voz fina de mulher flauteava arrastando as sílabas numa cadência morosa: ¾ Vin...te e quatro! Sessen...ta nove!... Cinqüen...ta e seis!... Havia um silêncio morno e concentrado em que se destacava o rolar abafado das pedras no saquinho de baeta verde. A sala era estreita, sem teto, chão de tijolo, com duas portas para o interior da casa, paredes escorridas pedindo uma caiação geral. À direita, defronte da janela, dormia um velho piano de aspecto pobre, encimado por um espelho não menos gasto. O resto da mobília compunha-se de algumas cadeiras, um sofá entre as duas portas do fundo, a mesa do centro, e uma espécie de console, colocada à esquerda, onde pousavam dos jarros com flores artificiais. De onde em onde zunia o falsete do amanuense: ¾ Quadra!... Ou caçoava: ¾ Os anos de Cristo! ... Os óculos do Padre Eterno! Risadinhas explodiam a espaços, gostosas, indiscretas ¾ uma pilhéria ricocheteava nos quatros ângulos da mesa. ¾ É boa! É boa! fazia João da Mata erguendo a cabeça, mostrando a dentuça. Depois voltava o silêncio, e a voz fina de mulher continuava a cantar os números solenemente. ¾ Víspora! saltou de repente um rapazola d’óculos, bigodinho fino, flor na botoeira do fraque de casimira clara. Toda gente o conhecia ¾ era o Zuza, quintanista de direito, filho do coronel Souza Nunes. ¾ Podem conferir, disse erguendo-se, risonho ¾ segunda linha. E estendeu o braço, passando o cartão para o amanuense. ¾ Não desmarquem, não desmarquem, recomendou este espalmando a mão. Pode Ter sido engano. Errare humanun est... Houve um ligeiro sussurro de vozes e de caroços rolando sobre a mesa com um surdo ruído de contas desfiada. Todos desfizeram as marcações. Numa das extremidades sentava-se João da Mata, de paletó de fazenda parda sobre a camisa de meia, costas para a rua. À direita mexia-se uma senhora gorducha, de seus trinta anos, metida num casaco frouxo de rendas, cabelos penteado em cocó, estampa insinuante, bons dentes; era a mulher do amanuense, que passava por sua legítima esposa não obstante as insinuações malévolas da alcovitice vilã que entrevira escândalos na vida privada de D. Terezinha. Contudo, era tida em conta de excelente dona de casa, honesta, dizendo-se relacionada com as principais famílias de Fortaleza. Ninguém ousava mesmo dirigir-lhe um gracejo de mau gosto, uma pilhéria calculada. Inventava-se ¾ calúnias de populacho ¾ que se correspondia ocultamente com o presidente da província. Ela, porém, gabava, batendo no peito com orgulho, que tinha uma vida limpa, graças a Deus,; que isso de patifarias não lhe entrava em casa, não, mas era o mesmo. Estava ali o Janjão que não a deixava mentir. Ao pé de D. Terezinha aprumava-se Maria do Carmo, afilhada de João, uma rapariga muito nova, com um belo arzinho de noviça, moreno-clara, olhos cor de azeitona, carnes rijas, e cuja atenção volvia-se insistentemente para o Zuza. As outras pessoas eram também da intimidade: o Loureiro, guarda-livros da firma Carvalho & Cia., o Dr. Mendes, juiz municipal, mais a senhora, a Lídia Campelo, filha da viúva Campelo, e o estudante. Às vezes ia mais gente e o víspora prolongava-se até meia noite. João da Mata era um sujeito esgrouviado, esguio e alto, carão magro de tísico, com uma cor hepática denunciando vícios de sangue, pouco cabelo, óculos escuros através dos quais boliam dois olhos miúdos e vesgos. Usava pêra e bigode ralo caindo sobre os beiços tesos como fios de arame; a testa ampla confundia-se com a meia calva reluzente. Falava depressa, com um sotaque abemolado, gesticulando bruscamente e, quando ria, punha em evidência a medonha dentuça postiça. Noutros tempo, fora mestre-escola no sertão da província, donde mudara-se para a capital por conveniências particulares. Era então simplesmente o professor Gadelha, o terror dos estudantes de gramática. O sertão foi-lhe aborrecendo; estava cansado de ensinar a meninos, era preciso pela vida noutro meio mais vasto onde as suas qualidades, boas ou más, fossem aquilatadas com justiça. Estava se perdendo, se inutilizando, fossilizando-se, por assim dizer, entre um vigário seboso e pernóstico e um delegado de polícia ignorante: ¾ “Não era uma águia, Um Abílio Borges, um Macedo... mas reconhecia que também não era burro. Até podia fazer figura em Fortaleza”. E abalou com tanta felicidade que não tardou ser nomeado comissário de socorros ao tempo da grande seca de 77, dois anos depois de sua chegada à capital. Desde logo tornou-se conhecido, suas façanhas corriam impressas nos pasquins domingueiros. D’uma feita escapou milagrosamente de ser preso por crime de defloramento numa menor, criada do Dr. Morais da Silva; d’outra feita apanhou de rebenque na cara por haver caluniado um capitão d’infantaria propalando uma infâmia. Toda a gente o conhecia muitíssimo bem, por sinal tinha uma cicatriz oblonga e funda na têmpora esquerda, e não largava o mau veso de roer o canto das unhas. Depois da seca entregou-se de corpo e alma à política, à intriguinha partidária, à rabulice, à cabala eleitoral, à chicana. Toda vez que se anunciava um pleito, punha em jogo as mil e uma sutilezas que só o seu espírito sagaz podia conceber. Ninguém como ele sabia copiar uma chapa em letra firme e aprumada. Aquilo a pena cantava no papel que nem o lápis d’um taquígrafo. E que letra, que esplêndido talhe! Ninguém como ele sabia tirar proveito d’uma vitória alcançada pelo partido. Discutia, falava alto, berrava... impunha-se! ¾ Extraordinário homem! diziam os chefes políticos; destes é que nós precisamos, destes é que precisa o partido. Mas João sabia vender caro o seu peixe. Fazia política por uma espécie de ambição egoísta, visando sempre tirar resultados positivos de suas artimanhas, embora com prejuízo de alguém. Dinheiro é o que ele queria, não lhe fossem falar em política sem interesse pessoal. “¾ Histórias, homem, histórias! Isso de patriotismo é uma patranha, um rótulo falso! O que se quer é dinheiro, o santo dinheirinho, a mamata. Qual pátria, qual nada! Patacoadas!” Ele, João, trabalhava, lá isso era inegável: dava o seu voto, cabalava, servia de testa de ferro, mas... tivessem paciência ¾ era mão p’ra lá, mão p’ra cá. Porque ¾ argumentava ¾ a política é uma especulação torpe como qualquer outra, como a de comprara e vender couros de bode na praia, a mesmíssima cousa; pois não é? P’ra tudo é preciso jeito, muito jeitinho... Agora, porém, andava meio retraído, dava o seu voto, calado, e ¾ passe muito bem! ¾ A política só lhe trouxera enganos e inimigos. Não estava mais para servir de degrau a figurão algum. Que se fomentassem! É boa! Trabalhara que nem besta de carga para no fim das contas ganhar o quê? Um pingue lugar de amanuense? Um miserável emprego que se anda oferecendo por aí a qualquer vagabundo? Decididamente não o pilhavam mais para a canga... Estava experimentado, meus senhores, experimentadíssimo. E agora, com efeito, ninguém o via mais nas redações, entre os jornalistas da terra, a esbravejar contra os adversários, nem nos cafés, quanto mais em dia de eleição, sentado, como dantes, na sua cadeira de mesário, carrancudo, circunspecto, a contar votos, a lavrar atas. Estava outro homem, completamente outro: amigo de casa, vivendo p’ra si, com poucas amizades, metódico, econômico, às voltas com sua atrabílis crônica, sem ambições, sem dívidas. A sua grande paixão, o seu fraco, era a Maria do Carmo, a menina dos seus olhos, a afilhadinha; queria um bem extraordinário à rapariga e tratava-a com um carinho languido de amante apaixonado no supremo grau do amor incondicional. Criara-a desde pequena, era como se fosse pai, tinha direitos sobre ela; podia mesmo beijá-la ¾ sem malícia, já se deixa ver ¾ nas faces, na testa, nos braços e até, porque não? na boca. Às vezes, quando Maria voltava da Escola Normal, ele mandava-a sentar na rede, a seu lado. A pequena guardava os livros, e lá ia, sem fazer beiço, deitar-se com o padrinho, amarfanhando o rico vestidinho de cretone passado a ferro pela manhã. Obedecia-lhe cegamente, nunca lhe dissera uma palavra áspera; ao contrário ¾ eram carinhos, cafunés no alto da cabeça. cócegas, histórias d’almas d’outro mundo e gracinhas p’ra ele rir... Tinha sempre um sorriso fresco e luminoso para “o seu padrinho”. E João da Mata sentia um bem estar incomparável, uma delícia, um gosto inefável ante aquele esplendido tipo de cearense morena, olhos cor de azeitona onde boiava uma névoa de ingenuidade, cabelos compridos descendo até a altura dos quadris, desmanchando-se em ondas de seda finíssima... Quantas vezes, quantas? punha-se por traz dos grandes óculos escuros a olhá-la como um pateta, sem que ela sequer percebesse a fixidez de seu olhar cheio de desejo! Maria estava-se pondo moça, entrava nos seus quinze anos, e o padrinho a adorá-la cada vez mais! João começou a inquietar-se com as freqüentes visitas do Zuza. Por fim notara certas tendências do estudante para a pequena, certo quebrar d’olhos, uma como insistência atrevida em dizer as coisas por metáforas... Isso o incomodava, punha-lhe pruridos na calva, enraivecia-o. Quanto ao Loureiro não havia risco, o guarda-livros estava para se casar com a Campelinho, era um rapaz sério. Mas o senhor Zuza?... Ali andava namoro, apostava. Tinha idéia de ter lido na Província uns versos dedicados a M.C. e assinados por Z***. Naquela noite, sobretudo, pareceu-lhe ver o mariola passar uma carta, um papel à Maria. Boas! Era preciso por um termo ao descaramento, sob pena de ele, João, desmoralizar-se no conceito da gente séria. Lá por ser filho do Sr. Coronel Souza Nunes não fosse pensar que faria o que bem entendesse. Alto lá! Tudo menos patifaria dentro de sua casa. E enquanto ia enchendo os cartões automaticamente, sem olhar para os números, pensava em Maria do Carmo, mordendo com desespero as guias do bigodaço. Quando o Zuza, todo gabola e amaneirado, vermelho do calor da luz, gritou ¾ víspora numa voz triunfante e clara, João este quase atirando-lhe com o cartão. Vieram-lhe desejos imoderados de estourar, de dar escândalo, trêmulo, nervoso, a semicalva reluzente de suor. ¾ Sim senhor, disse secamente devolvendo o cartão. Vamos à última... E o jogo continuou. Fez-se novo silêncio. Agora era o Zuza, o futuro bacharel, que cantava pausadamente, tirando as pedras com as pontas dos dedos e colocando-as devagar, cauteloso. Davam nove horas na Sé quando todos se ergueram. A Campelinho suplicou mais uma partida, o Loureiro também foi de opinião que se jogasse ainda uma vez, todos enfim, desejavam continuar, mas João da Mata opôs-se tenazmente: que era tarde, tinha muito que escrever. ¾ Uma só, meu padrinho, rogou Maria do Carmo tomando-lhe as duas mãos e fitando-o com os seus magníficos olhos cor de azeitona. O amanuense estremeceu. Agora era a própria afilhada, a Sra. D. Maria do Carmo que lhe pedia com um sorriso extraordinário que jogassem! E na sua imaginação acentuavase a suspeita do namoro com o estudante. Curvou-se e proferiu um palavrão ao ouvido da rapariga. Estava desesperado, não se continha. ¾ Não senhora, por hoje basta de víspora! ¾ ! Todos admiraram a súbita mudança na sua fisionomia a princípio tão alegre. A mulher do Dr. Mendes, muito afetada, acotovelou o marido e despediu-se “até a primeira vista”. Zuza foi o último a retirar-se, fitando em Maria um olhar embebido de ternura. A noite estava muito escura e calma. As estrelas tinham um brilho particular, altas, minúsculas como cabeças d’alfinete em papel de seda escuro. Ouvia-se distintamente, como por um tubo acústico, a toada dos soldados rezando à Virgem da Conceição no quartel de linha e o marulhar da praia distante. A rua do Trilho, deserta, com sua iluminação incompleta, naqueles confins a cidade, parecia um túnel subterrâneo. Fazia medo transitar ali a deshoras. Assim que se foram os habitués do víspora, João da Mata desabafou. ¾ Uma patifaria! O Sr. Zuza pretendia sem dúvida abusar da sua confiança, plantar a desordem no seio da família, mas estava muito enganado. Ali era casa de gente pobre e honesta. Estava muito enganadinho, seu pelintra! ¾ Mas eu sei quem é a culpada, acrescentou furioso; a culpada é a Sra. D. Maria do Carmo, por que se atreve a olhar para ele! Aquilo não podia continuar, o Sr. Zuza não lhe punha mais os pés em casa sob o pretexto algum. Não se portava sério? Pois então ¾ fora p’ra rua! Estavam fazendo de sua casa um alcouce! A Sra. D. Lídia vinha namorar o outro às suas barbas; já uma vez caíra-lhe porta dentro uma imundície de carta anônima denunciando certos abusos. E colérico, soprando o bigode, sacudindo os braços, esmurrando a mesa, berrava, com os olhos na alcova onde sumira-se D. Terezinha. Maria desaparecera pelo corredor e chorava debruçada sobre a mesa do jantar, onde ardia uma vela de carnaúba. ¾ Que sujeito! gania o amanuense. Pensa ele que não tem mais do que enfronhar-se num fato de casimira clara, com uma flor no peito, com modos de safardana, e zás! plantarse na pequena, mas está muito enganado! Aqui estou eu (e batia com força no peito ossudo) para impedir escândalos em minha casa! Debalde D. Terezinha aconselhava, aflita, que não desses escândalo, que fosse dormir. ¾ “As paredes têm ouvidos, dizia ela dentro da alcova. O moço era filho de gente graúda, e ele, Janjão, um simples empregado público. Tivesse modos. Se houvesse má intenção por parte do Zuza, ela, Teté, seria a primeira a não consentir que ele pisasse o chão de sua casa. Mas, não senhor, a gente deve pensar antes de fazer as cousas. P’ra que todo aquele espalhafato, porque semelhante barulho”. João da Mata, porém, estava fora de si, tinha a cabeça a arder como uma brasa. Seu temperamento excessivamente irritável expandia-se com desespero ao mesmo tempo que seu coração de homem gasto sentia pela primeira vez um quer que era, uma agonia, uma sufocação ante a possibilidade de um namoro entre o estudante e a afilhada. Não era precisamente receio de que o Zuza pudesse iludir a rapariga desonrando e atirando-a p’ra aí ao desprezo; era como revolta do instinto, uma espécie de egoísmo animal que o torturava, acendendo-lhe todas as cóleras, dominando-o, como se Maria fosse propriedade sua, exclusivamente sua por direito inalienável. Via-a caída pelo acadêmico, toda voltada para ele, amando-o talvez, preferindo-o a todos os outros homens, entregando-se-lhe. E o que seria dele, João, depois? Nem mais uma beijoca na boquinha rubra e pequenina, nem mais um abraço ao voltar da escola, cansadinha, o rosto afogueado pelo calor; nem mais uns cafunés, nem um sorriso daqueles que ela sempre tinha para o padrinho... Isto é que o desesperava! Desde a saída de Maria do colégio das Irmãs de Caridade tinha se operado uma mudança admirável nos hábitos de João da Mata. Ela já era para ele como uma filha; estava quase moça, incomparavelmente mais bonita e fornida de carnes. Já não era, que esperança! aquela Maria do Carmo da Imaculada Conceição, toda santidade, magrinha, com uma cor esbranquiçada e mórbida de cera velha, o olhar macilento, a falar sempre no Padre Reitor e na Superiora e na Irmã Filomena e noutras pieguices. Uma tontinha a Maria naquele tempo. Quando ia passar o domingo em casa, uma vez no mês, metia-se para os fundos do quintal ou pelas camarinhas, muito calada, muito sonsa, a ler a Imitação; não chegava à janela, não aparecia às visitas, doida por voltar ao colégio. Aquilo punha o padrinho de mau humor. Uma coisa assim fazia até vergonha a ele que detestava tudo que cheirasse a sacristia. Porque João da Mata dizia-se pensador livre; não acreditava em santos, e maldizia os padres. Jesus, na sua opinião, era uma espécie de mito, uma como legenda mística sem utilidade prática. Isso de colégios internos à guisa de conventos não se acomodava com o seu temperamento. Também fora professor, olé! e sabia muito bem o que isso era ¾ “um coito de patifarias”. Queria a educação como nos colégios da Europa, segundo vira em certo pedagogista, onde as meninas desenvolvem-se física e moralmente como a rapaziada de calças, com uma rapidez admirável, tornando-se por fim excelentes mães de família, perfeitas donas de casa, sem a intervenção inquisitorial da Irmã de Caridade. Não compreendia (tacanhez de espírito embora) como pudesse instruir-se na prática da indispensável da vida social uma criatura educada a toques de sineta, no silêncio e na sensaboria de uma casa conventual entre paredes sombrias, com quadros alegóricos das almas do purgatório e das penas do inferno; com o mais lamentável desprezo de todas as prescrições higiênicas, se ar nem luz, rezando noite e dia ¾ “ora pró nobis, ora pró nobis”. Era da opinião do José Pereira da Província: “Irmãs de Caridade foram feitas para os hospitais”. O diabo é que no Ceará não havia colégios sérios. A instrução pública estava reduzida a meia dúzia de conventilhos: uma calamidade pior que a seca. O menino ou menina saía da escola sabendo menos que dantes e mais instruído em hábitos vergonhosos. As melhores famílias sacudiam as filhas Imaculada Conceição como único recurso para não vê-las completamente ignorantes e pervertidas. Afinal, para não contrariar o Mendonça, que queria a filha para santa, metera Maria do Carmo no “convento”. D. Terezinha participava das mesmas idéias de Janjão. Uma menina inteligente como Maria devia educar-se no Rio de Janeiro ou num colégio particular, mas um colégio onde ela pudesse aprender o “traquejo social”. Pode ser que as Irmãs sejam umas mulheres virtuosíssimas e castas, ma filha sua não punha os pés em colégio de freiras... João da Mata detestava a padraria. Dava-se apenas com um padre, o cônego Feitosa, porque, dizia ele, era um sacerdote sem hipocrisia, um padre como ele entendia que deviam ser todos os padres, asseado, inimigo da batina, com afilhadas em casa... E porque não? Os padres são fisicamente (e sublinhava a palavra), anatomicamente, fisiologicamente, homens como os outros; têm coração, órgãos sexuais, nervos como os outros homens. Portanto, assiste-lhes o mesmíssimo direito de procriação, direito natural e até consagrado pela Escritura. O contrário é contrafazer a natureza humana que, afinal, não obedece a preceitos de castidade. D’aí, concluía João, d’aí o desregramento das classes religiosas condenadas a eterno celibato. O próprio Cristo dissera numa parábola cheia de senso e experiência : “Crescei e multiplicai-vos”. “Por amor de Deus” não lhe falassem em padres. A educação moderna, a educação livre, sem intervenção da batina ¾ eis o que ele queria e apregoava alto e bom som. Havia meses que Maria do Carmo cursava a Escola Normal. Sua vida agora traduzia-se em ler romances que pedia emprestados a Lídia, toda preocupada com bailes, passeios, modas e tutti quanti... Ia à Escola todos os dias vestidinha com simplicidade, muito limpa, mangas curtas evidenciando o meio braço moreno e roliço, em cabelo, o guarda-sol de seda na mão, por ali afora ¾ toc, toc, toc ¾ até a praça do Patrocínio, como uma grande senhora independente. Agora, sim, pensava o amanuense, Maria estava uma mocetona digna de figurar em qualquer salão aristocrático. A fama da normalista encheu depressa toda a capital. Não se compreendia como uma simples retirante saída há pouco das Irmãs de Caridade fosse tão bem feita de corpo, tão desenvolta e insinuante. As outras normalistas tinham-lhe inveja e faziam pirraças. Nas reuniões do Club Iracema era ela a preferida dos rapazes, todos a procuravam. João da Mata inflava. Certo não a entregaria por preço algum a qualquer rapazola como o filho do coronel Souza Nunes. Entretanto o Zuza era um rapaz da moda. Montava a cavalo, fazia versos, assinava a Gazeta Jurídica, freqüentava o palácio do presidente... João conhecera-o uma noite no baile do Dr. Castro. Havia meses que se achava em Fortaleza estudando o quinto ano de direito e gozando a sua fama de rapaz rico. Às seis horas da tarde já lá estava no Trilho, em casa do amanuense, queixando-se da monotonia da vida cearense e gabando, com ares de fidalgo, a capital de Pernambuco. Ali, sim, a gente pode viver, pode gozar. Muito progresso, muito divertimento: corridas de cavalos, uma sociedade papa-fina muitíssimo bem educada, magníficos arrabaldes, certo bom gosto nas toilettes, nos costumes, certas comodidades que ainda não havia no Ceará. ¾ Ao que parece o Sr. Zuza não gosta do Ceará... disse-lhe um dia D. Terezinha. ¾ Absolutamente não, minha senhora. Sou meio exigente em matéria de civilização; isto me parece ainda uma terra de bugres... ¾ De bugres!? ¾ ... Sim, uma terra em que só se fala nas secas e no preço da carne verde, V. Excia. compreende, não pode corresponder às expectativas d’um rapaz de certa ordem, por assim dizer educado na Veneza Americana... ¾ Deste modo o Sr. Zuza ofende os seus conterrâneos, os seus parentes. ¾ Absolutamente não. O que dizia é que o Recife está em um plano superior a Fortaleza. Apenas estabelecia um paralelo. João da Mata achava-o pedante, desequilibrado, tolo. ¾ “Não, o Sr. Zuza não lhe punha mais os pés em casa por forma alguma!” bradava naquela noite. Maria continuava a chorar lá dentro, na sala de jantar, inconsolável, triste, com um grande desgosto nalma. De repente ouviu a voz do padrinho que a chamava. Ergueu-se com um movimento brusco e rápido, o lenço nos olhos, soluçando devagar. João quis saber onde estava “a carta que o Zuza lhe havia entregue”. Botasse p’r’ali, já! Trêmula, abafando a cólera que lhe oprimia a respiração, Maria não podia falar. ¾ Vamos, vamos! ¾ Não tenho carta alguma, disse num acento doloroso. João da Mata sentiu atar-se-lhe o fogo da concupiscência. Teve ímpetos de tomar entre as mãos a cabeça da afilhada e beijá-la, beijá-la sofregamente, com a fúria de um selvagem, no pescoço, na boca, nos olhos... ímpetos de beijá-la toda inteira, como um doido. Maria dominava-o, fazia-lhe perder a tramontana. ¾ Então aquele bandido não lhe entregou uma carta por debaixo da mesa, no víspora? Entregou, sim senhora, dê-m’a! ¾ Não senhor, não me entregou coisa alguma, tornou a normalista, sem levantar a cabeça, fungando. Estavam em frente um do outro, ao pé da mesa. As portas da sala já tinham-se fechado; ele com o paletó aberto mostrando a camisa-de-meia cor de carne, o olhar fixo em Maria; ela com o seu vestidinho claro de chita, cabelos penteados numa trança, acaçapada, submissa ante a cólera rude do padrinho. ¾ Pois bem, concluiu este moderando a voz. Tome sentido: vocemecê não me aparece mais àquele cabrocha, está ouvindo? E depois d’uma pausa, com ternura: ¾ Vá dormir, ande... Soprou o gás e foi deitar-se com a mulher, na alcova. ¾ Pois não achas, Teté, dizia ele em camisa de dormir, aconchegado a D. Terezinha na larga cama de jacarandá; não achas que é um desaforo aquele patife vir à nossa casa para namorar? ¾ Não, que tolice. O Zuza até é um rapaz sério... Vem, coitado, porque nos estima... ¾ É boa! fez João. Então vem porque nos estima, hein? Esta cá me fica, Sra. D. Teté, esta cá me fica! ¾ Homem, trate de suas hemorróidas que é melhor... ¾ Ora, sabe que mais? Você é outra! E deram-se as costas fazendo ranger a cama. Com pouco ambos roncavam no discreto silêncio da alcova. Sobre a cômoda, ao pé do oratório, ardia uma lamparina de azeite. 