Logo depois da partida do cadáver, Maria Barbara e Ana Rosa desceram do sitio, em um
carro que se mandou buscar; foram diretamente para o Largo das Mercês. Manuel e
Raimundo vieram de bonde e seguiram para casa. Mas o rapaz, apesar de fatigado, não
conseguiu repousar. Precisava de ar livre. Mudou de roupa e tomou a sair.
Passava já de meia-noite. A cidade tinha o caráter especial das vésperas de São João:
viam-se restos de fogueiras fulgurando ao longe, em diversos pontos, de quando em quando
ouviam-se estalos destacados. Raimundo tomou a direção das Mercês. “Seria crível, pensava
pelo caminho, que estivesse deveras enfeitiçado por sua prima?... ou seria tudo aquilo uma
dessas impressões passageiras, que nos produz em dias de bom humor um rosto bonito de
moça?... Verdade era que nunca se sentira tão preocupado por outra mulher.”
— Em todo o caso, concluiu ele, convém dar tempo ao tempo!... Nada de precipitações!
Assim raciocinando, no antegosto do seu casamento provável com Ana Rosa, chegou à
casa das Sarmentos.
Nessa ocasião reuniram-se aí as velhas amizades da defunta, prevenidas logo do triste
acontecimento pelos empregados de Manuel. O enterro seria no dia seguinte à tarde. Os
conhecidos do comercio mandaram lá os seus caixeiros para ajudarem a encher as cartas de
convite e fazerem quarto. Chamou-se logo um armador, para preparar a casa, conforme o uso
da província; falou-se a um desenhista para fazer o retrato do cadáver - tomou-se medida e
encomendou-se o caixão; discutiu-se a vestimenta que devia levar Maria do Carmo, e
resolveu-se que seria a de Nossa Senhora da Conceição, por ser a mais bonita e vistosa.
Amância ofereceu-se prontamente para talhar a roupa. “Que não valia a pena encomendá-la
ao armador, sobre vir malfeita e mal cosida, sairia por um dinheirão!”
— Não sei! dizia ela. Todas estas coisas pra enterro custam sempre quatro vezes mais do
que podem valer! É uma ladroeira descarada! Por isso enriquecem tão depressa os armadores!
diabo dos gatunos!
Desta vez a velha tinha razão.
Mandaram comprar cetim cor-de-rosa, azul e branco, sapatinhos de baile, escumilha e filó
para o véu, que seria franjado de ouro. Uns teimavam que a morta devia levar um ramalhete
de cravos na mão, outros negavam, considerando, nem só a idade da defunta, como o seu
estado de viúva.
E choviam exemplos de parte a parte:
— Outro dia D. Pulquéria das Dores apesar dos seus sessenta anos, levou na mão um
enorme ramo de rosas vermelhas! E demais, era casada.
— E o que tem isso?! D. Chiquinha Vasconcelos foi de caixão aberto, porém não levava
ramalhete, e, até digo-lhe mais, nem palma nem capela! no entanto era solteira e tinha a
metade da idade de D. Maria do Carmo.
— Mas ia com as faces pintadas de carmim, que é muito pior! Ora aí está!... Além disso,
dizia-se da Chiquinha o que todos nós sabemos. Deus me perdoe!
Uma mulata obesa cortou o nó górdio da questão, declarando que o ramalhete bem podia
ir escondido por debaixo do hábito. Todos concordaram logo.
Deu Uma hora. Vários caixeiros retiraram-se já com um maço de cartas, que entregariam
pela manhã; algumas famílias, vestidas de preto, despediam-se com beijos, pedindo desculpa
por não ficarem ate à hora do enterro. O armador martelava na sala. A noite cala no silêncio
ouvia-se um ou outro busca-pé retardado. Na n a, grupos pândegos passavam em troça para o
banho de São João do Alto da Carneira vinha um sussurro longínquo de “bumba-meu-boi”.
Cantavam os primeiros galos; cães uivavam distante, prolongadamente; no céu azul e
tranqüilo uma talhada de lua, triste sonolenta mostrava-se como por honra da firma, e,
todavia, um homem, de escada ao ombro, ia apagando os lampiões da rua.
Raimundo parara um instante olhando o mar, defronte da casa das Sarmentos. À porta de
entrada havia um grande reposteiro de veludo negro, com uma cruz de galões amarelos. Ele
considerou o prédio: era um casarão velho, um desses antigos sobrados do Maranhão, que já
se vão fazendo raros. Cinqüenta palmos de alto e outros tantos de largo, barra pintada de
piche, mostrando a caliça em vários pontos, cinco janelas de peitoril, enfileiradas sobre quatro
portas lisas, com um portão entre elas, pesado, batente de cantaria; cheirando tudo a
construção dos tempos coloniais, quando a pedra e a madeira de lei estavam ali a dois passos
e se levantavam, em terrenos aforados, paredes de uma braça de grossura e degrau de pau
santo.
Entrou. O corredor transpirava um caráter sepulcral. Subia-se uma escada feia,
acompanhada de um corrimão negro e lustrado pelo uso; nas paredes, via-se, à insuficiente
claridade de uma lanterna suja, o sinal gorduroso das mãos dos escravos, e no teto havia
lugares encarvoados de fumaça.
A escada era dividida em dois lances, dispostos em sentido contrário um do outro;
Raimundo chegou ao fim do primeiro lance sufocado e galgou o segundo de carreira, dando
aos diabos o maldito costume de fechar toda a casa, quando ela mais precisa de ar porque tem
dentro um cadáver. Numa das salas da frente, forrada então pelo tapete do armador, tapete
velho e, tão crivado de pingos de cera, que o pé escorregava nele, estava um grande tabuleiro
de paparaúba, cheio de tochas e enormes castiçais de madeira e folha-de-flandres, pintados de
amarelo. Em uma das quatro paredes, cobertas de alto a baixo de veludo preto e orladas de
galões de ouro destacava-se um altar, ainda não aceso, todo estrelado de lantejoulas;
carregado de adornos, com uma toalha de rendas no centro, sobre a qual pousavam dois
castiçais de latão, pintalgados pelas moscas, tendo entre eles um crucifixo do mesmo metal,
extremamente azinhavrado. Defronte estava a essa, enfeitada de acordo com o resto, à espera
do caixão, que aquelas horas se reparava em casa do Manuel Serigueiro.
Empoleirado numa escada e de martelo em punho um homem, em mangas de camisa,
pregava sobre as portas bambinelas bordadas.
— A que horas e o enterro? perguntou-lhe Raimundo.
— Às quatro e meia, disse o armador, sem voltar o rosto.
Da varanda vinha um murmúrio de vozes. Raimundo seguiu para lá.
Varanda larga e alta caiada, toda aberta para o quintal; telha vã, mostrando os caibros
irregulares, donde pendiam melancólicas teias de aranha. Num dos cantos um banco de pau
roxo, muito escuro, sustentando, em buracos redondos, dois grandes potes bojudos de barro
vermelho; sobre o parapeito da varanda, uma fila de quartinhas também de barro, esfriavam
água. Aberto na parede um imenso armário tosco, e logo ao pé um alçapão nosoalho,
resguardado por uma grade, com a cancela despejada sobre uma escada tenebrosa.
Encostado à grade - um sujeito gordo, sem bigode, de óculos e barba debaixo do queixo,
dizia a outro do mesmo feitio, batendo com o pé nas largas tábuas do chão.
Hoje ninguém mais pilha deste madeiramento! Repare! E tudo pau-d'arco, pau-santo,
pau-cetim, bacuri, jacarandá e pequi! Madeiras que valem o ferro e que nem o machado pode
com elas!
Em volta de uma mesa, dez homens, a título de fazer quarto à defunta, jogavam cartas,
conversando em voz discreta repetindo xícaras de café e cálices de conhaque, entre pilhérias
segredadas, risos abafados e o fumo espesso dos cigarros.
Quando Raimundo entrou, confidenciava um deles ao vizinho:
— Já não sou homem para estas coisas!... Não posso perder uma noite!... Por mais que
beba café, sinto sono!... Porém não podia deixar de vir, era uma ocasião de encontrar-me com
a pequena... Não tenho entrada na casa dela...
E bocejava.
— Conhecias esta velha que morreu? interrogou-lhe o outro.
— Não. Creio que a encontrei uma vez em casa do Manuel Pescada... Já estive a olhá-la -
é horrível!
— Pois aqui onde me vês, estou furioso! O patrão mandou-me para cá, mas com poucas
arribo! Tenho um pagode no Cutim e não o perco!
— Também porque a velha não escolheu melhor dia pra morrer!...
— Logo na véspera de São João! Que espiga!
E bocejavam ambos.
— Quem é este tipo? perguntou um dos jogadores, vendo entrar Raimundo. Corte com o
três de espadas!
— É um tal Raimundo... um sujeito que o Pescada tem em casa por compaixão.
— O que faz ele? - Dama!
— Diz que é doutor. - É meu!
— Não parece mau rapaz...
— Fia-te!
— Já te pregou alguma hein? conta-nos isso!
—Não te digo mais nada... Fia-te na Virgem e não corras!...
Fizeram uma pausa, em que se ouvia atirar cartas à mesa, com uma pancada de dedos no
tapete.
— Mas do que vive ele? perguntou o curioso que se informava de Raimundo. - Venha o
ás!
— Ora do que vive!... Você não tem copas?... Pergunte a toda essa gente sem emprego, de
quem oficialmente se de “vive de agências” e ficarás sabendo.
— Ganhei!
— Mas o que é ele do Manuel?
— Diz que primo... respondeu o outro, baralhando as cartas.
—Ah!...
— Dê cartas.
Raimundo cumprimentou-os e perguntou pela família da defunta.
Estava fazendo quarto. Que entrasse por ali, responderam-lhe, indicando uma porta.
Logo que o rapaz deu as costas, o maledicente levantou o braço e fez-lhe uma ação feia.
— Gosto muito destes tipos, acrescentou, então em voz alta, para o grupo inteiro, depois
de um silêncio, todos eles são uma coisa lá por fora “Porque eu fiz! e porque eu aconteci!
Porque isto é uma aldeia! É um chiqueiro!” E no entanto metem-se no chiqueiro e daqui não
saem!...
— Meu amigo, neo há Maranhão como este!...
— Mas dizem que este cabra tem alguma coisa... arriscou um terceiro.
— Qual nada!... Você ainda come araras! Todos eles dizem ter mundos e fundos!... Gosto
deste Maranhãozinho, porque não perdoa os tipos que vêm pra cá com pomadas!... O sujeito
aqui, que se quiser fazer mais sabichão do que os outros, há de levar na cuia dos quiabos, para
não ser pedante! Diabo dos burros! Se sabe muita coisa guarde pra si a sabedoria, que
ninguém por cá precisa dela, nem lha pediu! E não se meta a escrevinhar livrinhos e artigos
para os jornais, que isso é ridículo!... Lá o meu patrão é quem sabe haver-se com esses
espoletas! Ainda há pouco tempo ele precisou ai não sei de que pape! - para o sobrinho que
tinha chegado do Porto - e vai - pede a um doutorzinho, muito nosso conhecido, que lhe
arranjasse a história... Pois o que pensam vocês que respondeu o tal bisca ao patrão?...
Não sabiam.
— Pois mandou-o plantar batatas! Chamou-o de toleirão! “Que o que ele queria, era um
absurdo!”
— Sim, hein?...
— Com estas palavras!... Estou lhe dizendo!... Ah, meu amigo mas também o patrão
pregou-lhe uma de respeito!... Você sabe que o Lopes, em questões de capricho, não se
importa de gastar dois vinténs...
— Sim, como naquela história da comenda...
— Bom. Pois ele foi ai a um outro tipo e encomendou-lhe uma dessas descomposturas de
criar bicho!
— E então?
— Ora! Se bem o patrão o disse, melhor o tipo o faz... Ora, espera! Como era mesmo o
nome da coisa?... Era... Estou com o diabo na ponta da língua... Ah! Era um anônimo!
— Ah! Um anônimo!
— Uma descomponenga, que pôs o tal doutorzinho de borra mais raso que o chão!
— Ah! Isso foi com o Melinho!... : - Foi. Você leu, hein?
— Ora, mas aquilo do Lopes foi demais. Desacreditou o pobre moço!...
— Não sei! Bem feito!
— E, segundo me consta, nem tudo era verdade no tal anônimo!
— Não sei!... o caso é que esfregou o tipo!
— Sim, mas o que não se pode negar é que o Melinho é um rapaz inteligente e honesto a
toda a prova!...
— Que lhe faça muito bom proveito! Coma agora da sua inteligência e beba da sua
honestidade! Meu menino, deixemo-nos de patacoadas! O tempo hoje é de cobre! Honesto e
inteligente é isto!...
E com os dedos fazia sinal de dinheiro.
— Tenha eu o jimbo seguro acrescentou, e bem que me importa a boca do mundo! E
senão—olhe ai para a nossa sociedade!...
E citava nomes muito conhecidos, contava histórias medonhas de contrabandos de grande
ladroeiras de notas falsas, do diabo!
— Sim! sim isso é velho mas que fim levou o Melinho?
— Sei cá! muscou-se para o Sul! Que o leve o diabo!
— Pois olhe, gosto daquele moço!...
— Não lhe gabo o gosto!
Raimundo, depois de atravessar um quarto espaçoso, penetrou na sala de visitas e
achou-se defronte de uma roda de senhoras de todas as idades, na maior parte vestidas de luto,
e que, assentadas, fitavam, de cabeça à banda com o olhar cansado e sonolento, o corpo
inanimado de Maria do Carmo. Numa rede a um canto, soluçava Etelvina, escondendo a
cabeça entre travesseiros; ao lado, uma mulata gorda e enfeitada de ouro - sala de chamalote
preto e toalha de rendas sobre os omros - dizia maquinalmente as frases da consolação.
Assentada no sobrado sobre uma esteira. Amância talhava o hábito de Nossa Senhora da
Conceição, com que a defunta devia ir vestida à fantasia para a sepultura, como se fosse para
um baile de máscaras. Nas paredes, os retratos de família estavam cobertos por um vasto
crepe; o do tenente Espigão horrorosamente pintado a óleo, com um colorido cru, tinha
através do véu, um sorriso duro de beiços vermelhos. No meio da sala, em um sofá de gosto
antigo com encosto de palhinha envernizada, decompunha-se o cadáver da velha Sarmento;
tinha o rosto coberto por um lenço de labirinto encharcado de água-flórida; as mãos cruzadas
sobre o peito e amarradas à força por uma fita de seda azul; as pernas esticadas o cabelo muito
puxado para trás, bem penteado, o corpo todo se mirrando hirto um pouco empenado na
tensão dos músculos. Em cima do ventre opado um prato cheio de sal.
À cabeceira do canapé numa mesinha coberta de rendas, um Cristo colorido, de braços
abertos pendia da cruz, e duas velas de cera derretiam-se no lugar do bom e do mau ladrão.
Logo junto, uma vasilha de água benta com um galinho de alecrim; mais para a frente, uma
Nossa Senhora pequenina, de barro pintado.
Ouviam-se soluços discretos e o crepitar seco das velas.
Raimundo aproximou-se do cadáver e, por mera curiosidade descobriu-lhe o rosto—
estava lívido, com os raros dentes à mostra, os olhos mal fechados mostrando um branco
baço, cor de sebo; dos queixos subia-lhe ao alto da cabeça um lenço, amarrado para segurar o
queixo. Principiava a cheirar mal.
Então, apareceu na sala uma negrinha com uma bandeja de xícaras de café.
Serviram-se.
Raimundo foi levar uma chávena a Ana Rosa, que se achava entre as senhoras.
— Obrigada, disse ela, chorosa, eu já tomei ainda agorinha mesmo.
De vez em quando ouvia -se um suspiro estalado e o froon nasal das moças que assoavam
as lágrimas. Um grupo de mulheres, de saia e camisa, conversava soturnamente sobre as boas
qualidades e as virtudes da defunta. Tinham a voz medrosa de quem receia acordar alguém ou
ser ouvido pelo objeto de conversação.
— Era pra um tudo!... afirmava uma delas, compungida. Devo-lhas muitas!... que lhas hei
de pagar com padre-nossos! Inda s'tr'oudia, quando me atacou a pneumonia na pequena, com
quem foi que me achei?!... Pois olhe que os doutores de carta não lhe souberam dar voltas! E
hoje, minha rica?... Ela está aí fina e lampeira, que faz gosto, ao passo que a pobre da senhora
D. Maria do Carmo... Deus me perdoe, até parece feitiçaria! - E apontou para o cadáver com
um gesto desconsolado. - Ao menos descansou, coitada!
— Não semos nada neste mundo!... suspirou, com a mão no queixo, uma mulherinha
magra e pisca-pisca, que ate então se conservara numa imobilidade enternecida.
E contou a história de uma sua camarada, que, havia trinta anos, morreu na flor da idade.
Este caso puxou outros. Foi um cordão de anedotas fúnebres. A mulata obesa fechou a
rosca, narrando, muito sentida, a história de um papagaio de grande estimação, que ela
possuía, e que, um belo dia, cantando, coitado! a “Maria Cachucha”, caíra para três - morto!
— Credo! exclamou Amância. E, voltando-se para a mulata, com os óculos na ponta do
nariz.
— Nhá Maria! esta espiguilha é toda para o véu, ou tem de se tirar daqui também os
laçarotes?...
Depois do enterro, quando Maria Barbara, de volta a casa entrou no seu quarto, dera logo
com a vela de cera gasta até o fim e com a singular mascara do seu milagroso São Raimundo;
ficou aterrada, sem saber o que pensar, e, na sua cegueira supersticiosa, atirou-se de joelhos
defronte do oratório e pôs-se a rezar fervurosamente.
Nessa noite, apesar da canseira em que vinha, neo pode dormir senão pesa volta da
madrugada; e, à força de meditar o caso, acabou por enxergar nele um milagre. Sim, um
milagre, justamente como o explicam os catecismos que se dão na escola e como a sua própria
mestra lhe ensinara—um mistério incompreensível. “Não havia que duvidar - Deus Nosso
Senhor servira-se daquele engenhoso ardil] para preveni-la de presentes e futuras
calamidades!...”
Entretanto, só ao cônego se animou de confiar o fato, e até lhe pediu segredo, que, se o
genro viesse a conhecê-lo, havia de sair-se com alguma das suas. Já lhe estava a ouvir
resmungar com o seu insuportável risinho de homem sem fé “Pomadas de minha sogra!...”
Além disso, se São Raimundo quisesse tomar público o seu sagrado aviso, não usaria dos
meios que empregou!...
— Agora, o que está entrando pelos olhos, senhor cônego, é que aquele maldito cabra do
Mundico tem parte nisto! Deus queira que eu me engane, porém a coisa toca-lhe a ele por
casa!
— Pode ser, pode ser... Davus sum non Edipus!...
— E o que devo fazer?...
— Ofereça uma missa a São Raimundo. Cantada, não seria mau... Uma missinha cantada!
Ficaram nisto; mas a velha não podia tranqüilizar-se assim só: afigurava-se-lhe que, em
tomo dela, grandes transformações se operavam. Verdade é que a morte de Maria do Carmo
como que viera perturbar o ramerrão daquela panelinha de Manuel Pescada. Uma semana
depois do passamento, chegara de Alcântara um irmão da defunta, e em seguida à missa do
sétimo dia, carregou consigo as duas ]inconsoláveis sobrinhas. Etelvina, embrulhada no seu
vestido preto, de lã, encarecera o costume de dar suspiros; Bibina, com grande abnegação,
ocultara o cabelo numa coifa de retrós. D. Amância Sousellas, para carpir mais à vontade a
perda da amiga, fora passar algumas semanas no recolhimento de Nossa Senhora da
Anunciação e Remédios, ao calor confortável das rezas e do caldo forro do refeitório.
Eufrasinha, percebendo frieza em Ana Rosa, dera-se por magoada e não lhe aparecia. “Que,
de algum tempo àquela parte, notava-lhe certo aninho de constrangimento e fastio, bem
aborrecido! A Anica já não era a mesma! Não sabia quem lhe pisara o cachorrinho; tinha
plena convicção de estar sendo intrigada por alguma insoneira, mas também tinha alma
grande e deixava correr o barco pra Caxias!” A repolhuda Lindoca igualmente se retraira, mas
esta, coitada! por desgosto das suas banhas; já não queria aparecer a pessoa alguma, de
vergonha. Entrara, por conselho do pai, a dar longos passeios de madrugada, enquanto
houvesse pouca gente na rua, para ver se lhe descaiam as enxúndias, mas qual! a enchente de
gordura continuava bolear-lhe cada vez mais os membros. A pobre moça já não tinha feitio;
quando sala era obrigada a descansar de vez em quando, provocando olhares de admiração,
que a irrintavam; já não podia usar botinas, ficara condenada ao sapato de pano, raso, quase
redondo; as suas mãos perderam o direito de tocar nos seus quadris; trazia os braços sempre
abertos; o pescoço apresentava roscas assustadoras; os olhos, o nariz e a boca ameaçavam
desaparecer afogados nas bochechas Entretanto, afeiçoava-se pela linha reta, tinha predileções
por tudo que era seco e escorrido, olhava com inveja para as magricelas. Freitas gastava os
lazeres a conltar tratados de medicina, a ver se descobria remédio contra aquele mal, o bom
homem maçava-se; as cadeiras de sua casa estavam todas desconjuntadas: “Daquele modo,
não lhe chegaria o ordenado só para mobilia” e, como homem fino mandou fazer uma cadeira
especial para Lindoca, com parafusos fortes, de madeira de lei. Viviam ambos tristes.
E tudo isto, todo esse desgosto surdo que minava na panelinha, era atirado por Maria
Bárbara à conta de Raimundo. Queixava-se dele a todos, amargamente; dizia que, depois da
chegada de semelhante criatura, a casa parecia amaldiçoada “Tudo agora lhe saia torto!”
Chegou a pedir ao cônego que lhe benzesse o quarto e juntou à promessa da missa mais a de
dez libras de cera virgem, que mandaria entregar ao cura da Sé no dia em que o cabra se
pusesse ao fresco.
Mas, pouco depois, a sogra de Manuel chamou o padre em particular, e disse-lhe radiante
de vitória:
— Sabe? Já descobri tudo!
— Tudo, o quê?
— O motivo de todas as desgraças, que nos têm acontecido ultimamente.
— E qual é?
— O cabra é “bode!...”
— Bode?! Como?
Maria Bárbara chegou a boca ao ouvido de Diogo e segredou-lhe horripilada:
— E maçom!
— Ora o que me conta a senhora!... exclamou Diogo, fingindo uma grande indignação.
— E o que lhe digo, senhor cônego! O cabra é bode!
— Mas isso é sério?... Como veio a senhora a saber?...
— Se é sério... Veja isto!
E, cheia de repugnância e trejeitos misteriosos sacou da algibeira da saia o folhetinho de
capa verde, que Dias subtraira da gaveta de Raimundo.
— Veja esta bruxaria, reverendo! Veja, e diga ao depois se o danado tem ou não parte
com o cão tinhosos! Pois se eu cá senta um palpite!...
E apontava horrorizada para a brochura, em cujo frontipício havia desenhado um xadrez,
duas colunas amparando dois globos terrestres e outros emblemas. O cônego apoderou-se do
folheto e leu na primeira página “Lenda maçônica ou condutor das lojas regulares, segundo o
rito francês reformado.
— Sim senhora! tem toda a razão! Cá estão os três pontinhos da patifaria!... patifaria!...
E leu na introdução da obra, possuindo-se de uma raiva de partido: “Maçons,
penetremo-nos da nossa dignidade! A retidão de nossos votos, a união de nossos trabalhos, e a
harmonia de nossos corações, alimentem sem cessar o fogo sagrado, cuja claridade
resplandecente ilumina o interior de nossos templos!”
— Sim senhora! Tem mais essa prenda... resmungou, entregando o folheto à velha; além
de cabra, é bode!
E sem transição, duro:
— É preciso pôr esse homem fora de cá!
— E quanto antes!...
— O compadre está aí?
— Creio que sim, no armazém.
— Pois vou convencê-lo. Até logo.
— Veja se consegue, reverendo! Olhe lembra-me até que seria melhor desistir de tal
compra da fazenda... Esta gente, quando nãotisna suja! Não imagina a arrelia que me faz vê-lo
todo o santo dia 1a mesa de janta ao lado de minha neta!... Também nunca esperei esta de
meu genro! É preciso pôr o homem pra fora! Isto não tem jeito! As Limas já falaram muito;
disse a Brígida que na quitanda do Zé Xorro lhe perguntaram se era certo que ele estava para
casar com Anica... Ora isto não se atura! Cada um que ponha o caso em si!... Pois então
aquele não-sei-que-diga precisa que lhe gritem aos ouvidos qual é o seu lugar?... No fim de
contas quantos somos nós?!... Nada! Nada! é precioso pôr cobro a semelhante coisa. Fale a
meu genro, senhor cônego fale-lhe com franqueza! Olhe pode dizer-lhe até que se ele não
quiser tratar disto, eu m'encarrego de pôr a peste no olho da rua! A porta da nua é a serventia
da casa! Não vê que entre paredes, onde cheira a Mendonça de Melo, se tem aquelas com um
pedaço de negro! Iche cacá!
— Está bom está bom!... Não se arrenegue, Dona Babu! Pode arranjar-se tudo, com a
divina ajuda de Deus!...
E o cônego foi entender-se com o negociante.
— Homem... respondeu Manuel tendo ouvido as razões do compadre, lá de recambiá-lo
para o diabo, convenho! porque enfim sempre é um perigo que um pai de família tem dentro
de casa!... mas essa agora de não negociar a fazenda, é pelo que não estou! Seria asnice de
minha parte! E boa! Pois se o Cancela me escreveu quer entrar em negócio, e eu posso meter
para a algibeira uma comissãozinha menos má, sem empregar capital algum e quase sem
trabalho - hei de agora meter os pés e deixar o pobre rapaz às tontas, em risco até de cair nas
mãos de algum finório!... Porque, venha cá seu compadre, mesmo deitando de parte o
interesse, com quem a não ser comigo podia o Mundico, coitado! haver-se neste negócio?
Também a gente deve olhar p'r'estas coisas!...
Ficou resolvida a viagem para o sábado seguinte.
Raimundo acolheu a noticia com uma satisfação que espantou a todos. “Até que afinal ia
visitar o lugar em que lhe diziam do!...”
— Olhe! disse ele a Manuel, tenho um importante pedido a fazer-lhe...
— Se estiver em minhas mãos...
— Esta...
— Oque é?
— Coisa muito seria... Em viagem para o Rasário conversaremos.
Manuel coçou a nuca.
10
No dia combinado, às seis horas da manhã, acharam-se Manuel e Raimundo a bordo do
vaporzinho Pindaré, pertencente à então Companhia Maranhense de Navegação Costeira.
Fazia um tempo abrasado, muito seco, cheio de luz. A viagem era incômoda, pela
aglomeração dos passageiros, os quais, no dizer sediço de um de bordo, iam “como sardinhas
em tigela”.
Tudo aquilo, no entanto, estava muito melhor... considerava Manuel. Agora já se podia
viajar facilmente pelo interior da província!... Dantes é que a navegação do Itapicuru tinha os
seus quês!...
E passou a narrar circunstanciadamente as dificuldades primitivas da ida ao Rosário.
“Aquela companhia, assim mesmo, viera prestar grandes serviços à província!... Deixasse lã
falar quem falava, o único inconveniente que ele via era a - baldeação no Codó! - Isso sim!
Tinha o que se lhe dizer, e devia acabar quanto antes!”
— Felizmente, concluiu, o Rosário é a primeira estação e não temos de sofrer a maldita
maçada!
Ao anoitecer saltaram na Vila do Rosário, em companhia de um antigo conhecido de
Manuel, ali residente havia um bom par de anos. Em Um portuguesinho de meia-idade,
falador, vivo, brasileiro nos costumes e trigueiro como um caboclo.
— Venha cá pra casa e pela manhãzinha seguirá o seu caminho, oferecia ele ao
negociante. Sempre lhe quero mostrar o meu palácio!
Foi aceito o convite, e os três puseram-se a andar, de mala pendurada na mão.
— Sabe você, ia dizendo o homenzinho, toda aquela baixa que pertencia ao Bento
Moscoso? pois isso fica-me hoje no quintal! Arrecadei a fazenda da viúva por uma tuta e mea
e hoje está produzindo, que é aquilo que você pode ver! O meu projeto é levantar uma
engenhoca aí perto, onde fica o igarapé do Ribas; quero ver se aproveito as baixas para a cana,
percebe?
E dissertava largamente sobre a sua roga, sobre as suas esperanças de prosperidade,
censurando medidas mal tomadas pelos vizinhos; afinal atirou a conversa sobre o Barroso.
Barroso era a fazenda no para onde se dirigiam os outros dois.
— São boas tenras, são! Muito limpas, muito abençoadas! O que foi que levantou o Luís
Cancela? E é verdade! se me neo engano, creio que ele uma ocasião me disse que foi você
quem lhas aforou. Não é isso?
— E exato, respondeu Manuel.
— Ah! são suas?...
— Não! São deste amigo.
E Manuel indicou Raimundo, que nesse momento contratava, com um homem que se
mandou chamar, os cavalos para a viagem no dia seguinte.
— São muito boas terras!... o outro. O Cancela já por várias vezes tem-nas querido
comprar.
— Compra-as agora.
E chegaram a casa.
—A minha gente está toda fora declarou o roceiro. Mas não faz mal, temos ai de sobra
com que passar. Ó Gregório!
— Meu senhô!
Veio logo um preto velho, a quem ele se dirigiu para dar as ordens em voz baixa.
A noite, ao contrário do dia, fizera-se fresca. Depois da cela, cada um se estendeu na sua
rede, preguiçosamente. Raimundo queixava-se de pragas e maruins; Manuel meditava os seus
negócios, toscanejando, e o portuguesinho não dava tréguas à língua: falava daquelas tenras
com um entusiasmo progressivo; contava maravilhas agrícolas; mostrava-se fanático pelo
Rosário. E, no empenho da conversa, arrastado, chegava a mentir, exagerando tudo o que
descrevia.
Raimundo interrompeu-o, para saber se ele conhecia a antiga fazenda São Brás.
— São Brás!...
E o homenzinho levantou-se da rede com um espanto.
— São Brás! Se conheço! E por aqui V.Sª não encontra quem não saiba a história dela!...
O outro ardia de curiosidade.
— Tenha então a bondade de contar-ma, pediu, assentando-se. Como vou andar por essas
bandas...
Manuel adormeceu.
— Pois V.Sª não sabe a história de São Brás?... Valha-o Deus, meu caro senhor, que podia
cair em algum malfarrico; mas eu vou ensinar-lhe a reza que aprendemos com o nosso santo
vigário. Olhe! quando V.Sª topar uma cruz na estrada, apeie e reze, e ao depois siga o seu
caminho por diante, repetindo sempre:
“Por São Brás!
Por São Jesus!
Passo aqui,
Sem levar cruz”
Até avistar as magueiras do Barroso: daí à riba pode seguir descansado, que lá não chega
chamusco!
— Mas por que toma a gente tais precauções?
— Ora ai está onde a porca torce o rabo! E por causa do diabo de uma alma danada, que
empesta essas garagens... Eu conto a V.Sª!
E o homenzinho, engolindo em seco, contou prolixamente que São Brás, ou Ponta do
Fogo, como dantes lhe chamavam, fora noutro tempo lugar de terras boas e férteis, onde se
podia plantar e colher muito, que abençoadas eram elas pelas mãos de Deus. Mas, que uma
vez aparecera por lá o célebre assassino Bernardo, terror do Rosário e sobressalto dos
fazendeiros, e, depois de uma vida errante pelo sertão, roubando e matando, meteu-se na
Ponta do Fogo e ai estourou. E desde então nesse desgraçado lugar nunca mais vingara fruto
que não tivesse ressaibo de veneno, nem medrara planta sem mitinza; as águas deixavam
cinza na boca, a terra, se a gente a colhia na mão, virava-se em salitre, e as flores fediam a
enxofre; mas, quem comesse desses frutos, se deitasse nesse chão, se banhasse nessas águas e
cheirasse aquelas flores, ficava por tal modo enfeitiçado, que não havia meio de arrancá-lo
dali, porque o diabo tinha untado o fruto de mel, e perfumado as flores e amaciado a relva,
para engodar o caminheiro incauto.
— Foi isso, continuou o que sucedeu ao pobre José do Eito, quando se meteu por cá -
enfeitiçou-se! Eu era muito novo nesse tempo, mas bem me lembro de o ter visto tantas vezes,
coitado! todo amarelo, morrinhento e resmungão, que logo se adivinhava que o diabo lhe
pregara alguma! E sempre andou assim!... um dia morreu-lhe a mulher de repente, e ele pouco
depois foi varado por um tiro, que nunca mais ninguém soube donde veio. Daí em diante São
Brás ficou tapera. No lugar em que morreu o José levantou-se Uma cruz, e todos os que
passam por lá rezam por alma do desventurado, até encher certa conta de orações, com que
ela possa descansar!... Enquanto isso não chega, vaga pela tapera a pobre alma penada, de dia
que nem um pássaro negro, enorme, que canta a finados, e de noite vira-se numa feiticeira,
que dança e canta, rindo como as raposas. Quando algum imprudente atravessa perto, a
feiticeira o persegue de tal feitio, que o infeliz, se não estiver montado, ela o pilha com
certeza!
— E se o pilha?
— Se o pilha?... Ah, nem falar nisso é bom! Se o pilha, vira-se logo toda em ossos e
cai-lhe em riba, com tal fúria de pancadas, que o deixa morto!
— E depois?
— Depois, volta a alma para penitência, tendo perdido, por cada pancada que deu, vinte
coroas de padre-nossos. Quando V.Sª for amanhã é bom levar na sela do seu cavalo um
galhinho de arruda, e ao depois de rezar à cruz, vá sacudindo sempre até as mangueiras do
Cancela, sem nunca parar com a reza que lhe ensinei!
— Sim, sim, mas diga-me uma coisa: esse José do Eito não se chamava José Pedro da
Silva?
— Justo! V.Sª o conheceu?
— De nome.
— Pois eu conheci, perfeitamente.
E, a pedido de Raimundo, o portuguesinho descreveu o tipo José, e contou o que sabia da
vida dele. O rapaz escutava tudo com um interesse religioso; não queria perder uma só
daquelas palavras; mas tinha, muitas vezes, que interromper o narrador, para lhe fazer
perquntas, a que o outro respondia em parêntesis rápidos.
— Pois a D. Quitéria Santiago morreu pouco antes do marido; eu fui vê-la! e olhe V.Sª
que, de bonitona que era, ficou horrível. Estava mais roxa que Uma berinjela!
— Não tinha filhos?
— Nunca os teve.
— Nem o marido?... Sim... este podia ter algum filho natural...
—Não, que eu saiba, não tinha.
— Nem consta de alguma parenta, que vivesse na fazenda em companhia do José?...
— Sei cá, mas...
— Alguma irmã de D. Quitéria, ou talvez alguma amiga, hein? Veja se se lembra...
— Qual o quê!... Viviam ao contrário muito sós! D. Quitéria a única parenta que tinha era
a mãe; esta andava sempre de ponta com o genro e neo saia da sua fazenda, que vem a ser
aquela em que está hoje o Cancela - a fazenda do Barroso! É verdade! sabe quem pode
informar bem estas coisas? é o Sr. Vigário! ele ainda vive na cidade; hoje é cônego. Pois era
muito unha com carne do José do Eito.
— O cônego Diogo?...
— Justamente! Ele é que era o vigário desta freguesia. Ora quanto tempo já lá vai!...
— Ah! O cônego Diogo era o vigário desta freguesia, e muito da casa das Santiagos?...
— Sim senhor! E ele está ai, que a quem quiser ouvir as voltas que deu para desencantar
São Brás! Coitado! nada conseguiu e quase que ia sendo vitima da sua boa vontade!
— Ele também acreditava na feitiçaria?
— Se acreditava! Pois se ele a viu, que o disse! E olhe V.Sª que o cônego não é homem de
mentiras! Afimava que havia em São Brás uma alma danada, e não gostava até que lhe
falassem muito nisso!... Proibia-o expressamente, sob pena de excomunhão! Se acreditava? E
boa! Por que foi então que ele abandonou a paróquia, tendo aqui nascido, gozando da mais
alta consideração e recebendo, como recebia, presentes e mais presentes de toda a
freguesia?... Eram bois, carneiros, capados, muita criação. Ele está ai na cidade, que o diga!
Raimundo caia de conjetura em conjetura.
— Ele era então bastante amigo do José da Silva? o cônego?
— Se era, coitado! Amigo e muito bom amigo!... Quando assassinaram o pobre homem, o
senhor vigário nem quis espargir-lhe a água benta; mandou o sacristão! Não podia encarar
com o corpo do José! E, veja V Sª , meteu-se em casa, e pouco nada apareceu, até que se
retirou para sempre cá da vila! Todos nós sentimos deveras semelhante retirada; estávamos
tão acostumados com ele!... Eu, nesse tempo, trabalhava nas terras do coronel Rosa; tinha os
meus vinte anos e ainda estava solteiro; assisti a tudo, meu rico senhor! Lembra-me como se
fosse ontem! A fazenda, essa foi logo abandonada; ninguém quis saber mais dela, pois, todas
as noites, quem passasse por ai, ouvia gritos medonhos, de arrepiar o couro!
— Mas, além do José e da mulher, quem mais morou nesse lugar?
— Or'essa! a escravatura e o feitor.
— Não. Digo senhores.
— Ninguém mais.
— Ah, é verdade! O José era feliz com a mulher? Viviam bem?...
— Qual! Pois se lhe estou a dizer que aquelas tenras são tenras do diabo! Viviam que nem
o cão com o gato! O cônego, ainda assim, era quem os acomodava, dando-lhes conselhos e
pedindo a Deus por eles!
E Raimundo perdia -se novamente em conjeturas. as. “Sempre sombras!... Sempre as
mesmas duvidas sobre o seu passado!...”
A conversa afrouxou. O portuguesinho deitou-se, e depois de uns restos de palestra, vaga
e bocejado, adormeceu Raimundo sonhou toda a noite.
As quatro da madrugada estavam de pé, selados os cavalos, cheio o farnel para a viagem,
e o guia montado.
Partiram às cinco horas.
Logo que os dois, e mais o guia, se acharam em caminho, Raimundo procurou entabular a
mesma conversação que tivera na véspera com o roceiro; queria ver se conseguia arrancar de
Manuel algum esclarecimento positivo sobre os seus antepassados. Nada obteve; as respostas
do negociante eram, como sempre que o sobrinho lhe tocava nisso, obscuras, difusas,
entrecortadas de pausas e reticências. Manuel falou-lhe no cônego, na cunhada, no mano José,
e em mais ninguém. A respeito da mãe de Raimundo - nem a mais ligeira referência. “Ora
adeus!... Estou sempre na mesma!...” concluiu o moço de si para si e fez por pensar noutra
coisa. O fato, porém, é que ele, apesar do seu temperamento de artista não tinha uma frase
para as belas paisagens que se desenrolavam diante de seus olhos. Ia cabisbaixo e preocupado.
Jornadearam em silêncio horas e horas. De vez em quando o guia, com o seu de sertanejo,
levava-os a uma fazenda ou a um rancho, onde os três descansavam e comiam, para tomar
logo a cavalgar por entre as melancólicas carnaubeiras e pindovais da estrada. Raimundo
sentia-se aborrecido e impacientava-se pelo fim da viagem. Seu maior empenho era visitar
São Brás; propôs até que se fosse lá primeiro, mas o negociante declarou que era impossível.
“Não tinham tempo a perder!...”
— Na volta, doutor, na volta, acrescentou, sairemos bem cedo e daremos um pulo até lá.
Lembre-se de que nos esperam, e não seria razoável bater fora de hora em casa de uma
família.
O outro consentiu, praguejando entre dentes contrariado e cheio de tédio: “Que
grandíssima estopada! O diabo da tal fazenda do inferno parecia fugir diante deles!...”
— Não se rale, patrãozinho! E ali quase! disse compassadamente o guia, espichando o
beiço inferior Meta a espora no animal, que talvez chegaremos com dia!
— Ah! suspirou Raimundo, desanimado por ver o sol ainda alto e compreender que tinha
de caminhar até à noite.
E deixou-se cair numa prostração mofina, a fitar as orelhas do burro, que arfavam com a
regularidade monótona das asas de um pássaro voando.
— Cá está! exclamou Manuel, duas horas depois, chegando a um lugar mais sombrio do
caminho.
— Que é? ia perguntar o moço quando deu por sua vez com uma cruz de madeira, muito
tosca e arruinada. Ah!
— Foi neste lugar assassinado o José!...
Todos pararam, e o guia apeou-se e foi rezar de joelhos ao cruzeiro.
— Reze pela alma de seu pai, meu amigo. Neste lugar foi ele varado por uma bala.
— E o assassino? perguntou Raimundo depois de um silêncio.
— Algum preto fugido!... até hoje nada se sabe ao certo... mas dizem que nisto andou
unha política. . outros atribuem o fato ao diabo. Bobagens! ...
Raimundo apeou-se e indagou se o pai estava enterrado ali.
Manuel, já de pé, respondeu que não. Enterrara-se no cemitério da fazenda, ao lado da
mulher. Aquela cruz, explicou ele, era um antigo uso do sertão; servia para mostrar ao
viajante o lugar onde fora alguém assassinado e fazê-lo rezar pela alma da vítima, como ali
estava praticando aquele homem.
E apontou para o guia, que, terminada a sua oração, levantou-se e foi colher um ramo de
murta, que depôs aos pés da cruz.
Raimundo sentia-se comovido. Manuel, de joelhos, cabeça baixa e chapéu pendurado das
mãos postas, rezava convictamente. Ao terminar surpreendeu-se por saber que Raimundo não
tencionava fazer o mesmo.
— O quê? Pois então o senhor não reza?...
— Não. Vamos?
— Ora! essa cá me fica!... Então qual é a sua religião? Como adora o senhor a Deus?
— Ora, senhor Manuel, deixemo-nos disso; conversemos sobre outra coisa...
— Não! queria só que o senhor me dissesse como adora a Deus!
— Deixe-se disso homem, deixe Deus em paz! Ora para que lhe havia de dar!...
— Mas, nesse caso, o senhor não tem religião!
— Tenho, tenho...
— Pois não parece!... Pelo menos neo devia fazer tão pouco caso das rezas, que nos foram
ensinadas pelos apóstolos de Nosso Senhor Jesus Cristo!...
Raimundo não pôde conter uma risada, e, como o outro se formalizara, acrescentou em
tom sério “que não desdenhava da religião, que a julgava até indispensável como elemento
regulador da sociedade. Afiançou que admirava a natureza e rendia-lhe o seu culto,
procurando estudá-la e conhecê-la nas suas leis e nos seus fenômenos, acompanhando os
homens de ciência nas suas investigações, fazendo, enfim, o possível para ser útil aos seus
semelhantes, tendo sempre por base a honestidade dos próprios atos”.
Montaram de novo e puseram-se a caminho. Uma cerrada conversa travou-se entre eles a
respeito de crenças religiosas; Raimundo mostrava-se indulgente com o companheiro, mas
aborrecia-se, intimamente revoltado por ter de aturá-lo. Da religião passaram a tratar de outras
coisas, a que o moço ia respondendo por comprazer; afinal veio à baía a escravatura e Manuel
tentou defendê-la; o outro perdeu a paciência, exaltou-se e apostrofou contra ela e contra os
que a exerciam, com palavras tão duras e tão sinceras, que o negociante se calou, meio
enfiado. Entretanto, o guia cavalgava na frente, distraído, cantando para matar o tempo:
“Você diz que amor não dói
No fundo do coração!. ..
Queira bem e uiva ausente...
Me dirá se dói ou não!...”
Caminharam meia hora em silêncio. O dia declinava, os primeiros sintomas da noite
levantavam-se da tenra, como um perfume negro, as aves refugiavam-se no seio embalsamado
da floresta; a viração fresca da tarde eriçava os leques das palmeiras, enchendo os ares de um
doce murmúrio voluptuoso.
— Tenho pairado tanto, disse por fim Raimundo com certa perplexidade, e todavia não
tratei do que mais me interessa ..
— Como assim?...
— Lembra-se o senhor que, outro dia, pedi-lhe uma conferência em seu escritório, e, ou
porque o meu amigo se esquecesse, ou porque mesmo não houvesse ocasião, o certo é que
não chegamos a falar, e no entanto, o assunto é de suma importância para ambos nós...
— E o que vem a ser?
— E um grande favor, que tenho a pedir-lhe...
Manoel abaixou a cabeça, contrafazendo o embaraço em que se via.
— Trata-se de alguma questão comercial?... perguntou.
— Não senhor; trata-se de minha felicidade...
— E a mão de minha filha que deseja pedir?
— É...
— Então... tenha a bondade de desistir do pedido...
— Por quê?
— Para poupar-me o desgosto de uma recusa...
— Como?!...
— É natural que o senhor se espante, concordo; dou-lhe toda a razão; está no seu direito!
O senhor é um homem de bem, é inteligente, tem o seu saber, que ninguém lho tira, e virá sem
dúvida a conquistar uma bonita posição, mas...
— Mas... Mas, o que?
— Desculpe-me, se o ofende tal recusa de minha parte, mas creia, ainda mesmo que eu
quisesse, não podia fazer-lhe a vontade...
— Está já comprometida talvez... Bem! Nesse caso, esperarei... Resta-me ainda a
esperança!...
— Não é isso... E peço-lhe que não insista.
— Não quer separar-se da menina?
— Oh! O senhor maritiza-me!...
— Também não é?... Então que diabo! Terei, sem saber, alguma divida de meu pai, que
haja de rebentar por ai, como uma bomba?...
— Que lembrança! Se assim fosse eu seria um criminoso em não o ter nunca prevenido. O
que o senhor possui está limpo e seguro! Presto contas quando quiser!...
— Ah! já sei... tomou Raimundo com um vislumbre, rindo. Não quer dar sua filha a um
homem de idéias tão revolucionárias?...
— Não! não é isso! E fiquemos aqui! Sei que o senhor tem direito a uma explicação, mas
acredite que, apesar da minha boa vontade, não a possa dar...
— Ora esta! Mas então por que é?...
— Não posso dizer nada, repito! E peço-lhe de novo que não insista... Esta posição é para
mim um sacrifício penoso, creia!
— De sorte que o senhor me recusa a mão de sua filha? Definitivamente?!
— Sinto muito, porém... definitivamente...
Calaram-se ambos, e não trocaram mais palavra até à fazenda do Cancela.
11
Quando chegaram ao portão da fazenda, já a lua resplandecia, desenhando ao longo da
eira a sombra espichada de enormes macajubeiras sussurrantes. Fazia um tempo magnífico,
seco, fresco, transparente; podia ler-se ao luar.
O guia sacudiu com vigor a campainha e gritou:
— O de casa!
