaro admirava a nobreza da
sua estatura, a doçura do seu olhar azul; reparou que lhe caíra uma luva, e
apanhou-lha servilm ente. Quando ele saiu Teresa, depois de se ter
aproximado vagarosamente da janela e olhando para a rua - foi sentar-se
numa causeuse com um abandono que punha em relevo a magnífica
escultura do seu corpo, e voltando-se preguiçosamente para o rapaz
rechonchudo:
- Vamo-nos, João?
A condessa disse-lhe então:
- Sabes que o Sr. padre Amaro foi criado comigo em Benfica?
Amaro fez-se vermelho: sentia que Teresa pousava sobre ele os
seus belos olhos dum negro úmido como o cetim preto coberto de água.
- Está na província agora? perguntou ela, bocejando um pouco.
- Sim, minha senhora, vim há dias.
- Na aldeia? continuou ela, abrindo e cerrando vagarosamente o seu
leque.
Amaro via pedras preciosas reluzirem nos seus dedos finos;
disse, acariciando o cabo do guarda-sol:
- Na serra, minha senhora.
- Imagina tu, acudiu a condessa, é um horror! Há sempre neve,
diz que a igreja não tem telhado, são tudo pastores. Uma desgraça! Eu
pedi ao ministro a ver se o mudávamos. Pede-lhe tu também...
- O quê? disse Teresa.
A condessa contou que Amaro requerera para uma paróquia
melhor. Falou de sua mãe, da amizade que ela tinha a Amaro...
- Morria-se por ele. Ora um nome que ela lhe dava... Não se lembra?
- Não sei, minha senhora.
- Frei Maleitas!... Tem graça! Como o Sr. Amaro era
amarelito, sempre metido na capela...
Mas Teresa, dirigindo-se à condessa:
- Sabes com quem se parece este senhor?
A condessa afirmou-se, o rapaz rechonchudo fincou a luneta.
- Não se parece com aquele pianista do ano passado?
continuou Teresa. Não me lembra agora o nome...
- Bem sei, o Jalette, disse a condessa. - Bastante. No cabelo, não.
- Está visto, o outro não tinha coroa!
Amaro fez-se escarlate. Teresa ergueu-se arrastando a sua
soberba cauda, sentou-se ao piano.
- Sabe música? perguntou, voltando-se para Amaro.
- A gente aprende no seminário, minha senhora.
33
Ela correu a mão, um momento, sobre o teclado de sonoridades
profundas, e tocou a frase do Rigoleto, parecida com o Minuete de
Mozart, que diz Francisco I, despedindo-se, no sarau do primeiro ato, da
senhora de Crécy, - e cujo ritmo desolado tem a abandonada tristeza de
amores que findam, e de braços que se desenlaçam em despedidas
supremas.
Amaro estava enlevado. Aquela sala rica com as suas alvuras
de nuvem, o piano apaixonado, o colo de Teresa que ele via sob a negra
transparência da gaze, as suas tranças de deusa, os tranqüilos arvoredos de
jardim fidalgo davam-lhe vagamente a idéia duma existência superior,
de romance, passada sobre alcatifas preciosas, em coupés acolchoados,
com árias de óperas, melancolias de bom gosto e amores dum gozo raro.
Enterrado na elasticidade da causeuse, sentindo a música chorar
aristocraticamente, lembrava-lhe a sala de jantar da tia e o seu cheiro de
refogado: e era como o mendigo que prova um creme fino, e, assustado,
demora o seu prazer - pensando que vai voltar à dureza das côdeas secas e à
poeira dos caminhos.
No entanto Teresa, mudando bruscamente de melodia, cantou
a antiga ária inglesa de Haydn, que diz tão finamente as melancolias da
separação:
The village seems dead and asleep
When Lubin is away!...
- Bravo! bravo! exclamou o ministro da Justiça, aparecendo à
porta, batendo docemente as palmas. Muito bem, muito bem!
Deliciosamente!
- Tenho um pedido a fazer-lhe, Sr. Correia, disse Teresa erguendo- se
logo.
O ministro veio, com uma pressa galante:
- Que é, minha senhora? que é?
O conde e o sujeito de magníficas suíças tinham entrado
discutindo ainda.
- A Joana e eu temos que lhe pedir, disse Teresa ao ministro.
- Eu já pedi! já pedi mesmo duas vezes! acudiu a condessa.
- Mas, minhas senhoras, disse o ministro, sentando-se
confortavelmente, com as pernas muito estiradas, a face satisfeita: de que
se trata? É uma coisa grave? meu Deus! prometo, prometo solenemente...
- Bem, disse Teresa, batendo-lhe com o leque no braço. Então qual é
a melhor paróquia vaga?
- Ah! disse o ministro, compreendendo e olhando para Amaro,
que vergou os ombros, corado.
34
O homem das suíças, que estava de pé fazendo saltar
circunspectamente os berloques, adiantou-se, cheio de informações:
- Das vagas, minha senhora, é Leiria, capital do distrito e sede
do bispado.
- Leiria? disse Teresa. Bem sei, é onde há umas ruínas?
- Um Castelo, minha senhora, edificado por D. Dinis.
- Leiria é excelente!
- Mas perdão, perdão! disse o ministro, Leiria, sede do bispado, uma
cidade... O Sr. padre Amaro é um eclesiástico novo...
- Ora, Sr. Correia! exclamou Teresa, e o senhor não é novo?
O ministro sorriu, curvando-se.
- Dize alguma coisa, tu, disse a condessa a seu marido, que
coçava ternamente a cabeça da arara.
- Parece-me inútil, o pobre Correia está vencido! A prima
Teresa chamou-lhe novo!
- Mas perdão, protestou o ministro. Não me parece que seja
uma lisonja excepcional; eu não sou também tão antigo...
- Oh, desgraçado! gritou o conde, lembra-te que já conspiravas em
1820.
- Era meu pai, caluniador, era meu pai!
Todos riram.
- Sr. Correia, disse Teresa, está entendido. O Sr. padre Amaro
vai para Leiria!
- Bem, bem, sucumbo, disse o ministro com gesto resignado. Mas é
uma tirania!
- Thank you, fez Teresa, estendendo-lhe a mão.
- Mas, minha senhora, estou a estranhá-la, disse o ministro, fixandoa.
- Estou contente hoje, disse ela. Olhou um momento para o
chão, distraída, dando pequeninas pancadas no vestido de seda, levantouse,
foi sentar-se ao piano bruscamente, e recomeçou a doce ária inglesa:
The village seems dead and asleep
When Lubin is away!...
Entretanto, o conde tinha-se aproximado de Amaro, que se erguera.
- É negócio feito, disse-lhe ele. O Correia entende-se com o
bispo. Daqui a uma semana está nomeado. Pode ir descansado.
Amaro fez uma cortesia, e, servil, foi dizer ao ministro que
estava junto do piano:
- Senhor ministro, eu agradeço...
- À senhora condessa, à senhora condessa, disse o ministro sorrindo.
35
- Minha senhora, eu agradeço, veio ele dizer à condessa, todo
curvado.
- Ai, agradeça a Teresa. Ela quer ganhar indulgências, parece.
- Lembre-me nas suas orações, Sr. padre Amaro, disse ela. E
continuou, com a sua voz magoada, dizendo ao piano - as tristezas da
aldeia quando Lubin está ausente!
Amaro daí a uma semana soube o seu despacho. Mas não tomara a
esquecer aquela manhã em casa da Sra. condessa de Ribamar, - o ministro
de calças muito curtas, enterrado na poltrona, prometendo o seu despacho;
a luz clara e calma do jardim entrevisto; o rapaz alto e louro que dizia yes...
Cantava-lhe sempre no cérebro aquela ária triste do Rigoleto: e perseguia-o
a brancura dos braços de Teresa, sob a gaze negra! Instintivamente via-os
enlaçarem-se devagar, devagar, em torno do pescoço airoso do rapaz louro:
detestava-o então, e a língua bárbara que falava, e a terra herética de onde
viera: e latejavam-lhe as fontes à idéia de que um dia pode- ria confessar
aquela mulher divina, e sentir o seu vestido de seda preta roçar pela sua
batina de lustrina velha, na escura intimidade do confessionário.
Um dia, ao amanhecer, depois de grandes abraços da tia, partiu para Santa
Apolônia, com um galego que lhe levava o baú. A madrugada rompia. A
cidade estava silenciosa, os candeeiros apagavam-se. Às vezes,
uma carroça passava rolando, abalando a calçada; as ruas pareciam-lhe
intermináveis; saloios começavam a chegar montados nos seus burros, com
as pernas balouçadas, cobertas de altas botas enlameadas; numa ou noutra
rua uma voz aguda já apregoava os jornais; e os moços dos teatros
corriam com o pote da massa, pregando nas esquinas os cartazes.
Quando chegou a Santa Apolônia a claridade do sol alaranjava o
ar por detrás dos montes da Outra Banda; o rio estendia-se, imóvel,
riscado de correntes de cor de aço sem lustre; e já alguma vela de falua
passava, vagarosa e branca.
IV
Ao outro dia, na cidade, falava-se da chegada do pároco novo,
e todos sabiam já que tinha trazido um baú de lata, que era magro e alto, e
que chamava Padre-Mestre ao cônego Dias.
As amigas da S. Joaneira - as íntimas - a D. Maria da Assunção, as
Gansosos, tinham ido logo pela manhã a casa dela para se porem ao fato...
Eram nove horas, Amaro saíra com o cônego. A S. Joaneira,
radiosa, importante, recebeu-as no alto da escada, de mangas arregaçadas,
36
nos arranjos da manhã; e imediatamente, com animação, contou a chegada
do pároco, as suas boas maneiras, o que tinha dito...
- Mas venham vocês cá abaixo, sempre quero que vejam.
Foi-lhes mostrar o quarto do padre, o baú de lata, uma prateleira que
lhe arranjara para os livros.
- Está muito bem, está muito bem, diziam as velhas andando
pelo quarto, devagar, com respeito, como numa igreja.
- Rico capote! - observou D. Joaquina Gansoso, apalpando o pano
das largas bandas que pendiam ao comprido do cabide. - É obra para um
par de moedas!
- E a boa roupa branca! disse a S. Joaneira, erguendo a tampa do baú.
O grupo das velhas curvou-se com admiração.
- A mim o que me consola é que ele seja um rapaz novo, disse
D. Maria da Assunção, piedosamente.
- Também a mim, disse com autoridade a D. Joaquina Gansoso.
Estar a gente a confessar-se e a ver o pingo do rapé, como era com
o Raposo, credo! até se perde a devoção! E o bruto do José Miguéis!
Não, lá isso Deus me mate com gente nova!
A S. Joaneira ia mostrando as outras maravilhas do pároco, -
um crucifixo que estava ainda embrulhado num jornal velho, o álbum de
retratos, onde o primeiro cartão era uma fotografia do Papa abençoando a
cristandade. Todas se extasiaram.
- É o mais que se pode, diziam, é o mais que se pode!
Ao sair, beijando muito a S. Joaneira, felicitaram-na porque
adquirira, hospedando o pároco, uma autoridade quase eclesiástica.
- Vocês apareçam à noite, disse ela do alto da escada.
- Pudera!... gritou D. Maria da Assunção, já à porta da rua, traçando
o seu mantelete. - Pudera!... Para o vermos à vontade!
Ao meio-dia veio o Libaninho, o beato mais ativo de Leiria; e
subindo a correr os degraus, já gritava com a sua voz fina:
- Ó S. Joaneira!
- Sobe, Libaninho, sobe, disse ela, que costurava à janela.
- Então o senhor pároco veio, hem? perguntou o Libaninho,
mostrando à porta da sala de jantar o seu rosto gordinho cor de limão, a
calva luzidia; e vindo para ela com o passinho miúdo, um gingar de
quadris:
- Então que tal, que tal? tem bom feitio?
A S. Joaneira recomeçou a glorificação de Amaro: a sua mocidade, o
seu ar piedoso, a brancura dos seus dentes...
- Coitadinho! coitadinho! dizia o Libaninho, babando-se de
ternura devota. -. Mas não se podia demorar, ia para a repartição! -. Adeus,
filhinha, adeus! - E batia com a sua mão papuda no ombro da S. Joaneira. -
37
Estás cada vez mais gordinha! Olha que rezei ontem a Salve-Rainha que tu
me pediste, ingrata!
A criada tinha entrado.
- Adeus, Ruça! Estás magrinha: pega-te com a Senhora Mãe
dos Homens. - E avistando Amélia pela porta do quarto entreaberta: -
Ai, que estás mesmo uma flor, Melinha! Quem se salvava na tua graça
bem eu sei!
E apressado, saracoteando-se, com um pigarrinho agudo, desceu
a escada rapidamente, ganindo:
- Adeusinho, adeusinho, pequenas!
- Ó Libaninho, vens à noite?
- Ai, não posso, filha, não posso. - E a sua vozinha era
quase chorosa. - Olha que amanhã é Santa Bárbara: tem seis Padre-Nossos
de direito!
···
Amaro fora visitar o chantre com o cônego Dias, e tinha-lhe
entregado uma carta de recomendação do Sr. conde de Ribamar.
- Conheci muito o Sr, conde de Ribamar, disse o chantre. Em
quarenta e seis, no Porto. Somos amigos velhos! Era eu cura de Santo
Ildefonso: há que anos isso vai!
E, reclinando-se na velha poltrona de damasco, falou com
satisfação do seu tempo; contou anedotas da Junta, apreciou os homens de
então, imitou-lhes a voz (era uma especialidade de sua excelência), os
tiques, as caturrices, - sobretudo Manuel Passos, que ele descrevia
passeando na Praça Nova, com o comprido casaco pardo e o chapéu de
grandes abas, dizendo:
- Ânimo patriotas! o Xavier agüenta-se!
Os senhores eclesiásticos da câmara riram com gozo. Houve
uma grande cordialidade. Amaro saiu muito lisonjeado.
Depois jantou em casa do cônego Dias, e foram passear ambos
pela estrada de Marrazes. Uma luz doce e esbatida alargava-se por todo o
campo; havia nos outeiros, no azul do ar, um aspecto de repouso, de meiga
tranqüilidade; fumos esbranquiçados saíam dos casais, e sentiam-se os
chocalhos melancólicos dos gados que recolhem. Amaro parou junto da
Ponte, e disse, olhando em redor a paisagem suave:
- Pois senhores, parece-me que me hei-de dar bem aqui!
- Há-de-se dar regaladamente, afirmou o cônego, sorvendo o
seu rapé.
Eram oito horas quando recolheram a casa da S. Joaneira.
38
As velhas amigas estavam já na sala de jantar. Ao pé do candeeiro de
petróleo, Amélia costurava,
A Sra. D. Maria da Assunção vestira-se, como nos domingos,
de seda preta: o seu chinó, dum louro avermelhado, estava coberto com
as rendas de um enfeite negro; as mãos descarnadas, calçadas de mitenes,
solenemente pousadas no regaço, reluziam de anéis; do broche sobre o
pescoço até ao cinto, um grosso grilhão de ouro caía com passadores
lavrados. Conservava-se direita e cerimoniosa, com a cabeça um pouco de
lado, os óculos de ouro assentes sobre o nariz acavalado: tinha no queixo
um grande sinal cabeludo; e quando se falava de devoções ou de milagres
dava um jeito ao pescoço, e abria um sorriso mudo que descobria os seus
enormes dentes esverdeados, cravados nas gengivas como cunhas. Era
viúva e rica, e sofria dum catarro crônico.
- Aqui tem o senhor pároco novo, D. Maria, disse-lhe a S. Joaneira.
Ela ergueu-se, fez uma mesura com um movimento de
quadris, comovida.
- Estas são as senhoras Gansosos, há-de ter ouvido... disse a S.
Joaneira ao pároco.
Amaro cumprimentou timidamente. Eram duas irmãs. Passavam
por ter algum dinheiro, mas costumavam receber hóspedes. A mais velha,
a Sra. D. Joaquina Gansoso, era uma pessoa seca, com uma testa enorme
e larga, dois olhinhos vivos, o nariz arrebitado, a boca muito
espremida. Embrulhada no seu xale, direita, com os braços cruzados, falava
perpetuamente, numa voz dominante e aguda, cheia de opiniões. Dizia mal
dos homens e dava-se toda à Igreja.
A irmã, a Sra. D. Ana, era extremamente surda. Nunca falava, e com
os dedos cruzados sobre o regaço, os olhos baixos, fazia girar
tranqüilamente os dois polegares. Nutrida, com o seu perpétuo vestido
preto de riscas amarelas, um rolo de arminho ao pescoço, dormitava toda a
noite, e só acentuava a sua presença de vez em quando por suspiros agudos;
dizia- se que tinha uma paixão funesta pelo recebedor do correio. Todos a
lastimavam, e admirava-se a sua habilidade em recortar papéis para caixas
de doce.
Estava também a Sra. D. Josefa, a irmã do cônego Dias. Tinha
a alcunha de castanha pilada. Era uma criaturinha mirrada, de linhas
aduncas, pele engelhada e cor de cidra, voz sibilante; vivia num perpétuo
estado de irritação, os olhinhos sempre assanhados, contrações nervosas de
birra, toda saturada de fel. Era temida. O maligno doutor Godinho
chamava-lhe a estação central das intrigas de Leiria.
- Então passeou muito, senhor pároco? perguntou ela logo
empertigando-se.
39
- Fomos quase até lá ao fim da estrada de Marrazes, disse o
cônego, sentando-se pesadamente por detrás da S. Joaneira.
- Não achou bonito, senhor pároco? acudiu a Sra. D.
Joaquina Gansoso.
- Muito bonito.
Falaram das lindas paisagens de Leiria, das boas vistas: a Sra.
D. Josefa gostava muito do passeio ao pé do rio; até já ouvira dizer que
nem em Lisboa havia coisa assim. D. Joaquina Gansoso preferia a igreja da
Encarnação, no alto.
- Desfruta-se muito, dali.
Amélia disse sorrindo:
- Eu por mim gosto daquele bocado ao pé da Ponte, debaixo
dos chorões. - E partindo com os dentes o fio da costura: - É tão triste!
Amaro olhou para ela, então, pela primeira vez. Tinha um
vestido azul muito justo ao seio bonito; o pescoço branco e cheio saía dum
colarinho voltado; entre os beiços vermelhos e frescos o esmalte dos dentes
brilhava; e pareceu ao pároco que um buçozinho lhe punha aos cantos
da boca uma sombra sutil e doce.
Houve um pequeno silêncio, - o cônego Dias com o beiço
descaído ia já cerrando as pálpebras.
- Que será feito do Sr. padre Brito? perguntou D. Joaquina Gansoso.
- Está talvez com a enxaqueca, pobre de Cristo! lembrou
piedosamente a Sra. D. Maria da Assunção.
Um rapaz que estava junto do aparador disse então:
- Eu vi-o hoje a cavalo, ia para os lados da Barrosa.
- Homem! disse logo, com azedume, a irmã do cônego, a Sra.
D. Josefa Dias, é milagre ter o senhor reparado!
- Por quê, minha senhora? disse ele erguendo-se e chegando-se
ao grupo das velhas.
Era alto, todo vestido de preto: sobre o rosto de pele branca,
regular, um pouco fatigado, destacava bem um bigode pequeno muito
negro, caído aos cantos, que ele costumava mordicar com os dentes.
- Ainda ele o pergunta! exclamou a Sra. D. Josefa Dias. O
senhor, que nem lhe tira o chapéu!
- Eu?
- Disse-mo ele, afirmou ela com uma voz cortante. E acrescentou:
Ai, senhor pároco, bem pode chamar o Sr. João Eduardo para o bom
caminho. - E teve um risinho maligno.
- Mas eu parece-me que não ando no mau caminho, disse ele
rindo, com as mãos nos bolsos. E a cada momento os seus olhos se
voltavam para Amélia.
40
- É uma graça! exclamou a Sra. D. Joaquina Gansoso. Olhe, com o
que o senhor disse hoje lá em casa, de tarde, da Santa da Arregassa, não háde
ganhar o Céu!
- Ora essa! gritou a irmã do cônego, voltando-se bruscamente
para João Eduardo. Então o que tem o senhor a dizer da Santa? Acha
talvez que é uma impostora?
- Credo, Jesus! disse a Sra. D. Maria da Assunção, apertando as mãos
e fitando João Eduardo, com um terror piedoso. Pois ele havia de dizer
isso? Cruzes!
- Não, o Sr. João Eduardo, afirmou gravemente o cônego,
que espertara, desdobrando o seu lenço vermelho - não era capaz de
dizer uma dessas.
Amaro perguntou então:
- Quem é a Santa da Arregassa?
- Credo! Pois não tem ouvido falar, senhor pároco? exclamou numa
admiração a Sra. D. Maria da Assunção.
- Há-de ter ouvido, afirmava a Sra. D. Josefa Dias com
autoridade. Diz que os jornais de Lisboa vêm cheios disso!
- É, com efeito, uma coisa bem extraordinária, ponderou com
um tom profundo o cônego.
A S. Joaneira interrompeu a meia, e tirando a luneta:
- Ai, não imagina, senhor pároco, é o milagre dos milagres!
- Se é! se é!, disseram.
Houve um recolhimento devoto.
- Mas então?... perguntou Amaro, todo curioso.
- Olhe, senhor pároco, começou a Sra. D. Joaquina Gansoso
endireitando-se no xale, falando com solenidade: a Santa é uma mulher
que aqui há numa freguesia perto, que está há vinte anos na cama...
- Vinte e cinco, advertiu-lhe baixo D. Maria da Assunção, tocandolhe
com o leque no braço.
- Vinte e cinco? Pois olha, ao senhor chantre ouvi eu dizer vinte.
- Vinte e cinco, vinte e cinco, afirmou a S. Joaneira. E o
cônego apoiou-a, oscilando gravemente a cabeça.
- Está entrevadinha de todo, senhor pároco! rompeu a irmã
do cônego, ávida de falar. Parece uma alminha de Deus! Os bracinhos
são isto! - E mostrava o dedo mínimo. - Para a gente a ouvir é
necessário pôr-lhe a orelha ao pé da boca!
- Pois se ela se sustenta da graça de Deus! disse lamentosamente
a Sra. D. Maria da Assunção. Coitadinha! que até a gente lembra-se...
Houve entre as velhas um silêncio comovido. João Eduardo, que por
trás das velhas, de pé, com as mãos nos bolsos, sorria mordicando o bigode,
disse então:
41
- Olhe, senhor pároco, a coisa é o que os médicos dizem: é
que aquilo é uma doença nervosa.
Aquela irreverência fez, entre as velhas devotas, um escândalo; a
Sra. D. Maria da Assunção persignou-se logo à "cautela".
- Pelo amor de Deus! gritou a Sra. D. Josefa Dias, o senhor diga isso,
diante de quem quiser, menos de mim! É uma afronta!
- É que até pode cair um raio, dizia para os lados, baixo, a Sra.
D. Maria da Assunção, muito aterrada.
- Olhe, também lho digo, exclamou a Sra. D. Josefa Dias, o senhor é
um homem sem religião e sem respeito pelas coisas santas. - E voltando- se
para o lado de Amélia, muito azeda: - Olhe, filha minha é que eu lhe não
dava!
Amélia corou; e João Eduardo, fazendo-se vermelho também,
curvou-se sarcasticamente:
- Eu digo o que dizem os médicos. E de resto, acredite que não tenho
pretensões a casar com pessoa da sua família! Nem mesmo consigo, Sra. D.
Josefa!
O cônego deu uma risada muito pesada.
- Arreda! Cruzes! gritou ela, furiosa.
- Mas que faz então a Santa? perguntou o padre Amaro, para
pacificar.
- Tudo, senhor pároco, disse a Sra. D. Joaquina Gansoso: está sempre
de cama, sabe rezas para tudo; pessoa por quem ela peça tem a graça do
Senhor; é a gente apegar-se com ela e cura-se de toda a moléstia. E depois,
quando comunga, começa a erguer-se, e fica com o corpo todo no ar, com
os olhos erguidos para o Céu, que até chega a fazer terror.
Mas neste momento uma voz disse à porta da sala:
- Ora viva a sociedade! Isto hoje está de truz!
Era um rapaz extremamente alto, amarelo, com as faces
cavadas, uma grenha riçada, um bigode a D. Quixote; quando ria tinha uma
sombra na boca, porque lhe faltavam quase todos os dentes de diante; e
nos seus olhos encovados, de grandes olheiras, errava um sentimentalismo
piegas. Trazia uma guitarra na mão.
- Então como vai isso hoje? perguntaram-lhe logo.
- Mal, respondeu ele com voz triste, sentando-se. Sempre as dores no
peito, a tossezita.
- Então não se dava bem com o óleo de fígados de bacalhau?
- Qual! fez ele desconsoladamente.
- Uma viagem à Madeira, isso é que era, isso é que era! disse a
Sra. D. Joaquina Gansoso com autoridade.
Ele riu, com uma jovialidade súbita:
42
- Uma viagem à Madeira! Não está má! A D. Joaquina Gansoso temnas
boas! Um pobre amanuense de administração com dezoito vinténs por
dia, mulher e quatro filhos! Para a Madeira!
- E como vai ela, a Joanita?
- Coitadita, lá vai! Tem saúde, graças a Deus! Gorda, sempre
com bom apetite. Os pequenos, os dois mais velhos é que estão doentes;
demais a mais agora a criada também caiu de cama! É o diacho! Paciência!
Paciência! - E encolhia os ombros.
Mas voltando-se para a S. Joaneira, dando-lhe uma palmada no
joelho:
- E como vai a nossa Madre Abadessa?
Todos riram: e a Sra. D. Joaquina Gansoso informou o pároco
que aquele rapaz, o Artur Couceiro, era muito engraçado e tinha uma
bela voz. Era a melhor da cidade para modinhas.
A Ruça tinha então entrado com o chá; a S. Joaneira, enchendo
as chávenas de alto, dizia:
- Cheguem-se, cheguem-se, filhas, que este é do bom! É da loja do
Sousa...
E Artur oferecia açúcar com o seu antigo gracejo:
- Se está azedinho é carregar-lhe no sal!
As velhas sorviam a pequenos goles pelos pires, escolhiam
cuidadosamente as torradas; sentia-se o mastigar ruminado dos queixos; e
por causa dos pingos da manteiga e das nódoas do chá, estendiam
prudentemente os lenços sobre o regaço.
- Vai um docinho, senhor pároco? disse Amélia, apresentando-lhe o
prato. São da Encarnação, muito fresquinhos.
- Obrigado.
- Aquele ali. É toucinho do Céu.
- Ah! se é do Céu.., disse ele todo risonho. E olhou para ela,
tomando o bolo com a ponta dos dedos.
O Sr. Artur costumava cantar depois do chá. Sobre o piano uma vela
alumiava o caderno de música; e Amélia, logo que a Ruça levou a bandeja,
acomodou-se, correu os dedos sobre o teclado amarelo.
- Então hoje que há-de ser? perguntou Artur.
Os pedidos cruzaram-se:
- O guerrilheiro! O noivado do sepulcro.' O descrido.' o nunca mais!
O cônego Dias disse do seu canto pesadamente:
- Ó Couceiro, vá lá aquela do Tio Cosme, meu brejeiro!
As mulheres reprovaram:
- Credo! por quem é, senhor cônego! Que lembrança! E a Sra.
D. Joaquina Gansoso resumiu:
- Nada: uma coisa de sentimento para o senhor pároco fazer idéia.
43
- Isso, isso! disseram; uma coisa de sentimento, ó Artur, uma
coisa de sentimento!
Artur pigarreou, cuspilhou; e dando subitamente à face uma
expressão dolorosa, ergueu a voz, cantou lugubremente:
Adeus, meu anjo! Eu vou partir sem ti!
Era uma canção dos tempos românticos de 51, o Adeus! Dizia
uma suprema despedida, num bosque, por uma tarde pálida de Outono;
depois, o homem solitário e precito, que inspirara um amor funesto, ia errar
desgrenhado à beira do mar; havia uma sepultura esquecida num vale
distante, brancas virgens vinham chorar à claridade do luar!
- Muito bonito, muito bonito! murmuravam.
Artur cantava enternecido, o olhar vago; mas nos intervalos,
durante o acompanhamento, sorria em redor - e na sua boca cheia de
sombra viam-se os restos de dentes podres. O padre Amaro, ao pé da
janela, fumando, contemplava Amélia, enlevado naquela melodia
sentimental e mórbida: o seu perfil fino, de encontro à luz, tinha uma linha
luminosa; destacava harmoniosamente a curva do seu peito; e ele seguia as
suas pálpebras de grandes pestanas, que do teclado para a música se
erguiam e se abaixavam com um movimento doce. João Eduardo, junto
dela, voltava- lhe as folhas da música.
Mas Artur, com a mão sobre o peito, a outra erguida no ar, num gesto
desolado e veemente, soltou a última estrofe:
E um dia, enfim, deste viver fatal,
Repousarei na escuridão da campa!
- Bravo! bravo! exclamaram.
E o cônego Dias comentou baixo ao pároco:
- Ah! para coisas de sentimento não há outro. - E
bocejando enormemente: Pois, menino, tenho tido toda a noite as lulas a
conversar cá por dentro.
Mas chegara a hora do loto. Cada um escolhia os seus cartões
habituais; e a Sra. D. Josefa Dias, com o seu olho de avara a luzir,
chocalhava já vivamente o grosso saco dos números.
- Aqui tem um lugar, senhor pároco, disse Amélia.
Era junto dela. Ele hesitou; mas tinham aberto espaço, e veio sentarse
um pouco corado, ajeitando timidamente a volta.
Fez-se logo um grande silêncio; e, com a voz dormente, o
cônego começou a tirar os números. A Sra. D. Ana Gansoso dormitava ao
seu canto, ressonando ligeiramente.
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Com o abajur as cabeças estavam na penumbra; e a luz crua,
caindo sobre o xale escuro que cobria a mesa, fazia destacar os cartões
enegrecidos do uso, e as mãos secas das velhas, pousadas em atitudes
aduncas, remexendo as marcas de vidro. Sobre o piano aberto a vela
derretia-se com uma chama alta e direita.
O cônego rosnava os números com as pilhérias veneráveis da
tradição: 1, cabeça de porco! - 3, figura de entremês!
- Precisa-se o vinte e um, dizia uma voz.
- Temei - murmurava outra com gozo.
E a irmã do cônego, sôfrega:
- Chocalhe esses números, mano Plácido! Vá!
- E traga-me esse quarenta e sete ainda que seja de rastos, dizia
o Artur Couceiro, com a cabeça entre os punhos.
Enfim o cônego quinou. E Amélia olhando em redor pela sala:
- Então não joga, Sr. João Eduardo? disse ela. Onde está?
João Eduardo saiu da sombra da janela, por trás da cortina.
- Tome lá este cartão, ande, jogue.
- E receba as entradas, já que está de pé, disse a S. Joaneira. Seja o
senhor recebedor!
João Eduardo foi em roda com o pires de porcelana. No fim faltavam
dez réis.
- Eu já dei, eu já dei! exclamavam todos, excitados.
Fora a irmã do cônego que não tocara no seu cobre acastelado.
João Eduardo disse, curvando-se:
- Parece-me que a Sra. D. Josefa não entrou.
- Eu?! gritou ela, furiosa. Olha uma destas! Até fui a
primeira! Credo! Duas moedas de cinco réis, por sinal! Que tal está o
homem!
- Ah! bem, disse ele então, fui eu que me esqueci! Cá ponho. - E
rosnou: beata e ladra!
E a irmã do cônego dizia no entanto baixo à Sra. D. Maria
da Assunção:
- Queria ver se escapava, o melro! Falta de temor a Deus!
- Só quem não está feliz é o senhor pároco, observaram.
Amaro sorriu. Estava distraído, e fatigado; às vezes mesmo esqueciase
de marcar, e Amélia dizia-lhe, tocando-lhe no cotovelo:
- Olhe que não marcou, senhor pároco.
Tinham já apostado dois ternos; ela ganhara; depois faltou a
ambos para quinarem o número trinta e seis.
Em roda repararam.
- Ora vamos a ver se quinam ambos, disse a Sra. D. Maria
da Assunção, envolvendo-os no mesmo olhar baboso.
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Mas o trinta e seis não saía; havia outras quadras nos cartões
alheios; Amélia receava que quinasse a Sra. D. Joaquina Gansoso, que se
mexia muito na cadeira, pedindo o quarenta e oito. Amaro ria,
involuntariamente interessado.
O cônego tirava os números com uma pachorra maliciosa.
- Vá! vá! Ande com isso, senhor cônego! diziam-lhe.
Amélia, debruçada, os olhos vivos, murmurou:
- Dava tudo para que saísse o trinta e seis!
- Sim? Aí o tem... Trinta e seis! disse o cônego.
- Quinamos! gritou ela, triunfante; e, tomando o cartão do pároco e o
seu mostrava-os, para conferirem, orgulhosa, muito corada.
- Ora Deus os abençoe, disse o cônego, jovial, entornandolhes
diante o pires cheio de moedas de dez réis.
- Parece milagre! considerou a Sra. D. Maria da Assunção,
piedosamente.
Mas tinham dado onze horas; e depois da tumba final as velhas
começaram a agasalhar-se. Amélia sentou-se ao piano, tocando ao de leve
uma polca. João Eduardo aproximou-se dela, e baixando a voz:
- Muitos parabéns por ter quinado com o senhor pároco. Que
entusiasmo! - E como ela ia responder: - Boa noite! disse ele
secamente, embrulhando-se no seu xale-manta com despeito.
A Ruça alumiava. As velhas, pela escada, empacotadas nos
abafos, iam ganindo adeusinhos. O Sr. Artur harpejava a guitarra,
cantarolando o Descrido.
Amaro foi para o seu quarto, começou a rezar no Breviário; mas
distraia-se, lembravam-lhe as figuras das velhas, os dentes podres de
Artur, sobretudo o perfil de Amélia. Sentado à beira da cama, com o
Breviário aberto, fitando a luz, via o seu penteado, as suas mãos pequenas
com os dedos um pouco trigueiros picados da agulha, o seu buçozinho
gracioso...
Sentia a cabeça pesada do jantar do cônego e da monotonia do
quino, com uma grande sede além disso das lulas e do vinhito do Porto.
Quis beber, mas não tinha água no quarto. Lembrou-se então que na sala de
jantar havia uma bilha de Extremoz com água fresca, muito boa, da
nascente do Morenal. Calçou as chinelas, tomou o castiçal, subiu
devagarinho. Havia luz na sala, estava o reposteiro corrido; ergueu-o e
recuou com um ah! Vira num relance Amélia, em saia branca a desfazer o
atacador do colete; estava junto do candeeiro e as mangas curtas, o decote
da camisa deixavam ver os seus braços brancos, o seio delicioso. Ela deu
um pequeno grito, correu para o quarto.
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Amaro ficou imóvel, com um suor à raiz dos cabelos. Poderiam
suspeitar uma ofensa! Palavras indignadas iam sair decerto através do
reposteiro do quarto, que ainda se balouçava agitado!
Mas a voz de Amélia, serena, perguntou de dentro:
- Que queria, senhor pároco?
- Vinha buscar água, balbuciou ele.
- Aquela Ruça! aquela desleixada! Desculpe, senhor pároco,
desculpe. Olhe aí ao pé da mesa, a bilha. Achou?
- Achei! achei!
Desceu devagar com o copo cheio: a mão tremia-lhe, a água escorrialhe
pelos dedos.
Deitou-se sem rezar. Alta noite Amélia sentiu por baixo passos
nervosos pisarem o soalho: era Amaro que, com o capote aos ombros e em
chinelas, fumava, excitado, pelo quarto.
V
Ela, em cima, não dormia também. Sobre a cômoda, dentro de
uma bacia, a lamparina extinguia-se, com um mau cheiro de morrão de
azeite; brancuras de saias caídas no chão destacavam; e os olhos do gato,
que não sossegava, reluziam pela escuridão do quarto com uma claridade
fosfórica e verde.
Na casa vizinha, uma criança chorava sem cessar. Amélia sentia
a mãe embalar-lhe o berço, cantar-lhe baixo:
Dorme, dorme, meu menino,
Que a tua mãe foi à fonte!
Era a pobre Catarina engomadeira, que o tenente Sousa deixara
com um filho no berço, e grávida de outro - para ir casar a Extremoz!
Tão bonita era, tão loura - e mirrada agora, tão chupada!
Dorme, dorme, meu menino,
Que a tua mãe foi à fonte!
Como ela conhecia aquela cantiga! Quando tinha sete anos sua
mãe dizia-a, nas longas noites de Inverno, ao irmãozinho que morrera!
Lembrava-se bem! moravam então noutra casa, ao pé da estrada
de Lisboa; à janela do seu quarto havia um limoeiro e a mãe punha, na
sua ramagem luzidia, os cueiros do Joãozinho, a secarem ao sol. Não
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conhecera o papá. Fora militar, morrera novo; e a mãe ainda suspirava ao
falar da sua bela figura com o uniforme de cavalaria. Aos oito anos ela foi
para a mestra. Como se lembrava! A mestra era uma velhita roliça e
branca, que fora tacho das freiras de Santa Joana de Aveiro; com os seus
óculos redondos, junto à janela, empurrando a agulha, morria-se por contar
histórias do convento: as perrices da escrivã, sempre a escabichar os dentes
furados; a madre rodeira, preguiçosa e pacata, com uma pronúncia
minhota; a mestra de cantochão, admiradora de Bocage e que se dizia
descendente dos Távoras; e a legenda de uma freira que morrera de amor, e
cuja alma ainda em certas noites percorria os corredores, soltando gemidos
dolorosos e clamando: - Augusto! Augusto!
Amélia ouvia aquelas histórias, encantada. Gostava então tanto de
festas de igreja e da convivência dos santos, que desejava ser uma
"freirinha, muito bonita, com um veuzinho muito branco". A mamã era
muito visitada por padres. O chantre Carvalhosa, um homem velho e
robusto, que soprava de asma ao subir a escada e tinha uma voz fanhosa,
vinha todos os dias, como amigo da casa. Amélia chamava-lhe padrinho.
Quando ela voltava da mestra, à tarde, encontrava-o sempre a palestrar com
a mãe, na sala, de batina desabotoada, deixando ver o longo colete de
veludo preto com raminhos bordados a amarelo. O senhor chantre
perguntava-lhe pelas lições e fazia-a dizer a tabuada.
À noite havia reuniões: vinha o padre Valente; o cônego Cruz; e um
velhito calvo, de perfil de pássaro, com óculos azuis, que fora
frade franciscano e a quem chamavam frei André. Vinham as amigas da
mãe, com as suas meias; e um capitão Couceiro, de caçadores, que tinha
os dedos negros do cigarro e trazia sempre a sua viola. Mas às nove
horas mandavam-na deitar; pela frincha do quarto ela via a luz, ouvia as
vozes; depois fazia-se um silêncio, e o capitão, repenicando a guitarra,
cantava o lundum da Figueira.
Foi assim crescendo entre padres. Mas alguns eram-lhe
antipáticos: sobretudo o padre Valente, tão gordo, tão suado, com umas
mãos papudas e moles, de unhas pequenas! Gostava de a ter entre os
joelhos, torcer-lhe devagarinho a orelha, e ela sentia o seu hálito
impregnado de cebola e de cigarro. O seu amiguinho era o cônego Cruz,
magro, com o cabelo todo branco, a volta sempre asseada, as fivelas
luzidias; entrava devagarinho, cumprimentando com a mão sobre o peito, e
uma voz suave cheia de ss. Já então sabia o catecismo e a doutrina: na
mestra, em casa, por qualquer "bagatela", falavam-lhe sempre dos castigos
do Céu; de tal sorte que Deus aparecia-lhe como um ser que só sabe dar o
sofrimento e a morte, e que é necessário abrandar, rezando e jejuando,
ouvindo novenas, animando os padres. Por isso, se às vezes ao deitar lhe
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esquecia uma Salve-Rainha, fazia penitência no outro dia, porque temia
que Deus lhe mandasse sezões ou a fizesse cair na escada.
Mas o seu melhor tempo foi quando começou a tomar lições
de música. A mãe tinha na sala de jantar, ao canto, um velho piano,
coberto com um pano verde, tão desafinado, que servia de aparador.
Amélia costumava cantarolar pela casa; e a sua voz fina e fresca agradava
ao senhor chantre, e as amigas da mãe diziam-lhe:
- Tu tens aí um piano, por que não mandas ensinar a
rapariga? Sempre é uma prenda! olha que lhe pode servir de muito!
O chantre conhecia um bom mestre, antigo organista da Sé de
Évora, extremamente infeliz: a filha única, muito linda, fugira-lhe com um
alferes para Lisboa; e, passados dois anos, o Silvestre da Praça, que ia
muito à capital, vira-a descer a Rua do Norte, de garibaldi escarlate e
alvaiade num olho, com um marinheiro inglês. O velho caíra em grande
melancolia e grande miséria; e por piedade tinham-lhe dado um emprego
no cartório da câmara eclesiástica. Era uma figura triste de romance
picaresco. Muito magro, alto como um pinheiro, deixava crescer até os
ombros os seus cabelos brancos e finos; os olhos, cansados, lagrimejavamlhe
sempre; mas o seu sorriso resignado e bom enternecia: e parecia muito
transido, no seu capote cor de vinho que só lhe chegava à cintura e que
tinha uma gola de astracã. Chamavam-lhe o Tio Cegonha, pela sua alta
magreza e o seu ar solitário. Amélia um dia tinha-lhe chamado Tio
Cegonha; mas mordeu logo o beiço, toda envergonhada.
O velho pôs-se a sorrir:
- Ai, chame, minha rica menina, chame! Tio Cegonha?... ora,
que tem? Cegonha sou eu, e bem cegonha!
Era então no Inverno. As grandes chuvas com os sudoestes não
cessavam; a áspera estação oprimia os pobres. Viam-se naquele ano
famílias esfomeadas indo à câmara pedir pão. O Tio Cegonha vinha sempre
ao meio-dia dar a lição; o seu guarda-chuva azul deixava um ribeiro na
escada; tiritava; e quando se sentava escondia, na sua vergonha de velho, as
botas encharcadas com a sola aberta. Queixava-se sobretudo do frio das
mãos, que o impedia de ferir com justeza o teclado, e não o deixava
escrever no cartório. '
- Prendem-se-me os dedos, dizia tristemente.
Mas quando a S. Joaneira lhe pagou o primeiro mês das lições,
o velho apareceu muito contente, com urnas grossas luvas de lã.
- Ah, Tio Cegonha, como vem quentinho! disse-lhe Amélia.
- Foi o seu dinheiro, minha rica menina. Agora ando a juntar
para umas meias de lã. Deus a abençoe, minha menina, Deus a abençoe!
E tinham-se-lhe arrasado os olhos de lágrimas. Amélia tomara-se
a "sua rica amiguinha". Já lhe fazia confidências: contava-lhe as suas
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necessidades, as saudades da filha, as suas glórias na Sé de Évora,
quando diante do senhor arcebispo, vistoso na sua sobrepeliz escarlate,
acompanhava o Lausperene.
Amélia não se esqueceu das meias de lã do Tio Cegonha. Pediu ao chantre
que lhe desse umas meias de lã.
- Ora essa! para quê? para ti? disse ele com o seu riso grosso.
- Para mim, sim, senhor.
- Deixe falar, senhor chantre! disse a S. Joaneira. Olha a idéia!
- Não deixe falar, não! dê, sim?!
Lançou-lhe os braços ao pescoço; fez-lhe olhinhos doces.
- Ah, sereia! dizia o chantre rindo: que esperanças! há-de ser
o diabo!... Pois sim, aí tens. - E deu-lhe dois pintos para umas meias de lã.
No dia seguinte tinha-os ela embrulhados num papel, que dizia
por fora em letras garrafais: Ao meu rico amigo Tio Cegonha, a sua
discípula.
Uma manhã, depois, viu-o mais amarelo, mais chupado:
- Ó Tio Cegonha, disse de repente, quanto lhe dão lá no cartório?
O velho sorriu-se:
- Ora, minha rica menina, quanto me hão-de dar? uma bagatela.
Quatro vinténs por dia. Mas o Sr. Neto faz-me algum bem...
- E chegam-lhe quatro vinténs?
- Ora! como hão-de chegar?
Sentiram-se os passos da mãe; e Amélia, retomando gravemente
a atitude de lição, começou a solfejar alto, com um ar profundo.
E desde esse dia tanto pediu, tanto exclamou, que levou a mãe a
dar de almoçar e de jantar ao Tio Cegonha nos dias de lição. Assim se
estabeleceu entre ela e o velho uma grande intimidade. E o pobre Tio
Cegonha, saindo do seu frio isolamento, acolhia-se àquela amizade
inesperada, como a um conchego tépido. Encontrava nela o elemento
feminino que amam os velhos, com as carícias, as suavidades de voz, as
delicadezas de enfermeira; achava nela a única admiradora da sua música; e
via-a sempre atenta às histórias do seu tempo, às recordações da velha Sé
de Évora que ele amava tanto, e que lhe fazia dizer, quando se falava de
procissões, ou de festas de igreja:
- Para isso Évora! em Évora é que é!
Amélia aplicava-se muito ao piano: era a coisa boa e delicada da
sua vida; já tocava contradanças e antigas árias de velhos compositores; a
Sra. D. Maria da Assunção estranhava que o mestre lhe não ensinasse o
Trovador.
- Coisa mais linda! dizia.
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Mas o Tio Cegonha só conhecia a música clássica, árias ingênuas
e doces de Lully, motivos de minuetes, motetes floridos e piedosos dos
doces tempos freiráticos.
Uma manhã o Tio Cegonha encontrou Amélia muito amarela e
triste. Desde a véspera queixava-se de "mal-estar". Era um dia nublado,
muito frio. O velho queria ir-se embora.
- Não, não, Tio Cegonha, disse ela, toque alguma coisa para eu me
entreter.
Ele tirou o seu capote, sentou-se, tocou uma melodia simples,
mas extremamente melancólica.
- Que lindo! que lindo! dizia Amélia, de pé junto ao piano.
E quando o velho deu as últimas notas:
- O que é? perguntou ela.
O Tio Cegonha contou-lhe que era o começo de uma Meditação
feita por um frade seu amigo.
- Coitado, disse, teve bem o seu tormento!
Amélia quis logo saber a história; e sentando-se no mocho do
piano, embrulhando-se no seu xale:
- Diga, Tio Cegonha, diga!
Era um homem que tivera em novo uma grande paixão por
uma freira; ela morrera no convento daquele amor infeliz; e ele, de dor e de
saudade, fizera-se frade franciscano...
- Parece que o estou a ver...
- Era bonito?
- Se era! Um rapaz na flor da vida, rico... Um dia veio ter comigo ao
órgão: "Olha o que eu fiz", disse-me ele. Era um papel de música. Abria em
ré menor. Pôs-se a tocar, a tocar... Ai, minha rica menina, que música! Mas
não me lembra o resto!
E o velho, comovido, repetiu no piano as notas plangentes da
Meditação em ré menor.
Amélia todo o dia pensou naquela história. De noite veio-lhe
uma grande febre, com sonhos espessos, em que dominava a figura do
frade franciscano, na sombra do órgão da Sé de Évora. Via os seus olhos
profundos reluzirem numa face encovada: e, longe, a freira pálida, nos seus
hábitos brancos, encostada ás grades negras do mosteiro, sacudida pelos
prantos do amor! Depois, no longo claustro, a ala dos frades franciscanos
caminhava para o coro: ele ia no fim de todos, curvado, com o capuz sobre
o rosto, arrastando as sandálias, enquanto um grande sino, no ar
nublado, tocava o dobre dos finados. Então o sonho mudava: era um vasto
céu negro, onde duas almas enlaçadas e amantes, com hábitos de convento
e um ruído inefável de beijos insaciáveis, giravam, levadas por um vento
místico; mas desvaneciam-se como névoas, e na vasta escuridão ela via
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aparecer um grande coração em carne viva, todo traspassado de espadas, e
as gotas de sangue que caíam dele enchiam o céu duma chuva escarlate.
Ao outro dia a febre acalmou. O doutor Gouveia tranqüilizou a S. Joaneira
com uma simples palavra:
- Nada de sustos, minha rica senhora, são os quinze anos da rapariga.
Hão-de-lhe vir amanhã as vertigens e os enjôos... Depois acabou-se. Temola
mulher.
A S. Joaneira compreendeu.
- Esta rapariga tem o sangue vivo e há-de ter as paixões
fortes! acrescentou o velho prático, sorrindo e sorvendo a sua pitada.
Por esse tempo o senhor chantre, uma manhã, depois do seu
almoço de açorda, caiu de repente morto com uma apoplexia. Que
consternação inesperada, para a S. Joaneira! Durante dois dias,
esguedelhada, em saias brancas chorou, gemeu pelos quartos. D. Maria da
Assunção, as senhoras Gansosos vieram acalmar, amansar a sua dor: e a
Sra. D. Josefa Dias resumiu as consolações de todos, dizendo:
- Deixa, filha, que te não há-de faltar quem te ampare!
Era então no começo de Setembro; a Sra. D. Maria da Assunção, que
tinha uma casa na praia da Vieira, propôs levar a S. Joaneira e Amélia para
a estação dos banhos, para ela espalhar, nos bons ares saudáveis, em lugar
diferente, aquela dor.
- É uma esmola que me fazes, dissera a S. Joaneira. Sempre me
lembra que era ali que ele punha o guarda-chuva... Ali que ele se sentava
a ver-me costurar!
- Está bom, está bom, deixa-te disso. Come e bebe, toma os
teus banhos, e o que lá vai lá vai. Olha que ele tinha bem os seus sessenta.
- Ah, minha rica! a gente é pela amizade que lhes ganha.
Amélia tinha então quinze anos, mas era já alta e de bonitas
formas. Foi uma alegria para ela a estação na Vieira! Nunca vira o mar; e
não se fartava de estar sentada na areia, fascinada pela vasta água azul,
muito mansa, cheia de sol; às vezes no horizonte passava um fumo delgado
de paquete; a monótona e gemente cadência da vaga adormentava-a; e
em redor o areal faiscava, a perder de vista, sob o céu azul-ferrete.
Como se lembrava bem! Logo pela manhã estava a pé! Era a hora do
banho: as barracas de lona alinhavam-se ao comprido da praia; as senhoras,
sentadas em cadeirinhas de pau, de sombrinhas abertas, olhavam o mar,
palrando; os homens, de sapatos brancos estendidos em esteiras, chupavam
o cigarro, riscavam emblemas na areia; enquanto o poeta
Carlos Alcoforado, muito fatal, muito olhado, passeava só, soturno, junto
da vaga, seguido do seu Terra-Nova. Ela saía então da barraca com o seu
vestido de flanela azul, a toalha no braço, tiritando de susto e de frio: tinhase
persignado às escondidas e toda trêmula, agarrada à mão do
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banheiro, escorregando na areia, entrava na água, rompendo a custo a
maresia esverdeada que fervia em redor. A onda vinha espumando, ela
mergulhava, e ficava aos saltos, sufocada e nervosa, cuspindo a água
salgada. Mas, quando saía do mar, como vinha satisfeita! Arfava, com a
toalha pela cabeça, arrastando-se para a barraca, mal podendo com o peso
do vestido encharcado, risonha, cheia de reação; e em redor vozes amigas
perguntavam:
- Então que tal, que tal? Mais fresquinha, hem?
Depois, de tarde, eram os passeios à beira-mar, a apanhar
conchinhas; o recolher das redes, onde a sardinha toda viva ferve aos
milheiros, luzidia sobre a areia molhada; e que longas perspectivas de
ocasos ricamente dourados, sobre a vastidão do mar triste, que escurece e
geme!
D. Maria da Assunção tinha sido visitada, logo ao chegar, por
um rapaz, filho do Sr. Brito de Alcobaça, seu parente. Chamava-se
Agostinho, ia freqüentar o quinto ano de direito na Universidade. Era um
moço delgado, de bigode castanho, pêra, cabelo comprido deitado para trás,
e luneta: recitava versos, sabia tocar guitarra, contava anedotas de
caloiros, fazia partidas, e era famoso na Vieira, entre os homens, "por saber
conversar com senhoras".
- O Agostinho, patife! diziam. É chalaça a esta, chalaça àquela. Lá
para sociedade não há outro!
Logo desde os primeiros dias Amélia reparou que os olhos do
Sr. Agostinho Brito se fitavam constantemente nela, "p'ra namoro".
Amélia corava muito, sentia o seio alargar-se-lhe dentro do vestido; e
admirava-o, achava-o muito "dengueiro".
Um dia em casa da Sra. D. Maria da Assunção pediram a
Agostinho para recitar.
- Oh, minhas senhoras, isto aqui não é forja de ferreiro!
exclamou ele, jovial.
- Ora vá! não se faça rogado, disseram, insistindo.
- Bem, bem, por isso não nos havemos de zangar.
- A Judia, Brito, lembrou o recebedor de Alcobaça.
- Qual Judia! disse ele, há-de ser mas há-de ser a Morena! - E olhou
para Amélia. - Foi uma poesia que fiz ontem.
- Valeu, valeu!
- E cá o rapaz acompanha, disse um sargento do 6 de
Caçadores, tomando logo a guitarra.
Fez-se um silêncio: o Sr. Agostinho deitou o cabelo para trás, fincou a
luneta, apoiou as duas mãos às costas duma cadeira, e fitando Amélia:
- À Morena de Leiria! disse.
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Nasceste nos verdes campos
Onde Leiria é famosa,
Tens a frescura da rosa, .
E o teu nome sabe a mel...
- Perdão, exclamou o recebedor, a Sra. D. Juliana não está boa. Era a
filha do escrivão de direito de Alcobaça; tinha-se feito muito pálida, e,
lentamente, desmaiava na cadeira, com os braços pendentes, o queixo sobre
o peito. Borrifaram-na de água, levaram-na para o quarto de
Amélia; quando lhe desapertaram o vestido e lhe deram vinagre a respirar,
ergueu- se sobre o cotovelo, olhou em redor, começaram a tremer-lhe os
beiços e rompeu a chorar. Fora, os homens em grupo comentavam:
- Foi o calor, diziam.
- O calor que ela tinha sei eu, rosnou o sargento de caçadores. O Sr.
Agostinho torcia o bigode, contrariado. Algumas senhoras foram a casa
acompanhar a Sra. D. Juliana. D. Maria da Assunção e a S. Joaneira,
atabafadas nos seus xales, iam também. Havia vento, um criado levava um
lampião, e todos caminhavam na areia, calados.
- Tudo isto é teu proveito, disse a Sra. D. Maria da Assunção baixo à
S. Joaneira, demorando-se um pouco atrás.
- Meu!?
- Teu. Pois tu não percebeste? A Juliana, em Alcobaça, era
namoro do Agostinho. Mas o rapaz aqui anda pelo beiço pela Amélia. A
Juliana percebeu, viu-o recitar aqueles versos, olhar para ela, zás!
- Ora essa!... disse a S. Joaneira.
- Deixa lá, o Agostinho tem um par de mil cruzados que lhe
deixam as tias. É um partidão!
Ao outro dia, à hora do banho, a S. Joaneira vestia-se na sua barraca,
e Amélia, sentada na areia, esperava, pasmada para o mar.
- Olá! sozinha? disse uma voz por detrás.
Era Agostinho. Amélia, calada, começou a riscar a areia com a
sombrinha. O Sr. Agostinho suspirou, alisou outro pedaço de areia com o
pé, escreveu - AMÉLIA. Ela, muito vermelha, quis apagar com a mão.
- Então! disse ele. E debruçando-se, baixo: - É o nome da
Morena, bem vê. O seu nome sabe a mel!...
Ela sorriu:
- Ande, que fez ontem desmaiar aquela pobre Juliana - disse.
- Ora! importa-me a mim bem com ela! Estou farto daquele
estafermo! Então que quer? Eu cá sou assim. Tanto digo que me não
importo com ela, como digo que há uma pessoa por quem dava tudo... Eu
sei...
- Quem é? É a Sra. D. Bernarda?
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Era uma velha hedionda, viúva de um coronel.
- É, disse ele rindo. É justamente por quem eu ando apaixonado
é pela D. Bernarda.
- Ah! o senhor anda apaixonado! disse ela devagar, com os
olhos baixos, riscando a areia.
- Diga-me uma coisa, está a mangar comigo? exclamou
Agostinho puxando por uma cadeirinha, sentando-se junto dela.
Amélia pôs-se de pé.
- Não quer que eu me sente ao pé de si? perguntou ele ofendido.
- Eu é que estava cansada de estar sentada.
Calaram-se um momento.
- Já tomou banho? disse ela.
- Já.
- Estava frio hoje?
- Estava.
As palavras de Agostinho eram agora muito secas.