2 Foi numa tarde infinitamente calma de dezembro de 1877 que o capitão Bernardino de Mendonça chegou a Fortaleza pela estrada nova de Mecejana, depois de penosíssima viagem. A seca dizimava populações inteiras nos sertão. Famílias sucumbiam de fome e de peste, castigado por um sol de brasa. Centenas de foragidos, arrastando os esqueletos seminus, cruzavam-se dia e noite no areial incandescente dos caminhos ¾ abantesmas das desgraça gemendo preces ao Deus dos cristão, numa voz rouquenha, quase soluçada. Era um horror de misérias e aflições. Bernardino de Mendonça foi dos últimos que abalaram do interior da província para o litoral na pista dos socorros públicos. Totalmente desiludido, quase arruinado, vendo todos os dias passarem pela sua porta, em Campo Alegre, magotes de emigrantes andrajosos que batiam do sertão num êxodo pungente, acossados pela necessidade, resolvera também ir-se com a família para Fortaleza, embora mais tarde fosse obrigado a procurar outros climas. Era homem sadio, vigoroso, excessivamente trabalhador e dedicado. Contava a esse tempo quarenta anos, nada mais nada menos, e dizia com soberba, gabando o peito rijo, não se trocar por muito rapazola pimpão que aí vive nas cidades grandes caindo de tédio e preguiça, cheio de vícios secretos. Corria-lhe nas veias largas e azuis de matuto inteligente puro e abundante sangue português. Nunca sofrera a mais leve dor de cabeça. Conhecia a sífilis por ouvir falar. Casara muito moço, imberbe ainda, aos dezesseis anos, com uma prima colateral, D. Eulália de Mendonça Furtado, de uma família de Furtados da Telha. Até então só tivera três filho, um dos quais, o mais velho, chamado Lourenço, fora recrutado para o exército por peralta incorrigível. Outro, o Casimiro, mais rude e também mais obediente, vivia com os pais, era mesmo o vaqueiro de Mendonça, que descobrira nele especial vocação para esse inglório trabalho de andar atrás das boiadas ¾ ecô! ecô! ¾ metido em couros, chapinhando açudes e lagoas, galopando à brida solta nas várzeas, ao ar fresco das manhãs do norte, identificado por assim dizer, com o mugir nostálgico e penoso do gado. Desde menino, o pai acostumara-o à vida alegre do campo, e agora aí vinha também, Deus o sabe, triste e apreensivo, caminho da capital cearense, no seu pedrês choutão, escanchado entre dois grandes alforjes de farinha e carne salgada. Por último nascera Maria do Carmo, o último filho do Mendonça, a caçula. Em 1877 completara seis anos, e para felicidade dos pais, era uma criança verdadeiramente encantadora, com seu arzinho ingênuo e meio de sertaneja. A cor, os olhos, os dentes, o cabelo ¾ tudo nela era um encanto: olhos puxados para negros, dentes miudinhos e de um brancura de algodão em rama, cabelos negros e luzidios como a asa da graúna ¾morenoclara. Crescia sem outra educação a não ser a que lhe davam os pais, de modo que, naquela idade, mal soletrava a Doutrina Cristã. Mendonça abalara de Campo Alegre quando de todo lhe tinham fugido as esperanças d’inverno seguro, depois de ter visto estrebuchar a última rês no solo duro e estéril. Todas as tardes, invariavelmente, da janela que dizia para o poente, ou em pé na varanda, consultava o tempo, os horizontes cor de cinza, o céu d’um azul diáfano de safira, procurando bispar na inclemência da atmosfera imóvel a sombra fresca de uma nuvem, um indício qualquer de chuva. Surpreendia, às vezes, crivando a transparência do ar, revoadas d’aves de arribação. Recolhia-se animado. Mas os dias passavam quentes e seco. Outras vezes, à noitinha, clarões rápidos e lívidos abriam-se no poente como reflexos de luz elétrica; ouvia-se rolar a trovoada muito ao longe. Mendonça punha-se a escutar calado, sentia um como arrepio bom, e lá tornava a iludir-se alimentando, toda uma noite, a doce esperança de ver pela manhã o solo úmido e a rama brotando verde e pujante da “fornalha”. Mas qual! As manhãs sucediam-se cada vez mais tépidas, sem pingo d’água, uma aragem leve, de cemitério, arrepiando a folhagem do arvoredo. Um céu muito alto, varrido, monótono, indecifrável como um dogma. E pouco a pouco aquele estado de coisas foi atuando forte no espírito do sertanejo, como as vibrações d’um clarim que dá sinal de marcha; pouco a pouco foi se convencendo que aquilo era uma situação impossível em que ele não devia absolutamente permanecer. Os açudes estorricavam mostrando os leitos gretados pelo sol, duros como pedra, juritis encadeadas iam espapaçar ofegantes no chão, defronte da casa; cascavéis chocalhavam no alpendre, ocultas, invisíveis, e todas as coisas tinham um aspecto desolado e lúgubre que se comunicava às criaturas. Passava gente todo santo dia, a pé, de trouxa ao ombro, arrastando-se pesadamente. Uma vez, ele próprio, Mendonça, vira de perto a agonia lenta de uma mulher asfixiada pela elefantíasis ¾ pernas inchadas, ventre inchado, rosto inchado ¾ horrível. Decididamente era tempo de arrumar também “os seus cacos” e ¾ adeus, Campo Alegre, adeus, carnaubais rumorejantes; adeus, igrejinha branca! Ir-se-ia fazer pela vida em qualquer parte, em Fortaleza, onde felizmente contava amigos políticos, correligionários dedicados que certamente lhe não recusariam uma acha de lenha, uma pouca d’água fresca, um punhado de farinha... Demais era homem, graças a Deus, forte como um novilho, tinha sangue nas veias ¾ trabalharia! Ao mesmo tempo lembrava-se da “sua velha”, da Eulália, que andava adoentada, com umas pontadas no coração, muito fraca e cuja natureza talvez não resistisse às fadigas d’uma viagem longa; pensava em Maria do Carmo, sua filha querida, a menina dos seus olhos, tão nova ainda, e punha-se a meditar nos horrores da seca, nas febres de mau caráter, na quase absoluta falta d’água, com um desalento a aniquilar-lhe as forças, a dobrar-lhe a altivez de forte. Depois tornava ao mesmo fio de idéias: não, aquele inferno do sertão, com um raio de tempo medonho, seria talvez pior, seria a sua desgraça. De si para si media, calculava meticulosamente toda a gravidade da situação a que chegara. Não havia outro recurso, outro jeito senão marchar para a capital, para onde quer que fosse, como tantos outros infelizes empolgados pela miséria. Iria, que remédio? bater à porta de um amigo, de um correligionário, de um cristão. Lembrou-se então do “compadre João da Mata”, padrinho de Maria. Muito bom: iria ao compadre. Arribaram de manhã, muito cedo, ao romper d’alva. Os cavalos, magros e ruins, romperam num trote miúdo . Ao passarem defronte da igrejinha do povoado, um pobre nicho todo fechado, com suas janelinhas por pintar, solitário como uma coisa inútil, D. Eulália ciciou uma oração, e os outros, Mendonça e Casimiro, descobriram-se com respeito. Entraram por uma estrada de areia que se prolongava indefinidamente, torcendo e retorcendo-se em ziguezagues, ocultando-se aqui para brilhar lá adiante por cima da floresta imóvel, como uma enorme serpente amarela dormindo ao sol... As pisadas dos animais abafavam-se na areia, e apequena caravana sumia-se na distância... Ao cabo de doze longos dias em que paravam para repousar à sombra d’alguma árvore que ainda verdejava ou nalguma palhoça abandonada, avistaram o campanário branco e alegre do Coração de Jesus, direito e esguio, como o minarete de um templo muçulmano, destacando na meia sombra crepuscular, esbatido pela irradiação do sol que tombava glorioso ao fundo da tarde pardacenta. Morria no ar calmo o dobre melancólico de um sino... Flutuava um cheiro vago de cousas podres. Para as bandas do Pajeú ardiam restos de fogueiras a extinguir-se. Uma tarde infinitamente clama, essa... Havia oito anos que isto fora, mas nos seus momentos de desânimo, Maria do Carmo punha-se a relembrar toda essa tragédia de sua infância. Olhava para o passado com a alma cheia de saudade, recordando, tim-tim por tim-tim, como se estivesse lendo num livro, ninharias, minudências de sua vida naqueles tempos em que ela, pobre e matutinha, via tudo cor de rosa através do prisma límpido e imaculado de sua meninice. Transportavase, num vôo da imaginação, a Campo Alegre, e via-se, como por um óculo de ver ao longe, ao lado da mamãe, costurando quieta ou soletrando a Cartilha, ou na novena do Senhor do Bonfim, muito limpa, com o seu vestidinho de chita que lhe dera o Sr. vigário. Lembravase do papai, quando voltava do roçado,. de camisa e ceroula, chapéu de palha de carnaúba, tostado, trigueiro do sol, contando histórias de onças e maracajás... Recapitulava mentalmente, com uma precisão cronológica, toda a sua vida e ficava horas e horas em cisma, a pensar como se tivesse perdido o juízo... Nas Irmãs de Caridade é que lhe sobrava tempo para isso. Vinham-lhe à mente os episódios da viagem: uma grande cobra cascavel que o papai matara ao pé d’uma árvore, à faca; as dificuldades que encontraram no caminho; um ceguinho que cantava na estrada sem ter o que comer... Nunca mais lhe saíra da cabeça um retirante que ela vira estendido no meio do caminho, sobre o areal quente , ao meio dia em ponto, morto, e completamente nu, com os olhos já comidos pelos urubus, os intestinos fora, devorado pelas varejeiras... Que feio aquilo! Não era má, de resto, a sua vida agora, em casa dos padrinhos, não era, mas se fosse possível tornar a ser criança, renascer e viver outra vez em Campo Alegre... No dia seguinte ao da chegada à capital, D. Eulália morrera d’uma síncope cardíaca. Maria lembrava-se muito bem: a mamãe fora para o cemitério na padiola da Santa Casa de Misericórdia, toda de preto... Parecia vê-la ainda, com os olhos fundos, entreabertos, mãos cruzadas sobre o peito, dentro do esquife... Tempos depois vira-a em sonho, numa nuvem de incenso, cercada d’anjos com um manto azul recamado de estrelas, subindo para o céu... Por sinal acordou sobressaltada, chamando pela madrinha, encolhendo-se na rede, fria de medo. Dias depois Mendonça embarcara para o norte. Ainda acabrunhado pelo desgosto que lhe trouxera a morte quase repentina da mulher, manifestou a João da Mata desejos d’ir tentar fortuna onde quer que fosse. Não podia continuar no Ceará, viúvo e ocioso, de braças cruzados, sem dinheiro, olhando para o tempo, decididamente não podia continuar. Mas havia uma dificuldade ¾ a Maria. Se o compadre quisesse tomar a menina, encarregar-se de sua educação, mediante uma mesada, um pequeno auxílio... O amanuense aceitou. Que fosse imediatamente para o norte. A vida no Ceará não valia coisíssima alguma. O Pará, sim, aquilo é que é terra de fartura e de dinheiro. Um homem trabalhador e honesto, como o compadre, com uma pouca experiência, podia enricar da noite para o dia. Os seringais, conhecia os seringais? eram uma mina da Califórnia. Tantos fossem quantos voltavam recheados, de mão no bolso e cabeça erguida. E o Ceará? Fome e miséria somente. Num mês morriam três mil pessoas, eram mortos a dar com o pé, morria gente até defronte do palácio do governo, uma lástima! E acrescentou que o Ceará era boa terra para os políticos e ricaços, que o pobre em Fortaleza, ainda que pesasse quilogramas d’honradez, era sempre o pobre, maltratado, espezinhado, ridicularizado, perseguido, enquanto que o indivíduo mais ou menos endinheirado podia contar amplamente, largamente (e abria os braços) com a simpatia geral;: tinha ingresso em todos os salões, em toda a parte, até no “santuário da família”, fosse ele, embora, um patife, um grandíssimo canalha. Usava chapéu alto e gravata branca? Tinha um título de bacharel? Não fizesse cerimônia, podia entrar onde quisesse. ¾ “Uma terra de famintos, seu compadre! Fome, miséria e patifaria era o que se via”.¾ Com a Maria do Carmo não tivesse cuidado; ele, João da Mata, havia de tratá-la como filha, não lhe faltaria nada; teria para ela todas as carícias, todos os afagos de um pai. Mendonça podia mesmo demorar o tempo que quisesse no Pará, anos séculos... a menina ficava em casa de gente séria, pobre, é verdade, mas honrada. Daí a dias, um domingo de muito sol e muito vento, realizou-se o embarque do capitão Mendonça e Casimiro. Os conselhos de João calaram muito forte no ânimo forte e resoluto do sertanejo, cuja confiança no compadre era ilimitada. Sabia-o conhecido em quase todo o Ceará, estimado mesmo por pessoas de bem, admirava-lhe muito o “coração generoso” e democrata, por tal forma que João se lhe afigurou o único homem capaz de concorrer para a felicidade de sua filha ¾ reflexões nascida da boa-fé e da inexperiência da vida social, que enchiam de íntima e doce consolação a alma ingênua e simples do sertanejo. Mendonça conhecia Fortaleza superficialmente; suas viagens à capital tinham sido raríssimas; viera vezes contadas a negócios. Sabia os homens propensos aos mal, por mais duma vez ele próprio fora vítima da ingratidão e indivíduos que se diziam seus amigos e a quem fizera grandes benefícios; porém, a vida ruidosa e dissoluta das capitais, esse tumultuar quotidiano de virtudes fingidas e vícios inconfessáveis, esse tropel de paixões desencontradas, isso que constitui, por assim dizer, a maior felicidade do gênero humano, esse acervo de mentiras galantes e torpezas dissimuladas, esse cortiço de vespas que se denomina ¾ sociedade, desconhecia-o ele e nem sequer imaginava. Lá, no seu tranqüilo recanto de Campo Alegre, onde só de longe em longe chegava o eco da vida elegante, ouvira falar em mulheres que traiam maridos, filhos que assassinavam os pais, incestos de irmãos, homens que negociavam com a própria honra... e tudo isso parecia-lhe simples “invenção das gazetas”, romances de sensação que ele ruminava devagar e esquecia depressa. ¾ “É uma grande alma aquele Mendonça!” admiravam os amigos. E era-o. Resolvera como que recomeçar a vida, esquecer o passado, recuperar o tempo perdido, trabalhando como um mouro, entregando-se ao labor com todas suas forças, dia e noite, sem descanso, nas florestas do Pará. E lá se fora barra fora, mais o Casimiro, na proa d’um vapor brasileiro, honrado e obscuro, no meio de dezenas de emigrantes que, como ele, iam fazer pela vida até... sabiam lá!... Antes de embarcar teve cuidados maternais para a filha. Comprou peças de chita, rendas, fitas, bugigangas, fantasias, tudo escolhido, tudo bom, e uma maleta americana. Chamou-a à parte, beijou-a na testa e disse-lhe com os olhos cheios d’água e a voz trêmula “que o papai havia de voltar se Deus quisesse, que ela fosse boa e obediente aos padrinhos, que estudasse, estudasse muito, porque era feio uma mulher ignorante, e, finalmente, que não esquecesse rezar por alma da mamãe...” Maria lembrava-se de tudo. Depois ela ficara sozinha em companhia dos padrinhos. Nesse tempo moravam na rua de Baixo. Tinha-se mudado tudo: morrera-lhe a mãe, morrera-lhe o pai d’uma febre, no alto Purus. O Casimiro, ninguém dava notícia d’ele, nunca mais voltara...O Lourenço, esse, ela não conhecia ¾ andava no sul feito soldado. Estava só, por assim dizer, numa casa alheia. E, contudo, podia dizer que não tinha tristezas, uma ou outra vez é que se punha a pensar no passado, Depois que saíra da Imaculada Conceição a vida não lhe era de todo má. Ora estava no piano, ensaiando trechos de música em voga, ora saía a passear com a Lídia Campelo, de quem era muito amiga, amiga de escola, ora lia romances... Ultimamente a Lídia dera-lhe a ler O Primo Basílio, recomendando muito cuidado: “que era um livro obsceno”, lesse escondido e havia de gostar muito. ¾ “Imagina um sujeito bilontra, uma espécie de José Pereira, sabes? o José Pereira da Província, sempre muito bem vestido, pastinhas, monóculo...” ¾ Não contes, atalhou Maria, tomando o livro ¾ quero eu mesmo ler... Gostaste? ¾ Mas muito! Que linguagem, que observação, que rigor de crítica!... Tem um defeito ¾ é escabroso demais. ¾ Onde foste tu descobrir esta maravilha, criatura? ¾ É da mamãe. Vi-o na estante, peguei, li-o. Maria folheou ao acaso aquela obra prima, disposta a devorá-la. E, com efeito, leu-a de fio a pavio, página por página, linha por linha, palavra por palavra, devagar, demoradamente. Uma noite, o padrinho quase a surpreendeu no quarto, deitada, com o romance aberto, à luz d’uma vela. Porque ela só lia o Primo Basílio à noite, no seu misterioso quartinho no meio da casa pegado à sala de jantar. Que regalo todas aquelas cenas da vida burguesa! Toda aquela complicada história do Paraíso!... A primeira entrevista de Basílio com Luiza causou-lhe uma sensação estranha, uma extraordinária superexcitação nervosa; sentiu um como formigueiro nas pernas, titlações em certas partes do corpo, prurido no bico dos seios púberes; o coração batia-lhe apressado, uma nuvem atravessou-lhe os olhos... Terminou a leitura cansada, como se tivesse acabado de um gozo infinito... E veio-lhe à mente o Zuza; se pudesse ter uma entrevista com o Zuza e fazer de Luiza... Até aquela data só lera romances de José de Alencar, por uma espécie de bairrismo mal entendido, e a Consciência de Heitor Mallot publicado em folhetins na Província. A leitura do Primo Basílio despertou-lhe um interesse extraordinário. ¾ “Aquilo é que é um romance. A gente parece que está vendo as cousas, que está sentindo...” Não compreendera bem certas passagens, pensou em consultar a Lídia; sim a Campelinho devia saber a história da champagne passada num beijo para a boca de Luiza. ¾ Que porcaria! E assim também a tal “sensação nova!” que Basílio ensinara à amante... não podia ser cousa muito asseada... Terminada a leitura do último capítulo, Maria sentiu que não fossem dois volumes, três mesmo, muitos volumes... Gostara imensamente! No dia seguinte, antes de ir à Escola Normal, Maria teve uma entrevista secreta com a amiga no quintal da viúva Campelo, que morava defronte do amanuense. A Campelinho tinha acabado de banhar-se e estava arranjando umas flores para a Nossa Senhora do Oratório. Da saleta de jantar via-se o quintalzinho, cercado d’estacas, estreito e comprido, com ateiras e um renque de manjericões ao fundo, perto da cacimba. Uma pitombeira colossal arrastava os galhos sobre o telhado. O chão úmido da chuva que caíra à noite, porejava uma frescura comunicativa e boa. Lídia estava à fresca, de cabelos soltos sobre a toalha felpuda aberta nos ombros, quando Maria apareceu. ¾ Boa vida, hein? saudou esta. E logo triunfante: ¾ Acabei o Primo Basílio! ¾ Que tal? ¾ Magnífico, sublime! Olha, vem cá... E dando o braço à outra, dirigiu-se para o “banheiro”, uma espécie de arapuca de palha seca de coqueiro, acaçapada, medonha, sem a mínima comodidade e para onde se entrava por uma portinhola de tábua mal segura. ¾ Uma vez ali, sentadas ambas num caixote que fora de sabão, única mobília do “banheiro!, Maria sacou fora o Primo Basílio, cuidadosamente embrulhado numa folha da Província. Queria que a Lídia explicasse uma passagem muito difusa, quase impenetrável à sua inteligência. ¾ É isto, menina, que eu não pude compreender bem. E, abrindo o livro leu: “... e ele (Basílio) quis-lhe ensinar então a verdadeira maneira de beber champagne. Talvez ela não soubesse!... Como é? perguntou Luiza tomando o copo. ¾ Não é com o copo! Horror! Ninguém que se preza bebe champagne por um copo. O copo é bom para o Colares... Tomou um gole de champagne e num beijo passou-o para a boca dela. Luiz riu...”, etc., etc. ¾ Como explicas tu isso? ¾ Tola! fez a Campelinho. Uma coisa tão simples... Toma-se um gole de champagne ou de outro qualquer líquido, junta-se boca à boca, assim... E juntou a ação às palavras. ¾ ... e pronto! bebe-se pela boca um do outro. Tão simples... ¾ E que prazer há nisso? ¾ Sei lá, menina! tornou a outra com um gesto de nojo, cuspindo. Pode lá haver gosto. Depois, as duas curvadas sobre o livro, unidas, coxa a coxa, braço a braço, passaram à “sensação nova”. Lídia apressou-se a dizer que as “mulheres do mundo” é que sabem essas coisas... Quanto a ela não conhecia outra sensação além dos beijos na boca, às escondidas, fora os abracinhos