Seguiu-se uma algazarra de cães. Veio abrir um preto, munido de um tição, que trazia
sempre em movimento, para conservá-lo aceso.
— Boa noite, tio velho! disse Manuel.
— D'es-b'a-noite, branco! respondeu o negro.
E, segurando a brida do cavalo, conduziu com este o cavaleiro até a casa.
Raimundo e o guia seguiram atrás. De longe, avistaram logo uma parede rebocada,
disforme, que ao luar se afigurava um lago entre árvores. Mais perto, o lago se transformou
num sobrado e os viajantes descobriram uma porta, em cujo esvazamento se desenhara o vulto
varonil do Cancela, que detinha dois formidáveis rafeiros.
— Ora viva! gritou o dono da casa. E, voltando-se para os cães, que insistiam em ladrar:
Safa, Rompe-Nuvens! Arreda, Quebra-Ferros!
Os cães rosnaram amigavelmente, e o fazendeiro, com sua voz forte, de pulmões enxutos,
gritou para Manuel:
— Então sempre veio!.. Pois olhe, cuidei que desta vez fizesse como das outras!... Enfim,
como vai essa católica?
— Assim, assim, um pouco moído da viagem... disse Manuel, entregando o cavalo ao
preto e apertando a mão do Cancela. Como lhe vão cá os seus?
— Bons, louvado Deus. Ainda estão na Ave-Maria, mas não devem tardar.
Efetivamente, do interior da casa um coro abafado de vozes, que rezava cantando.
Raimundo aproximou-se, depois de apear.
— Este é o Mundico de que lhe falei! declarou Manuel, empurrando o sobrinho para a
frente.
O rapaz espantou-se com a rústica apresentação, e muito mais, quando o roceiro, em vez
de cumprimentá-lo, pôs as mãos nas cadeiras e começou a passar-lhe uma revista de cima a
baixo, como quem examina uma criança.
— Com os diabos! exclamou, soltando uma risada. Você e seu compadre falaram-me em
um menino!...
— Há doze anos!
— Olha o demo! Pois, seu Mundiquinho, aperte esta mão, que é de um antigo amigo de
seu pai, e não repare se não encontrar por aqui o bom trato da cidade! Isto cá sempre é roga!
mas vá como o outro, que diz: “Mais vai pouca de bom coração, que muito de sovina!...”
E conduziu os hóspedes à varanda, menos o guia, que se tinha aboletado já pelos ranchos
dos pretos.
— Homem! vocês vão se assentando nessas redes! O Pedro! vê cachimbos! Trazer a cana
e o café. Ou querem antes vinho?
— Qualquer coisa serve.
— Temos aqui conhaque! ofereceu Raimundo, apresentando um frasco que trazia a
tiracolo.
— Pode fartar-se com ele! desdenhou Cancela. É coisinha que não me entra cá no bico!
Encheram-se três copinhos de cana-capim.
— Vá lá à nossa! E venham despir-se para cear!
E conduziu-os a um quarto, destinado exclusivamente a hóspedes.
A casa compreendia a antiga fazenda Barroso, onde noutro tempo morou e morreu a sogra
de José da Silva, e uma parte nova, feita de pedra e cal, cujo cuidado de construção revelava a
prosperidade do rendeiro.
A “casa nova”, como chamavam a última parte, compunha-se de um grande avarandado,
no qual, fazendo as vezes de cadeiras, viam-se redes armadas em todos os cantos. No centro,
que é o lugar de honra nas fazendas do Maranhão, havia um quarto espaçoso e arejado, e o
mais eram paredes sem pintura e tetos sem forro, potes de barro vermelho, vassouras de
carnaúba encostadas por aqui e por ali, selins estendidos no parapeito da varanda; a respeito
de mobília, nada mais do que uma mesa tosca e bancos compridos de pau. O paiol da farinha
era por baixo do sobrado, onde se encontravam enormes baús, forrados de couro, com umas
setenta redes destinadas aos hóspedes. A adega ao lado do paiol. De fora ouvia-se o grunhir
preguiçoso dos porcos no chiqueiro, e do fundo do quintal, soprado pelos ventos da noite,
vinha um cheiro bom de jasmins de Caiana, lírios do Peru, resedás e manjeronas.
Quando os três voltaram do quarto, já a filha e a mulher do fazendeiro tinham vindo da
reza. Manuel apareceu enfronhado comodamente num paletó de brim pardo e um par de
tamancos. Raimundo não mudara de roupa, apenas banhara o rosto e as mãos e penteara os
cabelos. A mulher do Cancela punha a mesa para a ceia; a filha correra a esconder-se no
quarto, espiando as visitas por detrás da porta, com vergonha de aparecer.
— Anda pra cá, Angelina! gritou o roceiro. Pareces um bicho do mato! Nunca viste gente,
rapariga?!
Foi ter com ela e obrigou-a a sair do esconderijo.
— Ora vamos! direito! Não estejas a esconder o rosto, que neo tens de que o esconder!...
Vamos!
Angelina apareceu, com muito acanhamento, e foi cumprimentada.
— Então! ralhou o pai. É com a cabeça que se responde?... Ah, que estas cada vez mais
matuta!... Que mal te fez este pobre cabeção para o maltratares desse modo?... Olha que o
rompes, estonteada!
Angelina, muito contrafeita, abaixara o seu rosto moreno, agora mais corado sob o frouxo
do riso da encalistração que a dominava.
— Então, de que tanto ris, sua feiosa?...
Esta última palavra era uma injustiça que o Cancela fazia à filha; Raimundo, ao
apertar-lhe a mão, desenvolta e maltratada, compreendeu logo que estava defronte de uma
bonita e toleirona sertaneja, inocente e forte como um animal do campo. Era mulher de
dezoito anos; mulher, porque tinha já o corpo em plena formatura - ombros fartos, colo cheio
e braços desenvolvidos no trabalho ao ar livre: “Boa mulher para procriar!...” pensou ele.
— Isto que você está vendo aqui, meu amigo, é uma sonsa!... disse o Cancela, satisfeito
com o ar lisonjeiro de Raimundo. Capaz é ela de virar esta casa de pernas pro ar! e parece que
neo quebra um prato! Olhe se a tonta já me tomou a bênção depois da reza!... Parece que
empanemou com as visitas!... Anda daí bicho brabo!
A rapariga foi beijar lhe a mão, e ele ferrou-lhe depois uma palmada na rija almofada do
quadril. —Esta disfarçada! Vá lá! Deus te faça branca!
Por esse tempo, Manuel conversava com a esposa do Cancela; brasileira pequenina,
socada, cheia de vida, dentes magníficos, morena e de cabelos crespos. Respirava de toda ela
um ar modesto de quem gosta de fazer bem; estava sempre à procura de alguma coisa para
arrumar, muito ativa. muito asseada e muito trabalhadeira. Na cozinha dava sota e ás a mais
pintada; sabia lavar como ninguém e assistia à roça dos pretos sem cair doente. “Era p'r'um
tudo!” diziam dela os escravos. Chamava-se Josefa, e só fora duas vezes à cidade.
— Então! reclamou o fazendeiro, vem ou não vem essa merenda?... olhem que os homens
devem trazer o estômago na espinha, e eu não lhes quero dar trela sem havermos manducado!
A mulher ouviu o fim da reclamação já na cozinha.
— Por que neo despiu você essas tafularias? perguntou o dono da casa a Raimundo. Por
cá ninguém olha para elas! Se quer, ponha-se a gosto!
— Obrigado, bem sei, estou à vontade.
E conversavam, enquanto Angelina punha a mesa. Cancela sentia-se satisfeito, loquaz;
gostava de dar à língua e, quando pilhava hóspedes que o aturassem ninguém podia com a
vida dele.
Entretanto, Josefa trazia já as iguanas e os homens dispunham-se a comer com apetite. À
luz de um antigo candeeiro de querosene, reverberava uma toalha de linho claro, onde a louça
reluzia escaldada de fresco; as garrafas brancas, cheias de vinho de caju, espalhavam em tomo
de si reflexos de ouro; uma torta de camarões estalava sua crosta de ovos; um frangão assado
tinha a imobilidade resignada de um paciente; uma cuia de farinha seca simetrizava com outra
de farinha d'agua; no centro, o travessão do arroz, solto, alvo, erguia-se em pirâmide,
enchendo o ar com o seu vapor cheiroso.
Sentia-se a gente bem ali, com aquele asseio e com aquela franqueza rude do Cancela.
— Olé! gritou este, destapando uma fumegante terrina de mundubés e fidalgos, temos
peixe de escabeche?! Bravo! - E passando a examinar o que mais havia: - Bravo, bravo!
moquecas de sururus! Peixe moqueado! Olhem que este não é do rio e por isso não se pilha
por cá todos os dias! Tem escamas, seu Manuel!
E enchiam-se os pratos.
— Famoso! está famoso! repetia, levando à boca grandes colheradas.
— Então as senhoras não nos fazem companhia?... disse Raimundo, voltando-se para as
duas.
— Qual! apressou-se o fazendeiro a responder. Não estão acostumadas com pessoas de
fora... Deixei-as lá! deixe-as lá, que ao depois se arranjarão mais à vontade! Olhe, ali a minha
Eva diz que não aprecia o seu peixinho, senão comido com a mão. Coisas de mulher!
Deixe-as lá!
Contudo, Josefa veio presidir à mesa, ao lado do marido, e informava-se do êxito dos seus
quitutes.
— Não os deixe sem provarem daquela torta de sururus, que está de encher o papo!
— Lá chegaremos! lá chegaremos! Vai apanhar mais pimentas!
— Ó amigo entorne, sem receio! Não tenha medo que o vinhito é fraco! - Seu Manuel!
seu Mundico! topemos à memória do velho amigo José da Silva!
Os três beberam, e Cancela, depois de pousar o copo vazio, acrescentou com respeito,
limpando a boca nas costas da mão:
— Foi um meu segundo pai!... Quando arribei por estas tenras, no tempo da minha
defunta patroa, D Úrsula Santiago não tinha de meu mais do que saúde força e boa vontade!
Pois o José que então namoriscava a filha da patroa a D. Quiterinha, meteu-me aqui, como
feitor, e disse-me: “Olha lá rapaz! encosta-te por aí, que, se souberes levar o gênio da velha e
mais o do vigário, podes até fazer fortuna! Ela tem lá uma afilhada de muita estimação, bem
prendada e de boa cabeça!...” Vou eu - fico a servir na casa e, graças a Deus, sempre mereci a
confiança de D. Úrsula. De noite vinha para a varanda conversar com ela junto com a minha
Josefa, que nesse tempo era uma tetéia que se podia ver! O certo é que, ao fim de dois anos,
casava-nos o senhor padre Diogo e, em boa hora o diga! tenho sido feliz, louvado o
Santíssimo! - Comeu e prosseguiu: - Já fiz esta casa em que estamos ceando, levantei o
engenho, meti braços na roga, plantei algodão, que aqui não havia, e tenciono, se Deus quiser,
fazer no seguinte ano muitas outras benfeitorias!
— Eles já quererão o café?... perguntou Josefa, comovida com a narração do marido.
Depois do café, serviram-se de restilo de ananás e acenderam-se os cachimbos de cabeça
de barro preto e taquari de três palmos. Gasta meia hora de palestra, Manuel queixou-se de
que já não era homem para grandes façanhas e prensava descansar o corpo.
— Pois fica o resto para amanhã! Pedro!
— Meu senhor!
— Leva essa gente para a casa dos hóspedes e mostra-lhe o quarto que tua senhora
preparou.
— Já ouvi, sim senhor.
— Então, muito boa noite!
— Até amanhã!
Manuel e Raimundo instalaram-se num quarto da casa velha, outrora morada da sogra de
José da Silva; esta parte, ao contrário da outra era um sobrado silencioso e triste, que só
respirava abandono e decrepitude.
Em breve o negociante ressonava; ao passo que o rapaz, estendido numa rede olhava pela
janela o céu afogado em luar, passando mentalmente revista ao que fizera o dia. Os
acontecimentos desfilaram no seu espírito em uma procissão vertiginosa e extravagante: vinha
na frente o pedido da mão de Ana Rosa de braço dado à recusa; logo atrás o portuguesinho da
vila passava cantando, com um galho de arruda na mão:
Por São Brás!
Por São Jesus!
Passo aqui
Sem levar cruz!
E seguia-se uma infinidade de imagens fantásticas: o pássaro negro cantando a finados, a
feiticeira que se transformava em ossos; e seguia -se o cônego Diogo, remoçado, cercando de
desvelos a sogra de José da Silva formada imaginariamente pelo tipo de Mana Bárbara.
E Raimundo sem poder conciliar o sono, demorava-se até a pensar em coisas de todo
indiferentes: o guia, preguiçoso e tristonho, a cantar no seu falsete de mulher; uma fazenda
que encontraram, em que havia um homem muito gordo e idiota; as ruínas de uma casa, que
de longe lhe pareceu à primeira vista uma fortaleza bombardeada, e assim, mi! outros
assuntos vagos e sem interesse, vinham-lhe à memória com insistência aborrecida. Afinal,
chegou a vontade de dormir; mas a recusa de Manuel! apresentou-se de novo e a vontade
fugiu espantada. “Por que seria que aquele homem e negou tão formalmente a mão da filha?...
Ora! com certeza por qualquer tolice, e nem valia a pena preocupar-se com semelhante
futilidade! Amanha! amanhã! calculava ele, saberia tudo!. . E tinha até vontade de rir pelo ar
grave com que o fio lhe respondera. Ora! no fim de contas não passava de alguma criancice
do Manuel!... Ou, quem sabia lá? alguma intriga!... Sim! Bem podia ser!... No Maranhão o
espírito de bisbilhotice ia muito longe! E não havia de ser outra coisa! Uma intriga! Mas que
intriga? Ah! ele descobriria tudo! olá! Ficaria tudo em pratos limpos. Nada de desanimar!...”
E, sem saber por quê reconhecia-se muito mais empenhado naquele casamento desejava-o
muito mais depois da resistência aposta ao seu pedido; a recusa de Manuel vinha dar-lhe a
medida do verdadeiro apreço em que tinha Ana Rosa. Ate ali julgava que aquele casamento
dependia dele somente e preparava-se frio sem entusiasmo, quase fazendo sacrifício: e agora,
depois do insucesso do seu pedido, eis que o desejava com ardor. Aquela recusa inesperada
era para Ana Rosa o que um fundo negro é para uma estátua de mármore fazia destacar
melhor a harmonia das linhas a alvura da pedra e a perfeição do contorno. E Raimundo
procurando medir a extensão do seu amor por ela, topava de surpresa em surpresa, de
sobressalto em sobressalto, pasmado do que descobria em si mesmo, espantando-se com os
próprios raciocínios, como se foram apresentados por um estranho, chegando às vezes a não
compreendê-los bem e fugindo de esmerilhá-los, com medo de concluir que estava deveras
apaixonado. Nesta duplicidade de sentimentos, seu espírito passeava-lhe no cérebro às
apalpadelas, como quem anda às escuras num quarto alheio e desconhecido.
— E que tal?... monologava. Não é que estou há duas horas a pensar nisto?...
E não podia convencer-se de que ligava tão séria importância àquele casamento,
procurando até capacitar-se de que tentara realizá-lo por uma espécie de compassiva
indulgência para com Ana Rosa; entretanto, revolucionava-se todo só com a idéia de não
levá-lo a efeito. “Ora adeus! também não morreria de desgosto por isso!... Não faltava bons
partidos para fazer família!... dispor-se a procurar noiva!... Sim, nem lhe ficava bem insistir
no projeto de casar com a prima!... No fim de contas aquela recusa grosseira, seca, o
ofendia!... decerto que o ofendia!... Não! não devia pensar, nem por sombras, em semelhante
asneira!... definitivamente não casaria com Ana Rosa!... Com qualquer, menos com ela!
Nada! Como não, se aquilo já era uma questão de brios?...” Mas com este propósito,
voltava-lhe, de um modo mais claro e positivo, uma grande admiração pelos encantos da
rapariga, e um surdo pesar dissimulado, um desgosto hipócrita, de não poder possuí-la.
Manuel, a poucos passos, roncava com insistência incômoda; Raimundo, depois de
virar-se muitas vezes na rede, ergueu-se fatigado, acendeu um charuto e saiu para a varanda.
Um morcego, na curva do vôo, rogou-lhe com a ponta da asa, pelo rosto.
O luar entrava sem obstáculo ate à porta do quarto e estendia no chão uma luz branca.
Raimundo encostou-se ao parapeito da varanda e ficou a percorrer com o olhar cansado a
funda paisagem que se esbatia nas meias-tintas do horizonte como um desenho a pastei. O
silêncio era completo; de repente, porém, a uma nota harmoniosa de contralto sucederam-se
outras, prolongadas e tristes, terminando em gemidos.
O rapaz impressionou-se o canto parecia vir de uma árvore fronteira a casa. Dir-se-ia uma
voz de mulher e tinha uma melodia esquisita e monótona.
Era o canto da mãe-da-lua. O pássaro levantou vôo, e Raimundo o viu então
perfeitamente, de asas brancas abertas, a distanciar seus gorjeios pelo espaço. Considerou de
si para si que os sertanejos tinham toda a razão nos seus medos legendários e nas suas crenças
fabulosas. Ele, se ouvisse aquilo em São Brás lembrar-se-ia logo, com certeza, do tal pássaro
que canta a finados. “Segundo a indicação do guia, continuava a pensar, a tapera amaldiçoada
ficava justamente para o lado que tomara a mãe-da-lua. Devia ser naquelas baixas, que dali se
viam. Não podia ser muito longe, e ele seria capaz de lá ir sozinho...” Veio distraí-lo destas
considerações um frouxo vozear misterioso, que lhe chegava aos ouvidos de um modo mal
balbuciado e quase indistingüível. Prestou toda a atenção e convenceu-se de que alguém
contou toda a atenção e convenceu-se de que alguém conversava ou monologava em voz
baixa por ali perto. Quedou-se imóvel a escutar. “Não havia dúvida! Desta vez ouvira
distintamente! Chegara a apanhar uma ou outra palavra! Mas, onde diabo seria aquilo?...”
Foi ao quarto de Manuel, o bom homem dormia como uma criança; agora associava em
vez de ressonar. Atravessou pé ante pé a varanda inteira— nada descobriu; voltou pelo lado
oposto ao luar— ainda nada! “Seria lã embaixo?...” Desceu, mas deixou de ouvir o sussurro.
“Ora esta!... A coisa era lá mesmo em cima!... Mas em cima não havia outros hóspedes, além
dele e Manuel, dissera-lhe 0 Cancela!...” Tornou a subir, mas desta vez pela escada do fundo.
“Oh! agora a coisa estava mais clara.” Raimundo ouviu frases inteiras, e queixas,
lamentações, palavras soltas, ora de revolta, ora de ternura. “Era de enlouquecer!... Quem
diabo estaria ali falando?...”
— Quem está ai?! gritou ele, no último lance da varanda, com a voz um pouco alterada.
Ninguém respondeu, e o murmúrio misterioso caiou-se logo. Raimundo esperava todavia,
possuído já de certa impaciência nervosa e com o ouvido ainda impressionado do estranho
efeito da sua própria voz a perguntar no silêncio: “Quem está ai?” Decorreu um espaço que
lhe pareceu infinito, e afinal reapareceu o vozear, agora porém muito
mais afastado, vindo do lado contrário ao lado em que ele estava. Encaminhou-se, tão em
silêncio lhe foi possível, na direção da voz misteriosa, e notou satisfeito que esta ia
gradualmente se alteando.
— Oh! fez Raimundo consigo, maravilhado. Tinha ouvido bem claro o seu nome, e o de
seu pai “José do Eito”. Redobrou de atenção. “Estaria sonhando? Aquela vez infernal falava
dubiamente de São Brás, do padre Diogo, de D. Quitéria e outras pessoas que ele não sabia
quem eram. Com certeza ia ouvir alguma coisa a respeito de - sua mãe! - Seria a primeira vez!
Oh! já não era sem tempo!...” Reprimiu a respiração; faz-se todo ouvidos; estava trêmulo,
frio, nunca sentira comoção tamanha.
Mas a voz falou, falou, referindo-se aos acontecimentos maiores de São Brás, fazendo
revelações, citando, um por um, todos os personagens, menos a mãe de Raimundo. Este, na
treva, com o coração oprimido, estendia a cabeça, arregalava os olhos, arfando-lhe o peito.
Nada. “Que desespero!” Mas a voz prosseguia, e ele escutava. De súbito, porém, caiou-se
tudo e nada mais se ouviu que o piar longínquo das aves noturnas.
Raimundo esperou, estático e sôfrego, dois minutos, quatro, cinco. Foi inútil—a voz não
reapareceu. “De sua mãe - nem uma palavra!... Maldita conspiração!...” No fim de meia hora
percorreu de novo a varanda; não sabia que julgar daquilo, nem o que devia fazer, mas jurava
descobrir tudo. “Oh! quem quer que falara estava perfeitamente a par da história de São Brás
e havia de saber alguma coisa de sua vida!...” Foi à alcova, tomou o candeeiro, deu-lhe luz,
percorreu os vários lados da varanda, entrou nos aposentos abertos, desceu, andou lã por
baixo, às tontas, porque estava tudo atravancado de coisas, tomou a subir, sem conseguir
nada, e, aborrecido, frenético, tomou ao seu quarto, diminuiu a luz e deitou-se, sem descalçar
as botas.
Não fechara a porta, de propósito; estava alerta, ao primeiro n mor saltaria. Contudo
cerrou as pálpebras; a fadiga da viagem pedia repouso; já era quase madrugada. Ia adormecer.
Mas, um leve e surdo ruído despertara-o. Raimundo encolheu-se na rede e
insensivelmente se lembrou do revólver que tinha a seu lado; na porta desenhava-se, contra a
claridade exterior, a mais esquálida, andrajosa e esquelética figura de mulher, que é possível
imaginar. Era uma preta alta, cadavérica, tragicamente feia, com os movimentos demorados e
sinistros, os olhos cavos, os dentes encarnados.
O rapaz, apesar da sua presença de espírito, teve um forte sobressalto de nervos; todavia,
não se mexeu, na esperança de ouvir ainda alguma revelação; o espectro porém, olhou em
torno de si, viu-o, sorriu, e tomou a sair silenciosamente.
Raimundo levantou-se de um pulo e precipitou-se atrás dele que fugiu na sua frente, como
uma sombra. Atravessaram o primeiro lance da varanda, o segundo e o terceiro.
O fantasma desapareceu pela porta do fundo, Raimundo acompanhou-o com dificuldade e,
ao chegar lá embaixo, avistou-o já no pátio, a fugir-lhe sempre. O rapaz tinha contra si não
conhecer o terreno; foi às apalpadelas e aos encontrões que conseguira atravessar a parte
inferior da casa. Lá fora havia já perdido de vista a sombra fugitiva; olhou em tomo de si,
caminhou à toa de um para outro lado, nervoso, irrequieto, voltando-se rápido ao menor
mexer de galhos. Afinal, auxiliado pela lua, divisou em distancia o vulto sinistro, que se
afastava, prestes a sumir -se nas meias-tintas da noite. Então abriu contra ele numa vertiginosa
carreira de boas pernas; mas o vulto embrenhando-se no mato, desapareceu totalmente.
Entretanto, os primeiros sintomas do dia avermelhavam o horizonte e nos ranchos
erguia-se já a escravatura para o trabalho das roças. As poucas horas em que Raimundo
encostou a cabeça. para descansar um bocado, foram cheias de sonho.
Ao levantar-se pelas sete da manhã, aborrecido e quase em dúvida se sonhara toda a noite
ou se, com efeito, vira e ouvira o singular espectro. Todavia, ao almoço. conversou-se
alegremente sobre o fato, e o Cancela explicou que o fantasma devia ser alguma dessas muitas
pretas velhas, agregadas aos ranchos das fazendas e que naturalmente estava bêbada. E contou
que, nas noites de—tambor - elas costumavam dormir; por ali, no primeiro rancho encontrado
em caminho. Ali mesmo havia sempre uma súcia dessas pestes; apareciam e desapareciam,
sem ninguém lhes perguntar donde vinham, nem para onde iam.
— São escravas fugidas? indagou Raimundo.
O Cancela respondeu que não. Os mocambeiros formavam grupo a parte; nunca
apareciam publicamente, viviam escondidos nos seus quilombos e só se mostravam na estrada
real para atacar os viajantes. Os agregados eram pretos forros, forros em geral com a morte de
seus senhores, e que habituados desde pequenos ao cativeiro não tendo já quem os obrigasse a
trabalhar e não querendo sair do sertão, ficavam por ai ao Deus dará, pedinchando pelas
fazendas um bocado de arroz para matar a tome, e um pedaço de chão coberto para dormir;
Simples vagabundos, que não faziam mal a ninguém.
— Olhe, continuou ele, de São Brás tínhamos aqui a principio três que andavam p'r'aí sem
fazer nada. Dois morreram e eu enterrei-os, o terceiro não sei se ainda existe, é uma preta
idiota. Talvez a que o senhor doutor viu esta noite.
E, como Raimundo pedisse mais informações, acrescentou que ela as vezes passava meses
inteiros na fazenda; os pretos gostavam de ouvi-la cantar e vê-la dançar. Doida varrida! estava
sempre resmungando ia consigo; mas que, de tempos áquela parte, não aparecia, era bem
possível que o pobre-diabo tivesse Já esticado a canela ai pelo mato.
Falou-se também da mãe-da-lua. Cancela contou velhas anedotas de estrangeiros que se
perderam nas matas, seguindo o canto original daquele pássaro. Depois trataram de interesses;
e fechou-se o negocio da fazenda - Raimundo estava por tudo, contanto que lhe não
demorassem a partida -- ardia de impaciência por visitar São Brás.
Não obstante, o Cancela instava com os dois hóspedes para que se demorassem uma
semana, ou, pelo menos, alguns dias
Manual disparatou: Que loucura! Pois ele podia lá passar dias longe do seu armazém?:..
Então que partissem pela manhã seguinte.
Nada! Havia de ser naquela mesma noite! Para que diabo agüentar sol pelo caminho,
quando tinham um luar que nem dia?...
O jantar demorava-se e Raimundo mal podia conter a sua contrariedade. S6 às três horas
da tarde conseguiram levantar acampamento.
— Leve-nos a São Brás, disse ele ao guia, logo que se acharam fora do portão da fazenda.
— A São Brás? Deus me livre.
E o caboclo, depois de benzer-se, perguntou para que diabo iam a São Brás.
— Ora essa! Não é de sua conta! Leve-nos!
—A São Brás não vou!
— Essa é melhor' Não vai! Então que veio você fazer conosco senão guiar-nos?
— Sim senhor, mas é que a São Brás não vou, nem amarrado!
— Vá para o inferno! Iremos nós! Ó se'or Manuel, o senhor não sabe o caminho?
— Verdade, verdade, o homem não deixa de ter sua razão! . No fim de contas que diacho
vai fazer o amigo àquela tapera?...
— É boa! Ver o lugar em que nasci..
— Tem razão, mas...
— Se não quiser ir, vou só!
— Mas o senhor sabe que...
— Contam bruxarias do lugar, e há quem acredite nelas... Faço-lhe, porém, a justiça de
não supô-lo desses...
Os cavalos ganhavam a Estrada Real.
— Homem, disse Manuel, lá saber o caminho, eu sei, e o guia, se não quisesse vir, poderia
esperar-nos ao pé da cruz, mas... confesso-lhe: tenho meu receio dos mocambeiros... além
disso... quem, como eu, ouviu as últimas palavras de meu irmão...
— De meu pai?! exclamou Raimundo vivamente. Oh! Conte-me isso!
— O senhor há de rir-se.. São coisas que parecem asneira... Hoje, os moços não acreditam
em nada! Mas é que certas palavras, ouvidas da boca de quem vai morrer... mexem com a
gente... não acha? fazem um homem ficar assim meio aquele! Olhe, meu amigo, eu digo-lhe
aqui entre nós, e o senhor não se mace, seu pai não teve a vidinha lá muito sossegada, não!
Depois que casou, neo se dava com pessoa alguma, e nem a própria sogra queria saber dele...
vivia como que abandonado! Eu era nesse tempo principiante no comércio e quase que não
podia arredar pé do trabalho, contudo, aqui vim três vezes; porém creia que não gostava de cá
vir!... Era uma tal tristeza!... Doía-me de ver o José tão desprezado, tão triste, que parecia
estar a cumprir uma sentença! Viajante nenhum aceitava o pouso em São Brás; preferiam
dormir; ao relento e as cobras! Contavam que alta noite ouviam-se constantemente gritos
horríveis na fazenda, pancadas por espaço de muitas horas, correntes arrastadas; os escravos
morriam sem saber de quê! Enfim, o cônego Diogo, que era o vigário desta freguesia,
confessa que nunca lhe soube dar volta! E olhe, coitado! meteu-se-lhe em cabeça abençoar e
proteger São Brás, e quase ia sendo vitima da sua dedicação! até ficou assim a modo de
aluado! E, foi tão perseguido por cá, que o pobre homem viu-se obrigado a abandonar a
paróquia! Ainda hoje, quando lhe toco nisso, benze-se todo! Pois pode crer o senhor que ele
era o mais íntimo amigo de meu irmão e o único talvez que ultimamente lhe freqüentava a
casa; entretanto, compreenda-se lá, seu pai, já por último não o queria ver nem pintado! e, nos
delírios das suas febres, estava sempre a ver fantasmas e a gritar como um doido que queria
dar cabo do padre! “Quero matar o padre! - Tragam-me o padre! - O padre é que é o culpado
de tudo!” Este fulano padre era o cônego! Eu não quis nunca falar nestas coisas ao compadre,
porque, cismático como é, podia agastar-se comigo!...
E, depois de uma pausa
— Ora, já vê o meu amigo que, apesar de não acreditar em almas do outro mundo, tenho
as minhas razões para...
Raimundo procurava disfarçar a preocupação em que o punham as palavras de Manuel, e
declarou que, se este não estava disposto a ir a São Brás, que se ficasse com o guia, ele iria só.
— Mas saiba, disse, que ao caboclo perdôo o medo, porque enfim não está na altura de
certas verdades, mas ao senhor...
— Eu neo tenho medo de coisa alguma, já disse!...
— Receia sempre que o diabo lhe saia ao encontro, compreendo!
E o rapaz fingiu uma gargalhada, para intimidar o companheiro.
— Não, mas é que...
— Ora deixe-se de histórias! O senhor não me parece um homem!...
Manuel cedeu afinal, e os dois tomaram a direção da .tapera.
Fizeram em silêncio todo o caminho; Raimundo por muito comovido e Manuel por
amedrontado.
Instintivamente, pararam em respeitável distância.
— Creio que chegamos! arriscou o moço.
E, avançando alguns passos, disse ao outro:
— Lá está ela!
— Ó de casa! gritou Manuel.
Só o eco respondeu.
Adiantaram-se mais e Raimundo gritou por sua vez, com o mesmo resultado.
— Ande, senhor Manuel! Estamos a quixotear... Aqui não há viva alma!...
Mais alguns passos e estavam defronte da tapera.
Eram os restos de uma casa térrea, sem reboque e cujo madeiramento de lei resistira ao
seu completo abandono.
Ia anoitecer. O sol naufragava, soçobrando num oceano de fogo e sangue; o céu
reverberava como a cúpula de uma fornalha; o campo parecia incendiado.
Como era preciso aproveitar o dia, os dois viajantes apearam-se logo, cada qual prendeu o
seu cavalo, e introduziram-se na varanda da casa por uma brecha que cortava de alto a baixo o
primeiro pano de parede. Essa parte estava completamente arruinada e cheia de mato; os
camaleões, as osgas e as mucuras fugiam espantados pelos pés de Raimundo, que ia galgando
moitas de urtiga e capim-bravo.
Lá dentro a tapera tinha um duro aspecto nauseabundo. Longas telas de aranha pendiam
tristemente em todas as direções, como cortina de crepe esfacelado; a água da chuva, tingida
de terra vermelha, deixara, pelas paredes, compridas lágrimas sangrentas que serpeavam entre
ninhos de cobras e lagartos; a um canto descobria-se no chão ladrilhado um abominável
instrumento de suplício, era um tronco de madeira preta, e os seus buracos redondos, que
serviam para prender as pernas, os braços ou o pescoço dos escravos, mostravam ainda
sinistras manchas arroxeadas.
Os dois seguiram adiante, penetrando o interior da casa. Ao transporem cada porta fugia
na frente deles uma nuvem negra de morcegos e andorinhas. O solo, empastado de
excremento de pássaros e répteis era pegajoso e úmido; o telhado abria em vários pontos,
chorando uma luz morna e triste; respirava-se uma atmosfera de calabouço. De um charco
vizinho a casa palpitava, monótono como um relógio, o rouquenho coaxar das rãs. Os anus
passavam de uma para outra árvore, cortando o silêncio da tarde, com os seus gemidos
prolongados e agudíssimos; do fundo tenebroso da floresta vinham de espaço a espaço o
gargalhar das raposas, e os gritos sensuais dos macacos e sagüins. Era já o concerto da noite.
Manuel, um tanto comovido, contemplava demoradamente as ruínas que o cercavam,
procurando descobrir naqueles restos mudos e emporcalhados, a antiga residência de seu
irmão. Nada lhe trazia à lembrança uma nota ainda viva do passado.
— Vejamos agora por aqui... disse ele, passando, seguido pelo sobrinho, a um quarto, cujas
janelas tinham as folhas despregadas e prestes a desabar. Era este o quarto de José...
E pôs-se a meditar.
Raimundo olhava para tudo com uma grande tristeza, infinita, sem bordas, mas fechada
que nem um horizonte de névoas. “Como seria seu pai?...” pensava ele, sem uma palavra,
como seria esse bom homem, que nunca se descuidara da educação do pobre Raimundo?...
Quantas vezes, naquele quarto, talvez junto a uma daquelas janelas, olhando para a quinta,
não pensaria o infeliz no querido filho, que tinha tão longe dos seus afagos?... E sua mãe?...
Sua pobre mãe desconhecida, estaria ali, ao lado dele, ou, quem o sabia? escondida,
envergonhada, a chorar as faltas em algum desterro humilhante?...
— Aqui, disse Manuel, batendo no ombro do companheiro, nasceu o senhor, meu amigo,
e viveu os seus primeiros anos...
Raimundo sentia um desejo doido de perguntar pela mãe, mas não se achava com animo;
temia agora uma inesperada decepção, uma agonia inédita, que o esmagasse de todo; receava
alguma verdade implacável e fria, rija, de aço, que o atravessasse de lado a lado, como uma
espada. Até ali, ninguém lhe falara nela. “É que, sem duvida, havia em tudo aquilo um
segredo de família, alguma paixão vergonhosa, uma falta horrível, talvez um crime
abominável, que ninguém ousava revelar! E, no entanto, Raimundo tinha plena certeza de que
aquele homem, que ali estava em sua presença, ao alcance de suas palavras, sabia de tudo e
poderia. se quisesse, arrancá-lo para sempre daquela maldita incerteza!.. Quem seria ela?...
essa estranha mãe misteriosa, por quem ele sentia um amor desnorteado?... Alguma senhora,
bonita sem dúvida, porque causava crimes; criminosa ela própria, por amor, a inspirar
loucuras a seu pai, a acender-lhe uma paixão fatal e romanesca, cheia de sobressaltos e de
remorsos! E desse amor secreto e criminoso, desse adultério, que sem dúvida causou a morte
de seu pai, nascera ele!... Mas, por que não lhe contavam tudo com franqueza?... Por que não
lhe diziam toda a verdade?... Oh! devia ser um segredo infernal, para o esconderem com
tamanho empenho!...” E, acabrunhado por estes raciocínios, humilhado pela dúvida de si
próprio, miserável e triste, Raimundo percorria a casa, em silêncio.
Despertou-o de novo a voz de Manuel:
— Vamos à capela, antes que anoiteça de todo.
Entraram primeiro no cemitério. Estava arrasado. Manuel apontou para uma velha
sepultura, e disse ao outro com respeito:
— Ali está seu pai!
Raimundo chegou-se para o túmulo, descobriu-se, e procurou ler na carneira alguma
inscrição que lhe falasse do morto. Absolutamente nada! o tempo apagara da pedra o nome de
seu pai. Ali só havia um pedaço de mármore carunchoso e negro. Deixara de ser uma tabuleta,
era uma tampa. O rapaz sentiu então, mais do que nunca, pesar-lhe dentro dalma, como uma
barra de chumbo, todo o mistério da sua vida; compreendeu que sobre esta havia também uma
pedra silenciosa e negra; compreendeu que o seu passado nada mais era do que outra
sepultura sem epitáfio.
Enovelou-se-lhe na garganta um godilhão de soluços e Raimundo sentiu a necessidade de
ajoelhar-se defronte do silêncio daquele túmulo.
Manuel afastara-se discretamente, tossindo, para disfarçar a sua comoção. O moço
enxugava as lágrimas, agora abundantes e fartas; depois encaminhou-se para uma outra cova
mais adiante, abrigada por uma frondosa mangueira. Estava já vazia e com a lousa fora do
lugar. Naturalmente, os parentes do cadáver haviam retirado dali os ossos para alguma igreja
da capital. A posição da lápida da árvore serviram de resguardo ao epitáfio; Raimundo passou
o lenço por ama dele e conseguiu ler o seguinte: “Aqui jazem os restos mortais de Quitéria
Inocência de Freitas Santiago, filha extremosa, esposa exemplar; Casou em 15 de dezembro
de 1845 e faleceu em 1849. Orai por ela.”
— Não há dúvida que, além de bastardo, descendi de uma tremenda vergonha! Meu
nascimento combina aproximadamente com estes algarismos...
E, tendo monologado estas palavras, chegou ao fundo do cemitério e achou-se defronte de
uma capela. Entrou, galgando três degraus escalavrados. Uma coruja fugiu espavorida. A luz
triste da lua filtrava-se já pelas aberturas do telhado, mas pelas janelas entrava de rojo o
quente lusco-fusco do crepúsculo. Raimundo, ao chegar à sacristia, estacou e estremeceu
todo: o vulto esquelético e andrajoso, que lhe aparecera à noite, como um fantasma, ali estava
naquela meia escuridão, a dançar uns requebros estranhos, com os braços magros levantados
sobre a cabeça. O rapaz sentiu gelar-lhe a testa um suor frio e conservou-se estático, quase
duvidoso de que aquilo que tinha defronte de si fosse uma figura humana.
Todavia, a múmia se aproximava dele, a dar saltos, estalando os dedos ossudos e
compridos. Viam-se-lhe os dentes brancos e descamados, os olhos a estorcerem-se-lhe
convulsivamente nas órbitas profundas, e a caveira a desenhar-se em ângulos através das
carnes. Ora erguia as mãos, descaindo a cabeça; ora fazia voltas, sapateando e dando pungas
no ar.
De repente deu com Raimundo e precipitou-se para ele de braços abertos. Na primeira
impressão o rapaz recuava com repugnância, mas, caindo logo em si, aproximou-se da louca e
perguntou-lhe se conhecia quem morara naquela fazenda.
A idiota olhou para ele, e riu-se sem responder.
— Não conheceste o José da Silva ou José do Eito?
A preta continuou a rir. Raimundo insistiu no seu interrogatório mas sem obter resultado
algum. A doida o considerava fixamente, como que procurando reconhecer-lhe as feições; de
súbito, deu um salto sobre ele, tentando abraçá-lo; o rapaz não tivera tempo de fugir e
sentiu-se em contacto com aquele corpo repugnante. Então num assomo nervoso repeliu-a
bruscamente. Ela caiu para trás, estalando os ossos contra os tijolos do chão.
Raimundo saiu de carreira para reunir-se a Manuel, porém a idiota alcançou-o, já no
cemitério, e arremessou-se de novo contra ele.
— Não me toques! gritava o moço, com raiva, levantando o chico
Manuel acudiu correndo:
— Não lhe bata, doutor! Não lhe bata, que é doida! Conheço-a!
— Mas, se ela não me quer deixar!... Sai! Sai, diabo! Olha que te
Manuel mostrava-se agoniado e surpreso.
— Já! disse ele, intimidando a louca. Já pra dentro!
A preta retomou-se humildemente.
— Quem é ela? perguntou Raimundo, lá fora, tratando de montar. O senhor disse que a
conhecia.
n Essa pobre negra... respondeu Manuel hesitante, foi escrava de seu pai. Vamos!
n E puseram-se a caminho.
12
Voltaram ambos impressionados da tapara. Manuel tentara por duas vezes uma conversa
que não vingara no ânimo acabrunhado do companheiro; Raimundo respondia maquinalmente
às suas palavras, ia muito preocupado e aborrecido. Na dúvida da sua procedência e com a
certeza do seu bastardismo, vinha-lhe agora uma estranha suscetibilidade; não sabia por que
motivo, mas sentia que precisava, que tinha urgência, de uma explicação cabal do que levou
Manuel a recusar-lhe a filha. “Com certeza estava ai a ponta do mistério!”
Ele o que queria era penetrar no seu passado, percorrê-lo, estudá-lo, conhecê-lo a fundo;
encontrara até então todas as portas fechadas e mudas, como a sepultura de seu pai; embalde
bateu em todas elas; ninguém lhe respondera. Agora um alçapão se denunciava na recusa de
Manuel; havia de abri-lo e entrar, custasse o que custasse, ainda que o alçapão despejasse
sobre um abismo.
E, tão dominado ia pela sua resolução que, ao passar pelo cruzeiro da Estrada Real, nem
só deu por ele, como pelo guia que logo se pusera a caminho.
— Ó meu amigo! gritou-lhe o tio Isto também não vai assim!... Despeça-se deste lugar!
E apeou-se, para depor aos pés da cruz um galho de murta.
Raimundo voltou atrás e, depois de um grande silencio, fitou Manuel e perguntou-lhe.
externando um retalho do pensamento que o dominava:
— Ela será, porventura, minha irmã?...
— Ela, quem?
— Sua filha
O negociante compreendeu a preocupação do sobrinho.
— Não.
Raimundo tomou a mergulhar no pau} da sua dúvida e das conjeturas, procurando de
novo o motivo daquela recusa, como quem procura um objeto no fundo dágua; e a sua
inteligência, de outras vezes tão lúcida e perspicaz, sentia-se agora impotente e cega, às
apalpadelas, às tontas, desesperada, quase extinta, nas lamacentas e misteriosas trevas do
pântano.
E, de tudo isso, vinha-lhe um grande mal-estar. Depois da negativa de Manuel, Ana Rosa
afigurava-se-lhe uma felicidade indispensável; já não podia compreender a existência, sem a
doce companhia daquela mulher simples e bonita, que, no seu desejo estimulado, lhe aparecia
agora sob mil novas formas de sedução. E, na sua fantasia enamorada, acariciava ainda a idéia
de possuí-la, idéia, que, só então o notava, dormira todas as noites com ele, e que agora,
ingrata, queria escapar-lhe com as desculpas banais e comuns de uma amante enfastiada. Oh!
sim! desejava Ana Rosa! habituara-se imperceptivelmente a julgá-la sua; ligara-a a pouco e
pouco, sem dar por isso, a todas as aspirações da sua vida; sonhara-se junto dela, na
intimidade feliz do lar, vendo-a governar uma casa que era de ambos, e que Ana Rosa
povoava com a alegria de um amor honesto e fecundo. E agora, desgraçado—olhava para toda
essa felicidade, como o criminoso olha, através às grades do cárcere para os venturosos casais,
que se vão lá pela nua, de braço dado, rindo e conversando ao lado dos filhos. E Raimundo
antejulgava perfeitamente que aquele empenho de Manuel em negar-lhe a filha, longe de
arredá-la do seu amor, mais e mais o empurrava para ela, ligando-a para sempre ao seu
destino.
— Terá sua filha alguma secreta enfermidade, que levasse o mé
dico a proibir-lhe o casamento? Terá algum defeito
orgânico?...
— Oh! com efeito! O senhor tortura-me com as suas perguntas'. . creia que, se eu pudesse
dizer-lhe a causa de minha recusa, tê-lo-ia feito desde logo! Oh!
Raimundo não pôde conter-se e disparatou, fazendo estacar o seu cavalo.
— Mas o senhor deve compreender a minha insistência! Não se diz assim, sem mais nem
menos, a um homem que vem, legitima e constenciosamente, pedir a mão de uma senhora,
que a isso o autorizou. “Não lha dou, porque não quero!” Por que não quer? “Porque não! Não
posso dizer o motivo!...” P boa! Tal recusa significa uma ofensa direta a quem faz o pedido!
Foi uma afronta à minha dignidade. O senhor há de concordar que me deve uma resposta, seja
qual for! uma desculpa! uma mentira, muito embora! mas, com todos os diabos! e necessária
uma razão qualquer!
— É justo, mas...
— Se me dissesse: “Oponho-me ao casamento, porque antipatizo solenemente com o seu
caráter”. Sim senhor! Não seda uma razão plausível, mas estaria no seu direito de pai, mas o
senhor...
— Perdão! eu não podia dizer semelhante coisa depois de o haver elogiado por várias
vezes, e ter-me declarado, como repito, seu amigo e seu apreciador...
— Mas então?! Se é meu amigo, que diabo! diga-me a razão com franqueza! tire-me, por
uma vez, deste maldito inferno da duvida! declare-me o segredo da sua recusa, seja qual for,
ainda que uma revelação esmagadora! Estou disposto a aceitar tudo, tudo! menos o mistério,
que esse tem sido o tormento da minha vida! Vamos, fale! suplico-lhe por... aquele que caiu
assassinado!—E apontou na direção da cruz. Era seu irmão e dizem que meu pai... Pois bem,
peço-lhe por ele que me fale com franqueza! Se sabe alguma coisa dos meus antepassados e
do meu nascimento, conte-me tudo! Juro-lhe que lhe ficarei reconhecido por isso! Ou, quem
sabe? serei tão desprezível a seus olhos, que nem sequer li e mereça tão miserável prova de
confiança?...
— Não! não! ao contrário, meu amigo! Eu até levaria muito em gosto o seu casamento
com a minha filha, no caso de que isso tivesse lugar!... E só peço a Deus que lhe depare a ela
um marido possuidor das suas boas qualidades e do seu saber; creia, porém, que eu, como
bom pai, não devo, de forma alguma, consentir em semelhante união. Cometeria um crime se
assim procedesse!...
— Com certeza há parentesco de irmão entre ela e eu!
— Repare que me está ofendendo...
— Pois defenda-se, declarando tudo por uma vez!
— E o senhor promete não se revoltar com o que eu disser?...
— Juro. Fale!
Manuel sacudiu os ombros e resmungou depois, em ar de confidencia:
— Recusei-lhe a mão de minha filha, porque o senhor é... é filho de uma escrava...
— Eu?!
— O senhor é um homem de cor!... Infelizmente esta é a verdade...