- Zangou-se? disse ela docemente, pondo-lhe de leve a mão
no ombro. Agostinho ergueu os olhos, e vendo o bonito rosto trigueiro,
todo risonho, - exclamou com veemência:
- Estou mesmo doido por si!
- Chut!... disse ela.
A mãe de Amélia, levantando o pano da barraca, saía, muito abafada,
de lenço amarrado na cabeça.
- Mais fresquinha, hem? perguntou logo Agostinho, tirando o chapéu
de palha.
- Estava por aqui?
- Vim dar uma vista de olhos. E agora toca ao almocinho, hem?
- Se é servido... disse a S. Joaneira.
Agostinho, muito galante, ofereceu o braço à mamã.
E desde então seguia sempre Amélia, de manhã no banho, de tarde à
beira-mar; apanhava-lhe conchas; e tinha-lhe feito outros versos - o Sonho.
Uma estrofe era violenta:
Senti-te contra o meu peito
Tremer, palpitar, ceder...
Ela murmurava-os com grande comoção, de noite, suspirando,
abraçando o travesseiro.
Outubro findava, as férias tinham acabado. Uma noite o alegre
rancho da Sra. D. Maria da Assunção e das amigas fora dar um passeio
ao luar. À volta, porém, erguera-se vento, nuvens pesadas empastaram o
céu, caíram gotas de água. Estavam então junto a um pequeno pinheiral, e
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as senhoras, aos gritinhos, quiseram abrigar-se. Agostinho, com Amélia
pelo braço, rindo alto, foi penetrando longe dos outros na espessura; e
então, sob o monótono e gemente rumor das ramas, disse-lhe baixo,
cerrando os dentes:
- Estou doido por ti, filha!
- Creio lá nisso! murmurou ela.
Mas Agostinho, tomando subitamente um tom grave:
- Sabes? talvez eu tenha de me ir amanhã embora.
- Vai-se?
- Talvez; não sei ainda. Além de amanhã é a matrícula.
- Vai-se... suspirou Amélia.
Ele então tomou-lhe a mão, apertou-lha com furor:
- Escreve-me! disse.
- E a mim, escreve-me? disse ela.
Agostinho agarrou-a pelos ombros e machucou-lhe a boca de
beijos vorazes.
- Deixe-me! deixe-me! dizia ela sufocada.
De repente teve um gemido doce como um arrulho de ave, e
abandonava-se - quando a voz aguda de D. Joaquina Gansoso gritou:
- Há uma aberta. É andar! é andar!
E Amélia, desprendendo-se, atarantada, correu a agachar-se sob
o guarda-chuva da mamã.
Ao outro dia, com efeito, o Sr. Agostinho partiu. Vieram as primeiras
chuvas, e dentro em pouco também Amélia, a mãe, a Sra. D. Maria da
Assunção voltaram para Leiria.
Passou o Inverno.
E um dia, em casa da S. Joaneira, D. Maria da Assunção deu
parte que o Agostinho Brito, segundo lhe escreviam de Alcobaça, tinha o
casamento justo com a menina do Vimeiro.
- Cáspite! exclamou D. Joaquina Gansoso, apanha nada menos que
os seus trinta contos! Olha o meco!
E diante de todos Amélia rompeu a chorar.
Amava Agostinho; e não podia esquecer aqueles beijos de noite
no pinheiral cerrado. Pareceu-lhe então que não tornaria a ter alegria!
Ainda lembrada daquele moço da história do Tio Cegonha, que por amor se
escondera na solidão de um convento, começou a pensar em ser freira: deuse
a uma forte devoção, manifestação exagerada das tendências que desde
pequenina as convivências de padres tinham lentamente criado na sua
natureza sensível; lia todo o dia livros de rezas; encheu as paredes do
quarto de litografias coloridas de santos; passava longas horas na igreja,
acumulando Salve-Rainhas à Senhora da Encarnação. Ouvia todos os dias
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missa, quis comungar todas as semanas - e as amigas da mãe achavam-na
"um modelo, de dar virtude a incrédulos" !
Foi por esse tempo que o cônego Dias e sua irmã, a Sra. D.
Josefa Dias, começaram a freqüentar a casa da S. Joaneira. Dentro em
pouco o cônego tornou-se o "amigo da família". Depois do almoço era
certo com a sua cadelinha, como outrora o chantre com o seu guardachuva.
- Tenho-lhe muita amizade, faz-me muito bem, dizia a S.
Joaneira. Mas o senhor chantre não há dia nenhum que me não lembre
dele!
A irmã do cônego tinha então organizado com a S. Joaneira a
Associação das Servas da Senhora da Piedade. A Sra. D. Maria da
Assunção, as Gansosos "filiaram-se"; e a casa da S. Joaneira tornou-se um
centro eclesiástico. Foi esse o momento melhor da vida da S. Joaneira; "a
Sé, como dizia com tédio o Carlos da botica, era agora na Rua da
Misericórdia". Parte dos cônegos, o novo chantre, vinham todas as sextasfeiras.
Havia imagens de santos na sala de jantar e na cozinha. As criadas,
por escrúpulo, eram examinadas em doutrina antes de serem aceitas. Ali
muito tempo fizeram-se as reputações: se se dizia de um homem: não é
temente a Deus, havia o dever de o desacreditar santamente. As nomeações
de sineiros, coveiros, serventes de sacristia arranjavam-se ali por intrigas
sutis e palavras piedosas. Tinham tomado um certo vestuário entre o preto e
o roxo; toda a casa cheirava a cera e a incenso; e a S. Joaneira,
mesmo, monopolizara o comércio das hóstias.
Assim passaram anos. Pouco a pouco, porém, o grupo devoto
dispersou-se: a ligação do cônego Dias e da S. Joaneira, muito
comentada, afastou os padres do cabido; o novo chantre morrera de
apoplexia também - como era de tradição naquela diocese, fatal aos
chantres; e já não eram divertidos os quinos das sextas-feiras. Amélia
mudara muito; crescera: fizera-se uma bela moça de vinte e dois anos, de
olhar aveludado, beiços muito frescos - e achava a sua paixão pelo
Agostinho uma "tontice de criança". A sua devoção subsistia, mas alterada:
o que amava agora na religião e na igreja era o aparato, a festa - as belas
missas cantadas ao órgão, as capas recamadas de ouro, reluzindo entre os
tocheiros, o altar-mor na glória das flores cheirosas, o roçar das correntes
dos incensadores de prata, os uníssonos que rompem briosamente no coro
das aleluias. Tomava a Sé como a sua Ópera: Deus era o seu luxo. Nos
domingos de missa gostava de se vestir, de se perfumar com água-decolônia,
de se ir aninhar sobre o tapete do altar-mor, sorrindo ao padre
Brito ou ao cônego Saldanha. Mas em certos dias, como dizia a mãe,
"murchava"; voltavam então os abatimentos de outrora, que a amarelavam,
lhe punham duas rugas velhas ao canto dos lábios: tinha nessas ocasiões
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horas duma vaga saudade parva e mórbida, em que sò a consolava cantar
pela casa o Santíssimo ou as notas lúgubres do toque da Agonia. Com a
alegria voltava-lhe o rosto do culto alegre - e lamentava então que a Sé
fosse uma ampla estrutura de pedra dum estilo frio e jesuítico: quereria
uma igreja pequenina, muito dourada, tapetada, forrada de papel, iluminada
a gás; e padres bonitos oficiando a um altar ornado como uma étagère.
Fizera vinte e três anos quando conheceu João Eduardo no dia
da procissão de Corpus-Christi, em casa do tabelião Nunes Ferral, onde
ele era escrevente. Amélia, a mãe, a Sra. D. Josefa Dias tinham ido ver a
procissão da bela varanda do tabelião, guarnecida de colchas de damasco
amarelo. João Eduardo estava lá, modesto, sério, todo vestido de preto.
Havia muito que Amélia o conhecia; mas naquela tarde, reparando na
brancura da sua pele e na gravidade com que ajoelhava, pareceu-lhe "muito
bom rapaz".
À noite, depois do chá, o gordalhufo Nunes, de colete branco,
foi pela sala exclamando, entusiasmado, com a sua voz de grilo: - É
tirar pares, é tirar pares! - enquanto a filha mais velha ao piano tocava
com brio estridente uma mazurca francesa. João Eduardo aproximou-se
de Amélia:
- Ai, eu não danço! - disse ela logo com ar seco.
João Eduardo não dançou também; foi encostar-se a uma
ombreira com a mão na abertura do colete, os olhos fitos em Amélia. Ela
percebia, desviava o rosto, mas estava contente; e quando João Eduardo,
vendo uma cadeira vazia, veio sentar-se ao pé dela, Amélia fez-lhe logo
lugar acomodando os folhos de seda, agradada. O escrevente, embaraçado,
torcia o bigode com a mão trêmula. Por fim Amélia voltando-se para ele:
- Então o senhor não dança também?
- E a Sra. D. Amélia? disse ele baixo.
Ela inclinou-se para trás, e batendo nas pregas do vestido:
- Ai! eu estou velha para estes divertimentos, sou uma pessoa séria.
- Nunca se ri? perguntou ele, pondo na voz uma intenção fina.
- Às vezes rio quando há de quê, disse ela olhando-o de lado.
- De mim, por exemplo.
- De si!? Ora essa! Está a caçoar comigo? Por que me hei-de eu rir
do senhor? Boa!... então o senhor que tem que faça rir? - e agitava o
seu leque de seda preta.
Ele calou-se, procurando as idéias, as delicadezas.
- Então sério, sério, não dança?
- Já lhe disse que não. Ai, que é tão perguntador!
- É porque me interesso por si.
- Ora, deixe lá! disse ela fazendo um indolente gesto de negativa.
- Palavra!
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Mas a Sra. D. Josefa Dias, que os vigiava, aproximou-se, de
testa muito franzida, e João Eduardo levantou-se, intimidado.
À saída, quando Amélia no corredor punha os seus agasalhos,
João Eduardo veio dizer-lhe, de chapéu na mão:
- Cubra-se bem, não apanhe frio!
- Então continua a interessar-se por mim? - disse ela apertando em
redor do pescoço as pontas da sua manta de lã.
- O mais possível, creia.
Duas semanas depois veio a Leiria uma companhia ambulante de
zarzuela. Falava-se muito da contralto, a Gamacho. A Sra. D. Maria
da Assunção tinha um camarote, levou a S. Joaneira e Amélia - que
duas noites antes estivera costurando, com uma pressa comovida, um
vestido de cassa todo florido de laços de seda azul. João Eduardo na
platéia - enquanto a Gamacho, empastada de pó-de-arroz sob a sua
mantilha valenciana, vibrando com uma graça decrépita o leque de
lantejoulas, garganteava malaguenhas agudas - não se fartou de contemplar,
de desejar Amélia. À saída veio cumprimentá-la, oferecer-lhe o braço até a
Rua da Misericórdia; a S. Joaneira, a Sra. D. Maria da Assunção seguiam
atrás com o tabelião Nunes.
- Então gostou da Gamacho, Sr. João Eduardo?
- A falar-lhe a verdade nem sequer reparei nela.
- Então que fez?
- Olhei para si, respondeu ele resolutamente.
Ela parou imediatamente, disse com a voz um pouco alterada:
- Onde vem a mamã?
- Deixe lá a mamã!
E João Eduardo, então, falando-lhe junto do rosto, disse-lhe "a
sua grande paixão". Tomou-lhe a mão, repetia todo perturbado:
- Gosto tanto de si! Gosto tanto de si!
Amélia estava nervosa da música, do teatro; a noite quente de
Verão, com a sua vasta cintilação de estrelas tomava-a toda lânguida.
Abandonou a mão, suspirou baixinho.
- Gosta de mim, não é verdade? perguntou ele.
- Sim, respondeu ela, e apertou os dedos de João Eduardo
com paixão.
Mas, como ela pensou, "fora decerto um fogacho" - porque,
dias depois, quando conheceu mais João Eduardo, quando pôde falar
livremente com ele, reconheceu que ''não tinha nenhuma inclinação pelo
rapaz''. Estimava-o, achava-o simpático, bom moço; poderia ser um bom
marido; mas sentia dentro em si o coração adormecido.
O escrevente porém começou a ir à Rua da Misericórdia quase
todas as noites. A S. Joaneira estimava-o pelo seu "propósito" e pela sua
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honradez. Mas Amélia ia-se mostrando "fria": esperava-o à janela pela
manhã quando ele passava para o cartório, fazia-lhe olhos doces à noite, -
mas só para o não descontentar, para ter na sua existência desocupada um
interessezinho amoroso.
João Eduardo um dia falou à mãe em casamento:
- Como a Amélia quiser, eu por mim... disse a S. Joaneira.
E Amélia, consultada, respondeu ambiguamente:
- Mais tarde, por ora não me parece, veremos.
Enfim acordou-se tacitamente em esperar, até que ele obtivesse o lugar de
amanuense do governo civil, rasgadamente prometido pelo doutor Godinho
- o temido doutor Godinho!
Assim vivera Amélia até a chegada de Amaro: e, durante a
noite, estas recordações vinham-lhe por fragmentos, como pedaços de
nuvens que o vento vai trazendo e desmanchando. Adormeceu tarde,
acordou já o sol ia alto: e espreguiçava-se, quando ouviu dizer a Ruça na
sala de jantar:
- É o senhor pároco que vai sair com o senhor cônego; vão à Sé.
Amélia saltou da cama, correu à janela em camisa, ergueu uma
pontinha da cortina de cassa, olhou. A manhã resplandecia: e o padre
Amaro pelo meio da rua conversando com o cônego, assoava-se ao seu
lenço branco, muito airoso na sua batina de pano fino.
VI
Logo desde os primeiros dias, envolvido suavemente em
comodidades, Amaro sentiu-se feliz. A S. Joaneira, muito maternal, tomava
um grande cuidado na sua roupa branca, preparava-lhe petiscos, e o
"quarto do senhor pároco andava que nem um brinco"! Amélia tinha com
ele uma familiaridade picante de parenta bonita: "tinham calhado um com o
outro", como dissera, encantada, D. Maria da Assunção. Os dias iam assim
passando para Amaro, fáceis, com boa mesa, colchões macios e a
convivência meiga de mulheres. A estação ia tão linda que até as tílias
floresceram no jardim do Paço: "quase milagre!", disse-se: o senhor
chantre, contemplando-as todas as manhãs da janela do seu quarto, em
robe-de-chambre, citava versos das Éclogas. E depois das longas tristezas
da casa do tio da Estrela, dos desconsolos do seminário e do áspero Inverno
na Gralheira - aquela vida em Leiria era para Amaro como uma casa seca e
abrigada onde o alegre lume estala e a sopa cheirosa fumega, depois duma
noite de jornada na serra, sob trovões e chuveiros.
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Ia cedo dizer a missa à Sé, bem embrulhado no seu grande
capote, com luvas de casimira, meias de lãs por baixo das botas de alto
cano vermelho. As manhãs estavam frias: e àquela hora só algumas
devotas, com o mantéu escuro pela cabeça, rezavam aqui e além, ao pé dum
altar envernizado de branco.
Entrava logo na sacristia, revestia-se depressa batendo os pés no lajedo,
enquanto o sacristão, pachorrento, contava "as novidades do dia".
Depois, com o cálice na mão, de olhos baixos, passava à igreja;
e tendo dobrado o joelho rapidamente diante do Santíssimo
Sacramento, subia devagar ao altar onde duas velas de cera esmoreciam
com uma claridade pálida na larga luz da manhã, juntava as mãos,
murmurava, curvado:
- Introibo ad altare Dei.
- Ad Deum qui laetificat juventutem meam, resmungava, num
latim silabado, o sacristão.
Amaro já não celebrava a missa como nos primeiros tempos,
com uma devoção enternecida. "Estava agora habituado", dizia. E como
não ceava, e àquela hora em jejum, com a frescura cortante do ar, já
sentia apetite, engrolava depressa, monotonamente, as santas leituras da
Epístola e dos Evangelhos. Por trás o sacristão, com os braços cruzados,
passava vagarosamente a mão pela sua espessa barba bem rapada, olhando
de revés para a Casimira França, mulher do carpinteiro da Sé, muito
devota, que ele "trazia de olho" desde a Páscoa. Largas réstias de sol caiam
das janelas laterais. Um vago aroma de junquilhos secos adocicava o ar.
Amaro, depois de recitar rapidamente o ofertório, limpava o
cálice com o purificador; o sacristão, um pouco vergado dos rins, ia buscar
as galhetas, apresentava-as, curvado - e Amaro sentia o cheiro do óleo
rançoso que lhe reluzia no cabelo. Naquela parte da missa, por um
antigo hábito de emoção mística, Amaro tinha um recolhimento sentido:
com os braços abertos, voltava-se para a igreja, clamava, com largueza, a
exortação universal á oração - Orate, fratres! E as velhas encostadas aos
pilares de pedra, com o aspecto idiota, a boca babosa, apertavam mais as
mãos contra o peito, de onde pendiam grandes rosários negros. Então o
sacristão ia ajoelhar-se por trás dele, sustentando ligeiramente com uma das
mãos a capa, erguendo na outra a sineta. Amaro consagrava o vinho,
levantava a hóstia - Hoc est enim corpus meum! - elevando alto os braços
para o Cristo cheio de chagas roxas sobre a sua cruz de pau preto; a
campainha tocava devagar; as mãos batiam concavamente nos peitos; e no
silêncio sentiam-se os carros de bois rolando, com solavancos, sobre o
largo lajeado da Sé, à volta do mercado.
- Ite, missa est! dizia Amaro enfim.
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- Deo gratias! respondia o sacristão respirando alto, com o alívio da
obrigação finda.
E quando, depois de ter beijado o altar, Amaro vinha do alto
dos degraus dar a bênção, era já pensando na alegria do almoço, na clara
sala de jantar da S. Joaneira e nas boas torradas. Àquela hora já Amélia o
esperava com o cabelo caído sobre o penteador, tendo na pele fresca um
bom cheiro de sabão de amêndoas.
···
Pelo meio do dia ordinariamente Amaro subia à sala de jantar, onde a
S. Joaneira e Amélia costuravam. "Estava aborrecido embaixo, vinha um
bocado para o cavaco", dizia. A S. Joaneira, numa cadeira pequena, ao pé
da janela, com o gato aninhado na roda do vestido de merino, cosia de
luneta na ponta do nariz. Amélia, junto da mesa, trabalhava com o cesto da
costura ao lado; a cabeça inclinada sobre o trabalho mostrava a sua risca
fina, nítida, um pouco afogada na abundância do cabelo; os seus grandes
brincos de ouro, em forma de pingos de cera, oscilavam, faziam tremer e
crescer sobre a finura do pescoço uma pequenina sombra; as olheiras leves
cor de bistre esbatiam-se delicadamente sobre a pele de um trigueiro
mimoso, que um sangue forte aviventava; e o seu peito cheio respirava
devagar. Às vezes, cravando a agulha na fazenda, espreguiçavase
devagarinho, sorria, cansada. Então Amare gracejava:
- Ah preguiçosa, preguiçosa! Olha que mulher de casa!
Ela ria; conversavam. A S. Joaneira sabia as coisas interessantes do
dia: o major despedira a criada; ou havia quem oferecesse dez moedas pelo
porco do Carlos do correio. De vez em quando a Ruça vinha ao armário
buscar um prato ou uma colher; então falava-se do preço dos gêneros, do
que havia para o jantar. A S. Joaneira tirava as lunetas, traçava a perna, e
balouçando o pé calçado numa chinela de ourelo, punha-se a dizer
os pratos.
- Hoje temos grão-de-bico. Não sei se o senhor pároco gostará,
foi para variar...
Mas Amaro gostava de tudo; e mesmo em certas comidas
descobria afinidade de gostos com Amélia.
Depois, animando-se, bulia-lhe no cesto da costura. Um dia
encontrara uma carta; perguntou-lhe pelo derriço; ela respondeu, picando
vivamente o pesponto:
- Ai! a mim ninguém me quer, senhor pároco...
- Não é tanto assim, acudiu ele. Mas suspendeu-se, muito vermelho,
afetando tossir.
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Amélia ás vezes fazia-se muito familiar; um dia mesmo, pediulhe
para sustentar nas mãos uma meadinha de retrós que ela ia dobar.
- Deixe falar, senhor pároco! exclamou a S. Joaneira. Ora a
tolice! Isto, em se lhe dando confiança!...
Mas Amaro prontificou-se, rindo, todo contente: - ele estava ali para
o que quisessem, até para dobadoura! Era mandarem, era mandarem!... E as
duas mulheres riam, dum riso cálido, enlevadas naquelas maneiras do
senhor pároco, "que até tocavam o coração" ! Às vezes Amélia pousava a
costura e tomava o gato no colo; Amaro chegava-se, corria a mão pela
espinha do maltês que se arredondava, fazendo um ronrom de gozo.
- Gostas? dizia ela ao gato, um pouco corada, com os olhos
muito ternos.
E a voz de Amaro murmurava, perturbada:
- Bichaninho gato! bichaninho gato!
Depois a S. Joaneira erguia-se para dar o remédio à idiota ou ir palrar
à cozinha. Eles ficavam sós; não falavam, mas os seus olhos tinham um
longo diálogo mudo, que os ia penetrando da mesma languidez dormente.
Então Amélia cantarolava baixo o Adeus ou o Descrente: Amaro acendia o
seu cigarro, e escutava, bamboleando a perna.
- É tão bonito isso! dizia.
Amélia cantava mais acentuadamente, cosendo depressa; e a
espaços, erguendo o busto, mirava o alinhavado ou o pesponto, passandolhe
por cima, para o assentar, a sua unha polida e larga.
Amaro achava aquelas unhas admiráveis, porque tudo que era ela ou
vinha dela lhe parecia perfeito: gostava da cor dos seus vestidos, do
seu andar, do modo de passar os dedos pelos cabelos, e olhava até com
ternura para as saias brancas que ela punha a secar à janela do seu
quarto, enfiadas numa cana. Nunca estivera assim na intimidade duma
mulher. Quando percebia a porta do quarto dela entreaberta, ia resvalar
para dentro olhares gulosos, como para perspectivas dum paraíso: um
saiote pendurado, uma meia estendida, uma liga que ficara sobre o baú,
eram como revelações da sua nudez, que lhe faziam cerrar os dentes, todo
pálido. E não se saciava de a ver falar, rir, andar com as saias muito
engomadas que batiam as ombreiras das portas estreitas. Ao pé dela, muito
fraco, muito langoroso, não lhe lembrava que era padre; o Sacerdócio,
Deus, a Sé, o Pecado ficavam embaixo, longe, via-os muito esbatidos do
alto do seu enlevo, como de um monte se vêem as casas desaparecer no
nevoeiro dos vales; e só pensava então na doçura infinita de lhe dar um
beijo na brancura do pescoço, ou mordicar-lhe a orelhinha.
Às vezes revoltava-se contra estes desfalecimentos, batia o pé:
- Que diabo, é necessário ter juízo! É necessário ser homem!
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Descia, ia folhear o seu Breviário; mas a voz de Amélia falava
em cima, o tique-tique das suas botinas batia o soalho... Adeus! a
devoção caia como uma vela a que falta o vento; as boas resoluções
fugiam, e lá voltavam as tentações em bando a apoderar-se do seu cérebro,
frementes, arrulhando, roçando-se umas pelas outras como um bando de
pombas que recolhem ao pombal. Ficava todo subjugado, sofria. E
lamentava então a sua liberdade perdida: como desejaria não a ver, estar
longe de Leiria, numa aldeia solitária, entre gente pacifica, com uma criada
velha cheia de provérbios e de economia, e passear pela sua horta quando
as alfaces verdejam e os galos cacarejam ao sol! Mas Amélia, de cima,
chamava-o - e o encanto recomeçava, mais penetrante.
A hora do jantar, sobretudo, era a sua hora perigosa e feliz, a
melhor do dia. A S. Joaneira trinchava, enquanto Amaro conversava
cuspindo os caroços das azeitonas na palma da mão e enfileirando-os sobre
a toalha. A Ruça, cada dia mais ética, servia mal, sempre a tossir; Amélia
às vezes erguia-se para ir buscar uma faca, um prato ao aparador. Amaro
queria levantar-se logo, atencioso.
- Deixe-se estar, deixe-se estar, senhor pároco! dizia ela. E punhalhe
a mão no ombro, e os seus olhos encontravam-se.
Amaro, com as pernas estendidas e o guardanapo sobre o
estômago, sentia-se regalado, gozava muito no bom calor da sala; depois do
segundo copo da Bairrada tornava-se expansivo, tinha gracinhas; às vezes
mesmo, com um brilho terno no olho, tocava fugitivamente o pé de Amélia
debaixo da mesa; ou, fazendo um ar sentido, dizia "que muito lhe pesava
não ter uma irmãzinha assim" !
Amélia gostava de ensopar o miolo do pão no molho do guisado:
a mãe dizia-lhe sempre:
- Embirro que faças isso diante do senhor pároco.
E ele então rindo:
- Pois olhe, também eu gosto. Simpatia! magnetismo!
E molhavam ambos o pão, e sem razão davam grandes risadas.
Mas o crepúsculo crescia, a Ruça trazia o candeeiro. O brilho dos copos e
das louças alegrava Amaro, enternecia-o mais; chamava à S. Joaneira
mamã; Amélia sorria, de olhos baixos, trincando com a ponta dos dentes
cascas de tangerina. Daí a pouco vinha o café; e o padre Amaro ficava
muito tempo partindo nozes com as costas da faca, e quebrando a cinza do
cigarro na borda do pires.
Àquela hora aparecia sempre o cônego Dias; sentiam-no subir
pesadamente, dizendo da escada:
- Licença para dois!
Era ele e a cadela, a Trigueira.
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- Ora Nosso Senhor vos dê muito boas-noites! dizia assomando
à porta.
- Vai a gotinha de café, senhor cônego? perguntava logo a S.
Joaneira.
Ele sentava-se, exalando um profundo uff! Vá lá a gotinha do café! E
batendo no ombro do pároco, olhando para a S. Joaneira:
- Então, como vai cá o seu menino?
Riam; vinham as histórias do dia. O cônego costumava trazer
no bolso o Diário Popular; Amélia interessava-se pelo romance, a S.
Joaneira pelas correspondências amorosas nos anúncios.
- Ora vejam que pouca-vergonha!... dizia ela, deliciando-se.
Amaro então falava de Lisboa, de escândalos que lhe contara a
tia: dos fidalgos que conhecera "em casa do Sr, conde de Ribamar".
Amélia, enlevada, escutava-o com os cotovelos sobre a mesa, roendo
vagarosamente a ponta do palito.
Depois do jantar iam visitar a entrevada. A lamparina esmorecia
à cabeceira da cama: e a pobre velha, com uma medonha touca de
rendas negras que tornava mais lívida a sua carinha engelhada como uma
maçã reineta, fazendo debaixo da roupa uma saliência quase imperceptível,
fixava em todos, com susto, os seus olhinhos côncavos e chorosos.
- É o senhor pároco, tia Gertrudes! gritava-lhe Amélia ao
ouvido. Vem ver como está.
A velha fazia um esforço, e com uma voz gemida:
- Ah! é o menino!
- É o menino, é, diziam rindo.
E a velha ficava a murmurar, espantada:
- É o menino, é o menino!
- Pobre de Cristo! dizia Amaro. Pobre de Cristo! Deus lhe dê
uma boa morte!
E voltavam para a sala de jantar onde o cônego Dias, todo
enterrado na velha poltrona de chita verde, com as mãos cruzadas sobre o
ventre, dizia logo:
- Ora vá um bocadinho de música, pequena!
Amélia ia sentar-se ao piano.
- Ó filha, toca o Adeus! recomendava a S. Joaneira começando a sua
meia.
E Amélia, ferindo o teclado:
Ai! adeus! acabaram-se os dias
Que ditoso vivi a teu lado...
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A sua voz arrastava-se com melancolia; e Amaro soprando o
fumo do cigarro, sentia-se todo enleado num sentimentalismo agradável.
Quando descia para o seu quarto, à noite, ia sempre exaltado. Punhase
então a ler os Cânticos a Jesus, tradução do francês publicada pela
sociedade das Escravas de Jesus. É uma obrazinha beata, escrita com um
lirismo equívoco, quase torpe - que dá à oração a linguagem da luxúria:
Jesus é invocado, reclamado com as sofreguidões balbuciantes de uma
concupiscência alucinada: "Oh! vem, amado do meu coração, corpo
adorável, minha alma impaciente quer-te! Amo-te com paixão e desespero!
Abrasa-me! queima-me! Vem! esmaga-me! possui-me! " E um amor
divino, ora grotesco pela intenção, ora obsceno pela materialidade, geme,
ruge, declama assim em cem páginas inflamadas onde as palavras gozo,
delícia, delírio, êxtase, voltam a cada momento, com uma persistência
histérica. E depois de monólogos frenéticos de onde se exala um bafo de
cio místico, vêm então imbecilidades de sacristia, notazinhas beatas
resolvendo casos difíceis de jejuns, e orações para as dores do parto! Um
bispo aprovou aquele livrinho bem impresso; as educandas lêem-no no
convento. É beato e excitante; tem as eloqüências do erotismo, todas as
pieguices da devoção; encaderna-se em marroquim e dá-se às confessadas;
é a cantárida canônica!
Amaro lia até tarde, um pouco perturbado por aqueles períodos
sonoros, túmidos de desejo; e no silêncio, por vezes, sentia em cima ranger
o leito de Amélia; o livro escorregava-lhe das mãos, encostava a cabeça
às costas da poltrona, cerrava os olhos, e parecia-lhe vê-la em colete
diante do toucador desfazendo as tranças; ou, curvada, desapertando as
ligas, e o decote da sua camisa entreaberta descobria os dois seios muito
brancos.
Erguia-se, cerrando os dentes, com uma decisão brutal de a possuir.
Começara então a recomendar-lhe a leitura dos Cânticos a Jesus.
- Verá, é muito bonito, de muita devoção! disse ele, deixando-lhe o
livrinho uma noite no cesto da costura.
Ao outro dia, ao almoço, Amélia estava pálida, com as olheiras até o
meio da face. Queixou-se de insônia, de palpitações.
- E então, gostou dos Cânticos?
- Muito. Orações lindas! respondeu.
Durante todo esse dia não ergueu os olhos para Amaro. Parecia
triste - e sem razão, às vezes, o rosto abrasava-se-lhe de sangue.
···
Os piores momentos para Amaro eram as segundas e quartasfeiras,
quando João Eduardo vinha passar as noites em família. Até às nove
66
horas o pároco não saía do quarto; e quando subia para o chá desesperavase
de ver o escrevente embrulhado no seu xale-manta, sentado junto de
Amélia.
- Ai o que estes dois têm para aí palrado, senhor pároco! dizia a
S. Joaneira.
Amaro tinha um sorriso lívido, partindo devagar a sua torrada,
com os olhos fitos na chávena.
Amélia na presença de João Eduardo, agora, não tinha com o
pároco a mesma familiaridade alegre, mal levantava os olhos da costura; o
escrevente, calado, chupava o cigarro; e havia grandes silêncios em que se
sentia o vento uivar, encanado na rua.
- Olha quem andar agora nas águas no mar! dizia a S.
Joaneira, fazendo devagar a sua meia.
- Safa! acrescentava João Eduardo.
As suas palavras, os seus modos irritavam o padre Amaro; detestavao
pela sua pouca devoção, pelo seu bonito bigode preto. E diante
dele sentia-se mais enleado no seu acanhamento de padre.
- Toca alguma coisa, filha, dizia a S. Joaneira.
- Estou tão cansada! respondia Amélia apoiando-se nas costas
da cadeira, com um suspirozinho de fadiga.
A S. Joaneira, então, que não gostava de "ver gente mona", propunha
uma bisca de três; e o padre Amaro, tomando o seu candeeiro de
latão, descia para o quarto, muito infeliz.
Nessas noites quase detestava Amélia; achava-a casmurra. A
intimidade do escrevente na casa parecia-lhe escandalosa: decidiu mesmo
falar á S. Joaneira, dizer-lhe "que aquele namoro de portas adentro não
podia ser agradável a Deus". Depois, mais razoável, resolvia esquecê-la,
pensava em sair da casa, da paróquia. Representava-se então Amélia com a
sua coroa de flores de laranjeira, e João Eduardo, muito vermelho, de
casaca, voltando da Sé, casados... Via a cama de noivado com os seus
lençóis de renda... E todas as provas, as certezas do amor dela pelo "idiota
do escrevente" cravavam-se-lhe no peito como punhais...
- Pois que casem, e que os leve o diabo!...
Odiava-a então. Fechava violentamente a porta à chave como
para impedir que lhe penetrasse no quarto o rumor da sua voz ou o frufru
das suas saias. Mas daí a pouco, como todas as noites, escutava com o
coração aos saltos, imóvel e ansioso, os ruídos que ela fazia em cima ao
despir-se, palrando ainda com a mãe.
Um dia Amaro jantara em casa da Sra. D. Maria da Assunção;
fora depois passear pela estrada de Marrazes, e à volta, ao fim da tarde,
encontrou, ao entrar em casa, a porta da rua aberta; sobre o capacho, no
patamar, estavam os chinelos de ourelo da Ruça.
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- Tonta de rapariga! pensou Amaro, foi à fonte e esqueceu-se
de fechar a porta.
Lembrou-se que Amélia tinha ido passar a tarde com a Sra. D.
Joaquina Gansoso, numa fazenda ao pé da Piedade, e que a S. Joaneira
falara em ir à irmã do cônego. Fechou devagar a cancela, subiu à cozinha a
acender o seu candeeiro; como as ruas estavam molhadas da chuva da
manhã, trazia ainda galochas de borracha; os seus passos não faziam rumor
no soalho; ao passar diante da sala de jantar sentiu no quarto da S. Joaneira,
através do reposteiro de chita, uma tosse grossa; surpreendido, afastou
sutilmente um lado do reposteiro, e pela porta entreaberta espreitou. -
Oh Deus de Misericórdia! a S. Joaneira, em saia branca, atacava o colete;
e, sentado à beira da cama, em mangas de camisa, o cônego Dias
resfolegava grosso!
Amaro desceu, colado ao corrimão, fechou muito devagarinho
a porta, e foi ao acaso para os lados da Sé. O céu enevoara-se, leves
gotas de chuva caíam.
- E esta! E esta! dizia ele assombrado.
Nunca suspeitara um tal escândalo! A S. Joaneira, a pachorrenta
S. Joaneira! O cônego, seu mestre de Moral! E era um velho, sem os
ímpetos do sangue novo, já na paz que lhe deveriam ter dado a idade, a
nutrição, as dignidades eclesiásticas! Que faria então um homem novo e
forte, que sente uma vida abundante no fundo das suas veias reclamar e
arder!... Era, pois, verdade o que se cochichava no seminário, o que lhe
dizia o velho padre Sequeira, cinqüenta anos padre da Gralheira: - "Todos
são do mesmo barro!" Todos são do mesmo barro, - sobem em
dignidades, entram nos cabidos, regem os seminários, dirigem as
consciências envoltos em Deus como numa absolvição permanente, e têm
no entanto, numa viela, uma mulher pacata e gorda, em casa de quem vão
repousar das atitudes devotas e da austeridade do ofício, fumando cigarros
de estanco e palpando uns braços rechonchudos!
Vinham-lhe então outras reflexões: que gente era aquela, a S.
Joaneira e a filha, que viviam assim sustentadas pela lubricidade tardia
de um velho cônego? A S. Joaneira fora decerto bonita, bem-feita,
desejável - outrora! Por quantos braços teria passado até chegar, pelos
declives da idade, àqueles amores senis e mal pagos? As duas mulherinhas,
que diabo, não eram honestas! Recebiam hóspedes, viviam da
concubinagem. Amélia ia sozinha à igreja, às compras, à fazenda; e com
aqueles olhos tão negros, talvez já tivesse tido um amante! - Resumia,
filiava certas recordações: um dia que ela lhe estivera mostrando na janela
da cozinha um vaso de rainúnculos, tinham ficado sós, e ela, muito corada,
pusera-lhe a mão sobre o ombro e os seus olhos reluziam e pediam; outra
ocasião ela roçara-lhe o peito pelo braço! A noite caíra, com uma chuva
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fina. Amaro não a sentia, caminhando depressa, cheio de uma só idéia
deliciosa que o fazia tremer: ser o amante da rapariga, como o cônego era o
amante da mãe! Imaginava jà a boa vida escandalosa e regalada; enquanto
em cima a grossa S. Joaneira beijocasse o seu cônego cheio de dificuldades
asmáticas - Amélia desceria ao seu quarto, pé ante pé, apanhando as saias
brancas, com um xale sobre os ombros nus... Com que frenesi a esperaria!
E já não sentia por ela o mesmo amor sentimental, quase doloroso: agora a
idéia muito magana dos dois padres e as duas concubinas, de panelinha,
dava àquele homem amarrado pelos votos uma satisfação depravada! Ia aos
pulinhos pela rua. - Que pechincha de casa!
A chuva caía, grossa. Quando entrou havia já luz na sala de
jantar. Subiu.
- lh, como vem frio! disse-lhe Amélia sentindo, ao apertar-lhe a mão,
a umidade da névoa.
Sentada à mesa, costurava com um xale-manta pelos ombros:
João Eduardo, ao pé, jogava a bisca com a S. Joaneira.
Amaro sentou-se um pouco embaraçado; a presença do
escrevente dera-lhe de repente, sem saber por quê, o duro choque duma
realidade antipática: e todas as esperanças, que lhe tinham vindo a dançar
uma sarabanda na imaginação, encolhiam-se uma a uma, murchavam -
vendo ali Amélia ao pé do noivo, curvada sobre uma costura honesta, com
o seu escuro vestido afogado, junto do candeeiro de família!
E tudo em redor lhe parecia como mais recatado, as paredes com
o seu papel de ramagens verdes, o armário cheio de louça luzidia da
Vista Alegre, o simpático e bojudo pote de água, o velho piano mal firme
nos seus três pés torneados; o paliteiro tão querido de todos - um
Cupido rechonchudo com um guarda-chuva aberto eriçado de palitos, e
aquela tranqüila bisca jogada com os dichotes clássicos. Tudo tão decente!
Afirmava-se então nas grossas roscas do pescoço da S.
Joaneira, como para descobrir nelas as marcas das beijocas do cônego: ah!
tu, não há dúvida, és "uma barregã de clérigo". Mas Amélia! com aquelas
longas pestanas descidas, o beiço tão fresco!... Ignorava decerto as
libertinagens da mãe; ou, experiente, estava bem resolvida a estabelecer-se
solidamente na segurança dum amor legal! - E Amaro, da sombra,
examinava-a longamente como para se certificar, na placidez do seu rosto,
da virgindade do seu passado.
- Cansadinho, senhor pároco, hem? disse a S. Joaneira. E para João
Eduardo: - Trunfo, faz favor, seu cabeça no ar!
O escrevente, namorado, distraía-se.
- É o senhor a jogar, dizia-lhe a S. Joaneira a cada momento.
Depois ele esquecia-se de comprar cartas.
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- Ah menino, menino! dizia ela com a sua voz pachorrenta, que
lhe puxo essas orelhas!
Amélia ia cosendo com a cabeça baixa: tinha um pequeno
casabeque preto com botões de vidro, que lhe disfarçava a forma do seio.
E Amaro irritava-se daqueles olhos fixos na costura, daquele
casaco amplo escondendo a beleza que mais apetecia nela! E nada a
esperar. Nada dela lhe pertenceria, nem a luz daquelas pupilas, nem a
brancura daqueles peitos! Queria casar - e guardava tudo para o outro, o
idiota, que sorria baboso, jogando paus! Odiou-o então, dum ódio
complicado de inveja ao seu bigode negro e ao seu direito de amar...
- Está incomodado, senhor pároco? perguntou Amélia, vendoo
mexer-se bruscamente na cadeira.
- Não, disse ele secamente.
- Ah! fez ela, com um leve suspiro, picando rapidamente o pesponto.
O escrevente, baralhando as cartas, começara a falar de uma casa que
queria alugar; a conversa caiu sobre arranjos domésticos.
- Traz-me luz! gritou Amaro à Ruça.
Desceu para o seu quarto, desesperado. Pôs a vela sobre a cômoda; o
espelho estava defronte, e a sua imagem apareceu-lhe; sentiu-se feio,
ridículo com a sua cara rapada, a volta hirta como uma coleira, e por trás
a coroa hedionda. Comparou-se instintivamente com o outro que tinha um
bigode, o seu cabelo todo, a sua liberdade! Para que hei-de eu estar a ralarme?
pensou. O outro era um marido; podia dar-lhe o seu nome, uma
casa, a maternidade; ele só poderia dar-lhe sensações criminosas, depois os
terrores do pecado! Ela simpatizava talvez com ele, apesar de padre; mas
antes de tudo, acima de tudo, queria casar; nada mais natural! Via-se
pobre, bonita, só: cobiçava uma situação legitima e duradoura, o respeito
das vizinhas, a consideração dos lojistas, todos os proveitos da honra!
Odiou-a então, e o seu vestido afogado e a sua honestidade! A
estúpida, que não percebia que ao pé dela, sob uma negra batina, uma
paixão devota a espreitava, a seguia, tremia e morria de impaciência!
Desejou que ela fosse como a mãe, - ou pior, toda livre, com vestidos
garridos, uma cuia impudente, traçando a perna e fitando os homens, uma
fêmea fácil como uma porta aberta...
- Boa! Estou a desejar que a rapariga fosse uma desavergonhada! -
pensou, recaindo em si um pouco envergonhado. Está claro: não podemos
pensar em mulheres decentes, temos que reclamar prostitutas!
Bonito dogma!
Abafava. Abriu a janela. O céu estava tenebroso; a chuva cessara; o
piar das corujas na Misericórdia cortava só o silêncio.
Enterneceu-se, então, com aquela escuridão, aquela mudez de
vila adormecida. E sentiu subir outra vez, das profundidades do seu ser,
70
o amor que sentira ao princípio por ela, muito puro, dum
sentimentalismo devoto: via a sua linda cabeça, duma beleza transfigurada
e luminosa, destacar da negrura espessa do ar; e toda a sua alma foi para ela
num desfalecimento de adoração, como no culto a Maria e na Saudação
Angélica; pediu-lhe perdão ansiosamente de a ter ofendido; disse-lhe alto:
És uma santa, perdoa! - Foi um momento muito doce, de renunciamento
carnal...
E, espantado quase daquelas delicadezas de sensibilidade que
descobria subitamente em si, pôs-se a pensar com saudade - que se fosse
um homem livre seria um marido tão bom! Amorável, delicado,
dengueiro, sempre de joelhos, todo de adorações! Como amaria o seu filho,
muito pequerruchinho, a puxar-lhe as barbas! À idéia daquelas felicidades
inacessíveis, os olhos arrasaram-se-lhe de lágrimas. Amaldiçoou, num
desespero, "a pega da marquesa que o fizera padre", e o bispo que o
confirmara!
- Perderam-me! perderam-me! dizia, um pouco desvairado.
Sentiu então os passos de João Eduardo que descia, e o rumor
das saias de Amélia. Correu a espreitar pela fechadura, cravando os dentes
no beiço, de ciúme. A cancela bateu, Amélia subiu cantarolando baixo.
- Mas a sensação do amor místico que o penetrara um momento,
olhando a noite, passara; e deitou-se, com um desejo furioso dela e dos seus
beijos.
VII
Dias depois o padre Amaro e o cônego Dias tinham ido jantar com o
abade da Cortegassa. - Era um velho jovial, muito caridoso, que vivia há
trinta anos naquela freguesia e passava por ser o melhor cozinheiro
da diocese. Todo o clero das vizinhanças conhecia a sua famosa cabidela
de caça. O abade fazia anos, havia outros convidados - o padre Natário e
o padre Brito: o padre Natário era uma criaturinha biliosa, seca, com
dois olhos encovados, muito malignos, a pele picada das bexigas e
extremamente irritável. Chamavam-lhe o Furão. Era esperto e
questionador; tinha fama de ser grande latinista, e ter uma lógica de ferro; e
dizia-se dele: é uma língua de víbora! Vivia com duas sobrinhas órfãs,
declarava-se extremoso por elas, gabava-lhes sempre a virtude, e
costumava chamar-lhes as duas rosas do seu canteiro. O padre Brito era o
padre mais estúpido e mais forte da diocese; tinha o aspecto, os modos, a
forte vida de um robusto beirão que maneja bem o cajado, emborca um
almude de vinho, pega alegremente à rabiça do arado, serve de trolha nos
71
arranjos de um alpendre, e nas sestas quentes de Junho atira brutalmente as
raparigas para cima das medas de milho. O senhor chantre, sempre correto
nas suas comparações mitológicas, chamava-lhe - o leão de Nemeia.
A sua cabeça era enorme, de cabelo lanígero que lhe descia até as .
sobrancelhas: a pele curtida tinha um tom azulado, do esforço da
navalha de barba; e, nas suas risadas bestiais, mostrava dentinhos muito
miúdos e muito brancos do uso da broa.
Quando iam sentar-se à mesa chegou o Libaninho todo
azafamado, gingando muito, com a calva suada, exclamando logo em tons
agudos:
- Ai, filhos! desculpem-me, demorei-me mais um bocadinho. Passei
pela igreja de Nossa Senhora da Ermida, estava o padre Nunes a dizer uma
missa de intenção. Ai, filhos! papei-a logo, venho mesmo consoladinho!
A Gertrudes, a velha e possante ama do abade, entrou então com
a vasta terrina do caldo de galinha: e o Libaninho, saltitando em redor
dela, começou os seus gracejos:
- Ai, Gertrudinhas, quem tu fazias feliz, bem eu sei!
A velha aldeã ria, com o seu espesso riso bondoso, que lhe sacudia a
massa do seio.
- Olha que arranjo me aparece agora pela tarde!...
- Ai, filha! as mulheres querem-se como as pêras, maduras e de sete
cotovelos. Então é que é chupá-las!
Os padres gargalharam; e, alegremente, acomodaram-se à mesa.
O jantar fora todo cozinhado pelo abade: logo à sopa as exclamações
começaram:
- Sim, senhor, famoso! Disto nem no Céu! Bela coisa!
O excelente abade estava escarlate de satisfação. Era, como dizia
o senhor chantre, "um divino artista" ! Lera todos os Cozinheiros
completos, sabia inúmeras receitas; era inventivo - e, como ele afirmava
dando marteladinhas no crânio, "tinha-lhe saído muito petisco daquela
cachimônia" ! Vivia tão absorvido pela sua "arte" que lhe acontecia, nos
sermões de domingo, dar aos fiéis ajoelhados para receberem a palavra de
Deus, conselhos sobre o bacalhau guisado ou sobre os condimentos do
sarrabulho. E ali vivia feliz, com a sua velha Gertrudes, de muito bom
paladar também, com o seu quintal de ricos legumes, sentindo uma só
ambição na vida - ter um dia a jantar o bispo!
- Oh senhor pároco! dizia ele a Amaro, por quem é! mais um
bocadinho de cabidela, faça favor! Essas codeazinhas de pão ensopadas
no molho! Isso! isso! Que tal, hem? - E com um aspecto modesto: - Não é
lá por dizer, mas a cabidela hoje saiu-me boa!
Estava com efeito, como disse o cônego Dias, de tentar Santo
Antão no deserto! Todos tinham tirado as capas, e, só com as batinas, as
72
voltas alargadas, comiam devagar, falando pouco. Como no dia seguinte
era a festa da Senhora da Alegria, os sinos na capela, ao lado, repicavam; e
o bom sol do meio-dia dava tons muito alegres à louça, às bojudas
canecas azuis com vinho da Bairrada, aos pires de pimentões escarlates, às
frescas malgas de azeitonas pretas - enquanto o bom abade, de olho
arregalado, mordendo o beiço, ia cortando com cuidado nacos brancos do
peito do capão recheado.
As janelas abriam para o quintal. Viam-se dois largos pés de
camélias vermelhas crescendo junto ao peitoril, e para além das copas das
macieiras um pedaço muito vivo de céu azul-ferrete. Uma nora chiava ao
longe, lavadeiras batiam a roupa.
Sobre a cômoda, entre in-folios, na sua peanha, um Cristo
perfilava tristemente contra a parede o seu corpo amarelo, coberto de
chagas escarlates: e, aos lados, simpáticos santos sob redomas de vidro,
lembravam legendas mais doces de religião amável: o bom gigante S.
Cristóvão atravessando o rio com o divino pequerrucho que sorri, e faz
saltar o mundo sobre a sua mãozinha como uma péla; o doce pastor S.
Joãozinho coberto com uma pele de ovelha, e guardando os seus rebanhos,
não com um cajado, mas com uma cruz; o bom porteiro S. Pedro, tendo na
sua mão de barro as duas santas chaves que servem nas fechaduras do Céu!
Nas paredes, em litografias de coloridos cruéis, o patriarca S. José apoiavase
ao seu cajado onde florescem lírios brancos; o cavalo empinado do
bravo S. Jorge pisava o ventre dum dragão surpreendido; e o bom Santo
Antônio, à beira dum regato, sorria, falando a um tubarão. O tlintlim dos
copos, o ruído das facas animava a velha sala, de teto de carvalho
defumado, duma alegria desusada. E Libaninho devorava, dizendo
pilhérias.
- Gertrudinhas, flor do caniço, passa-me as bages. Não me
olhes assim, magana, que me fazes revolver os intestinos!
- O diabo é o homem! dizia a velha. Olha para o que lhe
deu! Falasse-me aqui há trinta anos, seu perdido!
- Ai, filha! exclamava revirando os olhos, nem me digas isso
que sinto coisas pela espinha acima!
Os padres engasgavam-se de riso. Já duas canecas de vinho
estavam vazias: e o padre Brito desabotoara a batina, deixando ver a sua
grossa camisola de lã da Covilhã, onde a marca da fábrica, feita de linha
azul, era uma cruz sobre o coração.
Um pobre então viera à porta rosnar lamentosamente Padre-
Nossos; e enquanto Gertrudes lhe metia no alforje metade duma broa, os
padres falaram dos bandos de mendigos que agora percorriam as
freguesias.
73
- Muita pobreza por aqui, muita pobreza! dizia o bom abade. Ó Dias,
mais este bocadinho da asa!
- Muita pobreza, mas muita preguiça, considerou duramente o padre
Natário. - Em muitas fazendas sabia ele que havia falta de jornaleiros, e
viam-se marmanjos, rijos como pinheiros, a choramingar Padre-Nossos
pelas portas. - Súcia de mariolas, resumiu.
- Deixe lá, padre Natário, deixe lá! disse o abade. Olhe que
há pobreza deveras. Por aqui há famílias, homem, mulher e cinco filhos,
que dormem no chão como porcos e não comem senão ervas.
- Então que diabo querias tu que eles comessem? exclamou o
cônego Dias lambendo os dedos depois de ter esburgado a asa do capão.
Querias que comessem peru? Cada um como quem é!
O bom abade puxou, repoltreando-se, o guardanapo para o estômago,
e disse com afeto:
- A pobreza agrada a Deus Nosso Senhor.
- Ai filhos! acudiu o Libaninho num tom choroso, se houvesse
só pobrezinhos isto era o reininho dos Céus!
O padre Amaro considerou com gravidade:
- É bom que haja quem tenha cabedais para legados pios, edificações
de capelas...
- A propriedade devia estar na mão da Igreja, interrompeu
Natário com autoridade.
O cônego Dias arrotou com estrondo e acrescentou:
- Para o esplendor do culto e propagação da fé.
- Mas a grande causa da miséria, dizia Natário com uma voz pedante,
era a grande imoralidade.
- Ah! lá isso não falemos! exclamou o abade com desgosto.
Neste momento há só aqui na freguesia mais de doze raparigas solteiras
grávidas! Pois senhores, se as chamo, se as repreendo, põem-se a fungar de
riso!
- Lá nos meus sítios, disse o padre Brito, quando foi pela apanha da
azeitona, como há falta de braços, vieram as maltas trabalhar. Pois agora o
verás! Que desaforo! - Contou a história das maltas, trabalhadores errantes,
homens e mulheres, que andam oferecendo os braços pelas fazendas, vivem
na promiscuidade e morrem na miséria. - Era necessário andar sempre de
cajado em cima deles!
- Ai! disse o Libaninho para os lados apertando as mãos na
cabeça. Ai, o pecado que vai pelo mundo! Até se me estão a eriçar os
cabelos!
Mas a freguesia de Santa Catarina era a pior! As mulheres
casadas tinham perdido todo o escrúpulo.
74
- Piores que cabras, dizia o padre Natário alargando a fivela
do colete.
E o padre Brito falou dum caso na freguesia de Amor: raparigas
de dezesseis e dezoito anos que costumavam reunir-se num palheiro -
o palheiro do Silvério - e passavam lá a noite com um bando de
marmanjos!
Então o padre Natário, que já tinha os olhos luzidios, a língua
solta, disse repoltreando-se na cadeira e espaçando as palavras:
- Eu não sei o que se passa lá na tua freguesia, Brito; mas se
há alguma coisa, o exemplo vem de alto... A mim têm-me dito que tu e
a mulher do regedor...
- É mentira! exclamou o Brito, fazendo-se todo escarlate.
- Oh, Brito! oh, Brito! disseram em redor, repreendendo-o
com bondade.
- É mentira! berrou ele.
- E aqui para nós, meus ricos, disse o cônego Dias baixando a voz,
com o olhinho aceso numa malícia confidencial, sempre lhes digo que
é uma mulher de mão-cheia!
- É mentira! clamou o Brito. E falando de um jato: - Quem anda a
espalhar isso é o morgado da Cumiada, porque o regedor não votou
com ele na eleição... Mas tão certo como eu estar aqui, quebro-lhe os
ossos! - Tinha os olhos injetados, brandia o punho: - Quebro-lhe os ossos!
- O caso não é para tanto, homem, considerou Natário.
- Quebro-lhe os ossos! Não lhe deixo um inteiro!
- Ai, sossega, leãozinho! disse o Libaninho com ternura. Não
te percas, filhinho!
Mas recordando a influência do morgado da Cumiada, que era
então oposição e que levava duzentos votos à uma, os padres falaram de
eleições e dos seus episódios. Todos ali, a não ser o padre Amaro, sabiam,
como disse Natário, "cozinhar um deputadozinho". Vieram anedotas; cada
um celebrou as suas façanhas.
O padre Natário na última eleição tinha arranjado oitenta votos!
- Cáspite! disseram.
- Imaginem vocês como? Com um milagre!
- Com um milagre? repetiram espantados.
- Sim, senhores.
Tinha-se entendido com um missionário, e na véspera da eleição
receberam-se na freguesia cartas vindas do Céu e assinadas pela Virgem
Maria, pedindo, com promessas de salvação e ameaças do Inferno, votos
para o candidato do governo. De chupeta, hem?
- De mão-cheia! disseram todos.
Só Amaro parecia surpreendido.
75
- Homem! disse o abade com ingenuidade, disso é que eu cá
precisava. Eu então tenho de andar aí a estafar-me de porta em porta. - E
sorrindo bondosamente: - Com o que se faz ainda alguma coisita é com
o relaxe da côngrua!
- E com a confissão, disse o padre Natário. A coisa então vai
pelas mulheres, mas vai segura! Da confissão tira-se grande partido.
O padre Amaro, que estivera calado, disse gravemente:
- Mas enfim a confissão é um ato muito sério, e servir, assim
para eleições...
O padre Natário, que tinha duas rosetas escarlates na face e
gestos excitados, soltou uma palavra imprudente:
- Pois o senhor toma a confissão a sério?
Houve uma grande surpresa.
- Se tomo a confissão a sério? gritou o padre Amaro recuando
a cadeira, com os olhos arregalados.
- Ora essa! exclamaram. Oh, Natário! Oh, menino!
O padre Natário exaltado queria explicar, atenuar:
- Escutem, criaturas de Deus! Eu não quero dizer que a
confissão seja uma brincadeira! Irra! Eu não sou pedreiro-livre! O que eu
quero dizer é que um meio de persuasão, de saber o que se passa, de dirigir
o rebanho para aqui ou para ali... E quando é para o serviço de Deus, é
uma arma. Aí está o que é - a absolvição é uma arma!
- Uma arma! exclamaram.
O abade protestava, dizendo:
- Oh, Natário! oh, filho! isso não!
O Libaninho tinha-se benzido; e, dizia, "tinha já um tal terror que até
lhe tremiam as pernas" !
Natário irritou-se:
- Então talvez me queiram dizer, gritou, que qualquer de nós,
pelo fato de ser padre, porque o bispo lhe impôs três vezes as mãos e
porque lhe disse o accipe, tem missão direta de Deus, - é Deus mesmo para
absolver? !
- Decerto! exclamaram, decerto!
E o cônego Dias disse meneando uma garfada de bages:
- Quorum remiseris peccata, remittuntur eis. É a fórmula. A fórmula
é tudo, menino...