fortes e demorados peito a peito, isto mesmo, com pessoas do coração... Contou então que o seu primeiro namorado, um estudante do Liceu, um fedelho, tentara certa vez... Concluiu baixinho ao ouvido de Maria, com receio de que alguém as estivesse observando. ¾ E consentistes? ¾ Qual! Dei-lhe com um ¾ não ¾ na cara, e o tolo nunca mais me fez festas. Leram ainda alguns trechos do romance, rindo, cochichando, acotovelando-se e depressa a conversação tomou rumo diverso recaindo sobre o Zuza e o Loureiro. ¾ A propósito, perguntou Maria, curiosa, pretendes mesmo casar com o guardalivros? ¾ Porque não? fez a outra erguendo-se. Muito breve tenho homem! Decididamente este não me escapa, tenho-o seguro... Vai todas as noites à nossa casa, como vês, está caidinho. A mamãe já não repara, deixa-se ficar com o d’ela... ¾ Com o d’ela? inquiriu Maria com surpresa, muito admirada Apanhada em flagrante indiscrição, Lídia confessou, muito em segredo, que uma noite encontrara D. Amanda na alcova com o Batista da Feira Nova, um negociante... ¾ !!! Maria tomava sentido, recalcando a curiosidade que lhe espiaçava o espírito. Calouse para não ser indiscreta, e, depois de uma pausa em que folheava maquinalmente o romance: ¾ Dize uma coisa, Lídia: tu amas deveras o Loureiro? ¾ Que pergunta, criatura! Certamente que sim. Ele então tem uma paixa doida por mim! Bebe-me com o olhar e me come de beijos. É na boca, no pescoço, na orelha, nos olhos, na nuca... Nunca vi gostar tanto de beijos! E é preciso que se note, conhecemo-nos há três meses! E o teu Zuza? O namoro de Maria com o filho do coronel Souza Nunes estava em começo. A falar a verdade, ela gostava de Zuza e casaria se ele quisesse, mas até aquela data ainda não se tinham comunicado. Conheciam-se ¾ nada mais. Nessas confabulações íntimas com a amiga, Maria, que começava a compreender a vida tal como ela é na sociedade, fingia-se ingênua, tolinha, expediente que usava sempre que desejava saber a opinião de Lídia sobre isto ou sobre aquilo. A princípio evitava conversar em amores, corando a qualquer palavra mais livre ou a qualquer fato menos sérios que lhe contavam as colegas de estudo. Agora, porém, ouvia tudo com interesse, procurando inteirar-se dos acontecimentos, sem acanhamento, sem receio. Pouco a pouco foi perdendo antigos retraimentos que trouxera da Imaculada Conceição. A convivência com as outras normalistas transformara-lhe os hábitos e as idéias. A Lídia principalmente era a sua confidente mais chegada. Quase sempre estavam juntas em casa, na Escola, nos passeios, em toda parte onde se encontravam, de braços dados, aos cochichos. Havia entre elas um comércio contínuo de carinhos, de afagos e de segredos. Gabavam-se mutuamente, tinham quase os mesmos hábitos, vestiam-se pelos mesmos moldes, como duas irmãs. Lídia Campelo tinha então vinte anos. era uma rapariga alta, fausse-maigree e bem feita de corpo. A razão por que ainda não se casara ninguém ignorava, toda a gente sabia ¾ é que a filha da viúva Campelo, por via do atavismo, puxava à mãe. Não havia na cidade rapazola mais ou menos elegante, caixeiro de loja de modas que não se gabasse de a ter beijado. Tinha fama de grande namoradeira, exímia em negócios de amor. O próprio João da Mata não gostava muito daquela amizade com Maria. Mais de uma vez dissera a D. Terezinha as suas desconfianças, os seus escrúpulos, os seus receios com relação a essa intimidade da afilhada com a Lídia: ¾ “Não consentisse a rapariga ir à casa da outra. Antes prevenir que curar”. Havia mesmo quem ousasse afirmar que a Campelinho “já não era moça” Da viúva diziam-se horrores: “aquilo era casa aberta...” Tantos fossem, quantos ela recebia com um risinho se vergonha, arregaçando os beiços. A filha seguia o mesmo caminho. O certo, porém, é que o procedimento de D. Amanda não escandalizava a sociedade. Vivia na sua modesta casinha do Trilho, muito concentrada, sem amigas, num respeitoso isolamento, saindo à rua poucas vezes na companhia da filha, não freqüentando os bailes nem o Passeio Público, e muito menos as igrejas: vivia a seu modo, comodamente, do minguado montepio de seu defunto marido. ¾ “Uma mulher honesta!” protestava o Loureiro. Infâmias era o que diziam da pobre senhora, infâmias que caiam por terra, ante o indefectível procedimento de Da. Amanda! E acrescentava, convicto: ¾ Tal mãe, tal flha! 3 O velho mostrador da sala de jantar deu meia noite, uma hora, e Maria do Carmo ainda estava acordada, a pensar no Zuza, arquitetando frases para responder ao futuro bacharel em ciências jurídicas. Porque o estudante, como sugeriu o amanuense, achara meio de comunicar-se com a rapariga, atirando-lhe uma cartinha por baixo da mesa, quando jogavam o víspora. Era a primeira vez que Zuza lhe escrevia numa letra caligráfica, de mulher, miudinha, igual e redonda. Ao apanhar o envelope, com um movimento disfarçado, Maria sentiu o sangue afluir todo para o rosto, como se todo o mundo a tivesse surpreendido em flagrante às barbas do padrinho. Ela mesmo, depois, admirou sua coragem, ela que nunca desrespeitara o amanuense, temendo-o como a seu pai. Não pôde reprimir um susto, ficou fria, com os olhos baixos, sem prestar atenção ao jogo. Pareceu-lhe ver através dos óculos escuros do padrinho um lampejo de cólera concentrada. Tremia com o papel na mão, sem saber o que fizesse. Mas o víspora continuava animado e ela pode cautelosamente guardar o objeto querido, pretextando sede e levantado-se para beber água no interior da casa. Guardou-o nem guardado, no fundo de uma caixinha de fitas, sem ler, e voltou imediatamente ao seu lugar com um alívio, muito lépida. Quando o amanuense entro a esbravejar contra o Zuza, esmurrando a mesa, batendo portas, colérico, medonho, Maria ficou lívida! Tá, tá, tá, tá, ia tudo águas abaixo, o seu crime ia ser descoberto, não havia fugir. Estava irremediavelmente perdida! Enfiou pelo corredor com as mãos na cabeça, aflita. Decididamente o padrinho ia expulsá-la de casa... seu primeiro ímpeto foi voltar, atirar-se aos pés de João da Mata e pedir-lhe, suplicar-lhe por amor de Deus, por quem era, que a perdoasse, que fora uma fraqueza, uma criancice... Isto, porém, seria complicar a situação, confessar-se culpada, entregar-se à cólera do amanuense. E ao sentar-se à mesa de jantar foi acometida por uma convulsão de choro mudo, com a cabeça entre as mãos, cotovelos fincados na mesa, olhos fixos na luz moribunda da velinha de carnaúba. O padrinho berrou, jurou acabar com a “bandalheira”, disse horrores do Zuza, e, afinal, que felicidade para a rapariga! foi se deitar com a mulher. Maria suspirou forte como se lhe tivessem tirado um grande peso do coração; e agora, só no seu quarto, lia e relia a carta do acadêmico, muito à fresca, sentindo um bem estar na sua rede de varandas, branca e sarapintada de encarnado. Fazia calor. Maria costumava dormir com a vela acesa, numa palmatória de flandres. Noutro quarto, defronte, ressonava a cozinheira, uma retirante velha, chamada Mariana, e, no corredor, o Sultão abanava as orelhas sacudindo as pulgas. De quando em quando havia um barulho d’asas na sala de jantar: era a sabiá debatendo-se na gaiola, assombrada. Agora, sim, Maria estava só, completamente só, podia ler à vontade, uma, duas, três... quantas vezes quisesse, a carta do Zuza. Nada como a noite para os namorados! Era só quando ela gozava a sua liberdade, à noite, no seu quarto, em camisa, fazendo o que bem entendesse... “Minha senhora”, dizia o futuro bacharel muito respeitoso. “Tomo a liberdade de me dirigir a V. Excia. confiado na sua infinita bondade, nessa bondade que se revela em seus esplêndidos olhos de madona e na brandura meiga de sua voz cujo timbre faz-me lembrar toda a melodia d’uma harpa eólia tangida por mãos de serafins... Tomo esta liberdade para dizer-lhe simplesmente que a amo! e que este amor só podia ser inspirado pela incomparável luz do seu olhas e pela música sentimental de sua voz... Amo-a deveras... Só me resta esperar que V. Excia. aceite este amor como tributo sincero de um coração avassalado por sua beleza encantadora, e então serei o mais feliz dos homens. De V. Excia. adm. e escravo José de Souza Nunes Isto numa letrinha microscópica, indecifrável quase. Maria esteve meditando muito tempo sobre a resposta que devia dar ao estudante, com os olhos na parede onde esbatia a sombra da rede ao comprido. Para não responder ficava-lhe mal, era uma falta de consideração. Devia responder fosse o que fosse. E, nessa dúvida, lia e relia a carta numa inquietação que lhe tirava o sono. Realmente! começava cedo a sua carreira amorosa e começava com um aspirante a bacharel! Seria verdade aquilo ou o rapaz queria divertir-se à sua custa? O Zuza parecia-lhe um bom moço, muito bem educado, incapaz de seduzir uma rapariga honesta, de costumes irrepreensíveis, refratária a pagodeiras. Às vezes, porém, tinha cara de pedante com os seus óculos d’ouro, com a sua flor na botoeira, dizendo que dê, dê-me você isto, faça você aquilo, ora sebo! Maria implicava com certos modos do rapaz. É verdade que tinha fortuna, era filho d’um homem de bem, d’um coronel... Mas.... E lá vinha o mas e a dúvida não se desfazia. Imaginava-se ao lado do Zuza, numa casinha muito bem mobiliada, com cortinas de cretone na sala de jantar e um viveiro de pássaros, ¾ ele, de chambre e gorro, sentado na escrivaninha a fazer versos, feliz, despreocupado; ela com um robe-de-chambre todo branco, fitinha na frente d’alto a baixo, cabelo solto, a ler o último romance à moda, recostada na espreguiçadeira, sem filhos... Que vida! Ao mesmo tempo lembrava-se de que o Zuza podia lhe sair um marido muito besta e casmurro, cuidando somente da papelada de autos e requerimentos, um advogado com escritório e tabuleta à porta para fazer... nada! Ela, por outro lado, a cuidar dos filhos, muito besuntada, da sala para a cozinha numa azáfama de burguesinha reles. Boas! E não assentava idéias, a mente que nem um rodopio, fantasiando situações disparatadas, coisas impossíveis. Leu outra vez a carta, analisando-a palavra por palavra, repetindo as frases a meia voz. Aquela linguagem alambicada e dengosa, quis-lhe parecer tosca demais para ter saído do punho d’um estudante de direito. ¾ Que idiota! pensava; comparar seus olhos com olhos de madona e sua voz com uma harpa eólia! ¾ E, num arrebatamento, levantou-se e guardou a carta na caixinha de fitas. “¾ Qual olhos de madona!””¾ Qual harpa eólia, qual nada seu besta!” Daí a pouco também ressonava com a respiração leve como uma carícia. O dia seguinte era domingo. Todos em casa do amanuense acordaram muito bem dispostos. Havia missa cantada na Sé. Espocavam foguetes e replicavam sinos. Meninos apregoavam numa voz cantada a Matraca a 40 réis! ¾ um jornaleco imundo que falava da vida alheia e que por duas vezes trouxera sujidades contra João da Mata. Maria do Carmo quis ver o que dizia a Matraca, apesar do padrinho ter proibido expressamente a entrada do pasquim em sua casa. Ali só lhe entrava a Província, dissera ele; isso mesmo porque o José Pereira não exigia pagamento de assinatura. O mais era uma súcia de papéis nojentos que só serviam para ... ¾ Maria deu um pulo até a casa da viúva Campelo e aí pode comprar a Matraca. O padrinho estava no banho. ¾ O Namoro do Trilho de Ferro! gritavam os vendedores. Maria teve um palpite. Certo aquilo era com ela. Que felicidade o padrinho estar no banho! Pagou ao menino pedindo-lhe pelo amor de Deus que não gritasse mais o Namoro do Trilho de Ferro. Abriu o jornal ansiosa. Que horror! Havia com efeito uma piada sobre ela e o Zuza. Mais que depressa correu a mostrar a Lídia. ¾ Estás vendo, menina? Lê isto aqui. E apontou com o dedo. Eram uns versos de pé de viola que contavam o recente namoro do Zuza: A normalista do Trilho ex-irmã de caridade está caída pelo filho d’um titular da cidade O rapazola é galante e usa flor na botoeira D. Juan feito estudante a namorar uma freira... Eis porque, caros leitores, eu digo como o Bahia: ¾ Falem baixo, minhas flores Senão... a chubata chia!... .............................................................................................................................. Lídia achou graça na versalhada. Ela também já saíra na Matraca. ¾ Um desaforo, não achas? perguntou a normalista indignada. ¾ Que se há de fazer, minha filha? Ninguém está livre destas coisas no Ceará moleque. Não se pode conversar com um rapaz, porque não faltam alcoviteiros. Olha, eu aposto em como isto que aqui está saiu da cachola do Guedes. ¾ Que Guedes? ¾ Ó mulher, o Guedes, um do Correio... Dizem até que está feito redator principal da Matraca. ¾ E que mal fiz eu a este Guedes que nem sequer me conhece? ¾ Eu te digo. O Guedes andou a querer me namorar. Chegou a escrever-me uma carta muito errada e piegas, pedindo uma entrevista... Que fiz eu? Ri-me muito das asneiras do bicho, trocei-o a valer e mandei-o pastar bem... Ora o Guedes sabe que nós somos muito amigas e talvez queira vingar-se indiretamente. Aí está o que é menina. Manda-o plantar couves e rasga essa baboseira, que isto não vale nada. ¾ Não val’ nada, mas toda a gente lê e acredita, é o que é. ¾ Sabem lá qual é a “normalista do Trilho!” A propósito Maria contou a ocorrência da véspera, a carta do Zuza, a cólera do padrinho, muito vexada. Estavam à janela, em pé, frente a frente, D. Amanda andava para os fundos da casa a mourejar. No fim da rua, do lado da Estrada de Ferro, uma locomotiva fazia manobras, chiando, a deitar vapor fora. Chegou até a frente da casa da viúva, soltou um guincho rápido e voltou estralejando sobre os trilhos. ... E os sinos a repicarem na Sé e girândolas de foguetes estourando no ar. Chegavam espaçados sons de música que o vento trazia. ¾ Não sei si deva responder, disse Maria dando a carta à amiga. Ele com certeza vem hoje para o víspora... ¾ De forma que tens um compromisso a satisfazer... ¾ Compromisso? ¾ Sim, porque quem cala consente. Aceitaste a carta, agora é responder. Diz-lhe que o amas também e que desde já o consideras teu noivo. Nisso de amor quanto mais depressa melhor. Eu pelo menos o entendo assim. Queres que eu faço a minuta? ¾ Eu, escrever para um homem? ¾ Tola! Que crime há nisso? Eles não escrevem para nós? Olha, tolinha, não sejas criança. O homem foi feito para a mulher e a mulher para o homem. ¾ Mas... ¾ Não tem mas nem meio mas. Decide-te a namorar o rapaz e deixa-te de meninices. Tu é que tens a lucrar. O Zuza tem fortuna, está a formar-se e com mais um ano pode ser teu marido e fazer-te muito feliz. O que é que esperas de teu padrinho, um sujeito estúpido e usurário como um urso? Já não tens pai nem mãe, e ele já fala em tirar-te da Escola. É muito homem para botar-te a cozinhar. Não sejas tola!... Lídia interrompeu-se para cumprimentar um cavaleiro que passava. Era o Zuza montado numa alazão reluzente ao sol, de cauda aparada e arreios de prata. O estudante trajava flanela e meias botas de polimento, chapéu castor desabado, uma grande rosa branca no peito, luva, rebenque, muito vistoso com seus óculos de ouro e seu bigodinho retorcido para cima. Fazia o costumado passeio matinal e lembrara-se de passar à porta do amanuense. Cumprimentou rasgadamente a Campelinho. Maria ocultou-se envergonhada atrás do postigo olhando por entre as gretas. ¾ Adorável! fez Lídia. E tu ainda queres mais, hein, minha tola? Como sentia não ser ela a querida do Zuza! Ambos com vinte anos de idade, encarando a vida por um mesmo prisma: passeios a cavalo, toilletes de verão e d’inverno, como nos figurinos, com chácara no Benfica, um phaetom para virem à cidade, vacas de leite... um maná!... Tinha o seu Loureiro, mas o guarda-livros parecia-lhe muito casmurro, muito indiferente a essas cousas de bom gosto, aos requintes da vida aristocrática que ela ambicionava tanto. Queria-o mais por um capricho, porque não encontrava outro homem em melhores condições que desejasse casar com ela. Sabia de sua má fama e agarrava-se ao Loureiro como a uma tábua de salvação. Tudo menos ficar para tia. Verdade, verdade, o Loureiro não era um sujeito ignorante pobre que lhe fizesse vergonha; mas não tinha certo aprumo, certa elegância ao trajar; aferrava-se à calça e ao colete branco, invariavelmente, e ninguém o demovia daquele velho hábito. Entretanto possuía seu cabedal em casas e apólices da dívida pública. Ao passo que o outro, o Zuza, sabia empregar seu dinheiro divertindo-se, trajando bem, passeando como um príncipe. Uma simples questão de temperamento. ¾ Atira-te minha tola. Aproveita enquanto o Braz é tesoureiro... ¾ Que queres tu que eu faça? ¾ Escreve logo essa carta e faze com eu: marca o dia do casamento. Assim é que se faz. Quem pensa não casa, lá diz o ditado, e é muito certo. A voz de D. Terezinha chamou Maria do outro lado da rua. Era hora do almoço. O amanuense estava apressado porque tinha de ir à praia ao embarque do conselheiro Castro e Silva que seguia para o Rio de Janeiro. João da Mata almoçou às carreiras, como quem vai tomar o trem, e abalou, enfiando-se no inseparável e já velho chapéu chile. Seriam onze horas pouco mais ou menos. Um mormação de fornalha abafava os transeuntes que desciam e subiam a rua de Baixo a pé, esbaforidos. No porto havia grande lufa-lufa de gente que embarcava e desembarcava simultaneamente, bracejando, falando alto. A maré d’enchente crispada pela ventania de sudoeste, num contínuo vaivém, alagava o areal seco e faiscante. Muita gente ao embarque do Conselheiro. Curiosos de todas as classes, trabalhadores aduaneiros de jaqueta azul, guardas d’Alfândega e oficiais de descarga com ar autoritário, de fardeta e boné, marinheiros da Capitania, confundiam-se numa promiscuidade interessante. Jangadeiros arregaçados até aos joelhos, chapéu de palha de carnaúba, mostrando o peito robusto e cabeludo, iam armando a vela às jangadas. A cada fluxo do mar havia gritos e assobios. Um alvoroço! Jangadas iam e vinham em direção ao nacional que tombava como um ébrio aproado ao vento. Apenas quatro navios mercantes fundeados e uma canhoneira argentina. Reluzia em caracteres garrafais, pintadinhos de fresco na popa d’uma barca italiana ¾ “Civita Vecchia”. O vapor apitou pedindo mala. Era uma maçada ir à bordo com a maré cheia e um vento como aquele. Demais o sol estava de rachar. Um carro parou à porta da Escola de Aprendizes de Marinheiros: era o Conselheiro, metido numa sobrecasaca muito comprida, cheio de atenções. Já o esperavam os amigos receosos de que o vapor suspendesse sem “o homem”. A música da Polícia, formada à porta do quartel, gaguejou o Hino Nacional e o Conselheiro, cheio de si, cortejando à direita e à esquerda, muito ancho, seguiu a tomar o escaler d’Alfândega. ¾ Pílulas! fez João da Mata limpando a testa. Não vale a pena a gente se sacrificar com um calor d’este! Lá adiante encontrou o Loureiro que vinha de despachar uma fatura no Trapiche, muito apressado com sua calça branca lustrosa de gome sem uma dobra. ¾ Por ali? ¾ É verdade, tinha ido a negócio. ¾ Que há de novo? tornou o Loureiro. ¾ Nada. Vou aqui ao embarque do Conselheiro. ¾ Hás de ganhar muito com isto... ¾ Que queres, filho? A política, a política... ¾ Qual política, homem! Com um solão deste não havia quem me fizesse ir a embarque de filho d mãe nenhum. Uma lufada de poeira redemoinhou a dois passos dos interlocutores derrubando bruscamente o chapéu da amanuense, pondo-lhe a calava à mostra. ¾ Com os diabos! vociferou João da Mata abaixando-se mais que depressa para apanhar seu chile que rodava sobre as abas numa disparada vertiginosa por ali fora. ¾ Fiau! Fiau! Pega! pega! prorrompeu a garotada numa vaia estrepitosa de gritos e assobios. ¾ Canalha! resmungava o homem, enquanto o Loureiro escafedia-se daquela situação grotesca, sacudindo com a ponta dos dedos a poeira do paletó, muito calmo. O conselheiro tinha chegado ao Trapiche com o seu préstito oficioso de amigos. O amanuense encavacou deveras “¾ Diabos levem conselheiros e tudo!” dizia ele mal humorado, piscando os olhos desesperadamente por trás dos óculos escuros, cobrindo a calva com um lenço para não constipar. E dali mesmo voltou à casa, maldizendo-se por haver deixado os seus cômodos por uma estopada inútil d’aquela. Dava meio-dia. À porta do Quartel de Linha um soldado soprava a todo pulmão num corneta muito bem areada. João da Mata caminhava devagar, automático, como quem vai com uma idéia fixa. Que seca! Podia muito bem estar em casa àquela hora, metido na sua camisola fresca, de papo para o ar na rede, ao conchego morno da afilhada, saboreando-lhe o cheiro bom das carnes; entretanto ali vinha ofegante como um boi e suado como dois burros, todo emporcalhado da poeira, furioso. Não lhe contassem para outra. Já tinha pensado mesmo em abandonar para sempre a política. Pílulas! Mal lhe chegava o tempo para pensar na Maria do Carmo, naquela deliciosa boquinha fresca e rosada, boa para a gente levar a vida inteira a beijar... O Zuza tinha lhe acordado o instinto; receava agora que a menina se deixasse levar pelas gabolices do estudante e então lá se iam os seus belos projetos águas abaixo. Nunca se preocupara tanto com Maria do Carmo. Desde que o Zuza começou a freqüentar a rua do Trilho não lhe saia mais da cabeça a afilhada. A própria D. Terezinha por vezes tinha estranhado seus modos para com a menina. Achava a Teté uma mulher gasta: queria uma rapariga nova e fresca, cheirando a leite, sem pecados torpes, a quem ele pudesse ensinar certos segredos do amor, ocultamente, sem que ninguém soubesse... Estava farto do “amor conjugal”. Nunca experimentara o contato aveludado do corpo de uma mulher educada, virgem das impurezas do século. E quem melhor do que Maria do Carmo, uma normalista exemplar e recatada, poderia satisfazer os caprichos de seu temperamento impetuoso? Era sua afilhada, mas, adeus! não havia ente ele e a menina o menor grau de consangüinidade, portanto, não podia haver crime nas suas intenções... Si Maria houvesse de cair nas garras de algum bacharelete safado, fosse ele, João da Mata, o primeiro a abrir caminho. Demais, argumentava de si para si, podia arranjar tudo sem que ninguém soubesse. O segredo ficaria entre ele e a afilhada, inviolável como a sepultura de um santo... E ia parafusando um meio simples e natural de conquistar o coração de Maria. ¾ Toda a questão era de oportunidade. Àquela hora a normalista arrastava ao piano a valsa Minha esperança, cuja cadência punha uma monotonia irritante na quietação morna da rua do Trilho. 