Raimundo tomou-se lívido. Manuel prosseguiu, no fim de um silêncio:
— Já vê o amigo que não é por mim que lhe recusei Ana Rosa mas e por tudo! A família
de minha mulher sempre foi muito escrupulosa a esse respeito, e como ela é toda a sociedade
do Maranhão! Concordo que seja uma asneira; concordo que seja um prejuízo tolo! o senhor
porém não imagina o que é por cá a prevenção contra os mulatos!... Nunca me perdoariam um
tal casamento; além do que, para realizá-lo, teria que quebrar a promessa que fiz a minha
sogra, de não dar a neta senão a um branco de lei, português ou descendente direto de
portugueses!... O senhor é um moço muito digno, muito merecedor de consideração, mas... foi
forro à pia, e aqui ninguém o ignora
— Eu nasci escravo?!...
— Sim, pesa-me dizê-lo e não o faria se a isso não fosse constrangido, mas o senhor é
filho de uma escrava e nasceu também cativo.
Raimundo abaixou a cabeça. Continuaram a viagem. E ali no campo, à sombra daquelas
árvores colossais, por onde a espaços a lua se filtrava tristemente, ia Manuel narrando a vida
do irmão com a preta Domingas. Quando, em algum ponto hesitava por delicadeza em dizer
toda a verdade, o outro pedia-lhe que prosseguisse francamente, guardando na aparência uma
tranqüilidade fingida. O negociante contou tudo o que sabia.
— Mas que fim levou minha mãe?... a minha verdadeira mãe? perguntou o rapaz, quando
aquele terminou, Mataram-na? Venderam-na??? O que fizeram dela?
— Nada disso; soube ainda há pouco que está viva... E aquela pobre idiota de São Brás.
— Meu Deus! exclamou Raimundo, querendo voltar à tapera.
— Que é isso? Vamos! Nada de loucuras! Voltarás noutra ocasião!
Calaram-se ambos. Raimundo, pela primeira vez, sentiu-se infeliz; uma nascente má
vontade contra os outros homens formava-se na sua alma ate ai limpa e clara; na pureza do
seu caráter o desgosto punha a primeira nódoa. E, querendo reagir, uma revolução operava-se
dentro dele; idéias turvas, enlodadas de ódio e de vagos desejos de vingança, iam e vinham,
atirando-se raivosos contra os sólidos princípios da sua moral e da sua honestidade, como
num oceano a tempestade açula contra um rochedo os negros vagalhões encapelados. Uma só
palavra bolava à superfície dos seus pensamentos: “Mulato”. E crescia, crescia,
transformando-se em tenebrosa nuvem, que escondia todo o seu passado. Idéia parasita, que
estrangulava todas as outras idéias.
— Mulato!
Esta só palavra explicava-lhe agora todos os mesquinhos escrúpulos, que a sociedade do
Maranhão usara para com ele. Explicava tudo: a frieza de certas famílias a quem visitara; a
conversa cortada no momento em que Raimundo se aproximava; as reticências dos que lhe
falavam sobre os seus antepassados; a reserva e a cautela dos que, em sua presença, discutiam
questões de raça e de sangue; a razão pela qual D. Amância lhe oferecera um espelho e lhe
dissera: “Ora mire-se!” a razão pela qual diante dele chamavam de meninos os moleques da
rua. Aquela simples palavra dava-lhe tudo o que ele até aí desejara e negava-lhe tudo ao
mesmo tempo, aquela palavra maldita dissolvia as suas dúvidas, justificava o seu passado;
mas retirava-lhe a esperança de ser feliz, arrancava-lhe a pátria e a futura família; aquela
palavra dizia -lhe brutalmente: “Aqui, desgraçado, nesta miserável terra em que nasceste, só
poderás amar uma negra da tua laia! Tua mãe, lembra-te bem, foi escrava! E tu também o
foste!”
— Mas, replicava-lhe uma voz interior, que ele mal ouvia na tempestade do seu
desespero; a natureza não criou cativos! Tu não tens a menor culpa do que fizeram os outros,
e no entanto és castigado e amaldiçoado pelos irmãos daqueles justamente que inventaram a
escravidão no Brasil!
E na brancura daquele caráter imaculado brotou, esfervilhando logo, uma ninhada de vermes
destruidores, onde vinham o ódio, a vingança, a vergonha, o ressentimento, a inveja, a tristeza
e a maldade. E no circulo do seu nojo, implacável e extenso, entrava o seu país, e quem este
primeiro povoou, e quem então e agora o governava, e seu pai, que o fizera nascer escravo, e
sua mãe, que colaborara nesse crime. “Pois então de nada-lhe lhe valia ter sido bem educado e
instruído; de nada lhe valia ser bom e honesto?... Pois naquela odiosa província, seus
conterrâneos veriam nele, eternamente, uma criatura desprezível, a quem repelem todos do
seu seio?..” E vinham-lhe então, nítidas 3 luz crua do seu desalento, as mais rasteiras
perversidades do Maranhão; as conversas de porta de botica, as pequeninas intrigas que lhe
chegavam aos ouvidos por intermédio de entes ociosos e objetos, a que ele nunca olhara senão
com desprezo. E toda essa miséria, toda essa imundícia, que ate então se lhe revelava aos
bocadinhos, fazia agora uma grande nuvem negra no seu espírito, porque, gota a gota, a
tempestade se formara. E, no meio desse vendaval, um desejo crescia, um único, o desejo de
ser amado, de formar uma família Um abrigo legítimo, onde ele se escondesse para sempre de
todos os homens.
Mas o seu desejo só pedia, só queria, só aceitava Ana Rosa, como se o mundo inteiro houvera
desaparecido de novo ao redor daquela Eva pálida e comovida, que lhe dera a provar, pela
primeira vez, o delicioso veneno do fruto proibido.
13
A volta pareceu-lhe muito mais longa do que a ida ao Rosário; quase que não falou por
toda a viagem, estalava de impaciência por estar só, inteiramente só, para pensar à vontade,
conversar consigo mesmo e convencer-se de que era um espírito superior àquelas pequenas
misérias sociais.
Logo que chegou a casa, foi direto ao seu quarto, fechou-se por dentro, com um ruído
áspero áspero de fechadura que funciona poucas vezes. Fazia-se noite. Ele parou junto à mesa,
no escuro, acendeu um fósforo, apagou-se; segundo, terceiro, o quarto ardeu bem, porém
Raimundo ficou a olhar abstrato para a flama azul, torcendo entre os dedos, automaticamente,
o pedacinho de madeira, que se queimou até chamuscar-lhe as unhas; e ficou as escuras, por
longo tempo, cismando, perdido na sua preocupação E que, de raciocínio em raciocínio,
chegara ao âmago do fato “Devia ceder ou lutar?...” Mas o seu espírito nada resolvia; acuava
como um cavalo defronte de um abismo. Ele metia as esporas; era tudo inútil!
— Diabo! exclamou, voltando a si.
E acendeu a vela. Assentou-se à escrivaninha, sem tirar sequer o chapéu, e pôs-se a
pensar, sacudindo nervosamente a perna Tomou distraído a pena, embebeu-a repetidas vezes
no tinteiro, e rabiscou as margens dos jornais que lhe estavam mais próximos. Desenhou, com
uma pachorra inconsciente. um sino Salomão, e, como se estivesse prestando sumo cuidado
ao seu desenho, emendou-o, corrigiu-o, fez um novo igual ao primeiro, outro, mais outro,
encheu com eles toda uma margem de jornal.
— Diabo! exclamou novamente, no desespero de quem não encontra a solução de um
problema.
E pôs-se a fitar, com a máxima atenção a chama da vela. Depois, tomou um invólucro de
cigarros, abandonado sobre a mesa, e começou a quebrar com ele as estalactites da estearina,
ate que o papei, por muito embebido no combustível, inflamou-se e foi lançado ao chão.
— Diabo!
E repetia insensivelmente as palavras de Manuel: “Recusei-lhe a mão de minha filha,
porque o senhor é filho de uma escrava! - O senhor é um homem de cor! - O senhor foi forro à
pia, e aqui ninguém o ignora! - O senhor não imagina o que é por cá a prevenção contra os
mulatos!...”
— Mulato! E eu que nunca pensara em semelhante coisa!... Podia lembrar-me de tudo,
menos disto!...
E acusava-se de frouxo; de não ter dado boas respostas na ocasião; não ter reagido com
espírito forte, e provado que Manuel estava em erro e que ele, Raimundo, não ligava a mínima
importância a semelhante - futilidade! Assistiam-lhe agora respostas magníficas, verdadeiros
raios de lógica, com que fulminaria o adversário. E, argumentando com as réplicas que lhe
faltaram então, reformava mentalmente todo o caso, dando a si próprio um novo papel, tão
brilhante e enérgico quão fraco e passivo fora o primeiro.
Afastou a cadeira da secretária, debruçou-se sobre esta e escondeu o rosto nos braços
dobrados. Assim levou quase uma hora; quando levantou de novo a cabeça, reparou, pela
primeira vez, numa litografia de São José, que sempre estivera ali na parede do seu quarto.
Raimundo examinou minuciosamente o santo com o seu colorido vivo, o menino Jesus no
braço esquerdo e uma palma na mão direita. Surpreendeu-se de vê-la naquele lugar: em dias
de despreocupação nunca dera por ela. E daí, recordou-se de ter visto na Alemanha trabalhar
um prelo litográfico dos mais aperfeiçoados; depois pensou nos processos do desenho, nos
diversos estilos de artistas seus conhecidos e, afinal, em São José e na religião cristã. E mais:
acudiam-lhe agora coisas inteiramente indiferentes: lembrava-se de um homem, vermelho e
suado, que ele vira uma semana antes, a conversar sobre Napoleão Bonaparte com um lojista
da Rua de Nazaré. Diziam muita asnice; e a imagem do lojista saltava-lhe perfeita à
memória—magricela, com uns bigodes compridos, afetando delicadezas de alfaiate de Lisboa.
Ouvira-lhe o nome, mas estava na dúvida. “Moreira? Não, não era Moreira!” E procurava
mentalmente o nome, com insistência. “Pereira? Não! Nogueira... Era Nogueira ' Este nome
trouxe-lhe logo à lembrança uma ocasião em que conversava com Nogueira Penteeiro, e
passar na nua uma mulher doida, que levantava as saias para mostrar o corpo. De repente,
Raimundo estremeceu, era a idéia que voltava, a idéia primitiva, a idéia capital. Reaparecia;
tinha feito uma retirada falsa; ficara à porta do cérebro, espiando para dentro. E ele soltou um
suspiro com a presença importuna e vexatória dessa idéia que esperava, pelo seu pensamento,
como um policia espera um criminoso, para o levar preso. E o pensamento de Raimundo
remancheava; não queria ir mas a idéia implacável reclamava-o. E o prisioneiro entregou
afinal os pulsos.
Ergueu-se da cadeira; bateu vigorosamente uma punhada na mesa, protestando como se
alguém lhe falasse:
— Ora sebo! Que diabo tenho eu com isto? O que vim fazer a esta província estúpida, foi
tratar dos meus negócios pecuniários!] Liquidados —nada mais tenho que fazer aqui!
Musco-me! Ponho-me ao fresco! Passem muito bem!
E começou a passear pelo quarto, agitado, a fingir-se muito egoísta com as mãos nas
algibeiras das calças monologando:
— Sim! sim! longe daqui não sou forro à pia! o filho da escrava sou o Doutor Raimundo
Jose da Silva, estimado, querido e respeitados! Vou! Por que não?! O que mo impediria?
E parou, tomou a andar, afinal assentou-se na cama, disposto a recolher-se. Despiu o
paletó, arremessou o chapéu e o colete.
— Sim! O que mo impediria?...
Ia descalçar a primeira botina, quando espantou-se com a lembrança de Ana Rosa. Uma
voz exigente bradava-lhe do coração: “E eu? e eu? e eu?... Esqueceste de mim, ingrato? Pois
bem, não quero que vós, ouviste? Não irás! sou eu quem to impedirá!”
E Raimundo, pasmo por não ter, durante tanto tempo, pensado em Ana Rosa, despiu-se
com pressa e, como querendo fugir a esta nova idéia, atirou-se de bruços à cama, soluçando.
As seis horas da manhã ainda havia luz no quarto dele.
No dia seguinte, às duas da tarde, desceu, muito abatido, ao escritório de Manuel e
pediu-lhe secamente que apressasse os seus negócios e 0 despachasse quanto antes, porque
não podia demorar-se mais tempo no Maranhão. Precisava partir o mais cedo possível.
— Mas venha cá, doutor, o senhor não me deve guardar ódio por ter eu...
— Ah, certamente, certamente! Nem pensemos nisso! interrompeu Raimundo, procurando
desviar a conversa. O senhor tem toda a razão... Vamos ao que importa! Diga-me quando
poderei estar desembaraçado?
— Mas não ficou maçado comigo!... Não é verdade? Creia que...
— Ó senhor! Como quer que lhe diga que não? Maçado! Ora essa! por quê? Já nem
pensava em tal! Vinha até pedir-lhe um serviço...
— Se estiver em minhas mãos...
— É simples.
E, depois de uma pausa, Raimundo continuou, com a voz um pouco alterada, a despeito
do esforço que fazia por afetar tranqüilidade: —Como lhe disse ontem... estava autorizado
pela senhora sua filha a pedi-la em casamento; em vista, porem, do que me expôs o senhor a
meu respeito, cumpre-me dar à Srª Ana Rosa qualquer explicação. Compreende que não posso
retirar-me desta província, assim, sem mais nem menos, estando já empenhado em um
compromisso tão melindroso...
— Ah, sim... mas não lhe dê isso cuidado... Arranjarei qualquer desculpa..
— Uma desculpa, justamente! É preciso dar-lhe uma desculpa; e o melhor seria
declarar-lhe a verdade. Explique-lhe tudo. Conte-lhe o que se passou entre nós .Ninguém,
para isso, está mais no caso que o senhor!...
Manuel caçava a nuca com uma das mãos, enquanto com a outra batia o cabo da caneta
entre os dentes, na atitude contrariada de quem toma, à pura força de circunstâncias, interesse
numa causa estranha; porem, como Raimundo falasse em mudar de casa, ele atalhou logo.
— Como o senhor quiser... mas a nossa choupana está sempre às suas ordens...
— Bem, concluiu o rapaz, agradecendo o oferecimento com um gesto; posso então contar
que o meu amigo se encarrega de explicar tudo à senhora sua filha?
— Pode ficar descansado.
— E quando terei os meus negócios concluídos?
— Antes da chegada do vapor já o senhor estará inteiramente desembaraçado.
— Muito agradecido.
E Raimundo subiu para o seu quarto.
Fazia um grande calor. O céu, todo limpo, com as suas nuvens arredondadas, parecia um
vasto tapete azul, onde dormiam enormes cães felpudos. Raimundo lembrou-se de sair;
feitou-lhe o ânimo: afigurava-se-lhe que na rua todos os apontariam, dizendo: “Lá vai o filho
da escrava!” ia abrir a janela e hesitou; sentia um grande tédio, um mal-estar crescente, desde
a revelação de Manuel; uma surda indisposição contra tudo e contra todos; naquele momento,
irritava-o, por exemplo, a voz aflautada de um quitandeiro, que argumentava, lá embaixo na
nua, com um súcio. Abriu o álbum com a intenção de desenhar, mas repeliu-o logo; tomou
um livro e leu distraidamente algumas linhas; levantou-se, acendeu um cigano e passeou a
largos passo pelos pelo quarto, com as mãos nas algibeiras.
Em um destes passeios, parou defronte do espelho e mirou-se com muita atenção.
procurando descobrir no seu rosto descorado alguma coisa, algum sinal, que denunciasse a
raça negra. Observou-se bem, afastando o cabelo das fontes; esticando a pele das faces,
examinando as ventas e revistando os dentes; acabou por atirar com o espelho sobre a
cômoda, possuído de um tédio imenso e sem fundo.
Sentia uma grande impaciência, porém vaga, sorrateira, sem objeto, um frouxo desejar
que o tempo corresse bem depressa e que chegasse um dia, que de não sabia que dia era;
sentia uma vontade indefinida de ir de novo a Vila do Rosário, procurar a pobre mãe, a pobre
negra, e dedicada escrava de seu pai, e trazê-la em sua companhia, para dizer a todos: “Esta
preta idiota, que aqui vêem ao meu braço e minha mãe, e ai daquele que lhe faltar ao
respeito!” Depois fugir com ela da pátria, como quem foge de um covil de homens maus e
meter-se em qualquer terra, onde ninguém conhecesse a sua história. Mas, de improviso,
chegava-lhe Ana Rosa à lembrança, e o infeliz desabava num grande desanimo, vencido e
humilhado.
E deixava cair a cabeça na palma das mãos, a soluçar.
Por este tempo, Manuel acabava de expor à filha a necessidade absoluta de não pensar em
Raimundo.
— Enfim, dizia de, tu já não es uma criança, e bem podes julgar o que te fica bem e o que
te fica mal!... Há por aí muito rapaz decente, de boa família... e nos casos de fazer-te feliz
.Vamos! Não quero ver esse rostinho triste!... Deixa estar que mais tarde me agradecerás o
bem que agora te faço!...
Ana Rosa, de cabeça baixa ouvia, aparentemente resignada, as palavras do pai. Confiava
em extremo no seu amor e nos juramentos de Raimundo, para recear qualquer obstáculo. Só
agora soubera ao certo da precedência de seu primo bastardo e no entanto, ou fosse porque lhe
germinavam ainda no coração os supremos conselhos matemos, ou fosse que o seu amor era
dos que a tudo resistem, o caso é que essa história que a tantos arrancara exclamações de
desprezo; isso que forneceu assunto a gordas palestras nas portas dos boticários; isso que foi
comentado em toda a província, entre risos de escárnio e cuspalhadas de nojo, desde a sala
mais pretensiosa, até à quitanda mais pífia; isso que fechou muitas portas a Raimundo e
cercou-o de inimigos; isso, essa grande história escandalosa e repugnante para os
maranhenses, não alterou absolutamente nada, o sentimento que Ana Rosa lhe votava. As
palavras de Manuel não lhe produziam o menor abalo; da continuava a estremecer e desejar o
mulato com a mesma fé e com o mesmo ardor; tinha lá para si que de possuía bastante
merecimento próprio, bastante atrativo, para ocupar de todo a atenção de quem o observasse,
sem ser preciso remontar aos seus antepassados. Estabelecia comparações entre as regalias do
amor de Raimundo e as vergonhas que dele pudesse resultar, e concluía que aquelas bem
mereciam o sacrifício destas, Amava-o - eis tudo.
Manuel, depois dos seus conselhos, passou a fazer considerações desfavoráveis a respeito
das qualidades morais do mulato, e. com isso apenas conseguiu estimular o desejo da filha,
juntando aos atrativos do belo rapaz mais um, não poderoso o da proibição. Enquanto ele,
entestando com a inadmissível hipótese de um casamento tão desastrado, desenrolava um
quadro assustador, profetizando, com as negras cores da sua experiência e com febre do seu
amor de pai um futuro de humilhações e arrependimentos chegando até a ameáça-la ia de
retirar-lhe a bênção; Ana Rosa, distraída, olhando para um só ponto respondia
maquinalmente: “Sim... Não... Decerto!... Está visto!.. “ sem prestar a mínima atenção ao que
ele discretamenteava porque o próprio objeto discutido lhe arredava dali o pensamento
trazendo-lhe por associação de idéias, os seus devaneios favoritos nos quais se sonhava ao
lado de Raimundo, em plena felicidade conjugal.
— Enfim, disse Manuel, procurando encenar o discurso e satisfeito pelo ar atento e
resignado da filha; nada temos que recear... Ele muda-se por estes dias e parte definitivamente
no primeiro vapor para o Sul!
Esta notícia, dada assim à queima-roupa e em tom firme, despertou-a com violência.
— Hein? como? parte? muda-se? por quê?...
E fitou o pai, sobressaltada.
— É, ele muda-se... Não quer esperar aqui o dia da viagem..
— Mas por quê, senhores?
O negociante viu-se num grande embaraço; não lhe convinha dizer abertamente a verdade;
dizer que Raimundo se retirava, para fugir ao tormento de ver todos os dias Ana Rosa, sem
esperança de possuí-la. E não atinando com uma resposta, com uma saída, o pobre homem
balbuciava:
— É! o rapaz maçou-se com o que eu lhe disse, e como e senhor do seu nariz, muda-se!
Ora essa! Pensas talvez que ele se sinta muito com isso?... Estás enganadinha, filha! Foi-me
muito lampeiro ao escritório e pediu-me que o desculpasse contigo. “Que desses o dito por
não não dito! Que ele precisava mudar de ares!... Que se aborrecia muito cá pela província!
pela aldeola—como ele a chama!”
— Mas por que não veio ele mesmo entender-se comigo?...
— Ora, filha! bem se vê que não conheces 0 Raimundo.. Pois ele é lá homem para essas
coisas?... Um tipo que não liga a menor importância às coisas mais respeitáveis! Um ateu que
não acredita em nada! Até ficou mais satisfeito depois da minha recusa! Só parece que estava
morrendo por um pretexto para desfazer o seu compromisso contigo!
— Percebo! exclamou Ana Rosa transformando-se e cobrindo o rosto com as mãos. E que
não me ama! Nunca me amou, o miserável!
E abriu a chorar.
— Hein?! Olá! Então que quer isto dizer... Ora ora os meus pecados! Ai, que isto de
mulheres não há quem as entenda!
Ana Rosa fugiu para o seu quarto, nervosa, soluçando, e atirou-se de bruços na rede.
O pai seguiu-a assustado:
— Então, minha filha, que é isto?...
— Diabo da peste!
E a infeliz soluçava.
— Então, que tolice a tua, Anica! Olha, minha filha! escuta!
— Não quero escutar nada! Diga-lhe que pode ir quando entender! Pode ir, que ate é
favor!
— Grande coisa perdes, na verdade! Ora vamos! Nada de asneiras!
Ana Rosa continuava a soluçar. cada vez mais aflita, com o rosto escondido nos braços; as
mangas do seu vestido e os travesseiros da rede estavam já ensopados das lágrimas. Assim
levou algum tempo, sem responder ao que lhe dizia o pai, de repente suspendeu de chorar,
ergueu a cabeça e soltou um gemido rápido e agudo. Era o histérico.
— Diabo! resmungou Manuel, coçando a nuca atrapalhado. E chamou logo pelos de casa:
D. Maria Bárbara! Brígida! Mônica!
O aposento encheu-se imediatamente.
O cônego Diogo, que ficara na saleta, à espera daquela conferência de Manuel com a
filha, entrou também atraído pelos gritos da afilhada.
— Hoc opus hic labor est!
Nessa ocasião, Raimundo, no seu quarto, passava pelo sono, estendido sobre um divã.
Sonhava que fugia com Ana Rosa e que, em caminho, eram, os dois, perseguidos por três
quilombolas furiosos armados de facão. Um pesadelo. Raimundo queria correr e não podia: os
pés enterravam-se -lhe no solo, como no tujuco, e Ana Rosa pesava como se fosse de chumbo.
Os pretos aproximavam-se, dardejando os fenos, iam alcançá-los. O rapaz suava de medo;
estava imóvel, sem ação, com a língua presa.
Os gritos reais da histérica coincidiam com os gritos que Ana Rosa, no sonho, soltava,
ferida pelos mocambeiros. Com o esforço, Raimundo pulou do divã e olhou estremunhado em
torno de si; depois, deitou a correr para a varanda.
O cônego, ouvindo-lhe os passos, veio sair-lhe ao encontro.
— Attendite!
— Ora, até que enfim nos encontramos! disse-lhe Raimundo.
— Pschio! fez o cônego. Ela está sossegando agora! Não vá lá, que lhe pode voltar o
ataque!... O senhor é o causador de tudo isto!...
— Preciso dar-lhe duas palavras incontinente, senhor cônego!
— Homem, deixe isso para outra ocasião... Não vê o alvoroço em que está a casa?...
— Se lhe digo que preciso falar-lhe incontinenti!... Ande! Vamos ao meu quarto!
— Que diabo tem o senhor que me dizer?!
— Quero tomar alguns esclarecimentos sobre São Brás, percebe?
—Horresco referens!...
E Raimundo, com um empurrão, meteu-se, mais o cônego, no quarto, e fechou-se por
dentro.
— Vá dizer-me quem matou meu pai! exclamou, ferrando-lhe o olhar.
— Sei cá!
E o cônego empalideceu. Mas estava a prumo, defronte do outro.
Cruzou os braços.
— Que quer isto dizer?...
— Quer dizer que descobri afinal o assassino de meu pai e posso vingar-me no mesmo
instante!
— Mas isto é uma violência! tartamudeou o padre, com a voz sufocada pela comoção.
E, fazendo um esforço sobre si, acrescentou mais seguro:
—Muito bem senhor doutor Raimundo! muito bem! Está procedendo admiravelmente! É
então por esta forma que me pede noticias de seu pai? é este o modo pelo qual me agradece a
amizade fiel, que dediquei noutro tempo ao pobre homem? Fui o seu único amigo, o seu
amparo, a sua darradeira consolação! e é um filho dele que vem agora, depois de vinte anos,
ameaçar um pobre velho, que foi sempre respeitado por todos! Parece que só esperavam que
me embranquecessem de todo os cabelos, para insultarem esta batina, que foi sempre recebida
de chapéu na mão! Ah, muito bem! muito bem! Era preciso viver setenta anos para ver isto!
muito bem! Quer vingar-se? Pois vingue-se! Que lho impede?! Sou eu o criminoso? Pois
venha o carrasco! Não me defenderei, mesmo porque já me faltam as forças para isso!...
Então! que faz que não se mexe?!
Raimundo, com efeito, estava imóvel. “Ter-se-ia enganado?...” À vista do aspecto sereno
do cônego chegara a duvidar das conclusões dos seus raciocínios. “Seria crive! que aquele
velho, tão brando, que só respirava religião e coisas santas, fosse o autor de um crime
abominável?,..” E, sem saber o que decidir, atirou-se a uma cadeira, fechando a cabeça nas
mãos.
O padre compreendeu que ganhara terreno e prosseguiu, na sua voz untuosa e resignada:
— É, o senhor deve ter razão!... Fui eu naturalmente o assassino de seu pai!... É um rasgo
generoso e justo de sua parte desmascarar-me e cobrir-me de ultrajes, aqui nesta casa, onde
sempre me beijaram a mão. O senhor esta no seu direito! Olhe! agarre aquela bengala e
bata-me com ela! Está moço, pode fazê-lo! está no vigor dos seus vinte e cinco anos! Vamos!
Fustigue este pobre velho indefeso! castigue este corpo decrépito, que já não presta para nada!
Então! bata sem receio que ninguém o saberá! Pode ficar descansado que não gritarei - tenho
defronte dos olhos a imagem resignada de Cristo, que sofreu muito mais!
E o cônego Diogo, com os braços e olhos erguidos para cima, caiu de joelhos e disse entre
dentes, soluçando:
— Ó Deus misericordioso! Tu, que tanto padeceste por nós, lança um olhar de bondade
sobre esta pobre criatura desvairada! compadece-te da pobre alma pecadora, levada só pela
paixão mundana e cega! Não deixes que Satanás se apodere da mísera. Salva-a, Senhor!
perdoa-lhe tudo, como perdoaste aos teus algozes! Graça para ela! eu te suplico, graça, meu
divino Senhor e Pai!
E o cônego ficou em êxtase.
— Levante-se, observou-lhe Raimundo, aborrecido. Deixe-se disso! Se lhe fiz uma
injustiça, desculpe. Pode ir descansado, que não o perseguirei. Vá!
Diogo ergueu-se, e pousou a mão no ombro do moço.
— Perdôo-te tudo, disse; compreendo perfeitamente o teu estado de excitação. Sei o que
se passou! Mas consola-te, meu filho, que Deus é grande, e só no seu amor consiste a
verdadeira paz e felicidade!
E saiu de cabeça baixa, o ar humilde e contrito; mas, ao descer a escada para a rua,
resmungava:
— Deixa estar, que mas pagarás, meu cabrinha apistolado!...
14
Sete dias depois, morava Raimundo em uma das suas casinhas da Rua de São Pantaleão.
Vivia aborrecido; vivia exclusivamente a esperar o dia da viagem para a Corte. Nunca a
província lhe parecera tão enfadonha, nem o seu isolamento tão pesado e tão triste. Não sala
quase nunca à nua; não procurava pessoa alguma, nem tampouco ninguém o visitava. Dizia-se
por aí que ele estava de cama por uma bonita sova, que lhe mandara dar o pai da namorada.
“Era bem feito! Para se não fazer apresentado com uma menina branca!”
Os maldizentes, empenhados na vida dele, como se Raimundo fosse um político de quem
dependesse a salvação da província, afiançavam que alguma peça estava o tratante urdindo
em silêncio.
— Acreditem, exclamava um dos tais, a um grupo, que todos estes sujeitos que se fazem
muito santarrões e de quem a boca do mundo nada tem que dizer, são os mais perigosos! Eu,
cá por mim, não me fio de ninguém! quando vejo um tipo, julgo logo mal dele; se o traste
prega-me alguma, não me espanta, porque já a esperava!
— E se não prega?
— Fico na certeza de que muita coisa se faz às caladas neste Maranhão! Mas 1á acreditar
em virtudes de aventureiros, isso é que nem à sétima facada!
Entretanto, Raimundo levava uma vida de degradado, sem amigos e sem carinhos de
espécie alguma. No seu desterro tinha por companhia única uma preta velha, que se
encarregara de servi-lo; magra, feia, supersticiosa arrastando-se, a coxear, pela varanda e
pelos quartos desertos fumando um cachimbo insuportável, e sempre a falar sozinha, a
mastigar monólogos intermináveis.
E esta solidão enchia-o de tédio e de saudades pelas boas horas alegres, que passava
dantes ao lado de Ana Rosa, aquecido ao calor benéfico da família. Ultimamente muito pouco
se dava ao estudo; estava desleixado, preguiçoso, vivia para as suas preocupações recentes.
Ficava horas esquecidas à mesa, depois do almoço ou do jantar, olhando vagamente para o
seu quintal sem plantas, com os pés cruzados a cabeça molemente calda sobre o peito, a fumar
ciganos um atrás do outro, num aborrecimento invencível.
Tomara embirrância por tudo e emagrecia.
À noite, acendia-se o candeeiro de querosene, e Raimundo assentava-se junto à secretaria,
lendo distraído algum romance ou revendo as gravuras de algum jornal ilustrado. A um canto
da varanda resmungava a criada, cosicando trapos. O rapaz sentia um fasto de morte, tinha
espreguiçamentos de febre, moleza geral no corpo; não podia entrar com a cozinha da preta—
era uma coisa muito mal amanhada—tinha nojo de beber pelos copos mal lavados; banhava
com repugnância o rosto na bacia barrada de gordura. “O senhores! Que vida!” E ficava cada
vez mais nervoso e frenético; esperava o dia da viagem contando os minutos; porém, a
despeito de tudo, sentia uma surda e funda vontade de não ir, uma íntima esperança de ser
ainda legitimamente amado por Ana Rosa.
— Impossível!... concluía sempre, fazendo-se forte. Deixemo-nos de asneiras!
E pensava no que não estaria ela julgando dele; no juízo que formarda do seu caráter
Nunca mais tiveram ocasião de trocar uma palavra ou um olhar; apenas recebia noticias de
Ana Rosa por aquela idiota, que não as sabia dar. “Ora! também de que servia afligir-se
daquele modo? o melhor era deixar que as coisas levassem o seu destino natural! Não podia,
nem devia, por forma alguma, casar com semelhante mulher, para que, pois, pensar ainda
nisso?...”
Em casa de Manuel as coisas igualmente não corriam lá muito bem. Ana Rosa curtia
densas tristezas, mal dissimuladas aos olhos do pai, da avó e do cônego. A pobre moça
esforçava-se por esquecer o desleal amante que a abandonara covardemente. E, na sua
decepção imaginava vinganças irrefletidas; tinha desejos absurdos: queria casar-se por
aqueles dias, arranjar um marido qualquer, antes que Raimundo se retirasse da província;
desejava provar-lhe que ela não ligava a menor importância ao caso e que se entregaria com
prazer a outro homem.
Pensou no Dias e esteve quase a falar-lhe.
Manuel, soprado pelo compadre, indispunha mais e mais o ânimo da filha contra o
mulato; contando-lhe, a respeito deste, fatos revoltantes, inventados pelo cônego; fazia-se
agora muito meigo ao lado dela, submetia-se aos seus caprichos, às suas vontadezinhas de
menina doente. com a compungida solicitude de um bom enfermeiro.
Ana Rosa abanava a cabeça, resignada. O fato provado de que Raimundo contsentia sem
resistência e talvez por gosto, em abandoná-la, ao mesmo tempo que aumentava nela o desejo
de reconquistá-lo e possuí-lo, dava a seu orgulho bastante energia para esconder de todos o
seu amor Supunha-se vítima de uma decepção; julgava o seu amante mais apaixonado e mais
violento, e, à vista da passividade com que ele
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Alphonsus de Guimarães
Poemas
OSSA MEA
II
Mãos de finada, aquelas mãos de neve,
De tons marfíneos, de ossatura rica,
Pairando no ar, num gesto brando e leve,
Que parece ordenar, mas que suplica.
Erguem-se ao longe como se as eleve
Alguém que ante os altares sacrifica:
Mãos que consagram, mãos que partem breve,
Mas cuja sombra nos meus olhos fica...
Mãos de esperança para as almas loucas,
Brumosas mãos que vêm brancas, distantes,
Fechar ao mesmo tempo tantas bocas...
Sinto-as agora, ao luar, descendo juntas,
Grandes, magoadas, pálidas, tateantes,
Cerrando os olhos das visões defuntas...
PULCHRA UT LUNA
II
Celeste... É assim, divina, que te chamas.
Belo nome tu tens, Dona Celeste...
Que outro terias entre humanas damas,
Tu que embora na terra do céu vieste?
Celeste... E como tu és do céu não amas:
Forma imortal que o espírito reveste
De luz, não temes sol, não temes chamas,
Porque és sol, porque és luar, sendo celeste.
Incoercível como a melancolia,
Andas em tudo: o sol no poente vasto
Pede-te a mágoa do findar do dia.
E a lua, em meio à noite constelada,
Pede-te o luar indefinido e casto
Da tua palidez de hóstia sagrada.
ÁRIAS E CANÇOES
II
A suave castelã das horas mortas
Assoma à torre do castelo. As portas,
Que o rubro ocaso em onda ensangüentara,
Brilham do luar à Luz celeste e clara.
Como em órbitas de fatais caveiras
Olhos que fossem de defuntas freiras,
Os astros morrem pelo céu pressago...
São como círios a tombar num lago.
E o céu, diante de mim, todo escurece...
E eu nem sei de cor uma só prece!
Pobre Alma, que me queres, que me queres?
São assim todas, todas as mulheres.
X
Hirta e branca... Repousa a sua áurea cabeça
Numa almofada de cetim bordada em lírios.
Ei-la morta afinal como quem adormeça
Aqui para sofrer Além novos martírios.
De mãos postas, num sonho ausente, a sombra espessa
Do seu corpo escurece a luz dos quatro círios:
Ela faz-me pensar numa ancestral Condessa
Da Idade Média, morta em sagrados delírios.
Os poentes sepulcrais do extremo desengano
Vão enchendo de luto as paredes vazias,
E velam para sempre o seu olhar humano.
Expira, ao longe, o vento, e o luar, longinquamente,
Alveja, embalsamando as brancas agonias
Na sonolenta paz desta Câmara-ardente...
TERCEIRA DOR
VI
P. Sião que dorme ao luar.
Vozes diletas Modulam salmos de visões contritas...
E a sombra sacrossanta dos Profetas
Melancoliza o canto dos levitas.
As torres brancas, terminando em setas,
Onde velam, nas noites infinitas,
Mil guerreiros sombrios como ascetas,
Erguem ao Céu as cúpulas benditas.
As virgens de Israel as negras comas
Aromatizam com os ungüentos brancos
dos nigromantes de mortais aromas...
Jerusalém, em meio às Doze Portas,
Dorme: e o luar que lhe vem beijar os flancos
Evoca ruínas de cidades mortas.
V
CISNES BRANCOS
6 cisnes brancos, cisnes brancos,
Porque viestes, se era tão tarde?
O sol não beija mais os flancos
Da montanha onde morre a tarde.
O cisnes brancos, dolorida
Minh’alma sente dores novas.
Cheguei à terra prometida:
É um deserto cheio de covas.
Voai para outras risonhas plagas,
Cisnes brancos! Sede felizes...
Deixai-me só com as minhas chagas,
E só com as minhas cicatrizes.
Venham as aves agoireiras,
De risada que esfria os ossos...
Minh’alma, cheia de caveiras,
Está branca de padre-nossos.
Queimando a carne como brasas,
Venham as tentações daninhas,
Que eu lhes porei, bem sob as asas,
A alma cheia de ladainhas.
O cisnes brancos, cisnes brancos,
Doce afago de alva plumagem!
Minh’alma morre aos solavancos
Nesta medonha carruagem...
VIII
Quando chegaste, os violoncelos
Que andam no ar cantaram hinos.
Estrelaram-se todos os castelos,
E até nas nuvens repicaram sinos.
Foram-se as brancas horas sem rumo.
Tanto sonhadas! Ainda, ainda
Hoje os meus pobres versos perfumo
Com os beijos santos da tua vinda.
Quando te foste, estalaram cordas
Nos violoncelos e nas harpas...
E anjos disseram : – Não mais acordas,
Lírio nascido nas escarpas!
Sinos dobraram no céu e escuto
Dobres eternos na minha ermida.
E os pobres versos ainda hoje enluto
Com os beijos santos da despedida.
XXXIII
ISMÁLIA
Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.
No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...
E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...
E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...
As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...
OS SONETOS
IV
Vagueiam suavemente os teus olhares
Pelo amplo céu franjado em linho:
Comprazem-te as visões crepusculares...
Tu és uma ave que perdeu o ninho.
Em que nichos doirados, em que altares
Repoisas, anjo errante, de mansinho?
E penso, ao ver-te envolta em véus de luares,
Que vês no azul o teu caixão de pinho.
És a essência de tudo quanto desce
Do solar das celestes maravilhas...
Harpa dos crentes, cítola da prece...
Lua eterna que não tivesse fases,
Cintilas branca, imaculada brilhas,
E poeiras de astros nas sandálias trazes...
XIX
Hão de chorar por ela os cinamomos,
Murchando as flores ao tombar do dia.
Dos laranjais hão de cair os pomos,
Lembrando-se daquela que os colhia.
As estrelas dirão: – “Ai! nada somos,
Pois ela se morreu, silente e fria... ”
E pondo os olhos nela como pomos,
Hão de chorar a irmã que lhes sorria.
A lua, que lhe foi mãe carinhosa,
Que a viu nascer e amar, há de envolvê-la
Entre lírios e pétalas de rosa.
Os meus sonhos de amor serão defuntos...
E os arcanjos dirão no azul ao vê-la,
Pensando em mim: – “Por que não vieram juntos?”
LXXV
Como se moço e não bem velho eu fosse
Uma nova ilusão veio animar-me.
Na minh’alma floriu um novo carme,
O meu ser para o céu alcandorou-se.
Ouvi gritos em mim como um alarme.
E o meu olhar, outrora suave e doce,
Nas ânsias de escalar o azul, tornou-se
Todo em raios que vinham desolar-me.
Vi-me no cimo eterno da montanha,
Tentando unir ao peito a luz dos círios
Que brilhavam na paz da noite estranha.
Acordei do áureo sonho em sobressalto:
Do céu tombei aos caos dos meus martírios,
Sem saber para que subi tão alto...
XLI
Cantem outros a clara cor virente
Do bosque em flor e a luz do dia eterno...
Envoltos nos clarões fulvos do oriente,
Cantem a primavera: eu canto o inverno.
Para muitos o imoto céu clemente
É um manto de carinho suave e terno:
Cantam a vida, e nenhum deles sente
Que decantando vai o próprio inferno.
Cantam esta mansão, onde entre prantos
Cada um espera o sepulcral punhado
De úmido pó que há de abafar-lhe os cantos...
Cada um de nós é a bússola sem norte.
Sempre o presente pior do que o passado.
Cantem outros a vida: eu canto a morte...
Noite na Taverna, de Álvares de Azevedo
Fonte:
AZEVEDO, Álvares de. Noite na taverna. 3.ed. Rio de Janeiro : Francisco Alves, 1988.
Texto proveniente de:
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro
A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo
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Noite na Taverna
Álvares de Azevedo
MACÁRIO
Onde me levas?
SATAN
A uma orgia. Vais ler uma página da vida, cheia de sangue e de
vinho—que importa?
MACÁRIO
Eu vejo-os. É uma sala fumacenta. A roda da mesa estão sentados
cinco homens ébrios. Os mais revolvem-se no chão. Dormem ali mulheres
desgrenhadas, umas lívidas, outras vermelhas Que noite!
NOITE NA TAVERNA
How now, Horatio? you tremble, and look pale. Is not this something
more than fantasy? What think you on's?
Hamlet. Ato I
JOB STERN
UMA NOITE DO SÉCULO
.
Bebamos! nem um canto de saudade! Morrem na embriaguez da vida
as cores! Que importam sonhos, ilusões desfeitas? Fenecem como as flores!
José Bonifácio
— Silêncio! moços!! acabai com essas cantilenas horríveis! Não vedes
que as mulheres dormem ébrias, macilentas como defuntos? Não sentis que o
sono da embriaguez pesa negro naquelas pálpebras onde a beleza sigilou os
olhares da volúpia??
—Cala-te, Johann! enquanto as mulheres dormem e Arnold—o loiro—
cambaleia e adormece murmurando as canções de orgia de Tieck, que musica
mais bela que o alarido da saturnal? Quando as nuvens correm negras no céu
como um bando de corvos errantes, e a lua desmaia como a luz de uma
lâmpada sobre a alvura de uma beleza que dorme, que melhor noite que a
passada ao reflexo das tachas?
—És um louco, Bertram! não e a lua que lá vai macilenta: e o
relâmpago que passe e ri de escárnio as agonies do povo que morre, aos
soluços que seguem as mortalhas do cólera!
—O cólera! e que importa? Não há por ora vida bastante nas veias do
homem? não borbulha a febre ainda as ondas do vinho? não reluz em todo o
seu fogo a lâmpada da vida na lanterna do crânio?
—Vinho! vinho! Não vês que as taças estão vazias bebemos o vácuo,
como um sonâmbulo?
—E o Fichtismo na embriguez! Espiritualista, bebe a imaterialidade da
embriaguez!
—Oh! vazio meu copo esta vazio! Olá taverneira, não vês que as
garrafas estão esgotadas? Não sabes, desgraçada, que os lábios da garrafa são
como os da mulher: só valem beijos enquanto o fogo do vinho ou o fogo do
amor os borrifa de lava?
—O vinho acabou-se nos copos, Bertram, mas o fumo ondula ainda
nos cachimbos! Após os vapores do vinho os vapores da fumaça! Senhores,
em nome de sodas as nossas reminiscências, de todos os nossos sonhos que
mentiram, de sodas as nossas esperanças que desbotaram, uma ultima saúde!
A taverneira ai nos trouxe mais vinho: uma saúde! O fumo e a imagem do
idealismo, e o transunto de tudo quanto ha mais vaporoso naquele espiritualismo
que nos fala da imortalidade da alma! e pois, ao fumo das Antilhas, a
imortalidade da alma!
—Bravo! bravo!
Um urrah tríplice respondeu ao moco meio ébrio.
Um conviva se ergueu entre a vozeria: contrastavam-lhe com as faces
de moco as rugas da fronte e a rouxidão dos lábios convulsos. Por entre os
cabelos prateava-se-lhe o reflexo das luzes do festim. Falou:
—Calai-vos, malditos! a imortalidade da alma? pobres doidos! e
porque a alma e bela, porque não concebeis que esse ideal posse tornar-se em
loco e podridão, como as faces belas da virgem morta, não podeis crer que ele
morra? Doidos! nunca velada levastes porventura uma noite a cabeceira de um
cadáver? E então não duvidastes que ele não era morto, que aquele peito e
aquela fronte iam palpitar de novo, aquelas pálpebras iam abrires, que era
apenas o ópio do sono que emudecia aquele homem? Imortalidade da alma! e
por que também não sonhar a das flores, a das brisas, a dos perfumes? Oh! não
mil vezes! a alma não e, como a lua, sempre moca, nua e bela em sue
virgindade eterna! a vida não e mais que a reunião ao acaso das moléculas
atraídas: o que era um corpo de mulher vai porventura transformar-se num
cipreste ou numa nuvem de miasmas; o que era um corpo do verme vai
alvejar-se no cálice da flor ou na fronte da
criança mais loira e bela. Como Schiller o disse, o átomo da
inteligência de Platão foi talvez pare o coração de um ser impuro. Pôr isso eu
vo-lo direi: se entendeis a imortalidade pela metempsicose, bem! talvez eu
creia um pouco:—pelo Platonismo, não!
—Solfieri! es um insensato! o materialismo e árido como o deserto, e
escuro como um túmulo! A nos frontes queimadas pelo normaço do sol da
vida a nos sobre cuja cabeça a velhice regelou os cabelos, essas crianças frias!
A nós os sonhos do espiritualismo!
—Archibald! deveras, que e um sonho tudo isso! No outro tempo o
sonho da minha cabeceira era o espirito puro ajoelhado no seu manto
argênteo, num oceano de aromas e luzes! Ilusões! a realidade e a febre do
libertino, a taça na mão, a lascívia nos lábios e a mulher seminua, tremula e
palpitante sobre os joelhos.
—Blasfêmia—e não crês em mais nada: teu ceticismo derribou sodas
as estatuas do teu templo, mesmo a de Deus?
—Deus! crer em Deus! sim como o grito intimo o revela nas horas
frias do medo—nas horas em que se tirita de susto e que a morte parece roçar
úmida por nos! Na jangada do naufrago, no cadafalso, no deserto —sempre
banhado do suor frio—do terror e que vem a crença em Deus! —Crer nele
como a utopia do bem absoluto, o sol da luz e do amor, muito bem! Mas se
entendeis por ele os ídolos que os homens ergueram banhados de sangue, e o
fanatismo beija em sua inanimação de mármore de há cinco mil anos! não
credo nele!
—E os livros santos?
—Miséria! quando me vierdes falar em poesia eu vos direi: ai ha
folhas inspiradas pela natureza ardente daquela terra como nem Homero as
sonhou—como a humanidade inteira ajoelhada sobre os túmulos do passado
nunca mais lembrara! Mas quando me falarem em verdades religiosas, em
visões santas, nos desvarios daquele povo estúpido—eu vos direi—miséria!
miséria! três vezes miséria! Tudo aquilo e falso— mentiram como as miragens
do deserto!