- A confissão é a essência mesma do sacerdócio, soltou o
padre Amaro com gestos escolares, fulminando Natário. Leia Santo Inácio!
Leia S. Tomás!
- Anda-me com ele! gritava o Libaninho pulando na
cadeira, apoiando Amaro. - Anda-me com ele, amigo pároco! Salta-me no
cachaço do ímpio!
76
- Oh, senhores! berrou Natário furioso com a contradição, o que eu
quero é que me respondam a isto. E voltando-se para Amaro: - O senhor,
por exemplo, que acaba de almoçar, que comeu o seu pão torrado, tomou o
seu café, fumou o seu cigarro, e que depois se vai sentar no confessionário,
às vezes preocupado com negócios de família ou com faltas de dinheiro, ou
com dores de cabeça, ou com dores de barriga, imagina o senhor que está
ali como um Deus para absolver?
O argumento surpreendeu.
O cônego Dias, pousando o talher, ergueu os braços, e com uma
solenidade cômica exclamou:
- Hereticus est! É herege!
- Hereticus est! também eu digo, rosnou o padre Amaro.
Mas a Gertrudes entrava com a larga travessa do arroz-doce.
- Não falemos nessas coisas, não falemos nessas coisas, disse
logo prudentemente o abade. Vamos ao arrozinho. Gertrudes, dá cá a
garrafinha do Porto!
Natário, debruçado sobre a mesa, ainda arremessava argumentos
a Amaro:
- Absolver é exercer a graça. A graça só é atributo de Deus:
em nenhum autor encontro que a graça seja transmissível. Logo...
- Ponho duas objeções... gritou Amaro, com o dedo em riste,
em atitude de polêmica.
- Oh filhos! oh filhos, acudiu o bom abade aflito. Deixem a sabatina,
que até nem lhes sabe o arrozinho!
Serviu o vinho do Porto, para os acalmar, enchendo os copos
devagar, com as precauções clássicas:
- Mil oitocentos e quinze! dizia. Disto não se bebe todos os dias.
Para o saborear, depois de o fazer reluzir à luz na transparência
dos copos, repoltreavam-se nas velhas cadeiras de couro; começaram as
saúdes! A primeira foi ao abade, que murmurava: - Muita honra... muita
honra... Tinha os olhos chorosos de satisfação.
- A Sua Santidade Pio IX! gritou então o Libaninho brandindo
o cálice. Ao mártir!
Todos beberam comovidos. Libaninho entoou em voz de falsete
o hino de Pio IX: o abade, prudente, fê-lo calar por causa do hortelão
que no quintal aparava o buxo.
A sobremesa foi longa, muito saboreada. Natário tornara-se
terno, falava das suas sobrinhas, "as suas duas rosas", e citava Virgílio,
molhando as castanhas em vinho. Amaro, todo deitado para trás na cadeira,
as mãos nos bolsos, olhava maquinalmente as árvores do jardim, pensando
vagamente em Amélia, nas suas formas; suspirou mesmo com um desejo
77
dela - enquanto o padre Brito, rubro, queria convencer os republicanos a
marmeleiro.
- Viva o marmeleiro do padre Brito! gritou entusiasmado o
Libaninho.
Mas Natário começara a discutir com o cônego história
eclesiástica: e, muito questionador, voltou aos seus argumentos vagos sobre
a doutrina da Graça: afirmava que um assassino, um parricida poderia ser
canonizado - se se tivesse revelado o estado de Graça! Divagava, com
frases de escola em que se lhe pegava a língua. Citou santos que tinham
sido escandalosos; outros que pela sua profissão deviam ter conhecido,
praticado, amado o vício. Exclamou com as mãos na cinta:
- Santo Inácio foi militar!
- Militar? gritou o Libaninho. - E erguendo-se, correndo a Natário,
lançando-lhe um braço ao pescoço com uma ternura pueril e avinhada: -
Militar? E que era ele? Que era ele, o meu devoto Santo Inácio?
Natário repeliu-o:
- Deixe-me, homem! Era sargento de caçadores.
Houve uma enorme risada.
O Libaninho ficara extático.
- Sargento de caçadores! dizia erguendo as mãos num ímpeto
beato. Meu rico Santo Inácio! Bendito e louvado seja ele por toda a
eternidade!
E então o abade propôs que fossem tomar café para debaixo da
parreira.
Eram três horas. Ao erguer-se todos cambaleavam um pouco,
arrotando formidavelmente, com risadas espessas; só Amaro tinha a
cabeça lúcida, as pernas firmes - e sentia-se muito terno.
- Pois agora, colegas, disse o abade sorvendo o último gole de café, o
que está a calhar é um passeio à fazenda.
- Para esmoer, rosnou o cônego erguendo-se com dificuldade. vamos
lá à fazenda do abade!
Foram pelo atalho da Barroca, um caminho estreito de carros. O
dia estava muito azul, dum sol tépido. A vereda seguia entre valados
eriçados de silvas, para além as terras lisas estendiam-se cobertas de
restolho; a espaços as oliveiras destacavam, com grande nitidez, na sua
folhagem fina; para o horizonte arredondavam-se colinas cobertas da rama
verde-negra dos pinheiros; havia um grande silêncio; só às vezes, ao longe,
num caminho, um carro chiava. E naquela serenidade da paisagem e da luz,
os padres iam caminhando devagar, tropeçando um pouco, de olho
aceso, estômago enfartado, chacoteando e achando a vida boa.
78
O cônego Dias e o abade, de braço dado, caturravam. O Brito,
ao lado de Amaro, jurava que havia de beber o sangue ao morgado da
Cumeada.
- Prudência, colega Brito, prudência, dizia Amaro chupando
o cigarro.
E o Brito, com passadas de carretão, rosnava.
- Hei-de comer-lhe os fígados.
O Libaninho atrás, só, cantarolava em falsete:
- Passarinho trigueiro,
Salta cá fora...
Adiante de todos ia o padre Natário: levava a capa no braço,
arrastando pelo chão; a batinha desabotoada por trás deixava ver o
forro imundo do colete; e as suas pernas escanifradas, com as meias pretas
de lã cheias de passagens, faziam bordos que o atiravam contra o silvado.
E no entanto Brito, com grandes bafos de vinho, roncava:
- Eu só me contentava em agarrar num cajado e correr tudo! tudo! - e
gesticulava com um gesto imenso que abrangia o mundo!
- Tem as asas quebradas,
Não pode agora...
Gania atrás o Libaninho.
Mas pararam de repente: Natário adiante gritava com voz furiosa:
- Seu burro, você não vê? Sua besta!
Era à volta do atalho. Tropeçara com um velho que conduzia
uma ovelha; ia caindo; e ameaçava-o com o punho fechado numa raiva
avinhada.
- Queira vossa senhoria perdoar, dizia humildemente o homem.
- Sua besta! berrava Natário com os olhos chamejantes. Que o racho!
O homem balbuciava, tinha tirado o chapéu; viam-se os seus
cabelos brancos; parecia ser um antigo criado da lavoura envelhecido no
trabalho; era talvez avô - e curvado, vermelho de vergonha, encolhia-se
com as sebes para deixar passar no estreito caminho de carros os senhores
padres joviais e excitados da vinhaça!
Amaro não os quis acompanhar até à fazenda. Ao fim da aldeia, no
cruzeiro, tomou pelo caminho de Sobros, voltou para Leiria.
- Olhe que é uma légua à cidade, dizia o abade. Eu mando-lhe
aparelhar a égua, colega.
- Qual história, abade, a perninha é rija! - e, traçando alegremente a
capa, partiu cantarolando o Adeus...
79
Ao pé da Cortegassa o atalho de Sobros alarga-se, ao comprido
dum muro de quinta coberto de musgos e eriçada no alto de luzidios fundos
de garrafas. Quando Amaro chegou próximo ao portão de carros, baixo e
pintado de vermelho, encontrou no meio do caminho, parada, uma
grande vaca malhada; Amaro divertido espicaçou-a com o guarda-chuva; a
vaca trotou balouçando a papeira - e Amaro ao voltar-se viu Amélia, ao
portão, que saudava, dizendo toda risonha:
- Então está-me a espantar o gado, senhor pároco?
- É a menina! Que milagre é este?
Ela fez-se um pouco vermelha:
- Vim à quinta com a D. Maria da Assunção. Vim dar uma vista de
olhos à fazenda.
Ao pé de Amélia uma rapariga acamava couves numa canastra.
- Então esta é que é a quinta da D. Maria?
E Amaro deu um passo para dentro do portão.
Uma rua larga de velhos sobreiros, dando uma sombra doce,
estendia-se até à casa que se entrevia no fundo, branquejando ao sol.
- É. A nossa fazenda fica do outro lado, mas entra-se também
por aqui. Vá, Joana, avia-te!
A rapariga pôs a canastra à cabeça, deu as boas-tardes, meteu
pelo caminho de Sobros, batendo muito os quadris.
- Sim, senhor! sim, senhor! Parece uma boa propriedade, considerava
o pároco.
- Venha ver a nossa fazenda! disse Amélia. É uma migalhinha
de terra, mais para fazer uma idéia. Vai-se por aqui mesmo... Olhe,
vamos ter lá baixo com a D. Maria, quer?
- Valeu. Vamos lá à D. Maria, disse Amaro.
Foram subindo a rua dos sobreiros, calados. O chão estava cheio de
folhas secas, e, entre os troncos espaçados, moutas de hortênsias pendiam
abatidas, amareladas dos chuveiros; ao fundo a casa baixa, velha, de um
andar só, assentava pesadamente. Ao longo da parede grandes abóboras
amadureciam ao sol, e no telhado, todo negro do Inverno, esvoaçavam
pombos. Por trás o laranjal formava uma massa de folhagens verdeescuras;
uma nora chiava monotonamente.
Um rapazinho passou com um balde de lavagem.
- Para onde foi a senhora, João? perguntou Amélia.
- Foi pro olival, disse o rapaz com a sua vozinha arrastada. O olival
era longe, no fundo da quinta: havia ainda grandes lamas, não se podia ir lá
sem tamancos.
- Vai-se a gente sujar toda, disse Amélia. Deixar lá a D. Maria,
hem? Vamos nós ver a quinta... Por aqui, senhor pároco...
80
Estavam defronte dum velho muro onde cresciam clematites.
Amélia abriu uma porta verde; e por três degraus de pedra desconjuntados
desceram a uma rua toldada por uma larga parreira. Junto do muro
cresciam rosas de todo o ano; do outro lado, por entre os pilares de pedra
que sustentavam a latada e os pés torcidos das cepas, via-se, batido de luz,
com tons amarelados, um grande campo de erva; os tetos baixos do
curral coberto de colmo destacavam ao longe em escuro, e desse lado um
fumozinho leve e branco perdia-se no ar muito azul.
Amélia a cada momento parava, explicava a quinta. - Ali ia semearse
cevada; além havia de ver o cebolinho, estava muito bonito...
- Ah! a D. Maria da Assunção traz isto muito bem tratado!
Amaro ouvia-a falar, com a cabeça baixa, olhando-a de lado; a
sua voz naquele silêncio dos campos parecia-lhe mais rica, mais doce; o
grande ar dava-lhe uma cor mais picante às faces; o seu olhar rebrilhava.
Para saltar umas lamas tinha apanhado o vestido; e a brancura da meia, que
ele entreviu, perturbou-o como um começo da sua nudez.
Ao fundo da parreira atravessaram um campo ao comprido
dum regueiro. Amélia riu muito do pároco, que tinha medo dos sapos. Ele
então exagerou os seus sustos. Ó menina Amélia, haveria víboras? Ele
roçava-se por ela, afastando-se das ervas altas.
- Vê aquele valado? Pois para o lado de lá é a nossa fazenda. Entrase
pela cancela, vê? Mas veja lá se está cansado! Que o senhor pareceme
que não é grande caminhador... Ai, um sapo!
Amaro deu um pulinho, tocou-lhe o ombro. Ela empurrou-o
docemente, e com um riso cálido:
- Seu medroso! seu medroso!
Estava toda contente, toda viva. Falava na sua fazenda com
uma vaidadezinha, satisfeita de entender da lavoura, de ser proprietária. -
A cancela está fechada, parece - disse Amaro.
- Está, fez ela. - Apanhou as saias, deu uma carreirinha.
Estava fechada! Que pena! E abalava, impaciente, as grades estreitas, entre
as duas fortes ombreiras de madeira encravadas na espessura do silvado.
- Foi o caseiro que levou a chave!
Agachou-se, gritou para o lado do campo, arrastando muito tempo a
voz: - Antônio! Antônio!
Ninguém respondeu.
- Anda lá para o fundo da quinta! disse ela. Que seca! Se o
senhor pároco quisesse, aqui adiante pode-se passar. Há uma abertura no
valado, chamam-lhe o salto da cabra. Pode a gente saltar para o outro lado.
E caminhando rente ao silvado, chapinhando a lama, toda alegre:
- Quando eu era pequena nunca passava pela cancela! Saltava sempre
por ali. E cada trambolhão, quando o chão estava resvaladiço com a chuva!
81
Era um vivo demônio, aqui onde me vê! Ninguém há-de dizer, senhor
pároco, hem? Ai! vou-me a fazer velha! - E voltando-se para ele, com um
risinho onde luzia o esmalte dos dentes:
- Não é verdade? Estou-me a fazer velha, hem?
Ele sorria. Custava-lhe falar. O sol, batendo-lhe nas costas, depois do
vinho do abade, amolecia-o: e a figura dela, os seus ombros, os
seus encontros davam-lhe um desejo contínuo e intenso.
- Aqui está o salto da cabra, disse Amélia parando.
Era uma abertura estreita no valado: a terra do outro lado,
mais baixa, estava toda lamacenta. Via-se dali a fazenda da S. Joaneira: o
campo plano estendia-se até um olival, com a erva fina muito estrelada de
pequenos malmequeres brancos; uma vaca preta, de grandes malhas,
pastava; e para além viam-se tetos aguçados dos casais, onde voavam
revoadas de pardais.
- E agora? perguntou Amaro.
- Agora saltar, disse ela rindo.
- Cá vai! exclamou ele.
Traçou a capa, saltou: mas escorregou nas ervas úmidas, - e
imediatamente Amélia, debruçando-se, rindo muito, com grandes acenos de
mãos:
- E agora adeus, senhor pároco, que eu vou ter com a D. Maria. Aí
fica preso na fazenda. Para cima não pode o senhor pular, pela cancela não
pode o senhor passar! É o senhor pároco que está preso...
- Ó menina Amélia! ó menina Amélia!
Ela cantarolava-lhe, escarnecendo:
Fico sozinha à varanda,
Que o meu bem está na prisão!
Aquelas maneirinhas excitavam o padre - e com os braços
erguidos, a voz cálida:
- Salte, salte!
Ela então fez voz de mimo:
- Ai, tenho medinho! tenho medinho...
- Salte, menina!
- Lá vai! gritou ela bruscamente.
Saltou, foi cair-lhe sobre o peito com um gritinho. Amaro
resvalou, firmou-se - e sentindo entre os braços o corpo dela, apertou-a
brutalmente e beijou-a com furor no pescoço
Amélia desprendeu-se, ficou diante dele, sufocada, com a face
em brasa, compondo na cabeça e em roda do pescoço, com as mãos
trêmulas, as pregas da manta de lã. Amaro disse-lhe:
82
- Ameliazinha!
Mas ela de repente apanhou os vestidos, correu ao comprido
do valado. Amaro, com grandes passadas, seguiu-a atarantado. Quando
chegou à cancela, Amélia falava ao caseiro, que aparecia com a chave.
Atravessaram o campo junto ao regueiro, depois a rua coberta com a
parreira. Amélia adiante palrava com o caseiro; e atrás Amaro, de
cabeça baixa, seguia muito murcho. Ao pé da casa Amélia parou, fazendose
vermelha, compondo sempre a manta em redor do pescoço:
- Ó Antônio, disse, ensine o portão ao senhor pároco. Muito
boas tardes, senhor pároco.
E através das terras úmidas correu para o fundo da quinta, para
os lados do olival.
A Sra. D. Maria da Assunção ainda lá estava, sentada numa
pedra, tagarelando com o tio Patrício; um bando de mulheres, com grandes
varas, batiam em redor a ramagem das oliveiras.
- Que é isso, tonta? De onde vens tu a correr, rapariga? Credo! que
doida!
- Vim a correr, disse ela toda vermelha, sufocada.
Sentou-se ao pé da velha; e ficou imóvel, com as mãos caídas
no regaço, respirando fortemente, os beiços entreabertos, os olhos fixos
numa abstração. Todo o seu ser se abismava numa só sensação:
- Gosta de mim! Gosta de mim!
···
Estava há muito namorada do padre Amaro - e às vezes, só, no
seu quarto, desesperava-se por imaginar que ele não percebia nos seus
olhos a confissão do seu amor! Desde os primeiros dias, apenas o ouvia
pela manhã pedir de baixo o almoço, sentia uma alegria penetrar todo o seu
ser sem razão, punha-se a cantarolar com uma volubilidade de pássaro.
Depois via-o um pouco triste. Por quê? Não conhecia o seu passado; e
lembrada do frade de Évora, pensou que ele se fizera padre por um
desgosto de amor. Idealizou-o então: supunha-lhe uma natureza muito
terna, parecia- lhe que da sua pessoa airosa e pálida se desprendia uma
fascinação. Desejou tê-lo por confessor: como seria estar ajoelhada aos pés
dele, no confessionário, vendo de perto os seus olhos negros, sentindo a sua
voz suave falar do Paraíso! Gostava muito da frescura da sua boca; fazia-se
pálida à idéia de o poder abraçar na sua longa batina preta! Quando Amaro
saía, ia ao quarto dele, beijava a travesseirinha, guardava os cabelos curtos
que tinham ficado nos dentes do pente. As faces abrasavam-se-lhe quando
o ouvia tocar a campainha.
83
Se Amaro jantava fora com o cônego Dias, estava todo o dia
impertinente, ralhava com a Ruça, às vezes mesmo dizia mal dele, "que era
casmurro, que era tão novo que nem inspirava respeito". Quando ele
falava de alguma nova confessada, amuava, com ciúme pueril. A sua antiga
devoção renascia, cheia de um fervor sentimental: sentia um vago amor
físico pela Igreja; desejaria abraçar, com pequeninos beijos demorados, o
altar, o órgão, o missal, os santos, o Céu, porque não os distinguia bem
de Amaro, e pareciam-lhe dependências da sua pessoa. Lia o seu livro de
missa pensando nele como no seu Deus particular. E Amaro não sabia,
quando passeava agitado pelo quarto, que ela em cima o escutava,
regulando as palpitações do seu coração pelas passadas dele, abraçando o
travesseiro, toda desfalecida de desejos, dando beijos no ar, onde se lhe
representavam os lábios do pàroco!
···
A tarde caía quando D. Maria e Amélia voltaram para a
cidade. Amélia adiante, calada, chibatava a sua burrinha, enquanto D.
Maria da Assunção vinha palrando com o moço da quinta, que segurava a
arreata. Ao passarem junto à Sé tocou a Ave-Maria. E Amélia, rezando,
não podia destacar os olhos das cantarias da igreja tão grandiosamente
erguidas, decerto para que ele ali celebrasse! Lembravam-lhe então
domingos em que o vira, ao repicar dos sinos, dar a bênção dos degraus do
altar-mor: e todos se curvavam, mesmo as senhoras do morgado Carreiro,
mesmo a Sra. baronesa da Via-Clara e a mulher do governador civil, tão
orgulhosa com o seu nariz de cavalete! Dobravam-se sob os seus dedos
erguidos, e achavam decerto também bonitos os seus olhos negros! E era
ele que a tinha apertado nos braços, ao pé do valado! Sentia ainda no
pescoço a pressão cálida dos seus beiços: uma paixão flamejou como uma
chama por todo o seu ser: largou a arreata do burrinho, apertou as mãos
contra o peito, e cerrando os olhos, lançando toda a sua alma numa
devoção:
- Oh, Nossa Senhora das Dores, minha madrinha, faz que ele
goste de mim!
No adro lajeado cônegos passeavam, conversando. A botica
defronte já tinha luz, os bocais reluziam; e por detrás da balança a figura do
farmacêutico Carlos, com o seu boné bordado a miçanga, movia-se
majestosamente.
VIII
84
O padre Amaro voltara para casa aterrado.
- E agora? e agora? dizia ele, encostado ao canto da janela,
sentindo o coração encolhido.
Devia sair imediatamente da casa da S. Joaneira! Não podia
continuar ali, na mesma familiaridade, depois de ter tido "aquele
atrevimento com a pequena".
Que ela não ficara muito indignada -. apenas atordoada; contiveraa
talvez o respeito eclesiástico, a delicadeza para com o hóspede, a
atenção para com o amigo do cônego. Mas podia contar à mãe, ao
escrevente... Que escândalo! E via o senhor chantre, traçando a perna e
fitando-o, - que era a sua atitude de repreensão - dizer-lhe com pompa: -
"São esses desregramentos que desonram o sacerdócio. Não se comportaria
de outro modo um Sátiro no monte Olimpo!" - Poderiam desterrá-lo
outra vez para alguma freguesia da serra!... Que diria a Sra. condessa de
Ribamar?
E depois, se persistisse em vê-la na intimidade, ter
constantemente presentes aqueles olhos negros, o sorriso cálido que lhe
fazia uma covinha no queixo, a curva daquele peito - a sua paixão,
crescendo surdamente, irritada a toda a hora, recalcada para dentro, tornálo-
ia doido, "podia fazer alguma asneira"!
Decidiu-se então a ir falar ao cônego Dias: a sua natureza fraca
necessitava sempre receber forças duma razão, duma experiência alheia:
costumava consultar ordinariamente o cônego que, pelo hábito da
disciplina eclesiástica, ele julgava mais inteligente por ser seu superior na
hierarquia; e não perdera, desde o seminário, a sua dependência de
discípulo. Depois, se quisesse arranjar uma casa e uma criada para ir viver
só, necessitava o auxílio do cônego, que conhecia Leiria como se a tivesse
edificado.
Encontrou-o na sala de jantar. O candeeiro de azeite esmorecia
com um morrão avermelhado. Os tições da braseira, cobertos duma
pulverização de cinza, revermelhavam vagamente. E o cônego, sentado
numa cadeira de braços, com o capote pelos ombros, os pés embrulhados
num cobertor, amodorrado no calor do lume, com o Breviário sobre os
joelhos, dormitava. Na dobra do cobertor, a Trigueira estirada dormitava
como ele.
Aos passos de Amaro o cônego abriu muito devagar os olhos,
rosnou:
- Ia adormecendo, hem!
- É cedo, disse o padre Amaro. Ainda não tocou a recolher.
Então que preguiça é essa?
85
- Ah! é você? disse o cônego com um enorme bocejo. Cheguei
tarde de casa do abade, tomei uma gota de chá, veio o quebranto... Então
que é feito?
- Vim por aqui.
- Pois o abade deu-nos um rico jantar. A cabidela estava de mãocheia!
Eu carreguei-me um bocado, disse o cônego rufando com os
dedos na capa do Breviário.
Amaro, sentado ao pé dele, remexia devagar o brasido:
- Sabe você, padre-mestre? disse ele de repente. Ia acrescentar: -
Aconteceu-me um caso! - Mas reteve-se, murmurou: - Estou hoje esquisito;
tenho andado ultimamente fora dos eixos...
- Você, com efeito, anda amarelo, disse o cônego, considerandoo.
Purgue-se, homem!
Amaro esteve um momento calado, a olhar o lume.
- Sabe? estou com idéia de mudar de casa.
O cônego ergueu a cabeça, arregalou os olhinhos sonolentos:
- Mudar de casa! Ora essa! por quê?
O padre Amaro chegou a cadeira para ele, e falando baixo:
- Você percebe... Tenho estado a pensar, é assim esquisito estar em
casa de duas mulheres, com uma rapariga...
- Ora, histórias! Que me vem você contar? Você é hóspede... Deixese
disso, homem! É como quem está na hospedaria.
- Não, não, padre-mestre, eu cá me entendo...
E suspirou; desejava que o cônego o interrogasse, facilitasse as
confidências.
- Então só hoje é que pensa nisso, Amaro?!
- É verdade, tenho estado a pensar hoje nisto. Tenho as
minhas razões. - Ia a dizer: - Fiz uma tolice, - mas acanhou-se.
O cônego olhou para ele um momento:
- Homem! seja franco!
- Sou.
- Você acha aquilo caro?
- Não! disse o outro com uma negação impaciente.
- Bem, então é outra coisa...
- É. Você que quer? - E num tom magano, com que julgou agradar ao
cônego: - A gente também gosta do que é bom...
- Bem, bem, disse o cônego rindo, percebo. Você, como eu
sou amigo da casa, quer-me dizer por bons modos que tem nojo de tudo
aquilo!
- Tolice! disse Amaro, erguendo-se, irritado de tanta obtusidade.
- Oh, homem! exclamou o cônego abrindo os braços. Você quer sair
da casa? Por alguma é! Ora a mim parece-me que melhor...
86
- É verdade, é verdade, dizia Amaro que dava agora grandes
passadas pela sala. Mas estou com esta ferrada! Veja você se me arranja
uma casita barata com alguma mobília... Você entende melhor dessas
coisas...
O cônego ficou calado, muito enterrado na poltrona, coçando
devagar o queixo.
- Uma casita barata, rosnou por fim. Eu verei, eu verei... talvez.
- Você compreende, acudiu vivamente Amaro, chegando-se
ao cônego. A casa da S. Joaneira...
Mas a porta rangeu, D. Josefa Dias entrou: e depois de
conversarem sobre o jantar do abade, o catarro da pobre D. Maria da
Assunção, a doença de fígado que ia minando o engraçado cônego Sanches
- Amaro saiu, quase contente agora de se não "ter desabotoado com o
padre-mestre".
O cônego ficou ainda ao pé do lume, ruminando. Aquela
resolução de Amaro de deixar a casa da S. Joaneira era bem-vinda: quando
ele o trouxera de hóspede para a Rua da Misericórdia, combinara com a S.
Joaneira diminuir-lhe a mesada que havia anos lhe dava, regularmente, no
dia 30. Mas arrependeu-se logo: a S. Joaneira, se não tinha hóspede, dormia
só no primeiro andar: o cônego podia então saborear livremente os
carinhos da sua velhota;- e Amélia na sua alcova, em cima, era alheia a este
"conchegozinho". Quando veio o padre Amaro, a S. Joaneira cedeu-lhe
o quarto, e dormia numa cama de ferro ao pé da filha: e o cônego então
reconheceu, como ele disse, desconsolado - "que aquele arranjo tinha
estragado tudo". Para gozar as doçuras da sesta com a sua S. Joaneira,
era necessário que Amélia jantasse fora, que a Ruça estivesse na fonte,
outras combinações importunas: e ele, cônego do cabido, na egoísta
velhice, quando precisava ter recato com a sua saúde, via-se obrigado a
esperar, a espreitar, a ter nos seus prazeres regulares e higiênicos as
dificuldades dum colegial que ama a senhora professora. Ora se Amaro
saísse, a S. Joaneira descia ao seu quarto, no primeiro andar; vinham as
antigas comodidades, as tranqüilas sestas. É verdade que tinha de dar a
antiga mesada... Daria a mesada!
- Que diabo! ao menos está um homem à sua vontade, resumiu ele.
- Que está para aí o mano a falar só? perguntou a Sra. D.
Josefa, despertando do quebranto em que ia caindo, ao pé do lume.
- Estava cá a ma1ucar como hei-de castigar a carne na quaresma -
disse o cônego com um riso grosso.
···
87
A essa hora a Ruça chamava o padre Amaro para o chá: e ele
subia devagar, com o coração pequenino, receando encontrar a S. Joaneira
muito carrancuda, já informada do insulto. Achou só Amélia - que tendolhe
sentido os passos na escada tomara rapidamente a costura, e, com a
cabeça muito baixa, dava grandes agulhadas, vermelha como o lenço que
abainhava para o cônego.
- Muito boa noite, menina Amélia.
- Muito boa noite, senhor pároco.
Amélia costumava sempre ter um olá! ou um ora viva! muito
amável; aquela secura aterrou-o; disse-lhe logo muito perturbado:
- Menina Amélia, eu peço-lhe que me perdoe... Foi um atrevimento...
Eu nem soube o que fiz... Mas acredite... Estou resolvido a sair daqui. Até
já pedi ao Sr, cônego Dias que me arranjasse casa...
Falava com o rosto baixo - e não via Amélia erguer os olhos para ele,
surpreendida e toda desconsolada.
Neste momento a S. Joaneira entrou, e logo da porta, abrindo
os braços:
- Viva! Então já sei, já sei! Disse-me o Sr. padre Natário:
grande jantar! Conte lá, conte lá!
Amaro teve de dizer os pratos, as pilhérias do Libaninho, a discussão
teológica; depois falaram da fazenda: e Amaro desceu, sem se ter atrevido a
dizer à S. Joaneira que ia deixar a casa, - o que era, coitada, para a pobre
mulher, uma perda de seis tostões por dial
Na manhã seguinte o cônego foi a casa de Amaro, pela manhã, antes de ir
ao coro. O pároco fazia a barba à janela:
- O1á, padre-mestre! Que há de novo?
- Parece-me que se arranja a coisa! E foi por acaso, esta manhã... Há
uma casita lá para os meus lados, que é um achado. Era do major Nunes,
que vai mudado para o 5.
Aquela precipitação desagradou a Amaro: perguntou, dando
desconsoladamente o fio à navalha:
- Tem mobília?
- Tem mobília, tem louças, tem roupas, tem tudo.
- Então...
- Então é entrar e começar a gozar. E aqui para nós, Amaro, você tem
razão. Estive a pensar no caso... É melhor para você viver só. De modo que
vista-se, e vamos ver a casita.
Amaro, calado, rapava a cara com desespero.
A casa era na Rua das Sousas, de um andar, muito velha, com
a madeira carunchosa: a mobília, como disse o cônego, "podia passar a
veteranos"; algumas litografias desbotadas pendiam lugubremente de
grandes pregos negros; e o imundo major Nunes deixara os vidros
88
quebrados, os soalhos todos escarrados, as paredes riscadas de fósforos, e
até sobre um poial da janela duas peúgas quase negras.
Amaro aceitou a casa. E nessa mesma manhã o cônego ajustou-lhe uma
criada, a Sra. Maria Vicência, pessoa muito devota, alta e magra como um
pinheiro, antiga cozinheira do doutor Godinho. E (como considerou o
cônego Dias) era a própria irmã da famosa Dionísia!
A Dionísia fora outrora a Dama das Camélias, a Ninon de Lenclos, a
Manon de Leiria: gozara a honra de ser concubina de dois governadores
civis e do terrível morgado da Sertejeira; e as paixões frenéticas
que inspirara tinham sido para quase todas as mães de família de Leiria
causa de lágrimas e de fanicos. Agora engomava para fora, encarregava-se
de empenhar objetos, entendia muito de partos, protegia "o rico
adulteriozinho" segundo a singular expressão do velho D. Luís da Barrosa,
cognominado o infame, fornecia lavradeirinhas aos senhores empregados
públicos, sabia toda a história amorosa do distrito. E via-se sempre na rua a
Dionísia com o seu xale de xadrez traçado, o pesado seio tremendo dentro
dum chambre sujo, o passinho discreto e os antigos sorrisos - mas a que
faltavam já os dois dentes de diante.
O cônego logo nessa tarde deu parte à S. Joaneira da resolução
de Amaro. Foi um grande espanto para a excelente senhora! Queixou-se,
com amargura, da ingratidão do senhor pároco.
O cônego tossiu grosso e disse:
- Escute, senhora. Fui eu que arranjei a coisa. E eu lhe digo por quê:
é que este arranjo do quarto em cima, etc., está-me a arrasar a saúde.
Deu outras razões de prudência higiênica, e acrescentou passandolhe
com bondade os dedos pelo pescoço:
- E o que é perder a conveniência, não se aflija a senhora! Eu
darei para a panela como dantes; e como a colheita foi boa porei mais
meia moeda para os arrebiques da pequena. Ora venha de lá uma beijoca,
Augustinha, sua brejeira! E ouça, como-lhe cá as sopas.
Amaro no entanto embaixo ia emalando a sua roupa. Mas a
cada momento parava, dava um ai triste, ficava a olhar em redor o quarto,
a cama fofa, a mesa com a sua toalha branca, a larga cadeira forrada
de chita onde ele lia o Breviário, ouvindo, por cima, cantarolar Amélia.
- Nunca mais! pensava. Nunca mais!
Adeus as boas manhãs passadas ao pé dela, vendo-a costurar!
Adeus as alegres sobremesas, que se prolongavam à luz do candeeiro!
Adeus os chás, ao pé da braseira, quando o vento uivava fora e cantavam as
frias goteiras! Tudo tinha acabado!
A S. Joaneira e o cônego apareceram então à porta do quarto.
O cônego resplandecia; e a S. Joaneira disse, muito magoada:
- Já sei, já sei, seu ingrato!
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- É verdade, minha senhora, fez Amaro encolhendo os ombros
tristemente. Mas há razões... Eu sinto...
- Olhe, senhor pároco, disse a S. Joaneira, não se ofenda com o que
lhe vou dizer, mas eu já lhe queria como filho... e levou o lenço aos olhos.
- Tolices, exclamou o cônego. Pois então ele não pode vir aqui
em amizade, passar as noites para o cavaco, tomar o seu café?... O
homem não vai para o Brasil, senhora!
- Pois sim, pois sim, dizia a pobre senhora desconsolada, mas sempre
era tê-lo de portas adentro!
Enfim, ela bem sabia que a gente na sua casa está muito
melhor... Fez-lhe então grandes recomendações sobre a lavadeira, que
mandasse buscar o que quisesse, louças, lençóis...
- E veja lá, não lhe esqueça alguma coisa, senhor pároco!
- Muito obrigado, minha senhora, muito obrigado.
E continuando a arrumar a sua roupa, o pároco desesperava-se
agora contra a resolução que tomara. A pequena evidentemente não tinha
aberto bico! Para que sairia então daquela casa tão barata, tão confortável,
tão amiga? E odiava o cônego pelo seu zelo tão precipitado.
O jantar foi triste. Amélia, decerto para explicar a sua palidez,
queixava-se de dores na cabeça. Ao café o cônego quis a sua "dose de
música"; e Amélia, ou maquinalmente ou com intenção, disse a canção
querida:
Ai! adeus! acabaram-se os dias
Que ditoso vivi a teu lado!
Soa a hora, o momento fadado.
É forçoso deixar-te e partir!
Então, àquela chorosa melodia repassada das tristezas da
separação, Amaro sentiu-se tão perturbado que teve de se erguer
bruscamente, ir encostar o rosto à vidraça, esconder as duas lágrimas que
irreprimivelmente lhe saltavam das pálpebras. Os dedos de Amélia
embrulhavam-se também no teclado; até a mesma S. Joaneira disse:
- Oh! filha, toca outra coisa, credo!
Mas o cônego, erguendo-se pesadamente:
- Pois senhores, vão sendo horas. Vamos lá, Amaro. Eu vou consigo
até a Rua das Sousas...
Amaro então quis dizer adeus à idiota; mas depois de um forte
acesso de tosse, a velha dormia, muito fraca.
- Deixá-la sossegada, disse Amaro. E apertando a mão á S.
Joaneira: - Muito obrigado por tudo, minha senhora, acredite...
Calou-se, com um soluço na garganta.
90
A S. Joaneira tinha levado aos olhos a ponta do seu avental branco.
- Oh, senhora! disse o cônego rindo-se, já há bocado lhe disse,
o homem não vai para as Índias!
- A gente é pela amizade que lhes ganha, choramingou a S. Joaneira.
Amaro tentou gracejar. Amélia, muito branca, mordia o beicinho.
Enfim Amaro desceu: e o João Ruço, que na sua chegada a Leiria lhe
trouxera o baú para a Rua da Misericórdia, muito bêbedo, cantarolando o
Bendito, - levava-lho agora para a Rua das Sousas, bêbedo também, mas
trauteando o Rei-chegou.
···
Quando Amaro, nessa noite, se viu só naquela casa tristonha,
sentiu uma melancolia tão pungente e um tédio tão negro da vida, que, com
a sua natureza lassa, teve vontade de se encolher a um canto e ficar ali a
morrer!
Parava no meio do quarto, punha-se a olhar em redor: a cama era de
ferro, pequena, com um colchão duro e uma coberta vermelha; o espelho
com o aço gasto luzia sobre a mesa; como não havia lavatório, a bacia e o
jarro, com um bocadinho de sabonete, estavam sobre o poial da janela; tudo
ali cheirava a mofo; e fora, na rua negra, caia sem cessar a chuva triste. Que
existência! E seria sempre assim!...
Desesperou-se então contra Amélia: acusou-a, com o punho
fechado, das comodidades que perdera, da falta de mobília, da despesa que
ia ter, da solidão que o regelava! Se fosse mulher de coração devia ter
vindo ao seu quarto, dizer-lhe: Sr. padre Amaro, para que sai de casa? Eu
não estou zangada! - Porque enfim quem irritara o seu desejo? Ela, com as
suas maneirinhas temas, os seus olhinhos adocicados! Mas não, deixara-o
ema. lar a roupa, descer a escada, sem uma palavra amiga, indo tocar
com estrondo a valsa do Beijo!
Jurou então não voltar a casa da S. Joaneira. E, a grandes
passadas pelo quarto, pensava - no que havia de fazer para humilhar
Amélia. Q quê? Desprezá-la como uma cadela! Ganhar influência na
sociedade devota de Leiria, ser muito do senhor chantre: afastar da Rua da
Misericórdia o cônego e as Gansosos; intrigar com as senhoras da boa roda
para que se afastassem dela, com secura, no altar-mor, à missa do domingo;
dar a entender que a mãe era uma prostituta... Enterrá-la! cobri-la de lama!
E na Sé, ao sair da missa, regalar-se de a ver passar encolhida no seu
mantelete preto, escorraçada de todos, enquanto ele, à porta, de propósito,
conversaria com a mulher do governador civil e seria galante com a
baronesa de Via-Clara!... Depois pregaria um grande sermão, na quaresma,
e ela ouviria dizer, na arcada, nas lojas: "Grande homem, o padre
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Amaro!". Tornar-se-ia ambicioso, intrigaria, e, protegido pela Sra. condessa
de Ribamar, subiria nas dignidades eclesiásticas: o que pensaria ela quando
o visse um dia bispo de Leiria, pálido e interessante na sua mitra toda
dourada, passando, seguido dos incensadores, ao longo da nave da Sé, entre
um povo ajoelhado e penitente, sob os roucos cantos do órgão? E ela o
que seria então? Uma magra criatura murcha, embrulhada num xale
barato! E o Sr. João Eduardo, o escolhido de agora, o esposo? Seria um
pobre amanuense mal pago, com uma quinzena roçada, os dedos
queimados do cigarro, curvado sobre o seu papel almaço, imperceptível na
terra, adulando alto e invejando baixo! E ele, bispo, na vasta escadaria
hierárquica que sobe até ao Céu, estaria já muito para cima dos homens, na
zona de luz que faz a face de Deus-Padre! - E seria par do reino, e os padres
da sua diocese tremeriam de o ver franzir a testa!
Na igreja, ao lado, bateram devagar dez horas.
Que faria ela àquela hora? pensava. Costurava decerto, na sala
de jantar: estava o escrevente: jogavam a bisca, riam - ela roçava-lhe
talvez com o pé, no escuro, debaixo da mesa. Recordou o seu pé, o
bocadinho da meia que vira quando ela saltava as lamas na quinta, e essa
curiosidade inflamada subia pela curva da perna até ao seio, percorrendo
belezas que suspeitava... O que ele gostava daquela maldita! E era
impossível obtê-la! E todo o homem feio e estúpido podia ir à Rua da
Misericórdia, pedi-la à mãe, vir à Sé dizer-lhe: "Senhor pároco, case-me
com esta mulher", e beijar, sob a proteção da Igreja e do Estado, aqueles
braços e aquele peito! Ele não. Era padre! Fora aquela infernal pega da
marquesa de Alegros!...
Abominava então todo o mundo secular - por lhe ter perdido
para sempre os privilégios: e como o sacerdócio o excluía da participação
nos prazeres humanos e sociais, refugiava-se, em compensação, na idéia da
superioridade espiritual que lhe dava sobre os homens. Aquele miserável
escrevente podia casar e possuir a rapariga - mas que era ele em
comparação dum pároco a quem Deus conferia o poder supremo de
distribuir o Céu e o Inferno?... - E repastava-se deste sentimento, enchendo
o espírito de orgulhos sacerdotais. Mas vinha-lhe bem depressa a
desconsoladora idéia que esse domínio só era válido na região abstrata das
almas; nunca o poderia manifestar, por atos triunfantes, em plena
sociedade. Era um Deus dentro da Sé - mas apenas saia para o largo, era
apenas um plebeu obscuro. Um mundo irreligioso reduzira toda a ação
sacerdotal a uma mesquinha influência sobre almas de beatas... E era isto
que lamentava, esta diminuição social da Igreja, esta mutilação do poder
eclesiástico, limitado ao espiritual, sem direito sobre o corpo, a vida e a
riqueza dos homens... O que lhe faltava era a autoridade dos tempos em
que a Igreja era a nação e o pároco dono temporal do rebanho. Que lhe
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importava, no seu caso, o direito místico de abrir ou fechar as portas do
Céu? O que ele queria era o velho direito de abrir ou fechar a porta das
masmorras! Necessitava que os escreventes e as Amélias tremessem da
sombra da sua batina... Desejaria ser um sacerdote da antiga Igreja, gozar
das vantagens que dá a denúncia e dos terrores que inspira o carrasco, e ali
naquela vila, sob a jurisdição da sua Sé, fazer estremecer, à idéia de
castigos torturantes, aqueles que aspirassem a realizar felicidades - que lhe
eram a ele interditas; e pensando em João Eduardo e em Amélia; lamentava
não poder acender as fogueiras da Inquisição! - Assim aquele inofensivo
moço tinha durante horas, sob a excitação colérica duma paixão
contrariada, ambições grandiosas de tirania católica: - porque todo o padre,
o mais boçal, tem um momento em que é penetrado pelo espirito da Igreja
ou nos seus lances de renunciamento místico ou nas suas ambições de
dominação universal: todo o subdiácono se julga uma hora capaz de ser
santo ou de ser papa: não há seminarista que não tenha, durante um
instante, aspirado com ternura à caverna no deserto em que S. Jerônimo,
olhando o céu estrelado, sentia descer-lhe sobre o peito a Graça, como um
abundante rio de leite: e o abade pançudo que à tardinha, à varanda, palita o
dente furado saboreando o seu café com um ar paterno, traz dentro em si os
indistintos restos dum Torquemada.
IX
A vida de Amaro tornou-se monótona. Março ia muito
molhado, muito frio; e depois do serviço na Sé, Amaro entrava em casa,
tirava as botas enlameadas, ficava em chinelas a aborrecer-se. Às três horas
jantava; e nunca levantava a tampa rachada da terrina sem se lembrar, com
uma saudade pungente, do jantarinho na Rua da Misericórdia, quando
Amélia, com o seu colar muito branco, lhe passava a sopa de grãos-de-bico,
sorrindo, toda carinhosa. Ao lado a Vicência servia, tesa e enorme, com o
seu corpo de soldado vestido de saias, sempre constipada; e de vez em
quando, desviando a cabeça, assoava-se ao avental com ruído. Era muito
suja: as facas tinham o cabo úmido da água gordurosa das lavagens.
Amaro, desgostoso e indiferente, não se queixava; comia mal, à pressa;
mandava vir o café, e ficava horas esquecidas sentado à mesa, quebrando a
cinza do cigarro na borda do prato, perdido num tédio mudo, sentindo os
pés e os joelhos frios do vento que entrava pelas frinchas da sala
desabrigada.
Às vezes o coadjutor, que nunca o visitara na Rua da Misericórdia, aparecia
ao fim do jantar: sentava-se arredado da mesa, e ficava calado com o seu
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guarda-chuva entre os joelhos. Depois, julgando agradar ao pároco, repetia,
invariavelmente:
- Vossa senhoria aqui está melhor, sempre é estar em sua casa.
- Está claro, rosnava Amaro.
Ao princípio, para consolar o seu despeito, dizia ligeiramente mal da
S. Joaneira, provocando, animando o coadjutor (que era de Leiria) a contar
os escândalos da Rua da Misericórdia. O coadjutor, por servilismo, tinha
sorrisos mudos, repassados de perfídia.
- Ali há podres, hem? dizia o pároco.
O outro encolhia os ombros, com as mãos muito espalmadas ao
pé das orelhas, numa expressão de malícia; mas não pronunciava um
som, receando que as suas palavras, repetidas, escandalizassem o senhor
cônego. Ficavam então soturnos, trocando, a espaços, frases moles; um
batizado que havia; o que dissera o cônego Campos; um frontal do altar que
era necessário limpar. Aquela conversa enfastiava Amaro: sentia-se
muito pouco padre, muito distante da panelinha eclesiástica: não o
interessavam as intriguinhas do cabido, as parcialidades tão comentadas do
senhor chantre, os roubos da Misericórdia, as turras da câmara eclesiástica
com o governo civil; e achava-se sempre alheio, mal informado, nas
palestras eclesiásticas em que tão femininamente se deleitam os padres, e
que têm a puerilidade duma caturrice e a tortuosidade duma conspiração.
- O vento está sul? perguntava ele enfim, bocejando.
- Sempre! respondia o coadjutor.
Acendia-se a luz; o coadjutor erguia-se, sacudia o guarda-chuva,
e saía com um olhar de revés à Vicência.
Era aquela a pior hora, a da noite, quando ficava só. Procurava ler, mas os
livros enfastiavam-no; desabituado da leitura não compreendia "o sentido".
Ia olhar à vidraça: a noite estava tenebrosa, o lajedo reluzia vagamente.
Quando acabaria aquela vida? Acendia o cigarro, e do lavatório para a
janela recomeçava os seus passeios, com as mãos atrás das costas. Deitavase
sem rezar às vezes; e não tinha escrúpulos: julgava que ter renunciado a
Amélia era já uma penitência, não necessitava cansar-se a ler orações no
livro; celebrara o "seu sacrifício" - sentia-se vagamente quite com o Céu!
E continuava a viver só: o cônego nunca vinha à Rua das
Sousas, "porque, dizia, era casa que só o entrar nela até se lhe agoniava o
estômago". E Amaro, cada dia mais amuado, não voltara a casa da S.
Joaneira. Escandalizara-se muito que ela não lhe tivesse mandado pedir
para ir às partidas da sexta-feira; atribuíra "a desfeita" à hostilidade de
Amélia; e, mesmo para a não ver, trocara com o padre Silveira a missa do
meio-dia onde ela costumava ir, e dizia a das nove horas, furioso com
aquele novo sacrifício!
94
···
Todas as noites Amélia, ao ouvir tocar a campainha, tinha uma
palpitação tão forte no coração que ficava como sufocada um
momento. Depois os botins de João Eduardo rangiam na escada, ou ela
conhecia os passos fofos das galochas das Gansosos: apoiava-se então às
costas da cadeira, cerrando os olhos, como na fadiga duma desesperança
repetida. Esperava o padre Amaro; e às vezes, pelas dez horas, quando já
não era possível que ele viesse, a sua melancolia era tão pungente que se
lhe intumescia a garganta de soluços, tinha de pousar a costura, dizer:
- Vou-me deitar, estou com umas dores de cabeça que não paro!
Atirava-se para a cama de bruços, murmurava numa agonia:
- Oh Senhora das Dores, minha madrinha! Por que não vem ele, por
que não vem ele?
Nos primeiros dias, apenas ele se fora embora, toda a casa lhe
pareceu desabitada e lúgubre! Quando vira no quarto dele os cabides sem a
sua roupa, a cômoda sem os seus livros, rompeu a chorar. Foi beijar a
travesseirinha onde ele dormia, apertou ao peito com delírio a última toalha
a que ele limpara as mãos! Tinha constantemente o seu rosto presente,
ele entrara sempre nos seus sonhos. E com a separação o seu amor ardia
mais forte e mais alto, como uma fogueira que se isola.
Uma tarde, que fora visitar uma prima enfermeira no hospital, viu ao
chegar à Ponte gente parada, embasbacada com gozo para uma rapariga de
cuia à banda e garibaldi escarlate, que, de punho no ar, já
rouca, praguejava contra um soldado: o rapazola, um beirão de cara
redonda e lorpa coberta de penugem loura, virava-lhe as costas, encolhendo
os ombros, as mãos muito enterradas nos bolsos, rosnando:
- Não lhe fez mal, não lhe fez mal...
O Sr. Vasques, com loja de panos na Arcada, parara a olhar,
descontente daquela "falta de ordem pública".
- Algum barulho? perguntou-lhe Amélia.
- O1á, menina Amélia! Não, uma brincadeira do soldado. Atirou- lhe
um rato morto à cara, e a mulher está a fazer aquele espalhafato. Bêbedas!
Mas a rapariga de garibaldi vermelho voltara-se - e Amélia
aterrada reconheceu a Joaninha Gomes, sua amiga da mestra, que fora
amante do padre Abílio! O padre fora suspenso, deixara-a; ela partira para
Pombal, depois para o Porto; de miséria em miséria voltara a Leiria, e aí
vivia nalguma viela ao pé do quartel, entisicando, gasta por todo um
regimento! - Que exemplo, Santo Deus, que exemplo!...
E também ela gostava dum padre! Também ela, como outrora a
Joaninha, chorava sobre a sua costura quando o Sr, padre Amaro não
vinha! Onde a levava aquela paixão! À sorte da Joaninha! A ser a amiga
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do pároco! E via-se já apontada a dedo, na rua e na Arcada, mais tarde
abandonada por ele, com um filho nas entranhas, sem um pedaço de pão!...
E, como uma rajada de vento que limpa num momento um céu enevoado,
o terror agudo que lhe dera o encontro de Joaninha varreu-lhe do espírito as
névoas amorosas e mórbidas, em que ela se ia perdendo. Decidiu aproveitar
a separação, esquecer Amaro; lembrou-se mesmo de apressar o
seu casamento com João Eduardo, para se refugiar num dever
dominante; durante alguns dias forçou-se a interessar-se por ele; começou
mesmo a bordar-lhe umas chinelas...
Mas pouco a pouco a idéia má que, atacada, se encolhera e se fingira
morta, - principiou lentamente a desenroscar-se, a subir, a invadi-la! De
dia, de noite, costurando e rezando, a idéia do padre Amaro, os seus olhos,
a sua voz apareciam-lhe, tentações teimosas! com um encanto crescente.
Que faria ele? por que não vinha? gostava de outra? Tinha
ciúmes indefinidos, mas mordentes, que a queimavam. E aquela paixão ia-a
envolvendo como uma atmosfera de onde não podia sair, que a seguia se
ela fugia, e que a fazia viver! As suas resoluções honestas ressequiam-se,
morriam como débeis florinhas naquele fogo que a percorria. Se às vezes a
lembrança de Joaninha ainda voltava, repelia-a com irritação; e acolhia
alvoroçadamente todas as razões insensatas que lhe vinham de amar o
padre Amaro! Tinha agora só uma idéia - atirar-lhe os braços ao pescoço e
beijá-lo, oh! beijá-lo!... Depois, se fosse necessário, morrer!
Começou então a impacientar-se com o amor de João
Eduardo. Achava-o "palerma".
- Que maçada! pensava quando lhe sentia os passos na escada,
à noite.
Não o suportava com os seus olhos voltados sempre para ela, a
sua quinzena preta, as suas monótonas conversas sobre o governo civil.
E idealizava Amaro! As suas noites eram sacudidas de sonhos
lúbricos; de dia vivia numa inquietação de ciúmes, com melancolias
lúgubres, que a tornavam, como dizia a mãe, "uma mona, que até
enraivece"!
O gênio azedava-se-lhe.
- Credo, rapariga! que tens tu? exclamava a mãe.
- Não me sinto boa. Estou para ter alguma!
Andava, com efeito, amarela, perdera o apetite. E enfim uma
manhã ficou de cama com febre. A mãe, assustada, chamou o doutor
Gouveia. O velho prático, depois de ver Amélia, veio à sala de jantar
sorvendo com satisfação a sua pitada.
- Então, senhor doutor? disse a S. Joaneira.
- Case-me esta rapariga, S. Joaneira, case-me esta rapariga. Tenholho
dito tantas vezes, criatura!
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- Mas, senhor doutor...
- Mas case-a por uma vez, S. Joaneira, case-a por uma vez!
repetia ele pelas escadas, arrastando um pouco a perna direita que um
reumatismo teimoso encolhia.
Amélia enfim melhorou - com grande alegria de João Eduardo, que
enquanto ela estivera doente vivera numa aflição, lamentando não poder ser
seu enfermeiro, e derramando às vezes no cartório uma lágrima triste sobre
os papéis selados do severo Nunes Ferral.
···
No domingo seguinte, à missa das nove horas na Sé, Amaro, ao subir
para o altar, entre as devotas que se arredavam, viu de relance Amélia ao pé
da mãe, com o seu vestido de seda preta de largos folhos. Cerrou um
momento os olhos; e mal podia sustentar o cálix com as mãos trêmulas.
Quando, depois de resmungar o Evangelho, Amaro fez uma
cruz sobre o missal, se persignou e se voltou para a igreja dizendo
Dominus vobiscum - a mulher do Carlos da botica disse baixo a Amélia
"que o senhor pároco estava tão amarelo, que devia ter alguma dor".
Amélia não respondeu, curvada sobre o livro com todo o sangue nas faces.
E durante a missa, sentada sobre os calcanhares, absorta, a face banhada
num êxtase baboso, gozou a sua presença, as suas mãos magras erguendo a
hóstia, a sua cabeça bem-feita curvando-se na adoração ritual; uma doçura
corria- lhe na pele quando a voz dele, apressada, dizia mais alto algum
latim; e quando Amaro, tendo a mão esquerda no peito e a direita
estendida, disse para a igreja o Benedicat vos, ela, com os olhos muito
abertos, arremessou toda a sua alma para o altar, como se ele fosse o
próprio Deus a cuja bênção as cabeças se curvavam ao comprido da Sé, até
ao fundo, onde os homens do campo com os seus varapaus pasmavam para
os dourados do sacrário.
À saída da missa começara a chover; e Amélia e a mãe, á porta
com outras senhoras, esperavam uma "aberta".
- Olá! por aqui? disse de repente Amaro, chegando-se, muito branco.
- Estamos à espera que passe a chuva, senhor pároco, disse a
S. Joaneira voltando-se. E imediatamente, muito repreensiva: - E por
que não tem aparecido, senhor pároco? Realmente! Que lhe fizemos nós?
Credo, até dá que falar...
- Muito ocupado, muito ocupado... balbuciou o pároco.
- Mas um bocadinho à noite. Olhe, pode crer, tem-me causado
desgosto... E todos têm reparado. Não, lá isso, senhor pároco, tem sido
ingratidão!
Amaro disse, corando:
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- Pois acabou-se. Hoje à noite lá apareço, e estão as pazes feitas...
Amélia, muito vermelha, para encobrir a sua perturbação olhava para
todos os pontos o céu carregado, como assustada do temporal.
Amaro então ofereceu-lhe o seu guarda-chuva. E enquanto a S.
Joaneira o abria, apanhando com cuidado o vestido de seda, Amélia disse
ao pároco:
- Até à noite, sim? - e mais baixo, olhando em redor, com medo: -
Oh, vá! Tenho estado tão triste! tenho estado como doida! Vá, peço- lhe eu!
Amaro, voltando para casa, continha-se para não correr pelas ruas de
batina. Entrou no quarto, sentou-se aos pés da cama, e ali ficou saturado de
felicidade, como um pardal muito farto num raio de sol muito quente:
recordava o rosto de Amélia, a redondeza dos seus ombros, a beleza dos
encontros, as palavras que lhe dissera: - Tenho estado como doida! A
certeza de que "a rapariga gostava dele" entrou-lhe então na alma com a
violência de uma rajada, e ficou a sussurrar por todos os recantos do seu ser
com um murmúrio melodioso de felicidades agitadas. E passeava pelo
quarto com passadas de côvado, estendendo os braços, desejando a posse
imediata do seu corpo: sentia um orgulho prodigioso: ia defronte ao
espelho altear a arca do peito, como se o mundo fosse um pedestal expresso
que só o sustentasse a ele! Mal pôde jantar. Com que impaciência desejava
a noite! A tarde clareava; a cada momento tirava o seu ''cebolão'' de prata,
indo olhar à janela, com irritação, a claridade do dia que se arrastava
devagar no horizonte. Engraxou ele mesmo os seus sapatos, lustrou o
cabelo de banha. E antes de sair rezou cuidadosamente o seu Breviário -
porque, em presença daquele amor adquirido, viera-lhe um susto
supersticioso que Deus ou os santos escandalizados o viessem perturbar; e
não queria, com desleixos de devoção, dar-lhes razão de queixa.