4 O futuro bacharel em leis, ou simplesmente o Zuza, como era conhecido em Fortaleza o filho do coronel Souza Nunes, passava uma vida regalada, usufruindo largamente a fortuna do pai avaliada em cerca e cem contos de réis. O coronel franqueava a burra ao filho com uma generosidade verdadeiramente paternal. Queria-o assim mesmo com todas as suas manias aristocráticas e afidalgadas, com os seus gestos elegantes, arrostando grandeza e bom gosto, tal qual o presidente da província de quem se dizia amigo. ¾ “Cada qual com seu igual”, doutrinava o coronel. O que não admitia é que o filho se metesse com gente de laia ruim, que ele, coronel, nunca descera de sua dignidade para tirar o chapéu ou apertar a mão a indivíduos que não tivessem uma posição social definida. Aprendera isso em pequeno com o pai, o finado desembargador Souza Nunes, homem de costumes severos que sabia dar aos filhos uma educação esmerada, quase principesca. O Zuza, dizia ele, não era mais do que uma vergôntea digna desse belo tronco genealógico dos legítimos Souza Nunes, tão nobres quanto respeitados no Ceará. Era um orgulho para o coronel ver o filho passar a cavalo com o presidente, alvo de olhar bisbilhoteiro do mulherio elegante em trajes de montaria, roupa de flanela, botas, chapéu mole desabado. O Zuza dava-se muito com o presidente, que também pertencia a uma alta linhagem de fidalgos de São Paulo e fora educado na Europa; um rapagão alegre, amador de cavalos de raça, ilustrado e amigo de mulheres. As revelações da Matraca sobre o namoro do Trilho de Ferro deram que falar à cidade inteira. Nas rodas de calçada o fato propalou-se imediatamente à guisa d’escândalo. A princípio ninguém sabia ao certo qual era a tal “normalista ex-irmã de caridade”. Que havia de ser a Lídia Campelo afirmavam uns. Mas a Campelinho nunca fora religiosa, quanto mais freira. Afinal sempre se veio a verdade e espalhou-se logo que a afilhada de João da Mata estava com um namoro pulha mais o estudante. Não era a Lídia mas dava no mesmo, dizia-se: ambas estudavam na mesma escola, eram dignas uma da outra. E toda gente dizia sua pilhéria, atirava seu conceito à boca pequena, com risadinhas sublinhadas ¾ pilhérias e conceitos que chegavam até aos ouvidos do coronel Souza Nunes, percucientes, incisivos como ferroadas de maribondos. “¾ Não era possível, pensava ele. O Zuza era incapaz de semelhante criancice; um rapaz de certa categoria não se deixa iludir por uma simples normalista sem eira nem beira, uma rapariga sem juízo, filha de pais incógnitos, educada em casa d’amanuense reles. Quem, o Zuza? Pois não viam logo a monstruosidade do absurdo? Era uma calúnia levantada a seu filho. Que esta! Não faltava mais nada senão ver o nome do rapaz em letra redonda estampado na Matraca, um jornaleco imundo como uma cloaca!” Morava na rua Formosa, numa casa assobradada e vistosa com frontaria d’azulejos, varandas, e dois ananazes de louça no alto da cimalha, à velha moda portuguesa. O coronel gostava de passar bem, de “fazer figura”, e, até certo ponto, revelava uma natureza delicada que não era indiferente ao aspecto exterior das coisas; sabia mesmo aquilatar objetos de arte, escolher bric-à-bracs. Ninguém o excedia. Era o que se pode chamar “um homem de bons costumes”, um pouco orgulhosos e d’uma susceptibilidade à toda a prova em matéria de dignidade pessoal: irrepreensível e caprichoso na intimidade doméstica como na vida pública. Fazia gosto a sala de visitas, forrada a papel-veludo, claro com ramagens cinzenta, mobiliada com inexcedível graça, sem ostentação, sem luxo, mas onde se notava logo certa correção no arranjo dos móveis, na colocação dos quadros, na limpidez dos cristais. Ao fundo, entre as duas portas altas e esguias que diziam para o interior da casa, ficava o piano, um Pleyel novo, muito lustroso, sempre mudo, sobre o qual assentavam estatuetas de biscuit. À direita, descansando sobre grandes pregos dourados, o retrato a óleo do coronel com sua barba em ponta, olhava para o piano, muito sério, em simetria com o da a esposa. O corredor da entrada separava a sala de visitas do gabinete do Zuza, que ficava à esquerda. ¾ “Não faltava mais nada!” repetia mentalmente o coronel estendido na espreguiçadeira de lona, pernas trançadas, defronte da varanda, aparando as unhas. Em casa usava calças brancas , paletó de seda amarelo e sapatos de entrada baixa com flores no rosto de lã. Era hora do almoço, o Zuza não devia tardar. Ia falar-lhe decididamente; aquela história do namoro não lhe cheirava bem. Talvez o filho tivesse mesmo a estroinice pueril de desfrutar a rapariga. Daí a pouco entrou o estudante Vinha muito jovial, cantarolando o Bocácio: Si acaso algum de nós tiver por sina atróz mulher que se não cale que a toda hora fale... E repetia muito alegre: ¾ Trá, lá, lá, lá... ¾ Vens, muito alegre, hein, meu filho? interrompeu o coronel da sala. Zuza tinha entrado para o gabinete e começava a despir-se ¾ Ah! meu pai estava aí? E logo... ¾ Trago uma novidade. ¾ Vejamos... ¾ Vou a Baturité com o presidente. ¾ Ainda bem, ainda bem, fez o coronel num tom desusado, sem erguer a cabeça. Como ainda bem? inquiriu o estudante aproximando-se. Apenas trocava o fraque por um paletó de brim branco. ¾ Porque... porque... Eu precisava mesmo falar-te. Ora dize uma coisa: leste o último número da Matraca? Zuza franziu o sobrolhos desconfiado, com um risinho seco. ¾ “Não tinha lido a Matraca, não. Um jornaleco imoral que andava por aí? Não, não tinha lido. Por que? ¾ Que história é uma de namoro no Trilho de Ferros? Fala-se em ti, no teu nome, numa normalista... Cresceu o assombro do rapaz. ¾ Eu!?... Meu pai está gracejando... ¾ Juro-te que não. Mas olha, quem diz é a Matraca e alguém afirmou-o particularmente que a rua está cheia... ¾ E esta! fez o Zuza cruzando os braços admirado. Pois o meu pai não vê logo que isto é um gracejo de mau gosto, um canalhismo de província? ¾ O que é certo é que não te fica bem a brincadeira. ¾ Absolutamente não, e eu preciso saber quem é o autor do pasquim... A criada anunciou que o almoço estava na mesa. ¾ ... Sim, continuou Zuza, vou informar-me, preciso saber... ¾ Eis aí porque fazes bem indo passar uns dias em Baturité. E polindo as unhas, o coronel dirigiu-se para a sala de jantar, grave como um apóstolo do bem, enquanto o filho ia desabafando suas cóleras contra a sociedade cearense. ¾ “Uma sociedade que lê a Matraca e gosta!” No outro dia, com efeito, o futuro bacharel seguia no expresso para Baturité em companhia do Dr. Castro, presidente do Ceará. Lia-se na Província: “Segue amanhã, pela manhã, com destino a Baturité, a fim de visitar a importante fábrica Proença, O Exmo. Sr. Presidente da Província. Acompanham o ilustre amigo do Ceará os nossos distintos amigos e correligionários Srs. Dr. José de Souza Nunes e José Pereira nosso colega de redação. S. Excia. pretende demorar-se alguns dias naquela cidade”. Maria do Carmo leu com surpresa a notícia da Província e não pode conter um gesto de despeito. Era desse modo que o Sr. Zuza estava doido por ela! Ir-se embora sem ao menos lhe comunicar! Nem sequer deixava um bilhetinho, um cartão com duas palavras, duas somente! Que custava escrever num pedaço de papel ¾ Vou e volto ? Zangara-se deveras, atirando a folha para um lado, trombuda, furiosa. Estava tudo acabado, não falaria mais no Zuza, não lhe escrevia; que fosse bugiar! Moças havia muitas no Ceará: que procurasse uma lá a seu jeito e ela por sua vez trataria de arranjar noivo, mas noivo para casar, noivo sério, noivo de bem! Entretanto, Maria não tinha feito reparo na despedida do Zuza, um soneto endecassílabo, com sílabas de mais num versos e de menos noutros. Adeus ¾ era o título e vinha na terceira página da Província. Depois é que viu, porque a Lídia mostrou-lhe. ¾ Já estavas fazendo mau juízo do rapaz, hein? disse a Campelinho. ¾ Certamente, confirmou Maria. Nem ao menos teve a lembrança de me avisar! ¾ Como querias tu que ele avisasse se ainda não lhe respondeste a carta? Maria esteve pensando com o jornal na mão, lendo e relendo os versos, e, meio arrufada, meio risonha: ¾ Embora! O dever dele era me participar. O homem é que faz tudo... E na manhã seguinte, muito cedo, pulou da rede e foi no bico dos pés, embrulhada no lençol, ver passar o trem através da vidraça. A locomotiva disparou numa rapidez crescente, soltando rolos de fumo e fagulhas que pareciam uma irrisão aos olhos da normalista. A sineta, num badalar contínuo, acordava os moradores do Trilho, àquela hora, ainda nos lençóis. Maria viu passar a enfiada de vagões estralejando sobre os trilhos e esteve muito tempo em pé ouvindo sino longínquo da locomotiva, que ia, como uma coisa doida, sertão a dentro! Começou então a sentir-se só, teve vontade de abrir num choro histérico como si lhe houvessem feito uma grande injustiça. Voltou para a tepidez do seu quarto e lá deixouse ficar até sair o sol, com um peso no coração, encolhida na rede, sem ânimo para levantarse, desejando um quer que era vago e extraordinário que lhe punha arrepios intermitentes na pele. Que bom se o Zuza estivesse ali com ela, na mesma rede, corpo a corpo, aquecendo-a com seu calor... Aquela hora onde estaria ele? Talvez em Arronches...; não, já devia ter chegado a Mondubi... Imaginava-o metido num comprido guarda-pó de brim pardo, tomando leite fresco na estação ao lado do presidente, tirando do bolso da calça um maço de notas de banco, muito amável, rindo... Depois o trem apitava. Havia um movimento rápido de gente que embarcava às pressas, e... lá ia outra vez por aqueles descampados fora, caminho da serra que se via ao longe, rente com as nuvens, como aquelas cadeias colossais de montanhas onde há gelos eternos e que na geografia tem o nome de Alpes... De repente, lembrou-se: ¾ “E se o trem desencarilhasse?...” Ia adormecendo quando lhe veio à mente esta idéia. Sentou-se na rede, esfregando os olhos como se tivesse acordado de um pesadelo. “¾ Se o trem desencarilhasse o presidente morreria também...” ... Teve um consolo. Não, o trem havia de chegar em paz com todos os passageiros. Espreguiçou-se toda com estalinhos de juntas e, maquinalmente, deixou escapar um ¾ ai! ai! ¾ muito lânguido e prolongado. Lá fora recomeçava a labuta cotidiana. A criada puxava água da cacimba; o cargueiro d’água potável enchia os potes; cegos cantavam na rua uma lenga-lenga maçante, pedindo esmola numa voz chorada ; vendedores ambulantes ofereciam cajus... Havia um ruído matinal de cidade grande que desperta. Nesse dia Maria do Carmo não foi à Escola Normal: que estava incomodada com uma enxaqueca muito forte. João da Mata tomou-lhe o pulso, mandou que mostrasse a língua, muito solícito, com cuidados de pais: ¾ “Não era nada, uma defluxeira.” E largou-se para a Repartição, palitando os dentes. A Lídia, essa tinha liberdade plena em casa da mãe, ia à escola quando queria e, se lhe convinha, lá não punha os pés. Deixou-se ficar também com a Maria. ¾ Tinham muito que conversar. ¾ Que saudades, hein? começou a Campelinho. Estavam sós, na sala do amanuense. D. Terezinha tinha ido à casa da viúva mostrar um corte de fazenda que o Janjão lhe comprara. Maria, derreada na cadeira de balanço, fechou o volume que estivera lendo, e com um bocejo: ¾ “É verdade, o diabo do rapaz não lhe saía da lembrança. Nem um castigo... Mas estava muito desgostada da vida, já andavam inventando histórias, calúnias”. ¾ Não te importes, minha tola. Ora! ora! ora!... Isso a gente faz ouvidos de mercador e vai para adiante. A vida é esta, e tola é quem se ilude. ¾ Não, Lídia, as coisas não são como tu pensas; No Ceará basta um rapaz ir duas vezes à casa de uma moça para que se diga logo que o namoro está feio, que é um escândalo, e nós é que somos prejudicadas. “Ah! porque já não é mais moça, porque é uma sem-vergonha”. é o que dizem... ¾ Pois olha, esta aqui há-de namorar até não poder mais. Queres que te diga uma coisa? Isso de casamento é uma cantilena... E, num assomo de despeito, a Campelinho lembrou mulheres casadas que tinham amantes e que viviam muito bem na sociedade; citou a mulher do Dr. Mendes, juiz municipal. Estava ali uma que fora encontrada aos beijos com José Pereira da Província, em pleno Passeio Público! Quem não sabia? Ninguém! Entretanto freqüentava as melhores famílias da capital ¾ era a Sra. D. Amélia! Queria outro exemplo! E abaixando a voz: ¾ Aqui mesmo em casa o tens, minha tola. Ninguém ignora neste mundo que D. Terezinha é amigada com teu padrinho. E tudo é assim, querida Maria. A canalha fala de invejam invejosos é o que não faltam nesta terra, Maria prestava atenção, silenciosa. ¾ Então, disse ela por fim, achas que devo continuar o namoro? ¾ Que dúvida, mulher! Eu é porque já tenho o meu. Assim mesmo... Maria sentiu uma pontinha de ciúmes roçar-lhe o coração. Disfarçou com um risinho seco. ¾ Eu estive pensando, disse, caso o Zuza me pregue um taboca... ¾ Nada mais simples: prega-lhe outra casando com o primeiro bilontra que aparecer. Amor com amor se paga... ¾ Não, falemos sério... ¾ Que queres tu que se diga? Eu cá não costumo enganar ninguém. Sou muito franca ¾ pão, pão, queijo, queijo... ¾ Dão licença? disse uma voz fora, na rua. Era Da. Amélia, mulher do Dr. Mendes. Maria foi abrir a rótula. ¾ Oh! por ali?... ¾ É verdade, meninas, venho morta de calor. Uf! que solão, que solão! Lídia, muito expedita e pronta, ajudou a desatar o véu e tirar as luvas. Como estava a Teté? perguntou Da. Amélia muito afogueada, tirando o chapéu defronte do espelho. Da. Amanda ia bem? E sentando-se: ¾ Já sei que não foram hoje à escola... Boa vida! Não há como ser moça. Pois, meninas, venho duma seca. Fui ali à casa da costureira experimentar o meu vestido de cetim... ¾ Isso é que é boa vida, disse a Campelinho: passeios, vestidos... Maria tinha ido chamar a madrinha, que era um pulo. ¾ Qual passeios! Quem tem filhos pode lá passear? D. Terezinha não se fez esperar. Entrou sacudindo os quadris, bamboleando-se toda. ¾ Ora viva! disse atirando-se nos braços de Da. Amélia. Como vai, como tem passado? Que milagre! Agora todas falavam a um tempo, rindo, gabando-se. ¾ Sabem quem esteve ontem conosco? O Zuza. Diz que volta sábado de Baturité. Gabou muito a Maria: que é uma cearense distinta, muito prendada, chique a valer, um horror! Ao que parece temos casório... ¾ Qual casório! fez Maria com um rubor nas faces. Invenções... ¾ Não havia de ser contra minha vontade, disse D. Terezinha . Seria até uma felicidade. Deus o permita... Falaram de modas. D. Terezinha alardeou o seu rico vestido de cetim, que a viúva Campelo achara de muito bom gosto. D. Amélia queixou-se do marido: um homem sem gosto, um mosca-morta, muito desleixado, com venetas de doido. Ela até já se aborrecia, porque o Mendes tinha o mau costume de beber aguardente; às vezes chegava tropeçando, com a língua pegada, sem poder falar. Vestidos ela via-os de ano em ano. Um indiferente, o Mendes. Sofria de uma erisipela na perna direita que o proibia de trabalhar meses inteiros... ¾ Pois olha, disse D. Terezinha, o meu faz-me as vontades, mesmo porque eu não sou mulher de muitos me-deixes. Todos os meses é p’r’ali um vestido. Diabo é quem os poupa! Também, minha filha, dou-lhe toda a liberdade, fora e dentro de casa. Felizmente não tenho queixa dele. Lídia pediu a D. Amélia que tocasse alguma coisa, a Juanita, que era a valsa da moda. A propósito D. Amélia perguntou se já tinham ido ao teatro. Que fossem, que fossem. O grupo lírico da Naghel estava fazendo sucesso. A Bellegrandi era um mulherão capaz de arrebatar uma platéia inteira! Que modos, que requebros! Domingo ia a Juanita pela última vez em benefício da Aliverti. Que fossem. Era uma opereta interessantíssima, por sinal tinha sido representada cem vezes na Corte! A beneficiada ia fazer o papel de Juanita. ¾ Eu é para que tenho jeito, atalhou a Campelinho, é para o teatro. Deve ser uma vida tão cheia de sensações a das atrizes... Vestem-se de todas as formas, recebem presentes ricos, jóias, anéis de brilhante... são aplaudidas e ainda por cima ganham dinheiro à ufa. Eu já disse à mamãe, mas ela não quer por coisa alguma, diz que é uma vida imoral... Tolice! Há tanta gente boa nos teatros... A última vez que fui ao circo fiquei encantada pela Estrela do Mar. ¾ É o que você pensa, menina, disse D. Amélia. Essas pobres mulheres fazem um ror de sacrifícios... Sabe Deus quanto lhes custa uma noite de espetáculo! Acabam quase sempre miseráveis, coitadas, nalgum quarto d’hotel, a esmolas. Enquanto são moças ainda, ainda encontram quem lhes estenda a mão, porém, depois, morrem p’r’aí em qualquer pocilga, sem um real para a mortalha. Tibis, menina, nem se lembre de tal coisa! Maria, a um canto do sofá, pensava no estudante, perdida num labirinto de reflexões, com uma languidez no olhar vago. O Zuza preocupava-a como um sonho d’ouro. Começava a sentir o que nunca sentira por homem algum, certo desejo de ter um marido a quem pudesse entregar-se corpo e alma, certa sentimentalidade sem causa positiva, uma como abstração do resto da humanidade... “E quando Da. Amélia, sentando-se ao piano, começou a tocar a Juanita, veio-lhe um vago e esquisito desejo de ir-se pelo mundo fora nos braços do “seu” Zuza, rodopiando numa valsa entontecedora até cansar... Via-se nos braços dele, arquejando ao compasso da música, quase sem tocar o chão, voando quase leve com um floco d’algodão, como uma pena, como uma coisa ideal aérea... E lembrava-se do padrinho. Ah! o padrinho queria tanto mal ao Zuza... D’ora avante ia agradar muito a João, tratá-lo com mais carinho, dar-lhe muitos cafunés, fazer-lhe todas as vontades, adulá-lo, a fim de que ele não ralhasse por causa do estudante. Que tola não ter escrito logo ao Zuza, àquele Zuza que era agora a quantidade constante dos seus cálculos, a preocupação única de seu espírito, o seu alter ego. Sim, porque, de resto, ela não havia de ser nenhuma freira que ficasse p’r’aí solteirona, sempre casta como uma vestal. A Lídia tinha razão ¾ a mulher fez-se para o homem e o homem para a mulher. Era sempre melhor aceitar a cartada que se lhe oferecia do que entregar-se aí a qualquer caixeiro do armarinho, a qualquer lojista usurário e safado. Ao menos o Zuza tinha dinheiro e posição, era um rapaz conceituado. Comparava-se com Lídia e sentia-se outra, muito outra, noiva de um moço elegante, estimada, querida por todos. Ninguém se lembraria, depois, de sua origem humilde, todo mundo a respeitaria como esposa do Sr. Dr. José de Souza Nunes! Começava mesmo a sentir uma grande afeição pelo Zuza. As últimas notas do piano produziram-lhe uma comoçãozinha, uma ponta de saudade sincera, um arrepio na epiderme. E. levantando-se muito desconfiada, foi juntar-se às outras que palravam por quantas juntas tinham. A voz da Campelinho timbrava muito fina e metálica, traduzindo todo um temperamento nervoso e irrequieto. Acharam deliciosa a valsa da Juanita. Maria também deu o seu parecer: que era linda, que ia ensaiá-la. Falavam alto, numa intimidade de amigas velhas, sem pensar nas horas que iam passando rapidamente. Fazia sombra na calçada. Pela janela aberta entrava uma poeira sutil que punha uma camada muito tênue e pardacenta no verniz gasto dos móveis. Vinha lá de dentro, d’envolta com o fumaceiro da cozinha, um cheiro gorduroso e excitante de guisados. Deram três horas. ¾ Jesus! fez D. Amélia, erguendo-se admirada. Três horas! Vou-me chegando, meninas. ¾ Agora fique para o jantar, solicitou D. Terezinha. Nada de cerimônias, o Janjão não tarda, é comida de pobre, mas sempre se passa... ¾ Ora fique, Jesus! ¾ Não, Tetezinha de minh’alma, não posso, o Mendes me espera. aquilo é um estouvado. Vim somente para pedir um favorzinho, mas é segredo... ¾ Oh! filha... Entraram as duas para a sala de jantar. A Mendes pediu água, e, dando estalinhos com a língua, acariciando a mão de D. Terezinha, disse muito baixo, quase ao ouvido, engrossando a voz, que precisava de dez mil réis para pagar a costureira e vinha pedir-lhos até o fim do mês. A Teté não imaginava: tinha em casa o essencial para a feira do dia seguinte! O Mendes pouco se importava que houvesse ou não dinheiro... Tivesse paciência , sim? Pagava sem falta, no fim do mês. Disse que os meninos andavam descalços, que as despesas eram muito grandes, alegou o preço da carne... Um horror! Não se podia num tempo d’aquele comer com pouco dinheiro. Não sobrava nem para um vestido. Também estava muito “quebrada”, disse D. Terezinha compungida. O Janjão tinha feito um ror de despesas naquele mês; dava