—Estas ébrio, Johann! O ateísmo e a insânia como o idealismo místico
de Schelling, o panteísmo de Spinoza o judeu, e o crente de Malebranche nos
seus sonhos da visão em Deus. A verdadeira filosofia e o epicurismo. Hume
bem o disse: o fim do homem e o prazer. Dai vede que e o elemento sensível
quem domina. E pois ergamo-nos, nos que amanhecemos nas noites
desbotadas de estudo insano, e vimos que a ciência e falsa e esquiva, que ela
mente e embriaga como um beijo de mulher.
—Bem! muito bem! e um toast de respeito!
—Quero que todos se levantem, e com a cabeça descoberta digam-no:
Ao Deus Pan da natureza, aquele que a antiguidade chamou Baeo o filho das
coxas de um deus e do amor de uma mulher, e que nos chamamos melhor pelo
seu nome—o vinho.
—Ao vinho! ao vinho!
Os copos cairam vazios na mesa.
—Agora ouvi-me, senhores! entre uma saúde e uma baforada de
fumaça, quando as cabeças queimam e os cotovelos se estendem na toalha
molhada de vinho, como os braços do carniceiro no cepo gotejaste, o que nos
cabe e uma historia sanguinolenta, um daqueles contos fantásticos—como
Hoffmann os delirava ao clarão dourado do Johannisberg!
—Uma historia medonha, não Archibald?—falou um moco pálido que
a esse reclamo erguera a cabeça amarelenta. Pois bem, dir-vos-ei uma historia.
Mas quanto a essa, podeis tremer a gosto, podeis suar a frio da fronte grossas
bagas de terror. Não e um conto, e uma lembrança do passado.
—Solfieri! Solfieri! ai vens com teus sonhos!
—Conta!
Solfieri falou: os mais fizeram silêncio
II
SOLFIERI
Yet one kiss on your pale clay
And those lips once so warm beart! my bears! my bears!
BYRON—Cain
Sabeis-lo. Roma e a cidade do fanatismo e da perdição: na
alcove do sacerdote dorme a gosto a amásia,
no leito da vendida se pendura o Crucifixo lívido. É um
requintar de gozo blasfemo que mescla o sacrilégio a
convulsão do amor, o beijo lascivo a embriaguez da crença!
Era em Roma. Uma noite a lua ia bela como vai ela
no verão pôr aquele céu morno, o fresco das águas se
exalava como um suspiro do leito do Tibre. A noite ia
bela. Eu passeava a sós pela ponte de As luzes se apagaram uma por
uma nos palácios, as ruas se fazias ermas,
e a lua de sonolenta se escondia no leito de nuvens. Uma
sombra de mulher apareceu numa janela solitária e es
cura. Era uma forma branca.—A face daquela mulher
era como a de uma estátua pálida a lua. Pelas faces dela,
como gotas de uma taça caída,, rolavam fios de lágrimas.
Eu me encostei a aresta de um palácio. A visão desapareceu no escuro
da janela e daí um canto se derramava. Não era só uma voz melodiosa: havia
naquele cantar um como choro de frenesi, um como gemer de insânia: aquela
voz era sombria como a do vento a noite nos cemitérios cantando a nênia das
flores murchas da morte.
Depois o canto calou-se. A mulher apareceu na porta. Parecia espreitar
se havia alguém nas ruas. Não viu a ninguém—saiu. Eu segui-a.
A noite ia cada vez mais alta: a lua sumira-se no céu, e a chuva caía as
gotas pesadas: apenas eu sentia nas faces caírem-me grossas lágrimas de água,
como sobre um túmulo prantos de órfão..
Andamos longo tempo pelo labirinto das ruas: enfim ela parou:
estávamos num campo.
Aqui, ali, além eram cruzes que se erguiam de entre o ervaçal. Ela
ajoelhou-se. Parecia soluçar: em torno dela passavam as aves da noite.
Não sei se adormeci: sei apenas que quando amanheceu achei-me a sós
no cemitério. Contudo a criatura pálida não fora uma ilusão—as urzes, as
cicutas do campo santo estavam quebradas junto a uma cruz.
O frio da noite, aquele sono dormido a chuva, causaram-me uma febre.
No meu delírio passava e repassava aquela brancura de mulher, gemiam
aqueles soluços e todo aquele devaneio se perdia num canto suavíssimo...
Um ano depois voltei a Roma. Nos beijos das mulheres nada me
saciava: no sono da saciedade me vinha aquela visão.
Uma noite, e após uma orgia, eu deixara dormida no leito dela a
condessa Barbara. Dei um último olhar áquela forma nua e adormecida com a
febre nas faces e a lascívia nos lábios úmidos, gemendo ainda nos sonhos
como na agonia volutuosa do amor. —Saí.. —Não sei se a noite era límpida
ou negra—sei apenas que a cabeça me escaldava de embriaguez. As taças
tinham ficado vazias na mesa: nos lábios daquela criatura eu bebera ate a
última gota o vinho do deleite.
Quando dei acordo de mim estava num lugar escuro: as estrelas
passavam seus raios brancos entre as vidraças de um templo. As luzes de
quatro círios batiam num caixão entreaberto. Abri-o: era o de uma moça.
Aquele branco da mortalha, as grinaldas da morte na fronte dela, naquela tez
lívida e embaçada, o vidrento dos olhos mal apertados... Era uma defunta! ... e
aqueles traços todos me lembraram uma idéia perdida. . —Era o anjo do
cemitério? Cerrei as portas da igreja, que, ignoro por que, eu achara abertas.
Tomei o cadáver nos meus braços para fora do caixão. Pesava como chumbo.
Sabeis a historia de Maria Stuart degolada e o algoz, "do cadáver sem
cabeça e o homem sem coração" como a conta Brantôme?Foi uma idéia
singular a que eu tive. Tomei-a no colo. Preguei-lhe mil beijos nos lábios. Ela
era bela assim: rasguei-lhe o sudário, despi-lhe o véu e a capela como o noivo
as despe a noiva. Era uma forma puríssima.. Meus sonhos nunca me tinham
evocado uma estatua tão perfeita. Era mesmo uma estátua: tão branca era ela.
A luz dos tocheiros dava-lhe aquela palidez de âmbar que lustra os mármores
antigos. O gozo foi fervoroso—cevei em perdição aquela vigília. A
madrugada passava já froixa nas janelas. Àquele calor de meu peito, a febre de
meus lábios, a convulsão de meu amor, a donzela pálida parecia reanimar-se.
Súbito abriu os olhos empanados. —Luz sombria alumiou-os como a de uma
estrela entre névoa—, apertou-me em seus braços, um suspiro ondeou-lhe nos
beiços azulados. Não era já a um desmaio. No aperto daquele abraço havia
contudo alguma coisa de horrível. O leito de lájea onde eu passara uma hora
de embriaguez me resfriava. Pude a custo soltar-me daquele aperto do peito
dela. Nesse instante ela acordou…
Nunca ouvistes falar da catalepsia? E um pesadelo horrível aquele que
gira ao acordado que emparedam num sepulcro; sonho gelado em que
sentem-se os membros tolhidos, e as faces banhadas de lágrimas alheias sem
poder revelar a vida!
A moça revivia a pouco e pouco. Ao acordar desmaiara. Embucei-me
na capa e tomei-a nos braços coberta com seu sudário como uma criança. Ao
aproximar-me da porta topei num corpo; abaixei-me—olhei: era algum
coveiro do cemitério da igreja que aí dormira de ébrio, esquecido de fechar a
porta .
Saí.—Ao passar a praça encontrei uma patrulha —Que levas aí?
A noite era muito alta—talvez me cressem um ladrão.
—E minha mulher que vai desmaiada
—Uma mulher! Mas essa roupa branca e longa? Serás acaso roubador
de cadáveres?
Um guarda aproximou-se. Tocou-lhe a fronte—era fria.
—E uma defunta
Cheguei meus lábios aos dela. Senti um bafejo morno.—Era a vida
ainda.
—Vede, disse eu.
O guarda chegou-lhe os lábios: os beiços ásperos roçaram pelos da
moça. Se eu sentisse o estalar de um beijo. . o punhal já estava nu em minhas
mãos frias
—Boa noite, moço: podes seguir, disse ele.
Caminhei.—Estava cansado. Custava a carregar o meu fardo: e eu
sentia que a moça ia despertar. Temeroso de que ouvissem-na gritar e
acudissem, corri com mais esforço. .
Quando eu passei a porta ela acordou. O primeiro som que lhe saiu da
boca foi um grito de medo
Mal eu fechara a porta, bateram nela. Era um bando de libertinos meus
companheiros que voltavam da orgia. Reclamaram que abrisse.
Fechei a moça no meu quarto—e abri.
Meia hora depois eu os deixava na sala bebendo ainda.
A turvação da embriaguez fez que não notassem minha. ausência.
Quando entrei no quarto da moça vi-a erguida. Ria de um rir convulso
como a insânia,, e frio como a folha de uma espada. Trespassava de dor o
ouvi-la.
Dois dias e duas noites levou ela de febre assim Não houve como
sanar-lhe aquele delírio, nem o rir do frenesi. Morreu depois de duas noites e
dois dias de delírio.
A noite sai—fui ter com um estatuário que trabalhava perfeitamente
em cera—e paguei-lhe uma estátua dessa virgem.
Quando o escultor saiu, levantei os tijolos de mármore do meu quarto,
e com as mãos cavei aí um túmulo.—Tomei-a então pela última vez nos
braços, apertei-a a meu peito muda e fria, beijei-a e cobri-a adormecida do
sono eterno com o lençol de seu leito.—Fechei-a no seu túmulo e estendi meu
leito sobre ele.
Um ano—noite a noite—dormi sobre as lajes que a cobriam Um dia o
estatuário me trouxe a sua obra. —Paguei-lha e paguei o segredo
Não te lembras, Bertram, de uma forma branca de mulher que
entreviste pelo véu do meu cortinado? Não te lembras que eu te respondi que
era uma virgem que dormia?
—E quem era essa mulher, Solfieri?
—Quem era? seu nome?
—Quem se importa com uma palavra quando sente que o vinho lhe
queima assaz os lábios? quem pergunta o nome da prostituta com quem
dormia e que sentiu morrer a seus beijos, quando nem ha dele mister por
escrever-lho na lousa?
Solfieri encheu uma taça—Bebeu-a.—Ia erguerse da mesa quando um
dos convivas tomou-o pelo braço.
—Solfieri, não e um conto isso tudo?
—Pelo inferno que não! por meu pai que era conde e bandido, por
minha mãe que era a bela Messalina das ruas—pela perdição que não! Desde
que eu próprio calquei aquela mulher com meus pés na sua cova de terra —eu
vô-lo juro—guardei-lhe como amuleto a capela de defunta.—Ei-la!
Abriu a camisa, e viram-lhe ao pescoço uma grinalda de flores
mirradas.
—Vede-la murcha e seca como o crânio dela!
III
BERTRAM
But why should I for others groan, When none will sigh for me/
CHILDE HAROLD, I.
Um outro conviva se levantou.
Era uma cabeça ruiva, uma tez branca, uma daquelas criaturas
fleumáticas que não hesitaram ao tropeçar num cadáver pare ter mão de um
fim.
Esvaziou o copo cheio de vinho, e com a barba nas mãos alvas, com os
olhos de verde-mar fixos, falou:
—Sabeis, uma mulher levou-me a perdição .Foi ela quem me queimou
a fronte nas orgias, e desbotou-me os lábios no ardor dos vinhos e na moleza
de seus beijos: quem me fez devassar pálido as longas noites de insônia nas
mesas do jogo, e na doidice dos abraços convulsos com que ela me apertava o
seio! Foi ela, vós o sabeis, quem fez-me num dia ter três duelos com meus três
melhores amigos, abrir três túmulos àqueles que mais me amavam na vida—e
depois, depois sentir-me só e abandonado no mundo, como a infanticida que
matou o seu filho, ou aquele Mouro infeliz junto a sua Desdêmona pálida!
Pois bem, vou contar-vos uma história que começa pela lembrança
desta mulher.
Havia em Cadiz uma donzela—linda daquele moreno das Andaluzas
que não ha vê-las sob as franjas da mantilha acetinada, com as plantas
mimosas, as mãos de alabastro, os olhos que brilham e os lábios de rosa
d'Alexandria—sem delirar sonhos delas por longas noites ardentes!
Andaluzas! sois muito belas! se o vinho, se as noites de vossa terra, o
luar de vossas noites, vossas flores, vossos perfumes são doces, são puros, são
embriagadores—vos ainda o sois mais! Oh! por esse eivar a eito de gozos de
uma existência fogosa nunca pude esquecer-vos!
Senhores! aí temos vinho de Espanha, enchei os copos—a saúde das
Espanholas!
Amei muito essa moça, chamava-se Ângela. Quando eu estava
decidido a casar-me com ela, quando após das longas noites perdidas ao
relento a espreitar-lhe da sombra um aceno, um adeus, uma flor—quando após
tanto desejo e tanta esperança eu sorvi-lhe o primeiro beijo—tive de partir da
Espanha para Dinamarca onde me chamava meu pai.
Foi uma noite de soluços e lágrimas, de choros e de esperanças, de
beijos e promessas, de amor, de voluptuosidade no presente e de sonhos no
futuro...Parti. Dois anos depois foi que voltei: quando entrei na case de meu
pai, ele estava moribundo: ajoelhou-se no seu leito e agradeceu a Deus ainda
ver-me: pôs as mãos na minha cabeça, banhou-me a fronte de lágrimas—eram
as últimas —depois deixou-se cair, pôs as mãos no peito, e com os olhos em
mim murmurou—Deus!
A voz sufocou-se-lhe na garganta: todos choravam.
Eu também chorava—mas era de saudades de Ângela
Logo que pude reduzir minha fortuna a dinheiro pu-la no banco de
Hamburgo, e parti pare a Espanha.
Quando voltei. Ângela estava casada e tinha um filho...
Contudo meu amor não morreu! Nem o dela!
Muito ardentes foram aquelas horas de amor e de lágrimas, de
saudades e beijos, de sonhos e maldições pare nos esqueceremos um do outro.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Uma noite, dois vultos alvejavam nas sombras de um jardim, as folhas
tremiam ao ondear de um vestido, as brisas soluçavam aos soluços de dois
amantes, e o perfume das violetas que eles pisavam, das roses e madressilvas
que abriam em torno dele era ainda mais doce perdido no perfume dos cabelos
soltos de uma mulher
Essa noite—foi uma loucura! foram poucas horas de sonhos de fogo! e
quão breve passaram! Depois a essa noite seguiu-se outra, outra e muitas
noites as folhas sussurraram ao roçar de um passo misterioso, e o vento se
embriagou de deleite nas nossas frontes pálidas...
Mas um dia o marido soube tudo: quis representar de Otelo com ela.
Doido
Era alta noite: eu esperava ver passar nas cortinas brancas a sombra do
anjo. Quando passei, uma voz chamou-me. Entrei—Ângela com os pés nus, o
vestido solto, o cabelo desgrenhado e os olhos ardentes tomou-me pela mão
Senti-lhe a mão úmida Era escura a escada que subimos: passei a minha mão
molhada pela dela por meus lábios.—Tinha saibo de sangue.
— Sangue, Ângela! De quem e esse sangue?
A Espanhola sacudiu seus longos cabelos negros e riu-se.
Entramos numa sala. Ela foi buscar uma luz, e deixou-me no escuro.
Procurei, tateando, um lugar para assentar-me: toquei numa mesa. Mas
ao passar-lhe a mão senti-a banhada de umidade: além senti uma cabeça fria
como neve e molhada de um líquido espesso e meio coagulado. Era sangue.
Quando Ângela veio com a luz, eu vi Era horrível. O marido estava
degolado.
Era uma estátua de gesso lavada em sangue Sobre o peito do
assassinado estava uma criança de bruços. Ela ergueu-a pelos cabelos Estava
morta também: o sangue que corria das veias rotas de seu peito se misturava
com o do pai!
—Vês,, Bertram, esse era o meu presente: agora será, negro embora,
um sonho do meu passado. Sou tua e tua só. Foi por ti que tive força bastante
para tanto crime Vem, tudo esta pronto, fujamos. A nós o futuro!
Foi uma vida insana a minha com aquela mulher! Era um viajar sem
fim. Ângela vestia-se de homem: era um formoso mancebo assim. No demais
ela era como todos os moços libertinos que nas mesas da orgia batiam com a
taça na taça dela. Bebia já como uma inglesa, fumava como uma Sultana,
montava a cavalo como um árabe,, e atirava as armas como um espanhol.
Quando o vapor dos licores me ardia a fronte ela m'a repousava em
seus joelhos, tomava um bandolim e me cantava as modas de sua terra
Nossos dias eram lançados ao sono como pérolas ao amor: nossas
noites sim eram belas!
Um dia ela partiu: partiu, mas deixou-me os lábios ainda queimados
dos seus, e o coração cheio de gérmen de vícios que ela aí lançara. Partiu. Mas
sua lembrança ficou como o fantasma de um mau anjo perto de meu leito.
Quis esquecê-la no jogo, nas bebidas, na paixão dos duelos. Tornei-me
um ladrão nas cartas, um homem perdido por mulheres e orgias, um
espadachim terrível e sem coração.
Uma noite eu caíra ébrio as portas de um palácio: os cavalos de uma
carruagem pisaram-me ao passar e partiram-me a cabeça de encontro a lájea.
Acudiram-me desse palácio. Depois amaram-me: a família era um nobre velho
viúvo e uma beleza peregrina de dezoito anos. Não era amor de certo o que eu
sentia por ela— não sei o que foi — era uma fatalidade infernal. A pobre
inocente amou-me; e eu recebido como o hóspede de Deus sob o teto do velho
fidalgo, desonrei-lhe a filha, roubei-a, fugi com ela E o velho teve de chorar
suas cãs manchadas na desonra de sua filha, sem poder vingar-se.
Depois enjoei-me dessa mulher. —A saciedade c um tédio terrível—
uma noite que eu jogava com Siegfried—o pirata, depois de perder as últimas
jóias dela, vendi-a.
A moça envenenou Siegfried logo na primeira noite, e afogou-se
Eis aí quem eu sou: se quisesse contar-vos longas historias do meu
viver, vossas vigílias correriam breves demais…
Um dia—era na Itália—saciado de vinho e mulheres eu ia suicidar-me
A noite era escura e eu chegara só na praia. Subi num rochedo: dai minha
última voz foi uma blasfêmia, meu último adeus uma maldição... meu último
digo mal; porque senti-me erguido nas águas pelo cabelo.
Então na vertigem do afogo o anelo da vida acordou-se em mim. A
princípio tinha sido uma cegueira —uma nuvem ante meus olhos, como aos
daquele que labuta na trevas. A sede da vida veio ardente: apertei aquele que
me socorria: fiz tanto, em uma palavra, que, sem querê-lo, matei-o. Cansado
do esforço desmaiei
Quando recobrei os sentidos estava num escaler de marinheiros que
remavam mar em fora. Aí soube eu que meu salvador tinha morrido afogado
por minha culpa. Era uma sina, e negra; e por isso ri-me; ri-me, enquanto os
filhos do mar choravam.
Chegamos a uma corveta que estava erguendo âncora.
O comandante era um belo homem. Pelas faces vermelhas caiam-lhe
os crespos cabelos loiros onde a velhice alvejava algumas cãs.
Ele perguntou-me:
—Quem és?
—Um desgraçado que não pode viver na terra, e não deixaram morrer
no mar.
—Queres pois vir a bordo?
—A menos que não prefirais atirar-me ao mar.
—Não o faria: tens uma bela figura. Levar-te-ei comigo. Servirás...
—Servir!—e ri-me: depois respondi-lhe frio: deixai que me atire ao
mar
—Não queres servir? queres então viajar de braços cruzados?
—Não: quando for a hora da manobra dormirei: mas quando vier a
hora do combate ninguém será mais alente do que eu
—Muito bem:: gosto de ti, disse o velho lobo do mar. Agora que
estamos conhecidos dize-me teu nome e tua história.
—Meu nome e Bertram. Minha história? escutai: Q passado e um
túmulo! Perguntai ao sepulcro a historia do cadáver! guarda o segredo ele
dir-vos-a apenas que tem no seio um corpo que se corrompe! tereis sobre a
lousa um nome—e não mais!
O comandante franziu as sobrancelhas, e passou adiante para
comandar a manobra.
O comandante trazia a bordo uma bela moça. Criatura pálida, parecera
a um poeta o anjo da esperança adormecendo esquecido entre as ondas. Os
marinheiros a respeitavam: quando pelas noites de lua ela repousava o braço
na amurada e a face na mão aqueles que passavam junto dela se descobriam
respeitosos. Nunca ninguém lhe vira olhares de orgulho, nem lhe ouvira
palavras de cólera: era uma santa.
Era a mulher do comandante.
Entre aquele homem brutal e valente, rei bravio ao alto mar, esposado,
como os Doges de Veneza ao Adriático, a sua garrida corveta—entre aquele
homem pois e aquela mandona havia um amor de homem como palpita o peito
que longas noites abriu-se as luas do oceano solitário, que adormeceu
pensando nela ao frio das vagas e ao calor dos trópicos, que suspirou nas horas
de quarto, alta noite na amurada do navio, lembrando-a nos nevoeiros da
cerração, nas nuvens da tarde… Pobres doidos! parece que esses homens
amam muito! A bordo ouvi a muitos marinheiros seus amores singelos: eram
moças loiras da Bretanha e da Normandia, ou alguma Espanhola de cabelos
negros vista ao passar—sentada na praia com sua cesta de flores—ou
adormecida entre os laranjais cheirosos—ou dançando o fandango lascivo nos
bailes ao relento! Houve junto a mim muitas faces ásperas e tostadas ao sol do
mar que se banharam de lágrimas.... .
Voltemos a história.—O comandante a estremecia como um louco—
um pouco menos que a sua honra, um pouco mais que sua corveta.
E ela—ela no meio de sua melancolia, de sua tristeza e sua palidez—
ela sorria as vezes quando cismava sozinha—mas era um sorrir tão triste que
doía. Coitada!
Um poeta a amaria de joelhos. Uma noite—de certo eu estava ébrio—
fiz-lhe uns versos. Na lânguida poesia, eu derramara uma essência preciosa e
límpida que ainda não se poluíra no mundo. . .
Bofé que chorei quando fiz esses versos. Um dia. meses depois—li-os,
ri-me deles e de mim e atirei-os ao mar. . . Era a última folha da minha
virgindade que lançava ao esquecimento.
Agora, enchei os copos: o que vou dizer-vos e negro: e uma lembrança
horrível, como os pesadelos no Oceano.
Com suas lágrimas, com seus sorrisos, com seus olhos úmidos, e os
seios intumescidos de suspiro—aquela mulher me enlouquecia as noites. Era
como uma vida nova que nascia cheia de desejos, quando eu cria que todos
eles eram mortos como crianças afogadas em sangue ao nascer.
Amei-a: por que dizer-vos mais? Ela amou-me também. Uma vez a luz
ia límpida e serena sobre as águas —as nuvens eram brancas como um véu
recamado de pérolas da noite—o vento cantava nas cordas. Bebi-lhe na pureza
desse luar, ao fresco dessa noite, mil beijos nas faces molhadas de lágrimas,
como se bebe o orvalho de um lírio cheio. Aquele seio palpitante, o contorno
acetinado, apertei-os sobre mim
O comandante dormia.
Uma vez ao madrugar o gajeiro assinalou um navio. Meia hora depois
desconfiou que era um pirata...
Chegavamos cada vez mais perto. Um tiro de pólvora seca da corveta
reclamou a bandeira. Não responderam. Deu-se segundo—nada. Então um tiro
de bala foi cair nas águas do barco desconhecido como uma luva de duelo. O
barco que ate então tinha seguido rumo oposto ao nosso e vinha proa contra
nossa proa virou de bordo e apresentou-nos seu flanco enfumaçado: um
relâmpago correu nas baterias do pirata—um estrondo seguiu-se—e uma
nuvem de balas veio morrer perto da corveta.
Ela não dormia, virou de bordo: os navios ficaram lado a lado. A
descarga do navio de guerra o pirata estremeceu como se quisesse ir a pique.
O pirata fugia: a corveta deu-lhe caça as descargas trocaram-se então
mais fortes de ambos os lados.
Enfim o pirata pareceu ceder. Atracaram-se os dois navios como para
uma luta. A corveta vomitou sua gente a bordo do inimigo. O combate
tornou-se sangrento— era um matadouro: o chão do navio escorregava de
tanto sangue: o mar ansiava cheio de escumas ao boiar de tantos cadáveres.
Nesta ocasião sentiu-se uma fumaça que subia do porão. O pirata dera fogo as
pólvora. . . Apenas a corveta por uma manobra atrevida pôde afastar-se do
perigo. Mas a explosão fez-lhe grandes estragos. Alguns minutos depois o
barco do pirata voou pelos ares. Era uma cena pavorosa ver entre aquela
fogueira de chamas, ao estrondo da pólvora, ao reverberar deslumbrador do
fogo nas águas, os homens arrojados ao ar irem cair no oceano.
Uns a meio queimados se atiravam a água, outros com os membros
esfolados e a pele a despegar-se-lhes do corpo nadavam ainda entre dores
horríveis e morriam torcendo-se em maldições
A uma légua da cena do combate havia uma praia bravia, cortada de
rochedos Aí se salvaram os piratas que puderam fugir.
E nesse tempo enquanto o comandante se batia como um bravo, eu 0
desonrava como um covarde.
Não sei como se passou o tempo todo que decorreu depois. Foi uma
visão de gozos malditos — eram os amores de Satan e de Eloa, da morte e da
vida, no leito do mar.
Quando acordei um dia desse sonho, o navio tinha encalhado num
banco de areia: o ranger da quilha a morder na areia gelou a todos Meu
despertar foi a um grito de agonia
—Ola, mulher! taverneira maldita, não vês que Q vinho acabou-se?
Depois foi um quadro horrível! Éramos nós numa jangada no meio do
mar. Vós que lestes o Don Juan, que fizestes talvez daquele veneno a vossa
Bíblia, que dormistes as noites da saciedade como eu, com a face sobre ele—e
com os olhos ainda fitos nele vistes tanta vez amanhecer—sabeis quanto se
core de horror ante aqueles homens atirados ao mar, num mar sem horizonte,
ao balouço das águas, que parecem sufocar seu escárnio na mudez fria de uma
fatalidade!
Uma noite—a tempestade veio—apenas houve tempo de amarrar
nossas munições Fora mister ver o Oceano bramindo no escuro como um
bando de leões com fome, pare saber o que e a borrasca—fora mister ye-la de
uma jangada a luz da tempestade, as blasfêmias dos que não crêem e
maldizem, as lágrimas dos que esperam e desesperam, aos soluços dos que
tremem e tiritam de susto como aquele que bate a porta do nada... E eu, eu ria:
era como o gênio do ceticismo naquele deserto. Cada vaga que varria nossas
tábuas descosidas arrastava um homem—mas cada vaga que me rugia aos pés
parecia respeitar-me. Era um Oceano como aquele de fogo onde caíram os
anjos perdidos de Milton—o cego: quando eles passavam cortando-as a nado,
as águas do pântano de lava se apertavam: a morte era pare os filhos de Deus
—não pare o bastardo do mal!
Toda aquela noite passei-a com a mulher do comandante nos braços.
Era um himeneu terrível aquele que se consumava entre um descrido e uma
mulher pálida que enlouquecia: o tálamo era o Oceano, a escuma das vagas
era a seda que nos a alcatifava o leito. Em meio daquele concerto de uivos que
nos ia ao pé, os gemidos nos sufocavam: e nós rolávamos abraçados—atados a
um cabo da jangada — por sobre as tábuas
Quando a aurora veto, restávamos cinco: era, a mulher do comandante,
ele e dois marinheiros—…
Alguns dias comemos umas bolachas repassadas da salsugem da água
do mar. Depois tudo o que houve de mais horrível se passou .
—Por que empalideces, Solfieri? a vida e assim. Tu o saber como eu o
sei. O que e o homem? e a escuma que ferve hoje na torrente e amanha
desmaia: alguma coisa de louco e movediço como a vaga, de fatal como o
sepulcro! O que e a existência? Na mocidade e o caleidoscópio das ilusões::
vive-se então da seiva do futuro. Depois envelhecemos quando chegamos aos
trinta anos e o suor das agonies nos grisalhou os cabelos antes do tempo, e
murcharam como nossas faces as nossas esperanças, oscilamos entre o
passado visionário, e este amanha do velho, gelado e ermo—despido como um
cadáver que se banha antes de dar a sepultura! Miséria! loucura!
—Muito bem!! miséria e loucura! —interrompeu uma voz.
O homem que falara era um velho. A fronte se lhe descalvara, e longas
e fundas rugas a sulcavam—eram ondas que o vento da velhice lhe cavava no
mar da vida. . Sob espessas sobrancelhas grisalhas lampejavam-lhe os olhos
pardos e um espesso bigode lhe cobria parte dos lábios. Trazia um gibão negro
e roto, e um manto desbotado, da mesma cor lhe caia dos ombros.
—Quem és, velho?—perguntou o narrador.
—Passava lá fora:: a chuva caia a cântaros: a tempestade era medonha:
entrei. Boa-noite, senhores! se houver mais uma taça na vossa mesa, enchei-a
ate as bordas e beberei convosco.
—Quem es?
—Quem eu sou? na verdade fora difícil dizê-lo: corri muito mundo, a
cada instante mudando de nome e de vida.—Fui poeta—e como poeta cantei..
Fui soldado, e banhei minha fronte juvenil nos últimos raios de sol da águia de
Waterloo.—Apertei ao fogo da batalha a mão do homem do século. Bebi
numa taverna com Bocage—o português,, ajoelhei-me na Itália sobre o túmulo
de Dante—e fui a Grecia para sonhar como Byron naquele túmulo das glórias
do passado.—Quem eu sou? Fui um poeta aos vinte anos, um libertino aos
trinta —sou um vagabundo sem pátria e sem crenças aos quarenta. Sentei-me
a sombra de todos os sóis—beijei lábios de mulheres de todos os países—e de
todo esse peregrinar só trouxe duas lembranças—mu amor de mulher que
morreu nos meus braços na primeira noite de embriaguez e de febre—e uma
agonia de poeta Dela, tenho uma rosa murcha e a fita que prendia seus
cabelos.—Dele—olhai. . .
O velho tirou do bolso um embrulho: era um lençol vermelho o
invólucro: desataram-no: dentro estava uma caveira.
—Uma caveira! — gritaram em torno: es um profanador de
sepulturas?
—Olha, mocó, se entendes a ciência de Gall e Spurzheim, dize-me
pela protuberância dessa fronte, e pelas bossas dessa cabeça quem podia ser
esse homem?
—Talvez um poeta—talvez um louco.
—Muito bem! adivinhaste. S6 erraste não dizendo que talvez ambas as
coisas a um tempo. Sêneca o disse— a poesia e a insânia. Talvez o gênio seja
uma alucinação, e o entusiasmo precise da embriaguez para escrever o hino
sanguinário e fervoroso de Rouget de I'Isle,, ou pare, na criação do painel
medonho do Cristo morto de Holbein, estudar a corrupção no cadáver. Na vida
misteriosa de Dante, nas orgias de Marlowe, no peregrinar, de Byron havia
uma sombra da doença de Hamlet: quem sabe?
—Mas a que vem tudo isso?
—Não bradastes—miséria e loucura! vós, almas onde talvez
borbulhava o sopro de Deus, cérebros que a luz divindade gênio esclarecia, e
que o vinho enchia de vapores e a saciedade de escárnios? Enchei as taças ate
a borda! enchei-as e bebei; bebei a lembrança do cérebro que ardeu nesse
crânio, da alma que ai habitou, do poeta louco—Werner! e eu bradarei ainda
uma vez:—miséria e loucura!
O velho esvaziou o copo, embuçou-se e saiu. Bertram continuou a sue
história
—Eu vos dizia que ia passar-se uma coisa horrível: não havia mais
alimentos, e no homem despertava a voz do instinto, das entranhas que tinham
fome, que pediam seu cevo como 0 cão do matadouro, fosse embora sangue.
A fome! a sede! tudo quanto há de mais horrível. .
Na verdade, senhores, o homem e uma criatura perfeita! Estatuário
sublime, Deus esgotou no talhar desse mármore todo o seu esmero. Prometeu
divino, encheu-lhe o crânio protuberante da luz do gênio. Ergueu-o pela mão,
mostrou-lhe c mundo do alto da montanha, como Satan quatro séculos depois
o fez a Cristo, e disse-lhe: Vê,, tudo isso e belo—vales e montes, águas do mar
que espumam, folhas das florestas que tremem e sussurram como as asas dos
meus anjos—tudo isso e teu. Fiz-te o mundo belo no véu purpúreo do
crepúsculo,, doureit'o aos raios de minha face. Fiz-te rei da terra! banha a
fronte olímpica nessas brisas, nesse orvalho, na escuma dessas cataratas.
Sonha como a noite, canta como os anjos, dorme entre as flores! Olha! entre
as folhas floridas do vale dorme uma criatura branca como o véu das minhas
virgens, loira como o reflexo das minhas nuvens, harmoniosa como as aragens
do céu nos arvoredos da terra.— E tua: acorda-a: ama-a, e ela te amara; no
seio dela, nas ondas daquele cabelo, afoga-te como o sol entre vapores. —Rei
no peito dela, rei na terra, vive de amor e crença, de poesia e de beleza,
levanta-te, vai, e serás feliz!
Tudo isso e belo, sim—mas e a ironia mais amarga, a decepção mais
árida de sodas as ironias e de sodas as decepções. Tudo isso se apaga diante de
dois fatos muito prosaicos—a fome e a sede.
O gênio, a águia altiva que se perde nas nuvens, que se aquenta no
eflúvio da luz mais ardente do sol—cair assim com as asas torpes e
verminosas no lodo das charnecas? Poeta! porque no meio do arroubo mais
sublime do espírito, uma voz sarcástica e mefistofélica te brada—meu Faust,
ilusões! a realidade e a matéria: Deus escreveu Aváyxn na fronte de sue
criatura! —Don juan! porque chores a esse beijo morno de Haidea que
desmaia-te nos braços?? a prostituta vender-t'os-a amanha mais
queiomadores!. Miséria!! E dizer que tudo o que há de mais divino no homem,
de mais santo e perfumado na alma se infunde no lodo da realidade, se revolve
no charco e ache ainda uma convulsão infame pare dizer—sou feliz!. . .
Isso tudo, senhores, pare dizer-vos uma coisa muito simples um fato
velho e batido—uma pratica do mar, uma lei do naufrágio—a antropofagia.
Dois dias depois de acabados os alimentos, restavam três pessoas: eu,
o comandante e ela—eram três figuras macilentas como o cadáver, cujos ] nus
arquejavam como a agonia, cujos olhares fundos e sombrios se injetavam de
sangue como a loucura.
O uso do mar—não quero dizer a voz da natureza física,, o brado do
egoísmo do homem—manda a morte de um para a vida de todos. —Tiramos a
sorte—o comandante teve por lei morrer.
Então o instinto de vida se lhe despertou ainda Por um dia mais, de
existência, mais um dia de fome e sede, de leito úmido e varrido pelos ventos
frios do norte, mais umas horas mortas de blasfêmia e de agonia, de esperança
e desespero—de orações e descrenças—de febre e de ânsia—o homem
ajoelhou-se, chorou, gemeu a meus pés...
—Olhai, dizia o miserável,, esperemos ate amanha. . Deus terá
compaixão de nos Por vossa mãe,, pelas entranhas de vossa mãe!!! por Deus
se ele existe! deixai, deixai-me ainda viver!
Oh! a esperança e pois como uma parasita que morde e despedaça o
tronco, mas quando ele cai, quando morre e apodrece, ainda o aperta em seus
convulsos braços! Esperar! quando o vento do mar açouta as ondas, quando a
escuma do oceano vos lava o corpo lívido e nu, quando o horizonte e deserto e
sem termo, e as velas que;. branqueiam ao longe parecem fugir! Pobre louco!
Eu ri-me do velho.—Tinha as entranhas em fogo. —Morrer hoje,
amanha, ou depois—tudo me era indiferente, mas hoje eu tinha fome, e ri-me
porque tinha fome.
O velho lembrou-me que me acolhera a seu bordo, por piedade de
mim—lembrou-me que me amava— e uma torrente de soluços e lágrimas
afogava o bravo que nunca empalidecera diante da morte.
Parece que a morte no oceano e terrível para os outros homens: quando
o sangue lhes salpica as faces, lhes ensopa as mãos, correm a morte como um
rio ao mar—como a cascavel ao fogo. Mas assim—no deserto —nas águas—
eles temem-na, tremem diante dessa caveira fria da morte!
Eu ri-me porque tinha fome.
Então o homem ergueu-se. A fúria levantou nele —com a ultima
agonia. Cambaleava, e um suor frio lhe corria no peito descarnado.—
Apertou-me nos seus braços amarelentos e lutamos ambos corpo a corpo,
peito a peito, pé por pé—por um dia de miséria!
A lua amarelada erguia sua face desbotada, como uma meretriz
cansada de uma noite de devassidão — do céu escuro parecia zombar desses
dois moribundos que lutavam por uma hora de agonia. . .
O valente do combate desfalecia—caiu: pus-lhe o pé na garganta—
sufoquei-o—e expirou.. .
Não cubrais o rosto com as mãos — farieis mesmo. . . Aquele cadáver
foi nosso alimento dois dias. ..
Depois, as aves do mar já baixavam para partilhar minha presa; e as
minhas noites fastientas uma sombra vinha reclamar sua ração de carne
humana. . .
Lancei os restos ao mar. . .
Eu e a mulher do comandante passamos—um dia. dois—sem comer
nem beber. . .
Então ela propôs-me morrer comigo.—Eu disse-lhe que sim. Esse dia
foi a ultima agonia do amor que nos queimava: gastomo-lo em convulsões
para sentir ainda o mel fresco da voluptuosidade banhar-nos os lábios. . . Era o
gozo febril que podem ter duas criaturas em delírio de morte. Quando
soltei-me dos braços dela a fraqueza a fazia desvairar. O delírio tornava-se
mais longo, mais longo: debruçava-se nas ondas e bebia a água salgada, e
oferecia-m'a nas mãos pálidas, dizendo que era vinho. As gargalhadas frias
vinham mais de entuviada
Estava louca.
Não dormi-não podia dormir: uma modorra ardente me fervia as
pálpebras: o hálito de meu peito parecia fogo: meus lábios secos e estalados
apenas se orvalham de sangue.
Tinha febre no cérebro—e meu estômago tinha fome. Tinha fome
como a fera.
Apertei-a nos meus braços, oprimi-lhe nos beiços a minha boca em
fogo: apertei-a convulsivo—sufoquei-a. Ela era ainda tão bela!
Não sei que delírio estranho se apoderou de mim. Uma vertigem me
rodeava. O mar parecia rir de mim, c rodava em torno, escumante e
esverdeado, como um sorvedoiro. As nuvens pairavam correndo e pareciam
filtrar sangue negro. O vento que me passava nos cabelos murmurava uma
lembrança..
De repente senti-me só. Uma onda me arrebatara o cadáver. Eu a vi
boiar pálida como suas roupas brancas, seminua, com os cabelos banhados de
água:: eu via-a erguer-se na escuma das vagas, desaparecer, e boiar de novo:
depois não 2 distingui mais—era como a escuma das vagas, como um lençol
lançado nas águas...
Quantas horas quantos dias passei naquela modorra nem o sei .
Quando acordei desse pesadelo de homem desperto, estava a bordo de um
navio.
Era o brigue inglês Swallow, que me salvara
Olá, taverneira, bastarda de Satan, não vês que tenho sede, e as
garrafas estão secas, secas como tua face como nossas gargantas?
IV
GENNARO
Meurs ou tue!
CORNEILLE
—Gennaro, dormes, ou embebes-te no sabor do ultimo trago do vinho,
da última fumaça do teu cachimbo?
—Não: quando contavas tua historia, lembrava-me uma folha da vida,
folha seca e avermelhada como as do outono, e que o vento varreu.
— Uma historia?
—Sim: e uma das minhas historias: sabes, Bertram, eu sou pintor, e
uma lembrança triste essa que vou revelar, porque e a historia de um velho e
de duas mulheres, belas como duas visões de luz.
Godofredo Walsh era um desses velhos sublimes, em cujas cabeças as
cãs semelham o diadema prateado do gênio. Velho já, casara em segundas
núpcias com uma beleza de vinte anos. era pintor: diziam uns que este
casamento fora um amor artístico por aquela beleza Romana, como que feita
ao molde das belezas antigas—outros criam-no compaixão pela pobre moca
que vivia de servir de modelo. O fato e que ele a queria como filha—como
Laura, a filha única de seu primeiro casamento—Laura, corada como uma
rosa, e loira como um anjo.
Eu era nesse tempo moço era aprendiz de pintura em case de
Godofredo. Eu era lindo então! que trinta anos lá vão! que ainda os cabelos e
as faces me não haviam desbotado como nesses longos quarenta e dois anos
de vida! Eu era aquele tipo de mancebo ainda puro do ressumbrar infantil,
pensativo e melancólico como o Rafael se retratou no quadro da galeria
Barberini. Eu tinha quase a idade da mulher do mestre.—Nauza tinha vinte —
e eu tinha dezoito anos.
Amei-a, mas meu amor era puro como meus sonhos de dezoito anos.
Nauza também me amava: era um sentir tão puro! era uma emoção solitária e
perfumosa como as primaveras cheias de flores e de brisas que nos
embalavam aos céus da Itália..
Como eu o disse—o mestre tinha uma filha chamada Laura. Era uma
moca pálida, de cabelos castanhos e olhos azulados; sue tez era branca, e só as
vezes, quando Q pejo a incendia, duas rosas lhe avermelhavam a face e se
destacavam no fundo de mármore. Laura parecia querer-me como a um
irmão.. Seus risos,, seus beijos de criança de quinze anos eram só pare mim. A
noite, quando eu ia deitar-me, ao passar pelo corredor escuro com minha
lâmpada,, uma sombra me apagava a luz e um beijo me pousava nas faces, nas
trevas.
Muitas noites foi assim.
Uma manhã—eu dormia ainda—o mestre saíra e Nauza fora a igreja—
quando Laura entrou no meu quarto e fechou a porta: deitou-se a meu lado.
Acordei —nos braços dela.
O fogo de meus dezoito anos, a primavera virginal de uma beleza,
ainda inocente, o seio seminu de uma donzela a bater sobre 0 meu: isso tudo
ao despertar dos sonhos alvos da madrugada, me enlouqueceu...
Todas as manhas Laura vinha a meu quarto. . .
Três meses passaram assim. Um dia entrou ela no meu quarto e
disse-me:
—Gennaro, estou desonrada pare sempre... A principio eu quis-me
iludir—já não o posso—estou de esperanças. . .
Um raio que me caísse aos p pés me assustaria tanto.
— E preciso que cases comigo— pai, ouves, Gennaro?
Eu calei-me.
—Não me amas então?
Calei-me ainda.
—Oh! Gennaro, Gennaro!
E caiu no meu ombro desfeita em soluços. Carreguei-a assim fria e
fora de si pare seu quarto.
Nunca mais tornou a falar-me em casamento.
Que havia de eu fazer? contar tudo ao pai e pedi-la em casamento?
Fora uma loucura... Ele me mataria e a ela: ou pelo menos me expulsaria de
sue casa...: E Nauza? cada vez eu a amava mais. Era uma lute terrível essa que
se travava entre o dever e o amor, e entre o dever e o remorso.
Laura não me falara mais. Seu sorriso era frio: cada dia tornava-se
mais pálida, mas a gravidez não crescia, antes mais nenhum sinal se lhe
notava . .
O velho levava as noites passeando no escuro. Já não pintava. Vendo a
filha que morria aos sons secretos de uma harmonia de morte, que empalidecia
cada vez mais, o misérrimo arrancava as cãs.
Eu contudo não esquecera Nauza, nem ela se esquecia de mim. Meu
amor era sempre o mesmo: eram sempre noites de esperança e de sede que me
banhavam de lágrimas o travesseiro. Só as vezes a sombra de um remorso me
passava, mas a imagem dela dissipava todas essas névoas . . .
Uma noite... foi horrível... vieram chamar-me: Laura morria. Na febre
murmurava meu nome e palavras que ninguém podia reter, tão apressadas e
confusas lhe soavam. Entrei no quarto dela: a doente conheceu-me. Ergueu-se
branca, com a face úmida de um suor copioso: chamou-me. Sentei-me junto
do leito dela. Apertou minha mão nas suas mãos frias e murmurou em meus
ouvidos:
—Gennaro, eu te perdôo: eu te perdôo tudo…Eras um infame. . .
Morrerei. . . Fui uma louca. . . Morrerem.. por tua causa... teu filho... o meu...
vou vê-lo ainda.. . mas no céu... Meu filho que matei. .. antes de nascer...
Deu um grito: estendeu convulsivamente os braços como para repelir
uma idéia, passou a mão pelos lábios como para enxugar as ultimas gotas de
uma bebida, estorceu-se no leito, lívida, fria, banhada de suor gelado, e
arquejou. . . Era o ultimo suspiro.
Um ano todo se passou assim para mim. O velho parecia endoidecido.
Todas as noites fechava-se no quarto onde morrera Laura: levava ai a noite
toda em solidão. Dormia? ah que não! Longas horas eu o escutei no silêncio
arfar com ânsia,, outras vezes afogar-se em soluços.
Depois tudo emudecia: o silencio durava horas—o quarto era escuro: e
depois as passadas pesadas do mestre se ouviam pelo quarto, mas vacilantes
como de um bêbedo que cambaleia.
Uma noite eu disse a Nauza que a amava: ajoelhei-me junto dela,
beijei-lhe as mãos, reguei seu colo de lágrimas. Ela voltou a face: eu cri que
era desdém, ergui-me
—Então Nauza, tu não me amas, disse eu.
Ela permanecia com o rosto voltado.
—Adeus, pois: perdoai-me se vos ofendi: meu amor e uma loucura,
minha vida e uma desesperança—o que me resta? Adeus, irei longe —longe
daqui talvez então eu possa chorar sem remorso
Tomei-lhe a mão e beijei-a.
Ela deixou sua mão nos meus lábios.
Quando ergui a cabeça, eu a vi: ela estava debulhada em lágrimas.
—Nauza—Nauza—uma palavra, tu me amas?
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Tudo o mais foi um sonho: a lua passava entre os vidros da janela
aberta, e batia nela: nunca eu a vira tão pura e divina!
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E as noites que o mestre passava soluçando no leito vazio de sua filha,
eu as passava no leito dele, nos braços de Nauza.
Uma noite houve um fato pasmoso.