Ao entrar na rua de Amélia o coração bateu-lhe tão forte que teve de
parar, sufocado; pareceu-lhe melodioso o piar das corujas na velha
Misericórdia, que há tantas semanas não ouvia.
Que admiração quando ela apareceu na sala de jantar!
- Ditosos olhos que o vêem! Pensávamos que tinha morrido!
Grande milagre!
Estavam a Sra. D. Maria da Assunção, e as Gansosos. Arredaram as
cadeiras com entusiasmo para lhe dar lugar, admirá-lo.
- Então que tem feito, que tem feito? E olhe que está mais magro!
O Libaninho, no meio da sala, imitava foguetes subindo ao ar. O Sr.
Artur Couceiro improvisou-lhe um fadinho à viola:
Ora já cá temos o senhor pároco
Nos chás da S. Joaneira.
Isto já parece outra coisa,
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Volta a bela cavaqueira!
Houve palmas. E a S. Joaneira, toda banhada de riso.
- Ai, tem sido uma ingratidão dele!
- Uma ingratidão, diz a senhora? rosnou o cônego. Uma casmurrice,
digo eu!
Amélia não falava, com as faces abrasadas, os olhos úmidos
pasmados para o padre Amaro - a quem tinham dado a poltrona do cônego,
e que se repoltreava nela, túmido de gozo, fazendo rir as senhoras pelas
pilhérias com que contava os desleixos da Vicência.
João Eduardo, isolado a um canto, ia folheando o velho álbum.
···
Assim recomeçou a intimidade de Amaro na Rua da
Misericórdia. Jantava cedo, depois lia o seu Breviário; e apenas na igreja
batiam as sete horas, embrulhava-se no seu capote e dava volta pela Praça
passando rente da botica, onde os freqüentadores caturravam, com as mãos
moles apoiadas ao cabo dos guarda-chuvas. Mal avistava a janela da sala de
jantar alumiada, todos os seus desejos se erguiam; mas ao toque agudo da
campainha sentia às vezes um susto indefinido de achar a mãe já
desconfiada ou Amélia mais fria!... Mesmo por superstição entrava sempre
com o pé direito.
Encontrava já as Gansosos, a D. Josefa Dias; e o cônego, que
jantava agora muito com a S. Joaneira e que àquela hora, estirado na
poltrona, findava a sua soneca, dizia-lhe bocejando:
- Ora viva o menino bonito!
Amaro ia sentar-se ao pé de Amélia, que costurava à mesa; o
olhar penetrante que se trocavam era todos os dias como o mútuo
juramento mudo que o seu amor crescera desde a véspera; e às vezes
mesmo, debaixo da mesa, roçavam os joelhos com furor. Começava então a
cavaqueira. Eram sempre os mesmos interessezinhos, as questões que iam
na Misericórdia, o que dissera o senhor chantre, o cônego Campos que
despedira a criada, o que se rosnava da mulher do Novais...
- Mais amor do próximo! resmungava o cônego mexendo-se na
poltrona. E com um arroto curto tornava a cerrar as pálpebras.
Então as botas de João Eduardo rangiam na escada, e Amélia
imediatamente abria a mesinha para a partida de manilha: os parceiros
eram a Gansoso, D. Josefa, o pároco; e como Amaro jogava mal, Amélia,
que era mestra, sentava-se por detrás dele para o "guiar". Logo às
primeiras vasas havia altercações. Então Amaro voltava o rosto para
Amélia, tão perto que confundiam os seus hálitos.
99
- Esta? perguntava, indicando a carta com olho lânguido.
- Não! não! espere, deixe ver, dizia ela, vermelha.
O seu braço roçava o ombro do pároco: Amaro sentia o cheiro
da água-de-colônia que ela usava com exagero.
Defronte, ao pé de Joaquina Gansoso, João Eduardo, mordicando o
bigode, contemplava-a com paixão; Amélia, para se desembaraçar daqueles
dois olhos langorosos fitos nela, tinha-lhe dito, por fim "que até
era indecente, diante do pároco que era de cerimônia, estar assim a cocála
toda a noite".
Às vezes mesmo dizia-lhe, rindo:
- Ó Sr. João Eduardo, vá conversar com a mamã, se não temo-la aqui
temo-la a dormir.
E João Eduardo ia sentar-se ao pé da S. Joaneira, que, de lunetas na
ponta do nariz, fazia sonolentamente a sua meia.
Depois do chá Amélia sentava-se ao piano. Causava então
entusiasmo em Leiria uma velha canção mexicana, a Chiquita. Amaro
achava-a de apetite; e sorria de gozo, com os seus dentes muito brancos,
apenas Amélia começava com muita languidez tropical:
Quando sali de la Habana,
Valga-me Dios ! ...
Mas Amaro amava sobretudo a outra estrofe, quando Amélia, com os
dedos frouxos no teclado, o busto deitado para trás, rolando os olhos ternos,
em movimentos doces de cabeça, dizia, toda voluptuosa, silabando o
espanhol:
Si à tua ventana llega
Una paloma,
Trata-la com cariño
Que es mi persona.
E como a achava graciosa, crioula, quando ela gorjeava:
Ay chiquita que si,
Ay chiquita que no-o-o-o!
Mas as velhas reclamavam-no para continuar a manilha, e ele ia
sentar-se, cantarolando as últimas notas, com o cigarro ao canto da boca,
os olhos úmidos de felicidade.
Às sextas-feiras era a grande partida. A Sra. D. Maria da
Assunção aparecia sempre com o seu belo vestido de seda preta: e como
100
era rica e tinha parentela fidalga, davam-lhe com deferência o melhor lugar
ao pé da mesa - que ela ia ocupar, meneando pretensiosamente os quadris,
com ruge-ruges de seda. Antes do chá, a S. Joaneira levava-a sempre ao
seu quarto, onde guardava para ela uma garrafa de jeropiga velha: e ali
as duas amigas tagarelavam muito tempo, sentadas em cadeirinhas
baixas. Depois Artur Couceiro, cada dia mais chupado e mais tísico,
cantava o fado novo que compusera, chamado o Fado da Confissão; eram
quadras feitas para regalar aquela piedosa reunião de saias e de batinas:
Na capelinha do amor,
No fundo da sacristia,
Ao senhor padre Cupido
Confessei-me noutro dia...
Vinha depois a confissão de pecadinhos doces, um ato de
contrição de amor, uma penitência terna:
Seis beijinhos de manhã,
De tarde um abraço só...
E pra acalmar doces chamas
Jejuar a pão-de-ló.
Aquela composição galante e devota fora muito apreciada na
sociedade eclesiástica de Leiria. O senhor chantre pedira uma cópia, e
perguntara, referindo-se ao poeta:
- Quem é o hábil Anacreonte?
E informado que era o escrevente da administração, falou dele
com tanto apreço à esposa do senhor governador civil, que Artur obteve a
gratificação de oito mil-réis, que havia anos implorava.
Àquelas reuniões nunca faltava o Libaninho. A sua última pilhéria era
furtar beijos à Sra. D. Maria da Assunção; a velha escandalizava-se muito
alto, e abanando-se com furor atirava-lhe de revés um olhar guloso. Depois
o Libaninho desaparecia um momento, e entrava com uma saia de Amélia
vestida, uma touca da S. Joaneira, fingindo uma chama lúbrica por João
Eduardo - que, entre as risadas agudas das velhas, recuava, muito escarlate.
Brito e Natário vinham às vezes: formava-se então um grande quino.
Amaro e Amélia ficavam sempre juntos; e toda a noite, com os joelhos
colados, ambos vermelhos, permaneciam vagamente entorpecidos no
mesmo desejo intenso.
Amaro saía sempre de casa da S. Joaneira mais apaixonado
por Amélia. Ia pela rua devagar, ruminando com gozo a sensação
deliciosa que lhe dava aquele amor - uns certos olhares dela, o arfar
101
desejoso do seu peito, os contatos lascivos dos joelhos e das mãos. Em casa
despia-se depressa, porque gostava de pensar nela, às escuras, atabafado
nos cobertores; e ia percorrendo em imaginação, uma a uma, as provas
sucessivas que ela lhe dera do seu amor, como quem vai aspirando uma e
outra flor, até que ficava como embriagado de orgulho: era a rapariga mais
bonita da cidade! e escolhera-o a ele, a ele padre, o eterno excluído dos
sonhos femininos, o ser melancólico e neutro que ronda como um ser
suspeito à beira do sentimento! À sua paixão misturava-se então um
reconhecimento por ela; e com as pálpebras cerradas murmurava:
- Tão boa, coitadinha, tão boa!
···
Mas na sua paixão havia ás vezes grandes impaciências. Quando
tinha estado, durante três horas da noite, recebendo o seu olhar, absorvendo
a voluptuosidade que se exalava de todos os seus movimentos, - ficava
tão carregado de desejos que necessitava conter-se "para não fazer um
disparate ali mesmo na sala, ao pé da mãe". Mas depois, em casa, só torcia
os braços de desespero: queria-a ali de repente, oferecendo-se ao seu
desejo; fazia então combinações - escrever-lhe-ia, arranjariam uma casinha
discreta para se amarem, planeariam um passeio a alguma quinta! Mas
todos aqueles meios lhe pareciam incompletos e perigosos, ao recordar o
olho finório da irmã do cônego, as Gansosos tão mexeriqueiras! E diante
daquelas dificuldades que se erguiam como as muralhas sucessivas duma
cidadela, voltavam as antigas lamentações: não ser livre! não poder entrar
claramente naquela casa, pedi-la à mãe, possuí-la sem pecado,
comodamente! Por que o tinham feito padre? Fora "a velha pega" da
marquesa de Alegros! Ele não abdicava voluntariamente a virilidade do seu
peito! Tinham-no impelido para o sacerdócio como um boi para o curral!
Então, passeando excitado pelo quarto, levava as suas
acusações mais longe, contra o Celibato e a Igreja: por que proibia ela aos
seus sacerdotes, homens vivendo entre homens, a satisfação mais natural,
que até têm os animais? Quem imagina que desde que um velho bispo diz -
serás casto - a um homem novo e forte, o seu sangue vai subitamente
esfriar-se? e que uma palavra latina - accedo - dita a tremer pelo
seminarista assustado, será o bastante para conter para sempre a rebelião
formidável do corpo? E quem inventou isto? Um concílio de bispos
decrépitos, vindos do fundo dos seus claustros, da paz das suas escolas,
mirrados como pergaminhos, inúteis como eunucos! Que sabiam eles da
Natureza e das suas tentações? Que viessem ali duas, três horas para o pé
da Ameliazinha, e veriam, sob a sua capa de santidade, começar a revoltarse-
lhe o desejo! Tudo se ilude e se evita, menos o amor! E se ele é fatal, por
102
que impediram então que o padre o sinta, o realize com pureza e com
dignidade? É melhor talvez que o vá procurar pelas vielas obscenas! -
Porque a carne é fraca!
A carne! Punha-se então a pensar nos três inimigos da alma -
MUNDO, DIABO e CARNE. E apareciam à sua imaginação em três
figuras vivas: uma mulher muito formosa; uma figura negra de olho de
brasa e pé de cabra; e o mundo, coisa vaga e maravilhosa (riquezas,
cavalos, palacetes) - de que lhe parecia uma personificação suficiente o Sr,
conde de Ribamar! Mas que mal tinham eles feito à sua alma? O diabo
nunca o vira; a mulher formosa amava-o e era a única consolação da sua
existência; e do mundo, do senhor conde, só recebera proteção,
benevolência, tocantes apertos de mão... E como poderia ele evitar as
influências da Carne e do Mundo? A não ser que fugisse, como os santos
de outrora, para os areais do deserto e para a companhia das feras! Mas não
lhe diziam os seus mestres no seminário que ele pertencia a uma Igreja
militante? O ascetismo era culpado, sendo a deserção dum serviço santo. -
Não compreendia, não compreendia!
Procurava então justificar o seu amor com exemplos dos livros
divinos. A Bíblia está cheia de núpcias! Rainhas amorosas adiantam-se
nos seus vestidos recamados de pedras; o noivo vem-lhe ao encontro, com
a cabeça coberta de faixas de linho puro, arrastando pelas pontas um
cordeiro branco; os levitas batem em discos de prata, gritam o nome de
Deus; abrem-se as portas de ferro da cidade para deixar passar a caravana
que leva os bem esposados; e as arcas de sândalo onde vão os tesouros do
dote rangem, amarradas com cordas de púrpura, sobre o dorso dos
camelos! Os mártires no circo casam-se num beijo, sob o bafo dos leões, às
aclamações da plebe! Jesus mesmo não vivera sempre na sua santidade
inumana; era frio e abstrato nas ruas de Jerusalém, nos mercados do bairro
de Davi; mas lá tinha o seu lugar de ternura e de abandono em Betânia, sob
os sicômoros do Jardim de Lázaro; ali, enquanto os magros nazarenos seus
amigos bebem o leite e conspiram à parte, ele olha defronte os tetos
dourados do templo, os soldados romanos que jogam o disco ao pé da Porta
de Ouro, os pares amorosos que passam sob os arvoredos de Getsêmani -
e pousa a mão sobre os cabelos louros de Marta, que ama e fia a seus pés!
O seu amor era pois uma infração canônica, não um pecado da
alma: podia desagradar ao senhor chantre, não a Deus; seria legitimo num
sacerdócio de regra mais humana. Lembrava-se de se fazer protestante:
mas onde, como? Parecia-lhe mais extraordinariamente impossível que
transportar a velha Sé para cima do monte do Castelo.
Encolhia então os ombros, escarnecendo toda aquela vaga
argumentação interior. "Filosofia e palhada!" Estava doido pela rapariga, -
103
era o positivo. Queria-lhe o amor, queria-lhe os beijos, queria-lhe a alma...
E o senhor bispo se não fosse velho faria o mesmo, e o papa faria o mesmo!
Eram às vezes três horas da manhã, e ainda passeava no
quarto, falando só.
···
Quantas vezes João Eduardo, passando alta noite pela Rua das
Sousas, tinha visto na janela do pároco uma luz amortecida! Porque
ultimamente João Eduardo, como todos que têm um desgosto amoroso,
tomara o hábito triste de andar até tarde pelas ruas.
O escrevente, logo desde os primeiros tempos, percebera a
simpatia de Amélia pelo pároco. Mas conhecendo a sua educação e os
hábitos devotos da casa, atribuía aquelas atenções quase humildes com
Amaro ao respeito beato pela sua batina de padre, pelos seus privilégios de
confessor.
Instintivamente porém começou a detestar Amaro. Sempre fora
inimigo de padres! Achava-os um "perigo para a civilização e para a
liberdade"; supunha-os intrigantes, com hábitos de luxúria, e conspirando
sempre para restabelecer "as trevas da Meia-Idade"; odiava a confissão que
julgava uma arma terrível contra a paz do lar; e tinha uma religião vaga -
hostil ao culto, às rezas, aos jejuns, cheia de admiração pelo Jesus
poético, revolucionário, amigo dos pobres, e "pelo sublime espirito de Deus
que enche todo o Universo"! Só desde que amava Amélia é que ouvia
missa, para agradar à S. Joaneira.
E desejaria sobretudo apressar o casamento, para tirar Amélia
daquela sociedade de beatas e padres, receando ter mais tarde uma mulher
que tremesse do Inferno, passasse horas a rezar estações na Sé, e se
confessasse aos padres "que arrancam às confessadas os segredos de
alcova"!
Quando Amaro voltara a freqüentar a Rua da Misericórdia,
ficou contrariado. "Cá temos outra vez o marmanjo!", pensou. Mas que
desgosto, quando reparou que Amélia tratava agora o pároco com uma
familiaridade mais terna, que a presença dele lhe dava visivelmente uma
animação singular, "e que havia uma espécie de namoro"! Como ela se
fazia vermelha, mal ele entrava! Como o escutava, com uma admiração
babosa! Como arranjava sempre a ficar ao pé dele nas partidas de quino!
Uma manhã, mais inquieto, veio à Rua da Misericórdia, - e
enquanto a S. Joaneira tagarelava na cozinha, disse bruscamente a Amélia:
- Menina Amélia, sabe? Está-me a dar um grande desgosto com essas
maneiras com que trata o Sr. padre Amaro.
Ela ergueu os olhos espantados:
104
- Que maneiras? Ora essa! Então como quer que o trate? É um amigo
da casa, esteve aqui de hóspede...
- Pois sim, pois sim...
- Ah! mas sossegue. Se isso o quezila, verá. Não me torno a
chegar para ao pé do homem.
João Eduardo, tranqüilizado, raciocinou que "não havia
nada". Aqueles modos eram excessos de beatério. Entusiasmo pela
padraria!
Amélia decidiu então disfarçar o que lhe ia no coração: sempre
considerara o escrevente um pouco tapado - e se ele percebera, que
fariam as Gansosos tão finas, e a irmã do cônego que era curtida em
malícia! Por isso mal sentia Amaro na escada, daí por diante, tomava uma
atitude distraída, muito artificial; mas, ai! apenas ele lhe falava com a sua
voz suave ou voltava para ela aqueles olhos negros que lhe faziam correr
estremeções nos nervos, - como uma ligeira camada de neve que se derrete
a um sol muito forte, a sua atitude fria desaparecia, e toda a sua pessoa era
uma expressão contínua de paixão. Às vezes, absorvida no seu enlevo,
esquecia que João Eduardo estava ali; e ficava toda surpreendida quando
ouvia a um canto da sala a sua voz melancólica.
Ela sentia de resto que as amigas da mãe envolviam a sua
"inclinação" pelo pároco numa aprovação muda e afável. Ele era, como
dizia o cônego, o menino bonito: e das maneirinhas e dos olhares das
velhas exalava-se uma admiração por ele que fazia ao desenvolvimento da
paixão de Amélia uma atmosfera favorável. D. Maria da Assunção dizialhe
às vezes ao ouvido:
- Olha para ele! É de inspirar fervor. É a honra do clero. Não
há outro!...
E todas elas achavam em João Eduardo "um presta para
nada"! Amélia então já não disfarçava a sua indiferença por ele: as chinelas
que lhe andava a bordar tinham há muito desaparecido do cesto do
trabalho, e já não vinha à janela vê-lo passar para o cartório.
A certeza agora tinha-se estabelecido na alma de João Eduardo - na
alma, que como ele dizia, lhe andava mais negra que a noite.
- A rapariga gosta do padre, tinha ele concluído. E à dor da
sua felicidade destruída juntava-se a aflição pela honra dela ameaçada.
Uma tarde, tendo-a visto sair da Sé, esperou-a adiante da botica,
e muito decidido:
- Eu quero-lhe falar, menina Amélia... Isto não pode
continuar assim... Eu não posso... A menina traz namoro com o pároco!
Ela mordeu o beiço, toda branca:
- O senhor está a insultar-me! - e queria seguir, toda indignada.
Ele reteve-a pela manga do casabeque: '
105
- Ouça, menina Amélia. Eu não a quero insultar, mas é que não sabe.
Tenho andado, que até se me parte o coração. - E perdeu a voz, de
comovido.
- Não tem razão... Não tem razão, balbuciava ela.
- Jure-me então que não há nada com o padre!
- Pela minha salvação!... Não há nada!... Mas também lhe digo, se
tornar a falar em tal, ou a insultar-me, conto tudo à mamã, e o
senhor escusa de nos voltar a casa.
- Oh menina Amélia...
- Não podemos continuar aqui a falar... Está ali já a D. Micaela
a cocar.
Era uma velha, que levantara a cortina de cassa numa janela baixa, e
espreita-la com olhinhos reluzentes e gulosos, a face toda ressequida
encostada sofregamente á vidraça. Separaram-se então, - e a velha
desconsolada deixou cair a cortina.
Amélia nessa noite - enquanto as senhoras discutiam com
algazarra os missionários que então pregavam na Barrosa - disse baixo a
Amaro, picando vivamente a costura:
- Precisamos ter cautela... Não olhe tanto para mim nem esteja
tão chegado... Já houve quem reparasse.
Amaro recuou logo a cadeira para junto de D. Maria da Assunção; e,
apesar da recomendação de Amélia, os seus olhos não se
despregavam dela, numa interrogação muda e ansiosa, já assustado que as
desconfianças da mãe ou a malícia das velhas "andassem armando
escândalo". Depois do chá, no rumor das cadeiras que se acomodavam ao
quino, perguntou-lhe rapidamente:
- Quem reparou?
- Ninguém. Eu é que tenho medo. É preciso disfarçar.
Desde então cessaram as olhadelas doces, os lugares chegadinhos
à mesa, os segredos; e sentiam um gozo picante em afetar maneiras
frias, tendo a certeza vaidosa da paixão que os inflamava. Era para Amélia
delicioso - enquanto o padre Amaro afastado tagarelava com as senhoras -
adorar a sua presença, a sua voz, as suas graças, com os olhos castamente
aplicados às chinelas de João Eduardo que muito astutamente recomeçara a
bordar.
Todavia o escrevente vivia ainda inquieto: amargurava-o encontrar o
pároco instalado ali todas as noites, com a face próspera, a pema traçada,
gozando a veneração das velhas. "A Ameliazinha, sim, agora portava-se
bem, e era-lhe fiel, era-lhe fiel...": mas ele sabia que o pároco a desejava, a
"cocava"; e apesar do juramento dela pela sua salvação, da certeza que não
havia nada - temia que ela fosse lentamente penetrada por aquela
admiração caturra das velhas, para quem o senhor pároco era um anjo: só
106
se contentaria em arrancar Amélia (já empregado no governo civil) àquela
casa beata: mas essa felicidade tardava a chegar - e saía todas as noites da
Rua da Misericórdia mais apaixonado, com a vida estragada de ciúmes,
odiando os padres, sem coragem para desistir. Era então que se punha a
andar pelas ruas até tarde; às vezes voltava ainda ver as janelas fechadas da
casa dela; ia depois à alameda ao pé do rio, mas o frio ramaIhar das árvores
sobre a água negra entristecia-o mais; vinha então ao bilhar, olhava um
momento os parceiros carambolando, o marcador, muito esguedelhado, que
bocejava encostado ao reste. Um cheiro de mau petróleo sufocava. Saía; e
dirigia-se, devagar, à redação da Voz do Distrito.
X
O redator da Voz do Distrito, o Agostinho Pinheiro, era ainda
seu parente. Chamavam-lhe geralmente o Raquítico, por ter uma forte
corcunda no ombro, e uma figurinha enfezada de ético. Era extremamente
sujo; e a sua carita de fêmea, amarelada, de olhos depravados, revelava
vícios antigos, muito torpes. Tinha feito (dizia-se em Leiria) toda a sorte de
maroteira. E ouvira tantas vezes exclamar: ''Se você não fosse um raquítico,
quebrava-lhe os ossos" - que, vendo na sua corcunda uma proteção
suficiente, ganhara um descaro sereno. Era de Lisboa, o que o tomava mais
suspeito aos burgueses sérios: atribuía-se a sua voz rouca e acre "a faltarlhe
as campainhas": e os seus dedos queimados terminavam em unhas
muito compridas - porque tocava guitarra.
A Voz do Distrito fora criada por alguns homens, a quem
chamavam em Leiria o grupo da Maia, particularmente hostis ao senhor
governador civil. O doutor Godinho, que era o chefe e o candidato do
grupo, tinha encontrado em Agostinho, como ele dizia, o homem que se
precisa: o que o grupo precisava era um patife com ortografia, sem
escrúpulos, que redigisse em linguagem sonora os insultos, as calúnias, as
alusões que eles traziam informemente à redação, em apontamentos.
Agostinho era um estilista de vilezas. Davam-lhe quinze mil-réis por mês e
casa de habitação na redação - um terceiro andar desmantelado numa viela
ao pé da Praça.
Agostinho fazia o artigo de fundo, as locais, a Correspondência
de Lisboa; e o bacharel Prudêncio escrevia o folhetim literário sob o
título de Palestras Leirienses: era um moço muito honrado, a quem o Sr.
Agostinho era repulsivo; mas tinha uma tal gula de publicidade, que se
sujeitava a sentar-se todos os sábados fraternalmente á mesma banca, a
rever as provas da sua prosa - prosa tão florida de imagens, que se
murmurava na cidade, ao lê-la: "Que opulência! Que opulência, Jesus!"
107
João Eduardo reconhecia também que o Agostinho era "um
trastezito"; não se atreveria a passear com ele de dia nas ruas; mas gostava
de ir para a redação, alta noite, fumar cigarros, ouvir o Agostinho falar de
Lisboa, do tempo que lá vivera empregado na redação de dois jornais, no
teatro da Rua dos Condes, numa casa de penhores, e em outras
instituições. Estas visitas eram segredo!
Àquela hora da noite a sala da tipografia no primeiro andar
estava fechada (o jornal tirava-se aos sábados); e João Eduardo encontrava
em cima Agostinho abancado com uma velha jaqueta de peles cujos
colchetes de prata tinham sido empenhados - ruminando, curvado, à luz
dum medonho candeeiro de petróleo, sobre longas tiras de papel: estava
fazendo o jornal, e a sala escura em redor tinha o aspecto duma caverna.
João Eduardo estirava-se no canapé de palhinha, ou indo buscar a um canto
a velha guitarra de Agostinho, repenicava o fado corrido. O jornalista,
no entanto, com a testa apoiada a um punho, produzia laboriosamente:
"a coisa não lhe saía catita": e como nem o fadinho o inspirava, erguiase,
ia a um armário engolir um copinho de genebra que gargarejava nas
fauces estanhadas, espreguiçava-se escancaradamente, acendia o cigarro,
e aproveitando o acompanhamento cantarolava roucamente:
Ora foi o fado tirano
Que me levou à má vida,
E a guitarra: dir-lim, dim, dim, dir-lim, dim, dom.
Na vida do negro fado
Ai! que me traz assim perdida...
Isto trazia-lhe sempre as recordações de Lisboa, porque
terminava por dizer, com ódio:
- Que pocilga de terra, esta!
Não se podia consolar de viver em Leiria, de não poder beber o
seu quartilho na taberna do tio João, à Mouraria, com a Ana Alfaiata
ou com o Bigodinho - ouvindo o João das Biscas de cigarro ao canto
da boca, o olho choroso meio fechado pelo fumo do tabaco, fazer chorar
a guitarra dizendo a morte da Sofia!
Depois, para se reconfortar com a certeza do seu talento, lia a
João Eduardo os seus artigos, muito alto. E João interessava-se - porque
essas "produções", sendo ultimamente sempre "desandas ao clero",
correspondiam às suas preocupações.
Era por esse tempo que, em virtude da famosa questão da
Misericórdia, o doutor Godinho se tomara muito hostil ao cabido e à
padraria. Sempre detestara padres; tinha uma má doença de fígado, e como
108
a Igreja o fazia pensar no cemitério, odiava a sotaina, porque lhe parecia
uma ameaça da mortalha. E Agostinho que tinha um profundo depósito de
fel a derramar, instigado pelo doutor Godinho, exagerava as suas verrinas:
mas, com o seu fraco literário, cobria o vitupério de tão espessas camadas
de retórica que, como dizia o cônego Dias, "aquilo era ladrar, não era
morder!"
Uma dessas noites João Eduardo encontrou Agostinho todo
entusiasmado com um artigo que compusera de tarde, e que lhe "saíra
cheio de piadas à Vítor Hugo!"
- Tu verás! Coisa de sensação!
Como sempre, era uma declamação contra o clero e o elogio do
doutor Godinho. Depois de celebrar as virtudes do doutor, "esse tão
respeitável chefe de família" e a sua eloquência no tribunal que "arrancara
tantos desventurados ao cutelo da lei", o artigo, tomando um tom roncante,
apostrofava Cristo: - "Quem te diria a ti (bradava Agostinho), ó imortal
Crucificado! quem te diria, quando do alto do Gólgota expiravas
exangue, quem te diria que um dia, em teu nome, à tua sombra, seria
expulso dum estabelecimento de caridade o doutor Godinho, - a alma mais
pura, o talento mais robusto..." - E as virtudes do doutor Godinho
voltavam, em passo de procissão, solenes e sublimadas, arrastando caudas
de adjetivos nobres.
Depois, deixando por um momento de contemplar o doutor Godinho,
Agostinho dirigia-se diretamente a Roma: - "É no século XIX que vindes
atirar à face de 1,eiria liberal os ditames do Syllabus? Pois bem. Quereis a
guerra? Tê-la-eis!"
- Hem, João?! dizia. Está forte! Está filosófico!
E retomando a leitura: - "Quereis a guerra? Tê-la-eis! Levantaremos bem
alto o nosso estandarte, que não é o da demagogia, compreendei-o bem! e
arvorando-o, com braço firme, no mais alto baluarte das liberdades
públicas, gritaremos à face de Leiria, à face da Europa: Filhos do século
XIX! às armas! Às armas, pelo progresso!"
- Hem? Está de os enterrar!
João Eduardo, que ficara um momento calado, disse então,
levantando as suas expressões em harmonia com a prosa sonora do
Agostinho:
- O clero quer-nos arrastar aos funestos tempos do obscurantismo!
Uma frase tão literária surpreendeu o jornalista: fitou João
Eduardo, disse:
- Por que não escreves tu alguma coisa, também?
O escrevente respondeu, sorrindo:
- E eu, Agostinho, eu é que te escrevia uma desanda aos padres... E
eu tocava-lhes os podres. Eu é que os conheço!...
109
Agostinho instou logo com ele para que escrevesse a desanda.
- Vem a calhar, menino!
O doutor Godinho ainda na véspera lhe recomendara: - "Em tudo que
cheirar a padre, para baixo! Havendo escândalo, conta-se! não
havendo, inventa-se!"
E Agostinho acrescentou, com benevolência:
- E não te dê cuidado o estilo, que eu cá o florearei!
- Veremos, veremos, murmurou João Eduardo.
Mas daí por diante Agostinho perguntava-lhe sempre:
- E o artigo, homem? Traz-me o artigo.
Tinha avidez dele, porque sabendo como João Eduardo vivia na
intimidade da "panelinha canônica da S. Joaneira", supunha-o no
segredo de infâmias especiais.
João Eduardo, porém, hesitava. Se se viesse a saber?
- Qual! afirmava Agostinho. A coisa publica-se como minha.
É artigo da redação. Quem diabo vai saber?
Sucedeu na noite seguinte que João Eduardo surpreendeu o
padre Amaro resvalando sorrateiramente um segredinho a Amélia - e ao
outro dia apareceu de tarde na redação com a palidez de uma noite velada,
trazendo cinco largas tiras de papel, miudamente escritas numa letra de
cartório. Era o artigo, e intitulava-se: Os modernos fariseus! - Depois de
algumas considerações, cheias de flores, sobre Jesus e o Gólgota, o artigo
de João Eduardo era, sob alusões tão diáfanas como teias de aranha, um
vingativo ataque ao cônego Dias, ao padre Brito, ao padre Amaro e ao
padre Natário!... Todos tinham a sua dose, como exclamou cheio de júbilo
o Agostinho.
- E quando sai? perguntou João Eduardo.
O Agostinho esfregou as mãos, refletiu, disse:
- É que está forte, diabo! É como se tivesse os nomes próprios! Mas
descansa, eu arranjarei.
Foi cautelosamente mostrar o artigo ao doutor Godinho - que
o achou "uma catilinária atroz". Entre o doutor Godinho e a Igreja
havia apenas um arrufo: ele reconhecia, em geral, a necessidade da religião
entre as massas; sua esposa, a bela D. Cândida, era além disso de
inclinações devotas, e começava a dizer que aquela guerra do jornal ao
clero lhe causava grandes escrúpulos: e o doutor Godinho não queria
provocar ódios desnecessários entre os padres, prevendo que o seu amor da
paz doméstica, os interesses da ordem e o seu dever de cristão o forçariam
bem cedo a uma reconciliação, - "muito contra as suas opiniões, mas..."
Disse por isso a Agostinho secamente:
- Isto não pode ir como artigo da redação, deve aparecer
como comunicado. Cumpra estas ordens.
110
E Agostinho declarou ao escrevente - que a coisa publicava-se como
um Comunicado, assinado: Um liberal. Somente João Eduardo terminava o
artigo exclamando: - Alerta, mães de família! O Agostinho sugeriu que este
final alerta podia dar lugar à réplica jocosa - Alerta está! E depois de largas
combinações decidiram-se por este fecho: - Cuidado, sotainas negras!
No domingo seguinte apareceu o comunicado assinado: Um liberal.
···
Durante toda essa manhã de domingo, o padre Amaro, à volta da Sé,
estivera ocupado em compor laboriosamente uma carta a Amélia.
Impaciente, como ele dizia, "com aquelas relações que não andavam nem
desandavam, que era olhar e apertos de mão e dali não passava" - tinhalhe
dado uma noite, à mesa do quino, um bilhetinho onde escrevera com
boa letra, a tinta azul; - Desejo encontrá-la só, porque tenho muito que
lhe falar. Onde pode ser sem inconveniente? Deus proteja o nosso afeto.
Ela não respondera: - E Amaro despeitado, descontente também por não
a ter visto nessa manhã à missa das nove, resolveu "pôr tudo a claro
numa carta de sentimento": e preparava os períodos sentidos que lhe
deviam ir revolver o coração, passeando pela casa, juncando o chão de
pontas de cigarro, a cada momento curvado sobre o Dicionário de
Sinônimos.
"Ameliazinha do meu coração, (escrevia ele) não posso
atinar com as razões maiores que a não deixaram responder ao
bilhetinho que lhe dei em casa da senhora sua mamã; pois que era
pela muita necessidade que tinha de lhe falar a sós, e as minhas
intenções eram puras, e na inocência desta a/ma que tanto lhe
quer e que não medita o pecado.
Deve ter compreendido que lhe voto um fervente afeto, e
pela sua parte me parece, (se não me enganam esses olhos que
são os faróis da minha vida, e como a estrela do navegante) que
também tu, minha Ameliazinha, tens inclinação por quem tanto te
adora; pois que até outro dia, quando o Libano quinou com os
seis primeiros números, e que todos fizeram tanta algazarra, tu
apertaste-me a mão por baixo da mesa com tanta ternura, que até
me pareceu que o Céu se abria e que eu sentia os anjos entoarem
o Hossana! Por que não respondeste pois? Se pensas que o nosso
afeto pode ser desagradável aos nossos anjos da guarda, então te
direi que maior pecado cometes trazendo-me nesta incerteza e
tortura, que até na celebração da missa estou sempre com o
pensar em ti, e nem me deixa elevar a minha a/ma no divino
111
sacrifício. Se eu visse que este mútuo afeto era obra do tentador,
eu mesmo te diria: oh, minha bem amada filha, façamos o
sacrifício a Jesus, para lhe pagar parte do sangue que derramou
por nós! Mas eu tenho interrogado a minha a/ma e vejo nela a
brancura dos lírios. E o teu amor também é puro como a tua
a/ma, que um dia se unirá à minha, entre os coros celestes, na
bem-aventurança. Se tu soubesses como eu te quero, querida
Ameliazinha, que até às vezes me parece que te podia comer aos
bocadinhos! Responde pois e dize se não te parece que poderia
arranjar-se a vermo-nos no Morena/, pela tarde. Pois eu anseio
por te exprimir todo o fogo que me abrasa, bem como falar-te de
coisas importantes, e sentir na minha mão a tua que eu desejo que
me guie pelo caminho do amor, até aos êxtases duma felicidade
celestial. Adeus, anjo feiticeiro, recebe a oferta do coração do teu
amante e pai espiritual,
Amaro."
Depois de jantar copiou esta carta a tinta azul, e com ela bem
dobrada no bolso da batina foi à Rua da Misericórdia. Logo da escada
sentiu em cima a voz aguda de Natário, discutindo.
- Quem está por cá? - perguntou à Ruça, que alumiava, encolhida no
seu xale.
-.As senhoras todas. Está o Sr, padre Brito.
- Olá! Bela sociedade!
Galgou os degraus, e à porta da sala, com o seu capote ainda
pelos ombros, tirando alto o chapéu:
- Muito boas noites a todos, começando pelas senhoras.
Natário, imediatamente, plantou-se diante dele e exclamou:
- Então que lhe parece?
- O quê? perguntou Amaro. E reparando no silêncio, nos olhos
cravados nele: - O que é? Alguma coisa de novo?
- Pois não leu, senhor pároco? exclamaram. Não leu o Distrito!?
Era papel em que ele não pusera os olhos, disse. Então as
senhoras indignadas romperam:
- Ai! é um desaforo!
- Ai! é um escândalo, senhor pároco!
Natário com as mãos enterradas nas algibeiras contemplava o
pároco com um sorrizinho sarcástico, saltando dentre os dentes:
- Não leu! Não leu! Então que fez?
Amaro reparava, já aterrado, na palidez de Amélia, nos seus
olhos muito vermelhos. E enfim o cônego erguendo-se pesadamente:
112
- Amigo pároco, dão-nos uma desanda...
- Ora essa! exclamou Amaro.
- Tesa!
O senhor cônego, que trouxera o jornal, devia ler alto - lembraram.
- Leia, Dias, leia, acudiu Natário. Leia, para saborearmos!
A S. Joaneira deu mais luz ao candeeiro: o cônego Dias acomodouse
à mesa, desdobrou o jornal, pôs os óculos cuidadosamente, e, com
o lenço do rapé nos joelhos, começou a leitura do Comunicado na sua
voz pachorrenta.
O princípio não interessava: eram períodos enternecidos em que
o liberal exprobrava aos fariseus a crucificação de Jesus: - "Por que
o matásteis? (exclamava ele). Respondei!" E os fariseus respondiam: -
"Matamo-lo porque ele era a liberdade, a emancipação, a aurora de uma
nova era", etc. O liberal então esboçava, a largos traços, a noite do
Calvário: - "Ei-lo pendente da cruz, traspassado de lanças, a sua túnica
jogada aos dados, a plebe infrene", etc. E, voltando a dirigir-se aos fariseus
infelizes, o liberal gritava-lhes com ironia: - "Contemplai a vossa bela
obra!" Depois, por uma gradação hábil, o liberal descia de Jerusalém a
Leiria: - "Mas pensam os leitores que os fariseus morreram? Como se
enganam! Vivem! conhecemo-los nós; Leiria está cheia deles, e vamos
apresentá-los aos leitores..."
- Agora é que elas começam, disse o cônego olhando para todos em
redor, por cima dos óculos.
Com efeito "elas começavam"; era, numa forma brutal, uma
galeria de fotografias eclesiásticas: a primeira era a do padre Brito: -
"Vede-o, (exclamava o liberal) grosso como um touro, montado na sua
égua castanha..."
- Até a cor da égua! murmurou com uma indignação piedosa a
Sra. D. Maria da Assunção.
"... Estúpido como um melão, sem sequer saber latim..."
O padre Amaro, assombrado, fazia: Oh! oh! E o padre Brito,
escarlate, mexia-se na cadeira, esfregando devagar os joelhos.
"... Espécie de caceteiro", continuava o cônego, que lia aquelas frases
cruéis com uma tranqüilidade doce, "desabrido de maneiras, mas que não
desgosta de se dar à ternura, e, segundo dizem os bem
informados, escolheu para Dulcinéia a própria e legítima esposa do seu
regedor..."
O padre Brito não se dominou:
- Eu racho-o de meio a meio! exclamou erguendo-se e
recaindo pesadamente na cadeira.
- Escute, homem, disse Natário.
- Qual escute! O que é, é que o racho!
113
Mas se ele não sabia quem era o liberal!
- Qual liberal! Quem eu racho é o doutor Godinho. O doutor
Godinho é que é o dono do jornal. O doutor Godinho é que eu racho!
A sua voz tinha tons roucos: e atirava furioso grandes palmadas
à coxa.
Lembraram-lhe o dever cristão de perdoar as injúrias! A S.
Joaneira com unção citou a bofetada que Jesus Cristo suportou. Devia
imitar Cristo.
- Qual Cristo, qual cabaça! gritou Brito apoplético.
Aquela impiedade criou um terror.
- Credo! Sr, padre Brito, credo! exclamou a irmã do
cônego, recuando a cadeira.
O Libaninho, com as mãos na cabeça, vergado sob o desastre,
murmurava:
- Nossa Senhora das Dores, que até pode cair um raio!
E, vendo mesmo Amélia indignada, o padre Amaro disse
gravemente:
- Brito, realmente você excedeu-se.
- Pois se estão a puxar por mim!...
- Homem, ninguém puxou por você, disse severamente Amaro.
E com um tom pedagogo: - Apenas lhe lembrarei, como devo, que em
tais casos, quando se diz a blasfêmia má, o reverendo padre Scomelli
recomenda confissão geral e dois dias de recolhimento a pão e água.
O padre Brito resmungava.
- Bem, bem, resumiu Natário. O Brito cometeu uma grande
falta, mas saberá pedir perdão a Deus, e a misericórdia de Deus é infinita!
Houve uma pausa comovida, em que se ouviu a Sra. D. Maria
da Assunção murmurar "que ficara sem pinga de sangue": e o cônego,
que durante a catástrofe pousara os óculos sobre a mesa, retomou-os, e
continuou serenamente a leitura:
"...Conheceis um outro com cara de furão?..."
Olhares de lado fixaram o padre Natário.
"...Desconfiai dele: se puder trair-vos, não hesita; se puder
prejudicar-vos, folga; as suas intrigas trazem o cabido numa confusão
porque é a víbora mais daninha da diocese, mas com tudo isso muito dado à
jardinagem, porque cultiva com cuidado duas rosas do seu canteiro."
- Homem, essa! exclamou Amaro.
- É para que você veja, disse Natário erguendo-se lívido. Que
lhe parece? Você sabe que eu, quando falo das minhas sobrinhas,
costumo dizer as duas rosas do meu canteiro. É um gracejo. Pois,
senhores, até vem com isto! - E com um sorriso macilento, de fel: - Mas
amanhã hei-de saber quem é! Olaré! Eu hei-de saber quem é!
114
- Deite ao desprezo, Sr. padre Natário, deite ao desprezo, disse a S.
Joaneira pacificadora.
- Obrigado, minha senhora, acudiu Natário curvando-se com
uma ironia rancorosa, obrigado! Cá recebi!
Mas a voz imperturbável do cônego retomara a leitura. Agora era
o retrato dele, traçado com ódio:
"...Cônego bojudo e glutão, antigo caceteiro do Sr. D. Miguel,
que foi expulso da freguesia de Ourém, outrora mestre de Moral num
seminário e hoje mestre de imoralidade em Leiria..."
- Isso é infame! exclamou Amaro exaltado.
O cônego pousou o jornal, e com a voz pachorrenta:
- Você pensa que me dá isto cuidado? disse ele. Boa! Tenho
que comer e que beber, graças a Deus! Deixar rosnar quem rosna!
- Não, mano, interrompeu a irmã, mas a gente sempre tem o
seu bocadinho de brio!
- ora, mana! replicou o cônego Dias com um azedume de raiva
concentrada. Ora, mana! ninguém lhe pede a sua opinião!
- Nem preciso que ma peçam, gritou ela empertigando-se. Sei-a
dar muito bem quando quero e como quero. Se não tem vergonha, tenho-a
eu!
- Então! então! disseram em roda, acalmando-a.
- Menos língua, mana, menos língua! disse o cônego fechando
os seus óculos. Olhe, não lhe caiam os dentes postiços!
- Seu malcriado!
Ia falar, mas sufocou-se; e começou subitamente a soltar ais.
Recearam logo que lhe desse o flato; a S. Joaneira e a D.
Joaquina Gansoso levaram-na para o quarto, embaixo, amparando-a, com
palavras brandas:
- Estás doida! Por quem és, filha! Olha que escândalo!
Nossa Senhora te valha!
Amélia mandava buscar água de flor de laranja.
- Deixe-a lá, rosnou o cônego, deixe-a lá! Aquilo passa-lhe.
São calores!
Amélia deu um olhar triste ao padre Amaro, e desceu ao quarto
com a Sra. D. Maria da Assunção e a Gansoso surda, que iam também
"sossegar a D. Josefa, coitadita!" Os padres agora estavam sós e o cônego
voltando-se para Amaro: - Ouça você, que é a sua vez - disse retomando o
jornal.
- E verá que dose! disse Natário.
O cônego escarrou, aproximou mais o candeeiro, e declamou:
"... Mas o perigo são certos padres novos e ajanotados, párocos
por influências de condes da capital, vivendo na intimidade das famílias de
115
bem onde há donzelas inexperientes, e aproveitando-se da influência do
seu sagrado ministério para lançar na alma da inocente a semente de
chamas criminosas!"
- Pouca vergonha! murmurou Amaro lívido.
"... Dize, sacerdote de Cristo, onde queres arrastar a impoluta
virgem? Queres arrastá-la aos lodaçais do vício? Que vens fazer aqui ao
seio desta respeitável família? Por que rondas em volta da tua presa, como
o milhafre em torno da inocente pomba? Para trás, sacrílego! Murmuraslhe
sedutoras frases, para a desviares do caminho da honra; condenas á
desgraça e á viuvez algum honrado moço que lhe queira oferecer a sua
mão trabalhadora; e vais-lhe preparando um horroroso futuro de lágrimas.
E tudo para quê? Para saciares os torpes impulsos da tua criminosa
lascívia..."
- Que infame! rosnou com os dentes cerrados o padre Amaro.
"...Mas acautela-te, presbítero perverso!" E a voz do cônego
tinha tons cavos ao soltar aquelas apóstrofes. "Já o arcanjo levanta a
espada da justiça. E sobre ti, e teus cúmplices, já a opinião da ilustrada
Leiria fita seu olho imparcial. E nós cá estamos, nós, filhos do trabalho,
para vos marcar na fronte o estigma da infâmia. Tremei, sectários do
Syllabus! cuidado, sotainas negras!"
- De escacha! fez o cônego suado, dobrando a Voz do Distrito.
O padre Amaro tinha os olhos enevoados de duas lágrimas de
raiva: passou devagar o lenço pela testa, soprou, disse com os beiços a
tremer:
- Eu, colegas, nem sei o que hei-de dizer! Pelo Deus que me
ouve, isto é a calúnia das calúnias.
- Uma calúnia infame... rosnaram.
- E a mim, o que me parece, continuou Amaro, é que nos dirijamos à
autoridade!
- É o que eu tinha dito, acudiu Natário, é necessário falar ao
secretário-geral...
- Um cacete é que é! rugiu o padre Brito. Autoridade! O que é,
é rachá-lo! Eu bebia-lhe o sangue!...
O cônego, que meditava coçando o queixo, disse então:
- E você, Natário, é que deve ir ao secretário-geral. Você tem língua,
tem lógica...
- Se os colegas decidem, disse Natário curvando-se, vou. E hei-delhas
cantar, à autoridade!
Amaro ficara junto da mesa com a cabeça entre as mãos, aniquilado. E o
Libaninho murmurava:
- Ai, filhos, eu não é nada comigo, mas só de ouvir todo esse aranzel,
até se me estão a vergar as pernas. Ai, filhos, um desgosto assim...
116
Mas sentiram a voz da Sra. Joaquina Gansoso subindo a escada; e o
cônego imediatamente com uma voz prudente:
- Colegas, o melhor, diante das senhoras, é não se falar mais
nisto. Bem basta o que basta.
Daí a momentos, apenas Amélia entrou, Amaro ergueu-se,
declarou que estava com uma forte dor de cabeça, e despediu-se das
senhoras.
- E sem tomar chá? acudiu a S. Joaneira.
- Sim, minha senhora, disse ele embrulhando-se no seu capote,
não me estou a sentir bem. Boas noites... E você, Natário, apareça
amanhã pela Sé à uma hora.
Apertou a mão de Amélia, que se lhe abandonou entre os dedos
passiva e mole, - e saiu com os ombros vergados.
A S. Joaneira notou, desconsolada:
- O senhor pároco ia muito pálido...
O cônego levantou-se, e com um tom impaciente e quezilado:
- Se ia pálido, amanhã estará corado. E agora quero dizer uma coisa.
Esse aranzel do jornal é a calúnia das calúnias! Eu não sei quem
o escreveu, nem para que o escreveu. Mas são tolices e são infâmias. É
pateta e maroto, quem quer que seja. O que devemos fazer já o sabemos, e
como já se tagarelou bastante sobre o caso, a senhora mande vir o chá. E o
que lá vai, lá vai, não se fala mais na questão.
As faces em roda continuavam contristadas. - E então o
cônego acrescentou:
- Ah! e quero dizer outra coisa: como não morreu ninguém, não há
necessidade de estar aqui com cara de pêsames. E tu, pequena, senta- te ao
instrumento e repenica-me essa Chiquita!
···
O secretário-geral, o Sr. Gouveia Ledesma, antigo jornalista, e,
em anos mais expansivos, autor do livro sentimental Devaneios de um
Sonhador, estava então dirigindo o distrito na ausência do governador civil.
Era um moço bacharel que passava por ter talento. Representara
de galã no teatro acadêmico, em Coimbra, com muito aplauso; e tomara
a esse tempo o hábito de passear à tarde na Sofia, com o ar fatal com
que no palco arrepelava os cabelos, ou levava, nos transes de amor, o
lenço aos olhos. Depois em Lisboa arruinara um pequeno patrimônio com
o amor de Lolas e de Carmens, ceias no Mata, muita caça no Xafredo e
perniciosas convivências literárias: aos trinta anos estava pobre, saturado
de mercúrio e autor de vinte folhetins românticos na Civilização: mas
tornara- se tão popular, que era conhecido nos lupanares e nos cafés por um
117
cognome carinhoso - era o Bibi. Julgando então que conhecia a fundo a
existência, deixou crescer as suíças, começou a citar Bastiat, freqüentou
as câmaras e entrou na carreira administrativa; chamava agora à
república que tanto exaltara em Coimbra uma absurda quimera; e Bibi era
um pilar das instituições.
Detestava Leiria, onde passava por espirituoso; e dizia às
senhoras, nas soirées do deputado Novais - "que estava cansado da vida".
Rosnava- se que a esposa do bom Novais andava doida por ele: e em
verdade Bibi escrevera a um amigo da capital: - "enquanto a conquistas,
pouco por ora; tenho apenas no papo a Novaisitos".
Levantava-se tarde; e nessa manhã, de robe-de-chambre à mesa
do almoço, partia os seus ovos quentes, lendo com saudade no jornal a
narração apaixonada duma pateada em S. Carlos, quando o criado, - um
galego que trouxera de Lisboa - veio dizer que "estava ali um cura".
- Um cura? Que entre para aqui! - E murmurou para sua satisfação
pessoal: - o Estado não deve fazer esperar a Igreja.
Ergueu-se, e estendeu as duas mãos ao padre Natário que
entrava, muito composto, na sua longa batina de lustrina.
- Uma cadeira, Trindade! Toma uma chávena de chá, senhor
cura? Soberba manhã, hem? Estava justamente pensando em si, - isto é,
estava pensando no clero em geral... Acabava de ler as peregrinações que
se estão fazendo a Nossa Senhora de Lourdes... Grande exemplo! Milhares
de pessoas da melhor roda... É realmente consolador ver renascer a fé...
Ainda ontem eu disse em casa do Novais: "No fim de tudo a fé é a mola
real da sociedade". Tome uma chávena de chá... Ah! é um grande
bálsamo!...
- Não, obrigado, almocei já.
- Mas não! Quando digo um grande bálsamo refiro-me à fé, não ao
chá! Ah! ah! É boa, não?
E prolongou a sua risadinha com complacência. Queria agradar a Natário,
pelo princípio que repetia muito, com um sorriso astuto - "que quem está
metido na política deve ter por si a padraria".
- E depois, acrescentou, como eu dizia ontem em casa do
Novais, que vantagem para as localidades! Lourdes, por exemplo, era uma
aldeola; pois com a afluência dos devotos está uma cidade... Grandes
hotéis, bulevares, belas lojas... É por assim dizer o desenvolvimento
econômico, correndo parelhas com o renascimento religioso.
E deu com satisfação um puxãozinho grave ao colarinho.
- Pois eu vinha aqui falar a V. Ex.a a respeito dum comunicado
na Voz do Distrito.
118
- Ah! interrompeu o secretário-geral, perfeitamente, li! Uma
famosa verrina... Mas literariamente, como estilo e como imagens, que
miséria!
- E que tenciona V. Ex.a fazer, senhor secretário-geral?
O Sr. Gouveia Ledesma apoiou-se nas costas da cadeira,
perguntou pasmado:
- Eu?
Natário disse, destilando as palavras:
- A autoridade tem o dever de proteger a religião do Estado,
e implicitamente os seus sacerdotes... Que tenha V. Ex.a em vista, eu
não venho aqui em nome do clero...
E acrescentou com a mão sobre o peito:
- Sou apenas um pobre padre sem influência... Venho, como
particular, perguntar ao senhor secretário-geral se se pode permitir que
caracteres respeitáveis da Igreja diocesana sejam assim difamados...
- É certamente lamentável que um jornal...
Natário interrompeu, empertigando o busto com indignação:
- Jornal que já devia estar suspenso, senhor secretário-geral!
- Suspenso! Por quem é, senhor cura! Mas V. St decerto não
quer que eu volte ao tempo dos corredores-mores! - Suspender o jornal!
Mas a liberdade de imprensa é um princípio sagrado! Nem as leis de
imprensa o permitem... Mesmo querelar pelo ministério público porque um
periódico diz duas ou três pilhérias sobre o cabido, impossível! Tínhamos
de querelar toda a imprensa de Portugal, com exceção da Nação e do
Bem Público! Onde iria parar a liberdade de pensamento, trinta anos de
progresso, a própria idéia governamental? Mas nós não somos os
Cabrais, meu caro senhor! Nós queremos luz, muitíssima luz! Justamente o
que nós queremos é luz!
Natário tossiu devagarinho, disse:
- Perfeitamente. Mas então quando pelas eleições, a autoridade
nos vier pedir o nosso auxilio, nós vendo que não encontramos nela
proteção, diremos simplesmente: "Non possumus!"
- E pensa o senhor cura, que por amor de alguns votos que dão
os senhores abades, nós vamos trair a civilização?
E o antigo Bibi, tomando uma grande atitude, soltou esta frase:
- Somos filhos da liberdade, não renegaremos nossa mãe!
- Mas o doutor Godinho, que é a alma do jornal, é oposição,
observou então Natário; proteger-lhe o jornal é implicitamente proteger-lhe
as manobras...
O secretário-geral teve um sorriso:
- Meu caro senhor cura, V. St não está no segredo da política. Entre o
doutor Godinho e o governo civil não há inimizade, há apenas um arrufo...
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O doutor Godinho é uma inteligência... Vai reconhecendo que o grupo da
Maia não produz nada... O doutor Godinho aprecia a política do governo, e
o governo aprecia o doutor Godinho.
E, rebuçando-se todo num mistério de Estado, acrescentou:
- Coisas de alta política, meu caro senhor.
Natário ergueu-se:
- De modo que...
- Impossibilis est, disse o secretário. De resto acredite, senhor
cura, que, como particular, revolto-me contra o Comunicado; mas como
autoridade devo respeitar a expressão do pensamento... Mas creia, e pode
dizê-lo a todo o clero diocesano, a Igreja católica não tem um filho mais
fervente que eu, Gouveia Ledesma... Quero porém uma religião liberal,
de harmonia com o progresso, com a ciência... Foram sempre as minhas
idéias; preguei-as bem alto, na imprensa, na universidade e no grêmio...
Assim, por exemplo, não acho que haja poesia maior que a poesia do
cristianismo! E admiro Pio IX, uma grande figura! Somente lamento que
ele não arvore a bandeira da civilização! - E o antigo Bibi, contente da sua
frase, repetia-a: - Sim, lamento que ele não arvore a bandeira da
civilização... O Syllabus é impossível neste século de eletricidade, senhor
cura! E a verdade é que nós não podemos querelar dum jornal, porque ele
diz duas ou três pilhérias sobre o sacerdócio, nem nos convém, por altas
razões de política, escandalizar o doutor Godinho. Aqui tem o meu
pensamento.
- Senhor secretário-geral, disse Natário curvando-se.
- Um criado de V. S.a. Sinto que não tome uma chávena de chá.
E como vai o nosso chantre?
- S. Ex. a nestes últimos dias, segundo creio, tem tornado a sofrer de
tonturas.
- Sinto. Uma negligência também! Grande latinista... Tenha cuidado
com o degrau!...
Natário correu à Sé, com um passo nervoso, resmungando alto
de cólera. Amaro passeava devagar no terraço, com as mãos atrás das
costas: tinha as olheiras batidas e a face envelhecida.
- Então? disse ele, indo rapidamente ao encontro de Natário.
- Nada!