graças a Deus quando lhe vinha um dinheirinho do Pará, de rendas... Só ao velho Teixeira, um que emprestava dinheiro a juros, deviam duzentos mil réis. Em todo caso sempre ia ver se arranjava p’ra cinco mil réis. Era um instantinho... Foi depressa à alcova, abriu com estrondo a gaveta da cômoda e d’aí a pouco voltou com uma nota de 5$000, muito velha e ruça, quase em frangalhos, que entregou à outra. Era só o que tinha para servi-la. ¾ Muito obrigada, minha santa, não sabe quanto lhe agradeço... No fim do mês sem falta. E, guardando o dinheiro na velha bolsinha de couro da Rússia: ¾ Agora deixe-me ir. ¾ Por que não fica p’ra jantar? insistiu D. Terezinha. O Janjão está chegando, mande um recadinho ao Dr. Mendes. ¾ Qual filha, não posso. O Mendes é muito enjoado: fica para outra vez, sim? Beijaram-se depressa e a mulher do juiz municipal retirou-se com o seu passo miudinho, arrepanhando o vestido. ¾ Apareçam, hein? disse da rua. Amor com amor se paga... E desapareceu, como um foguete na esquina. Às quatro horas entrou o amanuense com a papelada debaixo do braço, muito suado, assobiando a Mascote. A Campelinho tinha se escapulido: que eram horas de jantar. Maria do Carmo sentara-se ao piano e ensaiava a Juanita. D. Terezinha, essa andava para dentro, às voltas com a cozinheira, provando as panelas, ralhando. João apenas sacudiu os papeis sobre o sofá foi direto à afilhada. ¾ A santa está tocando Juanita? Que mimo, Jesus! Como se pode ser bonita assim? E sem dar tempo a Maria defender-se, pôs-lhe um grande beijo na face. A normalista sentiu um braseiro no rosto ao contato da barba espinhenta do amanuense, e um bafo insuportável de álcool tomou-lhe as narinas. Era a primeira vez, depois que saíra da Imaculada Conceição, que o padrinho lhe beijava m cheio na face. O amanuense tinha se aproximado devagarinho, de mão p’ra trás, e, de repente tomando-lhe a cabeça entre as mãos fedorentas a cigarro, beijou-a perto da orelha, continuando cinicamente a assobiar. Ela apenas pode dizer ¾”Padrinho!” agarrando-se à cadeira de mola. Ficou muito séria a limpar o rosto com a manga do casaco. Ah! mas dentro, nas profundezas de sua alma, teve um ódio imenso àquele homem nojento que abusava de sua autoridade sobre ela para beijá-la! Fosse outro, ela teria correspondido com uma bofetada na cara... Mas, que fazer? Era seu padrinho, quase seu pai, devia aturá-lo, tinha a obrigação de submeter-se, porque estava em sua casa, comia de seus pirões, e o papai lhe pedira muito que o respeitasse. A princípio até o estimava, não o achava mau completamente, agora, porém, que uma espécie de instinto irresistível a impelia para o Zuza, agora que o estudante ocupava um lugar no seu coração enchendo-o quase, o padrinho ia-se-lhe tornando repugnante e desprezível. Não podia chegar-se a ele, vê-lo de perto, encará-lo frente a frente, sem um profundo e oculto frenesi. Um homem que não cuidava dos dentes, que não se banhava, um bêbedo! Esteve folheando o livro de músicas automaticamente, sem se mexer, sem dar palavra, esperando que João se retirasse da sala. Ele, porém, bateu o postigo com força, cambaleando, dando encontrões nos móveis, aproximou-se outra vez da afilhada, e, num movimento abrutalhado, abraçando-a por trás, curvando-se para a frente sobre ela, chimpou-lhe outro beijo, agora na boca, um beijo úmido, selvagem, babando-a como um alucinado... Maria quis gritar sufocada, mas o amanuense, tapando-lhe a boca, ameaçou... ¾ Nada de gritos, hein! nada de gritos... Eu sou seu padrinho, posso lhe beijar onde e quando quiser, está ouvindo? Nada de gritos! E Maria, com os lábios muito vermelhos, como a polpa d’uma fruta, debruçada sobre o piano, desandou a chorar nervosamente. João da Mata tinha bebido sofrivelmente na bodega do Zé Gato onde costumava aquecer os pulmões ao voltar da Repartição. Nesse dia excedeu-se, tomando em demasia, porque lá estava o Perneta, um dos correios, que usava muleta, que também gostava da pinga e escrevia versos para o Judeu Errante. Num momento deram cabo d’uma garrafa em cujo rótulo lia-se este reclame atraente como visgo: Cumbe legítima. E que loquacidade! Falaram por três deputados brasileiros sobre poesia e política. O Perneta, sujeito pretensioso e pernóstico, metido a literato, falando sempre com certo ar dogmático, ventilou uma questão de literatura cearense ¾ Que não tínhamos poeta, disse: o que havia era uma troça de malandros e de pedantes muito bestas, que escrevinhavam para a Província coisas tão ruins que até faziam vergonha aos manes do glorioso José de Alencar; uma súcia de imitadores que se limitavam a copiar dos jornais da Corte. Na sua opinião o Ceará só possuía um poeta verdadeiramente inspirado ¾ era Barbosa de Freitas. Esse, sim, cantava o que sentia em versos magistrais, dignos de Victor Hugo. Conhecera-o pessoalmente. Um boêmio! Fazia gosto ouvi-lo, Que eloqüência, que verve, que talento! Sabia de cor muitas poesias dele, mas nenhuma se comparava ao Êxtase, “esse poema de amor”, que valia por todas as poesias de Juvenal Galeno. O João queria que recitasse? ¾ Recita lá, fez o amanuense emborcando o cálice. E o Perneta, com a voz cavernosa, os cotovelos sobre a mesinha de ferro pintada de amarelo, recitou de um fôlego o Êxtase Quando às horas silentes da noite, Doce flauta descanta no ar, Quando as vagas soluçam baixinho Sobre a praia que alveja o luar ........................................... Terminou cansado, com um acesso de tosse, cuspindo para o lado. ¾ Sim, senhor! fez João da Mata com um murro na mesa. Isto é que é ser poeta! ¾ Queriam alguma coisa? veio perguntar o caixeiro, um rapazinho magro, doente, com olheiras. ¾ Não, menino, disse o amanuense, está acesa a lanterna por ora. Foi entusiasmo. Estavam no fundo da bodega, numa saleta escura, sem saída por trás, com as paredes encardidas, úmida, cheirando a cachaça, onde os fregueses tomavam bebidas. “Somente os fregueses de certa ordem”, prevenia o Zé Gato. ¾ Pois é isto, continuou o Perneta. O pobre Barbosa de Freitas acabou como o grande Luiz de Camões na enxerga d’um hospital, e nisto, penso eu, está a sua maior glória. ¾ Apoiado! ¾ E o que se vê hoje? Pedantismo somente. Os poetas e hoje usam fraque, gravata de seda e polainas, escrevem crônicas elegantes, fazem política. Os Alvares de Azevedo e os Barbosa de Freitas são gênios que aparecem de século em século, como certos cometas, no céu da literatura. ¾ Que tal achas o Zuza como poeta? perguntou o amanuense. ¾ Não me fales em semelhante gente. Aquilo é pior do que um cano de esgoto, homem. Quem chama o Zuza poeta não sabe o que é ser poeta, nunca leu o nosso Barbosa de Freitas. O Zuza emporcalha papel ¾ nada mais. Aquilo só presta mesmo para capacho do presidente. A conversa encaminhou-se para a política e João da Mata tomou a palavra. ¾ Que a política era a desgraça do Ceará; que estava cansado de trabalhar gratuitamente para a política. O que queria agora era dinheiro para acabar de levantar uma casinha no Outeiro. ¾ E que tal o presidente? perguntou o Perneta. Acha que fará alguma coisa em benefício do Ceará? ¾ Homem, como sabes, eu sou governista, porque infelizmente sou funcionário público, mas entendo que o Sr. Dr. Carlos é um grandíssimo pândego. E noutro tom, limpando os óculos: ¾ Nós precisamos é de homens sérios, seu Perneta, nós queremos gente séria! Contou então que na seca tinha ganho muito dinheiro à custa dos cofres públicos; que fora comissário de socorros, e que os presidentes do Ceará eram uns urubus que vinham beber o sangue ao emigrante cearense. Tinha assistido a muita ladroeira na seca de 77. ¾ Aqui p’ra nós, acrescentou cauteloso, abaixando a voz, o atual presidente não é ¾ justiça lhe seja ¾ um homem sem juízo, um idiota, um leigo, mas, a continuar como vai, forçando a emigração para o sul, dentro em pouco transforma esta terra numa espécie de feitoria de S. Paulo. É embarcar muita gente para o sul, seu compadre! Já lá foram quatorze mil e tantos! Isso é despovoar p Ceará, isto é fazer pouco caso do Ceará, c’os diabos! ¾ É bem feito! disse o Perneta, é muito bem feito para não sermos bestas. Isto é uma terra em que os estranhos fazem o que querem e ninguém protesta, ninguém reage. Nós só sabemos ser maus para os nossos patrícios. ¾ Mas olha que o Cearense tem comido o couro ao homem... ¾ Qual comido o couro! O povo é que devia dar uma lição de mestre ao governo, a este governo sem patriotismo e sem critério! E com esta me vou, que isso de política fede... Queres mais alguma coisa? ¾ Olha que demos cabo d’uma garrafa! Nem mais uma gota. Que horas tens? O outro puxou um relógio de plaquê desbotado, dentro d’uma capa de camurça, e, erguendo-se: ¾ Quatro menos cinco minutos. Safa! O tempo voa! O Zé, bota na conta isto: uma garrafa de branca. ¾ Já cá está, acudiu o Zé Gato, muito sujo, com um dedo amarrado num pano preto, o lápis detrás da orelha , arrastando os chinelos. ¾ ... Na conta do Perneta, explicou João da Mata E saíram pisando em falso, por entre fardos de carne seca e caixas de cebola. ¾ Ó João, perguntou na rua o aleijado, a menina casa sempre com o tipo? ¾ Quem, a Maria? ¾ Sim. ¾ Casa, mas há-de-ser com o diabo! Sujeitos daquela ordem não me entram em casa... ¾ Mas olha que é um casamentão! ¾ Nem que ele viesse coberto de ouro num palanque de diamante. Ela só há-de casar com quem o padrinho quiser. E adeusinho, menino, adeusinho. Separaram-se. Passava um enterro caminho do cemitério. Quatro gatos-pingados, de preto, conduziam o caixão cujos galões cor de fogo luziam ao sol. Pouca gente acompanhando: uns dez homens cabisbaixos, taciturnos, de chapéu na mão, marchavam a passo e passo. Na frente caminhava um padre, de estola e sobrepeliz, olhando para os lados, indiferente, mais um menino de cor de batina encarnada carregando a cruz. O sino da Sé dobrava a finados melancolicamente. Gente chegava às janelas para ver passar o préstito. ¾ De quem é? Quem morreu? perguntava-se com mistério. ¾ A terra lhe seja leve, fez o Zé Gato, abando a cabeça com um ar triste. João da Mata parou à beira da calçada afagando a pêra com os dedos magros e compridos, nervoso ¾ Quem morreria? pensava ¾ E, assim que o préstito passou, foi andando devagar, cabeça baixa, equilibrando-se. No outro lado da rua, o Romão, o negro Romão que fazia a limpeza da cidade, passava muito bêbado fazendo curvas, de calças arregaçadas até os joelhos, peito à mostra, com um desprezo quase sublime por tudo e por todos, gritando numa voz forte e aguardentada: ¾ Arre corno!... Um garoto atirou-lhe uma pedra. Mas o negro, pendido p’ra frente, ziguezagueando, tropeçando, encostando-se às paredes, torto, baixo, o cabelo carapinha sujo de poeira, pardacento, repetia insistentemente, alto e bom som, o estribilho que todo o Ceará estava acostumado a ouvirlhe ¾ Arre corno! e que repercutia como uma verdade na tristeza calma da rua. 5 Um tédio invencível, um desânimo infinito, foi-se apoderando de Maria do Carmo a ponto de lhe alterar os hábitos e as feições. Começou a emagrecer, a definhar, enfadando-se por dá cá aquela palha, maldizendo-se. Tudo a contrariava agora, tinha momentos de completo abandono de si mesma, o mais leve transtorno nos seus planos fazia-lhe vontade de chorar, de recolher-se ao seu quarto e desabafar consigo mesma, sem que ninguém visse, num choro silencioso. Estava-se tornando insociável como uma freira, tímida e nervosa como uma histérica. Ia à Escola para não contrarias os padrinhos, para evitar desconfianças, mas o seu desejo, o seu único desejo ser viver só, completamente só, numa espécie de deserto, longe de todo o ruído, longe d’aquela gente e d’aquela casa, num lugar onde ela pudesse ver o Zuza todos os dias e dizer-lhe tudo que quisesse, tudo o que lhe viesse à cabeça. O ruído que se levantou em torno de seu nome incomodava-a horrivelmente, como zumbir d’uma vespa enorme que a perseguisse constantemente. ¾ Que inferno! Todo o mundo metia-se com sua vida, como se fosse uma grande coisa ela casar com o Zuza! Era melhor que fossem plantar batatas e não estivessem encafifando-a . Havia de casar com Zuza, porque queria, não era da conta de ninguém, seu coração era livre como as andorinhas. Oh!... ¾ Mas, menina, quem diz o contrário? perguntava a Campelinho. Eu sempre te aconselhei que o melhor partido era aceitar o amor do estudante. Não era a Lídia, eram as outras, as invejosas, as brutas, que nem sequer sabiam conjugar um verbo. estava cansada de ouvir pilhérias e risinhos tolos, mas à primeira que lhe dissesse tanto assim (e indicava o tamanho da unha), à primeira que abusasse da sua paciência, ela, Maria, saberia responder na ponta da língua . Umas namoradeiras que punham-se a dar escândalos com os estudantes do Liceu, umas sem-vergonhas! Havia de mostrar! Ela é que era uma tola, dizia a Lídia; as normalistas falavam de invejosas, mandasse plantar favas. Cada qual namora com quem quer, e, demais, não era nenhuma admiração a Maria casar com o Zuza. Por quê? Porque ele era rico e ela era pobre? Muito obrigada! Napoleão! tinha-se casado com uma simples camponesa, e mais era um imperador! E Maria do Carmo passava noites sem dormir, a pensar no futuro bacharel, retratando-o na imaginação, amando-o de longe. Havia já seis dias que ele seguira com o presidente, num domingo. Que custo, que viagem sem fim! Aquela demora impacientava-a. Já era tempo de terem voltado... Todos os dias, à noitinha, ia esperar a Província na janela, a ver se encontrava alguma notícia dos excursionistas. Mas nada! No domingo seguinte, porém, a folha oficial noticiou que “os ilustres touristes” deviam regressar à capital no dia imediato. ¾ Oito dias! Tê-la-ia esquecido? Oito dias na serra, tomando banhos de cachoeira, passeando a cavalo, caçando, divertindo-se ¾ que excelente vida! ¾ Maria do Carmo sentiu uma alegria deliciosa ao saber que d’aí a vinte quatro horas o Zuza estaria de volta, mais amável talvez, mais nutrido, mais gordo e mais bonito, contando-lhe as minudências da viagem. Agora, sim, conversaria com ele, perguntar-lhe-ia se gostara da serra, se tencionava partir logo para o Recife, se pretendia casar no Ceará... Nessa noite fez-se muito boa para o padrinho, chamou-o “padrinhozinho”, acariciou-lhe os bigodes, sem dar a entender o seu grande contentamento, a sua grande felicidade. Durante o víspora esteve perto dele, acompanhando-lhe o jogo, lembrando quando ele esquecia marcar um número, dando-lhe cafunés no alto da cabeça, com uma solicitude ingênua. Quando os habitués do víspora retiraram-se, João da Mata chamou a afilhada à alcova, e, muito em segredo, como se fossem velhos namorados, pediu-lhe um beijo na “boquinha”. Maria ofereceu-lhe os lábios com uma passividade de escrava, sem a menor resistência, pondo-se nos bicos dos pés, porque João era muito alto, e deixou que ele sugasse-os em dois tempos, às pressas, antes que viesse D. Terezinha. Grande foi a admiração e a luxúria do amanuense. Maria entregara-se sem um grito, sem um esforço! E suspendendo-a pela cintura, num ímpeto de carnalidade indomável, apertou-a contra si, com força, rilhando os dentes, nervoso, bambas as pernas, o coração aos pulos; mas soltou-a logo. D. Terezinha ali vinha pelo corredor, arrastando os velhos sapatos achinelados. João pôs-se a assobiar de mãos para trás. ¾ Estavam jogando o sério? perguntou a mulher. ¾ Não. Porque? ¾ Tão calados!... ¾ Queria tu que estivéssemos a gritar como doidos? fez o amanuense ainda trêmulo da comoção, enquanto Maria, sem dizer palavra, disfarçava na janela, olhando o céu. D. Terezinha começara a desconfiar das intenções de João da Mata. Via-o agora muito babado pela Maria, convidando-a sempre para junto de si, perseguindo-a mesmo e notava que a rapariga ultimamente já não era a mesma para ele, evitava-o, fugia de sua presença, esquivava-se como uma gatinha corrida pelo macho. Um dia, vendo-a triste a uma canto, perguntou-lhe o que tinha. Maria conservou-se calada e séria, sem erguer a cabeça. D. Terezinha quis atribuir aquele estado à ausência do Zuza, mas notou que havia no olhar da afilhada um como ressentimento novo, de momento. Nesse dia, justamente, João esbravejara muito contra a rapariga, ameaçando-a espancar se ela ousasse “pensar” no estudante. Desde então começaram as suspeitas de D. Terezinha que conhecia certas tendências instintivas de João. ¾ De certo alguma coisa se passava ente eles. Esses sobressaltos, essas arrelias... ¾ Entretanto, deixava as coisas no mesmo pé, sem dizer nada. Talvez fosse desconfiança. E o mais curioso é que o João agora tinha rusgas consecutivas com a mulher, sem motivo, por ninharia, ao voltar da Repartição ou pela manhã antes de ir. Um belo dia rompeu deveras. João sentiu logo o sangue subir-lhe à cabeça, e, numa excitação violentíssima, num daqueles ímpetos de raiva que lhe eram tão comuns devido à sua natureza irascível, ao seu temperamento bilioso, desandou furioso contra D. Terezinha, arremetendo com a mão fechada, fulo de cólera. ¾ Naquela casa quem mandava era ele, ficasse sabendo! Não aturava desaforos de mulher alguma, quanto mais dela que não tinha nada com sua vida! ¾ E fique você sabendo, acrescentou com sua vozinha estridente, dando murros na mesa. Fique você sabendo que uma mulher amigada é como se fosse uma fêmea qualquer, ouviu? Se duvidar, ponho-lhe no olho da rua! Palavras não era ditas. D. Terezinha saltou como uma fera congestionada, os olhos acesos d’um fulgor fosforescente, desesperada, possessa, os braços em arco e as mãos nas ilhargas: ¾ Você o que quer é abusar da menina e plantar-lhe um filho no buxo, seu grandis... Não acabou a palavra, porque o amanuense, ferido no seu amor próprio, na sua autoridade de chefe da casa, cego, tresvariado, encheu-lhe a boca com uma formidável bofetada que fê-la rodar. Maria ficou perplexa, cosida à janela, muito trêmula, sem saber o que fizesse, muda, como petrificada. Nos seus magníficos olhos cor de azeitona perpassou a sombra d’uma desgraça. O padrinho tinha enlouquecido, pensou. E um pavor infantil tomou-a toda. Mal acordada dos efeitos da agressão, titubeante, manquejando com a mão no queixo, D. Terezinha foi estender-se lá dentro na alcova, soluçando tão alto que se ouvia fora , na rua. Defronte, em casa da viúva Campelo, estava formada a panelinha do costume ¾ o Loureiro, a viúva e a afilhada. Eram quase nove horas da noite. A Lídia com um pulo veio saber, muito curiosa, o que sucedera, tinha ouvido choro... Se precisassem de alguma cosa... Mas o amanuense tranqüilizou-a: que não era nada, coisas de mulher, coisas de mulher... A Campelinho compreendeu que se tratava de assuntos íntimos e rodou nos calcanhares. ¾ Não era nada, era o doido do amanuense que andava aos pontapés. ¾ Gente canalha! fez o guarda-livros inalterável. Que educação, que fina educação, recebia-se naquela casa! Logo no dia seguinte à chegada do Zuza ¾ uma segunda feira luminosa de Outubro, muito azul no alto, com irradiações no granito das calçadas e uma aragem insensível quase a arrepiar a fronde espessa dos arvoredos da praça do Patrocínio ¾ Maria do Carmo foi recebida na Escola Normal com um chuveiro imprevisto de ¾ parabéns ¾ que as normalistas lhe davam à guisa de presentes de ano. ¾ Parabéns! Parabéns! repetiam arrastando os pés para trás, abrindo alas, como se cortejassem uma princesa. ¾Tinham combinado saudá-la pela chegada do Zuza com esse espírito irrequieto de colegial despeitado que se apraz em chacotear outro, e talvez com uma ponta de inveja a mordicálas por dentro. A praça permanecia numa inquietação abençoada, com seus renques de mungubeiras muito sombrias, verde-escuras e eternamente frescas, a desafiar, frente a frente, a pujança outonal dos cajueiros em flor que os liceistas castigavam a pedradas. Meninos apregoavam numa voz clara e vibrante: ¾ Loteria do Pará, 30 contos! O edifício da Escola Normal, a um canto do quadrilátero, pintadinho de fresco, cinzento, com as janelas abertas à claridade forte do dia, tinha o aspecto alegre d’uma casa de noivos acabada de criar-se. Maria estava radiante! Que extraordinária alegria infiltrava-se-lhe na alma, que excelente disposição moral! Acordara mais cedo que nos outros dias, como se tivesse de ir a alguma festa matinal, a algum passeio no campo, espanejando-se toda numa delícia incomensurável, feliz como uma ave que solta o primeiro vôo. Mas ao entrar na Escola desapontou deveras. Seriam onze horas. O diretor ainda não havia chegado. Raparigas de todos os tamanhos, trajando branco, azul e rosa conversavam animadas de livro na mão, formando grupos, no vestíbulo que separava a sala de música do gabinete de ciências naturais, no pavimento superior. Maria entrou vivamente alegre, de braço com a Lídia, dando ¾ bom dia! ¾ às colegas, uma bonita orquídea no peito, toda de branco, apertada por uma cinta. Mas a sua delicada susceptibilidade estremeceu ante a insólita manifestação que se lhe fazia, e uns tons de rosa desmaiados, ¾ um ligeiro rubor ¾ coloriram-lhe o moreno claro das faces. ¾ “Aceitava os parabéns, como não? Muito obrigada, muitíssimo obrigada! Queriam debicála? Corujas! Fossem debicar a avó!” Uma gargalhada irrompeu do grupo indiscreto, clamorosa e prolongada. ¾ Meninas! fez a Lídia. Isso são modos! ¾ Olha a baronesa! ¾ Como ela está grande! ¾ Sua incelência... Maria a custo pôde abafar a raiva que lhe sacudia os nervos. Sentou-se à varanda que dizia para uns terrenos devolutos do lado de Benfica, mordiscando a pelo dos beiços, trombuda, cara fechada, a olhar o arvoredo com um ar afetado