O mestre veio ao leito de Nauza. Gemia e chorava aquela voz
cavernosa e rouca: tomou-me pelo braço com força acordou-me, e levou-me
de rasto ao quarto de Laura
Atirou-me ao chão: fechou a porta. Uma lâmpada estava acesa no
quarto defronte de um painel. Ergueu o lençol que o cobria.—Era Laura
moribunda! E eu macilento como ela tremia como um condenado. A moca
com seus lábios pálidos murmurava no meu ouvido…
Eu tremi de ver meu semblante tão lívido na tela: e lembrei-me que
naquele dia ao sair do quarto da morta, no espelho dela que estava ainda
pendurado a janela, eu me horrorizara de ver-me cadavérico...
Um tremor, um calafrio se apoderou de mim. Ajoelhei-me, e chorei
lágrimas ardentes. Confessei tudo: parecia-me que era ela quem o mandava,
que era Laura que se erguia dentre os lençois do seu leito, e me acendia o
remorso, e no remorso me rasgava o peito.
Por Deus! que foi uma agonia!
No outro dia o mestre conversou comigo friamente. Lamentou a falta
de sua filha—mas sem uma lágrima: sobre o passado na noite, nem palavra.
Todas as noites era a mesma tortura, todos os dias a mesma frieza.
O mestre era sonâmbulo…
E pois eu não me cri perdido…
Contudo lembrei-me que uma noite, quando eu saia do quarto de Laura
com o mestre, no escuro vira uma roupa branca passar-me por perto,
roçaram-me uns cabelos soltos, e nas lájeas do corredor estalavam umas
passadas tímidas de pés nus Era Nauza que tudo vira c tudo ouvira, que se
acordara e sentira minha falta no leito, que ouvira esses soluços e gemidos, e
correra para ver…
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Uma noite, depois da ceia, o mestre Walsh tomou sua capa e uma
lanterna, e chamou-me para acompanhá-lo. Tinha de sair fora da cidade e não
queria ir só. Saimos juntos: a noite era escura e fria. O outono desfolhara as
arvores e os primeiros sopros do inverno rugam nas folhas secas do chão.
Caminhamos juntos muito tempo: cada vez mais nos entranhávamos pelas
montanhas, cada vez o caminho era mais solitário. O velho parou. Era na
fralda de uma montanha. A direita o rochedo se abria num trilho: a esquerda
as pedras soltas por nossos pés a cada passada se despegavam e rolavam pelo
despenhadeiro, e instantes depois se ouvia um som como de água onde cai um
peso…
A noite era escuríssima. Apenas a lanterna alumiava o caminho
tortuoso que seguíamos. O velho lançou os olhos a escuridão do abismo e
riu-se.
—Espera-me ai, disse ele—ja venho.
Godofredo tomou a lanterna e seguiu para o cume da montanha: eu
sentei-me no caminho a sua espera: vi aquela luz ora perder-se, ora reaparecer
entre os arvoredos nos ziguezagues do caminho. Por fim vi-a parar. O velho
bateu a porta de uma cabana: a porta abriu-se. Entrou. O que ai se passou nem
o sei: quando a porta abriu-se de novo uma mulher lívida e desgrenhada
apareceu com um facho na mão.
A porta fechou-se. Alguns minutos depois o mestre estava comigo.
O velho assentou a lanterna num rochedo, despiu a capa e disse-me:
—Gennaro, quero contar-te uma história. E um crime, quero que sejas
juiz dele. Um velho era casado com uma moca bela. De outras núpcias tinha
uma filha bela também Um aprendiz—um miserável que ele erguera da
poeira, como 0 vento as vezes ergue uma folha, mas que ele podia reduzir a
ela quando quisesse…
Eu estremeci, os olhares do velho pareciam ferir-me.
—Nunca ouviste essa história, meu bom Gennaro?
—Nunca—disse eu a custo e tremendo.
—Pois bem—esse infame desonrou o pobre velho: traiu-o como Judas
ao Cristo.
—Mestre, perdão!
— Perdão! E perdoou o malvado ao pobre coração do velho?
— Piedade!
— E teve ele dó da virgem, da desonra, da infânciticida?
—Perdão!—e perdoou o malvado ao pobre coração do velho?
—Piedade!
—E teve ele dó da virgem, da desonra, da infanticida?
—Ah!—gritei.
—Que tens? conheces o criminoso?
A voz de escárnio dele me abafava.
—Vês,, pois, Gennaro-- disse ele mudando de tom —, se houvesse um
castigo pior que a morte, eu t'o daria. Olha esse despenhadeiro! E medonho! se
o visses de dia. teus olhos se escureceriam e ai rolarias talvez—de vertigem! E
um túmulo seguro: e guardara o segredo, como um peito o punhal. S6 os
corvos irão lá ver-te, só os corvos e os vermes. E pois, se tens ainda no
coração maldito um remorso, reza tua ultima oração: mas seja breve. O algoz
espera a vitima: a hiena tem fome de cadáver…
Eu estava ali pendente junto a morte. Tinha só a escolher o suicídio ou
ser assassinado. Matar o velho era impossível. Uma luta entre mim e ele fora
insana. Ele era robusto, a sua estatura alta, seus braços musculosos me
quebrariam como o vendaval rebenta um ramo seco. Demais, ele estava
armado. Eu—eu era uma criança débil: ao meu primeiro passo ele me arrojaria
da pedra em cujas bordas eu estava... Só me restaria morrer com ele—
arrastá-lo na minha queda. Mas para que?
E curvei-me no abismo: tudo era negro: o vento lá gemia embaixo nos
ramos desnudos, nas urzes, nos espinhais ressequidos, e a torrente lá
chocalhava no fundo escumando nas pedras.
Eu tive medo.
Orações, ameaças, tudo seria debalde.
—Estou pronto—disse.
O velho riu-se: infernal era aquele rir dos seus lábios estalados de
febre. Só vi aquele riso Depois foi uma vertigem… o ar que sufocava, um
peso que me arrastava, como naqueles pesadelos em que se cai de uma torre e
se fica preso ainda pela mão, mas a mão cansa. fraqueja, sua, esfria... Era
horrível: ramo a ramo, folha por folha os arbustos me estalavam nas mãos, as
raízes secas que saiam pelo despenhadeiro estalavam sobre meu peso e meu
peito sangrava nos espinhais. A queda era muito rápida …De repente não senti
mais nada…Quando acordei estava junto a uma cabana de camponeses que
me tinham apanhado junto da torrente, preso nos ramos de uma azinheira
gigantesca que assombrava o rio.
Era depois de um dia e uma noite de delírios que eu acordara. Logo
que sarei, uma idéia me veio: ir ter com o mestre. Ao ver-me salvo assim
daquela morte horrível, pode ser que se apiedasse de mim, que me perdoasse,
e então eu seria seu escravo, seu cão, tudo 0 que houvesse mais abjeto num
homem que se humilha—tudo! - contanto que ele me perdoasse. Viver com
aquele remorso me parecia impossível. Parti pois: no caminho topei um
punhal. Ergui-o: era o do mestre. Veio-me então uma idéia de vingança e de
soberba. Ele quisera matar-me, ele tinha rido a minha agonia, e eu havia ir
chorar-lhe ainda aos pés para ele repelir-me ainda, cuspir-me nas faces, e
amanha procurar outra vingança mais segura?. . Eu humilhar-me quando ele
me tinha abatido! Os cabelos me arrepiaram na cabeça, e suor frio me rolava
pelo rosto.
Quando cheguei a casa do mestre achei-a fechada. Bati—não abriram.
O jardim da casa dava para a rua: saltei o muro: tudo estava deserto e as portas
que davam para ele estavam também fechadas. Uma delas era fraca: com
pouco esforço arrombei-a. Ao estrondo da porta que caiu só o eco respondeu
nas salas. Todas as janelas estavam fechadas e contudo era dia claro fora.
Tudo estava escuro: nem uma lamparina acesa. Caminhei tateando ate a sala
do pintor. Cheguei lá—abri as janelas e a luz do dia derramou-se na sala
deserta. Cheguei então ao quarto de Nauza—abri a porta e um bafo pestilento
corria daí. O raio da luz bateu em uma mesa.—Junto estava uma forma de
mulher com a face na mesa, e os cabelos caídos: atirado numa poltrona um
vulto coberto com um capote. Entre eles um copo onde se depositara um
resíduo polvilhento. Ao pé estava um frasco vazio. Depois eu o soube—a
velha da cabana era uma mulher que vendia veneno: era ela de certo que o
vendera, porque o pó branco do copo parecia se-lo…
Ergui os cabelos da mulher, levantei-lhe a cabeça . Era Nauza, mas
Nauza cadáver, já desbotada pela 'podridão. Não era aquela estátua alvíssima
de outrora, as faces macias e colo de neve Era um corpo amarelo…Levantei
uma ponta da capa do outro—o corpo caiu de bruços com a cabeça para
baixo—ressoou no pavimento o estalo do crânio Era o velho—morto também
e roxo e apodrecido: eu o vi—da boca lhe corria uma escuma esverdeada.
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V
CLAUDIUS HERMANN
. . . Ecstasy!
My pulse, as yours, doth temperately keep time
And makes as healthful music. It is not madness That I have utter'd.
SHAKESPEARE.
—E tu, Hermann! Chegou a tua vez. Um por um evocamos ao
cemitério do passado um cadáver. Um por um erguemos-lhe o sudário pare
amostrar-lhe uma nódoa de sangue. Fala que chegou tua vez.
—Claudius sonha algum soneto ao jeito do Petrarca, alguma auréola
de pureza como a dos espíritos puros da Messiada! disse entre uma fumaça e
uma gargalhada .Johann erguendo a cabeça da mesa.
—Pois bem! quereis um historia? Eu pudera conta-las, como vos,
]loucuras de noites de orgia—mas pare que? Fora escárnio Faust ir lembrar a
Mefiustóteles as horas de perdição que lidou com ele. Sabei-las sodas essas
minhas nuvens do passado, lestes-lo a farta o livro desbotado de minha
existência libertine. Se o não lembras seis, a primeira mulher das ruas pudera
conta-lo. Nessa torrente negra que se chama a vida, e que corre para o passado
enquanto nos caminhamos para o futuro, também desfolhei muitas crenças, e
lancei despidas as minhas roupas mais perfumadas para trajar a túnica da
Saturnal! O passado e o que foi, e a flor que murchou, o sol que se apagou, o
cadáver que apodreceu. Lágrimas a ele? fora loucura! Que durma, e que
durma com suas lembranças negras! revivam: acordem apenas os miosótis
abertos, naquele pântano! sobreágüe naquele não-ser o eflúvio de alguma
lembrança pura!
—Bravo! Bravíssimo! Claudius, estas completa mente bêbedo! bofé
que estas romântico!
— Silencio, Bertram! certo que esta não e uma lenda para inscrever-se
após das vossas: uma dessas coisas que se contem com os cotovelos na toalha
vermelha, e os lábios borrifados de vinho e saciados de beijos Mas que
importa ?
Vos todos, que amais o jogo, que vistes um dia correr naquele abismo
uma onda de oiro—redemoinhar-lhe no fundo, como um mar de esperanças
que se embate na ressaca do acaso, sabeis melhor que vertigem nos tonteia
então: ideais melhor a loucura que nos delira naqueles jogos de milhares de
homens, onde fortuna, aspirações, a vida mesma vão-se na rapidez de uma
corrida, onde todo esse complexo de misérias e desejos, de crimes e virtudes
que se chama a existência se joga numa parelha de cavalos!
Apostei como homem a quem não doera empobrecer: o luxo também
sacia, e essa uma saciedade terrível! para ela nada basta: nem as danças do
Oriente, nem as lupercais romanas, nem os incêndios de uma cidade inteira lhe
alimentariam a seiva de morte, essa vitalidade do veneno—de que fala Byron.
Meu lance no turf foi minha fortuna inteira. Eu era rico, muito rico então: em
Londres ninguém ostentava mais dispendiosas devassidões: nenhum nabado
numa noite esperdiçava somas como eu. O suor de três gerações derramava-o
eu no leito das perdidas, e no chão das minhas orgias.
No instante em que as corridas iam começar, em que todos sentiam-se
febris de impaciência—um murmúrio correu pelas multidões—um sorriso—e
depois eram as frontes que se expandiam—e depois uma mulher passou a
cavalo.
Vísseis-la como eu—no cavalo negro, com as roupas de veludo, as
faces vivas, o olhar ardente entre o desdém dos cílios, transluzindo a rainha
em todo aquele edema soberbo: vísseis-la bela na sue beleza plástica e
harmônica, linda nas sues cores puras e acetinadas, nos cabelos negros, e a tez
branca da fronte; o oval das faces coradas, o fogo de nácar dos lábios finos, o
esmero do colo ressaltando nas roupas de amazona: vísseis-la assim, e a fé,
senhores, que não havíeis rir de escárnio como rides agora!
—Romantismo! deves estar muito ébrio, Claudius, para que nos teus
lábios secos de Lovelace e na tua insensibilidade de D. Juan venha a poesia
ainda passar-te um beijo!
—Ride, sim! misérrimos! que não compreendeis o que porventura vai
de incêndio por aqueles lábios de Lovelace e como arqueja o amor sob as
roupas gotejantes de chuvas de D. Juan—o libertino! Insano, que nunca
sonhastes Lovelace sem sue mascara talvez chorando Clarisse Harlowe, pobre
anjo, cujas asas brancas ele ia desbotar maldizendo essa fatalidade que fez do
amor uma infâmia e um crime. Mil vezes insanos que nunca sonhastes o
Espanhol acordando no lupanar, passando a mão pela fronte, e rugindo de
remorso e saudade ao lembrar tantas visões alvas do passado!
— Bravo! bravo!
— Poesia! poesia! — murmurou Bertram.
—Poesia! por que pronunciar-lhe a virgem casta o nome santo como
um mistério, no lodo escuro da taverna? Por que lembra-la a estrela do amor a
luz do lampião da crápula? Poesia! sabeis o que e a poesia?
—Meio cento de palavras sonoras e vãs que um pugilo de homens
pálidos entende, uma escada de sons e harmonias que aquelas almas loucas
parecem idéias e lhes despertam ilusões como a lua as sombras Isto no que se
chama os poetas. Agora, no ideal, na mulher, o ressaibo do ultimo romance, o
delírio e a paixão da ultima heroína de novela, e o presente incerto e vago de
um gozo místico, pelo qual a virgem morre de volúpia, sem saber por que. .
— Silencio, Bertram! teu cérebro queimaram-to os vinhos, como a
lava de um vulcão as relvas e flores da campina. Silencio! es como essas
plantas que nascem e mergulham no mar morto: cobre-as uma cristalização
calcaria, enfezam-se e mirram. A poesia, eu t'o direi também por minha vez, e
o voo das aves da manha no banho morno das nuvens vermelhas da
madrugada, e o cervo que se role no orvalho da montanha relvosa, que se
esquece da morte de amanha, da agonia de ontem em seu leito de flores!
—Basta, Claudius: que isso que ai dizes ninguém o entende: são
palavras, palavras e palavras, como o disse Hamlet: e tudo isso e inanido e
vazio como uma caveira seca, mentiroso como os vapores infectos da terra
que o sol no crepúsculo irisa de mil cores, e que se chamam as nuvens, ou essa
fade zombadora e nevoenta que se chama a poesia!
—A historia! a historia! Claudius, não vês que essa discussão nos fez
bocejar de tédio?
—Pois bem, contarei o resto da historia. No fim desse dia eu tinha
dobrado minha fortuna.
No dia seguinte eu a vi: era no teatro. Não sei o que representaram;
não sei o que ouvi, nem o que vi; sei só que lá estava uma mulher—bela como
tudo quanto passe mais puro a concepção do estatuário. Essa mulher era a
duquesa Eleonora No outro dia vi-a num baile Depois Fora longo dizer-vos:
seis meses! concebes? seis meses de agonia e desejo anelante—seis meses de
amor com a sede da fera! seis meses! como foram longos!
Um dia achei que era demais. Todo esse tempo havia passado em
comtemplação—em vê-la,, ama-la e sonhá-la: apertei minhas mãos jurando
que isso não iria além — que era muito esperar em vão: e que se ela viria
como Gulnare aos pés do Corsário, a ele cabia ir ter com ela.
Uma noite tudo dormia no palácio do duque. A duquesa, cansada do
baile, adormecia num diva. A lâmpada de alabastro estremecia-lhe sua luz
doirada na testa pálida. Parecia uma fade que dormia ao luar
O reposteiro do quarto agitou-se: um homem ai estava parado, absorto.
Tinha a cabeça tão quente e febril e ele a repousava no portal.
A fraqueza era covarde: e demais, esse homem comprara uma chave e
uma hora a infâmia venal de um criado; esse homem jurava que nessa noite
gozaria aquela mulher: fosse embora veneno, ele beberia o mel daquela flor, o
licor de escarlate daquela taça. Quanto a esses prejuízos de honra e adultério,,
não riais deles—não que ele ria disso. Amava e queria: a sua vontade era
como a folha de um punhal—ferir ou estalar.
Na mesa havia um copo e um frasco de vinho: encheu o copo: era
vinho espanhol — Chegou-se a ela, ergueu-a com suas roupas de veludo
desatadas, seus cabelos a meio soltos ainda entremeados de pedraria e flores,
seus seios meio-nus, onde os diamantes brilhavam como gotas de orvalho—
ergueu-a nos braços; deu-lhe um beijo. Ao calor daquele beijo, seminua, ela
acordou: entre os vagos sonhos se lhe perdia uma ilusão talvez; murmurou—
"amor!" e com olhos entreabertos deixou cair a cabeça e adormeceu de novo.
O homem tirou do seio um frasquinho de esmeralda.
Levou-o aos lábios entreabertos dela: e verteu-lhe algumas gotas que
ela absorveu sem senti-las. Deitou-a c esperou. Daí a instantes o sono dela era
profundíssimo... A bebida era um narcótico onde se misturaram algumas
,gotas daqueles licores excitantes que acordam a febre nas faces e o desejo
volutuoso no seio.
O homem estava de joelhos: o seu peito tremia, e ele estava pálido
como após de uma longa noite sensual. Tudo parecia vacilhar-lhe em torno
Ela estava nua: nem veludo, nem véu leve a encobria:—O homem esgueu-se,
afastou o cortinado.
A lâmpada brilhou com mais força—e apagou-se...
O homem era Claudius Hermann.
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Quando me levantei, embucei-me na capa e sai pelas ruas. Queria ir ter a meu
palácio,, mas estava tonto como um ébrio. Titubeava e o chão era lúbrico
como para quem desmaia. Uma idéia contudo me perseguia. Depois daquela
mulher nada houvera mais para mim. Quem uma vez bebeu o suco das uvas
purpurinas do paraíso, mais nunca deve inebriar-se do néctar da terra...
Quando o mel se esgotasse, o que restava a não ser o suicídio?
Uma semana se passou assim: todas as noites eu bebia nos lábios a
dormida um século de gozo. Um mês!! o mês! em que delirantes iam os bailes
do entrudo, em que mais cheia de febre ela adormecia quente, com as faces em
fogo!
Uma noite—era depois de um baile—eu esperei-a na alcova,
escondido atrás do seu leito. No copo cheio d'agua que estava junto a sua
cabeceira derramara as ultimas gotas do filtro, quando entrou ela com o
Duque.
Era ele um belo moço!! Antes de deixa-la passou-lhe as duas mãos
pelas fontes e deu-lhe um beijo. Embevecido daquele beijo, o anjo pendeu a
cabeça no ombro dele, e enlaçou-o com seus braços nus, reluzentes das
pulseiras de pedraria. O duque teve sede, pegou no copo da duqueza, bebeu
algumas gotas; ela tomou-lhe o copo— o resto. Eu os vi assim: aquele esposo
ainda tão moço, aquela mulher—ah! e tão bela! de tez ainda virgem—e apertei
o punhal
—Viras hoje, Maffio?, disse ela.
—Sim, minh'alma.
Um beijo sussurrou, e afogou as duas almas. E eu na sombra sorri,
porque sabia que ele não havia de vir.
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Ele saiu, ela começou a despir-se. Eu vi uma por uma caírem as roupas
brilhantes, as flores e as jóias— desatarem-se-lhe as trancas luzidias e
negras—e depois aparecia no véu branco do roupão transparente como as
estátuas de ninfas meio-nuas, com as formas desenhadas pela túnica repassada
da água do banho.
O que vi—foi o que sonhara e muito, o que vos todos, pobres insanos,
idealizastes um dia como a visão dos amores sobre o corpo da vendida! Eram
os seios alvos e velados de azul, trêmulos de desejo, a cabeça perdida entre a
chuva de cabelos negros—os lábios arquejantes —o corpo todo palpitante—
era a languidez do desalinho, quando o corpo da beleza mais se enche de
beleza, e como uma rosa que abre molhada de sereno, mais se expande, mais
patenteia suas cores.
O narcótico era fortíssimo: uma sofreguidão febril lhe abria os beiços:
extenuada e lânguida, caída no leito, com as pálpebras pálidas, os braços
soltos e sem forca— parecia beijar uma sombra.
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Ergui-a do leito, carreguei-a com suas roupas diáfanas, suas formas
cetinosas, os cabelos soltos úmidos ainda de perfume, seus seios ainda
quentes…
Corri com ela pelos corredores desertos, passei pelo pátio—a ultima
porta estava cerrada: abri-a.
Na rua estava um carro de viagem: os cavalos nitriam e escumavam de
impaciência. Entrei com ela dentro do carro. Partimos.
Era tempo. Uma hora depois amanhecia.
Breve estivemos fora da cidade.
A madrugada ai vinha com seus vapores, seus rosais borrifados de
orvalho, suas nuvens aveludadas, e as águas salpicadas de ouro e vermelhidão.
A natureza corava ao primeiro beijo do sol, como branca donzela ao primeiro
beijo do noivo: não como amante afanada de noite volutuosa como a pintou o
paganismo; antes como virgem acordada do sono infantil, meio ajoelhada ante
Deus; que ora e murmura suas orações balsâmicas—ao céu que se azula—à
terra que cintila—às águas que se douram. Essa madrugada baixava a terra
como o bafo de Deus: e entre aquela luz e aquele ar fresco a duquesa dormia
—pálida como os sonos daquelas criaturas místicas das iluminuras da Idade
Media—bela como a Vênus dormida do Ticiano, e volutuosa como uma das
amásias do Veroneso.
Beijei-a: eu sentia a vida que se me evaporava nos seus lábios. Ela
sobressaltou-se—entreabriu os olhos; mas o peso do sono ainda a
acabrunhava, e as pálpebras descoradas se fecharam…
A carruagem corria sempre.
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O sol estava a prumo no céu—era meio-dia: o calor abafava: pela
fronte, pelas faces, pelo colo da duquesa rolavam gotas de suor como aljôfares
de um colar roto... Paramos numa estalagem: lancei-lhe sobre a face um véu,
tomei-a nos meus braços, e levei-a a um aposento.
Ela devia ser muito bela assim! os criados paravam nos corredores: era
assombro de tanta beleza, mais ainda que curiosidade indiscreta.
A dona da casa chegou-se a mim.
—Senhor, vossa esposa ou irmã, quem quer que ela seja, de certo
precisara de uma criada que a sirva
—Deixai-me: ela dorme.
Foi essa a minha única resposta.
Deitei-a no leito: corri os cortinados, cerrei as janelas para que a luz
lhe não turbasse o sono. Não havia ali ninguém que nos visse; estávamos sós,
o homem e seu anjo, e a criatura da terra ajoelhou-se ao pé do leito da criatura
do céu.
Não sei quanto tempo correu assim: não sei se dormia,
mas sei que sonhava muito amor e muita esperança: não
sei se velava, mas eu a via sempre ali, eu lhe contemplava
cada movimento gracioso do dormir: eu estremecia a cada
alento que lhe tremia os seios—e tudo me parecia um
sonho—um desses sonhos a que a alma se abandona como
um cisne, que modorra, ao som das águas. . Não sei quanto
tempo correu assim: sei só que o meu delíquio quebrouse:
a duquesa estava sentada sobre o leito: com os braços
nus afastava as ondas do cabelo solto que lhe cobria o
rosto e o colo.
—É um sonho? murmurou. Onde estou eu? quem esse homem
encostado em meu leito?
O homem não respondeu.
Ela desceu da cama: seu primeiro impulso foi o pudor: quis encobrir
com as mãozinhas os seios palpitantes de susto. Sentiu-se quase nua, exposta
as vistas de um estranho, e tremia como contam os poetas que tremera Diana
ao ver-se exposta, no banho, nua as vistas de Acteon.
—Senhor, dizei-me por compaixão, se tudo isso não c uma ilusão se
não fora uma infâmia!! Nem quero pensa-lo. Maffio não deve tardar, não e
assim? o meu Maffio! Tudo isso e uma comédia…Mas que alcova é esta? Eu
adormeci no meu palácio como despertei numa sala desconhecida? Dizei, tudo
isso e um brinco de Maffio? quer se rir de mim?...Mas, vede, vede, eu tremo,
tenho medo.
O homem não respondia: tinha os olhos a fito naquela forma divina:
seria a estátua da paixão na palidez, no olhar imóvel,, nos lábios sedentos, se o
arfar do peito lhe não denunciasse a vida.
Ela ajoelhou-se: nem sei o que ela dizia. não sei que palavras se
evaporaram daqueles lábios: eram perfumes, porque as rosas do céu só tem
perfumes; eram harmonias, porque as harpas do céu só tem harmonias; e o
lábio da mulher bela e uma rosa divina, e seu coração e uma harpa do céu. Eu
a escutava, mas não a entendia: sentia só que aquelas falas eram muito doces,
que aquela voz tinha um talismã irresistível para minh'alma, porque só nos
meus sonhos de infante que se ilude de amores, uma voz assim me passara. Os
gemidos de duas virgens abraçadas no céu, doiradas da luz da face de Deus,
empalidecidas pelos beijos mais puros, pelo tremuloso dos abraços mais
palpitantes—não seriam tão suaves assim!
A moça chorava, soluçava: por fim ela ergueu-se.
Eu a vi correr a janela, ia abri-la tomei-a pelas mãos
— Pois bem, disse ela, eu gritarei...se não for um deserto, se alguém
passar por aqui...talvez me acudam...Socor...
Eu tapei-lhe a boca com as mãos
—Silencio, senhora!
Ela lutava para livrar-se de minhas mãos: por fim sentiu-se
enfraquecida. Eu soltei-a de pena dela.
—Então, dizei-me onde estou—dizei-m'o, ou eu chamarei por socorro
Não gritareis, senhora!
—Por compaixão então esclarecei-me nesta duvida: por que tudo isso
que eu vejo? Tudo o que penso, o que adivinho e muito horrível!
—Escutai pois, disse-lhe eu. Havia uma mulher. . era um anjo. Havia
um homem que a amava, como as águas amam a lua que as prateia, como as
águias da montanha o sol que as fita, que as enche de luz e de amor. Nem sei
quem ele era: ergueu-se um dia de uma vida de febre, esqueceu-a; e esqueceu
o passado, diante de uns olhos transparentes de mulher, as manchas de sue
historia, numa aurora de gozos, onde se lhe desenhava a sombra desse anjo...
Escutai: não o amaldiçoeis! Esse homem tinha muita infâmia no passado:
profanara sue mocidade prostituíra-a—como a borboleta de oiro a sue
geração, lançando-a no lodo: frio, sem crenças, sem esperanças, abafara uma
por uma sues ilusões, como a infanticida seus filhos. Deus o tinha
amaldiçoado talvez! ou ele mesmo se amaldiçoara. . . Esquecera que era
homem, e tinha no seu peito harmonias santas como as do poeta... Ele as
esquecera, e elas dormiam-lhe no mistério como os suspiros nas cordas de
uma guitarra abandonada. Esquecera que a natureza era bela e muito bela, que
o leito das flores da noite era recendente, que a lua era a lâmpada dos amores,
as aragens do vale, os perfumes do poeta no seu noivado com os anjos, e que a
aurora tinha eflúvios frescos.. . e com sues nuvens virginais, sues folhas
molhadas de orvalho, sues águas nevoentas tinha encantos que só as almas
puras entendem! Tudo isso enjeitou, esqueceu. .. pare só lembrar a furto e com
escárnio nas horas suarentas da devassidão... Ele era muito infame!
—Mas tudo isso não me diz quem sois vos. . . nem porque estou aqui. .
.
—Escutai.—O libertino amou pois o anjo, voltou o rosto ao passado,
despiu-se dele como de um manto impuro. Retemperou-se no fogo do
sentimento, apurou-se na virgindade daquela visão—porque ela era bela como
uma virgem, e refletia essa luz virgem do espírito, nesse brilho d'alma divina
que alumia as formas—que não são da terra, mas do céu. Ainda o tempo não
eivara o coração do insano de uma lepra sem cura: nem selo inextinguível lhe
gravara na fronte—impureza! Deixou-se do viver que levara, desconheceu
seus companheiros, suas amantes venais, suas insônias cheias de febre: quis
apagar todo o gosto da existência, como o homem que perdeu uma fortuna
inteira no jogo quer esquecer a realidade.
E o homem pode esquecer tudo isto. Mas ele não era ainda feliz. As
noites passava-as ao redor do palácio dela, via-a as vezes bela e descorada ao
luar, no terraço deserto, ou distinguia suas formas na sombra que passava
pelas cortinas da janela aberta de seu quarto iluminado. Nos bailes seguia com
olhares de inveja aquele corpo que palpitava nas danças. No teatro, entre o
arfar das ondas da harmonia, quando o êxtase boiava naquele ambiente
balsâmico e luminoso, ele nada via senão ela— e só ela! E as horas de seu
leito—suas horas de sono não, que mal as dormia as vezes—eram longas de
impaciência e insônia, outras vezes eram curtas de sonhos ardentes! O pobre
insano teve um dia uma idéia; era negra sim mas era a da ventura. O que fez
não sei: nem o sabereis nunca. E depois bastante ébrio para vos sonhar,
bastante louco para nos sonhos de fogo de seu delírio imaginar gozar-vos, foi
profano assaz para roubar a um templo o cibório d 'oiro mais puro. Esse
homem—tende compaixão dele, que ele vos amara de joelhos ó anjo,
Eleonora . . .
—Meu Deus! meu Deus! por que tanta infâmia, tanto lodo sobre mim?
Ó minha Madona! por que maldissestes minha vida, por que deixastes cair na
minha cabeça uma nódoa tão negra?
As lágrimas, os soluços abafam-lhe a voz.
—Perdoai-me, senhora, aqui me tendes a vossos pés! tende pena de
mim, que eu sofri muito, que amei-vos, que vos amo muito! compaixão! que
serei vosso escravo, beijarei vossas plantas—ajoelhar-me-ei a noite a vossa
porta, ouvirei vosso ressonar, vossas orações, vossos sonhos—e isso me
bastará—Serei vosso escravo e vosso cão, deitar-me-ei a vossos pés quando
estiverdes acordada, velarei com meu punhal quando a noite cair: e se algum
dia. se algum dia vós me puderdes amar—então! então!…
—Oh! deixai-me! deixai-me!...
—Eleonora! Eleonora! Perder noites e noites numa esperança
Alentá-la no peito como uma flor que murcha de frio—alentá-la,, revive-la
cada dia—para vela desfolhada sobre meu rosto! Absorver-me em amor e só
ter irrisão e escárnio! Dizei antes ao pintor que rasgue sua Madona, ao escultor
que despedace a sua estátua de mulher.
Louca, pobre louca que sois! credes que um homem havia de encarnar
um pensamento em sua alma, viver desse cancro, embeber-se da vitalidade da
dor, para depois rasga-lo do seio? Credes que ele consentiria que se lhe pisasse
no coração, que lhe arrancassem—a ele, poeta e amante, a coroa de ilusões—
as flores uma por uma? que pela noite da desgraça, ao amor insano de uma
mãe lhe sufocassem sobre o seio a criatura de seu sangue, o filho de sua vida,
a esperança de suas esperanças?
—Oh! e não tereis vós também dó de mim? não sabeis-lo? isto e
infame! sou uma pobre mulher. De joelhos eu vos peco perdão se vos ofendi..
. Eu vo-lo peco, deixai-me! que me importam vossos sonhos, vosso amor!
Doía-me profundamente aquela dor, aquelas lágrimas me queimavam.
Mas minha vontade fez-se rija e férrea como a fatalidade.
—Que te importam meus sonhos, que te importam meus amores? Sim,
tens razão! Que importa a água do deserto, a gazela do areal que o árabe tenha
sede ou que o leão tenha fome? Mas a sede e a fome são fatais. O amor e
como eles:—entendes-me agora?
—Matai-me então! não tereis um punhal! Uma punhalada pelo amor
de Deus! Eu juro, eu vos abençoarei
—Morrer! e pensas no morrer! Insensata!—Descer do leito morno do
amor a pedra fria dos mortos! Nem sabes o que dizes. Sabes o que e essa
palavra— morrer? É a duvida que afana a existência: e a duvida, o
pressentimento que resfria a fronte do suicida, que lhe passa nos cabelos como
um vento de inverno, e nos empalidece a cabeça como Hamlet! Morrer! e a
cessação de todos os sonhos, de todas as palpitações do peito, de todas as
esperanças! E estar peito a peito com nossos antigos amores e não senti-los!
Doida! e um noivado medonho o do verme: um lençol bem negro, o da
mortalha! não faleis nisso; por que lembrar o coveiro junto ao leito da vida?
Põe a mão no teu coração—bate e bate com forca, como o feto nas entranhas
de sua mãe. Há ai dentro muita vida ainda: muito amor por amor, muito fogo
por viver! Oh! se tu quisesses amar-me!
Ela escondeu a cabeça nas mãos e soluçou.
—E impossível: eu não posso amar-vos!
Eu disse-lhe:
—Eleonora, ouve-me: deixo-te só; velarei contudo sobre ti daquela
porta. Resolve-te: seja uma decisão firme sim, mas pensada. Lembra-te que
hoje não poderás voltar ao mundo: o duque Maffio seria o primeiro que fugiria
de ti: a torpeza do adultério senti-la-ia ele nas tuas faces: creria roçar na tua
boca a umidade de um beijo de estranho. E ele te amaldiçoaria! Vê: além a
maldição e o escárnio: a irrisão das outras mulheres, a zombaria vingativa
daqueles que te amaram e que não amaste. Quando entrares, dir-se-a: ei-la!
arrependeu-se! o marido —pobre dele! perdoou-a…As mães te esconderão
suas filhas—as esposas honestas terão pejo de tocar-te…E aqui, Eleonora,
aqui terás meu peito e meu amor—uma vida só para ti: um homem que só
pensara em ti e sonhara sempre contigo; um homem cujo mundo serás tu,
serão teus risos, teus olhares, teus amores: que se esquecera de ontem e de
amanhã para fazer como um Deus de ti a sua Eternidade. Pensa, Eleonora! se
quisesses, partiriamos hoje: uma vida de venturas nos espera. Sou muito rico,
bastante para adornar-te como uma rainha. Correremos a Europa, iremos ver a
Franca com seu luxo, a Espanha, onde o clima convida ao amor, onde as
tardes se embalsamam nos laranjais em flor, onde as campinas se aveludam e
se matizam de mil flores—iremos a Itália, a tua pátria—e no teu céu azul, nas
tuas noites límpidas, nos teus crepúsculos suavíssimos viver de novo ao sol
meridional!…Se quiseres…senão seria horrível…não sei o que aconteceria:
mas quem entrasse neste quarto levaria os pés ensopados de sangue…
Sai: duas horas depois voltei.
—Pensaste, Eleonora?
Ela não respondeu. Estava deitada com o rosto entre as mãos. A minha
voz ergueu-se. Havia um papel molhado de sues lágrimas sobre o leito.
Estendi a mão pare tome-lo—ela entregou-me o.
Eram uns versos meus.—Olhei pare a mesa, minha carteira de viagem,
que eu trouxera do carro, estava aberta, os papéis eram revoltos Os versos
eram estes.
Claudius tirou do bolso um papel amarelado e amarrotado: atirou-o na
mesa. Johann leu:
Não me odeies, mulher, se no passado
Nódoa sombria desbotou-me a vida:
No vicio ardente requeimando os lábios
E de tudo descri com fronte erguida.
A masc'ra de Don Juan queimou-me o rosto
Na fria palidez do libertino:
Desbotou-me esse olhar—e os lábios frios
Ousam de maldizer do meu destino.
Sim! longas noites no fervor do jogo
Esperdicei febril e macilento:
E votei o porvir ao Deus do acaso
E o amor profanei no esquecimento!
Murchei no escárnio as coroas do poeta
Na ironia da glória e dos amores:
Aos vapores do vinho, a noite insano
Debrucei-me do jogo nos fervores!
A flor da mocidade profanei-a
Entre as águas lodosas do passado
No crânio a febre, a palidez nas faces
Só cria no sepulcro sossegado!
E asas límpidas do anjo em colo impuro
Mareei—nos bafos da mulher vendida:
Inda nos lábios me roxeia o selo
Dos beijos da perdida.
E a mirra das canções nem mais vapora
Em profanada taça eivada e negra:
Mar de lodo passou-me ao rio d'alma
As níveas flores me estalou das bordas.
Sonho de glórias só me passe a furto
Qual flor aberta a medo em chão de tumbas
—Abatida e sem cheiro
O meu amor …o peito o silencia:
Guardo-o bem fundo—em sombras do sacrário.
Onde ervaçal não se abastou nos ermos.
Meu amor foi visão de roupas brancas
Da orgia a porta, fria e soluçando:
Lâmpada santa erguida em leito infame:
Vaso templário da taverna a mesa:
Estrela d'alva refletindo pálida
No tremedal do crime.
Como o leproso das cidades velhas
Sei me fugiras com horror aos beijos
Sei, no doido viver dos loucos anos
As crenças desflorei em negra insânia:
—Vestal, prostitui as formas virgens
—Lancei eu próprio ao mar da c'roa as folhas,
—Troquei a rósea túnica da infância
Pelo manto das orgias.
Oh! não me ames sequer! Pois bem!! um dia
Talvez diga o Senhor ao podre Lázaro:
Ergue-te—ai do lupanar da morte,
Revive ao fresco do viver mais puro!
E viverei de novo: a mariposa
Sacode as asas, estremece-as, brilha.
Despindo a negra tez, a bava imunda
Da larva desbotada.
Então, mulher—acordarei: do lodo,
Onde Satan se pernoitou comigo,
Onde inda morno perfumou seu molde
Cetinosa nudez de formas níveas.
E a loira meretriz nos seios brancos
Deitou-me a fronte lívida, na insônia
Quedou-me a febre da volúpia a sede
Sobre os beijos vendidos.
E então acordarei ao sol mais puro,
Cheirosa a fronte as auras da esperança!
Lavarei-me da fé nas águas d'oiro
De Madalena em lágrimas—e ao anjo
Talvez que Deus me de, curvado e mudo.
Nos eflúvios do amor libar um beijo,
Morrer nos lábios dele!
Ela calou-se: chorava e gemia. Acerquei-me dela: ajoelhei-me como
ante Deus. —Eleonora—sim ou não?
Ela voltou o rosto para o outro lado, quis falar— interrompia-se a cada
sílaba.
—Esperai, deixai que ore um pouco: a Madona talvez me perdoe.
Esperava eu sempre.—Ela ajoelhou-se.
—Agora. . disse ela erguendo-se e estendendo-me a sua mão.
—Então?
—Irei contigo.
E desmaiou.
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Aqui parou a historia de Claudius Hermann.
Ele abaixou a cabeça na mesa, não falou mais.
—Dormes, Claudius? Por Deus! ou esta bêbedo ou
Era Archibald que o interpelava: sacudia-o a toda a forca.
Claudius levantou um pouco a cabeça estava macilento: tinha os olhos
fundos numa sombra negra.
—Deixai-me, amaldiçoados! deixai-me pelo céu ou pelo inferno! não
vedes que tenho sono—sono e muito sono ?
—E a história a historia? bradou Solfieri.
—E a duquesa Eleonora? perguntou Archibald.
—E verdade a historia. Parece-me que olvidei tudo isso. Parece que foi
um sonho!
—E a Duquesa?
—A Duquesa? Parece-me que ouvi esse nome alguma vez Com os
diabos, que me importa?
Ai quis prosseguir: mas uma forca invencível o prendia.
—A Duquesa…é verdade! Mas como esqueci tudo isso que não me
lembro!…Tirai-me da cabeça esse peso… Bofé que encheram-me o crânio de
chumbo d derretido!…e ele batia na cabeça macilenta como um medico no
peito do agonizante para encontrar um eco de vida
—Então?
—Ah! ah! ah! gargalhou alguém que tinha ficado estranho a conversa.
— Arnold ! cala-te!
— Cala-te antes, Solfieri! eu contarei o fim da história.
Era Arnold—o loiro que acordava.
—Escutai vos todos—disse.—Um dia Claudius entrou em casa.
Encontrou o leito ensopado de sangue: e num recanto escuro da alcova um
doido abraçado com um cadáver. O cadáver era o de Eleonora: o doido nem o
pudéreis conhecer tanto a agonia o desfigurara. Era uma cabeça hirta e
desgrenhada, uma tez esverdeada, uns olhos fundos e baços onde o lume da
insânia cintilava a furto como a emanação luminosa dos pauis entre as
trevas…
Mas ele o conheceu era o Duque Maffio…
Claudius soltou uma gargalhada. — Era sombria como a insânia—fria
como a espada do anjo das trevas. Caiu ao chão: lívido e suarento como a
agonia: inteiricado como a morte…
Estava ébrio como o defunto patriarca Noé, o primeiro amante da
vinha, virgem desconhecida, ate então, e hoje prostituta de todas as
bocas…ébrio como Noé, o primeiro borracho de que reza a historia! Dormia
pesado e fundo como o apóstolo S. Pedro no Horto das Oliveiras…O caso é
que ambos tinham ceado a noite.
Arnold estendeu a capa no chão e deitou-se sobre ela.
Daí a alguns instances as seus roncos de barítono se mesclavam ao
magno concerto dos roncos dos dormidos…
VI
JOHANN
Pour quoi? c'est que mon coeur au milieu des délices
D'un souvenir jaloux constamment oppressé'
Froid au bonheur présent va chercher ses supplices Dans l'avenir et le
passe'.
ALEX. DUMAS.
—Agora a minha vez! Quero lançar também uma moeda em vossa urma: e
o cobre azinhavrado do mendigo: pobre esmola por certo!
Era em Paris, num bilhar. Não sei se o fogo do jogo me arrebatar a, ou se o
kirsch e o curaçau me queimaram demais as idéias Jogava contra mim um
moço: chamava-se Artur.
Era uma figure loira e mimosa como a de uma donzela. Rosa infantil lhe
avermelhava as faces, mas era uma rosa de cor desfeita. Leve buço lhe
sombreava o lábio,, e pelo oval do rosto uma penugem doirada lhe assomava
como a felpa que rebuça o pêssego.
Faltava um ponto a meu adversário pare ganhar. A mim, faltavam-me não
sei quantos: sei são que eram muitos e pois requeria-se um grande sangue frio,
e muito esmero no jogar.
Soltei a bola. Nessa ocasião o bilhar estremeceu…
O moço loiro, voluntariamente ou não, se encostara ao bilhar…A bola
desviou-se, mudou de rumo: com o desvio dela perdi A raiva levou-me de
vencida. Adiantei-me para ele. A meu olhar ardente o mancebo sacudiu os
cabelos loiros e sorriu como de escárnio.
Era demais! Caminhei para ele: ressoou uma bofetada. O moço convulso
caminhou para mim com um punhal, mas nossos amigos nos sustiveram.
—Isso e briga de marujo. O duelo, eis a luta dos homens de brio.
O moço rasgou nos dentes uma luva, e atirou-m'a a cara. Era insulto por
insulto; lodo por lodo: tinha de ser sangue por sangue.
Meia hora depois tomei-lhe a mão com sangue frio e disse-lhe no ouvido:
—Vossas armas, senhor?
—Sabe-lo-eis no lugar.
—Vossas testemunhas?
—A noite e minhas armas.
—A hora?
—Já
—O lugar?
—Vireis comigo…Onde pararmos ai será o lugar…
—Bem, muito bem: estou pronto, vamos.
Dei-lhe o braço e saímos. Ao ver-nos tão frios a conversar creram uma
satisfação. Um dos assistentes contudo entendeu-nos.
Chegou a nós e disse:
—Senhores, não há pois meio de conciliar-vos?
Nós sorrimos ambos.
—E uma criançada, tornou ele.
Nós não respondemos.
—Se precisardes de uma testemunha, estou pronto.
Nós nos curvamos ambos.
Ele entendeu-nos: viu que a vontade era firme: afastou-se.
Nós saímos.
………………………………………………………………………………
…………………
Um hotel estava aberto. O moço levou-me para dentro.
— Moro aqui, entrai, disse-me.
Entramos.
—Senhor, disse ele, não há meio de paz entre nos: um bofetão e uma luva
atirada as faces de um homem saco nódoas que só o sangue lava. E pois um
duelo de morte.
—De morte, repeti como um eco.
—Pois bem: tenho no mundo só duas pessoas— minha mãe e Esperei um
pouco.
O moço pediu papel, pena e tinta. Escreveu: as linhas eram poucas.
Acabando a carta deu-m'a a ler.
—Vede—não e uma traição, disse.
—Artur, creio em vos: não quero ler esse papel.
Repeli o papel. Artur fechou a carta, selou o lacre com um anel que trazia
no dedo. Ao ver o anel uma lágrima correu-lhe na face e caiu sobre a carta.
—Senhor, sois um homem de honra? Se eu morrer, tomai esse anel: no
meu bolso achareis uma carta: entregareis tudo a …Depois dir-vos-ei a
quem…
—Estais pronto? perguntei.
—Ainda não! antes de um de nos morrer e justo que brinde o moribundo
ao ultimo crepúsculos da vida.
Não sejamos Abissínios: demais o sol no cinábrio do poente ainda e belo.
O vinho do Reno correu em águas d'oiro nas taças de cristal verde. O
moço ergueu-se.
—Senhor, permita que eu faça uma saúde convosco.
—A quem?
—E um mistério—é uma mulher, e o nome daquela que se apertou uma
vez nos lábios, a quem se ama, e um segredo. não a fareis?
—Seja como quiserdes, disse eu.
Batemos os copos. O moço chegou a janela. Derramou algumas gotas de
vinho do Reno a noite. Bebemos.
—Um de nós fez a sue ultima saúde, disse ele. Boa noite pare um de nos
bom leito, e sono sossegado pare c filho da terra!
Foi a uma secretária, abriu-a: tirou duas pistolas.
—Isto e mais breve, disse ele. Pela espada e mais longa a agonia. Uma
delas esta carregada, a outra não. Tirá-las-emos a sorte. Atiraremos a
queima-roupa.
— E um assassinato
—Não dissemos que era um duelo de morte, que um de nos devia morrer?
—Tendes razão. Mas dizei-me: onde iremos?
—Vinde comigo. Na primeira esquina deserta dos arrabaldes. Qualquer
canto de rua e bastante sombrio para dois homens dos quais um tem de matar
o outro.
A meia-noite estávamos fora da cidade: Ele pôs as duas pistolas no chão.