Amaro mordeu o beiço: e enquanto Natário lhe contava, excitado, a
conversação com o secretário-geral, "e como argumentara com ele, e como
o homem tagarelara, tagarelara", - a face do pároco cobria-se duma sombra
desconsolada, e ia arrancando raivosamente, com a ponta do guarda-sol, a
erva que crescia nas fendas do terraço.
- Um patarata! resumiu o padre Natário com um grande gesto. Pela
autoridade não se faz nada. É escusado... Mas a questão agora é entre mim
120
e o liberal, padre Amaro! Eu hei-de saber quem é, padre Amaro! E quem o
esmaga sou eu, padre Amaro, sou eu!...
···
No entanto, João Eduardo desde o domingo triunfava; o artigo
fizera escândalo: tinham-se vendido oitenta números avulsos do jornal, e o
Agostinho afirmara-lhe que na botica da Praça a opinião era "que o
liberal conhecia a padraria a fundo e tinha cabeça" ! _
- És um gênio, rapaz, disse o Agostinho. É trazer-me outro, é trazerme
outro!
João Eduardo gozava prodigiosamente "daquele falatório que ia pela
cidade".
Relia então o artigo com uma deleitação paternal; se não
receasse escandalizar a S. Joaneira, desejaria ir pelas lojas dizer bem alto:
fui eu, eu é que o escrevi! - e já ruminava outro, mais terrível, que se
deveria intitular: O diabo feito eremita, ou O sacerdócio de Leiria perante
o século XIX!
O doutor Godinho encontrara-o na Praça, e parara com
condescendência, para lhe dizer:
- A coisa tem feito barulho. Você é o diabo! E a piada ao Brito é bem
jogada. Que eu não sabia... E diz que é bonita, a mulher do regedor...
- V. Ex.a não sabia?
- Não sabia, e saboreei. Você é o diabo! Eu fui que disse ao
Agostinho que publicasse a coisa como um comunicado. Você
compreende... Eu não me convém ter turras de mais com o clero... E depois
lá minha esposa tem seus escrúpulos... Enfim, é melhor e é conveniente que
as mulheres tenham religião... Mas no meu foro interior saboreei...
Sobretudo a piada ao Brito. O patife fez-me uma guerra dos diabos na
eleição passada... Ah! e outra coisa, o seu negócio arranja-se. Lá para o
mês que vem tem o seu emprego no governo civil.
- Oh, senhor doutor, V. Ex.a....
- Qual história, você é um benemérito!
João Eduardo foi para o cartório, trêmulo de alegria. O Sr.
Nunes Ferral saíra: o escrevente aparou devagar uma pena, começou a
cópia duma procuração, - e de repente, agarrando o chapéu, correu à Rua
da Misericórdia.
A S. Joaneira costurava só á janela: Amélia fora ao Morenal: e
João Eduardo, logo da porta:
- Sabe, D. Augusta? Estive agora com o doutor Godinho. Diz que lá
para o mês que vem tenho o meu emprego...
A S. Joaneira tirou a luneta, deixou cair as mãos no regaço:
121
- Que me diz?...
- É verdade, é verdade...
E o escrevente esfregava as palmas, com risinhos nervosos de júbilo.
- Que pechincha! exclamou. De modo que agora, se a
Ameliazinha estiver de acordo...
- Ai! João Eduardo! fez a S. Joaneira com um grande suspiro, que me
tira um peso do coração... Que tenho estado... Olhe, nem tenho dormido!...
João Eduardo pressentiu que ela ia falar do Comunicado. Foi pôr
o chapéu numa cadeira ao canto; e voltando à janela, com as mãos nos
bolsos:
- Então por quê, por quê?
- Aquela pouca-vergonha no Distrito! Que diz você? Aquela calúnia!
Ai! tenho-me feito velha!
João Eduardo escrevera o artigo sob as solicitações do ciúme, só para
"enterrar" o padre Amaro; não previra o desgosto das duas senhoras; e
vendo agora a S. Joaneira com duas lágrimas no branco dos olhos, sentia-se
quase arrependido. Disse ambiguamente:
- Eu li, é o diabo...
Mas aproveitando o sentimento da S. Joaneira para servir a sua
paixão, acrescentou sentando-se, chegando a cadeira para ao pé dela:
- Eu nunca lhe quis falar disso, D. Augusta, mas... olhe que
a Ameliazinha tratava o pároco com muita familiaridade... E pelas
Gansosos, pelo Libaninho, mesmo sem quererem, a coisa ia-se sabendo, iase
rosnando... Eu bem sei que ela, coitada, não via o mal, mas... a D.
Augusta sabe o que é Leiria. Que línguas, hem!
A S. Joaneira então declarou que lhe ia falar como a um filho:
o artigo afligira-a, sobretudo por causa dele, João Eduardo. Porque
enfim ele podia acreditar também, desfazer o casamento, e que desgosto! E
ela podia dizer-lhe como mulher de bem, como mãe, que não havia entre
a pequena e o senhor pároco, nada, nada, nada! Era a rapariga que
tinha aquele gênio comunicativo! E o pároco tinha boas palavras, sempre
muito delicado... Que ela sempre o dissera, o Sr. padre Amaro tinha
maneiras que tocavam o coração...
- Decerto, disse João Eduardo mordendo o bigode, com a
cabeça baixa.
A S. Joaneira então pôs a mão de leve sobre o joelho do escrevente, e
fitando-o:
- E olhe, não sei se me fica mal dizer-lho, mas a rapariga querlhe
deveras, João Eduardo.
O coração do escrevente teve uma palpitação comovida.
- E eu! disse. A D. Augusta sabe a paixão que eu tenho por ela... E lá
do artigo que me importa a mim?
122
Então a S. Joaneira limpou os olhos ao avental branco. Ai! era
uma alegria para ela! Ela sempre o dissera, como rapaz de bem, não havia
outro na cidade de Leiria! .
- Você sabe, quero-lhe como filho!
O escrevente enterneceu-se:
- Pois vamos a isso, e tapam-se as bocas do mundo... E erguendo- se,
com uma solenidade engraçada:
- Sra. D. Augusta! Tenho a honra de lhe pedir a mão...
Ela riu-se, - e na sua alegria João Eduardo beijou-a na testa,
filialmente.
- E fale à noite à Ameliazinha, disse ao sair. Eu venho amanhã,
e felicidade não há-de faltar...
- Louvado seja Nosso Senhor, acrescentou a S. Joaneira retomando a
sua costura, com um suspiro de muito alivio.
Apenas, nessa tarde, Amélia voltou do Morenal, a S. Joaneira,
que estava pondo a mesa, disse-lhe:
- Esteve ai o João Eduardo...
- Ah!...
- Ai esteve a falar, coitado...
Amélia, calada, dobrava a sua manta de lã.
- Aí esteve a queixar-se, continuou a mãe.
- Mas de quê? perguntou ela muito vermelha.
- Ora de quê! Que se falava muito na cidade do artigo do
Distrito; que se perguntava a quem aludia o periódico com as donzelas
inexperientes, e que a resposta era: "Quem há-de ser? a Amélia da S.
Joaneira, da Rua da Misericórdia!" O pobre João diz que tem andado tão
desgostoso!... Não se atrevia, por delicadeza, a falar-te... Enfim...
- Mas que hei-de eu fazer, minha mãe? exclamou Amélia com
os olhos subitamente cheios de lágrimas, àquelas palavras que caíam
sobre os seus tormentos como gotas de vinagre sobre feridas.
- Eu digo-te isto para seu governo. Faz o que quiseres, filha. Eu bem
sei que são calúnias! Mas tu sabes o que são línguas do mundo... O que te
posso dizer é que o rapaz não acreditou no periódico. Que era isso que me
dava cuidado!... Credo! tirou-me o sono... Mas não, diz que não lhe importa
o artigo, que te quer da mesma maneira, e está a arder por que se faça o
casamento... E eu por mim o que fazia, para calar toda essa gente, era
casar-me já. Eu bem sei que tu não morres por ele, bem sei. Deixa lá! Isso
vem depois. O João é bom rapaz, vai ter o emprego...
- Vai ter o emprego!?
- Pois foi o que ele me veio dizer também... Esteve com o
doutor Godinho, diz que lá para o fim do mês está empregado... Enfim tu
123
fazes o que entenderes... Que olha que eu estou velha, filha, posso faltar-te
dum momento para o outro!...
Amélia não respondeu, olhando de frente no telhado voarem os
pardais - menos desassossegados, naquele instante, que os seus
pensamentos.
···
Desde domingo vivia atordoada. Sabia bem que a donzela
inexperiente a que aludia o Comunicado era ela, Amélia, e torturava-a o
vexame de ver assim o seu amor publicado no jornal. Depois (como ela
pensava, mordendo o beiço numa raiva muda, com os olhos afogados de
lágrimas), aquilo vinha estragar tudo! Na Praça, na Arcada já se diria com
risinhos perversos: - "Então a Ameliazita da S. Joaneira metida com o
pároco, hem?" Decerto o senhor chantre, tão severo em "coisas de
mulheres", repreenderia o padre Amaro... E por alguns olhares, alguns
apertos de mão, aí estava a sua reputação estragada, estragado o seu amor!
Na segunda-feira, ao ir ao Morenal, parecera-lhe sentir pelas
costas risinhos a escarnecê-la; no aceno que lhe fez da porta da botica o
respeitável Carlos julgou ver uma secura repreensível; à volta encontrara o
Marques da loja de ferragens, que não lhe tirou o chapéu, e ao entrar em
casa julgava-se desacreditada - esquecendo que o bom Marques era tão
curto de vista que usava na loja duas lunetas sobrepostas.
- Que hei-de eu fazer? que hei-de eu fazer? murmurava, às
vezes, com as mãos apertadas na cabeça. O seu cérebro de devota apenas
lhe fornecia soluções devotas - entrar num recolhimento, fazer uma
promessa a Nossa Senhora das Dores "para que a livrasse daquele apuro",
ir confessar-se ao padre Silvério... E terminava por se vir sentar
resignadamente ao pé da mãe com a sua costura, considerando, muito
enternecida, que desde pequena fora sempre bem infeliz!
A mãe não lhe falara claramente sobre o Comunicado: tivera
apenas palavras ambíguas:
- É uma pouca-vergonha... É deitar ao desprezo... Quando a
gente tem a sua consciência sossegada, o mais histórias...
Mas Amélia via-lhe bem o desgosto - na face envelhecida, nos tristes
silêncios, nos suspiros repentinos quando fazia meia à janela com a luneta
na ponta do nariz: e então mais se convencia que havia "grande falatório na
cidade", de que a mãe, coitada, estava informada pelas Gansosos e pela D.
Josefa Dias - cuja boca produzia o mexerico mais naturalmente que a
saliva. Que vergonha, Jesus!
E então o seu amor pelo pároco, que até ai, naquela reunião de
saias e batinas da Rua da Misericórdia se lhe afigurara natural, agora,
124
julgando-o reprovado pelas pessoas que desde pequena fora acostumada a
respeitar - os Guedes, os Marques, os Vaz, - aparecia-lhe já monstruoso:
assim as cores dum retrato pintado à luz de azeite, e que à luz de azeite
parecem justas, tomam tons falsos e disformes quando lhes cai em cima a
luz do sol. E quase estimava que o padre Amaro não tivesse voltado à Rua
da Misericórdia.
No entanto, com que ansiedade esperava todas as noites o seu
toque de campainha! Mas ele não vinha; e aquela ausência, que a sua razão
julgava prudente, dava ao seu coração o desespero de uma traição. Na
quarta- feira á noite não se conteve, disse, corando sobre a sua costura: -
Que será feito do senhor pároco?
O cônego, que na sua poltrona parecia dormitar, tossiu grosso,
mexeu-se, rosnou:
- Mas que fazer... E escusam de esperar por ele tão cedo!...
E Amélia, que ficara branca como a cal, teve imediatamente a certeza
que o pároco, aterrado com o escândalo do jornal, aconselhado pelos padres
timoratos, zelosos "do bom nome do clero" - tratava de se descartar dela!
Mas, cautelosa, diante das amigas da mãe, escondeu o seu desespero: foi
mesmo sentar-se ao piano, e tocou mazurcas tão estrondosas - que o
cônego, tomando a mexer-se na poltrona, grunhiu:
- Menos espalhafato e mais sentimento, rapariga!
Passou uma noite agoniada, e sem chorar. A sua paixão pelo
pároco flamejava mais irritada; e todavia detestava-o pela sua cobardia.
Mal uma alusão num jornal o picara, ficara a tremer na sua batina,
apavorado, não se atrevendo sequer a visitá-la - sem se lembrar que
também ela se via diminuída na sua reputação, sem ser satisfeita no seu
amor! E fora ele que a tentara com as suas palavrinhas doces, as suas
denguices! Infame!... Desejava violentamente apertá-lo ao coração - e
esbofeteá-lo. Teve a idéia insensata de ir ao outro dia à Rua das Sousas
atirar-se-lhe aos braços, instalar-se-lhe no quarto, fazer um escândalo que o
obrigasse a fugir da diocese... Por que não? Eram novos, eram robustos,
poderiam viver longe, noutra cidade, - e a sua imaginação começou a
repastar-se logo histericamente nas perspectivas deliciosas dessa existência,
em que se figurava constantemente a dar-lhe beijos! Através da sua intensa
excitação, aquele plano parecia-lhe muito prático, muito fácil: fugiriam
para o Algarve; lá, ele deixaria crescer o cabelo (que mais bonito seria
então!) e ninguém saberia que era um padre; poderia ensinar latim, ela
coseria para fora; e viveriam numa casinha - onde o que mais a atraia era o
leito com as duas travesseirinhas chegadas... E a única dificuldade que via
em todo este plano radiante, era fazer sair de casa, ás escondidas da mãe, o
baú com a sua roupa! - Mas quando acordou, essas resoluções mórbidas, à
luz clara do dia, desfizeram-se como sombras: tudo aquilo que parecia
125
agora tão impraticável, e ele tão separado dela, como se entre a Rua da
Misericórdia e a Rua das Sousas se erguessem inacessivelmente todas as
montanhas da Terra. Ai, o senhor pároco abandonara-a, era certo! Não
queria perder os lucros da sua paróquia nem a estima dos seus superiores!...
Pobre dela! Considerou-se então para sempre infeliz e desinteressada da
vida. Guardou, todavia, muito intenso, o desejo de se vingar do padre
Amaro.
Foi então que refletiu, pela primeira vez, que João Eduardo desde
a publicação do Comunicado não aparecera na Rua da Misericórdia.
Também me volta as costas - pensou com amargura. Mas que lhe
importava? No meio da aflição que lhe dava o abandono do padre Amaro, a
perda do amor do escrevente, piegas e pesado, que lhe não trazia utilidade
nem prazer, era uma contrariedade imperceptível: uma infelicidade viera
que lhe arrebatava bruscamente todas as afeições - a que lhe enchia a
alma, e a que apenas lhe acariciava a vaidadezinha; e irritava-a, sim, não
sentir já o amor do escrevente colado a suas saias, com a docilidade dum
cão - mas todas as suas lágrimas eram para o senhor pároco "que já não
queria saber dela"! Só lamentava a deserção de João Eduardo, porque
perdia assim um meio sempre pronto de fazer enraivecer o padre Amaro...
···
Por isso nessa tarde à janela, calada, olhando no telhado
defronte voarem os pardais - depois de saber que João Eduardo certo do
emprego, viera falar enfim a mãe - pensava com satisfação no desespero do
pároco ao ver publicados na Sé os banhos do seu casamento. Depois as
palavras muito práticas da S. Joaneira trabalhavam-lhe silenciosamente na
alma: o emprego do governo civil rendia 25$000 réis mensais; casando,
reentrava logo na sua respeitabilidade de senhora; e se a mãe morresse,
com o ordenado do homem e com o rendimento do Morenal, podia viver
com decência, ir mesmo no Verão aos banhos... E via-se já na Vieira, muito
cumprimentada pelos cavalheiros, conhecendo talvez a do governador civil.
- Que lhe parece, minha mãe? - perguntou bruscamente.
Estava decidida pelas vantagens que entrevia; mas, com a sua natureza
lassa, desejava ser persuadida e forçada.
- Eu ia pelo seguro, filha - foi a resposta da S. Joaneira.
- É sempre o melhor - murmurou Amélia entrando no quarto.
E sentou-se muito triste aos pés da cama porque a melancolia que lhe
dava o crepúsculo tornava-lhe agora mais pungente a saudade "dos seus
bons tempos com o senhor pároco".
Nessa noite choveu muito, as duas senhoras passaram sós. A S.
Joaneira, repousada agora das suas inquietações, estava muito sonolenta,
126
a cada momento cabeceava com a meia caída no regaço. Amélia então
pousava a costura, e com o cotovelo sobre a mesa, fazendo girar o abajur
verde do candeeiro, pensava no seu casamento: o João Eduardo era bom
rapaz, coitado; realizava o tipo de marido tão estimado na pequena
burguesia - não era feio e tinha um emprego; decerto o oferecimento da sua
mão, apesar das infâmias do jornal, não lhe parecia, como a mãe dissera,
"um rasgo de mão-cheia"; mas a sua dedicação lisonjeava-a, depois do
abandono tão cobarde de Amaro: e havia dois anos que o pobre João
gostava dela... Começou então laboriosamente a lembrar tudo o que nele
lhe agradava - o seu ar sério, os seus dentes muito brancos, a sua roupa
asseada.
Fora ventava forte, e a chuva, fustigando friamente as vidraças, davalhe
apetites de confortos, um bom lume, o marido ao lado, o pequerrucho a
dormir no berço - porque seria um rapaz, chamar-se-ia Carlos e teria os
olhos negros do padre Amaro. O padre Amaro... Depois de casada, decerto,
tornaria a encontrar o Sr. padre Amaro... E então uma idéia atravessou todo
o seu ser, fê-la erguer bruscamente, ir por instinto procurar a escuridão da
janela para ocultar a vermelhidão do rosto. Oh! isso não, isso não! Era
horrível!... Mas a idéia implacavelmente apoderara-se dela como um braço
muito forte que a sufocava e lhe dava uma agonia deliciosa. E então o
antigo amor, que o despeito e a necessidade tinham recalcado no fundo da
sua alma, rompeu, inundou-a: murmurou repetidamente, com paixão,
torcendo as mãos, o nome de Amaro: desejou avidamente os seus beijos -
oh! adorava-o! E tudo tinha acabado, tudo tinha acabado! E devia casar,
pobre dela!... Então à janela, com a face contra a escuridão da noite,
choramingou baixinho.
Ao chá a S. Joaneira disse-lhe, de repente:
- Pois a coisa, a fazer-se, filha, deve ser já... Era começar o enxoval,
e se fosse possível casar-te para o fim do mês.
Ela não respondeu - mas a sua imaginação alvoroçou-se
àquelas palavras. Casada daí a um mês, ela! Apesar de João Eduardo lhe
ser indiferente, a idéia daquele rapaz, novo e apaixonado, que ia viver com
ela, dormir com ela, deu uma perturbação a todo o seu ser.
E quando a mãe ia descer ao quarto, disse-lhe:
- Que lhe parece, minha mãe? Eu está-me a custar entrar em
explicações com o João Eduardo, dizer-lhe que sim. O melhor era escreverlhe...
- Também acho, filha, escreve-lhe... A Ruça leva a carta
pela manhã... Uma carta bonita, e que agrade ao rapaz.
Amélia ficou na sala de jantar até tarde fazendo o rascunho da
carta. Dizia:
127
"SR. JOÃO EDUARDO.
A mamã cá me pôs ao fato da conversação que teve consigo. E se a
sua afeição é verdadeira, como creio e me tem dado muitas provas,
eu estou pelo que se decidiu com muito boa vontade, pois conhece os
meus sentimentos. E a respeito de enxoval e papéis, amanhã se
falará, pois que o esperamos para o chá. A mamã está
muito contente e eu desejo que tudo seja para nossa felicidade, como
espero há-de ser, com a ajuda de Deus. A mamã recomenda-se e eu
sou
a que muito lhe quer,
Amélia Caminha".
Apenas fechou a carta, as folhas de papel branco espalhadas
diante dela deram-lhe o desejo de escrever ao padre Amaro. Mas o quê?
Confessar-lhe o seu amor, com a mesma pena, molhada na mesma tinta,
com que aceitava por marido o outro?... Acusá-lo da sua cobardia, mostrar
o seu desgosto - era humilhar-se! E apesar de não ter motivo para lhe
escrever, a sua mão ia traçando com gozo as primeiras palavras: "Meu
adorado Amaro..." Deteve-se, considerando que não tinha por quem
mandar a carta. Ai! tinham de separar-se assim, em silêncio, para sempre!...
Separarem-se por quê? - pensou. Depois de casada podia bem ver o Sr,
padre Amaro. E a mesma idéia voltava, sutilmente, mas numa forma tão
honesta agora, que a não repelia: decerto, o Sr. padre Amaro podia ser o
seu confessor; era em toda a cristandade a pessoa que melhor guiaria a sua
alma, a sua vontade, a sua consciência; haveria então entre eles uma troca
deliciosa e constante de confidências, de doces admoestações; todos os
sábados iria receber ao confessionário, na luz dos seus olhos e no som das
suas palavras, uma provisão de felicidade; e aquilo seria casto, muito
picante, e para a glória de Deus.
Sentiu-se quase satisfeita com a impressão, que não definia
bem, duma existência em que a carne estaria legitimamente contente, e a
sua alma gozaria os encantos duma devoção amorosa. Tudo vinha a calhar
bem, por fim... E daí a pouco dormia serenamente, sonhando que estava na
sua casa, com o seu marido, e que jogava a manilha com as velhas
amigas, no meio do contentamento de toda a Sé, sentada nos joelhos do
senhor pároco.
Ao outro dia a Ruça levou a carta a João Eduardo, e toda a manhã as
duas senhoras, costurando à janela, falaram do casamento. Amélia não se
queria separar da mãe, e, como a casa tinha acomodações, os noivos
viveriam no primeiro andar, e a S. Joaneira dormiria no quarto em
cima; decerto o senhor cônego ajudaria para o enxoval; podiam ir passar a
lua-de-mel para a fazenda da D. Maria. E Amélia àquelas perspectivas
128
felizes fazia-se toda escarlate, sob o olhar da mãe que, de luneta na ponta
do nariz, a admirava, babosa.
Às Ave-Marias a S. Joaneira fechou-se embaixo no seu quarto a
rezar a sua coroa, e deixou Amélia só "para se entender com o rapaz". -
Dai a pouco, com efeito, João Eduardo bateu à campainha. Vinha muito
nervoso, de luvas pretas, enfrascado em água-de-colônia. Quando chegou
à porta da sala de jantar não havia luz, e a bonita forma de Amélia
destacava de pé, junto à claridade da vidraça. Ele pôs o xale-manta a um
canto como costumava, e vindo para ela que ficara imóvel, disse-lhe,
esfregando muito as mãos:
- Lá recebi a cartinha, menina Amélia.
- Eu mandei-a pela Ruça logo pela manhã para o pilhar em casa -
disse ela imediatamente com as faces a arder.
- Eu ia para o cartório, até já ia na escada... Haviam de ser
nove horas...
- Haviam de ser... - disse ela.
Calaram-se, muito perturbados. Ele então tomou-lhe
delicadamente os pulsos, e baixo:
- Então sempre quer?
- Quero, murmurou Amélia.
- E o mais depressa possível, hem?
- Pois sim...
Ele suspirou, muito feliz.
- Havemos de nos dar muito bem, havemos de nos dar muito
bem, dizia. E as suas mãos, com pressões temas, iam-se apoderando dos
braços dela, dos pulsos aos cotovelos.
- A mamã diz que podemos viver juntos, disse ela, esforçando-se por
falar tranqüilamente.
- Está claro, e eu vou mandar fazer lençóis, acudiu ele, todo alterado.
Atraiu-a então a si, subitamente, beijou-lhe os lábios; ela teve
um soluçozinho, abandonou-se-lhe entre os braços, toda fraca, toda
lânguida.
- Oh filha! murmurava o escrevente.
Mas os sapatos da mãe rangeram na escada, e Amélia foi
vivamente para o aparador acender o candeeiro.
A S. Joaneira parou à porta; e para dar a sua primeira
aprovação maternal, disse, com bonomia:
- Então vocês estão aqui às escuras, filhos?
Foi o cônego Dias que participou ao padre Amaro o casamento
de Amélia, uma manhã na Sé. Falou no ''a propósito do enlace'', e
acrescentou:
129
- Eu estimo, porque é a contento da rapariga, e é um descanso para a
pobre velha...
- Está claro, está claro... - murmurou Amaro, que se fizera
muito branco.
O cônego pigarreou grosso, e ajuntou:
- E você agora apareça por lá, agora está tudo na ordem... A patifaria
do jornal isso pertence à história... O que lá vai, lá vai!
- Está claro, está claro... - rosnou Amaro. Traçou bruscamente
a capa, saiu da igreja.
Ia indignado; e continha-se, para não praguejar alto, pelas ruas.
À esquina da viela das Sousas quase esbarrou com Natário, que o
agarrou, logo, pela manga, para lhe soprar ao ouvido:
- Ainda não sei nada!
- De quê?
- Do liberal, do Comunicado. Mas trabalho, trabalho!
Amaro, que ansiava por desabafar, disse logo:
- Então ouviu a novidade? O casamento de Amélia... Que lhe parece?
- Disse-me o animal do Libaninho. Diz que o rapaz apanhou
o emprego... Foi o doutor Godinho... E outro que tal!... Veja você esta
corja. O doutor Godinho do jornal às bulhas com o governo civil, e o
governo civil a atirar postas aos afilhados do doutor Godinho. Vá lá
entendê-los! Isto é um país de biltres!
- Diz que há grande alegrão na casa da S. Joaneira! - disse o pároco,
com um azedume negro.
- Que se divirtam! Eu não tenho tempo de lá ir... Eu não tenho tempo
para nada!... Eu cá ando no meu fito, saber quem é o liberal e escachá-lo!
Não posso ver esta gente que leva a chicotada, coça-se, e curva a orelha. Eu
cá não! eu guardo-as! - E, com uma contração de rancor, que lhe curvou os
dedos em garra, e lhe encolheu o peito magro, disse por entre os dentes
cerrados: - Eu, quando odeio, odeio bem!
Esteve um momento calado, gozando o sabor do seu fel.
- Você se for à Rua da Misericórdia dê lá os parabéns a essa gente... -
E acrescentou com os olhinhos em Amaro: - O palerma do escrevente leva
a rapariga mais bonita da cidade! Vai encher o papo!
- Até à vista! exclamou bruscamente Amaro, abalando pela
rua furioso.
Depois daquele terrível domingo em que aparecera o Comunicado, o
padre Amaro, ao principio, muito egoistamente, apenas se preocupara com
as conseqüências - "conseqüências fatais, Santo Deus!" - que lhe podia
trazer o escândalo. Hem! se pela cidade se espalhasse que era ele o padre
ajanotado que o liberal apostrofava! Viveu dois dias aterrado, tremendo de
ver aparecer o padre Saldanha, com a sua cara ameninada e voz melíflua, a
130
dizer-lhe "que sua excelência o senhor chantre reclamava a sua presença"!
Passava já o tempo preparando explicações, respostas hábeis, lisonjas a sua
excelência. - Mas quando viu que, apesar da violência do artigo, sua
excelência parecia disposto "a fazer a vista grossa", ocupou-se então, mais
tranqüilo, dos interesses do seu amor tão violentamente perturbados. O
medo tornava-o astucioso; e decidiu não voltar algum tempo à Rua da
Misericórdia.
- Deixar passar o aguaceiro, pensou.
Ao fim de quinze dias, três semanas, quando o artigo estivesse
esquecido, apareceria de novo em casa da S. Joaneira: deixaria ver bem à
rapariga que a adorava sempre, mas evitaria a antiga familiaridade, as
conversazinhas baixas, os lugarzinhos chegados ao quino; depois, pela D.
Maria da Assunção, pela D. Josefa Dias, obteria que Amélia deixasse o
padre Silvèrio e se confessasse a ele: poderiam então entender-se, no
segredo do confessionário: combinariam uma conduta discreta, encontros
cautelosos aqui e além, cartinhas pela criada: e aquele amor assim
conduzido, com prudenciazinha, não teria o perigo de aparecer uma manhã
anunciado no periódico! E regozijava-se já da habilidade desta
combinação, quando lhe vinha o grande choque - casava-se a rapariga!
Depois dos primeiros desesperos, desabafos em patadas no soalho
e blasfêmias de que pedia logo perdão a Nosso Senhor Jesus Cristo, quis
serenar, estabelecer a razão das coisas. Aonde o levava aquela paixão?
Ao escândalo. E assim, casada ela, cada um entrava no seu destino legitimo
e sensato - ela na sua família, ele na sua paróquia. Depois, quando se
encontrassem, um cumprimento amável; e ele poderia passear a cidade com
a sua cabeça bem direita, sem medo dos apartes da Arcada, das
insinuações da gazeta, das severidades de sua excelência e das picadinhas
da consciência! E a sua vida seria feliz. - Não, por Deus! a sua vida não
poderia ser feliz sem ela! Tirado à sua existência aquele interesse das
visitas à Rua da Misericórdia, os apertozinhos de mão, a esperança de
delicias melhores - que lhe restava a ele? Vegetar, como um dos tortulhos
nos cantos úmidos da Sé! E ela, ela que o entontecera com os seus olhinhos
e as suas maneirinhas, voltava-lhe as costas mal lhe aparecia outro, bom
para marido, com 25$000 por mês! Todos aqueles suspiros, aquelas
mudanças de cor - chalaça! Mangara com o senhor pároco!
O que a odiava! - menos que ao outro porém, o outro que triunfava
porque era um homem, tinha a sua liberdade, o seu cabelo todo, o seu
bigode, um braço livre para lhe dar na rua! Repastava então a imaginação
rancorosamente nas visões de felicidade do escrevente: via-o trazendo-a da
igreja triunfantemente; via-o beijando-lhe o pescoço e o peito... E a estas
idéias dava patadas furiosas no soalho - que assustavam a Vicência na
cozinha
131
Depois procurava sossegar, retomar a direção das suas
faculdades, aplicá-las todas a achar uma vingança, uma boa vingança! E
voltava então o antigo desespero de não viver no tempo da Inquisição, e
com uma denúncia de irreligião ou de feitiçaria, mandá-los ambos para um
cárcere. Ah! nesse tempo um padre gozava! Mas agora, com os senhores
liberais, tinha de ver aquele miserável escrevente a seis vinténs por dia
apoderar-se lhe da rapariga - e ele, sacerdote instruído, que podia ser bispo,
que podia ser papa, tinha de vergar os ombros e ruminar solitariamente o
seu despeito! Ah! se as maldições de Deus tinham algum valor - malditos
fossem eles! Queria vê-los cheios de filhos, sem pão na prateleira, com o
último cobertor empenhado, ressequidos de fome, injuriando-se, - e ele a
rir-se, ele a regalar-se!...
···
Na segunda-feira não se conteve, foi à Rua da Misericórdia. A
S. Joaneira estava embaixo na saleta com o cônego Dias. E apenas viu
Amaro:
- Oh! senhor pároco, bem aparecido! Estava a falar em V. Sa !
Já estranhava não o vermos, agora que há alegria em casa.
- Já sei, já sei, murmurou Amaro pálido.
- Alguma vez havia de ser, disse o cônego jovialmente. Deus os faça
felizes e lhes dê poucos filhos, que a carne está cara.
Amaro sorriu - escutando em cima o piano.
Era Amélia que tocava como outrora a valsa dos Dois Mundos;
e João Eduardo, muito chegado a ela, voltava as folhas da música.
- Quem entrou, Ruça? gritou ela, sentindo os passos da rapariga nas
escadas.
- O Sr. padre Amaro.
Um fluxo de sangue abrasou-lhe o rosto - e o coração batia-lhe
tão forte, que ficou um momento com os dedos imóveis sobre e teclado.
- Não se precisava cá do Sr. padre Amaro, rosnou João Eduardo por
entre dentes.
Amélia mordeu o beiço. Teve ódio ao escrevente: num instante
repugnou-lhe a sua voz, os seus modos, a sua figura de pé junto dela:
pensou com deleite, como depois de casada (á que tinha de casar) se
confessaria toda ao padre Amaro, e não deixaria de o amar! Não sentia
naquele momento escrúpulos; e quase desejava que o escrevente lhe visse
no rosto a paixão que a revolvia.
- Credo, criatura! disse-lhe. Chegue-se um pouco mais para lá,
que nem me deixa os braços livres para tocar!
132
Terminou bruscamente a valsa dos Dois Mundos, começou a cantar o
Adeus:
Ai! adeus! acabaram-se os dias
Que ditoso vivi a teu lado!
A sua voz elevava-se, com uma modulação ardente, - dirigindo
o canto, através do soalho, ao coração do pároco, embaixo.
E o pároco, com a sua bengala entre os joelhos, sentado no
canapé, devorava todos os tons da voz dela - enquanto a S. Joaneira
tagarelava, contando as peças de algodão que comprara para lençóis, os
arranjos que ia fazer no quarto dos noivos, e as vantagens de viverem
juntos...
- Uma felicidade por aí além, interrompeu o cônego erguendose
pesadamente. E vamos lá para cima, que isto de noivos não se querem
sós...
- Ah, lá nisso, disse a S. Joaneira rindo, fio-me nele, que é
um homem de bem às direitas.
Amaro, ao subir a escada, tremia - e, mal entrou na sala, o rosto de
Amélia, alumiado pelas luzes do piano, deu-lhe um deslumbramento, como
se as vésperas do noivado a tivessem embelezado, e a separação
lha tornasse mais apetitosa. Foi dar-lhe gravemente um aperto de mão,
outro ao escrevente, disse baixo, sem os olhar:
- Os meus parabéns... Os meus parabéns...
Voltou as costas, e foi conversar com o cônego que se enterrara
na sua poltrona, queixando-se de enfastiamento e reclamando o chá.
Amélia ficara como abstrata, correndo inconscientemente os
dedos pelo teclado. Aquele modo do padre Amaro confirmava a sua idéia:
queria a todo o custo descartar-se dela, o ingrato! fazia "como se nada
tivesse havido", o vilão! Na sua cobardia de padre, com o terror do senhor
chantre, do jornal, da Arcada, de tudo - sacudia-a da sua imaginação, do
seu coração, da sua vida como se sacode um inseto que tem peçonha!...
Então, para o enraivecer, começou a cochichar ternamente com o
escrevente; roçava-se lhe pelo ombro, rendida, com risinhos, segredinhos;
tentaram, em alarido jovial, tocar uma peça a quatro mãos; depois ela
beliscou-o, ele deu um gritinho exagerado. - E a S. Joaneira contemplavaos
babosa, enquanto o cônego dormitava já, e o padre Amaro, abandonado
a um canto como outrora o escrevente, ia folheando o velho álbum.
Mas um brusco repique da campainha veio sobressaltá-los todos:
passos rápidos galgaram a escada, pararam embaixo na saleta; e a Ruça
apareceu dizendo "que era o Sr, padre Natàrio, que não desejava subir, e
queria dar uma palavra ao senhor cônego".
133
- Fracas horas para embaixadas, rosnou o cônego, arrancando-se com
custo ao fundo confortável da poltrona.
Amélia fechou logo o piano - e a S. Joaneira pousando a meia foi em
bicos de pés escutar ao alto da escada: fora ventava forte, e para os lados da
Praça afastava-se o toque de retreta.
Enfim a voz do cônego chamou, de baixo, da porta da saleta:
- Ó Amaro?
- Padre-mestre?
- Venha cá, homem. E diga à senhora que pode vir também.
A S. Joaneira desceu logo, muito assustada: Amaro imaginava que o
padre Natàrio enfim descobrira o liberal!
A saleta parecia muito fria com a luz pequenina da vela sobre
a mesa: e na parede, num velho painel muito escuro - que ultimamente
o cônego dera à S. Joaneira - destacava uma face lívida de monge e
um osso frontal de caveira.
O cônego Dias acomodara-se ao canto do canapé, sorvendo
refletidamente a pitada: e Natário, que se agitava pela sala, exclamou logo:
- Boas noites, senhora! Olá, Amaro! Trago novidades!... Não
quis subir porque imaginei que estaria o escrevente, e estas coisas são cá
para nós. Estava a começar a dizer ao colega Dias... Tive lá em casa o
padre Saldanha. Temo-las boas!
O padre Saldanha era o confidente do senhor chantre. E o
padre Amaro, já inquieto, perguntou:
- Coisa que nos toca?
Natário começou com solenidade erguendo alto o braço:
- Primo: o colega Brito mudado da freguesia de Amor para ao pé de
Alcobaça, para a serra, para o inferno...
- Que me diz? exclamou a S. Joaneira.
- Obras do liberal, minha senhora! O nosso digno chantre levoulhe
tempo a meditar o Comunicado do Distrito, mas por fim saiu-se! O
pobre Brito lá vai esfogueteado!...
- Sempre é o que se dizia da mulher do regedor, murmurou a
boa senhora.
- Olá! interrompeu severamente o cônego. Então, senhora, então! Isto
aqui não é casa de murmuração!... Siga com o seu recado, colega Natário.
- Secundo, continuou Natàrio: é o que eu ia dizer ao colega Dias... O
senhor chantre, em vista do Comunicado e de outros ataques da
imprensa, está decidido a "reformar os costumes do clero diocesano",
palavras do padre Saldanha. Que lhe desagradam sumamente os
conciliábulos de eclesiásticos e de senhoras... Que quer saber o que é isso
de sacerdotes ajanotados tentando meninas bonitas... Enfim, palavras
textuais de sua excelência - está decidido a limpar as cavalariças de
134
Augias!... - o que quer dizer em bom português, minha senhora, que vai
andar tudo numa roda-viva.
Houve uma pausa consternada. E Natário, plantado no meio da saleta com
as mãos enterradas nas algibeiras, exclamou:
- Que lhes parece esta à última hora, hem?
O cônego ergueu-se pachorrentamente:
- Olhe, colega, disse, entre mortos e feridos há-de escapar alguém. E
a senhora não se fique ai com essa cara de Mater dolorosa, e mande servir
o chá, que é o importante.
- Eu lá disse ao padre Saldanha... - começou Natário perorando.
Mas o cônego interrompeu-o com força:
- O padre Saldanha é um patarata!... Vamos nós às torradinhas, e lá
em cima, diante dos rapazes, caluda.
O chá foi silencioso. O cônego, a cada bocado de torrada,
respirava afrontado, franzia muito o sobrolho: a S. Joaneira, depois de falar
da D. Maria da Assunção que estava mal do catarro, ficou toda murcha,
com a testa sobre o punho. Natário, a grandes passadas, fazia uma ventania
na sala com as abas do casacão.
- E quando vem essa boda? exclamou ele, estacando
subitamente diante de Amélia e do escrevente, que tomavam o chá sobre o
piano,
- Um dia cedo, respondeu ela sorrindo.
Amaro então ergueu-se devagar, e tirando o seu cebolão:
- São horas de me ir chegando à Rua das Sousas, minhas
senhoras, disse com uma voz desalentada.
Mas a S. Joaneira não consentiu. Credo, estavam todos monos
como se estivessem de pêsames!... Que fizessem um quino para
espairecer... - O cônego porém, saindo do seu torpor, disse com severidade:
- Está a senhora muito enganada, ninguém está mono. Não há razões
senão para estar alegre. Pois não é verdade, senhor noivo?
João Eduardo mexeu-se, sorriu:
- Eu cá por mim, senhor cônego, não tenho razão senão para
estar feliz.
- Pois está claro, disse o cônego. E agora Deus lhes dê boas-noites a
todos, que eu vou quinar para vale de lençóis. E o Amaro também.
Amaro foi apertar silenciosamente a mão de Amélia, - e os
três padres desceram calados.
Na saleta a vela ainda ardia com um morrão. O cônego entrou a
buscar o seu guarda-chuva; e então, chamando os outros, cerrando
devagarinho a porta, disse-lhes baixo:
- Eu, colegas, não quis assustar há pouco a pobre senhora, mas essas
coisas do chantre, esses falatórios... É o diabo!
135
- É ter cautelinha, meninos! aconselhou Natário, abafando a voz.
- É sério, é sério, murmurou lugubremente o padre Amaro.
Estavam de pé no meio da saleta. Fora o vento uivava: a luz da
vela agitada fazia alternadamente destacar e reentrar na sombra do quadro
o osso frontal da caveira: e em cima Amélia cantarolava a Chiquita.
Amaro recordava outras noites felizes em que ele, triunfante e
sem cuidados, fazia rir as senhoras, - e Amélia, gorjeando Ai chiquita que
si, revirava-lhe olhares rendidos...
- Eu, disse o cônego, os colegas sabem, tenho que comer e beber, não
me importa... Mas é necessário manter a honra da classe!
- E não carece dúvida, acrescentou Natário, que se há outro artigo e
mais falatórios, estala com certeza o raio...
- Olha o padre Brito, murmurou Amaro, esfogueteado para a serra!
Em cima decerto houve alguma graça, porque sentiram as risadas do
escrevente.
Amaro rosnou com rancor:
- Grande galhofa lá em cima!...
Desceram. Ao abrir a porta uma rajada de vento bateu a face
de Natário duma chuva miudinha.
- Olha que noite! exclamou furioso.
Só o cônego tinha guarda-chuva: e abrindo-o devagar:
- Pois meninos, não há que ver, estamos em calças pardas...
Da janela de cima alumiada, saiam os sons do piano, nos
acompanhamentos da Chiquita. O cônego soprava, agarrando fortemente o
guarda- chuva contra o vento; ao lado Natário, cheio de fel, rilhava os
dentes, encolhido no seu casacão; Amaro caminhava de cabeça caída, num
abatimento de derrota; e enquanto os três padres, assim agachados sob o
guarda-chuva do cônego, iam chapinhando as poças pela rua tenebrosa, por
trás a chuva penetrante e sonora ia-os ironicamente fustigando!
XI
Daí a dias, os freqüentadores da botica, na Praça, viram com
espanto o padre Natário e o doutor Godinho conversando em harmonia, à
porta da loja de ferragens do Guedes. O recebedor, - que era escutado com
deferência em questões de política estrangeira, - observou-os com atenção
através da porta vidrada da farmácia, e declarou com um tom profundo
"que não se admiraria mais se visse Vítor Manuel e Pio IX passearem de
braço dado"!
136
O cirurgião da Câmara porém não estranhava aquele "comércio
de amizade". - Segundo ele, o último artigo da Voz do Distrito,
evidentemente escrito pelo doutor Godinho (era o seu estilo incisivo, cheio
de lógica, atulhado de erudição!), mostrava que a gente da Maia se queria ir
aproximando da gente da Misericórdia. O doutor Godinho (na expressão
do cirurgião da Câmara) fazia tagatés ao governo civil e ao clero
diocesano: a última frase do artigo era significativa - "Não seremos nós que
regatearemos ao clero os meios de exercer proficuamente a sua divina
missão"!
A verdade era (como observou um indivíduo obeso, o amigo
Pimenta), que se não havia ainda paz já havia negociações - porque, na
véspera ele vira com aqueles seus olhos que a terra tinha de comer, o padre
Natário saindo de manhã muito cedo da redação da Voz do Distrito!
- Oh amigo Pimenta, essa é fabricada!
O amigo Pimenta ergueu-se com majestade, deu um puxão grave
aos cós das calças, e ia indignar-se - quando o recebedor acudiu:
- Não, não, o amigo Pimenta tem razão. A verdade é que eu noutro
dia vi o patife do Agostinho fazer grande barretada ao padre Natário. E que
o Natário traz intriga na mão, isso é seguro! Eu gosto de observar as
pessoas... Pois senhores, o Natário que nunca aparecia aqui na
Arcada, agora vejo-o sempre aí com o nariz pelas lojas... Depois a grande
amizade com o padre Silvério... Hão-de reparar que são ambos certos aí na
Praça às Ave-Marias... E é negócio com a gente do doutor Godinho... O
padre Silvério é o confessor da mulher do Godinho... Umas coisas pegam
com as outras!
Era muito comentada, com efeito, a nova amizade do padre
Natário com o padre Silvério. Havia cinco anos, tinha ocorrido na sacristia
da Sé, entre os dois eclesiásticos, uma questão escandalosa: Natário correra
até de guarda-chuva erguido para o padre Silvério, quando o bom cônego
Sarmento, banhado em lágrimas, o reteve pela batina, gritando: "Oh
colega, que é a perdição da religião! ". Desde então, Natário e Silvério não
falavam - com desgosto de Silvério, um bonacheirão, duma obesidade
hidrópica, que, segundo diziam as suas confessadas, "era todo afeição e
perdão". Mas Natário, seco e pequeno, tinha tenacidade no rancor. Quando
o Sr. chantre Valadares começou a governar o bispado, chamou-os, e,
depois de lhes lembrar com eloqüência a necessidade "de manter a paz na
Igreja", de lhes recordar o exemplo tocante de Castor e Pólux, empurrou
Natário com uma brandura grave para os braços do padre Silvério - que o
teve um momento sepultado na vastidão do peito e do estômago,
murmurando todo comovido:
- Todos somos irmãos, todos somos irmãos!
137
Mas Natário, cuja natureza dura e grosseira nunca perdia, como
o papelão, as dobras que tomava, conservou com o padre Silvério um
tom amuado; na Sé ou na rua, resvalando junto dele, com um jeito brusco
do pescoço, rosnava apenas: "Sr. padre Silvério, ás ordens!"
Havia porém duas semanas, uma tarde de chuva Natário fizera
repentinamente uma visita ao padre Silvério - sob pretexto que "o pilhara
ali uma pancada de água, e que se vinha recolher um instante".
- E também, acrescentou, para lhe pedir a sua receita para a dor de
ouvidos, que uma das minhas sobrinhas, coitada, está como doida, colega!
O bom Silvério, esquecendo decerto que ainda nessa manhã vira
as duas sobrinhas de Natário sãs e satisfeitas como dois pardais, apressouse
a escrever a receita, todo feliz de utilizar os seus queridos estudos de
medicina caseira; e murmurava, banhado de riso:
- Ora que alegria, colega, vê-lo aqui de novo nesta sua casa!
A reconciliação foi tão pública - que o cunhado do Sr. barão de Via
Clara, bacharel de grandes dotes poéticos, lhe dedicou uma daquelas sátiras
que ele intitulava Ferrões, que iam manuscritas de casa em casa, muito
saboreadas e muito temidas; e chamara à composição, tendo
presente decerto a figura dos dois sacerdotes: Famosa Reconciliação do
Macaco e da Baleia! Era com efeito freqüente, agora, ver a pequena figura
de Natário gesticulando e saltitando ao lado do vulto enorme e pachorrento
do padre Silvério.
Uma manhã mesmo os empregados da administração (que era
então no Largo da Sé) gozaram muito, observando da sacada os dois padres
que passeavam no terraço ao tépido sol de Maio. O senhor administrador, -
que passava as horas da repartição namorando com um binóculo, por
trás da vidraça do seu gabinete, a esposa do Teles, alfaiate - começara
subitamente a dar gargalhadas á janela: o escrivão Borges correu logo, de
pena na mão, à varanda, a ver de que ria sua senhoria, e, muito divertido, a
fungar, chamou à pressa o Artur Couceiro que estava copiando, para
estudar à guitarra, uma canção da Grinalda; o amanuense Pires, severo e
digno, aproximou-se, carregando para a orelha o seu barretinho de seda,
com horror às correntes de ar; e em grupo, de olho arregalado, observavam
os dois padres, que tinham parado à esquina da igreja. Natário parecia
excitado; procurava decerto persuadir, abalar o padre Silvério; e em bicos
de pés, plantado diante dele, agitava freneticamente as mãos muito magras.
Depois, subitamente, apoderou-se-lhe do braço, arrastou-o ao comprido do
terraço lajeado: ao fundo parou, recuou, fez um gesto largo e desolado,
como atestando a perdição possível dele, da Sé ao lado, da cidade, do
universo em redor; o bom Silvério, com os olhos muito abertos, parecia
apavorado. E recomeçaram a passear. Mas Natário exaltava-se; dava
recuões bruscos, atirava estocadas com um longo dedo ao vasto estômago
138
de Silvério, batia patadas furiosas nas lajes polidas; e de repente, de braços
pendentes, mostrava-se acabrunhado. Então o bom Silvério falou um
momento com a mão espalmada sobre o peito; imediatamente, a face
biliosa de Natário iluminou-se; pulou, bateu no ombro do colega
palmadinhas de muito júbilo, - e os dois sacerdotes entraram na Sé,
chegados e rindo baixinho.
- Que patuscos! disse o escrivão Borges, que detestava sotainas.
- Aquilo tudo é a respeito do jornal, disse Artur Couceiro,
vindo retomar o seu trabalho lírico. O Natário não sossega enquanto não
souber quem escreveu o Comunicado; disse-o ele em casa da S. Joaneira...
E a coisa pelo Silvério vai bem, que é o confessor da mulher do Godinho.
- Corja! rosnou o Borges com nojo. E continuou pachorrentamente o
ofício que compunha, remetendo para Alcobaça um preso - que ao fundo da
saleta, entre dois soldados, esperava sobre um banco, prostrado e
embrutecido, com uma face de fome e as mãos em ferros.
···
Dai a dias tinha havido na Sé o Ofício de corpo presente pelo
rico proprietário Morais, que morrera dum aneurisma, e a quem sua esposa
(em penitência decerto dos desgostos que lhe dera com a sua afeição
desordenada por tenentes de infantaria), estava fazendo, como se disse,
"exéquias de pessoa real". - Amaro desvestira-se, e na sacristia, à luz dum
velho candeeiro de latão, escrevia assentos atrasados, quando a porta de
carvalho rangeu, e a voz agitada de Natário disse:
- Ó Amaro, você está aí?
- Que temos?
O padre Natário fechou a porta, e atirando os braços para o ar:
- Grande novidade, é o escrevente!
- Que escrevente?
- O João Eduardo! É ele! É o liberal! Foi ele que escreveu o
Comunicado!
- Que me diz você? fez Amaro atônito.
- Tenho provas, meu amigo! Vi o original, escrito pela letra dele. O
que se chama ver! Cinco tiras de papel!
Amaro, com os olhos esgazeados, fitava Natário.
- Custou, exclamou Natário. Custou, mas soube-se tudo! Cinco
tiras de papel! E quer escrever outro! O Sr. João Eduardo! O nosso rico
amigo Sr. João Eduardo!
- Você está certo disso?
- Se estou certo! Estou a dizer-lhe que vi, homem!
- E como soube você, Natário?
139
Natário dobrou-se; e com a cabeça enterrada nos ombros,
arrastando as palavras:
- Ah, colega, lá isso... Os comos e os porquês... Você
compreende... Sigillus magnus!
E com uma voz aguda de triunfo, a largos passos pela sacristia:
- Mas ainda isto não é nada! o Sr. Eduardo, que nós víamos ali na
casa da S. Joaneira, tão bom mocinho, é um patife antigo. É o intimo do
Agostinho, o bandido da Voz do Distrito! Está metido na redação até altas
horas da noite... Uma orgia, vinhaça, mulheres... E gaba-se de ser ateu... Há
seis anos que se não confessa... Chama-nos a canalha canônica... É
republicano... Uma fera, meu caro senhor, uma fera!
Amaro, escutando Natário, arrumava atarantadamente, com as mãos
trêmulas, papéis no gavetão da escrivaninha.
- E agora?... perguntou.
- Agora? exclamou Natário. Agora é esmagá-lo!
Amaro fechou o gavetão, e, muito nervoso, passando o lenço
pelos lábios secos:
- Uma assim, uma assim! E a pobre rapariga, coitada... Casar
agora com um homem desses... Um perdido!
Os dois padres, então, olharam-se fixamente. No silêncio, o
velho relógio da sacristia punha o seu tiquetaque plangente. Natário tirou
da algibeira dos calções a caixa do rapé, e com os olhos ainda fixos em
Amaro, a pitada nos dedos, disse sorrindo friamente:
- Desmanchar-lhe o casamentozinho, hem?
- Você acha? perguntou sofregamente Amaro.
- Caro colega, é uma questão de consciência... Para mim era
uma questão de dever! Não se pode deixar casar a pobre pequena com um
brejeiro, um pedreiro-livre, um ateu...
- Com efeito! com efeito! murmurava Amaro.
- Vem a calhar, hem? fez Natário; e sorveu com gozo a pitada. Mas o
sacristão entrou; eram as horas de fechar a igreja; vinha perguntar a suas
senhorias se demoravam.
- Um instante, Sr. Domingos.
E, enquanto o sacristão corria os pesados ferrolhos da porta
interior do pátio, os dois padres muito chegados falavam baixo.
- Você vai ter com a S. Joaneira, dizia Natário. Não, escute, é melhor
que lhe fale o Dias; o Dias é que deve falar á S. Joaneira. Vamos pelo
seguro. Você fale à pequena e diga-lhe simplesmente que o ponha fora de
casa! - E ao ouvido de Amaro: - Diga à rapariga que ele vive ai de casa e
pucarinho com uma desavergonhada!
- Homem! disse Amaro recuando, não sei se isso é verdade!
140
- Há-de ser. Ele é capaz de tudo. E depois é um meio de levar
a pequena.
E foram descendo a igreja atrás do sacristão, que fazia tilintar o
seu molho de chaves, pigarreando grosso.
Nas capelas pendiam as armações de paninho negro agaloadas
de prata; ao centro, entre quatro fortes tocheiras de grosso morrão, estava
a essa, com o largo pano de veludilho cobrindo o caixão do Morais,
recaindo em pregas franjadas; à cabeceira tinha uma larga coroa de
perpétuas; e aos pés pendia, dum grande laço de fita escarlate, o seu hábito
de cavaleiro de Cristo.
O padre Natário então parou; e tomando o braço de Amaro,
com satisfação:
- E depois, meu caro amigo, tenho outra preparada ao cavalheiro...
- O quê?
- Cortar-lhe os víveres!
- Cortar-lhe os víveres?
- O pateta estava para ser empregado no governo civil,
primeiro amanuense, hem? Pois vou-lhe desmanchar o arranjinho!... E o
Nunes Ferral que é dos meus, homem de boas idéias, vai pô-lo fora do
cartório... E que escreva então Comunicados!
Amaro teve horror àquela intriga rancorosa:
- Deus me perdoe, Natário, mas isso é perder o rapaz.
- Enquanto o não vir por essas ruas a pedir um bocado de pão, não o
largo, padre Amaro, não o largo!
- Oh, Natário! oh, colega! isso é de pouca caridade... Isso não é de
cristão... E então aqui que Deus está a ouvi-lo...
- Não lhe dê isso cuidado, meu caro amigo... Deus serve-se
assim, não é a resmungar Padre-Nossos. Para ímpios não há caridade! A
Inquisição atacava-os pelo fogo, não me parece mau atacá-los pela fome.
Tudo é permitido a quem serve uma causa santa... Que se não metesse
comigo!
Iam a sair; mas Natário deitou um olhar para o caixão do morto,
e apontando com o guarda-chuva:
- Quem está ali?
- O Morais, disse Amaro.
- O gordo, picado das bexigas?
- Sim.
- Boa besta!
E depois de um silêncio:
- Foram os Ofícios do Morais... Eu nem dei por isso, ocupado cá na
minha campanha... E a viúva fica rica. É generosa, é presenteadora... Quem
141
a confessa é o Silvério, hem? Tem as melhores pechinchas de Leiria,
aquele elefante!
Saíram. A botica do Carlos estava fechada, o céu muito escuro.
No largo, Natário parou:
- Resumindo: o Dias fala à S. Joaneira, e você fala à pequena. Eu por
mim me entenderei com a gente do governo civil e com o Nunes
Ferral. Encarreguem-se vocês do casamento, que eu me encarrego do
emprego! - E batendo no ombro do pároco jovialmente: - É o que se pode
dizer atacá-lo pelo coração e pelo estômago! E adeusinho, que as pequenas
estão à espera para a ceia! Coitadita, a Rosa tem estado com um defluxo!...
É fraquita, aquela rapariga, dá-me muito cuidado... Que eu em a vendo
murcha até perco logo o sono. Que quer você? Quando se tem bom
coração... Até amanhã, Amaro.
- Até amanhã, Natário.
E os dois padres separaram-se, quando davam nove horas na Sé.
···
Amaro entrou em casa ainda um pouco trêmulo, mas muito
decidido, muito feliz: tinha um dever delicioso a cumprir! E dizia alto, com
passos graves pela casa, para se compenetrar bem dessa responsabilidade
estimada:
- É do meu dever! É do meu dever!
Como cristão, como pároco, como amigo da S. Joaneira, o seu
dever era procurar Amélia, e, com simplicidade, sem paixão interessada,
contar- lhe que fora João Eduardo, o seu noivo, que escrevera o
Comunicado.