de absoluta indiferença. Continuava o ruído. Havia um jogo contínuo de ditinhos picantes acompanhado de risadinhas sublinhadas. ¾ Uma queria um botão de flor de laranjeira, da grinalda, outra desejava apenas um copito de aluá, ess’outra contentava-se com um beijo na “noiva”, aquela queria ser madrinho do “primeiro filho”... Começaram a atirar-lhe bolinhas de papel. Maria marcava o compasso com o pé, furiosa, sem ver nada diante dos olhos. ¾ Já basta! disse a Lídia abrindo os braços para afastar as outras. Tudo tem limite. Vocês estão se excedendo... ¾ Umas ignorantes! saltou Maria acordando. Umas idiotas que querem levar a gente a ridículo por uma coisa atoa. Ainda hei de mostrar!... ¾ O diretor, o diretor! veio avisar a Jacintinha, uma feiosa, d’olho vazado, com sinais de bexiga no rosto, e que estava acabando de decorar alto a lição de geografia. Foi como se tivesse dito para um bando de crianças traquinas: ¾ Aí vem o tutu! Houve uma debandada: umas embarafustaram pela sala de música, outras pela de ciências, outras, finalmente, deixaram-se ficar em pé, lendo a meia voz muito sérias. Fez-se um silêncio respeitoso, e daí a pouco surgiu no alto da escada a figura antipática do diretor, um sujeito baixo, espadaúdo, cara larga e cheia com uma pronunciada cavidade na caixa do queixo, venta excessivamente grande e chata dilatando a um sestro especial, cabelo grisalho descendo pelas têmporas em costeletas compactas e brancas, olhos miúdos e vivos, testa inteligente... Maria respirou com alívio. Mas assim que o diretor deu as costas, entrando para o seu gabinete, recomeçou o zumzum de vozes, a princípio baixinho, depois num crescendo. O sol obrigou-a a fechar o livro. Ergueu-se e foi para a aula, carrancuda, extremamente bela com o seu vestidinho de cassa, apertado na cinta delgada. Ao meio dia, pontualmente, chegou o professor de geografia, o Berredo, um homenzarrão alto, grosso e trigueiro, barba espessa e rente, quase cobrindo o rosto, olhos pequenos e concupiscentes. Cumprimentou o diretor, muito afetuoso, limpando o suor da testa. E consultando o relógio: ¾ Meio dia! São horas e dar o meu recado. Com licença. Contavam-se na sala d’aula pouco mais de umas dez alunas, quase todas de livro aberto sobre as carteiras, silenciosas agora, à espera do professor. Maria ocupava um dos bancos da primeira fila. Ao entrar o Berredo, houve um arrastar de pés, todas simularam levantar-se, e o ilustre preceptor sentou-se, na forma do louvável costume, passeando o olhar na sala, vagarosamente, com bonomia paternal ¾ tal um pastor d’ovelhas a velar o casto rebanho. A sala era bastante larga para comportar outras tantas discípulas, com janelas para a rua e para os terrenos devolutos, muito ventilada. Era ali que funcionavam as aulas de ciência físicas e naturais, em horas diferentes das de geografia. Não se via um só mapa, uma só carta geográfica na paredes, onde punham sombras escuras peles de animais selvagens colocadas por cima de vidraças que guardavam, intactos aparelhos de química e física, redomas de vidro bojudas e reluzentes, velhas máquinas pneumáticas nunca servidas, pilhas elétricas de Bunsen, incompletas, sem o amálgamas de zinco, os condutores pendentes num abandono glacial; coleções de minerais, numerados em caixinhas, no fundo da sala, em prateleiras volantes... Nenhum indício, porém, de esfera terrestre. O professor pediu um compêndio que folheou de relance. ¾ Qual era a lição? A Oceania? Pois bem... ¾ Diga-me, senhora Da. Maria do Carmo: A Oceania é ilha ou continente? Maria fechou depressa o compêndio que estivera lendo, muito embaraçada, e, fitando o mestre, batendo com os dedos na carteira, com um risinho: ¾ Somente uma parte da Oceania pode ser considerada um continente. ¾ Perfeitamente bem! E perguntou, radiante, como se chama essa parte da Oceania que pode ser considerada continente; explicou demoradamente e categoricamente a natureza das ilhas australianas, elogiando as belas paisagens claras da Nova Zelândia, a sua vegetação opulenta, as riquezas do seu solo, o seu clima, a sua fauna, com entusiasmo de touriste, animando-se pouco e pouco, dando pulinhos intermitentes na cadeira de braços que gemia ao peso de seu corpo. Maria, muito séria, sem mover-se, ouvia com atenção, o olhar fixo nos olhos do Berredo, bebendo-lhe as palavras, admirando-o, adorando-o quase como se visse nele um doutor em ciências, um sábio consumado, um grande espírito. Decididamente era um talento, o Berredo! Gostava imenso de o ouvir falar, achava-o eloqüente, claro, explícito, capaz de prender um auditório ilustrado. Era a sua aula predileta, a de geografia, o Berredo tornava-a mais interessante ainda. Os outros, o professor de francês e o de ciências, nem por isso; davam sua lição como papagaios, e ¾ adeus, até amanhã. O Berredo, não senhores, tinha um excelente método de ensino, sabia atrair a atenção das alunas com descrições pitorescas e pilhérias encaixadas a jeito no fio do discurso. ¾ “Muitas ilhas da Oceania, dizia ele, coçando a barba, são habitadas por selvagens antropófagos, como os da América antes de sua descoberta...” ¾ “Imaginem as senhoras, que horror! Homens devorando-se uns aos outros, comendo-se com a mesma satisfação, com a mesma voracidade, com o mesmo canibalismo com que nós outros, civilizados, trinchamos um beef-steak ao almoço...” Houve um casquinada de risos à surdina. ¾ Agora se o Zuza te come, disse baixinho, por trás de Maria do Carmo, uma moçoila de pincenez. Toma cuidado, menina, o bicho tem cara de antropófago... ¾ “E note-se, continuou o Berredo, as próprias mulheres não escapam à fúria das tribos inimigas: devoram-se também...” ¾ Virgem! fez Maria com espanto... ¾ “As senhoras com certeza preferem viver n o Ceará a habitar a Papuásia...” ¾ Credo! fizeram muitas a uma voz. ¾ E no Brasil há desses selvagens? perguntou estouvadamente uma loura que se escondia na última fila, estirando o pescoço. O pedagogo sorriu, passando a mão cabeluda na barba; e muito delicado, num tom benévolo: ¾ “Atualmente existem poucos... Restos de tribos extintas...” E continuou a falar com a loquacidade de um sacerdote a pregar a moral, explicando a vida e costumes dos selvagens da Nova Zelândia, citando Júlio Verne, cujas obras recomendava às normalistas com um “precioso tesouro de conhecimentos úteis e agradáveis”. ¾ Lessem Júlio Verne nas horas d’ócio; era sempre melhor do que perder tempo com leituras sem proveito, muitas vezes impróprias de uma moça de família... ¾ Vá esperando.... murmurou a Lídia. ¾ “Eu estou certo, ¾ dizia o Berredo, convicto, ¾ de que as senhoras não lêem livro obscenos, mas refiro-me a esses romances sentimentais que as moças geralmente gostam de ler, umas historiazinhas fúteis de amores galantes, que não significam absolutamente coisa alguma e só servem de transtornar o espírito às incautas... Aposto em como quase todas as senhoras conhecem a Dama das camélias, a Lucíola...” Quase todas conheciam. ¾ “....Entretanto, rigorosamente, são péssimos exemplos...” Tomou um gole d’água, e continuando: ¾ “Nada! As moças deviam ler somente o grande Júlio Verne, o propagandista das ciências. Comprem a Viagem ao Centro da Terra, Os filhos do Capitão Grant e tantos outros romances úteis, e encontrarão neles alta soma de ensinamentos valiosos, de conhecimentos práticos...” O contínuo veio anunciar que estava terminada a hora. Dias depois o Berredo lecionava, como de costume, a seu bel-prazer, derreado na larga cadeira de espaldar, quando o contínuo, fazendo uma mesura, anunciou: “S. Excia. o Sr. Presidente da Província”, e imediatamente assomou à porta da sala o ilustre personagem, mostrando a esplendida dentadura num sorriso fidalgo, com o peito da camisa deslumbrante de alvura, colarinhos muito altos e tesos, gravatas de seda cor de creme, onde reluzia uma ferradura de ouro polido, bigodes torcidos imperiosamente: um belíssimo tipo de sulista aristocrata. Estava um pouco queimado da viagem a Baturité. O Berredo desceu logo do estrado a cumprimentá-lo com o seu característico aprumo d’homem que viajara a Europa. Todas as alunas ergueram-se. ¾ Como passa V. Excia, bem? Estava agora mesmo... O presidente pediu que não se incomodasse, que continuasse. Acompanhavam-no, como sempre, o José Pereira e o Zuza. Maria, ao dar com os olhos do estudante, ficou branca, um calafrio gelou-lhe a espinha, baixou a cabeça. fria, fria, como se tivesse diante de um juiz inflexível. S. Excia. tomou assento entre o professor e o diretor. José Pereira e o Zuza sentaram-se nas extremidades da mesa. As alunas tinham-se formalizado, muito respeitosas, imóveis quase, de livro aberto, com medo à chamada. Houve um silêncio. ¾ Pode continuar, disse o presidente para o Berredo. E este, inalterável: ¾ V. Excia. não deseja argumentar? ¾ Não, não. Obrigado... ¾ Neste caso... E para s discípulas: ¾ Diga-me a Sra. D. Sofia de Oliveira, quantos são os pólos da Terra? Veja como responde, é uma pequena recapitulação. Não se acanhe. Quantos são os pólos da Terra? O Berredo lembrou-se de fazer uma ligeira recapitulação para dar idéia do adiantamento de suas alunas. Sofia de Oliveira era uma pequerrucha de olhos acesos, morena, verdadeiro tipo de cearense: queixo fino, em angulo reto, fronte estreita, olhos negros e inteligentes. ¾ Quantos são os pólos da Terra? fez ela olhando para o teto como procurando a resposta, embatucada. ¾ Os pólos?... Os pólos são quatro. Risos ¾ Quatro? Pelo amor de Deus! Tenha a bondade de nomeá-los ¾ Norte, sul, leste, oeste. Nova hilaridade ¾ Está acanhada, desculpou o Berredo voltando-se para o presidente. Até é uma das minhas melhores alunas. ¾ Não confunda, tornou para a normalista. Olhe que são pólos e não pontos cardeais... Outro disparate: ¾ Há uma infinidade de pólos... ¾ Ora! Adiante... D. Maria do Carmo. Maria estremeceu, embatucando também, sem dizer palavra, sufocada. A presença do Zuza anestesiava-a, incomodava-lhe atrozmente. Sob a pressão do olhar magnético do estudante, que a fixava, sua fisionomia transformou-se. ¾ Então, D. Maria?... Também está acanhada? ¾ Passe adiante, pediu o Zuza, compadecido. Duas lágrimas rorejaram nas faces da normalista ciando com um sonzinho seco sobre a carteira. Estava numa das suas crises nervosas. Outras duas lágrimas acompanharam a primeira, vieram outras, outras, e Maria, cobrindo o rosto com seu lencinho de rendas, desatou a chorar escandalosamente. ¾ Sente-se incomodada? tornou o Berredo. D. Maria! Olhe... Tenha a bondade de levantar a cabeça... ¾ Está nervosa, disse o presidente com o seu belo ar de céptico elegante. ¾ Pudores de donzela, murmurou o diretor. Isso acontece. O Berredo passou a mão no bigode, desapontado, e encontrando o olhar faiscante de Lídia: ¾ A senhora... Quantos são os pólos da Terra? ¾ Dois: o pólo norte e o pólo sul. ¾ Perfeitamente! confirmou o professor batendo com o pé no estrado e esfregando as mãos satisfeito.¾ Dois, minhas senhoras, disse mostrando os dois dedos abertos em ângulo; dois! O pólo norte, que é o extremo norte da linha imaginária que passa pelo centro da Terra, e o pólo sul, isto é, a outra extremidade diametralmente oposta; eis aqui está! Está ouvindo, D. Sofia? Está ouvindo D. Maria do Carmo? São os dois pólos da Terra! ¾ Estou satisfeito, disse o presidente, erguendo-se. Arrastar de cadeiras e pés, zunzum de vozes, e S. Excia., grave, correto e calmo, retirou-se com o seu estado-maior. O Zuza ferrou em Maria do Carmo um olhar tão demorado e comovido que chegava a meter pena. Os seus óculos de ouro, muito límpido e translúcidos, tinham um brilho de cristal puro. Trazia na botoeira do redingote claro (o Zuza gostava de roupas claras) uma flor microscópica. Alguém murmurou ao vê-lo passar: ¾ Sempre correto! Maria deixou-se ficar sucumbida, de cabeça baixa, mordiscando a ponta do lenço, com uma lágrima retardada a tremeluzir-lhe na asa do nariz, desesperada, revoltada contra si mesma, que não soubera responder uma coisa tão simples... que vergonha, que humilhação! pensava. Não saber quantos pólos tem a Terra! E quem havia de responder? A Lídia, logo a Lídia! O Zuza agora ficava fazendo um juízo muito triste a seu respeito e não a procuraria mais... Ah! era muito tola decididamente! E jurava consigo “não ter mais vergonha de homem algum”. Pediu licença ao professor e retirou-se antes de findar a aula para evitar os gracejos das colegas, voltando à casa sem Lídia, sozinha, acaçapada, inconsolável. Uma vez no seu discreto quartinho, bateu a porta com força, despindo-se às carreiras, desabotoando os colchetes com espalhafato, aos empuxões, impaciente, até ficar em camisa, e atirou-se à rede soltando um grande suspiro. Esteve muito tempo a pensar no acadêmico, na “figura triste” que fizera na aula, em mil outras coisas por associação de idéias, com o olhar, sem ver, numa velha oleografia do “Cristo abrindo os braços e mostrando o coração à humanidade”, que estava na parede. Era uma desgraçada, suspirava tomada de desânimo. Todas tinham seus namorados, viviam felizes, com o futuro mais ou menos garantido, amando, gozando; todas tinham seu dia de felicidade, e ela? Era como uma gata borralheira, sem pai nem mãe, obrigada a suportar os desaforos d’um padrinho muito grosseiro que até a proibia de casar. Nem amigas tinha. A Lídia essa parecia-lhe uma desleal, fingida, hipócrita; não viram como ela tinha dado o quinau na aula? Uma ingrata... Sim, está visto que havia de ter um fim muito triste... O verdadeiro era fugir com o primeiro sujeito que lhe aparecesse, fugir para fora do Ceará, ir de uma vez... Estava cansada de viver naquela casa... E revoltava-se contra os padrinhos, contra a sociedade, contra Deus, contra tudo, num desespero febril, ansiando-se por uma vida feliz, independente, livre de cuidados ao lado de um homem que a soubesse compreender, que lhe fizesse todas as vontades. Por seu gosto não iria mais à Escola Normal para coisíssima alguma. Estava muito bem educada, não precisava de aprender em colégio, já não era criança. Acudiram-lhe reflexões absurdas, idéias extravagantes, pensamentos de colegial estouvada, inquieta na rede, virando-se revirando-se, ora fitando com olhar piedoso a imagem de Cristo, ora mergulhando a vista numa telha de vidro, espécie de clarabóia, que havia no telhado, e através da qual brilhava um pedaço do céu sem nuvens. Começou a sentir uma ponta de enxaqueca e caiu numa madorna, deitada de costas, os braços cruzados sobre a cabeça, traindo a penugem rala das axilas, respirando levemente, como uma criança. A camisa fina, quase transparente, arregaçada por descuido até a parte superior da coxa esquerda, mostrava toda a perna roliça, morena, cheia, sem depressão, arqueando-se no joelho... 6 O primeiro cuidado de Zuza ao regressar da excursão presidencial a Baturité foi ajustar contas com o redator da Matraca, ameaçando urbi et orbi fazê-lo engolir o número do pasquim que trazia versalhada torpe sobre o namoro do Trilho de Ferro. No Ceará não havia outro homem que usasse flor na lapela, dizia; o estudante, filho de titular, que andava a cavalo mais o presidente da província, era ele, Zuza. Estava claro, claríssimo, que a diatribe, o insulto, a infâmia, referia-se à sua pessoa, e o único meio, simples, fácil e positivo, de se ensinar um patife é dar-lhe de rebenque na cara. Conclusão: o redator da Matraca não só ia engolir o papelucho, mas também apanhar de rebenque no focinho, custasse o que custasse. ¾ Grandíssimo canalha! — Mas no Ceará não se faz reparo nessas coisas, meu Zuza. O insulto nesta terra é um divertimento como qualquer outro, como o entrudo, por exemplo. Cada cidadão aqui é uma verdadeira Matraca, Não te importes, não te dês cuidado... Isto dizia-lhe o José Pereira na redação da Província, mas o Zuza recalcitrava: — Eu?! Hei de tomar um desforço, custe o que custar. Se é costume desta terra os indivíduos se insultarem mutuamente, com a mesma facilidade com que tomam uma xícara de café, pílulas! é preciso dar ensino, é preciso que alguém se levante! — É bobagem, filho. Toda a gente toma a defesa do réu e aí fica a vítima do insulto com cara de besta. É o que é. Lá diz o rifão: quem não quer ser lobo... Esse José Pereira, fisicamente, dir-se-ia irmão gêmeo do Berredo da Escola Normal. Alto, cheio de corpo, trigueiro, a mesma barba espessa negra cobrindo quase todo o rosto, os mesmíssimos olhinhos vivos e concupiscentes. Dele é que se dizia que fora surpreendido em flagrante adultério com a mulher do juiz municipal no Passeio Público, um escândalo que por muitos dias serviu de pastos a boticários e bodegueiros. Começara vida pública no Correio, como carteiro, e agora aí estava feito redator da Província, em cujo caráter tornou-se geralmente admirado por seus folhetins alambicados, que o público digeria à guisa de pastilhas de Detan. Aos sábados publicava no rodapé do jornal fantasias literárias, contos femininos em estilo 1830, histórias dissolutas que eram lidas com avidez, mesmo com certa gula pelo mulherio elegante e pela burguesia sentimental e piegas. Cedo José Pereira começou a inchar como a rã de La Fontaine e a julgar-se, com efeito, um grande escritor, “um talento”, capaz, olá! muitíssimo capaz de fazer as delícias de qualquer sociedade inteligente e ilustrada. Daí certo ar autoritário, certa prosápia que ele afetava em toda a parte, dizendo-se “contemporâneo de Rocha Lima”, “amigo de Capistrano de Abreu”; certo aprumo pedante que não condizia com sua velha sobrecasaca de diagonal cujo estado incomodava deveras a alta sociedade cearense. Que diabo! um sujeito inteligente, com ares de fidalgo avarento, redator de um jornal, sempre trazendo a mesmíssima sobrecasaca! E o chapéu? Sempre o mesmo também, um triste chapéu de feltro com manchas oleosas! Oh! a respeitável sociedade cearense exigia primeiro que tudo decência no trajar, e aquilo assim, aquela sobrecasaca sórdida escandalizava-a como se escandaliza uma donzela diante d’uma estátua nua. Pois o Sr. José Pereira não podia, sem grandes sacrifícios, comprar um fato novo? Então, que diabo! não aparecesse entre as pessoas de certa ordem, ficasse em casa, fosse mais modesto. Sim, porque todo homem de talento, na opinião da sociedade cearense, deve acompanhar a moda em todas as suas nuances, em todos os seus requintes, deve ter sempre uma casaca à ultima moda, conforme os figurinos, para os “momentos solenes”; deve ser enfim um sujeito “correto” na acepção mais lata da palavra. O Sr. Pereira sabia dar um laço na gravata, lá isto sabia, e também não ignorava como se calça uma luva; mas (e isto é que preocupava a sociedade cearense) o Sr. José Pereira, quer fosse a um baile de primeira ordem, quer fosse a uma festa inaugural, quer fosse ao teatro, levava sempre, invariavelmente, a mesma sobrecasaca surrada e o mesmo chapéu ruço! Um homem de talento, sem gosto, o que não se admite. A sociedade cearense, porém, ignorava que o Sr. José Pereira era casado, tinha filhos e ganhava apenas o essencial para o seu sustento e o da família. cento e cinqüenta mil réis por mês, uma ninharia. Os seus amigos, às vezes, gracejando, propunham-lhe abrir uma subscrição para a compra de um paletó novo e de um chapéu idem. José Pereira, porém, tinha espírito e respondia-lhes ao pé da letra, mudando logo o rumo da conversa. Nesse tempo o redator da Província ainda era calouro em política. Dava o seu voto e nada mais. A literatura é que o absorvia. Um livro novo era para ele a melhor novidade: caísse embora o ministério, rebentasse uma revolução, ele conservava-se a ler, virando páginas, devorando a obra como um alucinado, defronte do abajur de papelão, no seu modesto gabinete de escritor pobre. Conhecia Dumas pai de cor e salteado; fora o seu primeiro “mestre”. Depois entregou-se a ler os Miseráveis, declarando-se hugólatra incondicional em uma apreciação que fizera do grande poeta. O artigo concluía deste modo: “Vitor Hugo é o Cristo da legenda transfigurado em profeta moderno. Ele é todo um século. Tudo nele é grande como a natureza. Os Miseráveis são a apoteose de todas as misérias humanas. Vitor Hugo, o Mestre, é o Sol da Humanidade. Amemo-lo como a um Deus!” Isso produziu efeito entre os literatos contemporâneos, que não dispensaram elogios ao “valente folhetinista” da Província. A fama de José Pereira encheu depressa toda a cidade. Dizia-se — “aí vai o José Pereira!” como quem diz — “aí vai um gênio!” E ele saudava a todos convictamente, tocando de leve a aba mole do chapéu preto de massa. Em fins de 1886 José Pereira conservava-se ainda na Província, como um dos principais redatores. A sua fama não decrescera, era a mesma, com uma pequena e insignificante diferença — é que ele já não era simplesmente um “talento fecundo”, mas também um fecundíssimo canalha, um requintado “sedutor de mulheres casadas”, o que afinal de contas não o prejudicava assaz no conceito do mulherio. Havia as viúvas, casadas e solteiras que o defendiam tenazmente. Não, diziam elas, o diabo não é tão feio quanto o pintam. José Pereira podia ser um rapaz alegre, divertidíssimo, jovial e espirituoso, amigo das mulheres — vá, mas, em suma, um excelente rapaz e um belo caráter. Porque o fato d’um homem apaixonar-se facilmente por muitas mulheres ao mesmo tempo ou em épocas diferentes não quer significar que esse homem seja um sedutor e um patife. Demais, José Pereira era artista, e o artistas, escultor ou poeta, pintor ou músico, não pode compreender a vida sem o amor... — Mas é um homem casado, profligavam as outras. — Bem; mas o