—Escolhei, mas sem tocá-las.
Escolhi.
—Agora vamos, disse eu.
—Esperai, tenho um pressentimento frio: e uma voz suspirosa me geme no
peito. Quero rezar e uma saudade por minha mãe.
Ajoelhou-se. A vista daquele moço de joelhos—talvez sobre um túmulo—
lembrei-me que eu também tinha mãe e uma irmã e que eu as esquecia.
Quanto a amantes, meus amores eram como a sede dos cães das ruas,
saciavam-se na água ou na lama Eu só amara mulheres perdidas.
—É tempo, disse ele.
Caminhamos frente a frente. As pistolas se encostaram nos peitos—as
espoletas estalaram: um tiro só estrondou, ele caiu quase morto
—Tomai, murmurou o moribundo, e acenava-me para o bolso.
Atirei-me a ele. Estava afogado em sangue. Estrebuchou três vezes e ficou
frio. Tirei-lhe o anel da mão. —Meti-lhe a mão no bolso como ele dissera.
Achei dois bilhetes.
A noite era escura: não pude lê-los.
Voltei a cidade. A luz baça do primeiro lampião vi os dois bilhetes. O
primeiro era a carta para sua mãe. O outro estava aberto: li.
"A uma hora da noite na rua de………….
"n.° 60, 1.° andar: acharas a porta aberta.
Tua G."
Não tinha outra assinatura.
Eu não soube o que pensar. Tive uma idéia: era uma infâmia.
Fui a entrevista. Era no escuro. Tinha no dedo o anel que trouxera do
morto…Senti uma mãozinha acetinada tomar-me pela mão, subi. A porta
fechou-se.
Foi uma noite deliciosa! A amante do loiro—era virgem! Pobre Romeu!
Pobre Julieta! Parece que essas duas crianças levavam a noite em beijos
infantis e em sonhos puros!
(Johann encheu o copo: bebeu-o, mas estremeceu)
Quando eu ia sair, topei um vulto a porta.
—Boa noite, cavalheiro, eu vos esperava há muito. Essa voz pareceu-me
conhecida. Porem eu tinha a cabeça desvairada
Não respondi: o caso era singular. Continuei a descer: o vulto
acompanhou-me. Quando chegamos a porta vi luzir a folha de uma faca. Fiz
um movimento e a lamina resvalou-me no ombro. A luta fez-se terrível na
escuridão. Eram dous homens que se não conheciam; que não pensavam
talvez terem-se visto um dia a luz, e que não haviam mais ver-se porventura
ambos vivos.
O punhal escapou-lhe das mãos, perdeu-se no escuro: subjuguei-o. Era um
quadro infernal, um homem na escuridão abafando a boca do outro com a
mão, sufocando-lhe a garganta com o joelho, e a outra mão a tatear na sombra
procurando um ferro.
Nessa ocasião senti uma dor horrível: frio e dor me correram pela mão. O
homem morrera sufocado, e na agonia me enterrara os dentes pela carne. Foi a
custo que desprendi a mão sanguenta e descarnada da boca do cadáver.
Ergui-me.
Ao sair tropecei num objeto sonoro. Abaixei-me para ver o que era. Era
uma lanterna furta-fogo. Quis ver quem era o homem. Ergui a lâmpada…
O ultimo clarão dela banhou a cabeça do defunto…e apagou-se…
Eu não podia crer: era um sonho fantástico toda aquela noite. Arrastei o
cadáver pelos ombros levei-o pela laje da calcada ate ao lampião da rua,
levantei-lhe os cabelos ensanguentados do rosto… (Um espasmo de medo
contraiu horrivelmente a face do narrador—tomou o copo, foi beber: os dentes
lhe batiam como de frio: o copo estalou-lhe nos lábios).
Aquele homem—sabei-lo! era do sangue do meu sangue—era filho das
entranhas de minha mãe como eu—era meu irmão: uma idéia passou ante
meus olhos como um anátema. Subi ansioso ao sobrado. Entrei. A moca
desmaiara de susto ouvindo a luta. Tinha a face fria como o mármore. Os seios
nus e virgens estavam parados e gélidos como os de uma estátua A forma de
neve eu a sentia meio nua entre os vestidos desfeitos, onde a infâmia asselara
a nódoa de uma flor perdida.
Abri a janela—levei-a ate aí…
Na verdade que sou um maldito! Olá, Archibald, dai-me um outro copo,
enchei-o de Cognac enchei-o até a borda! Vede: sinto frio, muito frio: tremo
de calafrios c o suor me corre nas faces! Quero o fogo dos espíritos! a
ardência do cérebro ao vapor que tonteia…quero esquecer!
— Que tens, Johann? tiritas como um velho centenário!
O que tenho? o que tenho? não o vedes, pois?
Era linha irmã!
II
ÚLTIMO BEIJO DE AMOR
Well Juliet! I shall lie with thee to night!
SHAKESPEARE .
Romeu e Julieta
A noite ia alta: a orgia findara. Os convivas dormiam repletos, nas trevas.
Uma luz raiou súbito pelas fisgas da porta. A porta abriu-se. Entrou uma
mulher vestida de negro. Era pálida, e a luz de uma lanterna, que trazia
erguida na mão, se derramava macilenta nas faces dela e dava lhe um brilho
singular aos olhos. Talvez que um dia fosse uma beleza típica, uma dessas
imagens que fazem descorar de volúpia nos sonhos de mancebo. Mas agora
com sue tez lívida, seus olhos acesos, seus lábios roxos, sues mãos de
mármore, e a roupagem escura e gotejante da chuva, dissereis antes—o anjo
perdido da loucura.
A mulher curvou-se: com a lanterna na mão procurava uma por uma entre
essas faces dormidas um rosto conhecido.
Quando a luz bateu em Arnold, ajoelhou-se. Quis dar-lhe um beijo—
alongou os lábios... Mas uma idéia a susteve. Ergueu-se. Quando chegou a
Johann, que dormia, um riso embranqueceu-lhe os beiços: o olhar
tornou-se-lhe sombrio.
Abaixou-se junto dele: depôs a lâmpada no chão. O lume baço da lanterna
dando nas roupas dela espalhava sombra sobre Johann. A fronte da mulher
pendeu—e sua mão passou na garganta dele.—Um soluço rouco e sufocado
ofegou daí. A desconhecida levantou-se. Tremia, e ao segurar na lanterna
ressoou-lhe na mão um ferro...Era um punhal...Atirou-o no chão. Viu que
tinha as mãos vermelhas—enxugou-as nos longos cabelos de Johann...
Voltou a Arnold; sacudiu-o.
—Acorda e levanta-te!
—Que me queres?
—Olha-me: não me conheces?
—Tu! e não e um sonho? Es tu! oh! deixa que eu te aperte ainda! Cinco
anos sem ver-te! Cinco anos! E como mudaste!
—Sim: já não sou bela como há cinco anos! É verdade, meu loiro amante!
E que a flor de beleza e como todas as flores. Alentai-as ao orvalho da
virgindade, ao vento da pureza—e serão belas.—Revolvei-as no lodo —e
como os frutos que caem, mergulham nas águas do mar, cobrem-se de um
invólucro impuro e salobro! Outrora era Giorgia, a virgem: mas hoje e
Giorgia, a prostituta!
—Meu Deus! meu Deus!
E o moço sumiu a fronte nas mãos.
—Não me amaldiçoes, não!
Oh! deixa que me lembre; estes cinco anos que passaram foram um sonho.
Aquele homem do bilhar, o duelo a queima-roupa, meu acordar num hospital,
essa vida devassa onde me lançou a desesperação, isto e um sonho? Oh!
lembremo-nos do passado! Quando o inverno escurece o céu, cerremos os
olhos; pobres andorinhas moribundas, lembremo-nos da primavera!...
—Tuas palavras me doem... E um adeus, e um beijo de adeus e separação
que venho pedir-te; na terra nosso leito seria impuro, o mundo manchou
nossos corpos. O amor do libertino e da prostituta! Satan riria de nos. E no
céu, quando o túmulo nos lavar em seu banho, que se levantara nossa manha
de amor. . .
—Oh! ver-te e para deixar-te ainda uma vez! E não pensaste, Giorgia, que
me fora melhor ter morrido devorado pelos cães na rua deserta, onde me
levantaram cheio de sangue? Que fora-te melhor assassinar-me no dormir do
ébrio, do que apontar-me a estrela errante da ventura e apagar-me a do céu?
não pensaste que, após cinco anos, cinco anos de febre e de insônias, de
esperar e desesperar, de vida por ti, de saudades e agonia, fora o inferno ver-te
para deixar-te?
—Compaixão, Arnold!É preciso que esse adeus seja longo como a vida.
Vês, minha sina e negra: nas minhas lembranças há uma nódoa torpe. . Hoje! e
o leito venal...Amanhã!... só espero no leito do túmulo! Arnold! Arnold!
—Não me chames Arnold! chama-me Artur como dantes. Artur! não
ouves? Chama-me assim! Há tanto tempo que não ouço me chamarem por
esse nome! .. Eu era um louco! quis afogar meus pensamentos, e vaguei pelas
cidades e pelas montanhas deixando em toda a parte lágrimas—nas cavernas
solitárias, nos campos silenciosos, e nas mesas molhadas de vinho! Vem,
Giorgia! senta-te aqui, senta-te nos meus joelhos—bem conchegada a meu
coração. . . tua cabeça no meu ombro! Vem! um beijo! quero sentir ainda uma
vez o perfume que respirava outrora nos teus lábios.—Respire-o eu e morra
depois!. . . Cinco anos! oh! tanto tempo a esperar-te, a desejar uma hora no teu
seio!... Depois... escuta...tenho tanto a dizer-te! tantas lágrimas a derramar no
teu colo! Vem! e dir-te-ei toda a minha historia! minhas ilusões de amante e as
noites malditas da crápula, e o tédio que me inspiravam aqueles beiços frios
das vendidas que me beijavam! Vem! contar-te-ei tudo isso: dir-te-ei como
profanei minh'alma, e meu passado: e choraremos juntos—e nossas lágrimas
nos lavarão como a chuva lava as folhas do lodo!
—Obrigado, Artur! obrigado!
A mulher sufocava-se nas lagrimas, e o mancebo murmurava entre beijos
palavras de amor.
—Escuta, Artur, eu vinha só dizer-te—adeus!— da borda do meu túmulo:
e depois contente fecharia eu mesma a porta dele. . Artur, eu vou morrer!
Ambos choravam.
—Agora vê, continuou ela. Acompanha-me: vês aquele homem?
Arnold tomou a lanterna.
—Johann! morto! sangue de Deus! quem o matou?
—Giorgia. Era ele um infame. Foi ele quem deixou por morto um
mancebo a quem esbofeteara numa casa de jogo. Giorgia a prostituta vingou
nele Giorgia, a virgem. Esse homem foi quem a desonrou! desonrou-a, a ela
que era sua irmã!!
—Horror! horror!
E o moço virou a cara e cobriu-a com as mãos.
A mulher ajoelhou-se a seus pés
—E agora adeus! adeus que morro! não vês que fico lívida, que meus
olhos se empanam e tremo... e desfaleço?
—Não! eu não partirei. Se eu vivesse amanha haveria uma lembrança
horrível em meu passado.
—E não tens medo? Olha! e a morte que vem! e a vida que crepúscula em
minha fronte. não vês esse arrepio entre minhas sobrancelhas?.
—E que me importa o sonho da morte? Meu porvir amanha seria terrível:
e a cabeça apodrecida do cadáver não ressoam lembranças; seus lábios
gruda-os a morte: a campa e silenciosa. Morrerei!
A mulher recuava. Recuava. O moço tomou-a nos braços, pregou os lábios
nos dela. Ela deu um grito, c caiu-lhe das mãos Era horrível de ver-se. O moço
tomou o punhal, fechou os olhos, apertou-o no peito, e caiu sobre ela. Dois
gemidos sufocaram-se no estrondo do baque de um corpo...
A lâmpada apagou-se.
Lira dos Vinte Anos
Álvares de Azevedo
Cantando a vida, como o cisne a morte.
BOCAGE
Dieu, amour et poésie sont les trois mots que je voudrais seuls graver sur ma pierre, si je mérite
une pierre.
LAMARTINE
São os primeiros cantos de um pobre poeta. Desculpai-os. As primeiras vozes do sabiá não têm
a doçura dos seus cânticos de amor.
É uma lira, mas sem cordas; uma primavera, mas sem flores; uma coroa de folhas, mas sem
viço.
Cantos espontâneos do coração, vibrações doridas da lira interna que agitava um sonho, notas
que o vento levou - como isso dou a lume essas harmonias.
São as páginas despedaçadas de um livro não lido...
E agora que despi a minha musa saudosa dos véus do mistério do meu amor e da minha solidão,
agora que ela vai seminua e tímida, por entre vós, derramar em vossas almas os últimos
perfumes de seu coração, ó meus amigos, recebei-a no peito e amai-a como o consolo, que foi,
de uma alma esperançosa, que depunha fé na poesia e no amor - esses dois raios luminosos do
coração de Deus.
À MINHA MÃE
Se a terra é adorada, a mãe não é mais
digna de veneração.
Digest of hindu law.
Como as flores de uma árvore silvestre
Se esfolham sobre a leiva que deu vida
A seus ramos sem fruto,
Ó minha doce mãe, sobre teu seio
Deixa que dessa pálida coroa
Das minhas fantasias
Eu desfolhe também, frias, sem cheiro,
Flores da minha vida, murchas flores
Que só orvalha o pranto!
PRIMEIRA PARTE
NO MAR
Les étoiles s'allument au ciel, et la brise du soir erre doucement parmi les fleurs: rêvez, chantez
et soupirez.
GEORGE SAND
Era de noite: - dormias,
Do sonho nas melodias,
Ao fresco da viração,
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file:///C|/site/livros_gratis/lira_vinte_anos.htm (1 of 138) [22/8/2001 13:02:06]
Embalada na falua,
Ao frio clarão da lua,
Aos ais do meu coração!
Ah! que véu de palidez
Da langue face na tez!
Como teus seios revoltos
Te palpitavam sonhando!
Como eu cismava beijando
Teus negros cabelos soltos!
Sonhavas? - eu não dormia;
A minh'alma se embebia
Em tua alma pensativa!
E tremias, bela amante,
A meus beijos, semelhante
Às folhas da sensitivas!
E que noite! que luar!
E que ardentias no mar!
E que perfumes no vento!
Que vida que se bebia
Na noite que parecia
Suspirar de sentimento!
Minha rola, ó minha flor,
Ó madresilva de amor,
Como eras saudosa então!
Como pálida sorrias
E no meu peito dormias
Aos ais do meu coração!
E que noite! que luar!
Como a brisa a soluçar
Se desmaiava de amor!
Como toda evaporava
Perfumes que respirava
Nas laranjeiras em flor!
Suspiravas? que suspiro!
Ai que ainda me deliro
Entrevendo a imagem tua
Ao fresco da viração,
Aos ais do meu coração,
Embalada na falua!
Como virgem que desmaia,
Dormia a onda na praia!
Tua alma de sonhos cheia
Era tão pura, dormente,
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file:///C|/site/livros_gratis/lira_vinte_anos.htm (2 of 138) [22/8/2001 13:02:06]
Como a vaga transparente
Sobre seu leito de areia!
Era de noite - dormias,
Do sonho nas melodias,
Ao fresco da viração;
Embalada na falua,
Ao frio clarão da lua,
Aos ais do meu coração.
SONHANDO
Hier, la nuit d'été, que nous prêtait ses voiles,
Était digne de toi, tant elle avait d'étoiles!
VICTOR HUGO
Na praia deserta que a lua branqueia,
Que mimo! que rosa! que filha de Deus!
Tão pálida... ao vê-la meu ser devaneia,
Sufoco nos lábios os hálitos meus!
Não corras na areia,
Não corras assim!
Donzela, onde vais?
Tem pena de mim!
A praia é tão longa! e a onda bravia
As roupas de gaza te molha de escuma...
De noite, aos serenos, a areia é tão fria...
Tão úmido o vento que os ares perfuma!
És tão doentia...
Não corras assim...
Donzela, onde vais?
Tem pena de mim!
A brisa teus negros cabelos soltou,
O orvalho da face te esfria o suor,
Teus seios palpitam - a brisa os roçou,
Beijou-os, suspira, desmaia de amor!
Teu pé tropeçou...
Não corras assim...
Donzela, onde vais?
Tem pena de mim!
E o pálido mimo da minha paixão
Num longo soluço tremeu e parou,
Sentou-se na praia, sozinha no chão,
A mão regelada no colo pousou!
Que tens, coração
Que tremes assim?
Cansaste, donzela?
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file:///C|/site/livros_gratis/lira_vinte_anos.htm (3 of 138) [22/8/2001 13:02:06]
Tem pena de mim!
Deitou-se na areia que a vaga molhou.
Imóvel e branca na praia dormia;
Mas nem os seus olhos o sono fechou
E nem o seu colo de neve tremia...
O seio gelou?...
Não durmas assim!
O pálida fria,
Tem pena de mim!
Dormia: - na fronte que níveo suar...
Que mão regelada no lânguido peito...
Não era mais alvo seu leito do mar,
Não era mais frio seu gélido leito!
Nem um ressonar...
Não durmas assim...
O pálida fria,
Tem pena de mim!
Aqui no meu peito vem antes sonhar
Nos longos suspiros do meu coração:
Eu quero em meus lábios teu seio aquentar,
Teu colo, essas faces, e a gélida mão...
Não durmas no mar!
Não durmas assim.
Estátua sem vida,
Tem pena de mim!
E a vaga crescia seu corpo banhando,
As cândidas formas movendo de leve!
E eu vi-a suave nas águas boiando
Com soltos cabelos nas roupas de neve!
Nas vagas sonhando
Não durmas assim...
Donzela, onde vais?
Tem pena de mim!
E a imagem da virgem nas águas do mar
Brilhava tão branca no límpido véu...
Nem mais transparente luzia o luar
No ambiente sem nuvens da noite do céu!
Nas águas do mar
Não durmas assim...
Não morras, donzela,
Espera por mim!
CISMAR
Fala-me, anjo de luz! és glorioso
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file:///C|/site/livros_gratis/lira_vinte_anos.htm (4 of 138) [22/8/2001 13:02:06]
À minha vista na janela à noite
Como divino alado mensageiro
Ao ebrioso olhar dos frouxos olhos
Do homem, que se ajoelha para vê-lo,
Quando resvala em preguiçosas nuvens,
Ou navega no seio do ar da noite.
ROMEU
Ai! quando de noite, sozinha à janela
Co'a face na mão te vejo ao luar,
Por que, suspirando, tu sonhas, donzela?
A noite vai bela,
E a vista desmaia
Ao longe na praia
Do mar!
Por quem essa lágrima orvalha-te os dedos,
Como água da chuva cheiroso jasmim?
Na cisma que anjinho te conta segredos?
Que pálidos medos?
Suave morena,
Acaso tens pena
De mim?
Donzela sombria, na brisa não sentes
A dor que um suspiro em meus lábios tremeu?
E a noite, que inspira no seio dos entes
Os sonhos ardentes,
Não diz-te que a voz
Que fala-te a sós
Sou eu?
Acorda! Não durmas da cisma no véu!
Amemos, vivamos, que amor é sonhar!
Um beijo, donzela! Não ouves? no céu
A brisa gemeu...
As vagas murmuraram...
As folhas sussurram:
Amar!
AI JESUS!
Ai Jesus! não vês que gemo,
Que desmaio de paixão
Pelos teus olhos azuis?
Que empalideço, que tremo,
Que me expira o coração?
Ai Jesus!
Que por um olhar, donzela,
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file:///C|/site/livros_gratis/lira_vinte_anos.htm (5 of 138) [22/8/2001 13:02:06]
Eu poderia morrer
Dos teus olhos pela luz?
Que morte! que morte bela!
Antes seria viver!
Ai Jesus!
Que por um beijo perdido
Eu de gozo morreria
Em teus níveos seios nus?
Que no oceano dum gemido
Minh'alma se afogaria?
Ai Jesus!
ANJINHO
And from her fair and unpolluted flesch
May violets spring!
HAMLET
Não chorem... que não morreu!
Era um anjinho do céu
Que um outro anjinho chamou!
Era uma luz peregrina,
Era uma estrela divina
Que ao firmamento voou!
Pobre criança! Dormia:
A beleza reluzia
No carmim da face dela!
Tinha uns olhos que choravam,
Tinha uns risos que encantavam!...
Ai meu Deus! era tão bela.
Um anjo d'asas azuis,
Todo vestido de luz,
Sussurrou-lhe num segredo
Os mistérios doutra vida!
E a criança adormecida
Sorria de se ir tão cedo!
Tão cedo! que ainda o mundo
O lábio visguento, imundo,
Lhe não passara na roupa!
Que só o vento do céu
Batia do barco seu
As velas d'ouro da poupa!
Tão cedo! que o vestuário
Levou do anjo solitário
Que velava seu dormir!
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro
file:///C|/site/livros_gratis/lira_vinte_anos.htm (6 of 138) [22/8/2001 13:02:06]
Que lhe beijava risonho
E essa florzinha no sonho
Toda orvalhava no abrir!
Não chorem! lembro-me ainda
Como a criança era linda
No fresco da facezinha!
Com seus lábios azulados,
Com os seus olhos vidrados
Como de morta andorinha!
Pobrezinho! o que sofreu!
Como convulso tremeu
Na febre dessa agonia!
Nem gemia o anjo lindo,
Só os olhos expandindo
Olhar alguém parecia!
Era um canto de esperança
Que embalava essa criança?
Alguma estrela perdida,
Do céu c'roada donzela...
Toda a chorar-se por ela
Que a chamava doutra vida?
Não chorem... que não morreu!
Que era um anjinho do céu
Que um outro anjinho chamou!
Era uma luz peregrina,
Era uma estrela divina
Que ao firmamento voou!
Era uma alma que dormia
Da noite na ventania
E que uma fada acordou!
Era uma flor de palmeira
Na sua manhã primeira
Que um céu d'inverno murchou!
Não chorem! abandonada
Pela rosa perfumada,
Tendo no lábio um sorriso,
Ela se foi mergulhar
- Como pérola no mar -
Nos sonhos do paraíso!
Não chorem! chora o jardim
Quando marchado o jasmim
Sobre o seio lhe pendeu?
E pranteia a noite bela
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro
file:///C|/site/livros_gratis/lira_vinte_anos.htm (7 of 138) [22/8/2001 13:02:06]
Pelo astro ou a donzela
Mortos na terra ou no céu?
Choram as flores no afã
Quando a ave da manhã
Estremece, cai, esfria?
Chora a onda quando vê
A boiar um irerê
Morta ao sol do meio-dia?
Não chorem!... que não morreu!
Era um anjinho do céu
Que um outro anjinho chamou!
Era uma luz peregrina,
Era uma estrela divina
Que ao firmamento voou!
ANJOS DO MAR
As ondas são anjos que dormem no mar,
Que tremem, palpitam, banhados de luz...
São anjos que dormem, a rir e sonhar
E em leito d'escuma revolvem-se nus!
E quando, de noite, vem pálida a lua
Seus raios incertos tremer, pratear...
E a trança luzente da nuvem flutua...
As ondas são anjos que dormem no mar!
Que dormem, que sonham... e o vento dos céus
Vem tépido, à noite, nos seios beijar!...
São meigos anjinhos, são filhos de Deus,
Que ao fresco se embalam do seio do mar!
E quando nas águas os ventos suspiram,
São puros fervores de ventos e mar...
São beijos que queimam... e as noites deliram
E os pobres anjinhos estão a chorar!
Ai! quando tu sentes dos mares na flor
Os ventos e vagas gemer, palpitar...
Por que não consentes, num beijo de amor,
Que eu diga-te os sonhos dos anjos do mar?
I
Tenho um seio que delira
Como as tuas harmonias!
Que treme quando suspira,
Que geme como gemias!
II
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro
file:///C|/site/livros_gratis/lira_vinte_anos.htm (8 of 138) [22/8/2001 13:02:06]
Tenho músicas ardentes,
Ais do meu amor insano,
Que palpitam mais dormentes
Do que os sons do teu piano!
III
Tenho cordas argentinas
Que a noite faz acordar,
Como as nuvens peregrinas
Das gaivotas do alto mar!
IV
Como a teus dedos lindinhos
O teu piano gemer,
Vibra-me o seio aos dedinhos
Dos anjos louros do céu!
V
Vibra à noite no mistério
Se o banha o frouxo luar,
Se passa teu rosto aéreo
No vaporoso sonhar!
VI
Como tremem teus dedinhos
O saudoso piano teu,
Vibram-me n'alma os anjinhos,
Os anjos loiros do céu!
A CANTIGA DO SERTANEJO
Love me, and leave me not.
SHAKESPEARE, Merch. Of Venice
Donzela! Se tu quiseras
Ser a flor das primaveras
Que tenho no coração:
E se ouviras o desejo
Do amoroso sertanejo
Que descora de paixão!...
Se tu viesses comigo
Das serras ao desabrigo
Aprender o que é amar...
- Ouvi-lo no frio vento,
Das aves no sentimento,
Nas águas e no luar!...
Ouvi-lo nessa viola,
Onde a modinha espanhola
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro
file:///C|/site/livros_gratis/lira_vinte_anos.htm (9 of 138) [22/8/2001 13:02:06]
Sabe carpir e gemer!...
Que pelas horas perdidas
Tem cantigas doloridas,
Muito amor, muito doer...
Pobre amor! o sertanejo
Tem apenas seu desejo
E as noites belas do val!...
Só o ponche adamascado,
O trabuco prateado
E o ferro de seu punhal!...
E tem as lendas antigas
E as desmaiadas cantigas
Que fazem de amor gemer!...
E nas noites indolentes
Bebe cânticos ardentes
Que fazem estremecer!...
Tem mais... na selva sombria
Das florestas a harmonia,
Onde passa a voz de Deus,
E nos relentos da serra
Pernoita na sua terra,
No leito dos sonhos seus!
Se tu viesses, donzela,
Verias que a vida é bela
No deserto do sertão:
Lá têm mais aroma as flores
E mais amor os amores
Que falam do coração!
Se viesses inocente
Adormecer docemente
À noite no peito meu!...
E se quisesses comigo
Vir sonhar no desabrigo
Com os anjinhos do céu!
É doce na minha terra
Andar, cismando, na serra
Cheia de aroma e de luz,
Sentindo todas as flores,
Bebendo amor nos amores
Das borboletas azuis!
Os veados da campina
Na lagoa, entre a neblina,
São tão lindos a beber!...
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro
file:///C|/site/livros_gratis/lira_vinte_anos.htm (10 of 138) [22/8/2001 13:02:06]
Da torrente nas coroas
Ao deslizar das canoas
É tão doce adormecer!...
Ah! Se viesses, donzela,
Verias que a vida é bela
No silêncio do sertão!
Ah!... morena, se quiseras
Ser a flor das primaveras
Que tenho no coração!
Junto às águas da torrente
Sonharias indolente
Como num seio d'irmã!...
- Sobre o leito de verduras
O beijo das criaturas
Suspira com mais afã!
E da noitinha as aragens
Bebem nas flores selvagens
Efluviosa fresquidão!...
Os olhos têm mais ternura
E os ais da formosura
Se embebem no coração!...
E na caverna sombria
Tem um ai mais harmonia
E mais fogo o suspirar!...
Mais fervoroso o desejo
Vai sobre os lábios num beijo
Enlouquecer, desmaiar!...
E da noite nas ternuras
A paixão tem mais venturas
E fala com mais ardor!...
E os perfumes, o luar,
E as aves a suspirar,
Tudo canta e diz - amor!
Ah! vem! amemos! vivamos!
O enlevo do amor bebamos
Nos perfumes do serão!
Ah! Virgem, se tu quiseras
Ser a flor das primaveras
Que tenho no coração!...
Dreams! dreams! dreams!
W. COWPER
Quando, à noite, no leito perfumado
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Lânguida fronte no sonhar reclinas,
No vapor da ilusão por que te orvalha
Pranto de amor as pálpebras divinas?
E, quando eu te contemplo adormecida
Solto o cabelo no suave leito,
Por que um suspiro tépido ressona
E desmaia suavíssimo em teu peito?
Virgem do meu amor, o beijo a furto
Que pouso em tua face adormecida
Não te lembra do peito os meus amores
E a febre do sonhar de minha vida?
Dorme, ó anjo de amor! no teu silêncio
O meu peito se afoga de ternura...
E sinto que o porvir não vale um beijo
E o céu um teu suspiro de ventura!
Um beijo divinal que acende as veias,
Que de encantos os olhos ilumina,
Colhido a medo, como flor da noite,
Do teu lábio na rosa purpurina...
E um volver de teus olhos transparentes,
Um olhar dessa pálpebra sombria
Talvez pudessem reviver-me n'alma
As santas ilusões de que eu vivia!
O POETA
Un souvenir heureux est peut-être sur terre
Plus vrai que le bonheur.
A. DE MUSSET
Era uma noite: - eu dormia...
E nos meus sonhos revia
As ilusões que sonhei!
E no meu lado senti...
Meu Deus! por que não morri?
Por que no sono acordei?
No meu leito adormecida,
Palpitante e abatida,
A amante de meu amor,
Os cabelos recendendo
Nas minhas faces correndo,
Como o luar numa flor!
Senti-lhe o colo cheiroso
Arquejando sequioso
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E nos lábios, que entreabria
Lânguida respiração,
Um sonho do coração
Que suspirando morria!
Não era um sonho mentido:
Meu coração iludido
O sentiu e não sonhou...
E sentiu que se perdia
Numa dor que não sabia...
Nem ao menos a beijou!
Soluçou o peito ardente,
Sentiu que a alma demente
Lhe desmaiava a tremer,
Embriagou-se de enleio,
No sono daquele seio
Pensou que ele ia morrer!
Que divino pensamento,
Que vida num só momento
Dentro do peito sentiu...
Não sei!... Dorme no passado
Meu pobre sonho doirado...
Esperança que mentiu...
Sabem as noites do céu
E as luas brancas sem véu
Os prantos que derramei!
Contem do vale as florinhas
Esse amor das noite minhas!
Elas sim... que eu não direi!
E se eu tremendo, senhora,
Viesse pálido agora
Lembrar-vos o sonho meu,
Com a fronte descorada
E com a voz sufocada
Dizer-vos baixo: - Sou eu!
Sou eu! que não esqueci
A noite que não dormi,
Que não foi uma ilusão!
Sou eu que sinto morrer
A esperança de viver...
Que o sinto no coração!
Riríeis das esperanças,
Das minhas loucas lembranças,
Que me desmaiam assim?
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Ou então, de noite, a medo
Choraríeis em segredo
Uma lágrima por mim!
Dorme, meu coração! Em paz esquece
Tudo, tudo que amaste neste mundo!
Sonho falaz de tímida esperança
Não interrompa teu dormir profundo!
Tradução do Dr. Octaviano
Fui um douto em sonhar tantos amores...
Que loucura, meu Deus!
Em expandir-lhe aos pés, pobre insensato,
Todos os sonhos meus!
E ela, triste mulher, ela tão bela,
Dos seus anos na flor,
Por que havia de sagrar pelos meus sonhos
Um suspiro de amor?
Um beijo - um beijo só! eu não pedia
Senão um beijo seu
E nas horas do amor e do silêncio
Juntá-la ao peito meu!
_____
Foi mais uma ilusão! de minha fronte
Rosa que desbotou
Uma estrela de vida e de futuro
Que riu... e desmaiou!
Meu triste coração, é tempo, dorme,
Dorme no peito meu!
Do último sonho despertei e n'alma
Tudo! tudo morreu!
Meus Deus! por que sonhei e assim por ela
Perdi a noite ardente...
Se devia acordar dessa esperança,
E o sonho era demente?...
Eu nada lhe pedi: ousei apenas
Junto dela, à noitinha,
Nos meus delírios apertar tremendo
A sua mão na minha!
Adeus, pobre mulher! no meu silêncio
Sinto que morrerei...
Se rias desse amor que te votava,
Deus sabe se te amei!
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file:///C|/site/livros_gratis/lira_vinte_anos.htm (14 of 138) [22/8/2001 13:02:06]
Se te amei! se minha alma só queria
Pela tua viver,
No silêncio do amor e da ventura
Nos teus lábios morrer!
Mas vota ao menos no lembrar saudoso
Um ai ao sonhador...
Deus sabe se te amei!... Não te maldigo,
Maldigo o meu amor!...
Mas não... inda uma vez... Não posso ainda
Dizer o eterno adeus
E a sangue frio renegar dos sonhos
E blasfemar de Deus!
Oh! Fala-me de amor!... - eu quero crer-te
Um momento sequer...
E esperar na ventura e nos amores,
Num olhar de mulher!
Só um olhar por compaixão te peço,
Um olhar.... mas bem lânguido, bem terno...
...........................................................................
Quero um olhar que me arrebate o siso,
Me queime o sangue, m'escureça os olhos,
Me torne delirante!
ALMEIDA FREITAS
Sur votre main jamais votre front ne se pose,
Brûlant, chargé d'ennuis, ne pouvant soutenir
Le poids d'un douloureux et cruel souvenir;
Votre coeur virginal en lui-même repose.
Th. Gautier
Ricorditi di me...............
DANTE, Purgatório
Quando falo contigo, no meu peito
Esquece-me esta dor que me consome:
Talvez corre o prazer nas fibras d'alma:
E eu ouso ainda murmurar teu nome!
Que existência, mulher! se tu souberas
A dor de coração do teu amante,
E os ais que pela noite, no silêncio,
Arquejam no seu peito delirante!
E quando sofre e padeceu... e a febre
Como seus lábios desbotou na vida...
E sua alma cansou na dor convulsa
E adormeceu na cinza consumida!
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Talvez terias dó da mágoa insana
Que minh'alma votou ao desalento...
E consentirás, ó virgem dos amores,
Descansar-me no seio um só momento!
Sou um doudo talvez de assim amar-te,
De murchar minha vida no delírio...
Se nos sonhos de amor nunca tremeste,
Sonhando meu amor e meu martírio...
E não pude, febril e de joelhos,
Com a mente abrasada e consumida,
Contar-te as esperanças do meu peito
E as doces ilusões de minha vida!
Oh! quando eu te fitei, sedento e louco,
Teu olhar que meus sonhos alumia,
Eu não sei se era vida o que minh'alma
Enlevava de amor e adormecia!
Oh! nunca em fogo teu ardente seio
A meu peito juntei que amor definha!
A furto apenas eu senti medrosa
Tua gélida mão tremer na minha!...
Tem pena, anjo de Deus! deixa que eu sinta
Num beijo esta minh'alma enlouquecer
E que eu viva de amor nos teus joelhos
E morra no teu seio o meu viver!
Sou um doudo, meu Deus! mas no meu peito
Tu sabes se uma dor, se uma lembrança
Não queria calar-se a um beijo dela,
Nos seios dessa pálida criança!
Se num lânguido olhar no véu de gozo
Os olhos de Espanhola a furto abrindo
Eu não tremia... o coração ardente
No peito exausto remoçar sentindo!
Se no momento efêmero e divino
Em que a virgem pranteia desmaiando
E a c'roa virginal a noiva esfolha,
Eu queria a seus pés morrer chorando!
Adeus! Rasgou-se a página saudosa
Que teu porvir de amor no meu fundia,
Gelou-se no meu sangue moribundo
Essa gota final de que eu vivia!
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file:///C|/site/livros_gratis/lira_vinte_anos.htm (16 of 138) [22/8/2001 13:02:06]
Adeus, anjo de amor! tu não mentiste!
Foi minha essa ilusão e o sonho ardente:
Sinto que morrerei... tu, dorme e sonha
No amor dos anjos, pálido inocente!
Mas um dia... se a nódoa da existência
Murchar teu cálix orvalhoso e cheio,
Flor que respirei, que amei sonhando,
Tem saudade de mim, que eu te pranteio!
NA MINHA TERRA
Laisse-toi donc aimer! Oh! l'amour c'est la vie!
C'est tout ce qu'on regrette et tout ce qu'on envie,
Quand on voit sa jeunesse au couchant décliner!
...............................................................................
La beauté c'est le front, l'amour c'est la couronne:
Laisse-toi couronner!
V. HUGO
I
Amo o vento da noite sussurrante
A tremer nos pinheiros
E a cantiga do pobre caminhante
No rancho dos tropeiros;
E os monótonos sons de uma viola
No tardio verão,
E a estrada que além se desenrola
No véu da escuridão;
A restinga d'areia onde rebenta
O oceano a bramir,
Onde a lua na praia macilenta
Vem pálida luzir;
E a névoa e flores e o doce ar cheiroso
Do amanhecer na serra,
E o céu azul e o manto nebuloso
Do céu de minha terra;
E o longo vale de florinhas cheio
E a névoa que desceu,
Como véu de donzela em branco seio,
As estrelas do céu.
II
Não é mais bela, não, a argêntea praia
Que beija o mar do sul,
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file:///C|/site/livros_gratis/lira_vinte_anos.htm (17 of 138) [22/8/2001 13:02:06]
Onde eterno perfume a flor desmaia
E o céu é sempre azul;
Onde os serros fantásticos roxeiam
Nas tardes de verão
E os suspiros nos lábios incendeiam
E pulsa o coração!
Sonho da vida que doirou e azula
A fada dos amores,
Onde a mangueira ao vento que tremula
Sacode as brancas flores...
E é saudoso viver nessa dormência
Do lânguido sentir,
Nos enganos suaves da existência
Sentindo-se dormir...
Mais formosa não é, não doire embora
O verão tropical
Com seus rubores... a alvacenta aurora
Da montanha natal...
Nem tão doirada se levante a lua
Pela noite do céu,
Mas venha triste, pensativa e nua
Do prateado véu...
Que me importa? se as tardes purpurinas
E as auroras dali
Não deram luz às diáfanas cortinas
Do leito onde eu nasci?
Se adormeço tranqüilo no teu seio
E perfuma-se a flor,
Que Deus abriu no peito do poeta,
Gotejante de amor?
Minha terra sombria, és sempre bela,
Inda pálida a vida
Como o sono inocente da donzela
No deserto dormida!
No italiano céu nem mais suaves
São da noite os amores,
Não tem mais fogo o cântico das aves
Nem o vale mais flores!
III
Quando o gênio da noite vaporosa
Pela encosta bravia
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file:///C|/site/livros_gratis/lira_vinte_anos.htm (18 of 138) [22/8/2001 13:02:06]
Na laranjeira em flor toda orvalhosa
De aroma se inebria...
No luar junto à sombra recendente
De um arvoredo em flor,
Que saudades e amor que influi na mente
Da montanha o frescor!
E quando, à noite no luar saudoso
Minha pálida amante
Ergue seus olhos úmidos de gozo
E o lábio palpitante...
Cheia da argêntea luz do firmamento,
Orando por seu Deus,
Então... eu curvo a fronte ao sentimento
Sobre os joelhos seus...
E quando sua voz entre harmonias
Sufoca-se de amor
E dobra a fronte bela de magias
Como pálida flor...
E a alma pura nos seus olhos brilha
Em desmaiado véu,
Como de um anjo na cheirosa trilha
Respiro o amor do céu!
Melhor a viração uma por uma
Vem as folhas tremer,
E a floresta saudosa se perfuma
Da noite no morrer...
E eu amo as flores e o doce ar mimoso
Do amanhecer da serra
E o céu azul e o manto nebuloso
Do céu da minha terra!
ITÁLIA
Ao meu amigo o Conde de Fé
Veder Napoli e poi morir.
I
Lá na terra da vida e dos amores
Eu podia viver inda um momento...
Adormecer ao sol da primavera
Sobre o colo das virgens de Sorrento !
Eu podia viver - e porventura
Nos luares do amor amar a vida,
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file:///C|/site/livros_gratis/lira_vinte_anos.htm (19 of 138) [22/8/2001 13:02:06]
Dilatar-se minh'alma como o seio
Do pálido Romeu na despedida!
Eu podia na sombra dos amores
Tremer num beijo o coração sedento...
Nos seios da donzela delirante
Eu podia viver inda um momento!
Ó anjo de meu Deus! se nos meus sonhos
Não mentia o reflexo da ventura,
E se Deus me fadou nesta existência
Um instante de enlevo e de ternura...
Lá entre os laranjais, entre os loureiros,
Lá onde a noite seu aroma espalha,
Nas longas praias onde o mar suspira
Minh'alma exalarei no céu da Itália!
Ver a Itália e morrer!... Entre meus sonhos
Eu vejo-a de volúpia adormecida...
Nas tardes vaporentas se perfuma
E dorme, à noite, na ilusão da vida!
E, se eu devo expirar nos meus amores,
Nuns olhos de mulher amor bebendo,
Seja aos pés da morena Italiana,
Ouvindo-a suspirar, inda morrendo.
Lá na terra da vida e dos amores
Eu podia viver inda um momento,
Adormecer ao sol da primavera
Sobre o colo das virgens de Sorrento!
II
A Itália! sempre a Itália delirante!
E os ardentes saraus, e as noites belas!
A Itália do prazer, do amor insano,
Do sonho fervoroso das donzelas!
E a gôndola sombria resvalando
Cheia de amor, de cânticos e flores...
E a vaga que suspira à meia-noite
Embalando o mistério dos amores!
Ama-te o sol, ó terra da harmonia,
Do levante na brisa te perfumas:
Nas praias de ventura e primavera
Vai o mar estender seu véu d'escumas!
Vai a lua sedenta e vagabunda
O teu berço banhar na luz saudosa,
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file:///C|/site/livros_gratis/lira_vinte_anos.htm (20 of 138) [22/8/2001 13:02:06]
As tuas noites estrelar de sonhos
E beijar-te na fronte vaporosa!
Pátria do meu amor! terra das glórias
Que o gênio consagrou, que sonha o povo...
Agora que murcharam teus loureiros
Fora doce em teu seio amar de novo...
Amar tuas montanhas e as torrentes
E esse mar onde bóia alcion dormindo,
Onde as ilhas se azulam no ocidente,
Como nuvens à tarde se esvaindo...
Aonde à noite o pescador moreno
Pela baía no batel se escoa...
E murmurando, nas canções de Armida,
Treme aos fogos errantes da canoa...
Onde amou Rafael, onde sonhava
No seio ardente da mulher divina,
E talvez desmaiou no teu perfume
E suspirou com ele a Fornarina...
E juntos, ao luar, num beijo errante
Desfolhavam os sonhos da ventura
E bebiam na lua e no silêncio
Os eflúvios de tua formosura!
Ó anjo de meu Deus, se nos meus sonhos
A promessa do amor me não mentia,
Concede um pouco ao infeliz poeta
Uma hora da ilusão que o embebia!
Concede ao sonhador, que tão-somente
Entre delírios palpitou d'enleio,
Numa hora de paixão e de harmonia
Dessa Itália do amor morrer no seio!
Oh! na terra da vida e dos amores
Eu podia sonhar inda um momento,
Nos seios da donzela delirante
Apertar o meu peito macilento
Maio, 1851. - S. Paulo
A T...
No amor basta uma noite para fazer de um homem um Deus.
PROPÉRCIO
Amoroso palor meu rosto inunda,
Mórbida languidez me banha os olhos,
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file:///C|/site/livros_gratis/lira_vinte_anos.htm (21 of 138) [22/8/2001 13:02:06]
Ardem sem sono as pálpebras doridas,
Convulsivo tremor meu corpo vibra...
Quanto sofro por ti! Nas longas noites
Adoeço de amor e de desejos...
E nos meus sonhos desmaiando passa
A imagem voluptuosa da ventura:
Eu sinto-a de paixão encher a brisa,
Embalsamar a noite e o céu sem nuvens;
E ela mesma suave descorando
Os alvacentos véus soltar do colo,
Cheirosas flores desparzir sorrindo
Da mágica cintura.
Sinto na fronte pétalas de flores,
Sinto-as nos lábios e de amor suspiro...
Mas flores e perfumes embriagam...
E no fogo da febre, e em meu delírio
Embebem na minh'alma enamorada
Delicioso veneno.
Estrela de mistério! em tua fronte
Os céus revela e mostra-me na terra,
Como um anjo que dorme, a tua imagem
E teus encantos, onde amor estende
Nessa morena tez a cor de rosa.
Meu amor, minha vida, eu sofro tanto!
O fogo de teus olhos me fascina,
O langor de teus olhos me enlanguece,
Cada suspiro que te abala o seio
Vem no meu peito enlouquecer minh'alma!
Ah! vem, pálida virgem, se tens pena
De quem morre por ti, e morre amando,
Dá vida em teu alento à minha vida,
Une nos lábios meus minh'alma à tua!
Eu quero ao pé de ti sentir o mundo
Na tu'alma infantil; na tua fronte
Beijar a luz de Deus; nos teus suspiros
Sentir as virações do paraíso...
E a teus pés, de joelhos, crer ainda
Que não mente o amor que um anjo inspira,
Que eu posso na tu'alma ser ditoso,
Beijar-te nos cabelos soluçando
E no teu seio ser feliz morrendo!
Dezembro, 1851.
CREPÚSCULO DO MAR
Que rêves-tu plus beau sur ces lointaines plages
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file:///C|/site/livros_gratis/lira_vinte_anos.htm (22 of 138) [22/8/2001 13:02:06]
Que cette chaste mer qui baigne nos rivages?
Que ces mornes couverts de bois silencieux,
Autels d'où nos parfurns s'élèvent dans les cieux?
LAMARTINE
No céu brilhante do poente em fogo
Com auréola ardente o sol dormia,
Do mar doirado nas vermelhas ondas
Purpúreo se escondia.
Como da noite o bafo sobre as águas
Que o reflexo da tarde incendiava,
Só a idéia de Deus e do infinito
No oceano boiava!
Como é doce viver nas longas praias
Nestas ondas e sol e ventania!
Como ao triste cismar encanto aéreo
Nas sombras preludia!
O painel luminoso do horizonte
Como as cândidas sombras alumia
Dos fantasmas de amor que nós amamos
Na ventura de um dia!
Como voltam gemendo e nebulosas,
Brancas as roupas, desmaiado o seio,
Inda uma vez a murmurar nos sonhos
As palavras do enleio!...
Aqui nas praias, onde o mar rebenta
E a escuma no morrer os seios rola,
Virei sentar-me no silêncio puro
Que o meu peito consola!
Sonharei... lá enquanto, no crepúsculo,
Como um globo de fogo o sol se abisma
E o céu lampeja no clarão medonho
De negro cataclisma...
Enquanto a ventania se levanta
E no ocidente o arrebol se ateia
No cinábrio do empíreo derramando
A nuvem que roxeia...
Hora solene das idéias santas
Que embala o sonhador nas fantasias,
Quando a taça do amor embebe os lábios
Do anjo das utopias!
Oceano de Deus! Que moribundo,
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro
file:///C|/site/livros_gratis/lira_vinte_anos.htm (23 of 138) [22/8/2001 13:02:06]
A cantiga do nauta mais sentida
Tão triste suspirou nas tuas ondas,
Como um adeus à vida?