Foi ele! Difamou os íntimos da casa, sacerdotes de ciência e de
posição; desacreditou-a a ela; passa as noites em deboche na pocilga do
Agostinho; insulta o clero, baixamente; gaba-se de irreligião; há seis anos
que se não confessa! Como diz o colega Natário, é uma fera! Pobre
menina! Não, não podia casar com um homem que lhe impediria a vida
perfeita, lhe achincalharia as boas crenças! Não a deixaria rezar, nem
jejuar, nem procurar no confessor a direção salutar, e, como diz o santo
padre Crisóstomo, "amadureceria a sua alma para o inferno"! Ele não era
seu pai, nem seu tutor; mas era pároco, era pastor: - e se a não subtraísse
àquele destino herético pelos seus conselhos graves, pela influência da mãe
e das amigas, - seria como aquele que tem a guarda dum rebanho numa
herdade, e abre indignamente a cancela ao lobo! Não, a Ameliazinha não
havia de casar com o ateu!
E o seu coração então batia forte sob a efusão daquela
esperança. Não, o outro não a possuiria! Quando viesse a apoderar-se
142
legalmente daquela cinta, daqueles peitos, daqueles olhos, daquela
Ameliazinha - ele, pároco, lá estava para dizer alto: Para trás, seu canalha!
isto aqui é de Deus!
E tomaria então bem cuidado em guiar a pequena à salvação!
Agora o Comunicado estava esquecido, o senhor chantre tranqüilizado: daí
a dias poderia voltar sem susto à Rua da Misericórdia, recomeçar os
deliciosos serões - apoderar-se de novo daquela alma, formá-la para o
Paraíso...
E aquilo, Jesus! não era uma intriga para a arrancar ao noivo: os seus
motivos (e dizia-o alto, para se convencer melhor) eram muito retos, muito
puros: aquilo era um trabalho santo para a arrancar ao Inferno: ele não a
queira para si, queria-a para Deus!... Casualmente, sim, os seus interesses
de amante coincidiam com os seus deveres de sacerdote. Mas se ela fosse
vesga e feia e tola, ele iria igualmente à Rua da Misericórdia, em serviço do
Céu, desmascarar o Sr. João Eduardo, difamador e ateu!
E, sossegado por esta argumentação, deitou-se tranqüilamente.
Mas toda a noite sonhou com Amélia. Tinha fugido com ela: e iaa
levando por uma estrada que conduzia ao Céu! O diabo perseguia-o;
ele via-o, com as feições de João Eduardo, soprando e rasgando com os
cornos os delicados seios das nuvens. E ele escondia Amélia no seu capote
de padre, devorando-a por baixo de beijos! Mas a estrada do Céu não
findava. - "Onde é a porta do paraíso?" perguntava ele a anjos de
cabeleiras de ouro que passavam, num doce rumor de asas, levando almas
nos braços. E todos lhe respondiam: - "Na Rua da Misericórdia, na Rua da
Misericórdia número nove!" Amaro sentia-se perdido; um vasto éter cor de
leite, penetrável e macio como uma penugem de ave, envolvia-o; e ele
procurava debalde uma tabuleta de hospedaria! Por vezes resvalava junto
dele um globo reluzente de onde saía o rumor duma criação; ou um
esquadrão de arcanjos, com couraças de diamantes, erguendo alto espadas
de fogo, galopavam num ritmo nobre...
Amélia tinha fome, tinha frio. "Paciência, paciência, meu
amor!" dizia-lhe ele. Caminhando, vieram a encontrar uma figura branca,
que tinha na mão uma palma verde. "Onde está Deus, nosso pai?"
perguntou-lhe Amaro, com Amélia conchegada ao peito. A figura disse: -
"Eu fui um confessor, e sou um santo: os séculos passam, e imutavelmente,
sempiternamente sustento na mão esta palma e banha-me um êxtase igual!
Nenhuma tinta modifica esta luz para sempre branca; nenhuma sensação
sacode o meu ser para sempre imaculado; e imobilizado na bemaventurança,
sinto a monotonia do Céu pesar-me como uma capa de
bronze. Oh! pudesse eu caminhar a passos largos nas torpezas diferentes da
Terra - ou bracejar, sob as variedades da dor, nas chamas do purgatório!"
143
Amaro murmurou: "Bem fazemos nós em pecar!" - Mas
Amélia desfalecia fatigada... "Durmamos, meu amor!" E, deitados, viam
estrelas flutuando numa poeirada como o joio sacudido vivamente do crivo.
Então nuvens começaram a dispor-se em torno deles, em pregas de
cortinados, dando um perfume de sachets: Amaro pousou a sua mão sobre
o peito de Amélia: um enleio muito doce enervava-os: enlaçaram-se, os
seus lábios pegavam-se úmidos e quentes: - "Oh, Ameliazinha! "
murmurava ele. - "Amo- te, Amaro, amo-te! " suspirava ela. - Mas de
repente as nuvens afastaram- se como os cortinados dum leito; e Amaro viu
diante o diabo que os alcançara, e que, com as garras na cinta, esgaçava a
boca numa risada muda. Com ele estava outro personagem: era velho como
a substância; nos anéis dos seus cabelos vegetavam florestas; a sua pupila
tinha a vastidão azul dum oceano; e nos dedos abertos com que cofiava a
barba infindável, caminhavam, como em estradas, filas de raças humanas. -
"Aqui estão os dois sujeitos", dizia-lhe o diabo retorcendo a cauda. E por
trás Amaro via aglomerarem-se legiões de santos e de santas. Reconheceu
S. Sebastião com as suas setas cravadas; Santa Cecília trazendo na mão o
seu órgão; por entre eles sentia balarem os rebanhos de S. João; e no meio
erguia-se o bom gigante S. Cristóvão apoiado ao seu pinheiro. Espreitavam,
cochichavam! Amaro não se podia desenlaçar de Amélia, que chorava
muito baixo; os seus corpos estavam sobrenaturalmente colados; e Amaro,
aflito, via que as saias dela levantadas descobriam os seus joelhos brancos.
- "Aqui estio os dois sujeitos", dizia o diabo ao velho personagem "e repare
o meu prezado amigo, porque todos aqui somos apreciadores, que a
pequena tem bonitas pernas! " Santos vetustos alçaram-se sofregamente em
bicos de pés, estendendo pescoços onde se viam cicatrizes de martírios: e
as onze mil virgens bateram o vôo como pombas espavoridas! Então o
personagem, esfregando as mãos de onde se esfarelavam universos, disse
grave: "Fico inteirado, meu caro amigo, fico inteirado! Com que, senhor
pároco, vai-se à Rua da Misericórdia, arruina-se a felicidade do Sr. João
Eduardo (um cavalheiro), arranca-se a Ameliazinha à mamã, e vem-se
saciar concupiscências reprimidas a um cantinho da Eternidade? Eu estou
velho - e está rouca esta voz que outrora tão sabiamente discursava pelos
vales. Mas pensa que me assombra o Sr. conde de Ribamar, seu protetor,
apesar de ser um pilar da Igreja e uma coluna da Ordem? Faraó era um
grande rei - e eu afoguei-o, e os seus príncipes cativos, os seus tesouros, os
seus carros de guerra, e as manadas dos seus escravos! Eu cá sou assim! E
se os senhores eclesiásticos continuarem a escandalizar Leiria - eu ainda sei
queimar uma cidade como um papel inútil, e ainda me resta água para
dilúvios!" E voltando-se para dois anjos armados de espadas e lanças, o
personagem bradou: "Chumbem uma grilheta aos pés do padre, e levem-no
ao abismo número sete!". E o diabo gania: "Aí estão as conseqüências, Sr.
144
padre Amaro!" Ele sentiu-se arrebatado de sobre o seio de Amélia por
mãos de brasa; e ia lutar, bradar contra o juiz que o julgava - quando um sol
prodigioso que vinha nascendo do Oriente bateu no rosto do personagem, e
Amaro, com um grito, reconheceu o Padre Eterno!
Acordou banhado em suor. Um raio de sol entrava pela janela.
···
Nessa noite João Eduardo, indo da Praça para casa da S.
Joaneira, ficou assombrado, ao ver aparecer à outra boca da rua, do lado da
Sé, o Santíssimo em procissão.
E vinha para casa das senhoras! Por entre as velhas de mantéu
pela cabeça, as tochas faziam destacar opas de paninho escarlate; sob o
pálio os dourados da estola do pároco reluziam; uma campainha tocava
adiante, às vidraças apareciam luzes; - e na noite escura o sino da Sé
repicava, sem descontinuar.
João Eduardo correu aterrado - e soube logo que era a extrema-unção
á entrevada.
Tinham posto na escada um candeeiro de petróleo sobre uma
cadeira. Os serventes encostaram à parede da rua os varais do pálio, e o
pároco entrou. João Eduardo, muito nervoso, subiu também: ia pensando
que a morte da entrevada, o luto retardariam o seu casamento; contrariava-o
a presença do pároco e a influência que ele adquiria naquele momento; e
foi quase quezilado que perguntou à Ruça na saleta:
- Então como foi isto?
- Foi a pobre de Cristo que esta tarde começou a esmorecer, o senhor
doutor veio, diz que estava a acabar e a senhora mandou
pelos sacramentos.
João Eduardo, então, julgou delicado ir assistir "à cerimônia".
O quarto da velha era junto à cozinha; e tinha naquele momento uma
solenidade lúgubre. Sobre uma mesa coberta de toalha de folhos, estava um
prato com cinco bolinhas de algodão entre duas velas de cera. A cabeça da
entrevada, toda branca, a sua face cor de cera mal se distinguiam do linho
do travesseiro; tinha os olhos estupidamente dilatados; e ia apanhando
incessantemente com um gesto lento a dobra do lençol bordado.
A S. Joaneira e Amélia rezavam ajoelhadas à beira da cama; a
Sra. D. Maria da Assunção (que casualmente entrara, ao voltar da
fazenda) ficara à porta do quarto aterrada, agachada sobre os calcanhares,
murmurando Salve-Rainhas. João Eduardo, sem ruído, dobrou o joelho
junto dela.
O padre Amaro, curvado quase ao ouvido da entrevada, exortava-a a que se
abandonasse à Misericórdia divina; mas vendo que ela não compreendia,
145
ajoelhou, recitou rapidamente o Misereatur; e no silêncio, a sua voz
erguendo-se nas sílabas latinas mais agudas, dava uma sensação de enterro
que enternecia, fazia soluçar as duas senhoras. Depois ergueu-se, molhou o
dedo nos santos óleos; murmurando as expressões penitentes do ritual
ungiu os olhos, o peito, a boca, as mãos - que há dez anos só se moviam
para chegar a escarradeira, e as plantas dos pés que há dez anos só se
aplicavam a buscar o calor da botija. E depois de queimar as bolinhas de
algodão úmidas de óleo, ajoelhou-se, ficou imóvel, com os olhos postos no
Breviário.
João Eduardo voltou em pontas de pés á sala, sentou-se no mocho do
piano: agora decerto, durante quatro ou cinco semanas, Amélia não tornaria
a tocar... E uma melancolia amoleceu-o, vendo no doce progresso do seu
amor aquela brusca interrupção da morte e dos seus cerimoniais.
A Sra. D. Maria entrou então, toda transtornada daquela cena - e seguida de
Amélia que trazia os olhos muito vermelhos.
- Ah! ainda bem que aqui está, João Eduardo! disse logo a
velha. Que quero que me faça um favor, que é acompanhar-me a casa...
Estou toda a tremer... Estava desprevenida, e com perdão de Deus seja dito,
não posso ver gente na agonia... Que ela, coitadinha, vai-se como um
passarinho... E pecados não os tem... Olhe, vamos pela Praça que é mais
perto. E desculpe... Tu, filha, dispensa, mas não posso ficar... É que me
dava a dor... Ai! que desgosto... Que para ela até é melhor... Pois olhem,
sinto- me a desfalecer...
Foi mesmo necessário que Amélia a levasse a baixo, ao quarto da
S. Joaneira, a reconfortá-la caridosamente com um cálice de jeropiga.
- Ameliazinha, disse então João Eduardo, se eu sou cá
necessário para alguma coisa...
- Não, obrigada. Ela está por instantes, coitadinha...
- Não te esqueças, filha, recomendou descendo a Sra. D. Maria
da Assunção, põe-lhe as duas velas bentas à cabeceira... Alivia muito na
agonia... E se tiver muitos arrancos, põe outras duas apagadas, em
cruz... Boas noites... Ai, que nem me sinto!
À porta, mal viu o pálio, os homens com as tochas, apoderou-se
do braço de João Eduardo, colou-se toda a ele com terror - um pouco
também com o acesso de ternura que lhe dava sempre a jeropiga.
···
Amaro prometera voltar mais tarde, para "as acompanhar,
como amigo, naquele transe". E o cônego (que chegara, quando a
procissão como o pálio dobrava a esquina para o lado da Sé), informado
desta delicadeza do senhor pároco, declarou logo que visto que o colega
146
Amaro vinha fazer a noitada, ele ia descansar o corpo porque, Deus bem o
sabia, aquelas comoções arrasavam-lhe a saúde.
- E a senhora não havia de querer que eu apanhasse alguma, e
me visse nos mesmos assados...
- Credo, senhor cônego! exclamou a S. Joaneira, nem diga isso!...
- E começou a choramingar, muito abalada.
- Pois então boas noites, disse o cônego, e nada de afligir. Olhe,
a pobre criatura, alegria não a tinha: e como não tem pecados não
lhe importa achar-se na presença de Deus. Tudo bem considerado, senhora,
é uma pechincha! E adeusinho, que me não estou a sentir bem...
Também a S. Joaneira não se sentia bem. O choque, logo depois do
jantar, dera-lhe ameaças de enxaqueca: - e quando Amaro voltou, às onze,
Amélia que fora abrir a porta, disse-lhe, ao subir à sala de jantar:
- O senhor pároco desculpe... A mamã veio-lhe a enxaqueca,
coitada... Estava que nem via... Deitou-se, pôs água sedativa e adormeceu...
- Ah! deixá-la dormir!
Entraram no quarto da entrevada. Tinha a cabeça virada para
a parede; dos seus beiços abertos saía um gemido muito débil e
contínuo. Sobre a mesa agora, uma grossa vela benta, de morrão negro,
erguia uma luz triste; e ao canto, transida de medo, a Ruça, segundo as
recomendações da S. Joaneira, ia rezando a coroa.
- O senhor doutor, disse Amélia baixo, diz que morre sem o sentir...
Diz que há-de gemer, gemer, e de repente acabar como um passarinho...
- Seja feita a vontade de Deus, murmurou gravemente o
padre Amaro.
Voltaram à sala de jantar. Toda a casa estava silenciosa: fora
ventava forte. Havia muitas semanas que não se encontravam assim sós.
Muito embaraçado, Amaro aproximou-se da janela: Amélia encostou-se ao
aparador.
- Vamos ter uma noite de água, disse o pároco.
- E está frio, disse ela, encolhendo-se no xale. Eu tenho estado
passada de medo...
- Nunca viu morrer ninguém?
- Nunca.
Calaram-se - ele imóvel ao pé da janela, ela encostada ao
aparador, de olhos baixos.
- Pois está frio, disse Amaro, com a voz alterada da perturbação que
lhe ia dando a presença dela àquela hora da noite.
- Na cozinha está a braseira acesa, disse Amélia. É melhor irmos para
lá.
- É melhor.
147
Foram. Amélia levou o candeeiro de latão: e Amaro, indo
remexer com as tenazes o brasido vermelho, disse:
- Há que tempo que eu não entro aqui na cozinha... Ainda tem
os vasos com os raminhos fora da janela?
- Ainda, è um craveiro...
Sentaram-se em cadeirinhas baixas, ao lado da braseira. Amélia,
inclinada para o lume, sentia os olhos do padre Amaro devorá-la
silenciosamente. Ele ia falar-lhe, decerto! Tinha as mãos a tremer; não
ousava mover- se, erguer as pálpebras, com medo que lhe rompessem as
lágrimas; mas ansiava pelas suas palavras, ou amargas ou doces...
Elas vieram enfim, muito graves.
- Menina Amélia, disse, eu não esperava poder assim falar-lhe a sós.
Mas as coisas arranjaram-se... É decerto a vontade de Nosso Senhor! E
depois, como as suas maneiras mudaram tanto...
Ela voltou-se bruscamente, toda escarlate, o beicinho trêmulo:
- Mas bem sabe por quê! exclamou quase chorando.
- Sei. Se não fosse aquele infame Comunicado, e as calúnias... nada
se tinha passado, e a nossa amizade seria a mesma, e tudo iria bem... É
justamente a esse respeito que eu lhe quero falar.
Chegou a cadeira mais para junto dela, e muito suave, muito
tranqüilo:
- Lembra-se desse artigo em que todos os amigos da casa
eram insultados? em que eu era arrastado pela rua da amargura? em que
a menina mesma, a sua honra era ofendida?... Lembra-se, hem? Sabe
quem o escreveu?
- Quem? perguntou Amélia toda surpreendida.
- O Sr. João Eduardo! disse o pároco muito tranqüilamente cruzando
os braços diante dela.
- Não pode ser!
Tinha-se erguido. Amaro puxou-lhe devagarinho pelas saias para
a fazer sentar; e a sua voz continuou paciente e suave:
- Ouça. Sente-se. Foi ele que o escreveu. Soube ontem tudo. O
Natário viu o original escrito pela letra dele. Foi ele que descobriu. Por
meios dignos decerto,.. e porque era a vontade de Deus que a verdade
aparecesse. Agora escute. A menina não conhece esse homem. - Então,
baixo, contou-lhe o que sabia de João Eduardo, por Natário: as suas
noitadas com o Agostinho, as suas injúrias contra os padres, a sua
irreligião...
- Pergunte-lhe se ele se confessa há seis anos, e peça-lhe os
bilhetes da confissão!
Ela murmurava, com as mãos caídas no regaço:
- Jesus, Jesus...
148
- Eu então entendi que como íntimo da casa, como pároco,
como cristão, como seu amigo, menina Amélia... porque acredite que lhe
quero... enfim, entendi que era o meu dever avisá-la! Se eu fosse seu
irmão, dizia-lhe simplesmente: "Amélia, esse homem fora de casa!". Não o
sou, infelizmente. Mas venho, com dedicação de alma, dizer-lhe: "O
homem com quem quer casar surpreendeu a sua boa-fé e de sua mamã;
vem aqui, sim senhor, com aparências de bom moço, e no fundo é..."
Ergueu-se, como ferido duma indignação irreprimível:
- Menina Amélia, é o homem que escreveu esse Comunicado!
que fez ir o pobre Brito para a serra de Alcobaça! que me chamou a mim
sedutor! que chamou devasso ao Sr. cônego Dias! Devasso! Que lançou
veneno nas relações de sua mamã com o cônego! e que a acusou à menina,
em bom português, de se deixar seduzir! Diga, quer casar com esse
homem?
Ela não respondeu, com os olhos cravados no lume, duas
lágrimas mudas sobre as faces.
Amaro deu passos irritados pela cozinha; e voltando ao pé dela,
com a voz abrandada, gestos muito amigos:
- Mas suponhamos que não era ele o autor do Comunicado, que não
tinha insultado em letra redonda a sua mamã, o senhor cônego, os seus
amigos: resta ainda a sua impiedade! Veja que destino o seu se casasse com
ele! Ou teria de condescender com opiniões do homem, abandonar as suas
devoções, romper com os amigos de sua mãe, não pôr os pés na igreja, dar
escândalo a toda a gente honesta, ou teria de se pôr em oposição com ele, e
a sua casa seria um inferno! Por tudo uma questão! Por jejuar à sexta-feira,
por ir à exposição do Santíssimo, por cumprir o domingo... Se se quisesse
confessar, que desavenças! Um horror! E sujeitar-se a ouvi-lo escarnecer os
mistérios da fé! Ainda me lembro, na primeira noite que aqui passei, com
que desacato ele falou da Santa da Arregaça!... E ainda me lembro uma
noite que o padre Natário aqui falava dos sofrimentos do nosso santo padre
Pio IX, que seria preso, se os liberais entrassem em Roma... Como ele tinha
risinhos de escárnio, como disse que eram exagerações!... Como se não
fosse perfeitamente certo que por vontade dos liberais veríamos o chefe da
Igreja, o vigário de Cristo, dormir num calabouço em cima dumas poucas
de palhas! São as opiniões dele, que ele apregoa por toda parte! O padre
Natário diz que ele e o Agostinho estavam no café ao pé do Terreiro, a
dizer que o batismo era um abuso, porque cada um devia escolher a religião
que quisesse, e não ser forçado, de pequeno, a ser cristão! Hem, que lhe
parece? Como seu amigo lho digo... Para bem da sua alma antes a queria
ver morta, do que ligada a esse homem! Case com ele, e perde para sempre
a graça de Deus!
149
Amélia levou as mãos às fontes, e deixando-se cair para as costas da
cadeira, murmurou, muito desgraçada:
- Oh meu Deus, meu Deus!
Amaro então sentou-se ao pé dela, tocando-lhe quase o vestido
com o joelho, pondo na voz uma bondade paternal:
- E depois, minha filha, pensa que um homem assim pode ter
bom coração, apreciar a sua virtude, querer-lhe como um marido cristão?
Quem não tem religião não tem moral. Quem não crê não ama, diz um dos
nossos santos padres. Depois de lhe passar o fogacho da paixão, começaria
a ser duro consigo, mal-humorado, voltaria a freqüentar o Agostinho e
as mulheres da vida e maltratá-la-ia talvez... E que susto constante para
si! Quem não respeita a religião não tem escrúpulos: mente, rouba,
calunia... Veja o Comunicado. Vir aqui apertar a mão ao senhor cônego, e
ir para o jornal chamar-lhe devasso! Que remorsos não sentiria a menina,
mas tarde, à hora da morte! É muito bom enquanto se tem saúde e se é
nova; mas quando chegasse a sua última hora, quando se achasse, como
aquela pobre criatura que está ali, nos últimos arrancos, que terror não
sentiria de ter de aparecer diante de Jesus Cristo, depois de ter vivido em
pecado ao lado desse homem! Quem sabe se ele não recusaria que lhe
dessem a extrema-unção! Morrer sem sacramentos, morrer como um
animal!
- Pelo amor de Deus! Pelo amor de Deus, senhor pároco!
exclamou Amélia rompendo num choro nervoso.
- Não chore, disse ele tomando-lhe suavemente a mão entre as
suas, muito trêmulas. Escute, abra-se comigo... Vá, esteja sossegada, tudo
se remedeia. Não há banhos publicados... Diga-lhe que não quer casar,
que sabe tudo, que o odeia...
Esfregava, apertava devagarinho a mão de Amélia. E
subitamente, com voz dum ardor brusco:
- Não se importa com ele, não é verdade?
Ela respondeu muito baixo, com a cabeça caída sobre o peito:
- Não.
- Então, ai tem! fez excitado. E diga-me, gosta de outro?
Ela não respondeu, com o peito a arfar fortemente, os olhos dilatados
para o lume.
- Gosta? Diga, diga!
Passou-lhe o braço sobre o ombro, atraindo-a docemente. Ela
tinha as mãos abandonadas no regaço; sem se mover voltou devagar para
ele os olhos resplandecentes sob uma névoa de lágrimas; e entreabriu
devagar os lábios, pálida, toda desfalecida. Ele estendeu os beiços a tremer
- e ficaram imóveis, colados num só beijo, muito longo, profundo, os
dentes contra os dentes.
150
- Minha senhora! minha senhora! gritou de repente, num terror, a voz
da Ruça, dentro.
Amaro ergueu-se dum salto, correu ao quarto da entrevada.
Amélia estava tão trêmula, que precisou encostar-se à porta da cozinha
um momento, com as pernas vergadas, a mão sobre o coração. Recuperouse,
desceu a acordar a mãe.
Quando entraram no quarto da idiota, Amaro ajoelhado, com a
face quase sobre o leito, rezava: as duas senhoras rojaram-se no chão: uma
respiração acelerada sacudia o peito, as ilhargas da velha: e à medida que
o arquejo se tornava mais rouco, o pároco precipitava as suas orações.
Subitamente o som agonizante cessou: ergueram-se: a velha estava imóvel,
com os bugalhos dos olhos saídos e baços. Expirara.
O padre Amaro trouxe logo as senhoras para a sala; - e aí a S.
Joaneira, curada, pelo choque, da sua enxaqueca, desabafou, em acessos
de choro, recordando o tempo em que a pobre mana era nova, e que
bonita era! e que bom casamento estivera para fazer com o morgado da
Vigareira!...
- E o gênio mais dado, senhor pároco! Uma santa! E quando
a Amélia nasceu, e que eu estive tão mal, que não se tirou de ao pé de
mim, noite e dia!... E alegre, não havia outra... Ai Deus da minha alma,
Deus da minha alma!
Amélia, encostada à vidraça na sombra da janela, olhava entorpecida
a noite negra.
Bateram então à campainha. Amaro desceu, com uma vela. Era João
Eduardo que, ao ver o pároco àquela hora na casa, - ficou petrificado, junto
da porta aberta; enfim balbuciou:
- Eu vinha saber se havia novidade...
- A pobre senhora expirou agora mesmo...
- Ah!
Os dois homens olharam-se um instante fixamente.
- Se eu sou preciso para alguma coisa... - disse João Eduardo.
- Não, obrigado. As senhoras vão-se deitar.
João Eduardo fez-se pálido da cólera que lhe davam aqueles
modos de dono da casa. Esteve ainda um momento, hesitando - mas vendo
o pároco abrigar a luz, com a mão, contra o vento da rua:
- Bem, boa noite, disse.
- Boa noite.
O padre Amaro subiu: e depois de deixar as duas senhoras no
quarto da S. Joaneira (porque, cheias de terror, queriam dormir juntas),
voltou ao quarto da morta, despertou a vela sobre a mesa, acomodou-se
numa cadeira, e começou a ler o Breviário.
151
Mais tarde, quando toda a casa estava silenciosa, o pároco,
sentindo o sono entorpecê-lo, veio à sala de jantar; reconfortou-se com um
cálice de vinho do Porto que achara no aparador; e saboreava
regaladamente o cigarro, quando ouviu na rua passos de botas fortes que
iam, vinham, por baixo das janelas. Como a noite estava escura não pôde
distinguir "o passeante". Era João Eduardo que rondava a casa, furioso.
XII
Ao outro dia cedo, a Sra. D. Josefa Dias que entrara, havia pouco, da
missa, ficou muito surpreendida, ouvindo a criada que lavava as escadas
dizer de baixo:
- Está aqui o Sr, padre Amaro, Sra. D. Josefa!
O pároco ultimamente raras vezes vinha a casa do cônego; e
D. Josefa gritou logo lisonjeada e já curiosa:
- Que suba para aqui, não é de cerimônia! É como de família.
Que suba!
Estava na sala de jantar, arranjando numa travessa ladrilhos de
marmelada, com um vestido de barege preto esgaçado na ilharga e
arqueado em redor dos tornozelos por uma crinoline dum só arco; trazia
nessa manhã óculos azuis; e foi logo ao patamar, arrastando os seus
medonhos chinelos de ourelo, e preparando, por baixo do lenço preto
repuxado sobre a testa, um ar agradável para o senhor pároco.
- Ora ditosos olhos, exclamou. Eu entrei há bocadinho, e já cá
tenho a primeira missinha. Fui hoje à capela de Nossa Senhora do
Rosário... Disse-a o padre Vicente. Ai! e que virtude, que me fez hoje,
senhor pároco! Sente-se. Aí não, que lhe vem ar da porta... E então a pobre
entrevada lá se foi... Conte lá, senhor pároco...
O pároco teve de descrever a agonia da entrevada, a dor da S.
Joaneira; como depois de morta a face da velha parecera remoçar; o que
as senhoras tinham decidido a respeito da mortalha...
- Aqui para nós, D. Josefa, é um grande alívio para a S. Joaneira... -
E de repente, puxando-se para a beira da cadeira, assentando as mãos nos
joelhos: - E que me diz à do Sr. João Eduardo? Já sabe? Foi ele que
escreveu o artigo!
A velha exclamou, levando as mãos à cabeça:
- Ai! nem me fale nisso, senhor pároco! Nem me fale nisso, que até
tenho estado doente!
- Ah, já sabe?
152
- E mais que sei, senhor pároco! O Sr. padre Natário, devo-lhe
esse favor, esteve aqui ontem e contou-me tudo! Ai, que maroto! Ai, que
alma perdida!
- E sabe que é o íntimo do Agostinho, que são bebedeiras na redação
até de madrugada, que vai para o bilhar do Terreiro achincalhar a religião...
- Ai, por quem é, senhor pároco, nem me diga, nem mo diga!
Que ontem, quando o Sr. padre Natário esteve ai, até tive escrúpulos de
ouvir tanto pecado... Que lhe devo esse favor, ao Sr. padre Natário, logo
que soube veio-me contar... É de muito delicado... E olhe, senhor pároco,
a mim sempre me quis parecer isso mesmo do homem. Eu nunca o
disse, nunca o disse! Que lá isso, esta boquinha nunca se pôs em vidas
alheias... Mas tinha cá dentro um palpite. Ele ia à missa, cumpria o jejum;
mas eu cá tinha a desconfiança que aquilo era para enganar a S. Joaneira e
a pequena. Agora se vê! Ele foi criatura que nunca me caiu em graça!
Nunca, senhor pároco! - E de repente, com os olhinhos luzidios duma
alegria perversa: - E agora, já se sabe, o casamento desmancha-se?
O padre Amaro recostou-se na cadeira, e muito pausadamente:
- Ora, minha senhora, seria notório que uma rapariga de bons
princípios fosse casar com um pedreiro-livre, que não se confessa há seis
anos!
- Credo, senhor pároco! antes vê-la morta! É necessário dizer tudo à
rapariga.
O padre Amaro interrompeu, chegando rapidamente a cadeira
para ao pé dela:
- Pois foi justamente para isso mesmo que eu a vim procurar,
minha senhora. Eu ontem já falei com a pequena... Mas compreende, no
meio daquele desgosto, com a pobre senhora a expirar ao lado, não pude
insistir muito. Enfim disse-lhe o que havia, aconselhei-a por bons modos,
expus-lhe que ia perder a sua alma, ter uma vida desgraçada, etc. Fiz o que
pude, minha senhora, como amigo e como pároco. E como era o meu
dever (ainda que me custou, realmente custou-me), lembrei-lhe que, como
cristã e como senhora, tinha obrigação de romper com o escrevente.
- E ela?
O padre Amaro fez uma visagem descontente:
- Não disse que sim nem que não. Pôs-se a fazer biquinho, a
choramingar. É verdade que estava muito alterada com a morte em casa.
Que a rapariga não morre por ele, isso é claro; mas quer casar, tem medo
que a mãe morra, que se veja só... Enfim sabe o que são raparigas! Que as
minhas palavras fizeram-lhe efeito, ficou muito indignada, etc. ... Mas
enfim, eu pensei que o melhor era a senhora falar-lhe. A senhora é a amiga
da casa, é madrinha, conheceu-a de pequena... Estou certo que no seu
153
testamento havia de lhe deixar uma boa lembrança... Tudo isto são
considerações...
- Ai, fica por minha conta, senhor pároco, exclamou a velha, hei- delhas
contar!
- A rapariga o que precisa é quem a dirija. Aqui para nós,
precisa quem a confesse! Ela confessa-se ao padre Silvério; mas, sem
querer dizer mal, o padre Silvério, coitado, pouco vale. Muito caridoso,
muita virtude; mas o que se chama jeito, não tem. Para ele a confissão é a
desobriga. Pergunta doutrina, depois faz o exame pelos mandamentos da
lei de Deus... Veja a senhora!... Está claro que a rapariga não furta, nem
mata, nem deseja a mulher do seu próximo! A confissão assim não lhe
aproveita: o que ela precisa é um confessor teso, que lhe diga - para ali! e
sem réplica. A rapariga é um espírito fraco; como a maior parte das
mulheres não se sabe dirigir por si; necessita por isso um confessor que a
governe com uma vara de ferro, a quem ela obedeça, a quem conte tudo, a
quem tenha medo... É como deve ser um confessor.
- O senhor pároco é que lhe servia...
Amaro sorriu modestamente:
- Não digo que não. Havia de aconselhá-la bem; sou amigo da mãe,
acho que ela é boa rapariga e digna da graça de Deus. Que eu, sempre que
converso com ela, todos os conselhos que posso, em tudo, dou- lhos... Mas
a senhora compreende, há coisas em que se não pode estar a falar na sala,
com gente à volta... Só se está à vontade no confessionário. E é o que me
falta, são as ocasiões de lhe falar só. Mas enfim eu não posso ir dizer-lhe:
"a menina agora há-de confessar-se comigo"! Eu nisso sou muito
escrupuloso...
- Mas digo-lhe eu, senhor pároco! Ah, digo-lhe eu!...
- Ora isso é que era um grande favor! Era um bem que fazia
àquela alma! Porque se a rapariga me entrega a direção da sua alma, então
podemos dizer que lhe acabaram as dificuldades, e temo-la no caminho da
graça... E quando lhe vai falar, D. Josefa?
D. Josefa, "como julgava pecado adiar", estava decidida a falarlhe
essa mesma noite.
- Não me parece, D. Josefa. Hoje é noite de pêsames... O escrevente
naturalmente está lá...
- Credo, senhor pároco! Pois eu e as outras pequenas havemos
de passar a noite debaixo das mesmas telhas com o herege?
- Tem de ser. Enfim, o rapaz por ora é considerado da família... Além
disso, D. Josefa, a senhora, a D. Maria e as Gansosinhos são pessoas da
maior virtude... Mas nós não devemos ter orgulho da nossa virtude...
Arriscamo-nos a perder-lhe todos os frutos. E é um ato de humildade, que
agrada muito a Deus, o misturar-nos às vezes com os maus; é como quando
154
um grande fidalgo tem de estar lado a lado com um trabalhador de
enxada... É como se disséssemos: "Eu sou-te superior em virtude, mas
comparado com o que devia ser para entrar na glória, quem sabe se não sou
tão pecador como tu!..." E esta humilhação da alma é a melhor oferta que
podemos fazer a Jesus.
D. Josefa escutava-o, babosa; e numa admiração:
- Ai, senhor pároco, que até dá virtude ouvi-lo!
Amaro curvou-se:
- Deus às vezes, na sua bondade, inspira-me justas palavras...
Pois, minha senhora, eu não quero maçar mais. Ficamos entendidos. A
senhora fala à pequena amanhã; e se, como é de crer, ela consentir em
escutar os meus conselhos, traz-ma à Sé, no sábado, às oito horas. E falelhe
teso, D. Josefa!
- Deixe-a comigo, senhor pároco!... Então não quer provar da minha
marmelada?
- Provarei, disse Amaro, tomando um ladrilho em que cravou
os dentes com dignidade.
- É dos marmelos da D. Maria. Saiu-me melhor que a das
Gansosinhos...
- Pois adeus, D. Josefa... Ah, é verdade, que diz o nosso cônego deste
caso do escrevente?
- O mano?...
Neste momento a campainha embaixo repicou com furor.
- Há-de ser ele, disse logo D. Josefa. E vem zangado!
Vinha, com efeito, da fazenda - furioso com o caseiro, o regedor, o
governo e a perversidade dos homens. Tinham-lhe roubado uma porção de
cebolinho; e, abafado de cólera, aliviava-se repetindo com gozo o nome do
Inimigo.
- Credo, mano, que até lhe fica mal! - exclamou D. Josefa tomada de
escrúpulos.
- Ora, mana, deixemos essas pieguices para a quaresma! Digo
co'os diabos! e repito co'os diabos! Mas eu lá disse ao caseiro, que se
sentir gente na fazenda, carregue a espingarda e faça fogo!
- Há uma falta de respeito pela propriedade... disse Amaro.
- Há uma falta de respeito por tudo! exclamou o cônego. Um
cebolinho que dava saúde só olhar para ele! Pois senhores, lá vai! Isto é o
que eu chamo um sacrilégio!... Um desaforado sacrilégio! - acrescentou
com convicção; porque o roubo do seu cebolinho, o cebolinho dum
cônego, parecia-lhe um ato tão negro de impiedade como se tivessem sido
furtados os vasos santos da Sé.
- Falta de temor a Deus, falta de religião, observou D. Josefa.
155
- Qual falta de religião! replicou o cônego exasperado. Falta de cabos
de polícia, é o que é! - E voltando-se para Amaro: - Hoje é o enterro da
velha, hem? Inda mais essa! Vá, mana, mande-me lá dentro uma volta
lavada e os sapatos de fivela!
O padre Amaro então, retomado pela sua preocupação:
- Estávamos cá a falar do caso do João Eduardo: o Comunicado!
- Isso é outra maroteira que tal, fez logo o cônego. Vejam essa,
também! Que quadrilha vai pelo mundo, que quadrilha! - e ficou de
braços cruzados, com os olhos arregalados, como contemplando uma legião
de monstros, soltos pelo universo, e arremessando-se com impudência
contra as reputações, os princípios da Igreja, a honra das famílias e o
cebolinho do clero.
Ao sair, o padre Amaro renovou ainda as suas recomendações a D. Josefa,
que o acompanhara ao patamar.
- Então hoje, noite de pêsames, não se faz nada. Amanhã fala
à rapariga, e lá para o fim da semana leva-ma à Sé. Bem. E convença a
rapariga, D. Josefa, trate de salvar aquela alma! Olhe que Deus tem os
olhos em si. Fale-lhe teso, fale-lhe teso!... E o nosso cônego que se entenda
com a S. Joaneira.
- Pode ir descansado, senhor pároco. Sou madrinha, e, quer
ela queira quer não, hei-de pô-la no caminho da salvação...
- Amém, disse o padre Amaro.
Nessa noite, com efeito, D.Josefa "não fez nada". Eram os
pêsames na Rua da Misericórdia. Estavam embaixo, na saleta, alumiada
lugubremente por uma só vela com um abajur verde-escuro. A S. Joaneira e
Amélia, de luto, ocupavam tristemente o canapé ao centro; e em redor, nas
fileiras de cadeiras apoiadas à parede, as amigas, cobertas de negro
pesado, conservavam-se funebremente imóveis, de faces contristadas, num
torpor mudo: às vezes duas vozes ciciavam, ou dum canto, na sombra, saía
um suspiro: depois o Libaninho, ou Artur Couceiro, ia em bicos de pés
espevitar o morrão da vela; a D. Maria da Assunção expectorava o seu
catarro com um som choroso: e no silêncio ouviam tamancos bater no
lajedo da rua, ou os quartos de hora no relógio da Misericórdia.
A intervalos a Ruça, toda de negro, entrava com o tabuleiro de
doces e copos de chazada; levantava-se então o abajur; e as velhas, que já
iam cerrando as pálpebras, sentindo a sala mais clara, levavam logo os
lenços aos olhos, e, com ais, serviam-se de bolinhos da Encarnação.
João Eduardo lá estava, a um canto, ignorado, ao pé da
Gansoso surda que dormia com a boca aberta: toda a noite o seu olhar
procurara debalde o olhar de Amélia, que não se movia, com o rosto sobre
o peito, as mãos no regaço, torcendo e destorcendo o seu lenço de
156
cambraieta. O Sr. padre Amaro e o Sr. cônego Dias vieram às nove horas: o
pároco com passos graves foi dizer à S. Joaneira:
- Minha senhora, o golpe é grande. Mas consolemo-nos,
pensando que sua excelentíssima mana está a esta hora gozando a
companhia de Jesus Cristo.
Houve em redor uma murmuração de soluços; e como não
restavam cadeiras, os dois eclesiásticos sentaram-se aos dois cantos do
canapé, tendo no meio a S. Joaneira e Amélia em lágrimas. Eram assim
reconhecidos pessoas de família; a Sra. D. Maria da Assunção notou
baixinho a D. Joaquina Gansoso:
- Ai, até dá gosto vê-los assim todos quatro!
E até às dez horas a noite de pêsames continuou soturna e
sonolenta, perturbada apenas pela tosse constante de João Eduardo que
estava constipado, e que (na opinião da Sra. D. Josefa Dias que o disse a
todos, depois), "tossia só para fazer troça e para achincalhar o respeito aos
mortos".
···
Daí a dois dias, às oito horas da manhã, a Sra. D. Josefa Dias
e Amélia entraram na Sé - depois de terem falado no terraço à
Amparo, mulher do boticário, que tinha uma criança com sarampo, e,
apesar de não ser coisa de cuidado, "viera à cautela fazer uma promessa".
O dia estava enevoado, a igreja tinha luz parda. Amélia, pálida sob a
sua mantilha de renda, parou defronte do altar de Nossa Senhora das Dores,
deixou-se cair de joelhos, e ficou imóvel, com o rosto sobre o livro de
missa. A Sra. D. Josefa Dias, com passos fofos, depois de se ter prostrado
diante da capela do Santíssimo e do altar-mor, foi empurrar devagarinho a
porta da sacristia: o padre Amaro lá passeava, com os ombros vergados, as
mãos atrás das costas:
- Então? perguntou logo, erguendo para D. Josefa a sua face
muito barbeada, onde os olhos reluziam inquietos.
- Está ali, disse a velha baixinho, numa expressão de triunfo. Fui eu
mesma buscá-la! Ai, falei-lhe teso, senhor pároco, não lhas poupei! Agora
é consigo!
- Obrigado, obrigado, D. Josefa! disse o padre, apertando-lhe
as mãos ambas com força. Deus há-de-lho levar em conta.
Olhou em redor, nervoso; apalpou-se para sentir o lenço, a
carteira dos papéis; e, cerrando devagarinho a porta da sacristia, desceu à
igreja. Amélia ainda estava ajoelhada, fazendo um vulto negro imóvel
contra o pilar branco.
- Pst, fez-lhe D. Josefa.
157
Ela ergueu-se devagar, muito escarlate, compondo tremulamente
com as mãos as pregas da mantilha em roda do pescoço.
- Aqui lha deixo, senhor pároco, disse a velha. Vou à Amparo
da botica, e venho depois por ela. Ora vai filha, vai, Deus te alumie essa
alma!
E saiu com mesuras a todos os altares.
O Carlos da botica - que era inquilino do cônego e um pouco
ronceiro na renda - desbarretou-se com espalhafato apenas D. Josefa
apareceu à porta, e conduziu-a logo acima, à sala de cortinas de cassa, onde
a Amparo costurava à janela.
- Ai, não se prenda, Sr. Carlos, dizia-lhe a velha. Não largue os seus
afazeres. Eu deixei a afilhada na Sé, e venho aqui descansar um bocadinho.
- Então, se me dá licença... E como vai o nosso cônego?
- Não tornou a ter a dor. Mas tem sofrido de tonturas.
- Começos de Primavera, disse o Carlos que retomara o seu
ar majestoso, de pé no meio da sala, com os dedos nas aberturas do
colete. Também eu me tenho sentido perturbado... Nós, as pessoas
sangüíneas, sofremos sempre disto que se pode chamar o renascimento da
seiva... Há uma abundância de humores no sangue, que, não sendo
eliminados pelos canais próprios, vão, por assim dizer, abrir caminho, aqui
e além, pelo corpo, sob a forma de furúnculo, espinha, nascida, às vezes,
em lugares bem incômodos, e, ainda que em si insignificantes,
acompanhados sempre, por assim dizer, dum cortejo... Perdão, sinto o
praticante a palrar... Se me dá licença... Respeitos ao nosso cônego. Que
use a magnésia de James!
D. Josefa então quis ver a menina com o sarampo. Mas não
passou da porta do quarto, recomendando à pequena, que arregalava uns
olhos de febre, muito abafada na roupa, "não se descuidasse das suas
oraçõezinhas de manhã e à noite". Aconselhou à Amparo alguns remédios,
que eram milagrosos no sarampo; mas se a promessa fora feita com fé,
a menina podia considerar-se curada... Ai, todos os dias dava graças a
Deus de se não ter casado! Que filhos eram só para dar trabalho e
canseiras; e com as quezílias que traziam e o tempo que tomavam, eram até
causa duma mulher se descuidar das suas práticas e meter a alma no
Inferno.
- Tem razão, D. Josefa, disse a Amparo, é um castigo... E eu
com cinco! Às vezes fazem-me tão doida, que me sento aqui na cadeirinha,
e ponho-me a chorar só comigo...
Tinham voltado para junto da janela, e gozaram muito, espreitando o
senhor administrador do conselho, que, por trás da vidraça da
repartição, namorava de binóculo a do Teles alfaiate. - Ai, era um
escândalo! Que nunca houvera em Leiria autoridades assim! O secretário158
geral era um desaforo com a Novais... Que se podia esperar de homens sem
religião, educados em Lisboa, que, segundo D. Josefa, estava predestinada
a perecer como Gomorra pelo fogo do Céu! - A Amparo cosia com a
cabeça baixa, envergonhada talvez diante daquela indignação piedosa, dos
desejos culpados que a roíam de ver o Passeio Público e de ouvir os
cantores em S. Carlos.
Mas bem depressa a Sra. D. Josefa começou a falar do escrevente. A
Amparo não sabia nada; e a velha teve a satisfação de contar prolixamente,
"tintim por tintim", a história do Comunicado, o desgosto na Rua da
Misericórdia, e a campanha de Natário para descobrir o liberal. Alargou-se
principalmente sobre o caráter de João Eduardo, a sua impiedade, as suas
orgias... E, considerando um dever de cristã aniquilar o ateu, deu mesmo a
entender que alguns roubos ultimamente cometidos em Leiria, eram "obra
de João Eduardo".
A Amparo declarou-se "banzada". O casamento então, com a
Ameliazinha...
- Isso pertence á história, declarou com júbilo D. Josefa Dias.
Vão pô-lo fora de casa! E por muito feliz se deve o homem dar em não ir
parar ao banco dos réus... Que a mim o deve, e à prudência do mano e do
Sr. padre Amaro. Que havia motivos para o ferrar na cadeia!
- Mas a pequena gostava dele, ao que parece.
D. Josefa indignou-se. Credo, a Amélia era uma rapariga de juízo, de
muita virtude! Apenas conheceu os desaforos, foi a primeira a dizer que
não, e que não! Ai! detestava-o... - E D. Josefa, baixando a voz
em confidência, contou "que era positivo que ele vivia com uma
desgraçada para os lados do quartel".
- Disse-o o Sr. padre Natário, afirmou. - E aquilo é homem que da
sua boca nunca sai senão a verdade pura... Foi muito delicado
comigo, devo-lhe esse favor. Apenas soube veio-me logo dizer a casa,
pedir-me conselhos... Enfim, muito atencioso.
Mas o Carlos apareceu de novo. Tinha a botica desembaraçada
um momento (que não o tinham deixado respirar toda a manhã!) e vinha
fazer companhia às senhoras.
- Então já sabe, Sr. Carlos, exclamou logo D. Josefa, o caso
do Comunicado e do João Eduardo?
O farmacêutico arregalou os seus olhos redondos. Que relação havia entre
um artigo tão indigno, e esse mancebo que lhe parecia honesto?
- Honesto? ganiu a Sra. D. Josefa Dias. Foi ele que o escreveu,
Sr. Carlos!
E vendo o Carlos morder o beiço de surpresa, D. Josefa,
entusiasmada, repetiu a história da "maroteira".
- Que lhe parece, Sr. Carlos, que lhe parece?
159
O farmacêutico deu a sua opinião, numa voz vagarosa,
sobrecarregada da autoridade dum vasto entendimento:
- Nesse caso digo, e todas as pessoas de bem o dirão comigo, é uma
vergonha para Leiria. Eu já tinha observado, quando li o Comunicado: a
religião é a base da sociedade, e miná-la é, por assim dizer, querer aluir o
edifício... É uma desgraça que haja na cidade desses sectários
do materialismo e da república, que, como é sabido, querem destruir tudo
o que existe; proclamam que os homens e as mulheres se devem unir com
a promiscuidade de cães e cadelas... (Desculpem exprimir-me assim, mas
a ciência é a ciência.) Querem ter o direito de entrar em minha casa, levarme
as pratas e o suor do meu rosto; não admitem que haja autoridades, e se
os deixassem seriam capazes de cuspir na sagrada hóstia...
D. Josefa encolheu-se com um gritinho, muito arrepiada.
- E ousa esta seita falar em liberdade! Eu também sou liberal... Que,
francamente o digo, eu não sou fanático... Nem pelo fato dum
homem pertencer ao sacerdócio, o julgo um santo, não... Por exemplo,
sempre embirrei com o pároco Miguéis... Era uma jibóia! Desculpe-me a
senhora, mas era uma jibóia. Disse-lho na cara, porque a lei das rolhas já lá
vai... Derramamos o nosso sangue nas trincheiras do Porto, justamente para
não haver lei das rolhas... Disse-lho na cara: "Vossa senhoria é uma
jibóia!" Mas, enfim, quando um homem veste uma batina deve ser
respeitado... E o Comunicado, repito, é uma vergonha para Leiria... E
também lhe digo, com esses ateus, esses republicanos, não deve haver
consideração!... Eu sou um homem pacífico, aqui a Amparozinho conheceme
bem; pois se eu tivesse de aviar uma receita para um republicano
declarado, não tinha dúvida, em lugar de lhe dar uma dessas composições
benéficas que são o orgulho da nossa ciência, de lhe mandar uma dose de
ácido prússico... Não, não direi que lhe mandasse ácido prússico... mas se
estivesse no banco dos jurados, havia de lhe fazer cair em cima todo o peso
da lei!
E balançou-se um momento sobre a ponta das chinelas, lançando um
grande gesto em redor, como se esperasse os aplausos dum conselho de
distrito ou duma municipalidade em sessão.
Mas na Sé bateram então devagar as onze; e D. Josefa embrulhou- se
à pressa no seu mantelete para ir buscar a pequena, coitada, que havia de
estar farta de esperar.
O Carlos acompanhou-a, desbarretando-se, e dizendo-lhe (como
um mimo que remetia ao seu senhorio):
- Repita ao nosso cônego quais são as minhas opiniões... Que
nessa questão do Comunicado e de ataques ao clero, estou de alma e
coração com suas senhorias... Criado seu, minha senhora... O tempo vai-se
a embrulhar.
160
Quando D. Josefa entrou na igreja, Amélia estava ainda no
confessionário. A velha tossiu alto, ajoelhou, e, com as mãos sobre a face,
abismou-se numa devoção à Senhora do Rosário. A igreja ficou numa
imobilidade e num silêncio. Depois D. Josefa, voltando-se para o
confessionário, espreitou por entre os dedos; Amélia conservava-se imóvel,
com a mantilha muito puxada para o rosto, a roda do vestido negro
espalhada em redor; e D. Josefa recaiu na sua reza. Uma chuva fina
fustigava agora os vidros duma janela, ao lado. Enfim, houve no
confessionário um rangido de madeira, um frufru de vestidos nas lajes, - e
D. Josefa, voltando-se, viu de pé diante dela Amélia com a face escarlate e
o olhar reluzindo muito.
- Está há muito tempo à espera, madrinha?
- Um bocadinho. Estás prontinha, hem?
Ergueu-se, persignou-se, e as duas senhoras saíram da Sé. Ainda
caía uma chuva fina; mas o Sr. Artur Couceiro, que passava no largo com
ofícios para o governo civil, foi levá-las à Rua da Misericórdia debaixo do
seu guarda-chuva.
XIII
João Eduardo, à noitinha, ia sair de casa para a Rua da Misericórdia,
levando debaixo do braço um rolo de amostras de papel de parede para
Amélia escolher, quando à porta encontrou a Ruça que ia puxar
a campainha.
- Que é, Ruça?
- As senhoras foram passar a noite fora de casa, e aqui está esta carta
que manda a senhora.
João Eduardo sentiu apertar-se-lhe o coração, e seguia com o
olhar pasmado a Ruça, que descia a rua, batendo os tamancos. Foi ao pé do
candeeiro, defronte, abriu a carta:
"SR. JOÃO EDUARDO.
O que estava decidido a respeito do nosso casamento era
na persuasão que era V. Sa. uma pessoa de bem e que me poderia
fazer feliz,' mas como se sabe tudo, e que foi o senhor que escreveu o
artigo do Distrito, e caluniou os amigos da casa e me insultou a
mim, e como os seus costumes não me dão garantia de felicidade na
vida de casada, deve desde hoje, considerar tudo acabado entre nós,
pois não há banhos publicados nem despesas feitas. E eu espero,
bem como a mamã, que o senhor seja bastante delicado para não
161
nos voltar a casa, nem perseguir-nos na rua. O que tudo lhe
comunico por ordem da mamã, e sou
criada de V. Sa.
Amélia Caminha'' .
João Eduardo ficou a olhar estupidamente a parede defronte
onde batia a claridade do candeeiro, imóvel como uma pedra, com o seu
rolo de papéis pintados debaixo do braço. Maquinalmente, voltou a casa.
As mãos tremiam-lhe tanto, que mal podia acender o candeeiro. De pé,
junto da mesa, releu a carta. Depois ficou ali, fatigando a vista contra a
chama da torcida, com uma sensação arrefecedora de Imobilidade e de
Silêncio, como se subitamente, sem choque, toda a vida universal tivesse
emudecido e parado. Pensou onde teriam elas ido passar a noite.
Lembranças de serões felizes na Rua da Misericórdia atravessaram-lhe
devagar na memória: Amélia trabalhava, com a cabeça baixa, e entre o
cabelo muito preto e o colar muito branco o seu pescoço tinha uma palidez
que a luz amaciava... Então a idéia de que a perdera para sempre varou-lhe
o coração com um frio de punhalada. Apertou as fontes entre as mãos,
tonto. Que havia de fazer? que havia de fazer? Resoluções bruscas
relampejavam-lhe um momento no espírito, esvaíam-se. Queria escreverlhe!
Tirá-la por justiça! Ir para o Brasil! Saber quem descobrira que ele era
o autor do artigo! - E como isto era o mais praticável àquela hora, correu à
redação da Voz do Distrito.
Agostinho, estirado no canapé, com a vela ao pé sobre uma
cadeira, saboreava os jornais de Lisboa. A face descomposta de João
Eduardo assustou-o.
- Que é?
- É que me perdeste, maroto!
E de um só fôlego acusou furiosamente o corcunda de o ter traído.
Agostinho erguera-se devagar, procurando sem perturbação a
bolsa do tabaco na algibeira da jaqueta.
- Homem, disse, nada de espalhafatos... Eu dou-te a minha palavra de
honra que não disse a ninguém do Comunicado. É verdade que
ninguém me perguntou...
- Mas quem foi, então? gritou o escrevente.
Agostinho enterrou a cabeça nos ombros.
- Eu o que sei é que os padres andavam numa azáfama para
saber quem era. O Natário esteve aí uma manhã, por causa do anúncio de
uma viúva que recorre à caridade pública, mas do Comunicado não se disse
nem palavra... O doutor Godinho é que sabia, entende-te com ele! Mas
então fizeram-te alguma?
- Mataram-me! disse João Eduardo lugubremente.
162
Ficou um momento a fixar o soalho, aniquilado, e saiu
arremessando a porta. Passeou na Praça; foi ao acaso pelas ruas; depois,
atraído pela obscuridade, à estrada de Marrazes. Abafava, sentindo uma
intolerável palpitação surda latejar-lhe interiormente contra as fontes;
apesar de ventar forte nos campos, parecia-lhe seguir um silêncio universal;
por vezes a idéia da sua desgraça rasgava-lhe subitamente o coração, e
então imaginava ver toda a paisagem oscilar e o chão da estrada afiguravase-
lhe mole como um lamaçal. Voltou pela Sé quando batiam onze horas; e
achou-se na Rua da Misericórdia, com o olhar cravado para a janela da sala
de jantar, onde havia ainda luz; a vidraça do quarto de Amélia alumiou-se
também; ela ia deitar-se, decerto... Veio-lhe um desejo furioso da sua
beleza, do seu corpo, dos seus beijos. Fugiu para casa; uma fadiga
intolerável prostrou-o sobre a cama; depois uma saudade indefinida,
profunda, foi-o amolecendo, e chorou muito tempo, enternecendo-se mais
com o som dos seus próprios soluços, - até que ficou adormecido, de
bruços, numa massa inerte.
···
Ao outro dia, cedo, Amélia vinha da Rua da Misericórdia para
a Praça, quando ao pé do Arco, João Eduardo lhe saiu de emboscada.
- Quero falar-lhe, menina Amélia.
Ela recuou assustada, disse a tremer:
- Não tem que me falar...
Mas ele plantara-se diante dela, muito decidido, com os olhos
vermelhos como carvões:
- Quero-lhe dizer... Lá do artigo, é verdade, fui eu que o escrevi, foi
uma desgraça; mas a menina tinha-me ralado de ciúmes... Mas o que a
menina diz de maus costumes é uma calúnia. Eu sempre fui um homem de
bem...