casamento... E demonstrava que o casamento, longe de ser um atentado contra o livre arbítrio das partes, é, ao contrário, uma instituição que concede, tanto ao homem como à mulher, plena liberdade de amar ao próximo como a si mesmo. Entre as que adotavam a prática destas teorias tão abstrusas quanto originais, distinguiam-se a mulher de João da Mata e a do Dr. Mendes. — Então, decididamente, queres quebrar a cara ao redator da Matraca! dizia ele ao Zuza. — Mas que dúvida! Quem quer que fosse o verrinista havia de ficar sabendo de quantos paus se faz uma jangada. — Mas olhas que é uma imprudência pueril, homem. Quando o insulto vem de baixo a gente deve responder com o desprezo. O desprezo é a arma invencível dos espíritos superiores. Eu é como tenho resolvido as questões desta natureza. — Qual desprezo! Não se mata com desprezo um réptil venenoso; pisa-se-o, reduzse- o a papas. Isto é o que fazem os espíritos superiores. Sabes —quem é o biltre? — Homem , francamente, confesso-te que não o conheço. Dizem ser um tal Guedes, vulgo Pombinha, um sujeito reles, um trocatintas, um miserável que nem vale a pena de um escândalo... — Não vale a pena? Quebro-lhe a cara, ora se quebro... Onde fica tipografia do jornaleco? — Na rua de São Bernardo, creio eu, uma espécie de toca imunda, com ares de latrina — Guedes (Pombinha) ... rua de São Bernardo. Muito bem! E o Zuza tomou nota no seu canhenho, guardando-o resolutamente. — Diabos me levem se eu não faço uma estralada hoje. Mudando de tom: — Quero que publiques hoje o meu soneto A volta; deve sair hoje infalivelmente. — É dedicado à mesma? — Certamente. Sabes que eu sempre fui muito correto nos meus amores. A pequena está pelo beicinho. Há de cair como mosca, eu te garanto. — Um divertimento, hein? — Não, sou muito capaz de casar. Aquele arzinho ingênuo, aqueles olhos de madona traduzindo uma alma cheia de sentimentos bons... — tudo nela, enfim, agrada-me. — Mas é uma pobretona, filho. Aquilo é para a gente namorar, encher de beijos e — pernas p’ra que te quero! És muito calouro ainda nisso de amores. Aproveita a tua mocidade, deixa-te de pieguismo, menino. A vida é uma comédia, como lá diz o outro... Então o Zuza, acendendo um cigarro, disse que estava aborrecido de mulheres que se entregavam facilmente. Em Pernambuco namorara a filha de um barão e, se não fosse esperto, àquelas horas estaria talvez às voltas com o minotauro de que fala Balzac. Era uma rapariga esplêndida, mas tão depravada, tão dissoluta que acabou fugindo com um jóquei do Prado Pernambucano, um negro! Quanto às mulheres de vida alegre, detestava-as; tinha gasto muito dinheiro, precisava casar, mas, casar com uma menina ingênua e pobre, porque é nas classes pobres que se encontra mais vergonha e menos bandalheira. Ora, Maria do Carmo parecia-lhe uma criatura simples, sem essa tendência fatal das mulheres modernas para o adultério, uma menina que até chorava na aula simplesmente por não ter respondido a uma pergunta do professor! Uma rapariga assim era um caso esporádico, uma verdadeira exceção no meio de uma sociedade roída por quanto vício há no mundo. Ia concluir o curso, e, quando voltasse ao Ceará, pensaria seriamente no caso. A Maria do Carmo estava mesmo a calhar: pobrezinha, mas inocente... — É o que tu pensas, retorquiu o outro. Hoje não há que fiar em moças, pobres ou ricas. Todas elas sabem mais do que nós outros. Lêem Zola, estudam anatomia humana e tomam cerveja nos cafés. Então as tais normalistas, benza-as Deus, são verdadeiras doutoras de borla e capelo em negócios de namoros. Sei de uma que foi encontrada pelo professor de história natural a debuxar um grandíssimo falo com todos os seus petrechos... — O que, homem? — É o que estou a dizer-te, por sinal acabou amigando-se com um bodegueiro de Arronches e lá vive muito bem com o sujeito. Creio até que já tem filhos. — Oh! Senhor, então ao que me vai parecendo, está muito adiantada a nossa pequena sociedade! Exclamou o Zuza muito admirado, cavalgando o pincenez. Pois olha eu supunha isto aqui uma santidade... — É que há muito tempo não vinhas ao Ceará. Por cá também se dão escândalos como em Pernambuco, e escândalos de pasmar a um sacerdote da moral, como o filho de meu pai. O escritório da Província estava quase deserto. Apenas o José Pereira e o estudante conversavam amigavelmente, sentados um defronte do outro à mesa dos redatores, fumando, enquanto lá dentro, nos fundos onde ficavam as oficinas, os tipógrafos compunham atarefados a matéria do dia. Seriam duas horas da tarde. A calor abafava. Um rapazinho raquítico, em mangas de camisa, com manchas de tinta no rosto e um ar amolentado, veio trazer as provas do expediente do governo. — Falta matéria? Perguntou José Pereira, encarando-o. “Não sabia, não senhor, ia ver”. E saiu voltando imediatamente: que o jornal estava completo. — Bem, disse o Zuza, levantando-se, vou à casa do Sr. Guedes. Preciso acabar com isso. — Mas olha, recomendou o redator, não vás fazer asneiras, hein? — Não, não. A coisa é simples. Addio. E retirou-se fazendo piruetas com a bengala no ar. — É um criançola esse Zuza, murmurou José Pereira molhando a pena. Imediatamente entrou o Castrinho, outro colaborador da Província, também poeta e amigo particular de José Pereira, autor das Flores Agrestes publicadas há dias e que tinham sido muito bem recebidas pela crítica indígena. Vinha trazer a resposta ao crítico do Cearense que o chamara — plagiador de obras alheias. — Então temos polêmica? Perguntou José Pereira sem levantar a cabeça, revendo as provas. — Porque não? Hei de provar à evidência que não preciso plagiar a ninguém. Aqui está o primeiro artigo. É de arromba! O Castrinho sacou do bolso do paletó de alpaca um calhamaço de tiras de papel gordurosas e sacudindo-as, como quem toma o peso a alguma cousa: — Aqui está: hei de rebater uma a uma, sem dó nem piedade, todas as asserções do meu invejoso contendor. — Já te falo, disse o outro, continuando o trabalho. Tem paciência um pouquinho. O diabo das provas... — Sim, continua; não te quero interromper... Plagiador, ele, que tinha talento para dar e emprestar a toda a caterva de versejadores cearenses? Havia de provar o contrário, porque tanto sabia burilar um soneto como manejar a prosa. Até estimara a provocação do Cearense, porque desse modo o público ficaria sabendo quem eram os imitadores, os parasitas da poesia nacional. Ali estavam o juízo da imprensa fluminense, ali estava o juízo de toda a imprensa do Brasil, do Amazonas, do Prata, sobre as Flores Agrestes. Um jornal do Sul — O Cometa — comparara-o até a Olavo Bilac e a Raimundo Corrêa. — Inveja, murmurou José Pereira. O verdadeiro talento é sempre vítima do despeito das mediocridades. E terminando a revisão: — Vejamos isto, disse o Castrinho entregando a papelada. Hei-de convencer ao zoilo do Cearense, por a+b que ele é quem é plagiador, o invejoso, o ignorante, a besta, e eu o poeta consciencioso e moderno que não se limita a cantar Elviras e a copiar Lamartine. José Pereira derreou-se na cadeira de espaldar, um velho traste que fora da Perseverança e Porvir, “atestado eloqüente de uma luta de heróis” — como dizia o Zuza — e, depois de acender a ponta do cigarro, que estava à beira da mesa, devorou com olhar protetor a série de argumentos mais ou menos esmagadores com que o outro pretendia aniquilar o articulista da folha adversa. Tinha a epígrafe — As Flores Agrestes e a Inveja Furiosa, — e concluía nestes termos: “Voltarei à questão para esmagar com a lógica irrefutável da verdade o ousado e néscio criticista que me acoimou de plagiador. O público verá qual de nós tem razão; eu, que tive o aplauso da quase totalidade da imprensa brasileira, ou o zoilo do Cearense, que pretendeu obscurecer o meu merecimento”. — Magnífico! Exclamou José Pereira, levantando-se. Dá cá um abraço. Homem. E estreitando o Castrinho contra o peito: — Tens talento como um bruto, menino. Olha que quem escreveu vale o que escreveu, caramba! Continua, Castrinho, continua, que ainda hás de vir a ser um grande poeta. Desta massa é que se fazem os Byron e os Vítor Hugo... E logo, paternalmente: — Queres jantar comigo? — Obrigado. Hás de permitir que te agradeça, hein? Adeuzinho. Não esqueças o artigo. — Absolutamente não. Amanhã, impreterivelmente, ve-lo-ás na segunda página, todo inteirinho. Adeus. Vendedores de jornais esperavam a Província, à porta da redação, inquietos, turbulentos, a questionar por dá cá aquela palha, e já se ouvia o barulho do prelo lá dentro imprimindo a folha governista. Empregados públicos voltavam das repartições taciturnos, em sobrecasacas sórdidas, mordendo cigarros Lopes Sá, amarelos, linfáticos, o estômago a dar horas. Pouco movimento na rua do Major Facundo; um ou outro transeunte macambúzio, de chapéu de sol, caixeiros que atravessavam a rua ligeiros, em mangas de camisa, e alguns pobres diabos arrastando-se a pedir esmola. A cidade permanecia na sua costumada quietação provinciana, muito cheia de claridade, bocejando preguiçosamente de braços cruzados, à espera do Progresso. Suava-se por todos os poros e respirava-se a custo, debaixo d’uma atmosfera equatorial, acabrunhadora. Estalava à distância, num ritmo cadenciado e monótono, o canto estridente e metálico d’uma araponga, cujo eco repercutia em todo o âmbito da pequena capital cearense. Ao dobrar a rua da Assembléia o Zuza parou, à espera que o bonde passasse, e esteve considerando um instante. — De que lhe servia ir onde estava o Guedes e quebrarlhe as costelas a bengaladas? O rapaz podia repetir a agressão e aí estava o conflito sério, em que necessariamente um dos dois havia de sair ferido. Afinal de contas era provocar um escândalo inútil, vinha a polícia e a vergonha era dele, Zuza, unicamente dele, um rapaz de posição, amigo do presidente... Não valia a pena abrir luta com um pasquineiro. O melhor era, como aconselhara o José Pereira, dar o desprezo ao cão. Se ele, porém, o abocanhasse outra vez, então, decididamente, quebrava-lhe a cara. Apelava para a reincidência do foliculário. Província estúpida! Estava doído por se ver livre de semelhante canalhismo. E àquilo é que se chamava terra da luz! Seguiu para casa preocupado com essas idéias, com um nojo do Ceará. O coronel divertia-se tranqüilamente com a passarada do viveiro, metido no inseparável gorro de veludo bordado a ouro e retrós. Era amigo de pássaros e tinha-os magníficos em gaiolas de arame penduradas na sala de jantar, além do viveiro, também em arame, em forma de quiosque chinês, com uma bola de vidro no alto, colocado no quintal, defronte da casinha de banhos. Uma vidinha estúpida aquela! Pensava o estudante estendendo-se na rede. Morria-se de tédio e calor. Vieram-lhe saudades do Recife. Oh! O Recife, o Prado aos domingos, os passeios, os belos piqueniques a Caxangá... Lembrou-se da sua última conquista amorosa — a Rosita, uma espanhola com quem estivera seguramente uns seis meses. Um peixão! Morava na Madalena. Vira-a uma vez no teatrinho da Nova Hamburgo, sozinha num camarote, muito bem vestida, com um rico leque de plumas, anéis de brilhante, esplêndida: era argentina. Que de cerveja e ceiatas e passeios de carros e pagodeiras nos hotéis! Relembrava a primeira noite que passara com Rosita, por sinal tinha tomado muita champanhe, tinha feito um figurão. A rapariga compreendeu que tratava com gente fina e entregou-se. Uma noite deliciosa! Começou por uma ceia em casa dela, na Madalena, um chalezinho de porta e janela com varanda, forrado a papel sangue de boi e jardinzinho na frente. A sala de visitas era um mimo com sua mobília mignon de assento estufado, piano, quadros do paganismo, bibelots... E a alcova? Um ninho, um perfeito ninho de amores. Zuzinha — era como ela o tratava, toda ternura cobrindo-o de beijos, suspendendo-o nos braços como se levantasse uma criança, sentando-o no colo — ela de pegnoir de fustão com fitinhas azuis, uns olhos matadores úmidos de sensualidade, e ele à frescata, em mangas de camisa, sem colarinho — um deboche! E uma saudade imensa invadia-o, saudade da Rosita, saudade da república, — uma troça alegre de rapazes endinheirados e limpos, — saudades dos banhos de mar em Olinda... Depois veio-lhe à mente a normalista, a cearense do Trilho de Ferro. Muito bonitinha, é verdade, mas uma tola que não sabia tratar com rapazes educados. Lá por ser pobre, não; mas parecia-lhe tão atrasadinha, assim como apalermada, indiferente a tudo. Além disso um nome de matuta — Maria do Carmo. Ainda se fosse Maria Luiza, mas Maria do Carmo!... Começou então a fazer considerações sobre Maria. Achava-a até parecida com a Franzina, uma rapariga de Pernambuco, também morena e d’olhos cor de azeitona, baixinha e sem vergonha, “passada” por todos os estudantes da academia. Mas mesmo muito parecida, agora é que se lembrava: era a Franzina. Um horror! No Ceará não se encontravam mulheres públicas de certa ordem. Tudo era uma récua de meretrizes imundas, carregadas de sífilis até os olhos. Os rapazes viviam se queixando de moléstias secretas. Levantou-se em ceroulas, para acender um cigarro, espreguiçando-se. O quarto era pequeno, mas arranjado com certo decoro e bom gosto. O Zuza herdara essa qualidade característica dos Souza Nunes — o amor à ordem. Tudo dele era arrumado e limpo. Adorava a boêmia, mas a boêmia que não cospe no assoalho e que toma banho ao menos uma vez por dia. Nisto de assei, como em muitas outras coisas, era correto e o pai o louvava por essa qualidade especial de se portar com a máxima inteireza, no asseio do corpo, como no das ações. Toda a mobília do pequeno compartimento consistia numa estante envidraçada, cadeiras, um sofá e uma mesinha redonda, colocada no centro e coberta com um pano azul, de lã. Comunicava com outro quarto menor onde estava a cama de ferro e uma rede. Ma cabine à coucher, dizia o Zuza mostrando aos amigos esse interior confortável de boêmio rico. A claridade entrava pela varanda e ia morrerem penumbra lá dentro no segundo quarto. No papel claro das paredes destacavam-se litografias encaxilhadas de poetas célebres e o retrato de Gambetta, na postura habitual em que o grande orador falava ao povo. Em política era o seu ídolo, dizia o estudante, e, no auge do entusiasmo, colocava-o acima de Mirabeau. Em cima da mesa números avulsos da Revista Jurídica confundindo-se com jornais ilustrados, e um porta-retratos com as fotografias do coronel e da esposa, olhando para os lados, em sentidos opostos. Tal o “gabinete” do Zuza, o seu remanso de estudante cuidadoso. Tinha aberto ao acaso seu romance querido — A Casa de Pensão. Um livro importante, gabava; um livro que revelava o grau de adiantamento da literatura brasileira, não deixando a desejar os melhores dos escritores naturalistas portugueses. Este exagero do Zuza deve se levar a conta do ódio injusto que ele votava a tudo quanto cheirasse a lusitanismo. O estudante, porém, nunca passara a vista sequer num romance de Eça ou numa crítica de Ramalho. — “Não queria, não podia tragar coisas que lhe provocassem vômitos”. Preferia um churrasco à baiana ao “tal” Sr. Camilo Castelo Branco, um sujeito inimigo do Brasil, que não pedia a ocasião de nos ridicularizar. De Portugal, Camões exclusivamente, isso mesmo porque o grande épico era uma “glória universal”. Certas palavras tinham um encanto particular a seus ouvidos. Gostava de frases cheias e retumbantes. Os Lusíadas? eram uma “epopéia imortal”, dizia ele. Pronunciava a palavra epopéia com a boca cheia, acentuando muito o é. Uma obra de arte reconhecidamente boa era, a seu ver, uma epopéia, fosse qual fosse o gênero d’ela. O Cristo e a adúltera de Bernadelli? Uma epopéia nacional! Começou a ler A Casa e Pensão em voz alta, em tom de recitativo, pausadamente, repetindo frases inteiras, aplaudindo o romancista com entusiasmo, exclamando de vez em vez: — “Bonito, seu Zuza” como se fosse ele próprio o autor do livro. Depois, sacudindo o romance sobre uma cadeira, levantou-se espreguiçando-se com estalinhos nas articulações, escancarando a boca num bocejo largo. Que horas seriam? O despertador de níquel marcava quatro e meia. Ô diabo! Tinha-se descuidado. Estava convidado para jantar com o presidente às cinco pontualmente. Começou a vestir-se assobiando trechos de música seródia. De repente: — “E a normalista que não lhe tinha respondido a carta!” Muito atrasadinhas as cearenses, pensava. Que mais queria ela? E defronte do espelho, pondo a gravata: — “Era um rapaz chic,, dava muita honra à Sra. D. Maria do Carmo escrevendolhe uma carta amorosa, pois não? Era o que faltava, a Sra. D. Maria do Carmo não lhe dar atenção! Mas havia de cair por força. Era uma questão de tempo”. Cinco horas. O Zuca enfiou a sobrecasaca às pressas, perfumou-se, endireitou a gravata e — até logo — foi-se como um raio. 7 À proporção que se aproximava o dia do casamento de Lídia com o guarda-livros, as visitas d’este à casa da viúva Campelo iam-se tornando de mais a mais freqüentes. A Campelinho não cabia em si de contentamento; pudera! Ia enfim ver-se livre do perigo de ficar para tia. De resto o Loureiro era um ótimo rapaz, excelente empregado, natural de bom gênio, tolerante em extremo e senhor de seu nariz. Era como se fosse de casa, como se já fizesse parte da família, surdo como uma pedra aos boatos mais ou menos mentirosos que corriam sobre a vida privada de D. Amanda. Nunca se dera ao trabalho de averiguar se efetivamente o procedimento de sua futura sogra merecia censuras da gente honesta, mesmo porque o seu emprego não lhe deixava tempo para isso. Não, senhor, dizia ele, se por ventura alguém procurar abrir-lhe os olhos; a viúva era um modelo de mãe de família, coitada, vivendo modestamente do minguado montepio de seu finado marido, afora um negociozinho de rendas que tinha no Pará, e que lhe deixava para mais de cinqüenta por cento. O mais eram palanfrórios, e ele, no caráter de futuro genro da viúva, não podia consentir que ninguém a difamasse impunemente. João da Mata lhe dissera uma vez, ao ouvido, batendo-lhe amigavelmente no ombro, que não se iludisse, que a Campelo recebia fora de horas o Batista da feira; que ele, João da Mata, vira muitas vezes, com os próprios olhos, o negociante entrar cosido à parede, alta noite, como um gato. Histórias! O amanuense fazia mal andar propalando suspeitas que podiam prejudicar muito os créditos da pobre senhora. Absolutamente não acreditava em tais boatos. Conhecia bem o gênio e a vida de D. Amanda para desprezar semelhantes falsidades. Em suma, era da escola de S. Tomé: ver para crer. Até então só tinha motivos para louvar o procedimento da sua futura sogra. E concluía: “— Por amor de Deus não falassem mais em tais coisas... Tinha olhos p’ra ver”. Todas as noites, invariavelmente, lá ia ele dar seu dedo de palestra com a noiva, e, depois do víspora em casa do amanuense, ficavam os dois horas e horas na calçada, num aconchego muito íntimo, ela apoiada sobre seus ombros, fazendo-se meiga e apaixonada, ele babando-se de satisfação ao contato palpitante das carnes rijas e abundantes da sua futura mulher. D. Amanda entrava propositadamente para os deixar à vontade naquele arrebatamento de noivos sadios e vigorosos. Um noite o guarda-livros quis ir mais longe nas vivas demonstrações de seu amor pela Campelinho. Com os lábios pregados à boca da Lídia, quase abraçados, procurou com uma das mãos apalpar alguma coisa que a rapariga ocultava religiosamente no templo inviolável de sua castidade. — Não, isso não! Fez ela esquivando-se, toda cautelosa, com ar de surpresa. Deixasse d’aquilo, que era muito feio entre noivos. Não havia necessidade; tinham muito tempo depois. Tivesse paciência, sim? E muito terna, derreando-se de novo sobre o ombro do guarda-livros, beijou-o na face áspera de espinhas, sem repugnância, e começou a cofiar-lhe carinhosamente os bigodes, devagarinho, arregaçando-os, assanhando-os para tornar a alisá-los, prolongando assim a delícia de Loureiro que nesses momentos era como um escravo das mãozinhas brancas e delicadas de Lídia. — Mas, que tem? Perguntou ele com a voz trêmula, um fluído estranho no olhar terno. — Não, meu bem, isso não, que é feio, tornou a Campelinho. Tem paciência. Não fazia mal, continuou o Loureiro. Não eram noivos? Não eram quase casados? Que diabo! Consentisse ao menos uma vez. Era um instantinho. Ora! Uma coisa tão simples, tão natural!... Ninguém via, deixasse, que tolice! E enquanto falava, muito baixo, com hesitações trêmulas na voz embargada pela sensualidade, estendia a mão por baixo, o olhar fito nos olhos vivos e penetrantes a rapariga. Nem um ruído da rua do Trilho, nem uma voz, nem o vôo pesado de um morcego: tudo silêncio, e uns restos de luar a extinguir-se esbatendo defronte nos telhados. Apenas, ao longe, vago e indistinto quase, o ruído monótono do mar no silêncio da noite calma. — Oh! não... suplicou a Campelinho sentindo o contato da mão grossa do guardalivros. Deixa... Houve um fru-fru de vestidos machucados e o baque de uma cadeira. Momentos depois o Loureiro despedia-se triunfante, pisando devagar, caminho do HOTEL DRAGOT. Desde então começou a retirar-se muito tarde. Havia noites em que só saía depois de uma hora da madrugada. Ultimamente almoçava e jantava na casa da viúva. Era mais econômico do que pagar hotel, dizia D. Amanda: bastava que ele contribuísse com trinta mil réis mensais e tudo se arranjaria ali mesmo em família; de modo que o Loureiro pouco a pouco foi-se fazendo, por assim dizer, dono da casa, chefe da