Que nau cheia de glória e d'esperanças,
Floreando ao vento a rúbida bandeira,
Na luz do incêndio rebentou bramindo
Na vaga sobranceira?
Por que ao sol da manhã e ao ar da noite
Essa triste canção, eterna, escura,
Como um treno de sombra e de agonia,
Nos teus lábios murmura?
É vermelho de sangue o céu da noite,
Que na luz do crepúsculo se banha:
Que planeta do céu do roto seio
Golfeja luz tamanha?
Que mundo em fogo foi bater correndo
Ao peito de outro mundo; - e uma torrente
De medonho clarão rasgou no éter
E jorra sangue ardente?
Onde as nuvens do céu voam dormindo,
Que doirada mansão de aves divinas
Num véu purpúreo se enlutou rolando
Ao vento das ruínas?
CREPÚSCULO NAS MONTANHAS
Pálida estrela, casto olhar da noite,
diamante luminoso na fronte azul do
crepúsculo, o que vês na planície?
OSSIAN
I
Além serpeia o dorso pardacento
Da longa serrania,
Rubro flameia o véu sanguinolento
Da tarde na agonia.
No cinéreo vapor o céu desbota
Num azulado incerto,
No ar se afoga desmaiando a nota
Do sino do deserto...
Vim alentar meu coração saudoso
No vento das campinas,
Enquanto nesse manto lutuoso
Pálida te reclinas
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro
file:///C|/site/livros_gratis/lira_vinte_anos.htm (24 of 138) [22/8/2001 13:02:06]
E morre em teu silêncio, ó tarde bela,
Das folhas o rumor...
E late o pardo cão que os passos vela
Do tardio pastor!
II
Pálida estrela! o canto do crepúsculo
Acorda-te no céu:
Ergue-te nua na floresta morta
Do teu doirado véu!
Ergue-te!... eu vim por ti e pela tarde
Pelos campos errar,
Sentir o vento, respirando a vida
E livre suspirar.
É mais puro o perfume das montanhas
Da tarde no cair...
Quando o vento da noite agita as folhas
É doce o teu luzir!
Estrela do pastor, no véu doirado
Acorda-te na serra,
Inda mais bela no azulado fogo
Do céu da minha terra!
III
Estrela d'oiro, no purpúreo leito
Da irmã da noite, branca e peregrina
No firmamento azul derramas dia
Que as almas ilumina!
Abre o seio de pérola, transpira
Esse raio de luz que a mente inflama!
Esse raio de amor que ungiu meus lábios
No meu peito derrama!
IV
Lo bel pianeta he ad amar conforta
Faceva tutto rider l'oriente
DANTE, Purgatório
Estrelinhas azuis do céu vermelho,
Lágrimas d'oiro sobre o véu da tarde,
Que olhar celeste em pálpebra divina
Vos derramou tremendo?
Quem, à tarde, crisólitas ardentes,
Estrelas brancas, vos sagrou saudosas
Da fronte dela na azulada c'roa
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro
file:///C|/site/livros_gratis/lira_vinte_anos.htm (25 of 138) [22/8/2001 13:02:06]
Como auréola viva?
Foram anjos de amor, que vagabundos
Com saudades do céu vagam gemendo
E as lágrimas de fogo dos amores
Sobre as nuvens pranteiam?
Criaturas da sombra e do mistério,
Ou no purpúreo céu doureis a tarde,
Ou pela noite cintileis medrosas,
Estrelas, eu vos amo!
E quando, exausto o coração no peito
Do amor nas ilusões espera e dorme,
Diáfanas vindes-lhe doirar na mente
A sombra da esperança!
Oh! quando o pobre sonhador medita
Do vale fresco no orvalhado leito
Inveja às águias o perdido vôo
Para banhar-se no perfume etéreo...
E, nessa argêntea luz, no mar de amores
Onde entre sonhos e luar divino
A mão do Eterno vos lançou no espaço,
Respirar e viver!
DESALENTO
Por que havíeis passar tão doces dias?
A. F. DE SERPA PIMENTEL
Feliz daquele que no livro d'alma
Não tem folhas escritas
E nem saudade amarga, arrependida,
Nem lágrimas malditas!
Feliz daquele que de um anjo as tranças
Não respirou sequer
E nem bebeu eflúvios descorando
Numa voz de mulher...
E não sentiu-lhe a mão cheirosa e branca
Perdida em seus cabelos,
Nem resvalou do sonho deleitoso
A reais pesadelos...
Quem nunca te beijou, flor dos amores,
Flor do meu coração,
E não pediu frescor, febril e insano
Da noite à viração!
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro
file:///C|/site/livros_gratis/lira_vinte_anos.htm (26 of 138) [22/8/2001 13:02:06]
Ah! feliz quem dormiu no colo ardente
Da huri dos amores,
Que sôfrego bebeu o orvalho santo
Das perfumadas flores...
E pôde vê-la morta ou esquecida
Dos longos beijos seus,
Sem blasfemar das ilusões mais puras
E sem rir-se de Deus!
Mas, nesse doloroso sofrimento
Do pobre peito meu,
Sentir no coração que à dor da vida
A esperança morreu!...
Que me resta, meu Deus? aos meus suspiros
Nem geme a viração...
E dentro, no deserto do meu peito,
Não dorme o coração!
PÁLIDA INOCÊNCIA
Cette image du cíel - innocence et beauté!
LAMARTINE
Por que, pálida inocência,
Os olhos teus em dormência
A medo lanças em mim?
No aperto de minha mão
Que sonho do coração
Tremeu-te os seios assim?
E tuas falas divinas
Em que amor lânguida afinas
Em que lânguido sonhar?
E dormindo sem receio
Por que geme no teu seio
Ansioso suspirar?
Inocência! quem dissera
De tua azul primavera
As tuas brisas de amor!
Oh! quem teus lábios sentira
E que trêmulo te abrira
Dos sonhos a tua flor!
Quem te dera a esperança
De tua alma de criança,
Que perfuma teu dormir!
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro
file:///C|/site/livros_gratis/lira_vinte_anos.htm (27 of 138) [22/8/2001 13:02:06]
Quem dos sonhos te acordasse,
Que num beijo t'embalasse
Desmaiada no sentir!
Quem te amasse! e um momento
Respirando o teu alento
Recendesse os lábios seus!
Quem lera, divina e bela,
Teu romance de donzela
Cheio de amor e de Deus!
SONETO
Pálida, a luz da lâmpada sombria,
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela dormia!
Era a virgem do mar! na escuma fria
Pela maré das água embalada...
- Era um anjo entre nuvens d'alvorada
Que em sonhos se banhava e se esquecia!
Era mais bela! o seio palpitando...
Negros olhos as pálpebras abrindo...
Formas nuas no leito resvalando...
Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti - as noites eu velei chorando
Por ti - nos sonhos morrerei sorrindo!
ANIMA MEA
E como a vida é bela e doce e amável!
Não presta o espinhal a sombra ao leito
Do pastor do rebanho vagaroso,
Melhor que as sedas do lençol noturno
Onde o pávido rei dormir não pode?
SHAKESPEARE, Henrique VI, 3ª p.
Quando nas sestas do verão saudoso
A sombra cai nos laranjais do vale,
Onde o vento adormece e se perfuma...
E os raios d'oiro, cintilando vivos,
Como chuva encantada se gotejam
Nas folhas do arvoredo recendente,
Parece que de afã dorme a natura
E as aves silenciosas se mergulham
No grato asilo da cheirosa sombra.
E que silêncio então pelas campinas!...
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A flor aberta na manhã mimosa
E que os estos do sol d'estio murcham
Cerra as folhas doridas e procura
Da grama no frescor doentio leito.
É doce então das folhas no silêncio
Penetrar o mistério da floresta,
Ou reclinado à sombra da mangueira
Um momento dormir, sonhar um pouco!
Ninguém que turve os sonhos de mancebo,
Ninguém que o indolente adormecido
Roube das ilusões que o acalentam
E do mole dormir o chame à vida!
E é tão doce dormir! é tão suave
Da modorra no colo embalsamado
Um momento tranqüilo deslizar-se!
Criaturas de Deus se peregrinam
Invisíveis na terra, consolando
As almas que padecem... certamente
Que são anjos de Deus que aos seios tomam
A fronte do poeta que descansa!
Ó floresta! ó relva amolecida,
A cuja sombra, em cujo doce leito
É tão macio descansar nos sonhos!
Arvoredos do vale! derramai-me
Sobre o corpo estendido na indolência
O tépido frescor e o doce aroma!
E quando o vento vos tremer nos ramos
E sacudir-vos as abertas flores
Em chuva perfumada, concedei-me
Que encham meu leito, minha face, a relva...
Onde o mole dormir a amor convida!
E tu, Ilná, vem pois! deixa em teu colo
Descanse teu poeta: é tão divino
Sorver as ilusões dos sonhos ledos,
Sentindo à brisa teus cabelos soltos
Meu rosto encherem de perfume e gozo!
Tudo dorme, não vês? dorme comigo,
Pousa na minha tua face bela
E o pálido cetim da tez morena...
Fecha teus olhos lânguidos... no sono
Quero sentir os túmidos suspiros
No teu seio arquejar, morrer nos lábios...
E no sono teu braço me enlaçando!
Ó minha noiva, minha doce virgem,
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No regaço da bela natureza,
Anjo de amor, reclina-te e descansa!
Neste berço de flores tua vida
Límpida e pura correrá na sombra,
Como gota de mel em cálix branco
Da flor das selvas que ninguém respira.
Além, além nas árvores tranqüilas
Uma voz acordou como um suspiro...
São ais sentidos de amorosa rola
Que nos beijos de amor palpita e geme?
Ah! nem tão doce a rola suspirando
Modula seus gemidos namorados,
Não trina assim tão longa e molemente...
Em argentinas pérolas o canto
Se exala como as notas expirantes
De uma alma de mulher que chora e canta...
É a voz do sabiá: ele dormia
Ebrioso de harmonia e se embalava
No silêncio, na brisa e nos eflúvios
Das flores de laranja... Ilná, ouviste?
É o canto saudoso da esperança,
É dos nossos amores a cantiga
Que o aroma que exalam teus cabelos,
Tua lânguida voz... talvez lhe inspiram!
Vem, Ilná, dá-me um beijo: adormeçamos...
A cantilena do sabiá sombrio
Encanta as ilusões, afaga o sono...
Ó! minha pensativa, descuidosa,
Eu sinto a vida bela em teu regaço,
Sinto-a bela nas horas do silêncio
Quando em teu colo me reclino e durmo...
E ainda os sonhos meus vivem contigo!
Ah! vem, ó minha Ilná: sei harmonias
Que a noite ensina ao violão saudoso
E que a lua do mar influi na mente;
E quando eu vibro as cordas tremulosas,
Como alma de donzela que respira,
Coa nas vibrações tanta saudade,
Tanto sonho de amor esvaecido...
Que o terno coração acorda e geme
E os lábios do poeta inda suspiram!
Anjo do meu amor! se os ais da virgem
Têm doçuras, têm lágrimas divinas,
É quando, no silêncio e no mistério,
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Sobre o peito do amante se derramam
No sufocado alento os moles cantos...
- Cantos de amor, de sede e d'esperanças
Que nos lábios febris lhe afoga um beijo!
Ouves, Ilná?... meu violão palpita:
Quero lembrar um cântico de amores...
Fora doce ao poeta, teu amante,
Nos ais ardentes das maviosas fibras
Ouvir os teus alentos de mistura
E as moles vibrações da cantilena
Este meu peito remoçar um pouco!
Virgem do meu amor vem dar-me ainda
Um beijo! um beijo longo, transbordando
De mocidade e vida; e nos meus sonhos
Minh'alma acordará - sopro errabundo
Da alma da virgem tremerá meus seios...
E a doce aspiração dos meus amores
No condão da harmonia há de embalar-se!
A HARMONIA
Meu Deus! se às vezes, na passada vida,
Eu tive sensações que emudeciam
Essa descrença que me dói na vida
E, como orvalho que a manhã vapora,
Em seus raios de luz a Deus me erguiam
Foi quando às vezes a modinha doce
Ao sol de minha terra me embalava
E quando as árias de Bellini pálido
Em lábios de Italiana estremeciam!
Ó santa Malibran! fora tão doce
Pelas noites suaves do silêncio
Nas lágrimas de amor, nos teus suspiros,
Na agonia de um beijo, ouvir gemendo
Entre meus sonhos tua voz divina!
Ó Paganini! quando moribundo
Inda a rabeca ao peito comprimias,
Se o hálito de Deus, essa alma d'anjo
Que das fibras do peito cavernoso
Arquejava nas cordas entornando
Murmúrios d'esperança e de ventura,
Se a alma de teu viver roçou passando
Nalgum lábio sedento de poesia,
Numa alma de mulher adormecida,
Se algum seio tremeu ao concebê-lo...
Esse alento de vida e de futuro
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file:///C|/site/livros_gratis/lira_vinte_anos.htm (31 of 138) [22/8/2001 13:02:06]
- Foi o teu seio, Malibran divina!
Ah! se nunca te ouvi, se teus suspiros,
Desdêmona sentida e moribunda,
Nunca pude beber no teu exílio...
Nos sonhos virginais senti ao menos
Tua pálida sombra vaporosa
Nesta fronte que a febre encandecera
Depor um beijo, suspirar passando!
Meu Deus! e, outrora, se um momento a vida
De poesia orvalhou meus pobres sonhos,
Foi nuns suspiros de mulher saudosa,
Foi abatida, a forma desmaiada,
Uma pobre infeliz que descorando
Fazia os prantos meus correr-me aos olhos!
Pobre! pobre mulher! esses mancebos
Que choravam por ti... quando gemias,
Quando sentias a tua alma ardente
No canto esvaecer, pálida e bela,
E teu lábio afogar entre harmonias
- Almas que de tua alma se nutriam!
Que davam-te seus sonhos, e amorosas
Desfolhavam-te aos pés a flor da vida...
Ai quantas não sentiste palpitantes,
Nem ousando beijar teu véu d'esposa,
Nas longas noites nem sonhar contigo!
E hoje riem de ti! da criatura
Que insana profanou as asas brancas!...
Que num riso sem dó, uma por uma,
Na torrente fatal soltava rindo,
E as sentia boiando solitárias...
As flores da coroa, como Ofélia!...
Que iludida do amor vendeu a glória
E deu seu colo nu a beijo impuro...
Eles riem de ti!... mas eu, coitada,
Pranteio teu viver e te perdôo.
Fada branca de amor, que sina escura
Manchou no teu regaço as roupas santas?
Por que deixavas encostada ao seio
A cabeça febril do libertino?
Por que descias das regiões doiradas
E lançavas ao mar a rota lira
Para vibrar tua alma em lábios dele?
Por que foste gemer na orgia ardente
A santa inspiração de teus poetas...
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file:///C|/site/livros_gratis/lira_vinte_anos.htm (32 of 138) [22/8/2001 13:02:06]
Perder teu coração em vis amores?
Anjo branco de Deus, que sina escura
Manchou no teu regaço as roupas santas?
Pálida Italiana! hoje esquecida.
O escárnio do plebeu murchou teus louros!
Tua voz se cansou nos ditirambos...
E tu não voltas com as mãos na lira
Vibrar nos corações as cordas virgens
E ao gênio adormecido em nossas almas
Na fronte desfolhar tuas coroas!...
..............................................................................
VIDA
Oh! laisse-moi t'aimer pour que j'aime la vie!
Pour ne point au bonheur dire un dernier adieu
Pour ne point blasphémer les biens que l'homme envie
Et pour ne pas douter de Dieu!
ALEXANDRE DUMAS
I
Oh! fala-me de ti! eu quero ouvir-te
Murmurar teu amor...
E nos teus lábios perfumar do peito
Minha pálida flor.
De tua carta nas queridas folhas
Eu sinto-me viver...
E as páginas do amor sobre meu peito
E, quando, à noite, delirante durmo,
Deito-as no peito meu...
Nos delíquios de amor, ó minha amante,
Eu sonho o seio teu...
A alma que as inspirou, que lhes deu vida
E o fogo da paixão...
E derramou as notas doloridas
Do virgem coração!
Eu quero-as no meu peito, como sonho
Teu seio de donzela,
Para sonhar contigo o céu mais puro
E a esperança mais bela!
II
A nós a vida em flor, a doce vida
Recendente de amor,
Cheia de sonhos, d'esperança e beijos
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file:///C|/site/livros_gratis/lira_vinte_anos.htm (33 of 138) [22/8/2001 13:02:06]
E pálido langor...
A tua alma infantil junto da minha
No fervor do desejo,
Nossos lábios ardentes descorando
Comprimidos num beijo...
E as noites belas de luar e a febre
Da vida juvenil...
E este amor que sonhei, que só me alenta
No teu colo infantil!
Vem comigo ao luar: amemos juntos
Neste vale tranqüilo...
De abertas flores e caídas folhas...
No perfumado asilo.
Aqui somente a rola da floresta
Das sestas ao calor
O tremer sentirá dos longos beijos...
E verá teu palor.
À noite encostarei a minha fronte
No virgem colo teu;
Terei por leito o vale dos amores,
Por tenda o azul do céu!
E terei tua imagem mais formosa
Nas vigílias do val:
- Será da vida meu suave aroma
Teu lírio virginal.
IV
Que importa que o anátema do mundo
Se eleve contra nós,
Se é bela a vida num amor imenso
Na solidão - a sós?
Se nós teremos o cair da tarde
E o frescor da manhã:
E tu és minha mãe e meus amores
E minh'alma de irmã?
Se teremos a sombra onde se esfolham
As flores do retiro...
E a vida além de ti - a vida inglória -
Não me vale um suspiro?
Bate a vida melhor dentro do peito
Do campo na tristeza
E o aroma vital, ali, do seio
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file:///C|/site/livros_gratis/lira_vinte_anos.htm (34 of 138) [22/8/2001 13:02:06]
Derrama a natureza...
E, aonde as flores no deserto dormem
Com mais viço e frescor,
Abre linda também a flor da vida
Da lua no palor.
C...
Oh! não tremas! que este olhar, este
abraço te digam quanto é inefável - o de
abandono sem receio, os inebriamentos de
uma voluptuosidade que deve ser eterna.
GOETHE, Fausto
Sim! coroemos as noites
Com as rosas do himeneu...
Entre flores de laranja
Serás minha e serei teu!
Sim! quero em leito de flores
Tuas mãos dentro das minhas...
Mas os círios dos amores
Sejam só as estrelinhas.
Por incenso os teus perfumes,
Suspiros por oração
E por lágrimas... somente
As lágrimas da paixão!
Dos véus da noiva só tenhas
Dos cílios o negro véu...
Basta do colo o cetim
Para as Madonas do céu!
Eu soltarei-te os cabelos...
Quero em teu colo sonhar...
Hei de embalar-te... do leito
Seja lâmpada o luar!
Sim!... coroemos as noites
Da laranjeira co'a flor...
Adormeçamos num templo
- Mas seja o templo do amor.
É doce amar como os anjos
Da ventura no himeneu:
Minha noiva, ou minh'amante,
Vem dormir no peito meu!
Dá-me um beijo, abre teus olhos
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file:///C|/site/livros_gratis/lira_vinte_anos.htm (35 of 138) [22/8/2001 13:02:06]
Por entre esse úmido véu:
Se na terra és minha amante,
És a minh'alma no céu!
NO TÚMULO DO MEU AMIGO
JOÃO BAPTISTA DA SILVA PEREIRA JÚNIOR
EPITÁFIO
Perdão, meu Deus, se a túnica da vida...
Insano profanei-a nos amores!
Se da c'roa dos sonhos perfumados
Eu próprio desfolhei as róseas flores!
No vaso impuro corrompeu-se o néctar,
A argila da existência desbotou-me...
O sol de tua gloria abriu-me as pálpebras,
Da nódoa das paixões purificou-me!
E quantos sonhos na ilusão da vida!
Quanta esperança no futuro ainda!
Tudo calou-se pela noite eterna...
E eu vago errante e só na treva infinda...
Alma em fogo, sedenta de infinito,
Num mundo de visões o vôo abrindo,
Como o vento do mar no céu noturno
Entre as nuvens de Deus passei dormindo!
A vida é noite! o sol tem véu de sangue...
Tateia a sombra a geração descrida!...
Acorda-te, mortal! é no sepulcro
Que a larva humana se desperta à vida!
Quando as harpas do peito a morte estala,
Um treno de pavor soluça e voa...
E a nota divinal que rompe as fibras
Nas dulias angélicas ecoa!
O PASTOR MORIBUNDO
CANTIGA DE VIOLA
A existência dolorida
Cansa em meu peito: eu bem sei
Que morrerei...
Contudo da minha vida
Podia alentar-se a flor
No teu amor!
Do coração nos refolhos
Solta um ai! num teu suspiro
Eu respiro...
Mas fita ao menos teus olhos
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file:///C|/site/livros_gratis/lira_vinte_anos.htm (36 of 138) [22/8/2001 13:02:06]
Sobre os meus... eu quero-os ver
Para morrer!
Guarda contigo a viola
onde teus olhos cantei...
E suspirei!
Só a idéia me consola
Que morro como vivi...
Morro por ti!
Se um dia tu'alma pura
Tiver saudades de mim,
Meu serafim!
Talvez notas de ternura
Inspirem o doudo amor
Do trovador!
TARDE DE VERÃO
Viens!...
Que l'arbre pénétré de parfums et de chants,
.....................................................................
Et l'o,bre et le soleil, et l'onde et la verdure,
Et le rayonnement de toute la nature
Fassent épanouir comme une double fleur
La beauté sur ton front, et l'amour dans ton coeur!
V. HUGO
Como cheirosa e doce a tarde expira!
De amor e luz inunda a praia bela...
E o sol já roxo e trêmulo desdobra
Um íris furta-cor na fronte dela.
Deixai que eu morra só! enquanto o fogo
Da última febre dentro em mim vacila,
Não venham ilusões chamar-me à vida,
De saudades banhar a hora tranqüila!
Meu Deus! que eu morra em paz! não me coroem
De flores infecundas a agonia!
Oh! não doire o sonhar do moribundo
Lisonjeiro pincel da fantasia!
Exaurido de dor e d'esperança
Posso aqui respirar mais livremente,
Sentir ao vento dilatar-se a vida,
Como a flor da lagoa transparente!
Se ela estivesse aqui! no vale agora
Cai doce a brisa morna desmaiando:
Nos murmúrios do mar fora tão doce
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file:///C|/site/livros_gratis/lira_vinte_anos.htm (37 of 138) [22/8/2001 13:02:06]
Da tarde no palor viver amando!
Uni-la ao peito meu - nos lábios dela
Respirar uma vez, cobrando alento;
A divina visão de seus amores
Acordar o meu peito inda um momento!
Fulgura a minha amante entre meus sonhos,
Como a estrela do mar nas águas brilha,
Bebe à noite o favônio em seus cabelos
Aroma mais suave que a baunilha.
Se ela estivesse aqui! jamais tão doce
O crepúsculo o céu embelecera...
E a tarde de verão fora mais bela,
Brilhando sobre a sua primavera!
Da lânguida pupila de seus olhos
Num olhar de desdém entorna amores,
Como à brisa vernal na relva mole
O pessegueiro em flor derrama flores.
Árvore florescente desta vida,
Que amor, beleza e mocidade encantam,
Derrama no meu seio as tuas flores
Onde as aves do céu à noite cantam!
Vem! a areia do mar cobri de flores,
Perfumei de jasmins teu doce leito;
Podes suave, ó noiva do poeta,
Suspirosa dormir sobre meu peito!
Não tardes, minha vida! no crepúsculo
Ave da noite me acompanha a lira...
É um canto de amor... Meu Deus! que sonhos!
Era ainda ilusão - era mentira!
TARDE DE OUTONO
Un souvenir heureux est peut-être sur terre
Plus vrai que le bonheur.
ALFRED DE MUSSET
O POETA
Ó musa, por que vieste
E contigo me trouxeste
A vagar na solidão?
Tu não sabes que a lembrança
De meus anos de esperança
Aqui fala ao coração?
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro
file:///C|/site/livros_gratis/lira_vinte_anos.htm (38 of 138) [22/8/2001 13:02:06]
A SAUDADE
De um puro amor a lânguida saudade
É doce como a lágrima perdida,
Que banha no cismar um rosto virgem:
Volta o rosto ao passado e chora a vida.
O POETA
Não sabes o quanto dói
Uma lembrança que rói
A fibra que adormeceu?...
Foi neste vale que amei,
Que a primavera sonhei,
Aqui minh'alma viveu.
A SAUDADE
Pálidos sonhos do passado morto
É doce reviver mesmo chorando:
A alma refaz-se pura. Um vento aéreo
Parece que do amor nos vai roubando.
O POETA
Eu vejo ainda a janela
Onde, à tarde, junto dela
Eu lia versos de amor...
Como eu vivia d'enleio
No bater daquele seio,
Naquele aroma de flor!
Creio vê-la inda formosa,
Nos cabelos uma rosa,
De leve a janela abrir...
Tão bela, meu Deus, tão bela!
Por que amei tanto, donzela,
Se devias me trair?
A SAUDADE
A casa está deserta. A parasita
Nas paredes estampa negra cor,
Os aposentos o ervaçal povoa,
A porta é franca... Entremos, trovador!
O POETA
Derramai-vos, prantos meus!
Dai-me mais prantos, meu Deus!
Eu quero chorar aqui...
Em que sonhos de ebriedade
No arrebol da mocidade
Eu nesta sombra dormi!
Passado, por que murchaste?
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro
file:///C|/site/livros_gratis/lira_vinte_anos.htm (39 of 138) [22/8/2001 13:02:06]
Ventura, por que passaste
Degenerando em saudade?
Do estio secou-se a fonte,
Só ficou na minha fronte
A febre da mocidade.
A SAUDADE
Sonha, poeta, sonha! Ali sentado
No tosco assento da janela antiga,
Apóia sobre a mão a face pálida,
Sorrindo - dos amores à cantiga.
O POETA
Minh'alma triste se enluta,
Quando a voz interna escuta
Que blasfema da esperança...
Aqui tudo se perdeu,
Minha pureza morreu
Com o enlevo de criança!
Ali, amante ditoso,
Delirante, suspiroso,
Eflúvios dela sorvi,
No seu colo eu me deitava...
E ela tão doce cantava!
De amor e canto vivi!
Na sombra deste arvoredo
Oh! quantas vezes a medo
Nossos lábios se tocaram!
E os seios, onde gemia
Uma voz que amor dizia,
Desmaiando me apertaram!
Foi doce nos braços teus,
Meu anjo belo de Deus,
Um instante do viver...
Tão doce, que em mim sentia
Que minh'alma se esvaía...
E eu pensava ali morrer!
A SAUDADE
É berço de mistério e d'harmonia
Seio mimoso de adorada amante:
A alma bebe nos sons que amor suspira
A voz, a doce voz de uma alma errante.
Tingem-se os olhos de amorosa sombra,
Os lábios convulsivos estremecem;
E a vida foge ao peito... apenas tinge
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file:///C|/site/livros_gratis/lira_vinte_anos.htm (40 of 138) [22/8/2001 13:02:06]
As faces que de amor empalidecem.
Parece então que o agitar do gozo
Nossos lábios atrai a um bem divino:
Da amante o beijo é puro como as flores
E dela a voz é doce como um hino.
Dizei-o vós, dizei, ternos amantes,
Almas ardentes que a paixão palpita,
Dizei essa emoção que o peito gela
E os frios nervos num espasmo agita.
Vinte anos! como tens doirados sonhos!
E como a névoa de falaz ventura
Que se estende nos olhos do poeta
Doira a amante de nova formosura!
O POETA
Que gemer! não me enganava!
Era o anjo que velava
Minha casta solidão?
São minhas noites gozadas
E as venturas choradas
Que vibram meu coração?
É tarde, amores, é tarde:
Uma centelha não arde
Na cinza dos seios meus...
Por ela tanto chorei,
Que mancebo morrerei...
Adeus, amores, adeus!
CANTIGA
I
Em um castelo doirado
Dorme encantada donzela...
Nasceu; e vive dormindo
- Dorme tudo junto dela.
Adormeceu-a, sonhando,
Um feiticeiro condão,
E dormem no seio dela
As rosas do coração.
Dorme a lâmpada argentina
Defronte do leito seu;
Noite a noite a lua triste
Vem espreitá-la do céu.
Voam os sonhos errantes
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro
file:///C|/site/livros_gratis/lira_vinte_anos.htm (41 of 138) [22/8/2001 13:02:06]
Do leito sob o dossel
E suspiram no alaúde
As notas do menestrel.
E no castelo, sozinha,
Dorme encantada donzela...
Nasceu; e vive dormindo
- Dorme tudo junto dela.
Dormem cheirosas, abrindo,
As roseiras em botão...
E dormem no seio dela
As rosas do coração.
II
A donzela adormecida
É a tua alma, santinha,
Que não sonha nas saudades
E nos amores da minha.
- Nos meus amores que velam
Debaixo do teu dossel
E suspiram no alaúde
As notas do menestrel.
Acorda, minha donzela,
Foi-se a lua, eis a manhã
E nos céus da primavera
É a aurora tua irmã.
Abriram no vale as flores
Sorrindo na fresquidão:
Entre as rosas da campina
Abram-se as do coração.
Acorda, minha donzela,
Soltemos da infância o véu...
Se nós morrermos num beijo,
Acordaremos no céu.
SAUDADES
' Tis vain to struggle - let me perish young
BYRON
Foi por ti que num sonho de ventura
A flor da mocidade consumi...
E às primaveras disse adeus tão cedo
E na idade do amor envelheci!
Vinte anos! derramei-os gota a gota
Num abismo de dor e esquecimento...
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro
file:///C|/site/livros_gratis/lira_vinte_anos.htm (42 of 138) [22/8/2001 13:02:06]
De fogosas visões nutri meu peito...
Vinte anos!... sem viver um só momento!
Contudo, no passado uma esperança
Tanto amor e ventura prometia...
E uma virgem tão doce, tão divina,
Nos sonhos junto a mim adormecia!
.................................................................
Quando eu lia com ela... e no romance
Suspirava melhor ardente nota...
E Jocelyn sonhava com Laurence
Ou Werther se morria por Carlota...
Eu sentia a tremer e a transluzir-lhe
Nos olhos negros a alma inocentinha...
E uma furtiva lágrima rolando
Da face dela umedecer a minha!
E quantas vezes o luar tardio
Não viu nossos amores inocentes?
Não embalou-se da morena virgem
No suspirar, nos cânticos ardentes?
E quantas vezes não dormi sonhando
Eterno amor, eternas as venturas...
E que o céu ia abrir-se... e entre os anjos
Eu ia despertar em noites puras?
Foi esse o amor primeiro! requeimou-me
As artérias febris de juventude,
Acordou-me dos sonhos da existência
Na harmonia primeira do alaúde.
.......................................................................
Meu Deus! e quantas eu amei... Contudo
Das noites voluptuosas da existência
Só restam-me saudades dessas horas
Que iluminou tua alma d'inocência.
Foram três noites só... três noites belas
De lua e de verão, no val saudoso...
Que eu pensava existir... sentindo o peito
Sobre teu coração morrer de gozo.
E por três noites padeci três anos,
Na vida cheia de saudade infinda...
Três anos de esperança e de martírio...
Três anos de sofrer - e espero ainda!
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro
file:///C|/site/livros_gratis/lira_vinte_anos.htm (43 of 138) [22/8/2001 13:02:06]
A ti se ergueram meus doridos versos,
Reflexos sem calor de um sol intenso,
Votei-os à imagem dos amores
Pra velá-la nos sonhos como incenso.
Eu sonhei tanto amor, tantas venturas,
Tantas noites de febre e d'esperança...
Mas hoje o coração parado e frio,
Do meu peito no túmulo descansa.
Pálida sombra dos amores santos!
Passa quando eu morrer no meu jazigo,
Ajoelha ao luar e entoa um canto...
Que lá na morte eu sonharei contigo.
12 de setembro, 1852.
ESPERANÇAS
Oh! si elle m'eût aimé...
ALFRED DE VIGNY, Chatterton
Se a ilusão de minh'alma foi mentida
E, leviana, da árvore da vida,
As flores desbotei...
Se por sonhos do amor de uma donzela
Imolei meu porvir e o ser por ela
Em prantos esgotei...
Se a alma consumi na dor que mata
E banhei de uma lágrima insensata
A última esperança,
Oh! não me odeies, não! eu te amo ainda,
Como dos mares pela noite infinda
A estrela da bonança!
Como nas folhas do Missal do templo
Os mistérios de Deus em ti contemplo
E na tu'alma os sinto!
Às vezes, delirante, se eu maldigo
As esperanças que sonhei contigo,
Perdoa-me, que minto!
Oh! não me odeies, não! eu te amo ainda,
Como do peito a aspiração infinda
Que me influi o viver...
E como a nuvem de azulado incenso...
Como eu amo esse afeto único, imenso
Que me fará morrer!
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Rompeste a alva túnica luzente
Que eu doirava por ti de amor demente
E aromei de abusões...
Deste-me em troco lágrimas aspérrimas...
Ah! que morreram a sangrar misérrimas
As minhas ilusões!
Nos encantos das fadas da ventura
Podes dormir ao sol da formosura
Sempre bela e feliz!
Irmã dos anjos, sonharei contigo:
A alma a quem negaste o último abrigo
Chora... não te maldiz!
Chora e sonha e espera: a negra sina
Talvez no céu se apague em purpurina
Alvorada de amor...
E eu acorde no céu num teu abraço
E repouse tremendo em teu regaço
Teu pobre sonhador!
VIRGEM MORTA
Oh! make her a grave where the sun-beams rest,
When they promise a glorious morrow!
They'll shine o'er sleep, like a smile from the West,
From her own lov'd island of sorrow.
TH. MOORE
Lá bem na extrema da floresta virgem,
Onde na praia em flor o mar suspira...
Lá onde geme a brisa do crepúsculo
E mais poesia o arrebol transpira...
Nas horas em que a tarde moribunda
As nuvens roxas desmaiando corta,
No leito mole da molhada areia
Deitem o corpo da beleza morta.
Irmã chorosa a suspirar desfolhe
No seu dormir da laranjeira as flores,
Vistam-na de cetim, e o véu de noiva
Lhe desdobrem da face nos palores.
Vagueie em torno, de saudosas virgens
Errando à noite, a lamentosa turma...
E, entre cânticos de amor e de saudade,
Junto às ondas do mar a virgem durma.
Às brisas da saudade soluçantes
Aí, em tarde misteriosa e bela,
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file:///C|/site/livros_gratis/lira_vinte_anos.htm (45 of 138) [22/8/2001 13:02:06]
Entregarei as cordas do alaúde
E irei meus sonhos prantear por ela!
Quero eu mesmo de rosa o leito encher-lhe
E de amorosos prantos perfumá-la...
E a essência dos cânticos divinos
No túmulo da virgem derramá-la.
Que importa que ela durma descorada
E velasse o palor a cor do pejo?
Quero a delícia que o amor sonhava
Nos lábios dela pressentir num beijo.
Desbotada coroa do poeta!
Foi ela mesma quem prendeu-te flores!
Ungiu-as no sacrário de seu peito
Inda virgem do alento dos amores!...
Na minha fronte riu de ti, passando,
Dos sepulcros o vento peregrino...
Irei eu mesmo desfolhar-te agora
Da fronte dela no palor divino!...
E contudo eu sonhava! e pressuroso
Da esperança o licor sorvi sedento!
Ai! que tudo passou!... só resta agora
O sorriso de um anjo macilento!
..........................................................................
Ó minha amante, minha doce virgem,
Eu não te profanei, tu dormes pura:
No sono do mistério, qual na vida,
Podes sonhar ainda na ventura.
Bem cedo, ao menos, eu serei contigo
- Na dor do coração a morte leio...
Poderei amanhã, talvez, meus lábios
Da irmã dos anjos encostar no seio...
E tu, vida que amei! pelos teus vales
Com ela sonharei eternamente...
Nas noites junto ao mar e no silêncio,
Que das notas enchi da lira ardente!...
Dorme ali minha paz, minha esperança,
Minha sina de amor morreu com ela,
E o gênio do poeta, lira eólia
Que tremia ao alento da donzela!
Qu'esperanças, meu Deus! E o mundo agora
Se inunda em tanto sol no céu da tarde!
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file:///C|/site/livros_gratis/lira_vinte_anos.htm (46 of 138) [22/8/2001 13:02:06]
Acorda, coração!... Mas no meu peito
Lábio de morte murmurou: - É tarde!
É tarde! e quando o peito estremecia
Sentir-me abandonado e moribundo!?...
É tarde! é tarde! ó ilusões da vida,
Morreu com ela da esperança o mundo!...
No leito virginal de minha noiva
Quero, nas sombras do verão da vida,
Prantear os meus únicos amores,
Das minhas noites a visão perdida...
Quero ali, ao luar, sentir passando
Por alta noite a viração marinha,
E ouvir, bem junto às flores do sepulcro,
Os sonhos de su'alma inocentinha.
E quando a mágoa devorar meu peito...
E quando eu morra de esperar por ela...
Deixai que eu durma ali e que descanse,
Na morte ao menos, sobre o seio dela!
HINOS DO PROFETA
UM CANTO DO SÉCULO
Spiritus meus attenuabitur, dies mei
Breviabuntur, et solum mihi superest
Sepulchrum.
JOB
Debalde nos meus sonhos de ventura
Tento alentar minha esperança morta
E volto-me ao porvir:
A minha alma só canta a sepultura
E nem última ilusão beija e conforta
Meu suarento dormir...
Debalde! que exauriu-me o desalento:
A flor que aos lábios meus um anjo dera
Mirrou na solidão...
Do meu inverno pelo céu nevoento
Não se levantará nem primavera,
Nem raio de verão!
Invejo as flores que murchando morrem,
E as aves que desmaiam-se cantando
E expiram sem sofrer...
As minhas veias inda ardentes correm...
E na febre da vida agonizando
Eu me sinto morrer!
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file:///C|/site/livros_gratis/lira_vinte_anos.htm (47 of 138) [22/8/2001 13:02:06]
Tenho febre! meu cérebro transborda...
Eu morrerei mancebo, inda sonhando
Da esperança o fulgor...
Oh! cantemos ainda: a última corda
Inda palpita... morrerei cantando
O meu hino de amor!
Meu sonho foi a glória dos valentes,
De um nome de guerreiro a eternidade
Nos hinos seculares,
Foi nas praças, de sangue ainda quentes,
Desdobrar o pendão da liberdade
Nas frontes populares!
Meu amor foi a verde laranjeira,
Cheia de sombra, à noite abrindo as flores,
Melhor que ao meio-dia,
A várzea longa... a lua forasteira
Que pálida, como eu, sonhando amores,
De névoa se cobria.
Meu amor foi o sol que madrugava,
O canto matinal dos passarinhos
E a rosa predileta...
Fui um louco, meu Deus! quando tentava
Descorado e febril manchar no vinho,
Meus louros de poeta!
Meu amor foi o sonho dos poetas
- O belo, o gênio, de um porvir liberto
A sagrada utopia!...
E, à noite, pranteei como os profetas,
Dei lágrimas de sangue no deserto
Dos povos à agonia!...
Meu amor!?... foi a mãe que me alentava,
Que viveu, esperou por minha vida
E pranteia por mim...
E a sombra solitária que eu sonhava
Lânguida como vibração perdida
De roto bandolim...
E agora o único amor!... o amor eterno,
Que no fundo do peito aqui murmura
E acende os sonhos meus,
Que lança algum luar no meu inverno,
Que minha vida no penar apura,
- É o amor de meu Deus!
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file:///C|/site/livros_gratis/lira_vinte_anos.htm (48 of 138) [22/8/2001 13:02:06]
É só no eflúvio desse amor imenso
Que a alma derrama as emoções cativas
Em suspiros sem dor...
E no vapor do consagrado incenso
Que as sombras da esperança redivivas
Nos beijam o palor...
Eu vaguei pela vida sem conforto,
Esperei minha amante noite e dia
E o ideal não veio...
Farto de vida, breve serei morto...
Nem poderei ao menos na agonia
Descansar-lhe no seio...
Passei como Don Juan entre as donzelas,
Suspirei as canções mais doloridas
E ninguém me escutou...
Oh! nunca à virgem flor das faces belas
Sorvi o mel, nas longas despedidas...
Meu Deus! ninguém me amou!
Vivi na solidão, odeio o mundo...
E no orgulho embucei meu rosto pálido
Como um astro nublado...
Ri-me da vida - lupanar imundo,
Onde se volve o libertino esquálido
Na treva... profanado
Quantos hei visto desbotarem frios,
Manchados de embriaguez da orgia em meio
Nas infâmias do vício!
E quantos morreram inda sombrios,
Sem remorso dos negros devaneios...
Sentindo o precipício!
Quanta alma pura... e virgem menestrel,
Que adormeceu no tremedal sem fundo,
No lodo se manchou!
Que liras estaladas no bordel!
E que poetas que perdeu o mundo
Em Bocage e Marlowe!
Morrer! ali na sombra, na taverna,
A alma que em si continha um canto aéreo
No peito solitário!
Sublime como a nota obscura, eterna,
Que o bronze vibra em noites de mistério
No escuro campanário!
O meus amigos, deve ser terrível
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file:///C|/site/livros_gratis/lira_vinte_anos.htm (49 of 138) [22/8/2001 13:02:06]
Sobre as tábuas imundas, inda ebrioso,
Na solidão morrer!
Sentir as sombras dessa noite horrível
Surgirem dentre o leito pavoroso...
Sem um Deus para crer!
Sentir que a alma, desbotado lírio,
Dum mundo ignoto vagará chorando
Na treva mais escura...
E o cadáver sem lágrimas, nem círio,
Na calçada da rua, desbotando,
Não terá sepultura...
Perdoa-lhes, meu Deus! o sol da vida
Nas artérias inflama o sangue em lava
E o cérebro varia...
O século na vaga enfurecida
Mergulha a geração que se acordava...
E nuta de agonia.
São tristes deste século os destinos!...
Seiva mortal as flores que despontam
Infecta em seu abrir...
E o cadafalso e a voz dos Girondinos
Não falam mais na glória e não apontam
A aurora do porvir...
Fora belo talvez, em pé, de novo,
Como Byron, surgir, ou na tormenta
O homem de Waterloo!
Com sua idéia iluminar um povo,
Como o trovão da nuvem que rebenta
E o raio derramou...
Fora belo talvez sentir no crânio
A alma de Goethe e resumir na fibra
Milton, Homero e Dante,
Sonhar-se, num delírio momentâneo,
A alma da criação e o som que vibra
A terra palpitante...
Mas ah! o viajor nos cemitérios
Nessas nuas caveiras não escuta
Vossas almas errantes...
Do estandarte medonho nos impérios
A morte, leviana prostituta,
Não distingue os amantes!...
Eu, pobre sonhador! eu, terra inculta
Onde não fecundou-se uma semente,
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file:///C|/site/livros_gratis/lira_vinte_anos.htm (50 of 138) [22/8/2001 13:02:06]
Convosco dormirei...
E dentre nós a multidão estulta
Não vos distinguirá a fronte ardente
Do crânio que animei...
Ó morte! a que mistério me destinas?
Esse átomo de luz, que inda me alenta,
Quando o corpo morrer,
Voltará amanhã!... aziagas sinas!...
À terra numa face macilenta
Esperar e sofrer?
Meu Deus! antes, meu Deus! que uma outra vida,
Com teu braço eternal meu ser esmaga
E minh'alma aniquila:
A estrela de verão no céu perdida
Também, às vezes, seu alento apaga
Numa noite tranqüila!...
II
LÁGRIMAS DE SANGUE
Taedet animam meam vitae meae.
JOB
Ao pé das aras, ao clarão dos círios,
Eu te devera consagrar meus dias...
Perdão, meu Deus! perdão...
Se neguei meu Senhor nos meus delírios
E um canto de enganosas melodias
Levou meu coração!
Só tu, só tu podias o meu peito
Fartar de imenso amor e luz infinda
E uma saudade calma!
Ao sol de tua fé doirar meu leito
E de fulgores inundar ainda
A aurora na minh'alma.
Pela treva do espírito lancei-me,
P'ras esperanças suicidei-me rindo...
Sufocando-as sem dó...
No vale dos cadáveres sentei-me
E minhas flores semeei sorrindo
Dos túmulos no pó.
Indolente Vestal, deixei no templo
A pira se apagar! na noite escura
O meu gênio descreu...
Voltei-me para a vida... só contemplo
A cinza da ilusão que ali murmura:
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file:///C|/site/livros_gratis/lira_vinte_anos.htm (51 of 138) [22/8/2001 13:02:06]
Morre! - tudo morreu!
Cinzas, cinzas... Meu Deus! só tu podias
À alma que se perdeu bradar de novo:
- Ressurge-te ao amor!
Macilento, das minhas agonias
Eu deixaria as multidões do povo
Para amar o Senhor!
Do leito aonde o vício acalentou-me
O meu primeiro amor fugiu chorando...
Pobre virgem de Deus!
Um vendaval sem norte arrebatou-me,
Acordei-me na treva... profanando
Os puros sonhos meus!
Oh! se eu pudesse amar!... - É impossível!
Mão fatal escreveu na minha vida...
A dor me envelheceu...
O desespero pálido, impassível,
Agoirou minha aurora entristecida,
De meu astro descreu...
Oh! se eu pudesse amar! Mas não: agora
Que a dor emurcheceu meus breves dias,
Quero na cruz sanguenta
Derramá-los na lágrima que implora,
Que mendiga perdão pela agonia
Da noite lutulenta!
Quero na solidão... nas ermas grutas
A tua sombra procurar chorando
Com meu olhar incerto...
As pálpebras doridas nunca enxutas
Queimarei... teus fantasmas invocando
No vento do deserto.
De meus dias a lâmpada se apaga,
Roeram meu viver mortais venenos,
Curvo-me ao vento forte:
Teu fúnebre clarão que a noite alaga,
Como a estrela oriental, me guie ao menos
' Té ao vale da morte!
No mar dos vivos o cadáver bóia,
A lua é descorada como um crânio,
Este sol não reluz...
Quando na morte a pálpebra se engóia,
O anjo desperta em nós e subitânio
Voa ao mundo da luz!
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file:///C|/site/livros_gratis/lira_vinte_anos.htm (52 of 138) [22/8/2001 13:02:06]
Do val de Josafá pelas gargantas
Uiva na treva o temporal sem norte
E os fantasmas murmuram...
Irei deitar-me nessas trevas santas,
Banhar-me na friez lustral da morte,
Onde as almas se apuram!
Mordendo as clinas do corcel da sombra,
Sufocado, arquejante passarei
Na noite do infinito...
Ouvirei essa voz que a treva assombra,
Dos lábios de minh'alma entornarei
O meu cântico aflito!