- O Sr. padre Amaro é que o conhece! Faz favor de me deixar
passar...
Ao nome do pároco, João Eduardo fez-se lívido de raiva:
- Ah! é o Sr. padre Amaro! É o maroto do padre! Pois
veremos Ouça...
- Faz favor de me deixar passar! disse ela irritada, tão alto, que um
sujeito gordo de xale-manta parou olhando.
João Eduardo recuou, tirando o chapéu; e ela, imediatamente,
refugiou-se na loja do Fernandes.
Então, num desespero, correu a casa do doutor Godinho. Já na
véspera, por entre os seus acessos de choro, sentindo-se tão abandonado,
se lembrara do doutor Godinho. Fora outrora seu escrevente; e como
163
por pedido dele entrara no cartório do Nunes Ferral, e por sua influência
ia ser acomodado no governo civil, julgava-o uma Providência pródiga e
inesgotável! Demais, desde que escrevera o Comunicado considerava-se da
redação da Voz do Distrito, do grupo da Maia; agora, que era atacado
pelos padres, devia claramente ir acolher-se à forte proteção do seu chefe,
do doutor Godinho, do inimigo da reação, o "Cavour de Leiria", como
dizia, arregalando os olhos, o bacharel Azevedo, autor dos Ferrões! - E
João Eduardo, dirigindo-se ao casarão amarelo, ao pé do Terreiro onde o
doutor vivia, ia num alvoroço de esperanças, contente em se refugiar,
como um cão escorraçado, entre as pernas daquele colosso!
O doutor Godinho descera já ao escritório, e repoltreado na sua
poltrona abacial de pregos amarelos, com os olhos no teto de carvalho
escuro, acabava com beatitude o charuto do almoço. Recebeu com
majestade os "bons-dias" de João Eduardo.
- E então que temos, amigo?
As altas estantes de in-fólios graves, as resmas de autos, o
aparatoso painel representando o marquês de Pombal, de pé num terraço
sobre o Tejo, expulsando com o dedo a esquadra inglesa - acanharam como
sempre João Eduardo; e foi com voz embaraçada que disse vinha ali para
que sua excelência lhe desse remédio numa desgraça que lhe sucedia.
- Desordens, bordoada?
- Não, senhor, negócios de família.
Contou então, prolixamente, a sua história desde a publicação
do Comunicado; leu, muito comovido, a carta de Amélia; descreveu a
cena ao pé do Arco... Ali estava agora, escorraçado da Rua da
Misericórdia por obras do senhor pároco! E parecia-lhe a ele, apesar de não
ser formado em Coimbra, que contra um padre que se introduzia numa
família, desinquietava uma menina simples, levava por intrigas a romper
com o noivo e ficava de portas adentro senhor dela - devia haver leis!
- Eu não sei, senhor doutor, mas deve haver leis!
O doutor Godinho parecia contrariado.
- Leis! exclamou traçando vivamente a perna. Que leis quer você que
haja? Quer querelar do pároco?... Por quê? Ele bateu-lhe? Roubou- lhe o
relógio? Insultou-o pela imprensa? Não. Então?...
- Oh, senhor doutor, mas intrigou-me com as senhoras! Eu nunca fui
homem de maus costumes, senhor doutor! Caluniou-me!
- Tem testemunhas?
- Não, senhor.
- Então?
E o doutor Godinho, assentando os cotovelos sobre a banca, declarou
que, como advogado, não tinha nada a fazer. Os tribunais não tomavam
conhecimento dessas questões, desses dramas morais por assim dizer, que
164
se passavam nas alcovas domésticas... Como homem, como
particular, como Alípio de Vasconcelos Godinho, também não podia
intervir porque não conhecia o Sr. padre Amaro, nem essas senhoras da
Rua da Misericórdia... Lamentava o fato, porque enfim fora novo, sentira a
poesia da mocidade, e sabia (infelizmente sabia!) o que eram esses transes
do coração... E ai está tudo o que ele podia fazer - lamentar! Também para
que tinha ele dado a sua afeição a uma beata?...
João Eduardo interrompeu-o:
- A culpa não é dela, senhor doutor! A culpa é do padre que a anda a
desencaminhar! A culpa é dessa canalha do cabido!
O doutor Godinho estendeu com severidade a mão, e aconselhou
o Sr. João Eduardo que tivesse cuidado com semelhantes asserções!
Nada provava que o senhor pároco possuísse nessa casa outra influência,
que não fosse a dum hábil diretor espiritual... E recomendava ao Sr.
João Eduardo, com a autoridade que lhe davam os anos e a sua posição no
pais, que não fosse espalhar, por despeito, acusações que só serviam para
destruir o prestigio do sacerdócio, indispensável numa sociedade bem
constituída! - Sem ele, tudo seria anarquia e orgia!
E recostou-se, pensando, satisfeito, que estava nessa manhã com
"o dom da palavra".
Mas a face consternada do escrevente, que não se movia, de pé
junto da banca, impacientava-o; e disse com secura, puxando para diante de
si um volume de autos:
- Enfim, acabemos, que quer o amigo? Já vê, eu não lhe posso
dar remédio.
João Eduardo replicou, com um movimento de coragem desesperada:
- Eu imaginei que o senhor doutor podia fazer alguma coisa
por mim... Porque enfim eu fui uma vitima... Tudo isto vem de se saber
que eu escrevi o Comunicado. E tinha-se combinado que havia de ser
segredo. O Agostinho não disse, só o senhor doutor o sabia...
O doutor pulou de indignação na sua cadeira abacial:
- Que quer o senhor insinuar? Quer-me dar a entender que fui eu que
o disse? Não disse... Isto é, disse; disse-o a minha mulher, porque numa
família bem constituída não deve haver segredos entre esposo e esposa. Ela
perguntou-me, disse-lho... Mas suponhamos que fui eu que o espalhei pelas
ruas. De duas uma: ou o Comunicado era uma calúnia, e então sou eu que
devo acusá-lo de ter poluído um jornal honrado com um acervo de
difamações; ou era verdade, e então que homem é o senhor que se
envergonha das verdades que solta e que não se atreve a manter á luz do dia
as opiniões que redigiu na escuridão da noite?
165
Duas lágrimas enevoaram os olhos de João Eduardo. Então,
diante daquela expressão esmorecida, satisfeito de o ter esmagado com uma
argumentação tão lógica e tão poderosa, o doutor Godinho abrandou:
- Bem, não nos zanguemos, disse. Não se fala mais em pontos
de honra... O que pode acreditar é que lamento o seu desgosto.
Deu-lhe conselhos duma solicitude paternal. Que não
sucumbisse; havia mais meninas em Leiria e meninas de bons princípios
que não viviam sob a direção da sotaina. Que fosse forte, e que se
consolasse pensando que ele, doutor Godinho - e era ele! - também tivera
em moço desgostos do coração. Que evitasse o domínio das paixões que
lhe seria prejudicial na carreira pública. E que se o não fizesse por seu
interesse próprio, o fizesse ao menos em atenção a ele, doutor Godinho!
João Eduardo saiu do escritório, indignado, julgando-se traído
pelo doutor.
- Isto sucede-me a mim, resmungava, porque sou um pobrediabo,
não dou votos nas eleições, não vou às soirées do Novais, não
subscrevo para o clube. Ah, que mundo! Se eu tivesse um par de contos de
réis!...
Veio-lhe então um desejo furioso de se vingar dos padres, dos
ricos, e da religião que os justifica. Voltou muito decidido ao escritório, e
entreabrindo a porta:
- Vossa excelência ao menos agora dá licença que eu desabafe
no jornal?... Queria contar esta maroteira, cascar nessa canalha...
Esta audácia do escrevente indignou o doutor. Endireitou-se com
severidade na poltrona, e cruzando terrivelmente os braços:
- O Sr. João Eduardo está realmente a abusar! Pois o senhor vem- me
pedir que transforme um jornal de idéias num jornal de difamações? Vá,
não se prenda! Pede-me que insulte os princípios da religião, que
achincalhe o Redentor, que repita as baboseiras de Renan, que ataque as
leis fundamentais do Estado, que injurie o rei, que vitupere a instituição
da família! O senhor está ébrio.
- Oh, senhor doutor!
- O senhor está ébrio! Cuidado, meu caro amigo, cuidado, olhe que
vai por um declive! É por esse caminho que se chega a perder o respeito da
autoridade, da lei, das coisas santas e do lar. É por esse caminho que se vai
ao crime! Escusa de arregalar os olhos... Ao crime, digo-lho eu! Tenho a
experiência de vinte anos de foro. Homem, detenha-se! Refreie essas
paixões. Safa! Que idade tem o senhor?
- Vinte e seis anos.
- Pois não há desculpa para um homem de vinte e seis anos ter
essas idéias subversivas. Adeus, feche a porta. E escute. Escusa de pensar
em mandar outro Comunicado para outro qualquer jornal. Não lho
166
consinto, eu que o tenho protegido sempre! Havia de querer fazer
espalhafato... Escusa de negar, estou-lho a ler nos olhos. Pois não lho
consinto! É para seu bem, para lhe poupar uma má ação social!
Tomou uma grande atitude na poltrona, repetiu com força:
- Uma péssima ação social! Aonde nos querem os senhores
levar com os seus materialismo, os seus ateísmos? Quando tiverem dado
cabo da religião de nossos pais, que têm os senhores para a substituir? Que
têm? Mostre lá!
A expressão embaraçada de João Eduardo (que não tinha ali, para a
mostrar, um religião que substituísse a de nossos pais) fez triunfar o doutor.
- Não têm nada! Têm lama, quando muito têm palavreado!
Mas enquanto eu for vivo, pelo menos em Leiria, há-de ser respeitada a Fé
e o principio da Ordem! Podem pôr a Europa a fogo e sangue, em Leiria
não hão-de erguer cabeça. Em Leiria estou eu alerta, e juro que lhes hei-de
ser funesto!
João Eduardo recebia de ombros vergados estas ameaças, sem
as compreender. Como podia o seu Comunicado e as intrigas da Rua da
Misericórdia produzirem assim catástrofes sociais e revoluções religiosas?
Tanta severidade aniquilava-o. Ia perder decerto a amizade do doutor, o
emprego no governo civil... Quis abrandá-lo:
- Oh, senhor doutor, mas vossa excelência bem vê...
O doutor interrompeu-o com um grande gesto:
- Eu vejo perfeitamente. Vejo que as paixões, a vingança o
vão levando por um caminho fatal... O que espero é que os meus conselhos
o detenham. Bem, adeus. Feche a porta. Feche a porta, homem!
João Eduardo saiu acabrunhado. Que havia de fazer agora? O doutor
Godinho, aquele colosso, repelia-o com palavras tremendas! E que podia
ele, pobre escrevente de cartório, contra o padre Amaro que tinha por si o
clero, o chantre, o cabido, os bispos, o papa, classe solidária e compacta
que lhe aparecia como uma medonha cidadela de bronze erguendo- se até
ao céu! Eram eles que tinham causado a resolução de Amélia, a sua carta, a
dureza das suas palavras. Era uma intriga de párocos, cônegos e beatas. Se
ele pudesse arrancá-la àquela influência, ela tomaria a ser bem depressa a
sua Ameliazinha que lhe bordava chinelas, e que vinha toda corada vê-lo
passar à janela! As suspeitas que outrora tivera tinham-se desvanecido
naqueles serões felizes, depois de decidido o casamento, quando ela,
costurando junto do candeeiro, falava da mobília que havia de comprar e
dos arranjos da sua casinha. Ela amava-o, decerto... Mas quê, tinham- lhe
dito que ele era o autor do Comunicado, que era herege, que tinha costumes
devassos; o pároco, na sua voz pedante, ameaçara-a com o Inferno; o
cônego, furioso, e todo-poderoso na Rua da Misericórdia porque dava para
a panela, falara teso - e a pobre menina, assustada, dominada, com aquele
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bando tenebroso de padres e de beatas a cochicharem-lhe ao
ouvido, coitada, cedera! Estava talvez persuadida, de boa-fé, que ele era
uma fera! E àquela hora, enquanto ele ali andava pelas ruas, escorraçado e
desgraçado, o padre Amaro, na saleta da Rua da Misericórdia, enterrado na
poltrona, senhor da casa e senhor da rapariga, de pema traçada, palrava
de alto! Canalha! E não haver leis que o vingassem! E não poder sequer
"fazer escândalo", agora que a Voz do Distrito se lhe tomava inacessível!
Vinham-lhe então desejos furiosos de demolir o pároco aos
murros, com a força do padre Brito. Mas o que o satisfaria mais seriam
artigos tremendos num jornal, que revelassem as intrigas da Rua da
Misericórdia, amotinassem a opinião, caíssem sobre o padre como
catástrofes, o forçassem a ele, ao cônego e aos outros a desaparecerem
corridos da casa da S. Joaneira! Ah! estava certo que a Ameliazinha, livre
daqueles galfarros, correria logo aos seus braços, com lágrimas de
reconciliação...
Procurava assim à força convencer-se que "a culpa não era
dela"; recordava os meses de felicidade antes da chegada do pároco;
arranjava explicações naturais para aquelas maneirinhas ternas que ela
outrora tinha para o padre Amaro, e que lhe tinham dado ciúmes
desesperados: era o desejo, coitada, de ser agradável ao hóspede, ao amigo
do senhor cônego, de o reter para vantagem da mãe e da casa! E além disso,
como ela andava contente depois de resolvido o casamento! A sua
indignação contra o Comunicado, estava certo, não era natural dela - vinhalhe
soprada pelo pároco e belas beatas. E achava uma consolação nesta
idéia que não era repelido como namorado, como marido - mas que era
uma vítima das intrigas do torpe padre Amaro, que lhe desejava a noiva e
que o odiava como liberal! Isto acumulava-lhe na alma um rancor
desordenado contra o padre; descendo a rua procurava ansiosamente uma
vingança, atirando a imaginação, aqui e além - mas vinha-lhe sempre a
mesma idéia, o artigo do jornal, a verrina, a imprensa! A certeza da sua
fraqueza desprotegida revoltava-o. Ah, se tivesse por si um figurão!
Um homem do campo, amarelo como uma cidra, que ia
caminhando devagar, com o braço ao peito, deteve-o a perguntar-lhe onde
morava o doutor Gouveia.
- Na primeira rua, à esquerda, o portão verde ao pé do lampião, disse
João Eduardo.
E uma esperança imensa alumiou-lhe bruscamente a alma: o
doutor Gouveia é que o podia salvar! O doutor era seu amigo; tratava-o por
tu desde que o curara havia três anos da pneumonia; aprovava muito o
seu casamento com Amélia; havia ainda semanas perguntara-lhe ao pé da
Praça: - "Então, quando se faz essa rapariga feliz?" E que respeitado,
que temido na Rua da Misericórdia! Era médico de todas as amigas da
168
casa que, apesar de se escandalizarem com a sua irreligião, dependiam
humildemente da sua ciência para os achaques, os flatos, os xaropes. Além
disso, o doutor Gouveia, inimigo decidido da padraria, decerto se ia
indignar com aquela intriga beata: e João Eduardo via-se já entrando na
Rua da Misericórdia atrás do doutor Gouveia, que repreendia a S. Joaneira,
arrasava o padre Amaro, convencia as velhas, - e a sua felicidade
recomeçava, inabalável agora!
- O senhor doutor está? perguntou ele quase alegre, à criada que no
pátio estendia a roupa ao sol.
- Está na consulta, Sr. Joãozinho, faça favor de entrar.
Em dias de mercado os doentes do campo afluíam sempre.
Mas àquela hora - quando os vizinhos das freguesias se reúnem nas
tabernas - havia só um velho, uma mulher com uma criança ao colo e o
homem do braço ao peito, esperando numa saleta baixa com bancos, dois
manjericões na janela e uma grande gravura da Coroação da Rainha
Vitória. Apesar do sol claro que entrava no pátio, e de uma fresca folhagem
de tília que roçava o peitoril da janela, a saleta dava tristeza, como se as
paredes, os bancos, os mesmos manjericões estivessem saturados da
melancolia das doenças que ali tinham passado. João Eduardo entrou e
sentou-se a um canto.
Tinha batido meio-dia, e a mulher estava-se queixando de ter
esperado tanto: era de uma freguesia distante; deixara no mercado a irmã,
e havia uma hora que o senhor doutor estava com duas senhoras! A
cada momento a criança rabujava, ela sacudia-a nos braços: calavam-se
depois: o velho arregaçava a calça, contemplava com satisfação uma chaga
na canela envolta em trapos: e o outro homem dava bocejos
desconsolados que tomavam mais lúgubre a sua longa face amarela. Aquela
demora enervava, amolecia o escrevente; sentia perder gradualmente o
ânimo de ocupar o doutor Gouveia; preparava laboriosamente a sua
história, mas ela parecia-lhe agora bem insuficiente para o interessar.
Vinha-lhe então um desalento, que as faces insípidas dos doentes tomavam
ainda mais intenso. Positivamente era uma coisa bem triste esta vida, cheia
só de misérias, de sentimentos traídos, de aflições, de doenças! Erguia-se; e
com as mãos atrás das costas ia olhar desconsoladamente a Coroação da
Rainha Vitória.
De vez em quando a mulher entreabria a porta, a espreitar se as duas
senhoras ainda lá estariam. Lá estavam; e através do batente de baeta verde,
que fechava o gabinete do doutor, sentia-se as suas vozes pachorrentas
palrarem.
- Em caindo aqui, é dia perdido! rosnava o velho.
Também ele deixara a cavalgadura à porta do Fumaça, e a
rapariga na Praça... E o que teria a esperar na botica, depois! Com três
169
léguas ainda a fazer para voltar à freguesia!... Ser doente é bom, mas para
quem é rico e tem vagares!
A idéia da doença, da solidão que ela traz, faziam agora parecer
a João Eduardo mais amarga a perda de Amélia. Se adoecesse, teria de
ir para o hospital. O malvado do padre tirara-lhe tudo - mulher,
felicidade, confortos de família, doces companhias da vida!
Enfim, sentiram no corredor as duas senhoras que saíam. A
mulher com a criança apanhou o seu cabaz, precipitou-se. E o velho,
apoderando- se logo do banco junto da porta, disse com satisfação:
- Agora cá o patrão!
- Vossemecê tem muito que consultar? perguntou-lhe João Eduardo.
- Não senhor, é só receber a receita.
E imediatamente contou a história da sua chaga: fora uma trave
que lhe caíra em cima; não fizera caso; depois a ferida assanhara-se; e
agora ali estava, manco e curtidinho de dores.
- E vossa senhoria, é coisa de cuidado? perguntou ele.
- Eu não estou doente, disse o escrevente. São negócios com o senhor
doutor.
Os dois homens olharam-se com inveja.
Enfim foi a vez do velho, depois a do homem amarelo de braço
ao peito. João Eduardo, só, passeava nervoso pela saleta. Parecia-lhe
agora muito difícil ir assim, sem cerimônia, pedir proteção ao doutor. Com
que direito?... Lembrou-se de se queixar primeiro de dores do peito ou
desarranjos do estômago, e depois, incidentalmente, contar os seus
infortúnios...
Mas a porta abriu-se. O doutor estava diante dele, com sua
longa barba grisalha que lhe caía sobre a quinzena de veludo preto, o largo
chapéu desabado na cabeça, calçando as luvas de fio de Escócia.
- Olá! és tu, rapaz! Há novidade na Rua da Misericórdia? João
Eduardo corou.
- Não senhor, senhor doutor, queria falar-lhe em particular.
Seguiu-o ao gabinete - o conhecido gabinete do doutor Gouveia que,
com o seu caos de livros, o seu tom poeirento, uma panóplia de flechas
selvagens e duas cegonhas empalhadas, tinha na cidade a reputação duma
"Cela de Alquimista".
O doutor puxou o seu cebolão.
- Um quarto para as duas. Sê breve.
A face do escrevente exprimiu o embaraço de condensar uma
narração tão complicada.
- Está bom, disse o doutor, explica-te como puderes. Não há
nada mais difícil que ser claro e breve; é necessário ter gênio. Que é?
170
João Eduardo então tartamudeou a sua história, insistindo
sobretudo na perfídia do padre, exagerando a inocência de Amélia...
O doutor escutava-o, cofiando a barba.
- Vejo o que é. Tu e o padre, disse ele, quereis ambos a
rapariga. Como ele é o mais esperto e o mais decidido, apanhou-a ele. É lei
natural: o mais forte despoja, elimina o mais fraco; a fêmea e a presa
pertencem-lhe.
Aquilo pareceu a João Eduardo um gracejo. Disse, com a voz
perturbada:
- Vossa excelência está a caçoar, senhor doutor, mas a mim
retalhasse-me o coração!
- Homem, acudiu o doutor com bondade, estou a filosofar, não estou
a caçoar... Mas enfim, que queres tu que eu te faça?
Era o que o doutor Godinho lhe tinha dito, também, com mais
pompa!
- Eu tenho a certeza que se vossa excelência lhe falasse...
O doutor sorriu:
- Eu posso receitar à rapariga este ou aquele xarope, mas não
lhe posso impor este ou aquele homem! Queres que lhe vá dizer: "A
menina há-de preferir aqui o Sr. João Eduardo?" Queres que vá dizer ao
padre, um maganão que eu nunca vi: "O senhor faz favor de não seduzir
esta menina?"
- Mas caluniaram-me, senhor doutor, apresentaram-me como
um homem de maus costumes, um patife...
- Não, não te caluniaram. Sob o ponto de vista do padre e daquelas
senhoras que jogam a noite o quino na Rua da Misericórdia, tu és
um patife: um cristão que nos periódicos vitupera abades, cônegos, curas,
personagens tão importantes para se comunicar com Deus e para se salvar
a alma, é um patife. Não te caluniaram, amigo!
- Mas, senhor doutor...
- Escuta. E a rapariga, descartando-se de ti em obediências às
instruções do senhor padre fulano ou sicrano, comporta-se como uma
boa católica. É o que te digo. Toda a vida do bom católico, os seus
pensamentos, as sua idéias, os seus sentimentos, as suas palavras, o
emprego dos seus dias e das suas noites, as sua relações de família e de
vizinhança, os pratos do seu jantar, o seu vestuário e os seus divertimentos
- tudo isto é regulado pela autoridade eclesiástica (abade, bispo ou cônego),
aprovado ou censurado pelo confessor, aconselhado e ordenado pelo
diretor da consciência. O bom católico, como a tua pequena, não se
pertence; não tem razão, nem vontade, nem arbítrio, nem sentir próprio; o
seu cura pensa, quer, determina, sente por ela. O seu único trabalho neste
mundo, que é ao mesmo tempo o seu único direito e o seu único dever, é
171
aceitar esta direção; aceitá-la sem a discutir; obedecer-lhe, dê por onde der;
se ela contraria as suas idéias, deve pensar que as suas idéias são falsas; se
ela fere as suas afeições, deve pensar que as suas afeições são culpadas.
Dado isto, se o padre disse à pequena que não devia nem casar, nem sequer
falar contigo, a criatura prova, obedecendo-lhe, que é uma boa católica,
uma devota conseqüente, e que segue na vida, logicamente, a regra moral
que escolheu. Aqui está, e desculpa o sermão.
João Eduardo ouvia com respeito, com espanto estas frases, a que a
face plácida, a bela barba grisalha do doutor davam uma autoridade maior.
Parecia-lhe agora quase impossível recuperar Amélia, se ela pertencia
assim tão absolutamente, alma e sentidos, ao padre que a confessava. Mas
enfim, por que era ele considerado um marido prejudicial?
- Eu compreenderia, disse ele, se fosse um homem de maus
costumes, senhor doutor. Mas eu porto-me bem. Eu não faço senão
trabalhar. Eu não freqüento tabernas, nem troças. Eu não bebo, eu não jogo.
As minhas noites passo-as na Rua da Misericórdia, ou em casa a fazer
serão para o cartório...
- Meu rapaz, tu podes ter socialmente todas as virtudes; mas,
segundo a religião de nossos pais, todas as virtudes que não são católicas
são inúteis e perniciosas. Ser trabalhador, casto, honrado, justo, verdadeiro,
são grandes virtudes; mas para os padres e para a Igreja não contam. Se
tu fores um modelo de bondade mas não fores à missa, não jejuares, não
te confessares, não te desbarretares para o senhor cura - és
simplesmente um maroto. Outros personagens maiores que tu, cuja alma
foi perfeita e cuja regra de vida foi impecável, têm sido julgados
verdadeiros canalhas, porque não foram batizados antes de terem sido
perfeitos. Hás-de ter ouvido falar de Sócrates, dum outro chamado Platão,
de Catão, etc... Foram sujeitos famosos pelas suas virtudes. Pois um certo
Bossuet, que é o grande chavão da doutrina, disse que das virtudes desses
homens estava cheio o Inferno... Isto prova que a moral católica é diferente
da moral natural e da moral social... Mas são coisas que tu compreendes
mal... Queres tu um exemplo? Eu sou, segundo a doutrina católica, um dos
grandes desavergonhados que passeiam as ruas da cidade; e o meu vizinho
Peixoto, que matou a mulher com pancadas e que vai dando cabo pelo
mesmo processo de uma filhita de dez anos, é entre o clero um homem
excelente, porque cumpre os seus deveres de devoto e toca figle nas missas
cantadas. Enfim, amigo, estas coisas são assim. E parece que são boas,
porque há milhares de pessoas respeitáveis que as consideram boas, o
Estado mantém-nas, gasta até um dinheirão para as manter, obriga-nos
mesmo a respeitá-las, - e eu, que estou aqui a falar, pago todos os anos um
quartinho para que elas continuem a ser assim. Tu naturalmente pagas
menos...
172
- Pago sete vinténs, senhor doutor.
- Mas enfim vais às festas, ouves música, sermão, desforras-te
dos teus sete vinténs. Eu, o meu quartinho perco-o; consolo-me apenas com
a idéia de que vai ajudar a manter o esplendor da Igreja - da Igreja que em
vida me considera um bandido, e que para depois de morto me tem
preparado um inferno de primeira classe. Enfim, parece-me que temos
cavaqueado bastante... Que queres mais?
João Eduardo estava acabrunhado. Agora que escutava o
doutor, parecia-lhe, mais que nunca, que se um homem de palavras tão
sábias, de tantas idéias, se interessasse por ele, toda a intriga seria
facilmente desfeita e a sua felicidade, o seu lugar na Rua da Misericórdia
recobrados para sempre.
- Então vossa excelência não pode fazer nada por mim? disse
muito desconsolado.
- Eu posso talvez curar-te de outra pneumonia. Tens outra
pneumonia a curar? Não? Então...
João Eduardo suspirou:
- Sou uma vítima, senhor doutor!
- Fazes mal. Não deve haver vítimas, quando não seja senão
para impedir que haja tiranos - disse o doutor, pondo o seu largo
chapéu desabado.
- Porque no fim de tudo, exclamou ainda João Eduardo que
se prendia ao doutor com uma sofreguidão de afogado, no fim de tudo o
que o patife do pároco quer, com todos os seus pretextos, é a rapariga! Se
ela fosse um camafeu, bem se importava o maroto que eu fosse um ímpio
ou não! O que ele quer é a rapariga!
O doutor encolheu os ombros.
- É natural, coitado - disse, já com a mão no fecho da porta.
Que queres tu? Ele tem para as mulheres, como homem, paixões e
órgãos; como confessor, a importância dum Deus. É evidente que há-de
utilizar essa importância para satisfazer essas paixões; e que há de cobrir
essa satisfação natural com as aparências e com os pretextos do serviço
divino... É natural.
João Eduardo então, vendo-o abrir a porta, desvanecer-se a
esperança que o trouxera ali, furioso, vergastando o ar com o chapéu:
- Canalha de padres! Foi raça que sempre detestei! Queria-a
ver varrida da face da Terra, senhor doutor!
- Isso é outra tolice, disse o doutor, resignando-se a escutá-lo ainda, e
parando à porta do quarto. Ouve lá. Tu crês em Deus? No Deus do Céu, no
Deus que lá está no alto do Céu, e que é lá de cima o princípio de toda a
justiça e de toda a verdade?
João Eduardo, surpreendido, disse:
173
- Eu creio, sim senhor.
- E no pecado original?
- Também...
- Na vida futura, na redenção, etc.?
- Fui educado nessas crenças...
- Então para que queres varrer os padres da face da Terra?
Deves pelo contrário ainda achar que são poucos. És um liberal racionalista
nos limites da Carta, ao que vejo... Mas se crês no Deus do Céu, que nos
dirige lá de cima, e no pecado original, e na vida futura, precisas duma
classe de sacerdotes que te expliquem a doutrina e a moral revelada de
Deus, que te ajudem a purificar da mácula original e te preparem o teu
lugar no Paraíso! Tu necessitas dos padres. E parece-me mesmo uma
terrível falta de lógica que os desacredites pela imprensa...
João Eduardo, atônito, balbuciou:
- Mas vossa excelência, senhor doutor... Desculpe-me vossa
excelência, mas...
- Dize, homem. Eu quê?
- Vossa excelência não precisa dos padres neste mundo...
- Nem no outro. Eu não preciso dos padres no mundo, porque
não preciso do Deus do Céu. Isto quer dizer, meu rapaz, que tenho o
meu Deus dentro de mim, isto é, o princípio que dirige as minhas ações e
os meus juízos. Vulgo Consciência... Talvez não compreendas bem... O
fato é que estou aqui a expor doutrinas subversivas... E realmente são três
horas...
E mostrou-lhe o cebolão.
À porta do pátio, João Eduardo disse-lhe ainda:
- Vossa excelência então desculpe, senhor doutor...
- Não há de quê... Manda a Rua da Misericórdia ao diabo!
João Eduardo interrompeu com calor:
- Isso é bom de dizer, senhor doutor, mas quando a paixão está a roer
cá por dentro!...
- Ah! fez o doutor, é uma bela e grande coisa a paixão! O amor
é uma das grandes forças da civilização. Bem dirigida levanta um mundo
e bastava para nos fazer a revolução moral... - E mudando de tom: - Mas
escuta. Olha que isso às vezes não é paixão, não está no coração... O
coração é ordinariamente um termo de que nos servimos, por
decência, para designar outro órgão. É precisamente esse órgão o único que
está interessado, a maior parte das vezes, em questões de sentimento. E
nesses casos o desgosto não dura. Adeus, estimo que seja isso!
XIV
174
João Eduardo desceu a rua, embrulhando o cigarro. Sentia-se
enervado, todo cansado da noite desesperada que passara, daquela manhã
cheia de passos inúteis das conversas do doutor Godinho e do doutor
Gouveia.
- Acabou-se, pensava, não posso fazer mais nada! É agüentar.
Tinha a alma extenuada de tantos esforços de paixão, de esperança e
de cólera. Desejaria ir estirar-se ao comprido, num sítio isolado, longe de
advogados, de mulheres e de padres, e dormir durante meses. Mas como já
passava das três horas, apressava-se para o cartório do Nunes. Teria talvez
ainda de ouvir um sermão por ter chegado tão tarde! Triste vida a sua!
Dobrava a esquina no Terreiro, quando ao pé da casa de pasto
do Osório se encontrou com um moço de quinzena clara, debruada de
uma fita negra muito larga, e com um bigodinho tão preto que parecia
postiço sobre as suas feições extremamente pálidas.
- Olé! Que é feito, João Eduardo?
Era um Gustavo, tipógrafo da Voz do Distrito, que havia dois
meses fora para Lisboa. Segundo dizia o Agostinho, era "rapaz de cabeça e
instruidote, mas de idéias do diabo". Escrevia às vezes artigos de
política estrangeira, onde introduzia frases poéticas e retumbantes,
amaldiçoando Napoleão III, o czar e os opressores do povo, chorando a
escravidão da Polônia e a miséria do proletário. A simpatia entre ele e João
Eduardo proviera de conversas sobre religião, em que ambos exalavam o
seu ódio ao clero e a sua admiração por Jesus Cristo. A revolução de
Espanha entusiasmara-o tanto que aspirara a pertencer à Internacional; e o
desejo de viver num centro operário, onde houvesse associações, discursos
e fraternidade, levara-o a Lisboa. Encontrara lá bom trabalho e bons
camaradas. Mas como sustentava a mãe, velha e doente, e como era mais
econômico viverem juntos, voltara a Leiria. O Distrito, além disso, na
perspectiva de eleições, prosperava a ponto de aumentar o salário aos três
tipógrafos.
- De modo que lá estou outra vez com o raquítico... Vinha jantar, e
convidou logo João Eduardo a que lhe fizesse companhia. Não havia de
acabar o mundo, que diabo, por ele faltar um dia ao cartório!
João Eduardo então lembrou-se que desde a véspera não tinha
comido. Era talvez a debilidade que o trouxera assim estonteado, tão pronto
a desanimar... Decidiu-se logo - contente, depois das emoções e das fadigas
da manhã, de se estirar no banco da taberna, diante dum prato cheio, na
intimidade com um camarada de ódios iguais aos seus. Demais, os
repelões que sofrera davam-lhe uma necessidade, uma avidez de simpatia;
e foi com calor que disse:
175
- Homem, valeu! Cais-me do céu! Este mundo é uma choldra. Se não
fosse por alguma hora que se passa em amizade, caramba, não valia a pena
andar por cá! .
Este modo, tão novo no João Eduardo, no Pacatinho,
espantou Gustavo.
- Por quê? As coisas não correm bem? Turras com a besta do Nunes,
hem? perguntou-lhe.
- Não, um bocado de spleen.
- Isso de spleen é de inglês! Oh menino, havias de ver o Taborda no
Amor londrino!... Deixa lá o spleen. É deitar lastro para dentro e carregar
no líquido!
Travou-lhe do braço, meteu-o pela porta da taberna.
- Viva o tio Osório! Saúde e fraternidade!
O dono da casa de pasto, o tio Osório, personagem obeso e
contente da vida, com as mangas da camisa arregaçadas até aos ombros, os
braços nus muito brancos apoiados sobre o balcão, a face balofa e finória,
felicitou logo Gustavo de o ver de novo em Leiria. Achava-o mais
magrito... Havia de ser das más águas de Lisboa e do muito paucampeche
nos vinhos... E que havia dele servir aos cavalheiros?
Gustavo, plantando-se diante do contador, de chapéu para
nuca, apressou-se a soltar o gracejo, que tanto o entusiasmara em Lisboa:
- Tio Osório, sirva-nos fígado de rei, com rim grelhado de padre! O
tio Osório, pronto à réplica, disse logo, dando um raspão de rodilha sobre o
zinco do contador:
- Não temos cá disso, Sr. Gustavo. Isso é petisco da capital.
- Então estão vocês muito atrasados! Em Lisboa era todos os dias o
meu almoço... Bem, acabou-se, dê-nos duas iscas com batatas... E
bem saltadinho, isso!
- Hão-de ser servidos como amigos.
Acomodaram-se à "mesa dos envergonhados", entre dois tabiques de
pinho fechados por uma cortina de chita. O tio Osório, que
apreciava Gustavo, "moço instruído e de pouca troça", veio ele mesmo
trazer a garrafa do tinto e as azeitonas; e limpando os copos ao avental
enxovalhado:
- Então que há de novo pela capital, Sr. Gustavo? Como vai por lá
aquilo?
O tipógrafo deu imediatamente seriedade ao rosto: passou a mão pelos
cabelos, e deixou cair algumas frases enigmáticas:
Tremidito... Muito pouca-vergonha em política... A classe
operária começa a mexer-se... Falta de união, por ora... Está-se à espera de
ver como as coisas correm em Espanha... Há-de havê-las bonitas! Tudo
depende de Espanha...
176
Mas o tio Osório, que juntara alguns vinténs e comprara uma
fazenda, tinha horror a tumultos... O que se queria no país era paz...
Sobretudo o que lhe desagradava era contar-se com espanhóis... De
Espanha, deviam os cavalheiros sabê-lo, "nem bom vento nem bom
casamento"!
- Os povos são todos irmãos! exclamou Gustavo. Quando se tratar de
atirar abaixo Bourbons e imperadores, camarilhas e fidalguia, não
há portugueses nem espanhóis, todos são irmãos! Tudo é fraternidade,
tio Osório!
- Pois então é beber-lhe à saúde, e beber-lhe rijo, que isso é que faz
andar o negócio, disse o tio Osório tranqüilamente, rolando a sua obesidade
para fora do cubículo.
- Elefante! rosnou o tipógrafo, chocado com aquela indiferença pela
Fraternidade dos Povos. Que se podia esperar, de resto dum proprietário e
dum agente de eleições?
Trauteou a Marselhesa, enchendo os copos do alto, e quis saber
o que tinha feito o amigo João Eduardo... Já se não ia pelo Distrito? O
raquítico dissera-lhe que não havia despegá-lo da Rua da Misericórdia.
- E quando é esse casamento, por fim? João Eduardo corou, disse
vagamente:
- Nada decidido... Tem havido dificuldades. E acrescentou com um
sorriso desconsolado: - Temos tidos arrufos.
- Pieguices! soltou o tipógrafo, com um movimento de ombros, que
exprimia um desdém de revolucionário pelas frivolidades do sentimento.
- Pieguices... Não sei se são pieguices, disse João Eduardo. O que sei
é que dão desgostos... Arrasam um homem, Gustavo...
Calou-se, mordendo o beiço, para recalcar a emoção que o revolvia.
Mas o tipógrafo achava todas essas histórias de mulheres ridículas. O
tempo não estava para amores... O homem do povo, o operário que
se agarrava a uma saia para não despegar era um inútil... era um
vendido! Em que se devia pensar não era em namoros: era em dar a
liberdade ao povo, livrar o trabalho das garras do capital, acabar com os
monopólios, trabalhar para a república! Não se queria lamúria, queria-se
ação, queria- se a força! - E carregava furiosamente no r da palavra - a
forrrça! - agitando os seus pulsos magríssimos de tísico sobre o grande
prato de iscas que o moço trouxera.
João Eduardo, escutando-o, lembrava-se do tempo em que o
tipógrafo, doido pela Júlia padeira, aparecia sempre com os olhos
vermelhos como carvões, e atroava a tipografia com suspiros medonhos. A
cada ai os camaradas, troçando, davam uma tossezinha de garganta. Um
dia mesmo, Gustavo e o Medeiros tinham-se esmurrado no pátio...
177
- Olha quem fala! disse por fim. És como os outros... Estás aí
a palrar, e quando te chega és como os outros.
O tipógrafo então - que, desde que em Lisboa freqüentara um
clube democrático de Alcântara e ajudara a redigir um manifesto aos
irmãos cigarreiros em greve, se considerava exclusivamente votado ao
serviço do Proletariado e da República - escandalizou-se. Ele? Ele como os
outros? Perder o seu tempo com saias?...
- Está vossa senhoria muito enganado! - e recolheu-se a um silêncio
chocado, partindo com furor a sua isca.
João Eduardo receou tê-lo ofendido.
- Ó Gustavo, sejamos razoáveis! um homem pode ter os seus
princípios, trabalhar pela sua causa, mas casar, arranjar o seu conchego,
ter uma família.
- Nunca! exclamou o tipógrafo exaltado. O homem que casa
está perdido! Daí por diante é ganhar a papa, não se mexer do buraco, não
ter um momento para os amigos, passear de noite os marmanjos quando
eles berram com os dentes. É um inútil! É um vendido! As mulheres não
entendem nada de política. Têm medo que o homem se meta em barulhos,
tenha turras com a polícia. Está um patriota atado de pés e mãos! E quando
há um segredo a guardar? O homem casado não pode guardar um
segredo?... E ai está às vezes uma revolução comprometida... Sebo para a
família! Outra de azeitonas, tio Osório!
A pança do tio Osório apareceu entre os tabiques.
- Então que estão os senhores aqui a questionar, que parece
que entraram os da Maia no concelho de distrito?
Gustavo atirou-se para o fundo do banco, de pema estirada, e
interpelando-o de alto:
- O tio Osório é que vai dizer. Diga lá o amigo. Vossemecê
era homem de mudar as suas opiniões políticas para fazer a vontade à
sua patroa?
O tio Osório acariciou o cachaço e disse com um tom finório:
- Eu lhe respondo, Sr. Gustavo. Mulheres são mais espertas
que nós... E em política, como em negócio, quem for com o que elas
dizem vai pelo seguro... Eu sempre consulto a minha, e se quer que lhe
diga, já vai em vinte anos e não me tenho achado mal.
Gustavo pulou no banco:
- Você é um vendido! gritou.
O tio Osório, acostumado àquela expressão querida do tipógrafo, não
se escandalizou: gracejou até com o seu amor às boas réplicas:
- Vendido não direi, mas vendedor pro que quiser... Pois é o que lhe
digo, Sr. Gustavo. O senhor casará, e depois mas contará.
178
- O que hei-de contar, é, quando houver uma revolução, entrarlhe
por aqui de espingarda ao ombro, e metê-lo em conselho de guerra,
seu capitalista!
- Pois enquanto isso não chega, é beber-lhe e beber-lhe rijo, disse o
tio Osório retirando-se com pachorra.
- Hipopótamo - resmungou o tipógrafo.
E, como adorava discussões, recomeçou logo - sustentando que
o homem, embeiçado por uma saia, não tem firmeza nas suas
convicções políticas...
João Eduardo sorria tristemente, numa negação muda, pensando
consigo que, apesar da sua paixão por Amélia, não se tinha confessado
nos dois últimos anos!
- Tem provas! berrava Gustavo.
Citou um livre-pensador das suas relações que, para manter a
paz doméstica, se sujeitava a jejuar às sextas-feiras, e palmilhar aos
domingos o caminho da capela de ripanço debaixo do braço...
- E é o que te há-de suceder!... Tu tens idéias menos más a
respeito da religião, mas ainda te hei-de ver de opa vermelha e círio na
procissão do Senhor dos Passos... Filosofia e ateísmo não custam nada
quando se conversa no bilhar entre rapazes... Mas praticá-los em família,
quando se tem uma mulher bonita e devota, é o diabo! É o que te há-de
suceder, se é que te não vai sucedendo já hás-de atirar as tuas convicções
liberais para o caixão do cisco, e fazer barretadas ao confessor da casa!
João Eduardo fazia-se escarlate de indignação. Mesmo nos
tempos da sua felicidade, quando tinha Amélia certa, aquela acusação (que
o tipógrafo fazia só para questionar, para palrar) tê-lo-ia escandalizado.
Mas hoje! Justamente quando ele perdera Amélia por ter dito de alto, num
jornal, o seu horror a beatos! Hoje que se achava ali, com o coração
partido, roubado de toda a alegria, exatamente pelas suas opiniões
liberais!...
- Isso dito a mim tem graça! disse com uma amargura sombria.
O tipógrafo galhofou:
- Homem, não me constou ainda que fosses um mártir da liberdade!
- Por quem és não apoquentes, Gustavo, disse o escrevente
muito chocado. Tu não sabes o que se tem passado. Se soubesses não me
dizias isso!
Contou-lhe então a história do Comunicado - calando todavia que o
escrevera num fogo de ciúmes, e apresentando-o como uma pura afirmação
de princípios... E que notasse esta circunstância, ia então casar com uma
rapariga devota, numa casa que era mais freqüentada por padres que a
sacristia da Sé...
- E assinaste? perguntou Gustavo, espantado da revelação.
179
- O doutor Godinho não quis, disse o escrevente corando um pouco.
- E deste-lhes uma desanda, hem?
- A todos, de rachar!
O tipógrafo, entusiasmado, berrou por "outra de tinto"!
Encheu os copos com transporte, bebeu uma grande saúde a
João Eduardo.
- Caramba, quero ver isso! Quero mandá-lo à rapaziada em Lisboa!...
E que efeito fez?
- Um escândalo, mestre.
- E os padrecas?
- Em brasa!
- Mas como souberam que eras tu?
João Eduardo encolheu os ombros. O Agostinho não o dissera.
Desconfiava da mulher do Godinho, que o sabia pelo marido, e que o
fora meter no bico do padre Silvério, seu confessor, o padre Silvério da
Rua das Teresas...
- Um gordo, que parece hidrópico?
- Sim.
- Que besta! rugiu o tipógrafo com rancor.
Olhava agora João Eduardo com respeito, aquele João Eduardo
que se lhe revelara inesperadamente um paladino do livre pensamento.
- Bebe, amigo, bebe! dizia-lhe, enchendo-lhe o copo com
afeto, como se aquele esforço heróico de liberalismo necessitasse ainda,
depois de tantos dias, reconfortos excepcionais.
E que se tinha passado? Que tinha dito a gente da Rua da
Misericórdia?
Tanto interesse comoveu João Eduardo: e dum fôlego fez a sua
confidência. Mostrou-lhe mesmo a carta de Amélia que ela decerto,
coitada, fora levada a escrever num terror do Inferno, sob a pressão dos
padres furiosos...
- E aqui tens a vítima que eu sou, Gustavo!
Era-o com efeito; e o tipógrafo considerava-o com uma
admiração crescente. Já não era o Pacatinho, o escrevente do Nunes, o
chichisbéu da Rua da Misericórdia - era uma vítima das perseguições
religiosas. Era a primeira que o tipógrafo via; e, apesar de não lhe aparecer
na atitude tradicional das estampas de propaganda, amarrado a um poste de
fogueira ou fugindo com a família espavorida a soldados que galopam da
sombra do último plano, achava-o interessante. Invejava-lhe secretamente
aquela honra social. Que chique que lhe daria a ele entre a rapaziada de
Alcântara! Famosa pechincha, ser uma vítima da reação, sem perder o
conforto das iscas do tio Osório e os salários inteiros ao sábado! - Mas
sobretudo o procedimento dos padres enfurecia-o! Para se vingarem dum
180
liberal, intrigarem-no, tirarem-lhe a noiva! - Oh, que canalha!... E
esquecendo os seus sarcasmos ao Casamento e à Família, trovejou de alto
contra o clero, que é quem sempre destrói essa instituição social, perfeita,
de origem divina!
- Isso precisa uma vingança medonha, menino! É necessário arrasálos!
Uma vingança? João Eduardo desejava-a, vorazmente! Mas qual?
- Qual? Contar tudo no Distrito, num artigo tremendo!
João Eduardo citou-lhe as palavras do doutor Godinho: dali
por diante o Distrito estava fechado aos senhores livres-pensadores!
- Cavalgadura! rugiu o tipógrafo.
Mas tinha uma idéia, caramba! Publicar um folheto! Um folheto de
vinte páginas, o que se chama no Brasil uma mofina, mas num
estilo floreado (ele se encarregava disso), caindo sobre o clero com um
desabamento de verdades mortais!
João Eduardo entusiasmou-se. E diante daquela simpatia ativa
de Gustavo, vendo nele um irmão, soltou as últimas confidências, as mais
dolorosas. O que havia no fundo da intriga era a paixã o do padre Amaro
pela pequena, e era para se apoderar dela que o escorraçava a ele... O
inimigo, o malvado, o carrasco - era o pároco!
O tipógrafo apertou as mãos na cabeça: semelhante caso (que todavia
era para ele trivial, nas locais que compunha) sucedido a um amigo seu que
estava ali bebendo com ele, a um democrata, parecia-lhe
monstruoso, alguma coisa semelhante aos furores de Tibério na velhice,
violando, em banhos perfumados, as carnes delicadas de mancebos
patrícios.
Não queria acreditar. João Eduardo acumulou as provas. E
então Gustavo, que tinha molhado vastamente de tinto as iscas de fígado,
ergueu os punhos fechados, e com a face intumescida, dente rilhado, berrou
em rouco:
- Abaixo a religião!
Do outro lado do tabique uma voz trocista grasnou em réplica:
- Viva Pio Nono!
Gustavo ergueu-se para ir esbofetear o entremetido. Mas João
Eduardo sossegou-o. E o tipógrafo, sentando-se tranqüilamente, rechupou o
fundo do copo.
Então, com os cotovelos sobre a mesa, a garrafa entre eles,
conversaram baixo, de rosto a rosto, sobre o plano do folheto. A coisa era
fácil: escrevê-lo-iam ambos. João Eduardo queria-o em forma de romance,
de enredo negro, dando ao personagem do pároco os vícios e as
perversidades de Calígula e de Heliogábalo. O tipógrafo porém queria um
livro filosófico, de estilo e de princípios, que demolisse de uma vez para
sempre o Ultramontanismo! Ele mesmo se encarregava de imprimir a obra
181
aos serões, grátis, já se sabe. - Mas apareceu-lhes então, bruscamente, uma
dificuldade.
- O papel? Como se há-de arranjar o papel?
Era uma despesa de nove ou dez mil-réis; nenhum os tinha - nem um amigo
que, por dedicação aos princípios, lhos adiantasse.
- Pede-os ao Nunes por conta do teu ordenado! lembrou vivamente o
tipógrafo.
João Eduardo coçou desconsoladamente a cabeça. Estava
justamente pensando no Nunes e na sua indignação de devoto, de membro
da junta de paróquia, amigo do chantre, apenas lesse o panfleto! E se
soubesse que era o seu escrevente que o compusera, com as penas do
cartório, no papel almaço do cartório... Via-o já roxo de cólera, alçando
sobre o bico dos sapatos brancos a sua pessoa gordalhufa, e gritando na voz
de grilo - "Fora daqui, pedreiro-livre, fora daqui!"
- Ficava eu bem arranjado, disse João Eduardo muito sério,
nem mulher, nem pão!
Isto fez lembrar também a Gustavo a cólera provável do
doutor Godinho, dono da tipografia. O doutor Godinho, que depois da
reconciliação com a gente da Rua da Misericórdia, retomara publicamente
a sua considerável posição de pilar da Igreja e esteio da Fé...
- É o diabo, pode-nos sair caro, disse ele.
- É impossível! disse o escrevente.
Então praguejaram de raiva. Perder uma ocasião daquelas para pôr a
calva à mostra ao clero!
O plano do folheto, como uma coluna tombada que parece
maior, afigurava-se-lhes, agora que estava derrubado, duma altura, duma
importância colossal. Não era jà a demolição local dum pároco celerado,
era a ruína, ao longe e ao largo, de todo o clero, dos jesuítas, do poder
temporal, de outras coisas funestas... - Maldição! se não fosse o Nunes, se
não fosse o Godinho, se não fossem os nove mil-réis do papel!
Aquele perpétuo obstáculo do pobre, falta de dinheiro e dependência
do patrão, que até para um folheto era estorvo, revoltou-os contra
a sociedade.
- Positivamente é necessário uma revolução, afirmou o tipógrafo. É
necessário arrasar tudo, tudo! - E o seu largo gesto sobre a mesa indicava,
num formidável nivelamento social, uma demolição de igrejas, palácios,
bancos, quartéis, e prédios de Godinhos ! - Outra do tinto, tio Osório!...
Mas o tio Osório não aparecia. Gustavo martelou a mesa a toda a força com
o cabo da faca. E enfim, furioso, saiu fora ao contador "para arrebentar a
pança àquele vendido que fazia assim esperar um cidadão".
Encontrou-o desbarretado, radiante, conversando com o barão
de Via-Clara, que, em vésperas de eleições, vinha pelas casas de pasto
182
apertar a mão aos compadres. E ali na taberna, parecia magnífico o barão,
com a sua luneta de ouro, os botins de verniz sobre o solo térreo,
tossicando ao cheiro acre do azeite fervido e das emanações das borras de
vinho.
Gustavo, avistando-o, recolheu discretamente ao cubículo.
- Está com o barão, disse numa surdina respeitosa.
Mas vendo João Eduardo aniquilado, com a cabeça entre os
punhos, o tipógrafo exortou-o a não esmorecer. Que diabo! No fim,
livrava-se de casar com uma beata...
- Não me pode vingar daquele maroto! interrompeu João
Eduardo com um repelão ao prato.
- Não te aflijas, prometeu o tipógrafo com solenidade, que a
vingança não vem longe!
Fez-lhe então, baixo, a confidência "das coisas que se
preparavam em Lisboa". Tinham-lhe afiançado que havia um clube
republicano a que até pertenciam figurões - e que era para ele uma garantia
superior de triunfo. Além disso, a rapaziada do trabalho mexia-se... Ele
mesmo - e murmurava quase contra a face de João Eduardo, estirado sobre
a mesa - fora falado para pertencer a uma seção da Internacional, que devia
organizar um espanhol de Madri; nunca vira o espanhol, que se disfarçava
por causa da policia; e a coisa falhara porque o Comitê tinha falta de
fundos... Mas era certo haver um homem, que possuía um talho, que
prometera cem mil-réis... O exército, além disso, estava na coisa: tinha
visto numa reunião um sujeito barrigudo que lhe tinham dito que era major,
e que tinha cara de major... - De modo que, com todos estes elementos, a
opinião dele Gustavo, era que dentro de meses, governo, rei, fidalgos,
capitalistas, bispos, todos esses monstros iam pelos ares!
- E então somos nós os reizinhos, menino! Godinho, Nunes toda a
cambada ferramo-la na enxovia de S. Francisco. Eu a quem me atiro é ao
Godinho... Padres, derreamo-los à pancada! E o povo respira, enfim!
- Mas daqui até lá! suspirou João Eduardo, que pensava com
amargura que, quando a revolução viesse já seria tarde para recuperar a
Ameliazinha...
O tio Osório então apareceu com a garrafa.
- Ora até que enfim, seu fidalgo! disse o tipógrafo a trasbordar
de sarcasmo.
- Não se pertence à classe, mas é-se tratado por ela com
consideração, replicou logo o tio Osório, que a satisfação fazia parecer
mais pançudo.
- Por causa de meia dúzia de votos!
183
- Dezoito na freguesia, e esperanças de dezenove. E que se háde
servir mais aos cavalheiros? Nada mais?... Pois é pena. Então é beberlhe,
é beber-lhe!
E correu a cortina, deixando os dois amigos em frente da
garrafa cheia, aspirarem a uma Revolução que lhes permitisse - a um reaver
a menina Amélia, a outro espancar o patrão Godinho.
Eram quase cinco horas quando saíram enfim do cubículo. O
tio Osório, que se interessava por eles por serem rapazes de instrução,
notou logo, examinando-os do canto do balcão onde saboreava o seu
Popular, que vinham tocaditos. João Eduardo, sobretudo, de chapéu
carregado e beiço trombudo: "pessoa de mau vinho", pensou o tio Osório,
que o conhecia pouco. Mas o Sr. Gustavo, como sempre, depois dos três
litros, resplandecia de júbilo. Grande rapaz! Era ele que pagava a conta; e
gingando para o balcão, batendo de alto com as suas duas placas:
- Encafua mais essas na burra, Osório pipa!
- O que é pena é que sejam só duas, Sr. Gustavo.
- Ah bandido! imaginas que o suor do povo, o dinheiro do trabalho é
para encher a pança dos Filistinos? Mas não as perdes! Que no dia do
ajuste de contas quem há-de ter a honra de te furar esse bandulho há-de ser
cá o Bibi... E o Bibi sou eu... Eu é que sou o Bibi! Não é verdade, João,
quem é o Bibi?
João Eduardo não escutava; muito carrancudo, olhava com
desconfiança um borracho, que na mesa do fundo, diante do seu litro vazio,
com o queixo na palma da mão e o cachimbo nos dentes, embasbacara,
maravilhado, para os dois amigos.
O tipógrafo puxou-o para o balcão:
- Diz aqui ao tio Osório quem é o Bibi! Quem é o Bibi?... Olhe para
isto, tio Osório! Rapaz de talento, e dos bons! Veja-me isto! Com duas
penadas dá cabo do Ultramontanismo! É cá dos meus! Também entre nós é
para a vida e para a morte. Deixa lá a conta, Osório barrigudo, ouve o que
te digo! Este é dos bons... E se ele aqui voltar e quiser dois litros a crédito,
é dar-lhos... Cá o Bibi responde por tudo.
- Temos pois, começou o tio Osório, iscas a dois, salada a dois...
Mas o borracho arrancara-se com esforço ao seu banco: de
cachimbo espetado, arrotando forte, veio plantar-se diante do tipógrafo, e,
tremeleando nas pernas, estendeu-lhe a mão aberta.
Gustavo considerou-o de alto, com nojo:
- Que quer você? Aposto que foi você que berrou há pouco: Viva Pio
Nono! Seu vendido... Tire para lá a pata!
O borracho, repelido, grunhiu; e, embicando contra João
Eduardo, ofereceu-lhe a mão espalmada.
- Arrede para lá, seu animal! disse-lhe o escrevente desabrido.
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- Tudo amizade... Tudo amizade... resmungava o borracho.
E não se arredava, com os cinco dedos muito espetados,
despedindo um hálito fétido.
João Eduardo, furioso, atirou-o de repelão contra o contador.
- Brincadeiras de mãos, não! exclamou logo severamente o tio
Osório. Brutalidades, não!
- Que se não metesse comigo, rosnou o escrevente. E a você façolhe
o mesmo...
- Quem não tem decência vai para a rua, disse muito grave o
tio Osório.