Flores cheias de aroma e de alegria,
Por que na primavera abrir cheirosas
E orvalhar-vos abrindo?
As torrentes da morte vêm sombrias,
Hão de amanhã nas águas tenebrosas
Vos arrastar bramindo.
Morrer! morrer! - É voz das sepulturas!
Como a lua nas salas festivais
A morte em nós se estampa!
E os pobres sonhadores de venturas
Roxeiam amanhã nos funerais
E vão rolar na campa!
Que vale a glória, a saudação que enleva
Dos hinos triunfais na ardente nota
E as turbas devaneia?
Tudo isso é vão e cala-se na treva...
- Tudo é vão, como em lábios de idiota
Cantiga sem idéia.
Que importa? quando a morte se descarna,
A esperança do céu flutua e brilha
Do túmulo no leito:
O sepulcro é o ventre onde se encarna
Um verbo divinal que Deus perfilha
E abisma no seu peito!
Não chorem! que essa lágrima profunda
Ao cadáver sem luz não dá conforto...
Não o acorda um momento!
Quando a treva medonha o peito inunda,
Derrama-se nas pálpebras do morto
Luar de esquecimento!
Caminha no deserto a caravana,
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file:///C|/site/livros_gratis/lira_vinte_anos.htm (53 of 138) [22/8/2001 13:02:06]
Numa noite sem lua arqueja e chora...
O termo... é um sigilo!
O meu peito cansou da vida insana,
Da cruz à sombra, junto aos meus, agora,
Eu dormirei tranqüilo!
Dorme ali muito amor... muitas amantes,
Donzelas puras que eu sonhei chorando
E vi adormecer...
Ouço da terra cânticos cânticos errantes
E as almas saudosas suspirando
Que falam em morrer...
Aqui dormem sagradas esperanças,
Almas sublimes que o amor erguia...
E gelaram tão cedo!
Meu pobre sonhador! aí descansas,
Coração que a existência consumia
E roeu em segredo!
Quando o trovão romper as sepulturas,
Os crânios confundidos acordando
No lodo tremerão...
No lodo pelas tênebras impuras
Os ossos estalados tiritando
Dos vales surgirão!
Como rugindo a chama encarcerada
Dos negros flancos do vulcão rebenta
Golfejando nos céus,
Entre nuvem ardente e trovejada
Minh'alma se erguerá, fria, sangrenta,
Ao trono de meu Deus...
Perdoa, meu Senhor! O errante crente
Nos desesperos em que a mente abrasas
Não o arrojes p'lo crime!
Se eu fui um anjo que descreu demente
E no oceano do mal rompeu as asas,
Perdão! arrependi-me!
III
A TEMPESTADE
FRAGMENTO
Profeta escarnecido pelas turbas
Disse-lhes rindo - adeus!
Vim adorar na serrania escura
A sombra de meu Deus!
O céu enegreceu: lá no ocidente
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file:///C|/site/livros_gratis/lira_vinte_anos.htm (54 of 138) [22/8/2001 13:02:06]
Rubro o sol se apagou;
E galopa o corcel da tempestade
Nas nuvens que rasgou...
Da gruta negra a catarata rola,
Alaga a serra bronca,
Esbarra pelo abismo, escuma uivando
E pelas trevas ronca...
O chão nu e escarvado p'las torrentes
Trêmulo se fendeu...
Da serrania a lomba escaveirada
O raio enegreceu.
Cede a floresta ao arquejar fremente
Do rijo temporal,
Ribomba e rola o raio, nos abismos
Sibila o vendaval.
Nas trevas o relâmpago fascina,
A selva se incendeia...
Chuva de fogo pelas serras hirtas
Fantástica serpeia...
Amo a voz da tempestade,
Porque agita o coração...
E o espírito inflamado
Abre as asas no trovão!
A minh'alma se devora
Na vida morta e tranqüila...
Quero sentir emoções,
Ver o raio que vacila!
Enquanto as raças medrosas
Banham de prantos o chão,
Eu quero erguer-me na treva,
Saudar glorioso trovão!
Jeová! derrama em chuva
Os teus raios incendidos!
Tua voz na tempestade
Reboa nos meus ouvidos!
É quando as nuvens ribombam
E a selva medonha está,
Que no relâmpago surge
A face de Jeová!
A tuba da tempestade
Rouqueja nos longos céus,
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file:///C|/site/livros_gratis/lira_vinte_anos.htm (55 of 138) [22/8/2001 13:02:06]
De joelhos na montanha
Espero agora meu Deus!
O caminho rasgou-se: mil torrentes
Rebentam bravejando,
Rodam na espuma as rochas gigantescas
Pelo abismo tombando.
Como em noite do caos, os elementos
incandescentes lutam.
Negra - a terra, o céu - rubro, o mar - vozeia
- E as florestas escutam...
Tudo se escureceu e pela treva,
No chão sem sepultura,
Os mortos se revolvem tiritando
Na longa noite escura.
..............................................................................
Profeta escarnecido pelas turbas
Disse-lhes rindo - adeus!
Vim fitar ao clarão da tempestade
- A sombra de meu Deus!
LEMBRANÇA DE MORRER
No more! O never more!
SHELLEY
Quando em meu peito rebentar-se a fibra,
Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nem uma lágrima
Em pálpebra demente.
E nem desfolhem na matéria impura
A flor do vale que adormece ao vento:
Não quero que uma nota de alegria
Se cale por meu triste passamento.
Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto o poento caminheiro...
Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro...
Como o desterro de minh'alma errante,
Onde fogo insensato a consumia,
Só levo uma saudade - é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.
Só levo uma saudade - e dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas...
E de ti, ó minha mãe! pobre coitada
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file:///C|/site/livros_gratis/lira_vinte_anos.htm (56 of 138) [22/8/2001 13:02:06]
Que por minhas tristezas te definhas!
De meu pai... de meus únicos amigos,
Poucos, - bem poucos! e que não zombavam
Quando, em noites de febre endoudecido,
Minhas pálidas crenças duvidavam.
Se uma lágrima as pálpebras me inunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda,
É pela virgem que sonhei!... que nunca
Aos lábios me encostou a face linda!
Ó tu, que à mocidade sonhadora
Do pálido poeta deste flores...
Se vivi... foi por ti! e de esperança
De na vida gozar de teus amores.
Beijarei a verdade santa e nua,
Verei cristalizar-se o sonho amigo...
Ó minha virgem dos errantes sonhos,
Filha do céu! eu vou amar contigo!
Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz! e escrevam nela:
- Foi poeta, sonhou e amou na vida. -
Sombras do vale, noites da montanha,
Que minh'alma cantou e amava tanto,
Protejei o meu corpo abandonado,
E no silêncio derramai-lhe um canto!
Mas quando preludia ave d'aurora
E quando, à meia-noite, o céu repousa,
Arvoredos do bosque, abri as ramas...
Deixai a lua pratear-me a lousa!
Cuidado, leitor, ao voltar esta página!
Aqui dissipa-se o mundo visionário e platônico. Vamos entrar num mundo novo, terra
fantástica, verdadeira ilha Baratária de D. Quixote, onde Sancho é rei e vivem Panúrgio, sir
John Falstaff, Bardolph, Fígaro e o Sganarello de D. João Tenório: - a pátria dos sonhos de
Cervantes e Shakespeare.
Quase que depois de Ariel esbarramos em Caliban.
A razão é simples. É que a unidade deste livro funda-se numa binomia: - duas almas que moram
nas cavernas de um cérebro pouco mais ou menos de poeta escreveram este livro, verdadeira
medalha de duas faces.
Demais, perdoem-me os poetas do tempo, isto aqui é um tema, senão mais novo, menos
esgotado ao menos que o sentimentalismo tão fasbionable desde Werther até René.
Por um espírito de contradição, quando os homens se vêem inundados de páginas amorosas
preferem um conto de Bocaccio, uma caricatura de Rabelais, uma cena de Falstaff no Henrique
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file:///C|/site/livros_gratis/lira_vinte_anos.htm (57 of 138) [22/8/2001 13:02:06]
IV de Shakespeare, um provérbio fantástico daquele polisson Alfredo de Musset, a todas as
ternuras elegíacas dessa poesia de arremedo que anda na moda e reduz as moedas de oiro sem
liga dos grandes poetas ao troco de cobre, divisível até ao extremo, dos liliputianos poetastros.
Antes da Quaresma há o Carnaval.
Há uma crise nos séculos como nos homens. É quando a poesia cegou deslumbrada de fitar-se
no misticismo e caiu do céu sentindo exaustas as suas asas de oiro.
O poeta acorda na terra. Demais, o poeta é homem: Homo sum, como dizia o célebre Romano.
Vê, ouve, sente e, o que é mais, sonha de noite as belas visões palpáveis de acordado. Tem
nervos, tem fibra e tem artérias - isto é, antes e depois de ser um ente idealista, é um ente que
tem corpo. E, digam o que quiserem, sem esses elementos, que sou o primeiro a reconhecer
muito prosaicos, não há poesia.
O que acontece? Na exaustão causada pelo sentimentalismo, a alma ainda trêmula e ressoante
da febre do sangue, a alma que ama e canta, porque sua vida é amor e canto, o que pode senão
fazer o poema dos amores da vida real? Poema talvez novo, mas que encerra em si muita
verdade e muita natureza, e que sem ser obsceno pode ser erótico, sem ser monótono. Digam e
creiam o que quiserem: - todo o vaporoso da visão abstrata não interessa tanto como a realidade
formosa da bela mulher a quem amamos.
O poema então começa pelos últimos crepúsculos do misticismo, brilhando sobre a vida como a
tarde sobre a terra. A poesia puríssima banha com seu reflexo ideal a beleza sensível e nua.
Depois a doença da vida, que não dá ao mundo objetivo cores tão azuladas como o nome
britânico de blue devils, descarna e injeta de fel cada vez mais o coração. Nos mesmos lábios
onde suspirava a monodia amorosa, vem a sátira que morde.
É assim. Depois dos poemas épicos, Homero escreveu o poema irônico. Goethe depois de
Werther criou o Faust. Depois de Parisina e o Giaour de Byron vem o Cain e Don Juan - Don
Juan que começa como Cain pelo amor e acaba como ele pela descrença venenosa e sarcástica.
Agora basta.
Ficarás tão adiantado agora, meu leitor, como se não lesses essas páginas, destinadas a não
serem lidas. Deus me perdoe! assim é tudo!... até prefácios!
SEGUNDA PARTE
UM CADÁVER DE POETA
Levem ao túmulo aquele que parece um cadáver!
Tu não pesaste sobre a terra: a terra te seja leve!
L. UHLAND
I
De tanta inspiração e tanta vida,
Que os nervos convulsivos inflamava
E ardia sem conforto...
O que resta? - uma sombra esvaecida,
Um triste que sem mãe agonizava...
- Resta um poeta morto!
Morrer! E resvalar na sepultura,
Frias na fronte as ilusões! no peito
Quebrado o coração!
Nem saudades levar da vida impura
Onde arquejou de fome... sem um leito!
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Em treva e solidão!
Tu foste como o sol; tu parecias
Ter na aurora da vida a eternidade
Na larga fronte escrita...
Porém não voltarás como surgias!
Apagou-se teu sol da mocidade
Numa treva maldita!
Tua estrela mentiu. E do fadário
De tua vida a página primeira
Na tumba se rasgou...
Pobre gênio de Deus, nem um sudário!
Nem túmulo nem cruz! como a caveira
Que um lobo devorou!...
II
Morreu um trovador! morreu de fome...
Acharam-no deitado no caminho:
Tão doce era o semblante! Sobre os lábios
Flutuava-lhe um riso esperançoso;
E o morto parecia adormecido.
Ninguém ao peito recostou-lhe a fronte
Nas horas da agonia! Nem um beijo
Em boca de mulher! nem mão amiga
Fechou ao trovador os tristes olhos!
Ninguém chorou por ele... No seu peito
Não havia colar nem bolsa d'oiro:
Tinha até seu punhal um férreo punho...
Pobretão! não valia a sepultura...
Todos o viram e passavam todos.
Contudo era bem morto desde a aurora.
Ninguém lançou-lhe junto ao corpo imóvel
Um ceitil para a cova!... nem sudário!
O mundo tem razão, sisudo pensa...
E a turba tem um cérebro sublime!
De que vale um poeta?... um pobre louco
Que leva os dias a sonhar?... insano
Amante de utopias e virtudes
E, num templo sem Deus, ainda crente?
A poesia é decerto uma loucura:
Sêneca o disse, um homem de renome.
É um defeito no cérebro... Que doUdos!
É um grande favor, é muita esmola
Dizer-lhes - bravo! à inspiração divina...
E, quando tremem de miséria e fome,
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Dar-lhes um leito no hospital dos loucos...
Quando é gelada a fronte sonhadora
Por que há de o vivo, que despreza rimas,
Cansar os braços arrastando um morto,
Ou pagar os salários do coveiro?
A bolsa esvaziar por um misérrimo,
Quando a emprega melhor em lodo e vício? ...
E que venham aí falar-me em Tasso!
Culpar Afonso d'Est - um soberano,
Por não lhe dar a mão da irmã fidalga!
Um poeta é um poeta: apenas isso...
Procure para amar as poetisas.
Se na França a princesa Margarida,
De Francisco primeiro irmã formosa,
Ao poeta Alain Chartier adormecido
Deu nos lábios um beijo... é que esta moça,
Apesar de princesa, era uma douda...
E a prova é que também rondós fazia.
Se Riccio, o trovador, teve os amores
- Novela até bastante duvidosa -
Dessa Maria Stuart formosíssima,
É que ela - sabe-o Deus! - fez tanta asneira...
Que não admira que a um poeta amasse!
Por isso adoro o libertino Horácio:
Namorou algum dia uma parenta
Do patrono Mecenas? Parasita...
Só pedia dinheiro, no triclínio
Bebia vinho bom... e não vivia
Fazendo versos às irmãs de Augusto.
E quem era Camões? Por ter perdido
Um olho na batalha e ser valente,
Às esmolas valeu. Mas quanto ao resto,
Por fazer umas trovas de vadio,
Deveriam lhe dar, além de glória,
- E essa deram-lhe à farta! - algum bispado?
Alguma dessas gordas sinecuras
Que se davam a idiotas fidalguias?
Deixem-se de visões, queimem-se os versos:
O mundo não avança por cantigas.
Creiam do poviléu os trovadores
Que um poema não val meia princesa.
Um poema, contudo, bem escrito,
Bem limado e bem cheio de tetéias,
Nas horas do café lido, fumando...
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Ou no campo, na sombra do arvoredo,
Quando se quer dormir e não há sono,
Tem o mesmo valor que a dormideira.
Mas não passe dali do vate a mente.
Tudo o mais são orgulhos, são loucuras...
Faublas tem mais leitores do que Homero.
Um poeta no mundo tem apenas
O valor de um canário de gaiola...
É prazer de um momento, é mero luxo.
Contente-se em traçar nas folhas brancas
De algum Álbum da moda umas quadrinhas:
Nem faça apelações para o futuro.
O homem é sempre o homem. Tem juízo.
Desde que o mundo é mundo assim cogita.
Nem há negá-lo: não há doce lira,
Nem sangue de poeta ou alma virgem
Que valha o talismã que no oiro vibra!
Nem músicas nem santas harmonias
Igualam o condão, esse eletrismo,
A ardente vibração do som metálico...
.....................................................................
Meu Deus! e assim fizeste a criatura?
Amassaste no lodo o peito humano?
Ó poeta, silêncio! - é este o homem?
A feitura de Deus! a imagem dele!
O rei da criação!...
Que verme infame!
Não Deus, porém Satã no peito vácuo
Uma corda prendeu-te - o egoísmo!
Oh! miséria, meu Deus! e que miséria!
III
Passou El-Rei ali com seus fidalgos:
Iam a degolar uns insolentes
Que ousaram murmurar da infâmia régia,
Das nódoas de uma vida libertina!
Iam em grande gala. O Rei cismava
Na glória de espetar no pelourinho
A cabeça de um pobre degolado.
Era um Rei bon-vivant e Rei devoto;
E, como Luís XI, ao lado tinha
O bobo, o capelão... e seu carrasco.
O cavalo do Rei, sentindo o morto,
Tremente de terror parou nitrindo,
Deu d'esporas leviano o cavaleiro
E disse ao capelão:
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"E não enterram
Esse homem que apodrece, e no caminho
Assusta-me o corcel?"
Depois voltou-se
E disse ao camarista de semana:
"Conheces o defunto? Era inda moço,
Daria certamente um bom soldado.
A figura é esbelta! Forte pena!
Podia bem servir para um lacaio."
Descoberto, o faceiro fidalgote
Responde-lhe fazendo a cortesia:
"Pelas tripas do Papa! eu não me engano,
Leve-me Satanás se este defunto
Ontem não era o trovador Tancredo!"
"Tancredo!" murmurou erguendo os óculos
Um anfíbio, um barbaças truanesco,
Alma de Triboulet, que além de bobo
Era o vate da corte! bem nutrido,
Farto de sangue, mas de veia pobre,
Caidos beiços, volumoso abdoômen,
Grisalha cabeleira esparramada,
Tremendo narigão, mas testa curta,
Em suma um glosador de sobremesas.
"Tancredo! - repetiu imaginando -
Um asno! só cantava para o povo!
Uma língua de fel, um insolente!
Orgulho desmedido... e quanto aos versos
Morava como um sapo n'água doce!
Não sabia fazer um trocadilho..."
O rei passou - com ele a companhia!
Só ficou ressupino e macilento
Da estrada em meio o trovador defunto!
IV
Ia caindo o sol. Bem reclinado
No vagaroso coche madornado
Depois de bem jantar fazendo a sesta,
Roncava um nédio, um barrigudo frade...
Bochechas e nariz, em cima uns óculos
Vermelho solidéu... enfim um bispo,
E um bispo, senhor Deus! da idade média,
Em que os bispos - como hoje e mais ainda -
Sob o peso da cruz bem rubicundos,
Dormindo bem, e a regalar bebendo,
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Sabiam engordar na sinecura!
Papudos santarrões, depois da missa,
Lançando ao povo a bênção - por dinheiro!
O cocheiro ia bêbado por certo:
Os cavalos tocou p'lo bom caminho
Mesmo em cima das pernas do cadáver...
Refugou a parelha, mas o sota
- Que ao sol da glória episcopal enchia
De orgulho e de insolência o couro inerte,
Cuspindo o poviléu, como um fidalgo
Que em falta de miolo tinha vinho
Na cabeça devassa - deu de esporas...
Como passara sobre a vil carniça
Raléu de corvos negros, foi por cima...
Mas desgraça! maldito aquele morto!
Desgraça!... não porque pisasse o coche
Aqueles magros ossos, mas a roda
Na humana resistência abalroando...
E acorda o fradalhão...
"O que sucede?
- Pergunta bocejando, é algum bêbado?
Em que bicho pisaram?"
"Senhor bispo,
- Triunfante responde o bom cocheiro
Ao vigário de Cristo, ao santo Apóstolom
Rebento da fidalga raça nova
Que não anda de pé como S. Pedro,
Nem estafa os corcéis de S. Francisco -
"Perdoe Vossa Excelência Eminentíssima,
É um pobre diabo de poeta...
Um homem sem miolo e sem barriga
Que lembrou-se de vir morrer na estrada!"
"Abrenúncio! rouqueja o santo bispo,
Leve o Diabo essa tribo de boêmios!
Não há tanto lugar onde se morra?
Maldita gente! inda persegue os Santos
Depois que o Diabo a leva!..."
E foi caminho.
Leve-te Deus! Apóstolo da crença,
Da esperança e da santa caridade!
Tu, sim, és religioso e nos altares
Vem cada sacristão, e cada monge
Agita a teus pés o seu turíbulo!
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E o sangue do Senhor no cálix d'oiro
Da turba na oração te banha os lábios...
Leve-te Deus, Apóstolo da crença!
Sem padres como tu que fora o mundo?
É por ti que o altar apóia o trono!
É teu olhar que fertiliza os vales,
Fecunda a vinha santa do Messias!
Leve-te Deus... ou leve-te o Demônio!
V
Caiu a noite do azulado manto,
Como gotas de orvalho, sacudindo
Estrelas cintilantes. Veio a lua,
Banhando de tristeza o céu profundo,
Trazer aos corações melancolia,
E no éter cheiroso derramar
Cerúlea chama! - Dia incerto e pálido
Que ao lado da floresta as sombras junta
E golfa pelas águas das campinas
Alvacentos clarões que as flores bebem!
A galope, de volta do noivado,
Passa o Conde Solfier e a noiva Elfrida:
Seguem fidalgos que o sarau reclama.
Elfrida
- Não vês, Solfier, ali da estrada em meio
Um defunto estendido?
Solfier
- Ó minha Elfrida,
Voltemos desse lado: outro caminho
Se dirige ao castelo. É mau agouro
Por um morto passar em noites destas.
Mas Elfrida aproxima o seu cavalo.
Elfrida
"Tancredo!... Vede!?... é o trovador Tancredo!
Coitado! assim morrer! um pobre moço...
Sem mãe e sem irmã! E não o enterram?
Neste mundo não teve um só amigo!
"Ninguém, senhora! respondeu da sombra
Uma dorida voz. Eu vim, há pouco,
Ao saber que do povo no abandono
Jazia como um cão, eu vim... e eu mesmo
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Cavei junto do lago a cova dele."
Elfrida
"Tendes um coração: tomai, mancebo,
Tomai essa pulseira... Em ouro e jóias
Tem bastante pra erguer-lhe um monumento
E para longas missas lhe dizerem
Pelo repouso d'alma..."
O moço riu-se.
O Desconhecido
"Obrigado: guardai as vossas jóias.
Tancredo o trovador morreu de fome!
Passaram-lhe no corpo frio e morto,
Salpicaram de lodo a face dele,
Talvez cuspissem nesta fronte santa,
Cheia outrora de eternas fantasias,
De idéias a valer um mundo inteiro!...
Por que lançar esmolas ao cadáver?
Leva-as, fidalga, tuas jóias belas:
O orgulho do plebeu as vê sorrindo...
Missas?... bem sabe Deus se neste mundo
Gemeu alma tão pura como a dele!
Foi um anjo! e murchou-se como as flores
Morreu sorrindo, como as virgens morrem...
Alma doce que os homens enjeitaram,
Lírio, que a turba imunda profanou
Oh! não te mancharei, nem a lembrança
Com o óbolo dos ricos! Pobre corpo,
És o templo deserto, onde habitava
O Deus que em ti sofreu por um momento!
Dorme, pobre Tancredo! eu tenho braços:
Na cova negra dormirás tranqüilo...
Tu repousas ao menos!"...............................................
.....................................................................................
No entanto sofreando a custo a raiva,
Mordendo os lábios de soberba e fúria,
Solfier da bainha arranca a espada,
Avança ao moço e brada-lhe:
"Insolente!,
Cala-te, doudo! Cala-te, mendigo!
Não vês quem te falou? Curva o joelho,
Tira o gorro, vilão..."
O Desconhecido
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"Tu vês: não tremo!
Tu não vales o vento que salpica
Tua fronte de pó. Porque és fidalgo,
Não sabes que um punhal vale uma espada
Dentro do coração?"
Mas logo Elfrida:
"Acalma-te, Solfier! O triste moço
Desespera, blasfema e não me insulta.
Perdoa-me também, mancebo triste!
Não pensei ofender tamanho orgulho:
Tua mágoa respeito. Só te imploro
Que sobre a fronte ao trovador desfolhes
Essas flores, as flores do noivado
De uma triste mulher... E quanto às jóias,
Lança-as no lago... Mas quem és? teu nome?"
O Desconhecido
"Quem sou? um doudo, uma alma de insensato
Que Deus maldisse e que Satã devora!
Um corpo moribundo em que se nutre
Uma centelha de pungente fogo!
Um raio divinal que dói e mata,
Que doira as nuvens e amortalha a terra!...
Uma alma como o pó em que se pisa!
Um bastardo de Deus! um vagabundo
A que o gênio gravou na fronte - anátema!
Desses que a turba com o seu dedo aponta...
Mas não; não hei de sê-lo! eu juro n'alma,
Pela caveira, pelas negras cinzas
De minha mãe o juro!... Agora há pouco,
Junto de um morto reneguei do gênio,
Quebrei a lira à pedra de um sepulcro...
- Eu era um trovador, sou um mendigo..."
Ergueu do chão a dádiva d'Elfrida,
Roçou as flores aos trementes lábios,
Beijou-as. Sobre o peito de Tancredo
Pousou-as lentamente...
"Em nome dele,
Agradeço estas flores do teu seio,
Anjo que sobre um túmulo desfolhas
Tuas últimas flores de donzela!"
Depois vibrou na lira estranhas mágoas,
Carpiu à longa noite escuras nênias,
Cantou: banhou de lágrimas o morto.
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De repente parou: vibrou a lira
Co'as mãos iradas, trêmulas... e as cordas
Uma por uma rebentou cantando...
Tinha fogo no crânio, e sufocava:
Passou a fria mão nas fontes úmidas,
Abriu a medo os lábios convulsivos,
Sorriu de desespero; e sempre rindo
Quebrou as jóias e as lançou no abismo...
VI
No outro dia na borda do caminho,
Deitado ao pé de um fosso aberto apenas,
Viu-se um mancebo loiro que morria...
Semblante feminil, e formas débeis,
Mas nos palores da espaçosa fronte
Uma sombria dor cavara sulcos.
Corria sobre os lábios alvacentos
Uma leve umidez, um ló d'escuma,
E seus dentes a raiva constringira...
Tinha os punhos cerrados... Sobre o peito
Acharam letras de uma língua estranha...
E um vidro sem licor - fora veneno!...
Ninguém o conheceu: mas conta o povo
Que, ao lançá-lo no túmulo, o coveiro
Quis roubar-lhe o gibão, despiu o moço...
E viu... talvez é falso... níveos seios...
Um corpo de mulher de formas puras...
VII
Na tumba dormem os mistérios d'ambos:
Da morte o negro véu não há erguê-lo!
Romance obscuro de paixões ignotas,
Poema d'esperança e desventura,
Quando a aurora mais bela os encantava,
Talvez rompeu-se no sepulcro deles!
Não pode o bardo revelar segredos
Que levaram ao céu as ternas sombras:
- Desfolha apenas nessas frontes puras
Da extrema inspiração as flores murchas...
IDÉIAS ÍNTIMAS
Fragmento
La chaise où je m'assieds, la natte où je me couche,
La table ou je t'écris .................................................
...................................................................................
Mes gros souliers ferrés, mon baton, mon chapeau,
Mês libres pêle-mêle entassés sur leur planche.
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...................................................................................
De cet espace étroit sont tout l'ameublement.
LAMARTINE, Jocelyn
I
Ossian - o bardo é triste como a sombra
Que seus cantos povoa. O Lamartine
É monótono e belo como a noite,
Como a lua no mar e o som das ondas...
Mas pranteia uma eterna monodia,
Tem na lira do gênio uma só corda,
- Fibra de amor e Deus que um sopro agita!
Se desmaia de amor... a Deus se volta,
Se pranteia por Deus... de amor suspira.
Basta de Shakespeare. Vem tu agora,
Fantástico alemão, poeta ardente
Que ilumina o clarão das gotas pálidas
Do nobre Johannisberg! Nos teus romances
Meu coração deleita-se... Contudo,
Parece-me que vou perdendo o gosto,
Vou ficando blasé: passeio os dias
Pelo meu corredor, sem companheiro,
Sem ler, nem poetar... Vivo fumando.
Minha casa não tem menores névoas
Que as deste céu d'inverno... Solitário
Passo as noites aqui e os dias longos...
Dei-me agora ao charuto em corpo e alma:
Debalde ali de um canto um beijo implora,
Como a beleza que o Sultão despreza,
Meu cachimbo alemão abandonado!
Não passeio a cavalo e não namoro,
Odeio o lasquenet... Palavra d'honra!
Se assim me continuam por dois meses
Os diabos azuis nos frouxos membros,
Dou na Praia Vermelha ou no Parnaso.
II
Enchi o meu salão de mil figuras.
Aqui voa um cavalo no galope,
Um roxo dominó as costas volta
A um cavaleiro de alemães bigodes,
Um preto beberrão sobre uma pipa,
Aos grossos beiços a garrafa aperta...
Ao longo das paredes se derramam
Extintas inscrições de versos mortos,
E mortos ao nascer!... Ali na alcova
Em águas negras se levanta a ilha
Romântica, sombria, à flor das ondas
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De um rio que se perde na floresta...
- Um sonho de mancebo e de poeta,
El-Dorado de amor que a mente cria,
Como um Éden de noites deleitosas...
Era ali que eu podia no silêncio
Junto de um anjo... Além o romantismo!
Borra adiante folgaz caricatura
Com tinta de escrever e pó vermelho
A gorda face, o volumoso abdômen,
E a grossa penca do nariz purpúreo
Do alegre vendilhão entre botelhas,
Metido num tonel... Na minha cômoda
Meio encetado o copo, inda verbera
As águas d'oiro do Cognac ardente:
Negreja ao pé narcótica botelha
Que da essência de flores de laranja
Guarda o licor que nectariza os nervos.
Ali mistura-se o charuto havano
Ao mesquinho cigarro e ao meu cachimbo...
A mesa escura cambaleia ao peso
Do titâneo Digesto, e ao lado dele
Childe-Harold entreaberto... ou Lamartine
Mostra que o romantismo se descuida
E que a poesia sobrenada sempre
Ao pesadelo clássico do estudo.
III
Reina a desordem pela sala antiga,
Desce a teia de aranha as bambinelas
À estante pulvurenta. A roupa, os livros
Sobre as poucas cadeiras se confundem.
Marca a folha do Faust um colarinho
E Alfredo de Musset encobre, às vezes
De Guerreiro, ou Valasco, um texto obscuro.
Como outrora do mundo os elementos
Pela treva jogando cambalhotas,
Meu quarto, mundo em caos, espera um Fiat!
IV
Na minha sala três retratos pendem:
Ali Victor Hugo. - Na larga fronte
Erguidos luzem os cabelos louros,
Como c'roa soberba. Homem sublime!
O poeta de Deus e amores puros!
Que sonhou Triboulet, Marion Delorme
E Esmeralda - a Cigana... E diz a crônica
Que foi aos tribunais parar um dia
Por amar as mulheres dos amigos
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E adúlteros fazer romances vivos.
V
Aquele é Lamennais - o bardo santo,
Cabeça de profeta, ungido crente,
Alma de fogo na mundana argila
Que as harpas de Sion vibrou na sombra,
Pela noite do século chamando
A Deus e à liberdade as loucas turbas.
Por ele a George Sand morreu de amores,
E dizem que... Defronte, aquele moço
Pálido, pensativo, a fronte erguida,
Olhar de Bonaparte em face austríaca,
Foi do homem secular as esperanças:
No berço imperial um céu de agosto
Nos cantos de triunfo despertou-o...
As águias de Wagram e de Marengo
Abriam flamejando as longas asas
Impregnadas do fumo dos combates
Na púrpura dos Césares, guardando-o...
E o gênio do futuro parecia
Predestiná-lo à glória. A história dele?...
Resta um crânio nas urnas do estrangeiro...
Um loureiro sem flores nem sementes...
E um passado de lágrimas... A terra
Tremeu ao sepultar-se o Rei de Roma
Pode o mundo chorar sua agonia
E os louros de seu pai na fronte dele
Infecundos depor... Estrela morta,
Só pode o menestrel sagrar-te prantos!
VI
Junto a meu leito, com as mãos unidas,
Olhos fitos no céu, cabelos soltos,
Pálida sombra de mulher formosa
Entre nuvens azuis pranteia orando.
É um retrato talvez. Naquele seio
Porventura sonhei douradas noites,
Talvez sonhando desatei sorrindo
Alguma vez nos ombros perfumados
Esses cabelos negros e em delíquio
Nos lábios dela suspirei tremendo,
Foi-se a minha visão... E resta agora
Aquele vaga sombra na parede
- Fantasma de carvão e pó cerúleo! -
Tão vaga, tão extinta e fumacenta
Como de um sonho o recordar incerto.
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VII
Em frente do meu leito, em negro quadro,
A minha amante dorme. É uma estampa
De bela adormecida. A rósea face
Parece em visos de um amor lascivo
De fogos vagabundos acender-se...
E como a nívea mão recata o seio...
Oh! quanta s vezes, ideal mimoso,
Não encheste minh'alma de ventura,
Quando louco, sedento e arquejante
Meus tristes lábios imprimi ardentes
No poento vidro que te guarda o sono!
VIII
O pobre leito meu, desfeito ainda,
A febre aponta da noturna insônia.
Aqui lânguido à noite debati-me
Em vãos delírios anelando um beijo...
E a donzela ideal nos róseos lábios,
No doce berço do moreno seio
Minha vida embalou estremecendo...
Foram sonhos contudo! A minha vida
Se esgota em ilusões. E quando a fada
Que diviniza meu pensar ardente
Um instante em seus braços me descansa
E roça a medo em meus ardentes lábios
Um beijo que de amor me turva os olhos...
Me ateia o sangue, me enlanguece a fronte...
Um espírito negro me desperta,
O encanto do meu sonho se evapora...
E das nuvens de nácar da ventura
Rolo tremendo à solidão da vida!
IX
Oh! ter vinte anos sem gozar de leve
A ventura de uma alma de donzela!
E sem na vida ter sentido nunca
Na suave atração de um róseo corpo
Meus olhos turvos se fechar de gozo!
Oh! nos meus sonhos, pelas noites minhas
Passam tantas visões sobre meu peito!
Palor de febre meu semblante cobre,
Bate meu coração com tanto fogo!
Um doce nome os lábios meus suspiram,
Um nome de mulher... e vejo lânguida
No véu suave de amorosas sombras
Seminua, abatida, a mão no seio,
Perfumada visão romper a nuvem,
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Sentar-se junto a mim, nas minhas pálpebras
O alento fresco e leve como a vida
Passar delicioso... Que delírios!
Acordo palpitante... inda a procuro:
Embalde a chamo, embalde as minhas lágrimas
Banham meus olhos, e suspiro e gemo...
Imploro uma ilusão... tudo é silêncio!
Só o leito deserto, a sala muda!
Amorosa visão, mulher dos sonhos,
Eu sou tão infeliz, eu sofro tanto!
Nunca virás iluminar meu peito
Com um raio de luz desses teus olhos?
X
Meu pobre leito! eu amo-te contudo!
Aqui levei sonhando noites belas;
As longas horas olvidei libando
Ardentes gotas de licor dourado,
Esqueci-as no fumo, na leitura
Das páginas lascivas do romance...
Meu leito juvenil, da minha vida
És a página d'oiro. Em teu asilo
Eu sonho-me poeta e sou ditoso...
E a mente errante devaneia em mundos
Que esmalta a fantasia! Oh! quantas vezes
Do levante no sol entre odaliscas
Momentos não passei que valem vidas!
Quanta música ouvi que me encantava!
Quantas virgens amei! que Margaridas,
Que Elviras saudosas e Clarissas,
Mais trêmulo que Faust, eu não beijava...
Mais feliz que Don Juan e Lovelace
Não apertei ao peito desmaiando!
Ó meus sonhos de amor e mocidade,
Porque ser tão formosos, se devíeis
Me abandonar tão cedo... e eu acordava
Arquejando a beijar meu travesseiro?
XI
Junto do leito meus poetas dormem
- O Dante, a Bíblia, Shakespeare e Byron
Na mesa confundidos. Junto deles
Meu velho candeeiro se espreguiça
E parece pedir a formatura.
Ó meu amigo, ó velador noturno,
Tu não me abandonaste nas vigílias,
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Quer eu perdesse a noite sobre os livros,
Quer, sentado no leito, pensativo
Relesse as minhas cartas de namoro...
Quero-te muito bem, ó meu comparsa
Nas doudas cenas de meu drama obscuro!
E num dia de spleen, vindo a pachorra,
Hei de evocar-te dum poema heróico
Na rima de Camões e de Ariosto,
Como padrão às lâmpadas futuras!
.............................................................................
XII
Aqui sobre esta mesa junto ao leito
Em caixa negra dois retratos guardo:
Não os profanem indiscretas vistas.
Eu beijo-os cada noite: neste exílio
Venero-os juntos e os prefiro unidos...
- Meu pai e minha mãe! Se acaso um dia,
Na minha solidão me acharem morto,
Não os abra ninguém. Sobre meu peito
Lancem-os em meu túmulo. Mais doce
Será certo o dormir da noite negra
Tendo no peito essas imagens puras.
XIII
Havia uma outra imagem que eu sonhava
No meu peito, na vida e no sepulcro,
Mas ela não o quis... rompeu a tela,
Onde eu pintara meus dourados sonhos.
Se posso no viver sonhar com ela,
Essa trança beijar de seus cabelos
E essas violetas inodoras, murchas,
Nos lábios frios comprimir chorando,
Não poderei na sepultura, ao menos,
Sua imagem divina ter no peito.
XIV
Parece que chorei... Sinto na face
Uma perdida lágrima rolando...
Satã leve a tristeza! Olá, meu pagem,
Derrama no meu copo as gotas últimas
Dessa garrafa negra...
Eia! bebamos!
És o sangue do gênio, o puro néctar
Que as almas de poeta diviniza,
O condão que abre o mundo das magias!
Vem, fogoso Cognac! É só contigo
Que sinto-me viver. Inda palpito,
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Quando os eflúvios dessas gotas áureas
Filtram no sangue meu correndo a vida,
Vibram-me os nervos e as artérias queimam,
Os meus olhos ardentes se escurecem
E no cérebro passam delirosos
Assomos de poesia... Dentre a sombra
Vejo num leito d'ouro a imagem dela
Palpitante, que dorme e que suspira,
Que seus braços me estende...
Eu me esquecia:
Faz-se noite; traz fogo e dois charutos
E na mesa do estudo acende a lâmpada...
BOÊMIOS
ATO DE UMA COMÉDIA NÃO ESCRITA
Totus mundus,agit histríonem.
Provérbio do tempo de SHAKESPEARE
A cena passa-se na Itália, no século XVI. Uma rua escura e deserta. Alta noite. Numa esquina
uma imagem de Madona em seu nicho alumiado por uma lâmpada.
Puff dorme no chão abraçando uma garrafa. Nini entra tocando guitarra. Dão 5 horas.
NINI
Olá! que fazes, PufF? dormes na rua?
PUFF, acordando
Não durmo... Penso.
NINI
Estás enamorado?
E deitado na pedra acaso esperas
O abrir de uma janela? Estás cioso
E co'a botelha em vez de durindana
Aguardas o rival?
PUFF
Ceei à farta
Na taverna do Sapo e das Três-Cobras...
Faço o quilo... ao repouso me abandono.
Como o Papa Alexandre ou como um Turco,
Me entrego ao far niente e bem a gosto
Descanso na calçada imaginando.
NINI
Embalde quis dormir. Na minha mente
Fermenta um mundo novo que desperta.
Escuta, Puff: eu sinto no meu crânio,
Como em seio de mãe, um feto vivo...
Na minha insônia vela o pensamento:
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Os poetas passados e futuros
Vou todos ofuscar... Aqui no cérebro
Tenho um grande poema. Hei de escrevê-lo...
É certa a glória minha!
PUFF
A idéia é boa:
Toma dez bebedeiras... são dez cantos.
Quanto a mim, tenho fé que a poesia
Dorme dentro do vinho.
Os bons poetas
Para ser imortais beberam muito.
NINI
Não rias... Minha idéia é nova e bela.
A Musa me votou a eterna glória.
Não me engano, meu Puff, enquanto sonho
Se aos poetas divinos Deus concede
Um céu mais glorioso, ali com Tasso,
Com Dante e Ariosto eu hei de ver-me...
Se eu fizer um poema, certamente
No Pantheon da fama cem estátuas
Cantarão aos vindouros o meu gênio!
PUFF
Em estátua, meu Nini? Estás zombando!
E impossível que saias parecido...
Que mármore daria a cor vermelha
Desse imenso nariz, dessas melenas?
NINI
Estás bêbado, Puff. Tresandas vinho.
PUFF
O vinho!?... és uma besta!... só um parvo
Pode a beleza desmentir do vinho.
Tu nunca leste o Cântico dos Cânticos
Onde o Rei Salomão, como elogio,
Dizia à noiva: - Pulchriora sunt
Ubera tua vino!
NINI
És sempre um Bobo.
PUFF
E tu és sempre esse nariz vermelho,
Que ainda aqui na treva desta rua
Flameja ao pé de mim. Quando te vejo,
Penso que estou na igreja ouvindo missa
Dita por Cardeal.
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NINI
És um devasso...
PUFF
Respondo-te somente o que dizia
Sir John Falstaff, da noite o cavaleiro:
"Se Adão pecou no estado de inocência,
Que muito é que nos dias da impureza
Peque o mísero Puff?" Tu bem o sabes:
Toda a fragilidade vem da carne...
E na carne se eu tanto excedo os outros,
Vícios não devem meus causar espanto.
Minh'alma dorme em treva completíssima
Pela minha descrença... E tu, maldito,
Por que sempre não vens esclarecer-me
Com esse teu farol aceso sempre,
Cavaleiro da lâmpada vermelha,
As trevas de minh'alma?
NINI
Que leproso!
PUFF
Sou um homem de peso. Entendo a vida,
Tenho muito miolo; e a prova disto
É que não sou poeta, nem filósofo...
E gosto de beber, como Panúrgio.
Se tu fosses tonel, como pareces,
Eu te bebera agora de um só trago.
NINI
Quero-te bem contudo. Amigos velhos
Deixemo-nos de histórias. Meu poema...
PUFF
Se falas em poema, eu logo durmo.
NINI
Uma vez era um Rei...
PUFF
Não vês? eu ronco.
NINI
Quero a ti dedicar minha obra-prima...
Irás junto comigo à eternidade!
Teu retrato porei no frontispício.
Meu poema será uma coroa
Que as nossas frontes engrinalde juntas.
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PUFF
Pensei-te menos doudo. O teu poema
Seria uma sublime carapuça!
Mas, já que sonhas tanto, olha, meu Nini,
Tu precisas de um saco.
NINI
Impertinente!
PUFF
Dá-me aqui tua mão. Sabes, amigo?
Passei ontem o dia de namoro:
Minhas paixões voltei à nova esposa
Do velho Conde que ali mora em frente...
Estou adiantado nos amores.
A cozinheira, outrora minha amante,
Meus passos guia, meus suspiros leva:
Mas preciso com pressa de um soneto!
Prometes-me fazê-lo?
NINI
Se me ouvires
Recitar meu poema...
PUFF
Eu me resigno.
Declama teu sermão, como um vigário...
Mas o sono ao rebanho se permite?
(Entra um criado correndo.)
Roa-me o diabo as tripas, se não vejo
Ali correr com pernas de cabrita
O criado do cônego Tansoni.
NINI
Onde vais, Gambioletto?
GAMBIOLETTO
Vou à pressa
Ao doutor Fossuário.
PUFF
Acaso agora
O carrasco fugiu?
NINI
Quem agoniza?
GAMBIOLETTO
O Reverendo e Santo Sr. Cônego!
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Deitando-se a dormir, depois da ceia,
No colo de Madona la Zaffeta,
Umas dores sentiu pela barriga,
Caiu estrebuchando sobre a sala...
Morre de apoplexia.
NINI
O diabo o leve!
GAMBIOLETTO
E o médico, Srs.!
PUFF
Venturoso!
Sempre é Cônego... Nini, dulce et decus
Pro patria mori... É doce e glorioso
Morrer de apoplexia! Quem me dera
Morrer depois da ceia, de repente!
Não vem o confessor contar novelas,
Não soam cantos fúnebres em torno,
Nem se força o medroso moribundo
A rezar, quando só dormir quisera!
Venturosos os Cônegos e os Bispos...
E os papudos Abades dos conventos!
Eles podem morrer de apoplexia!
E se morrem pensando - cousa nova! -
Quem nunca no viver cansou-se nisso,
Se eles morrem pensando, ante seus olhos,
No momento final sem ter pavores,
Inda corre a visão da bela mesa!
A não morrer-se como o velho Píndaro
Cantando, sobre o seio amorenado
De sua amante Grega, oh! quem me dera
Cair morto no chão, beijando ainda
A botelha divina!
NINI
Que maluco!
A estas horas da noite, assim no escuro
Não temes de lembrar-te de defuntos?
Beijarias até uma caveira,
Se espumante o Madeira ali corresse!
PUFF
Os cálices doirados são mais belos!
Inda porém mais doce é nos beicinhos
Da bela moça que sorrindo bebe...
Libar mais terno o saibo dos licores...
Eu prefiro beijar a tua amante.
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NINI
Tens medo de defuntos?
PUFF
Um bocado.
Sinto que não nasci para coveiro.
Contudo, no domingo, à meia-noite...
Pela forca passei: vi nas alturas,
Do luar sem vapor à luz formosa,
Um vilão pendurado. Era tão feio!
A língua um palmo fora, sobre o peito,
Os olhos espantados, boca lívida,
Sobre a cabeça dele estava um corvo...
O morto estava nu, pois o carrasco
Os mortos despe pra vestir os filhos
E deixa à noite o padecente à fresca.
Eu senti pelo corpo uns arrepios...
Mas depois veio o ânimo... trepei
Pela escada da forca, fui acima...
E pintei uns bigodes no enforcado.
NINI
Bravo como um Vampiro!
PUFF
Oh! antes d'ontem
Passei pelos telhados sem ter medo,
Para evitar um pátio onde velava
Um cão - que enorme cão! - subindo ao quarto
Onde dorme Rosina Belvidera...
NINI
Ousaste ao Cardeal depor na fronte
Tão pesada coroa?
PUFF
A mitra cobre...
Dizem que a santidade lava tudo!
Depois... o Cardeal estava bêbado...
A propósito, sabes dos amores
Do capitão Tybald? O tal maroto
Não sei de que milagres tem segredo
Que deu volta à cabeça da rainha.
NINI
Por isso o pobre Rei anda tão triste!
PUFF
Spadaro, o fidalgote barba-ruiva,
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Contou-me que espiando p'la janela
Do quarto da rainha os viu... Caluda!
NINI
E o Rei que faz? Não tem lá na cozinha
Algum pau de vassoura ou um chicote?
PUFF
El-Rei Nosso Senhor então ceava.
NINI
Santo Rei!
PUFF
E demais é bem sabido
Que El-Rei só reina à mesa e nas caçadas.
NINI
Nunca perde um veado quando atira.
PUFF
Ele caça veados?... Má fortuna!
Não o cacem também pela ramagem!
NINI
Com língua tão comprida e viperina
Irás parar na forca...
PUFF
Nini, escuta:
Assisti esta noite a um pagode
Na taverna do Sapo e das Três-Cobras.
Era já lusco-fusco... e eu entrando
Dou com Frei São José e Frei Gregório,
O Prior do convento dos Bernardos
E mais uns dois ou três que só conheço
De ver pelas esquinas se encostando,
Ou dorm