- Quem vai para a rua, quem vai para a rua? rugiu o
escrevente, empinando-se, de punho fechado. Repita lá isso de ir para a
rua! Com quem está você a falar?
O tio Osório não replicava, apoiado sobre as mãos ao balcão,
patenteando os seus enormes braços que lhe faziam o estabelecimento
respeitado.
Mas Gustavo, com autoridade, pôs-se entre os dois, e declarou
que era necessário ser-se cavalheiro! Questões e más palavras, não! Podiase
chalacear e troçar os amigos, mas como cavalheiros! E ali só havia
cavalheiros.
Arrastou para um canto o escrevente, que resmungava muito
ressentido.
- Oh, João! oh, João! dizia-lhe com grandes gestos, isso não é
dum homem ilustrado!
Que diabo! Era necessário ter-se boas maneiras! Com repentes,
com vinho desordeiro, não havia pândega, nem sociedade, nem
fraternidade!
Voltou ao tio Osório, falando-lhe sobre o ombro, excitado:
- Eu respondo por ele, Osório! É um cavalheiro! Mas tem tido
desgostos, e não está acostumado a um litro de mais. É o que é! Mas é
dos bons... Você desculpe, tio Osório. Que eu respondo por ele...
Foi buscar o escrevente, persuadiu-o a apertar a mão ao tio Osório. O
taberneiro declarou com ênfase que não quisera insultar o cavalheiro. Os
shake-hands então sucederam-se com veemência. Para consolidar
a reconciliação, o tipógrafo pagou três canas brancas. João Eduardo,
por brio, ofereceu também um giro de conhaque. E com os copos em fila
sobre o balcão, trocavam boas palavras, tratavam-se de cavalheiros, -
enquanto o borracho, esquecido ao seu canto, derreado para cima da mesa,
a cabeça sobre os punhos e o nariz sobre o litro, se babava silenciosamente,
com o cachimbo cravado nos dentes.
- Disto é que eu gosto, dizia o tipógrafo a quem a
aguardente aumentara a ternura. Harmonia! Cá o meu fraco é a harmonia!
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Harmonia entre a rapaziada e entre a humanidade... O que eu queria era ver
uma grande mesa, e toda a humanidade sentada num banquete, e fogo
preso, e chalaça, e decidirem-se as questões sociais! E o dia não vem longe
em que você o há-de ver, tio Osório!... Em Lisboa as coisas vão-se
preparando para isso. E o tio Osório é que há-de fornecer o vinho... Hem,
que negociozinho! Diga que não sou amigo!
- Obrigado, Sr. Gustavo, obrigado...
- Isto aqui entre nós, hem? Que somos todos cavalheiros! E cá este -
abraçava João Eduardo - é como se fosse irmão! Entre nós é pra vida e pra
morte! E é mandar a tristeza ao diabo, rapazão! Toca a escrever o folheto...
O Godinho, e o Nunes...
- O Nunes racho-o! soltou com força o escrevente, que, depois
das saúdes com cana, parecia mais sombrio.
Dois soldados entraram então na taberna - e Gustavo julgou
que eram horas de ir para a tipografia. Senão, não se haviam de separar
todo o dia, não se haviam de separar toda a vida!... Mas o trabalho é dever,
o trabalho é virtude!
Saíram, enfim, depois de mais shake-hands com o tio Osório.
À porta, Gustavo jurou ainda ao escrevente uma lealdade de irmão;
obrigou-o a aceitar a sua bolsa de tabaco; e desapareceu à esquina da rua,
de chapéu para a nuca, trauteando o Hino do Trabalho.
···
João Eduardo, só, abalou logo para a Rua da Misericórdia. Ao chegar
à porta da S. Joaneira, apagou com cuidado o cigarro na sola do sapato, e
deu um puxão tremendo ao cordão da campainha.
A Ruça veio, correndo.
- A Ameliazinha? Quero-lhe falar!
- As senhoras saíram, disse a Ruça espantada do modo do Sr.
Joãozinho.
- Mente, sua bêbeda! berrou o escrevente.
A rapariga, aterrada, fechou a porta de estalo.
João Eduardo foi-se encostar à parede defronte, e ficou ali, de braços
cruzados, observando a casa: as janelas estavam fechadas, as cortinas de
cassa corridas; dois lenços de rapé do cônego secavam embaixo
na varanda.
Aproximou-se de novo e bateu devagarinho a aldrava. Depois
repicou com furor a campainha. Ninguém apareceu: então, indignado,
partiu para os lados da Sé.
Ao desembocar no largo, diante da fachada da igreja, parou,
procurando em redor com o sobrolho carregado: mas o largo parecia
186
deserto; à porta da farmácia do Carlos um rapazito, sentado no degrau,
guardava pela arreata um burro carregado de erva; aqui e além, galinhas
iam picando o chão vorazmente; o portão da igreja estava fechando; e
apenas se ouvia o ruído de marteladas numa casa ao pé em que havia obras.
E João Eduardo ia seguir para os lados da alameda - quando
apareceram no terraço da igreja, da banda da sacristia, o padre Silvério e
o padre Amaro, conversando, devagar.
Batia então um quarto na torre, e o padre Silvério parou a acertar o
seu cebolão. Depois os dois padres observaram maliciosamente a janela da
administração de vidraças abertas, onde se via, no escuro, o vulto do senhor
administrador de binóculo cravado para a casa do Teles alfaiate. E
desceram enfim a escadaria da Sé, rindo de ombro a ombro, divertidos com
aquela paixão que escandalizava Leiria.
Foi então que o pároco viu João Eduardo que estacara no meio
do largo. Parou para voltar à Sé decerto, evitar o encontro; mas viu o
portão fechado, e ia seguir de olhos baixos, ao lado do bom Silvério que
tirava tranqüilamente a sua caixa de rapé, - quando João Eduardo,
arremessando-se, sem uma palavra, atirou a toda a força um murro no
ombro de Amaro.
O pároco, aturdido, ergueu frouxamente o guarda-chuva.
- Acudam! berrou logo o padre Silvério, recuando de braços no
ar. Acudam!
Da porta da administração um homem correu, agarrou
furiosamente o escrevente pela gola:
- Está preso! rugia. Está preso!
- Acudam, acudam! berrava Silvério a distância.
Janelas no largo abriam-se à pressa. A Amparo da botica, em
saia branca, apareceu à varanda, espavorida; o Carlos precipitara-se do
laboratório em chinelas; e o senhor administrador, debruçado na sacada,
bracejava, com o binóculo na mão.
Enfim o escrivão da administração, o Domingos, compareceu,
muito grave, de mangas de lustrina enfiadas; e com o cabo de polícia levou
logo para a administração o escrevente, que não resistia, todo pálido...
O Carlos, esse, apressou-se a conduzir o senhor pároco para a
botica; fez preparar, com estrépito, flor de laranja e éter; gritou pela esposa,
para arranjar uma cama... Queria examinar o ombro de sua senhoria:
haveria intumescência?
- Obrigado, não é nada, dizia o pároco muito branco. Não é nada. Foi
um raspão. Basta-me uma gota de água...
Mas a Amparo achava melhor um cálice de vinho do Porto; e
correu acima a buscar-lho, tropeçando nos pequenos que se lhe
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despenduravam das saias, dando ais, explicando pela escada à criada que
tinham querido matar o senhor pároco!
À porta da botica juntara-se gente, que embasbacava para dentro; um
dos carpinteiros que trabalhavam nas obras afirmava que "fora
uma facada"; e uma velha por trás debatia-se, de pescoço esticado, para ver
o sangue. Enfim, a pedido do pároco, que receava escândalo, o Carlos
veio majestosamente declarar que não queria motim à porta! O senhor
pároco estava melhor. Fora apenas um soco, um raspão de mão... Ele
respondia por sua senhoria.
E como o burro ao lado começara a ornear, o farmacêutico voltandose
indignado para o rapazito que o segurava pela arreata:
- E tu não tens vergonha, no meio dum desgosto destes, um desgosto
para toda a cidade, de ficar aqui com esse animal, que não faz senão zurrar?
Para longe, insolente, para longe!
Aconselhou então os dois sacerdotes a que subissem para a sala, para
evitar a "curiosidade da populaça". E a boa Amparo apareceu logo com
dois cálices do Porto, um para o senhor pároco, outro para o Sr. padre
Silvério que se deixara cair a um canto do canapé apavorado
ainda, extenuado de emoção.
- Tenho cinqüenta e cinco anos, disse ele depois de ter chupado
a última gota de Porto, e é a primeira vez que me vejo num barulho!
O padre Amaro, mais sossegado agora, afetando bravura,
chasqueou o padre Silvério:
- Você tomou o caso muito ao trágico, colega... E lá ser a
primeira, vamos lá... Todos sabem que o colega esteve pegado com o
Natário...
- Ah, sim, exclamou o Silvério, mas isso era entre sacerdotes, amigo!
Mas a Amparo, ainda muito trêmula, enchendo outro cálice
ao senhor pároco, quis saber "os particulares, todos os particulares..."
- Não há particulares, minha senhora, eu vinha aqui com o colega...
Vínhamos cavaqueando... O homem chegou-se a mim, e, como eu estava
desprevenido, deu-me um raspão no ombro.
- Mas por quê, por quê? exclamou a boa senhora, apertando as mãos,
num assombro.
O Carlos então deu a sua opinião. Ainda havia dias, ele
dissera, diante da Amparozinho e de D. Josefa, a irmã do respeitável
cônego Dias, que estas idéias de materialismo e ateísmo estavam levando a
mocidade aos mais perniciosos excessos... E mal sabia ele então que estava
profetizando!
- Vejam vossas senhorias este rapaz! Começa por esquecer todos os
deveres de cristão (assim no-lo afirmou D. Josefa), associa-se com
bandidos, achincalha os dogmas nos botequins... Depois (sigam vossas
188
senhorias a progressão), não contente com estes extravios, publica nos
periódicos ataques abjetos contra a religião... E enfim, possuído duma
vertigem de ateísmo, atira-se, diante mesmo da catedral, sobre um
sacerdote exemplar (não é por vossa senhoria estar presente) e tenta
assassiná-lo! Ora, pergunto eu, o que há no fundo de tudo isto? Ódio, puro
ódio à religião de nossos pais!
- Infelizmente assim é, suspirou o padre Silvério.
Mas a Amparo, indiferente às causas filosóficas do delito, ardia
na curiosidade de saber o que se passaria na administração, o que diria
o escrevente, se o teriam posto a ferros... O Carlos prontificou-se logo a
ir averiguar.
De resto, disse ele, era o seu dever, como homem de ciência,
esclarecer a justiça sobre as conseqüências que podia ter trazido um murro,
à força de braço, na região delicada da clavícula... (ainda que,
louvado Deus, não havia fratura, nem inchaço), e sobretudo queria revelar à
autoridade, para que ela tomasse as suas providências, que aquela tentativa
de espancamento não provinha de vingança pessoal. Que podia ter feito
o senhor pároco da Sé ao escrevente do Nunes? Provinha duma vasta
conspiração de ateus e republicanos contra o sacerdócio de Cristo!
- Apoiado, apoiado! disseram os dois sacerdotes gravemente.
- E é o que eu vou provar cabalmente ao senhor administrador
do concelho!
Na sua precipitação zelosa de conservador indignado, ia mesmo
de chinelas e quinzena de laboratório: mas Amparo alcançou-os no
corredor:
- Oh filho, a sobrecasaca, põe a sobrecasaca ao menos, que o
administrador é de cerimônias!
Ela mesmo lha ajudou a enfiar, enquanto o Carlos, com a imaginação
trabalhando viva (aquela desgraçada imaginação que, como ele dizia, até às
vezes lhe dava dores de cabeça), ia preparando o seu depoimento, que faria
ruído na cidade. Falaria de pé. Na saleta da administração seria um aparato
judicial; à sua mesa, o senhor administrador, grave como a personificação
da Ordem; em redor os amanuenses, ativos sobre o seu papel selado; e o
réu, defronte, na atitude tradicional dos criminosos políticos, os braços
cruzados sobre o peito, a fronte alta desafiando a morte. Ele, Carlos, então,
entraria e diria: "Senhor administrador, aqui venho espontaneamente pôrme
ao serviço da vindita social!"
- Hei-de-lhes mostrar, com uma lógica de ferro, que é tudo resultado
duma conspiração do racionalismo. Podes estar certa, Amparozinho, é uma
conspiração do racionalismo! disse, puxando, com um gemido de esforço,
as presilhas dos botins de cano.
- E repara se ele fala da pequena, da S. Joaneira...
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- Hei-de tomar notas. Mas não se trata da S. Joaneira. Isto é
um processo político!
Atravessou o largo majestosamente, certo que os vizinhos, pelas
portas, murmuravam: Lá vai o Carlos depor... Ia depor, sim, mas não
sobre o murro no ombro de sua senhoria. Que importava o murro? O grave
era o que estava por trás do murro - uma conspiração contra a Ordem,
a Igreja, a Carta e a Propriedade! É o que ele provaria de alto ao
senhor administrador. Este murro, ilustríssimo senhor, é o primeiro excesso
duma grande revolução social!
E empurrando o batente de baeta que dava acesso para a
administração do concelho de Leiria, ficou um momento com a mão no
ferrolho, enchendo o vão da porta da pompa da sua pessoa. Não, não havia
o aparato judicial que ele concebera. O réu lá estava, sim, o pobre João
Eduardo, mas sentado à beira do banco, com as orelhas em brasa, olhando
estupidamente o soalho. Artur Couceiro, embaraçado com a presença
daquele íntimo dos serões da S. Joaneira, ali no assento dos presos, para o
não olhar fixara o nariz sobre o imenso copiador de ofícios, onde
desdobrara o Popular da véspera. O amanuense Pires, de sobrancelhas
muito erguidas e muito sérias, embebia-se na ponta da pena de pato que
aparava sobre a unha. O escrivão Domingos, esse sim, vibrava de
atividade! O seu lápis rascunhava com furor; o processo estava-se decerto
apressando; era tempo de trazer a sua idéia... E o Carlos então adiantandose:
- Meus senhores! O senhor administrador?
Justamente, a voz de sua excelência chamou de dentro do seu
gabinete:
- Ó Sr. Domingos?
O escrivão perfilou-se, puxando os óculos para a testa.
- Senhor administrador!
- O senhor tem fósforos?
O Domingos procurou ansiosamente pela algibeira, na gaveta,
entre os papéis...
- Algum dos senhores tem fósforos?
Houve um rebuscar de mãos sobre a mesa... Não, não havia fósforos.
- Ó Sr. Carlos, o senhor tem fósforos?
- Não tenho, Sr. Domingos. Sinto.
O senhor administrador apareceu então, ajeitando as suas lunetas de
tartaruga:
- Ninguém tem fósforos, hem? É extraordinário que não haja
aqui nunca fósforos! Uma repartição destas sem um fósforo... Que fazem
os senhores aos fósforos? Mande buscar por uma vez meia dúzia de caixas!
190
Os empregados olhavam-se consternados dessa falta flagrante
no material do serviço administrativo. E o Carlos, apoderando-se logo da
presença e da atenção de sua excelência:
- Senhor administrador, eu aqui venho... Aqui venho solicito
e espontâneo, por assim dizer...
- Diga-me uma coisa, Sr. Carlos, interrompeu a autoridade. O pároco
e o outro ainda estão lá na botica?
- O senhor pároco e o Sr. padre Silvério ficaram com minha esposa a
repousar da comoção que...
- Tem a bondade de lhes dizer que são cá precisos...
- Eu estou à disposição da lei.
- Que venham quanto antes... São cinco horas e meia, queremo-nos ir
embora! Vejam que maçada tem sido esta aqui, todo o dia! A repartição
fecha-se às três!
E sua excelência, rodando, sobre os tacões, foi debruçar-se à
sacada do seu gabinete - àquela sacada de onde ele diariamente, das onze às
três, retorcendo o bigode louro e entesando o plastrão azul, depravava a
mulher do Teles.
O Carlos abria já o batente verde, quanto um pst do Domingos
o deteve.
- Ó amigo Carlos .- e o sorrisinho do escrivão tinha uma suplicação
tocante - desculpe, hem? Mas... Traz-me de lá uma caixita de fósforos?
Neste momento à porta aparecia o padre Amaro; e por trás a
massa enorme do Silvério.
- Eu desejava falar ao senhor administrador em particular,
disse Amaro.
Todos os empregados se ergueram; João Eduardo também,
branco como a cal do muro. O pároco, com as sua passadas sutis de
eclesiástico, atravessou a repartição, seguido do bom Silvério que ao passar
diante do escrevente descreveu de esguelha um semicírculo cauteloso, com
terror ao réu; o senhor administrador acudira a receber suas senhorias; e a
porta do gabinete fechou-se discretamente.
- Temos composição, rosnou o experiente Domingos, piscando
o olho aos colegas.
O Carlos sentara-se descontente. Viera ali para esclarecer a
autoridade sobre os perigos sociais que ameaçavam Leiria, o Distrito e a
Sociedade, para ter o seu papel naquele processo, que, segundo ele, era um
processo político - e ali estava calado, esquecido, no mesmo banco ao
lado do réu! Nem lhe tinham oferecido uma cadeira! Seria realmente
intolerável que as coisas se arranjassem entre o pároco e o administrador
sem o consultarem a ele! Ele, o único que percebera naquele murro dado
no ombro do padre - não o punho do escrevente, mas a mão do
191
Racionalismo! Aquele desdém pelas suas luzes parecia-lhe um erro funesto
da administração do Estado. Positivamente o administrador não tinha a
capacidade necessária para salvar Leiria dos perigos da revolução! Bem se
dizia na Arcada - era uma bambocha!
A porta do gabinete entreabriu-se, e as lunetas do administrador
reluziram.
- Ó Sr. Domingos, faz favor, vem-nos falar? disse sua excelência.
O escrivão apressou-se com importância; e a porta cerrou-se de
novo, confidencialmente. Ah! aquela porta, fechada diante dele, deixando-o
de fora, indignava o Carlos. Ali ficava, com o Pires, com o Artur, entre
as inteligências subalternas, ele que prometera à Amparozinho falar de
alto ao administrador! E quem era ouvido, e quem era chamado? O
Domingos, um animal notório, que começava satisfação com c cedilhado!
Que se podia de resto esperar duma autoridade que passava as manhãs de
binóculo a desonrar uma família? Pobre Teles, seu vizinho, seu amigo!...
Não, realmente devia falar ao Teles!
Mas a sua indignação cresceu, quando viu o Artur Couceiro,
um empregado da repartição, na ausência do seu chefe, erguer-se da sua
escrivaninha, vir familiarmente junto do réu, dizer-lhe com melancolia:
- Ah, João, que rapaziada, que rapaziada!... Mas a coisa arranja- se,
verás!
João tinha encolhido tristemente os ombros. Havia meia hora que
ali estava, sentado à beira daquele banco, sem se mexer, sem despregar os
olhos do soalho, sentindo-se interiormente tão vazio de idéias, como se lhe
tivessem tirado os miolos. Todo o vinho, que na taberna do Osório e no
Largo da Sé lhe acendia na alma fogachos de cólera, lhe retesava os pulsos
num desejo de desordem, parecia subitamente eliminado do seu organismo.
Sentia-se agora tão inofensivo como quando no cartório aparava
cautelosamente a sua pena de pato. Um grande cansaço entorpecia-o; e ali
esperava, sobre o banco, numa inércia de todo o seu ser, pensando
estupidamente que ia viver para uma enxovia em S. Francisco, dormir
numa palhoça, comer da Misericórdia... Não tornaria a passear na alameda,
não veria mais Amélia... A casita em que vivia seria alugada a outro...
Quem tomaria conta do seu canário? Pobre animalzinho, ia morrer de fome,
decerto... A não ser que a Eugênia, a vizinha, o recolhesse...
O Domingos de repente saiu do gabinete de sua excelência, e
fechando vivamente a porta sobre si, em triunfo:
- Que lhes dizia eu? Composição! Arranjou-se tudo!
E para João Eduardo:
- Seu felizão! Parabéns! parabéns!
O Carlos pensou que aquele era o maior escândalo
administrativo desde o tempo dos Cabrais! E ia retirar-se enojado (como no
192
quadro clássico o Estóico que se afasta duma orgia Patrícia) quando o
senhor administrador abriu a porta do seu gabinete. Todos se ergueram.
Sua excelência deu dois passos na repartição, e revestido de gravidade,
destilando as palavras, com as lunetas cravadas no réu:
- O Sr, padre Amaro, que é um sacerdote todo caridade e
bondade, veio-me expor... Enfim, veio-me suplicar que não desse mais
andamento a este negócio... Sua senhoria com razão não quer ver o seu
nome arrastado nos tribunais. Além disso, como sua senhoria disse muito
bem, a religião, de que ele é... de que ele é, posso dizê-lo, a honra e o
modelo, impõe- lhe o perdão da ofensa... Sua excelência reconhece que o
ataque foi brutal, mas frustrado... Além disso parece que o senhor estava
bêbedo...
Todos os olhos se fixaram em João Eduardo, que se fez
escarlate. Aquilo pareceu-lhe nesse momento pior que a prisão.
- Enfim, continuou o administrador, por altas considerações que eu
pesei devidamente, tomo a responsabilidade de o soltar. Veja agora como
se porta. A autoridade não o perde de olho... Bem, pode ir com Deus!
E sua excelência recolheu-se ao gabinete. João Eduardo ficou
imóvel, como parvo.
- Posso ir, hem? balbuciou.
- Para a China, para onde quiser! Liberus, libera, liberum! exclamou
o Domingos que, interiormente detestando padres, jubilava com aquele
final.
João Eduardo olhou um momento em redor os empregados, o carrancudo
Carlos; duas lágrimas bailavam-lhe nas pálpebras; de repente agarrou o
chapéu e abalou.
- Poupa-se um rico trabalhinho! resumiu o Domingos,
esfregando vivamente as mãos.
Imediatamente a papelada foi arrumada, aqui e além, à pressa. É que
era tarde! O Pires recolhia as suas mangas de lustrina e a sua almofadinha
de vento. O Artur enrolou os seus papéis de música. E no vão da janela,
amuado, esperando ainda, o Carlos olhava sombriamente o largo.
Enfim os dois padres saíram acompanhados até à porta pelo
senhor administrador, que, terminados os deveres públicos, reaparecia
homem de sociedade. - Então por que não tinha o amigo Silvério vindo a
casa da baronesa de Via-Clara? Houvera um voltarete furibundo. O Peixoto
levara dois codilhos. Tinha dito blasfêmias medonhas!... Criado de suas
excelências. Estimava bem que tudo se tivesse harmonizado. Cuidado com
o degrau... Às ordens de suas excelências...
Ao voltar porém ao seu gabinete dignou-se parar diante da mesa
do Domingos, e retomando alguma solenidade:
193
- A coisa passou-se bem. É um bocado irregular, mas sensata!
Bem basta já os ataques que há contra o clero nos jornais... A coisa podia
fazer barulho. O rapaz era capaz de dizer que tinham sido ciúmes do padre,
que queria desinquietar a rapariga, etc. É mais prudente abafar a coisa.
Quanto mais que, segundo o pároco me provou, toda a influência que ele
tem exercido. na Rua da Misericórdia ou onde diabo é, tem tido por fim
livrar a rapariga de casar com aquele amigo, que, como se vê, é um bêbedo
e uma fera!
O Carlos roía-se. Todas aquelas explicações eram dadas ao
Domingos! A ele, nada! Ali ficava, esquecido no vão da janela!
Mas não! Sua excelência, de dentro do seu gabinete, chamou-o
misteriosamente com o dedo.
Enfim! Precipitou-se, radiante, subitamente reconciliado com a
autoridade.
- Eu estava para passar pela botica - disse-lhe o administrador baixo
e sem transição, dando-lhe um papel dobrado - para que me mandasse isto
a casa, hoje. É um receita do doutor Gouveia... Mas já que o amigo aqui
está...
- Eu tinha vindo para me pôr à disposição da vindita...
- Isso está acabado! interrompeu vivamente sua excelência. Não
se esqueça, mande-me isso antes das seis. É para tomar ainda esta
noite. Adeus. Não se esqueça!
- Não faltarei, disse secamente o Carlos.
Ao entrar na botica, a sua cólera flamejava. Ou ele não se
chamava Carlos, ou havia de mandar uma correspondência tremenda ao
Popular!... Mas a Amparo, que lhe espreitara a volta da varanda, correu,
atirando-lhe as perguntas:
- Então? Que se passou? O rapaz foi para a rua? Que disse
ele? Como foi?
O Carlos fixava-a, com as pupilas chamejantes.
- Não foi culpa minha, mas triunfou o materialismo1 Eles o pagarão!
- Mas tu que disseste?
Então, vendo os olhos da Amparo e os do praticante abertos
para devorar a citação do seu depoimento - o Carlos, tendo de ressalvar a
dignidade de esposo e a superioridade de patrão, disse laconicamente:
- Dei a minha opinião, com firmeza!
- E ele que disse, o administrador?
Foi então que o Carlos, recordando-se, leu a receita que
amarrotara na mão. A indignação emudeceu-o - vendo que era aquele todo
o resultado da sua grande entrevista com a autoridade!
- Que é? perguntou sofregamente a Amparo.
194
O que era? e no seu furor, desdenhando o segredo profissional e
o bom renome da autoridade, o Carlos exclamou:
- É um frasco de xarope de Gibert para o senhor administrador! Aí
tem a receita, Sr. Augusto.
Amparo, que, com alguma prática de farmácia, conhecia os
benefícios do mercúrio, fez-se tão escarlate como as fitas flamejantes que
lhe enfeitavam a cuia.
···
Toda essa tarde se falou com excitação pela cidade da "tentativa
de assassinato de que estivera para ser vitima o senhor pároco". Algumas
pessoas censuravam o administrador por não ter procedido: os
cavalheiros da oposição sobretudo, que viram na debilidade daquele
funcionário uma prova incontestável de que o governo ia, com os seus
desperdícios e as suas corrupções, levando o país a um abismo!
Mas o padre Amaro, esse, era admirado como um santo. Que piedade! que
mansidão! O senhor chantre mandou-o chamar à noitinha, recebeu-o
paternalmente com um "viva o meu cordeiro pascal!". E depois de escutar a
história do insulto, a generosa intervenção...
- Filho, exclamou, isso é aliar a mocidade de Telêmaco à
prudência de Mentor! Padre Amaro, você era digno de ser sacerdote de
Minerva na cidade de Salento!
Quando Amaro entrou à noite em casa da S. Joaneira - foi como a
aparição dum santo escapo às feras do Circo ou à plebe de
Diocleciano! Amélia, sem disfarçar a sua exaltação, apertou-lhe ambas as
mãos, muito tempo, toda trêmula, com os olhos úmidos. Deram-lhe, como
nos grandes dias, a poltrona verde do cônego. A Sra. D. Maria da Assunção
quis mesmo que se lhe pusesse uma almofada para ele apoiar o ombro
dorido. Depois, teve de contar miudamente toda a cena, desde o momento
em que, conversando com o colega Silvério (que se portara muito bem),
avistara o escrevente no meio do largo, de bengalão alçado e ar de matamouros...
Aqueles detalhes indignavam as senhoras. O escrevente aparecialhes
pior que Longuinhos e que Pilatos. Que malvado! O senhor pároco
devia-o ter calcado aos pés! Ah! era dum santo, ter perdoado!
- Fiz o que me inspirou o coração, disse ele baixando os olhos.
Lembrei-me das palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo: ele manda oferecer
a face esquerda depois de ter sido esbofeteado na face direita...
O cônego, a isto, escarrou grosso e observou:
- Eu lhe digo. Eu, se me atirarem um bofetão à face direita...
Enfim, são ordens de Nosso Senhor Jesus Cristo, ofereço a face esquerda.
195
São ordens de cima!... Mas depois de ter cumprido esse dever de
sacerdotes, oh, senhoras, desanco o patife!
- E doeu-lhe muito, senhor pároco? perguntou do canto uma vozinha
expirante e desconhecida.
Acontecimento extraordinário! Era a Sra. D. Ana Gansoso que
falara depois de dez longos anos de taciturnidade sonolenta! Aquele torpor
que nada sacudira, nem festas, nem lutos, tinha enfim, sob um impulso de
simpatia pelo senhor pároco, uma vibração humana! - Todas as senhoras
lhe sorriram, agradecidas: e Amaro, lisonjeado, respondeu com bondade:
- Quase nada, Sra. D. Ana, quase nada, minha senhora... Que ele deu
de rijo! Mas eu sou de boa carnadura.
- Ai, que monstro! exclamou D. Josefa Dias, furiosa à idéia do punho
do escrevente descarregado sobre aquele ombro santo. Que monstro! Eu
queria-o ver com uma grilheta a trabalhar na estrada ! Que eu é que
o conhecia! A mim nunca ele me enganou... Sempre lhe achei cara de
assassino!
- Estava embriagado, homens com vinho... arriscou timidamente a S.
Joaneira.
Foi um clamor. Ai, que o não desculpasse! Parecia até sacrilégio! Era
uma fera, era uma fera!
E a exultação foi grande quando Artur Couceiro, aparecendo, deu logo da
porta a novidade, a última: o Nunes mandara chamar o João Eduardo e
dissera-lhe (palavras textuais): "Eu, bandidos e malfeitores não os quero no
meu cartório. Rua!"
A S. Joaneira então comoveu-se:
- Pobre rapaz, fica sem ter que comer... ,
- Que beba! que beba! gritou a Sra. D. Maria da Assunção.
Todos riram. Só Amélia, curvada sobre a sua costura, se fizera
muito pálida, aterrada àquela idéia que João Eduardo teria talvez fome...
- Pois olhem, não acho caso para rir! disse a S. Joaneira. É até coisa
que me vai tirar o sono.., Pensar que o rapaz há-de querer um bocado de
pão e não o há-de ter... Credo! Não, isso não! E o Sr. padre
Amaro desculpe...
Mas Amaro também não desejava que o rapaz caísse em
miséria! Não era homem de rancor, ele! E se o escrevente viesse à sua
porta, com necessidade, duas ou três placas (não era rico, não podia mais),
mas três ou quatro placas dava-lhas... Dava-lhas de coração.
Tanta santidade fanatizou as velhas. Que anjo! Olhavam-no, babosas,
com as mãos vagamente postas. A sua presença, como a dum S. Vicente de
Paula, exalando caridade, dava à sala uma suavidade de capela: e a Sra. D,
Maria da Assunção suspirou de gozo devoto.
196
Mas Natário apareceu, radiante. Deu grandes apertos de mãos
em redor, rompeu em triunfo:
- Então já sabem? O patife, o assassino, escorraçado de toda a parte
como um cão! O Nunes expulsou-o do cartório. O doutor Godinho disseme
agora que no governo civil não punha ele os pés. Enterrado, demolido!
É um alívio para a gente de bem!
- E ao Sr. padre Natário se deve! exclamou D. Josefa Dias.
Todos o reconheciam. Fora ele, com a sua habilidade, a sua
lábia, que descobrira a perfídia de João Eduardo, salvara a Ameliazinha,
Leiria, a Sociedade.
- E em tudo o que pretender, o maroto, há-de encontrar-me
pela frente. Enquanto ele estiver em Leiria não o largo! Que lhes disse eu,
minha senhoras?.,, "Eu é que o esmago!" Pois aí o têm esmagado!
A sua face biliosa resplandecia. Estirou-se na poltrona,
regaladamente, no repouso merecido de uma vitória difíci1. E voltando-se
para Amélia;
- E agora, o que lá vai, lá vai! Livrou-se de uma fera, é o que
lhe posso dizer!
Então os louvores - que já lhe tinham repetido prolixamente
desde que ela rompera com a fera - recomeçaram, mais vivos:
- Foi a coisa de mais virtude que tens feito em toda a tua, vida!
- É a graça de Deus que te tocou!
- Estás em graça, filha!
- Enfim é Santa Amélia, disse o cônego erguendo-se,
enfastiado daquelas glorificações. Pois parece-me que temos falado
bastante do patife... Mande agora a senhora vir o chá, hem?
Amélia permanecia calada, cosendo à pressa; erguia às vezes rapidamente
para Amaro um olhar desassossegado; pensava em João Eduardo, nas
ameaças de Natário; e imaginava o escrevente com as faces encovadas de
fome, foragido, dormindo pelas portas dos casais... E enquanto as senhoras
se acomodavam, palrando, à mesa do chá, ela pôde dizer baixo a Amaro:
- Não posso sossegar com a idéia que o rapaz sofra
necessidades... Eu bem sei que é um malvado, mas... É como um espinho
cá por dentro. Tira-me toda a alegria.
O padre Amaro disse-lhe então, com muita bondade, mostrandose
superior à injúria, num alto espirito de caridade cristã:
- Minha rica filha, são tolices... O homem não morre de fome.
Ninguém morre de fome em Portugal. É novo, tem saúde, não é tolo, há-dese
arranjar... Não pense nisso... Aquilo é palavreado do padre Natário... O
rapaz naturalmente sai de Leiria, não tomamos a ouvir falar dele... E em
toda a parte há-de ganhar a vida... Eu por mim perdoei-lhe, e Deus há-de
tomar isso em conta...
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Estas palavras tão generosas, ditas baixo, com um olhar
amante, tranqüilizaram-na inteiramente. A clemência, a caridade do senhor
pároco pareceram-lhe melhores que tudo o que ouvira ou lera de santos e
de monges piedosos.
Depois do chá, ao quino, ficou junto dele. Uma alegria plena e suave
penetrava-a deliciosamente. Tudo o que até aí a importunara e a assustara,
João Eduardo, o casamento, os deveres, desaparecera enfim da sua vida: o
rapaz iria para longe, empregar-se - e o senhor pároco ali estava, todo dela,
todo apaixonado! Por vezes, por baixo da mesa, os seus joelhos tocavamse,
a tremer; num momento em que todos faziam um alarido indignado
contra Artur Couceiro que pela terceira vez quinara e brandia o cartão
triunfante, foram as mãos que se encontraram, se acariciaram; um pequeno
suspiro simultâneo, perdido na gralhada das velhas, ergueu o peito de
ambos; e até ao fim da noite foram marcando os seus cartões, muitos
calados, com as faces acesas, sob a pressão brutal do mesmo desejo.
Enquanto as senhoras se agasalhavam, Amélia aproximou-se do
piano para correr uma escala, e Amaro pôde murmurar-lhe ao ouvido:
- Oh filhinha, que te quero tanto! E não podermos estar sós...
Ela ia responder - quando a voz de Natário, que se embrulhava no
seu capote ao pé do aparador, exclamou, muito severa:
- Então as senhoras deixam andar por aqui semelhante livro?
Todos se voltaram, na surpresa que dava aquela indignação, a olhar o
largo volume encadernado que Natário indicava com a ponta do guardachuva,
como um objeto abominável. D. Maria da Assunção aproximouse
logo de olho reluzente, imaginando que seria alguma dessas novelas,
tão famosas, em que se passam coisas imorais. E Amélia chegando-se
também, disse, admirada de tal reprovação: .
- Mas é o Panorama... É um volume do Panorama...
- Que é o Panorama vejo eu, disse Natário, com secura. Mas também
veio isto. - Abriu o volume na primeira página branca, e leu alto: -
"Pertence-me este volume a mim, João Eduardo Barbosa, e serve-me de
recreio nos meus ócios". Não compreende, hem? Pois é muito
simples... Parece incrível que as senhoras não saibam que esse homem,
desde que pôs as mãos num sacerdote, está ipso facto excomungado, e
excomunga- dos todos os objetos que lhe pertencem!
Todas as senhoras, instintivamente, afastaram-se do aparador
onde jazia aberto o Panorama fatal, arrebanhando-se, num arrepiamento
de medo, àquela idéia da Excomunhão que se lhes representava com um
desabamento de catástrofes, um aguaceiro de raios despedidos das mãos
do Deus Vingador: e ali ficaram mudas, num semicírculo apavorado, em
torno de Natário, que, de capotão pelos ombros e braços cruzados, gozava
o efeito da sua revelação.
198
Então a S. Joaneira, no seu assombro, arriscou-se a perguntar:
- O Sr. padre Natário está a falar sério?
Natário indignou-se:
- Se estou a falar sério!? Essa é forte! Pois eu havia de gracejar sobre
um caso de excomunhão, minha senhora? Pergunte aí ao senhor cônego se
eu estou a gracejar!
Todos os olhos se voltaram para o cônego, essa inesgotável fonte de
saber eclesiástico.
Ele então, tomando logo o ar pedagógico que lhe voltava dos
seus antigos hábitos do seminário sempre que se tratava de doutrina,
declarou que o colega Natário tinha razão. Quem espanca um sacerdote,
sabendo que é um sacerdote, está ipso facto excomungado. É doutrina
assente. É o que se chama a excomunhão latente; não necessita a
declaração do pontífice ou do bispo, nem o cerimonial, para ser válida, e
para que todos os fiéis considerem o ofensor como excomungado. Devemno
tratar portanto como tal... Evitá-lo a ele, e ao que lhe pertence... E este
caso de pôr mãos sacrílegas num sacerdote era tão especial, continuava o
cônego num tom profundo, que a bula do papa Martinho V, limitando os
casos de excomunhão tácita, conserva-a todavia para o que maltrata um
sacerdote... - Citou ainda mais bulas, as constituições de Inocêncio IX e de
Alexandre VII, a Constituição Apostólica, outras legislações temerosas;
rosnou latins, aterrou as senhoras.
- Esta é a doutrina, concluiu dizendo; mas a mim parece-me
melhor não se fazer disso espalhafato...
D. Josefa Dias acudiu logo:
- Mas nós é que não podemos arriscar a nossa alma a encontrar aqui por
cima das mesas coisas excomungadas.
- É destruir! exclamou D. Maria da Assunção. É queimar, é queimar!
D. Joaquina Gansoso arrastara Amélia para o vão da janela, perguntandolhe
se tinha outros objetos pertencentes ao homem. Amélia, atarantada,
confessou que tinhas algures, não sabia onde, um lenço, uma
luva desirmanada, e uma cigarreira de palhinha.
- É para o fogo, é para o fogo! gritava a Gansoso excitada.
A sala vibrava agora com a gralhada das senhoras, arrebatadas
num furor santo. D. Josefa Dias, D. Maria da Assunção falavam com gozo
do fogo, enchendo a boca com a palavra, numa delícia inquisitorial de
exterminação devota. Amélia e a Gansoso, no quarto, rebuscavam pelas
gavetas, por entre a roupa branca, as fitas e as calcinhas, à caça dos
"objetos excomungados". E a S. Joaneira assistia, atônita e assustada,
àquele alarido de auto-de-fé que atravessava bruscamente a sua pacata,
refugiada ao pé do cônego, que depois de ter rosnado algumas palavras
199
sobre "a Inquisição em casas particulares", se enterrara comodamente na
poltrona.
- É para lhes fazer sentir que se não perde impunemente o respeito à
batina, dizia Natário baixo a Amaro.
O pároco assentiu, com um gesto mudo de cabeça, contente daquelas
cóleras beatas que eram como a afirmação ruidosa do amor que lhe tinham
as senhoras.
Mas D. Josefa impacientava-se. Agarrara já o Panorama com as
pontas do xale, para evitar o contágio, e gritava para dentro, para o
quarto, onde continuava pelos gavetões uma rebusca furiosa:
- Então apareceu?
- Cá está, cá está!
Era a Gansoso que entrava triunfante com a cigarreira, a velha luva e
o lenço de algodão.
E as senhoras, com alarido, arremeteram para a cozinha. A
mesmas S. Joaneira as seguiu, como boa dona de casa, para fiscalizar a
fogueira.
- Os três padres então, sós, olharam-se - e riram.
- As mulheres têm o diabo no corpo, disse o cônego filosoficamente.
- Não senhor, padre-mestre, não senhor, acudiu logo
Natário fazendo-se sério. Eu rio, porque a coisa, assim vista, parece
patusca. Mas o sentimento é bom. Para a verdadeira devoção ao sacerdócio,
horror à impiedade... enfim o sentimento é excelente.
- O sentimento é excelente, confirmou Amaro, também sério.
O cônego ergueu-se:
- E é que se pilhassem o homem eram capazes de o queimar...
Não lho digo a brincar, que a mana tem fígados para isso... É um
Torquemada de saias...
- Está na verdade, está na verdade, afirmou Natário.
- Eu não resisto a ir ver a execução! exclamou o cônego. Eu
quero ver com os meus olhos!
E os três padres então foram até à porta da cozinha. As senhoras
lá estavam, em pé diante da lareira, batidas da luz violenta da fogueira
que fazia destacar estranhamente as mantas de agasalho de que já se
tinham coberto. A Ruça, de joelhos, soprava esfalfada. Tinham cortado
com o facão a encadernação do Panorama; e as folhas retorcidas e negras,
com um faiscar de fagulhas, voavam pela chaminé nas línguas de fogo
claro. Só a luva de pelica não se consumia. Debalde com as tenazes a
punham no vivo da chama: tisnava, reduzida a um caroço engorolado; mas
não ardia. E z sua resistência aterrava as senhoras.
- É que é da mão direita com que cometeu o desacato! dizia
furiosa D. Maria da Assunção.
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- Bufa-lhe, rapariga, bufa-lhe, aconselhava da porta o cônego
muito divertido.
- O mano faz favor de não troçar com coisas sérias! gritou D. Josefa.
- Oh, mana! A senhora quer saber melhor que um sacerdote como é
que se queima um ímpio? A pretensão não está má! É bufar-lhe, é bufarlhe!
Então, confiadas na ciência do senhor cônego, a Gansoso e D.
Maria da Assunção, acocoradas, bufaram também. As outras olhavam, num
sorriso mudo, o olho brilhante e cruel, no gozo daquela exterminação
grata a Nosso Senhor. O fogo estalava, pulando com uma força galharda,
na glória da sua antiga função de purificador dos pecados. - E por fim
sobre as achas em brasa, nada restou do Panorama, do lenço e da luva do
ímpio.
A essa hora João Eduardo, o ímpio, no seu quarto, sentado aos pés da
cama, soluçava, com a face banhada em lágrimas, pensando em
Amélia, nos bons serões da Rua da Misericórdia, na cidade para onde iria,
na roupa que empenharia e perguntando em vão a si mesmo por que o
tratavam assim, ele que era tão trabalhador, que não queria mal a ninguém,
e que a adorava tanto, a ela.
XV
No domingo seguinte havia missa cantada na Sé, e a S. Joaneira
e Amélia atravessaram a Praça para ir buscar D. Maria da Assunção,
que em dias de mercado e de "populacho" nunca saia só, receosa que lhe
roubassem as jóias ou lhe insultassem a castidade.
Nessa manhã, com efeito, a afluência das freguesias enchia a
Praça: os homens em grupo, atravancando a rua, muito sérios, muito
barbeados, de jaqueta ao ombro; as mulheres aos pares, com uma fortuna
de grilhões e de corações de ouro sobre peitos pejados; nas lojas, os
caixeiros azafamavam-se por trás dos balcões alastrados de lençaria e de
chitas; nas tabernas apinhadas gralhava-se alto; pelo mercado, entre os
sacos de farinha, os montões de louça, os cestos de broa, ia um regatear
sem fim; havia multidão ao pé das tendas onde reluzem os espelhinhos
redondos e trasbordam os molhos de rosários; velhas faziam pregão por trás
dos seus tabuleiros de cavacas; e os pobres, afreguesados à cidade,
choramigavam Padre-Nossos pelas esquinas.
Já senhoras passavam para a missa, todas em sedas, de
rostinho sisudo; e a Arcada estava cheia de cavalheiros, tesos nos seus fatos
de casimira nova, fumando caro, gozando o domingo.
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Amélia foi muito olhada: o filho do recebedor, um atrevido,
disse mesmo alto dum grupo: Ai, que me leva o coração! E as duas
senhoras, apressando-se, dobravam para a Rua do Correio, quando lhes
apareceu o Libaninho de luvas pretas e cravo ao peito. Não as tinha visto
desde "o desacato do Largo da Sé", e rompeu logo em exclamações. Ai,
filhas, que desgosto aquele! O malvado do escrevente! Ele tinha tido tanto
que fazer, que só nessa manhã é que pudera ir ao senhor pároco dar-lhe os
sentimentos; o santinho recebera-o muito bem, estava-se a vestir; ele quis
ver-lhe o braço e felizmente, louvores a Deus, nem uma pisadura... E se
elas vissem, que carnadura tão delicada, que pele tão branca... Uma pelinha
de arcanjo !
- Mas querem vocês saber, filhas? Encontrei-o numa grande aflição!
As duas senhoras assustaram-se. Por quê, Libaninho?
A criada, a Vicência, que havia dias se queixava, tinha ido
nessa madrugada para o hospital com um febrão...
- E ali está o pobre santo sem criada, sem nada! Vejam vocês! Para
hoje bem, que vai jantar com o nosso cônego (também lá estive, ai, que
santo!), mas amanhã, mas depois? Que ele já tem em casa a irmã
da Vicência, a Dionísia... Mas, oh, filhas, a Dionísia! Foi o que eu lhe
disse: a Dionísia pode ser uma santa, mas que reputação!... É que não há
pior em Leiria... Uma perdida que não põe os pés na igreja... Tenho a
certeza que o senhor chantre até havia de reprovar!
As duas senhoras concordaram logo que a Dionísia (mulher que
não cumpria os preceitos, que representara em teatros de curiosos) não
convinha ao senhor pároco...
- Olha, S. Joaneira, disse Libaninho, sabes o que lhe convinha? Eu là
lho disse, lá lhe fiz a proposta. É ferrar-se outra vez em sua casa. Que é
onde está bem, com gente que o acarinha, que lhe trata da roupa, que lhe
sabe os gostos, e onde tudo é virtude! Ele não disse que não, nem que sim.
Mas olha que se lhe podia ler na cara que está a morrer por isso... Tu é que
lhe devias falar S. Joaneirinha!
Amélia fizera-se tão escarlate como a sua gravata de seda da Índia. E
a S. Joaneira disse ambiguamente:
- Falar-lhe, não... Eu nessas coisas sou muito delicada... Bem
compreendes...
- Era como teres um santo de portas adentro, filha! disse com calor o
Libaninho. Lembra-te disso! E era um gosto para todos... Tenho a certeza
que até Nosso Senhor se havia de alegrar... E agora adeus, pequenas, que
vou de fugida. Não vos demoreis, que está a missinha a cair.
As duas senhoras continuaram caladas até casa de D. Maria
da Assunção. Nenhuma queria arriscar primeiro uma palavra sobre
aquela possibilidade tão inesperada, tão grave, do senhor pároco voltar para
202
a Rua da Misericórdia! Foi só quando pararam que a S. Joaneira disse,
ao puxar a campainha:
- Ai, o senhor pároco realmente não pode ter a Dionísia de
portas adentro..,
- Credo, até causa horror!
Foi também a expressão da Sra. D. Maria da Assunção quando
lhe contaram, em cima, a doença da Vicência e a instalação da Dionísia:
causava horror!
- Que eu não a conheço, disse a excelente senhora. E tenho até
vontade de a conhecer. Que me dizem que é dos pés à cabeça uma crosta
de pecado!
A S. Joaneira então falou da "proposta do Libaninho". D. Maria da
Assunção declarou logo com ardor que era uma inspiração de
Nosso Senhor. Que nunca o senhor pároco devia ter saído da Rua da
Misericórdia! Até parece que mal ele se fora embora, Deus retirara a sua
graça da casa... Não houvera senão desgostos - o Comunicado, a dor de
estômago do cônego, a morte da entrevadinha, aquele desgraçado
casamento (que estivera por um triz, que horror!), o escândalo do Largo da
Sé... A casa tinha parecido enguiçada!... E era até pecado deixar viver o
santinho naquele desarranjo, com a suja da Vicência, que nem lhe sabia dar
uma passagem nas meias!
- Em parte nenhuma pode estar melhor que em tua casa... Tem tudo o
que necessita, de portas adentro... E para ti é uma honra, é estar em graça.
Olha, filha, se eu não fosse só, sempre o digo, quem o hospedava era eu!
Que aqui é que ele estava bem... Que salinha para ele, hem?
Riam-se-lhe os olhos, contemplando em redor as suas preciosidades.
A sala com efeito era toda ela uma imensa armazenagem de
santaria e de bric-à-brac devoto; sobre as duas cômodas de pau-preto com
fechaduras de cobre apinhavam-se, sobre redomas, em peanhas, as Nossas
Senhoras vestidas de seda azul, os Meninos Jesus frisados com o
ventrezinho gordo e a mão abençoadora, os Santos Antônios no seu burel,
os S. Sebastiões bem frechados, os S. Josés barbudos. Havia santos
exóticos, que eram o seu orgulho, que lhe fabricavam em Alcobaça - S.
Pascoal Bailão, S. Didàcio, S. Crisolo, S. Gorislano... Depois eram os
bentinhos, os rosários de metal e de caroços de azeitonas, contas de cores,
rendas amarelas de antigas alvas, corações de vidro escarlate, almofadinhas
com J. M, entrelaçados a miçanga, ramos bentos, palmas de mártires,
cartuchinhos de incenso. As paredes desapareciam forradas de estampas de
Virgens de todas as devoções, - equilibradas sobre o orbe, enrodilhadas aos
pés da cruz, traspassadas de espadas. Corações de onde gotejava sangue,
corações de onde saia uma fogueira, corações de onde dardejavam raios;
orações encaixilhadas para as festas particularmente amadas - o Casamento
203
de Nossa Senhora, a Invenção da Santa Cruz, os Estigmas de S. Francisco,
sobretudo o Parto da Santa Virgem, a mais devota, que vem pelas quatro
têmporas. Sobre as mesas lamparinas acesas, para serem colocadas sem
demora aos santos especiais, quando a boa senhora tivesse a sua ciática, ou
que o catarro se assanhasse, ou lhe viessem as cãibras. Ela mesma, só ela,
arrumava, espanejava, lustrava toda aquela santa população celeste, aquele
arsenal beato, que era apenas suficiente para a salvação da sua alma e o
alívio dos seus achaques. O seu grande cuidado era a colocação dos santos;
alterava-a constantemente, porque às vezes, por exemplo, sentia que Santo
Eleutério não gostava de estar ao pé de S. Justino, e ia então pendurá-lo a
distância, numa companhia mais simpática ao santo. E distinguia-os
(segundo os preceitos do ritual que o confessor lhe explicava), dando-lhes
uma devoção graduada, e não tendo por S. José de segunda classe o
respeito que sentia por S. José de primeira classe. Aquela riqueza era a
inveja das amigas, a edificação dos curiosos, e fazia sempre dizer ao
Libaninho quando a vinha visitar, abrangendo a sala num olhar langoroso: -
Ai, filha, é o reininho dos Céus!
- Não é verdade, continuava a excelente senhora radiante, que
ele aqui é que estava bem, o santinho do pároco? É como ter o Céu
debaixo da mão!
As duas senhoras concordaram. Ela podia ter a sua casa
arranjada com devoção, ela que era rica...
- Não o nego, tenho aqui empregadinhos alguns centos de milréis.
Sem contar o que está no relicário...
Ah, o famoso relicário de sândalo forrado de cetim! Tinha lá
uma lascazinha da verdadeira Cruz, um bocado quebrado do espinho da
Coroa, um farrapinho do cueiro do Menino Jesus. E murmurava-se com
azedume, entre as devotas, que coisas tão preciosas, de origem divina,
deviam estar no sacrário da Sé. D. Maria da Assunção temendo que o
senhor chantre soubesse daquele tesouro seráfico, só o mostrava às íntimas,
misteriosamente. E o santo sacerdote, Que lho obtivera, fizera-a jurar sobre
o Evangelho de não revelar a procedência "para evitar falatórios".
A S. Joaneira, como sempre, admirou sobretudo o farrapinho
do cueiro.
- Que relíquia, que relíquia! murmurava.
E D. Maria da Assunção muito baixo:
- Não há melhor. Trinta mil-réis me custou... Mas dava sessenta, mas
dava cem! mas dava tudo! - E babando-se toda, diante do
trapinho precioso: - O cueirinho! dizia Quase a chorar. Meu rico Menino, o
seu cueirinho...
Deu-lhe um beijo muito repenicado, e foi fechar o relicário no
gavetão.
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Mas o meio-dia ia bater - e as três senhoras apressaram-se para a Sé,
para pilhar lugar no altar-mor.
Já no largo encontraram D. Josefa Dias, que se precipitava para
a igreja, sôfrega da missa, com o mantelete descaído sobre o ombro e
uma pluma do chapéu a despregar-se. Tinha estado toda a manhã num
frenesi com a criada! Fora necessário fazer ela todos os preparos para o
jantar... Ai, tinha medo que nem a missinha lhe desse virtude, de nervosa
que estava...
- Que temos lá o senhor pároco hoje... Vocês sabem que adoeceu a
criada... Ah, já me esquecia, o mano quer que tu lá vás jantar
também, Amélia. Diz Que é para haverem duas damas e dois cavalheiros...
Amélia riu de alegria.
- E tu vai depois buscá-la, S. Joaneira, à noitinha... Credo, vesti- me
tanto à pressa, que até parece que me está a cair o saiote!
Quando as Quatro senhoras entraram, a igreja estava já cheia.
Era uma missa cantada ao Santíssimo. E apesar de contrário ao rigor do
ritual, por um costume diocesano (Que o bom Silvério, muito estrito na
liturgia, nunca cessava de reprovar) havia, estando presente a Eucaristia,
música de rabeca, violoncelo e flauta. O altar, muito ornado, com as
relíquias expostas, destacava numa alvura festiva; dossel, frontal,
paramentos dos missas eram brancos, com relevos de ouro desmaiado; nos
vasos erguiam- se ramos piramidais de flores e folhagens brancas; os
veludilhos decorativos, dispostos como velários, punham dos dois lados do
tabernáculo a brancura de duas vastas asas desdobradas, lembrando a
Pomba Espiritual; e os vinte castiçais erguiam a suas chamas amarelas em
trono até ao sacrário aberto, que mostrava de alto, engastada num rebrilhar
de ouros vivos, a hóstia redonda e baça. Por toda a igreja apinhada corria
uma sussurração lenta; aqui e além um catarro expectorava, uma criança
choramingava; o ar adensava-se já dos hálitos juntos e de um cheiro de
incenso; e do coro, onde as figuras dos músicos se moviam por trás dos
braços dos rabecões e das estantes, vinha a cada momento um afinar
gemido de rabeca, ou um pio de flautim. As quatro amigas tinham-se
apenas acomodado junto ao altar-mor, quando os dois acólitos, um teso
como um pinheiro, o outro gordalhufo e enxovalhado, entraram do lado da
sacristia, sustentando alto e direito nas mãos os dois castiçais consagrados;
atrás o Pimenta vesgo, com uma sobrepeliz muito vasta para ele, lançando
os seus sapatões em passadas pomposas, trazia o incensador de prata;
depois sucessivamente, durante o rumor do ajoelhar pela nave e do folhear
dós livrinhos, apareceram os dois diáconos; e enfim, paramentado de
branco, de olhos baixos e mãos postas, com aquele recolhimento humilde
que pede o ritual e que exprime a mansidão de Jesus marchando ao
205
Calvário, entrou o padre Amaro - ainda vermelho da questão furiosa que
tivera na sacristia, antes de se revestir, por causa da lavagem das alvas.
E o coro imediatamente atacou o Intróito.
···
Amélia passou a sua missa embevecida, pasmada para o pároco - que
era, como dizia o cônego, "um grande artista para missas cantadas"; todo o
cabido, todas as senhoras o reconheciam. Que dignidade, que
cavalheirismo nas saudações cerimoniosas aos diáconos! Como se
prostrava bem diante do altar, aniquilado e escravizado, sentindo-se cinza,
sentindo-se pó diante de Deus, que assiste de perto, cercado da sua corte e
da sua família celeste! Mas era sobretudo admirável nas bênçãos; passava
devagar as mãos sobre o altar como para apanhar, recolher a graça que ali
caía do Cristo presente, e atirava-a depois com um gesto largo de caridade
por toda a nave, por sobre o estendal de lenços brancos de cabeça, até ao
fundo onde os homens do campo muito apertados, de varapau na mão,
pasmavam para a cintilação do sacrário! Era então que Amélia o amava
mais, pensando que aquelas mãos abençoadoras lhas apertava ela core
paixão por baixo da mesa do quino: aquela voz, com que ele lhe chamava
filhinha, recitava agora as orações inefáveis, e parecia-lhe melhor que o
gemer das rabecas, revolvia-a mais que os graves do órgão! Imaginava com
orgulho que todas as senhoras decerto o admiravam também; mas só tinha
ciúmes, um ciúme de devota que sente os encantos do Céu, quando ele
ficava diante do altar, na posição estática que manda o ritual, tão imóvel
como se a su