família. Por fim todas as despesas corriam por sua conta e risco. Aluguel de casa, comedoria, roupa lavada e engomada, vestidos para a Lídia, tudo era ele que pagava de boa vontade, sem tugir, nem mugir, porque queria e tinha prazer nisso. Muito econômico, amigo de seu dinheirinho, mas em se tratando das Campelo, não tinha mãos a medir, era de uma prodigalidade sem limites. Coitadas! Lamenta consigo, eram umas pobres; cada um sabe de si e Deus de todos; tinha quase o dever de ampará-las, tanto mais quando estava para ser marido da pequena. E abriu o seu grande coração e a sua bolsa àquelas duas criaturas, que se lhe afiguravam duas santas através do prisma azul de seu amor pela rapariga. Subscritor da sociedade de São Vicente de Paulo, um pouco devoto, às vezes tinha rasgos de verdadeiro filantropo. D. Amanda e a filha eram aos seus olhos “duas vítimas da maledicência de uma sociedade hipócrita e torpe até a raiz dos cabelos”. Agora jantava e almoçava em casa da viúva, que já lhe sabia os gostos, as manias. Ela mesma ia preparar a comida, os ovos quentes e a lingüiça assada do almoço, o feijão e o lombo assado para o jantar. D. Amanda estava radiante com o genro. Tratava-o a velas de libra, fazia-lhe todas as vontades, escovava-lhe a roupa, e eram cuidados de mãe carinhosa ou de criança que tem um pássaro na mão e receia lhe fuja. Aos domingos o guarda-livros ia logo cedo para o Trilho, às vezes com a cara por lavar, metido em calças pardas, abotoado até ao pescoço. Era quando tinha algum descanso das lidas quotidianas do armazém, da escrituração do Caixa. Às seis horas da manhã já ele estava de caminho para o Trilho, muito à fresca, cigarro ao canto da boca, prelibando as delícias de um dia inteiro em companhia da noiva, sem ter que dar satisfação a Carvalho & Cia., com a consciência tranqüila de quem cumpriu religiosamente o seu dever. Nem sequer tomava café no hotel. Pulava da rede às pressas, sem perder tempo, enfiava as botinas, as calças, o paletó surrado, e abalava por ali fora, escadas abaixo. Às vezes, ainda encontrava a porta da viúva fechada. Batia devagar com a ponta dos dedos: “— Sou eu, o Loureiro!” Imediatamente D. Amanda vinha abrir, embrulhada nos lençóis, cabelos soltos, em mangas de camisa. E a faina começava. Escancaravam-se as portas para dar entrada livre ao arzinho fresco da manhã, que se derramava por toda a casa, como um fluido que se evaporasse de repente de um depósito aberto. O Loureiro tirava o paletó, abria a toalha no ombro, e, enquanto se punha a ferver a água para o café, refestelava-se num confortável banho frio puxado de véspera na grande tina que havia no “banheiro”. Era tempo de cajus. O guarda-livros tinha a mania dos depurativos. Antes do banho emborcava um copo de mocororó “para retemperar o sangue!, dizia ele. Depois o cafezinho quente, coado pelas mãos de D. Amanda, e, finalmente, o belo dia passado currente calamo; tranqüilamente, num longo idílio, naquele canto obscuro de Fortaleza, com a “sua santa”. O hotel servia-lhe apenas para dormir, porque o Loureiro era filho do Rio Grande do Norte, onde perdera pai e mãe, não tinha no Ceará sequer um parente em cuja casa pudesse passar as noites. Amigos capazes de merecerem toda a sua confiança também não os tinha. Pacato, concentrado e pouco expansivo, dificilmente comunicava-se a quem não o procurasse em primeiro lugar. Sua natureza egoísta aprazia-se com a vida sedentária. — Um esquisitão de força, uma espécie de urso! Diziam os seus camaradas do comércio. E os dias passavam, longos e modorrentos, cheios de sol, sem nuvens no azul, iguais sempre, eternamente monótonos. Novembro estava a chegar. Novembro, o mês dos cajus e das ventanias desabridas, com as manhãs friorentas e claras, em que, às vezes, nuvens sombrias acumulam-se no horizonte e vão subindo até desmancharem-se completamente num chuvisco ligeiro que apenas borrifa de leve a superfície seca do solo, pondo cintilações diamantinas nas folhas do arvoredo; novembro, o mês dos estudantes, o mês dos exames, que passa levando consigo as ilusões cor-de-rosa dos que deixam os bancos preparatórios e dos que começam a vida pública. O Zuca não tinha pressa em se formar. De resto era uma questão de tempo o seu bacharelato. Resolvera passar mais alguns meses no Ceará, com a família, e então ir-se-ia completar o curso. Já agora o Ceará não lhe era inteiramente uma terra má. Habituava-se pouco a pouco a essa vida de província pacata em que se trabalha um quase nada e fala-se muito da vida alheia. Maria do Carmo tinha lhe escrito uma cartinha lacônica e expressiva confessando o seu amor. Entregou-a ela mesma, no Passeio Público, numa quinta feira, à noite, uma belíssima noite de luar. A avenida Caio Prado tinha o aspecto fantástico d’um terraço oriental onde passeassem princesas e odaliscas sob um céu de prata polido, com suas filas de combustores azuis, encarnados e verdes, com as suas esfinges... Senhoras de braço dado, em toilettes garridas, iam e vinham no macadame, arrastando os pés, ao compasso da música, conversando alto, entrechocando-se, numa promiscuidade interessante de cores, que tinham reflexos vivos ao luar; d’um lado e d’outro da avenida estendiam-se duas alas de cadeiras ocupadas por gente de ambos os sexos, na maior parte curiosos que assistiam tranqüilamente ao vaivém contínuo dos passantes. O plenilúnio muito alto dir-se-ia uma grande medalha de prata reluzente com o anverso para a terra, suspensa por um fio invisível lá em cima na cúpula azul do céu. Defronte da avenida o mar, na sua aparente imobilidade, tinha reflexos opalinos que deslumbravam, crivado de cintilações minúsculas, largo, imenso, desdobrando-se por ali a fora a perder de vista, e para o sul, muito ao longe, a luz branca do farol tinha lampejos intermitentes, de minuto a minuto. No porto, a mastreação dos navios destacava nitidamente, inclinando-se num movimento incessante para um e outro lado, como oscilações de um pêndulo invertido. — Uma noite admirável, hein? Maria! dizia Lídia de braço com a amiga, levada pela onda dos dilettandi. A normalista, porém, não deu atenção à Campelinho, muito distraída, caminhando maquinalmente, a pensar no estudante. Decididamente entregava-lhe a carta, fosse como fosse. Eram oito horas e o Zuca ainda não havia chegado. Estava aflita, inquieta, impaciente. E se ele não fosse ao Passeio esta noite? Ela rasgaria a carta e nunca mais havia de o procurar. O seu coração batia com força. Ia e vinha, cansada de esperar, com ímpetos de voltar para casa. — Tem paciência, menina, disse a outra. O rapaz não tarda. Está no clube, talvez. Qual clube! Era necessário acabar com aquilo. Começava a desconfiar do Zuca. Certo ele queria passar o tempo folgadamente, por isso fingira aquela comédia de amor. Não era possível, não acreditava na sinceridade do Zuca. Se ele fosse outro procurá-la-ia sempre, em toda a parte, nos passeios, no teatro, nos bailes. E ela é que estava fazendo uma figura ridícula a procurá-lo, como se ele fosse o único homem do Ceará com quem ela pudesse ser feliz! E lá veio o maldito nervoso, uma vontade de fechar os olhos a tudo e viver para si, egoisticamente, como o bicho da seda no seu casulo. Incomodava-lhe o zunzum de vozes e as pisadas da multidão, a própria música começou a fazer-lhe mal à cabeça. Que horror! Nem sequer podia passear! Nisto ouviu uma voz que lhe pareceu a do estudante. — Boa noite, minhas senhoras! Era realmente ele, que vinha chegando ao lado do José Pereira, muito correto, de chapéu alto, calça de casimira clara, croisé aberto, grandes colarinhos lustroso de ponta virada e a infalível flor na botoeira. Maria voltou-se aturdida e um suspiro largo e bom escapou-lhe do peito. Até que enfim! Ele ali estava inteiro, completo, absoluto! Agora pensava em como entregar a carta sem que ninguém visse, sem escândalo. A Lídia sugeriu-lhe uma idéia — iriam à outra avenida, mais sombria e menos freqüentada; ele naturalmente havia de ir também e então passava-lhe a carta num aperto de mão franco e amigável. — Sim, vamos... E dirigiram-se para a avenida Carapini, ensombrada pelos castanheiros, que formavam uma como abóbada compacta de ramagens através das quais o luar coava-se aqui e ali, pelas clareiras. Puseram-se por ali a esperar, em pé defronte dos gnomos de louça, à beira dos reservatórios d’água onde cruzavam gansos e marrequinhas vadias que grasnavam alegremente inundadas de luar ou, caminhando devagar, iam contando os minutos, enquanto a música, no coreto, executava trechos alegres de operetas em voga. No botequim, rodeado de toscas mesinhas de madeira, abriam-se garrafas de cerveja com estrondo e havia um movimento desusado de gente. As normalistas afastaram-se para mais longe. — Eles não vêm, disse Maria desanimada, enquanto a outra procurava com o olhar o estudante, que se confundia coma a multidão. — Tem paciência, tolinha. Por que não hão de vir? Com efeito, d’aí a pouco assomou no extremo oposto da avenida a figura corpulenta de José Pereira, alta, larga, colossal, ao lado do Zuca, que lhe ficava pelo ombro, apesar de alto também, com o seu corpo fino em contraste frisante com o todo asselvajado do amigo. Vinham passo a passo, discretamente. Pararam no botequim, numa roda de rapazes que discutiam calorosamente sobre política. De braço dado, ombro a ombro, as duas raparigas tinham procurado o lugar mais sombrio da avenida onde não podiam ser facilmente reconhecidas pelos passeantes da Caio Prado. — Esperemo-los aqui, disse Lídia, sentando-se com um vago suspiro. E continuava a chegar gente e a encher o Passeio por todas as avenidas do primeiro plano, cruzando-se em todos os sentidos, acotovelando-se, confundindo-se. Na Mororó, mais larga que as outras, havia uma promiscuidade franca de raparigas de todas as classes: criadinhas morenas e rechonchudas, com os seus vestidos brancos de ver a Deus, de avental, conduzindo crianças; filhas de famílias pobres em trajes domingueiros, muito alegres na sua encantadora obscuridade; mulheres de vida livre sacudindo os quadris descarnados, com ademanes característicos, perseguidas por uma troça de sujeitos pulhas que se punham a lhes dizer gracinhas insulsas. Toda uma geração nascente, ávida de emoções, cansada d’uma vida sedentária e monótona, ia espairecer no Passeio Público aos domingos e quintas feiras, gratuitamente, sem ter que pagar dez tostões por uma entrada, como no teatro e no circo. Ali não havia distinção de classes, nem camarotes, nem cadeiras de primeira ordem: todos tinham ingresso para saracotear nas avenidas ao ar puro das noites de luar. Apenas quem não tivesse dois vinténs esta proibido de sentar-se, porque, nesses dias, as cadeiras eram alugadas, havia assinaturas baratas. Lia-se mesmo na Província o seguinte anúncio: “No estabelecimento Confúcio e no Club vendem-se cartões de assinaturas de cadeiras no Passeio Público, com abatimento nos preços”. Mas, ora, toda a gente possuía vinténs para alugar uma cadeira, e, demais, ia-se ao Passeio para andar, para se mostrar aos outros como numa vitrine, não valia a pena ir para ficar sentado, casmurro, a ver desfilar o que? O mesmo carnaval de todos os domingos e quintas-feiras, as mesmas caras, as mesmas toilettes. Não valia a pena de certo. Quando a música parava, um realejo fanhoso, ao som do qual rodavam cavalinhos de pau, em um dos ângulos do jardim, gemia, num tom dolente e irritante, o Trovador atordoando os ouvidos delicados do Zuca que achava aquilo simplesmente insuportável e medonho como um assassinato em plena rua. — “Como é que se consentia semelhante importunação em uma capital que tinha foros de civilizada? Oh! em Pernambuco, o italiano que se lembrasse de tocar realejo à porta d’uma república era imediatamente punido a batatas e as cascas de laranja. Estava muito atrasadinho o Ceará!” Gostava pouco d’ir ao Passeio, o que fazia raríssimas vezes a convite do José Pereira, que comparava aquilo a um paraíso. — O Passeio Público? dizia ele; o Passeio Público é um dos mais belos do Brasil e a coisa mais bem feita que o Ceará possui. Que vista, que magnífico panorama se aprecia da avenida Caio Prado, à tarde! Nem o Passeio Público do Rio de Janeiro! E justificava o anti-bairrismo do estudante: — É que tu tens passado a melhor parte da tua vida na Corte e em Pernambuco, menino, dizia ele. Se vivesse algum tempo nesta terra, havias de gostar extraordinariamente. Mas o que te posso afirmar é que no Brasil não há uma cidade tão bem alinhada como esta, uma iluminação mais rica do que a nossa e um Passeio Público assim como este. — “Não duvidava, não duvidava, mas o Ceará ainda estava muito atrasadinho, lá isso estava”. Afinal chegou o momento que Maria do Carmo aguardava com a impaciência febril de um desesperado. O redator da Província e o Zuca tinham deixado o grupo de políticos e aproximavam-se a passos lentos. Ao passarem pelas normalistas a Campelinho levantou-se e, muito desembaraçada, com esse tic indizível das raparigas habituadas a convivência dos homens e à vida elegante, dirigiu-se aos dois amigos, saudando-os rasgadamente com um belo sorriso aristocrata: — Como passou, Sr. José Pereira?... Sr. Zuca... — Oh! minha senhora... fizeram os dois ao mesmo tempo. E a Lídia, depois de perguntar a José Pereira, com quem tinha alguma familiaridade, se vira por ali D. Amélia, e com uma ponta de cinismo, dirigiu-se ao Zuca: — Que tal o Passeio, Sr. Zuca? — Esplêndido, minha senhora! Está de encantar! — Isto é um inimigo do Ceará, D. Lídia, atalhou José Pereira rindo, com a sua voz muito grossa, os dentes muito brancos e pequeninos. Isto é um vândalo. — Vândalo, não. Sou apenas um admirador, um amante do progresso. A meu ver, repito, o Ceará tem muito ainda, mas mesmo muito (e deu umas castanholas com o dedo) que andar para ser uma capital de primeira ordem. — Eu já sabia que o Sr. Zuca não gostava da terra de Iracema, disse a normalista. Maria tinha se deixado ficar à distância, sentada num banco de madeira encostado a uma árvore, na meia sombra que havia de um lado da avenida, quieta, imóvel, acaçapada, como uma cousa a toa... Sentia-se cada vez mais tola, mais matuta e insociável. A presença do acadêmico punha-lhe calafrios na espinha, e vinha-lhe logo um desejo de isolar-se e não dizer palavra. Não sabia o que aquilo era; o certo é que a presença do Zuca hipnotizava-a, fazia-lhe perder a cabeça, como se estivesse diante de um monstro, de uma criatura misteriosa, cujo poder sobre ela fosse enorme. Zangava-se consigo mesma nesses momentos. Já estava em idade de perder de todo o acanhamento e que diabo! Atirar-se à vida, à sociedade, sem medo, sem receios infundados, sem pieguismos. Bolas! De si para si, tornava a jurar nunca mais ter medo de homem algum, mas no outro dia era a mesma da véspera, fraca, impotente para dominar-se. — Pois estamos distraindo o espírito, tornou a Lídia. A avenida Caio Prado está muito cheia; vimos apreciar o movimento d’aqui, da avenida dos charutos. O Zé Povinho denominava avenida dos charutos, a avenida Carapini por ser mais freqüentada por gente de cor, e Lídia achava muita graça naquilo, não podia acertar com o verdadeiro nome da sombria aleia, ponto dileto de cozinheiras e raparigas baratas da rua da Misericórdia. — Ah! Fez o Zuca. Então V. Excia. não veio só? — Não, não. Vim com a minha amiga inseparável. E voltou-se para Maria, que fingia olhar para o coreto da música. — Quem D. Maria do Carmo? Perguntou José Pereira, voltando-se também. — Sim, a Maria... — Oh! exclamou o redator dirigindo-se para a normalista. Está triste hoje, D. Maria? Uma moça bonita não se deixa ficar assim na sombra. Como vai, como tem passado, boazinha? Sempre acanhada!... Venha, faz favor? Quero-lhe apresentar a um moço muito chic e que lhe aprecia muito. Quem , o Sr. Zuca? Ela já conhecia. Estava descansando. — Ô Zuca! O acadêmico e Lídia aproximaram-se. E José Pereira num tom de cortesia: — Apresento-te aqui a Sra. D. Maria do Carmo, normalista, e uma das moças mais distintas da nossa sociedade, uma flor! Riram todos àquele disparate premeditado, pondo uma nota alegre nesse obscuro recanto do Passeios. — Oh! Já se conheciam? Não sabia, por Deus! Então já conheces a moça mais bonita do Trilho de Ferro, hein? Uma coisa que não sabes: faz versos também... Maria cumprimentou o estudante com um modo muito discreto, conservando-se sentada, aflita. A música deu começo a um tango repinicado, saltitante e carnavalesco, espécie de Chorado Baiano, com rufos de tambor, em que sobressaía o clarinete, cujas notas, muito prolongadas e queixosas, morriam languidamente. De quando em quando os instrumentos faziam uma pausa e rompia um coro de vozes grossas — Quem comeu o boi?... que a molecagem, lá fora, repetia numa desafinação irritante de vozes finas. — Vamos tomar alguma coisa, insistiu José Pereira oferecendo o braço à Lídia cortesmente. Ô Zuca, você dá o braço a D. Maria do Carmo. E, dois a dois, dirigiram-se para o botequim, José Pereira na frente com a Campelinho. A ocasião era oportuna. Maria a princípio desanimou completamente, mas, num ímpeto decisivo e franco, fazendo um esforço supremo sobre a si mesma, nervosa, mais tímida que nunca, sacou a carta, passou-a ao estudante, com a mão trêmula, sem proferir palavra, e imediatamente veio-lhe um arrependimento profundo de se ter comprometido daquele modo, como se naquela carta fosse toda a sua honra, todo seu pudor de rapariga honesta. Estava perdida! Pensou, e já lhe parecia que toda a gente — o Passeio Público em peso — seguia-lhe as pegadas observando-lhe todos os movimentos. — Ah! Fez o Zuca satisfeito. Pensei que não respondesse. E sentindo-se dono daquela prenda, com um frêmito de pálpebras através dos óculos de ouro, aconchegou a si o braço roliço da normalista meio descoberto. Maria conservou-se calada, sentindo cada vez mais forte o poder misterioso do estudante sobre seu coração extremamente sensível e bom. Deixou-se ir automaticamente, como uma sonâmbula. Sentaram-se. José Pereira quis saber o que desejavam tomar. Havia sorvete, cidra, cerveja, vinho do Porto, chocolate... — Cerveja, acudiu a Lídia. Todos assentaram, depois de alguns minutos de indecisão, em tomar cerveja, e o redator da Província, sempre alegre e cortês, enfiando a cabeça para dentro do botequim, pediu três garrafas de Carls Berg, gelo e quatro copos. O serviço do botequim era feito por um menino que entrava e saía sem descanso, uma azáfama dos diabos, suado, com os cabelos empastados na testa, sem paletó, uma toalha nauseabunda e úmida no ombro, acudindo, ele só, a todos os chamados. Rapazes impacientes, de chapéu caído para a nuca, tresandando ixora, muito arrebitados, batiam com as bengalas sobre as mesinhas. — Uma garrafa de cerveja, menino! — Ó pequeno, aqui. Olha dois cafés. O pobre caixerinho não tinha tréguas, com a cara enfaruscada, resmungando. De vez em quando, esfregava a toalha nas mesas com força, salpicando restos de comida nos janotas. — Ó burro, estás cego? O menino zangava-se e corria à outra mesa. Vinha de dentro do quiosque um cheiro ativo de café requentado. Saíam bandejinhas com chocolates e pão-de-ló. — Muito mal servido isto, objetou Zuca com ser ar afetado de fidalgo, limpando os bigodes. Tenho notado mesmo que aqui, no Ceará, não se usa guardanapo... — É objeto de luxo, disse José Pereira, atirando também o seu dichote. E pouco a pouco a conversação foi se animando, pouco a pouco foi-se estabelecendo uma intimidade entre todos, aos passo que os copos esvaziavam. Pediram mais uma garrafa de cerveja. A própria Maria do Carmo tinha o rosto em fogo. Foi perdendo o acanhamento e ria também com os outros quando o redator dizia pilhéria. A Lídia essa, lambia os beiços a cada copo que virava de dois tragos. Era a sua bebida predileta — cerveja. Bebera pela primeira vez ali mesmo no Passeio, por sinal o Alferes Coutinho, do batalhão, é que tinha pago. Estava em meio do terceiro copo, — Aquilo é que era uma bebida agradável e higiênica”, dizia ela. Não gostava de licores e bebidas adocicadas. A champanhe mesmo enjoava-lhe. — E que tal acha o peru? Perguntou maliciosamente o José Pereira. Isso era outra coisa: o peru era uma excelente bebida; bastava ter sido inventada pelo presidente da província, um moço de educação muito fina, viajado. Diziam até que tinha ido à Rússia... Então falou-se do presidente, que José Pereira não perdia ocasião de elogiar exageradamente. Um homem superior, gabava ele, um gentleman, um fidalgo de raça, uma dessas criaturas que a gente ficava querendo bem por toda a vida. Pois não! Excelente amigo, dedicado até, jogador de florete, sabendo montar a cavalo “divinamente” e atirando ao alvo com uma perfeição ultra! E que educação, que finíssima educação social! O homem falava francês como um parisiense, entendia inglês e tinha um modo excepcional de se portar em qualquer ocasião solene. Com tudo isto, acrescentava pigarreando, era muito bom democrata, sim senhores. Passeava sem ordenança, a pé; ia ao mercado pela manhã “ver aquilo” como qualquer plebeu , e jogava o bilhar na Maison Moderne... Que queriam mais? D’um homem assim é que o Ceará precisava. Ele estava ali na pessoa do Castro. Tratava o presidente familiarmente, como a um amigo de muita intimidade. Por sua vez o Zuca elevava o presidente aos cornos da lua. A sua opinião resumida era a seguinte: “Todos os cearenses juntos, trepados uns sobre os outros, não chegavam aos pés do fidalgo paulista”. — Eu o que mais admiro nele é o pescoço, a brancura escultural do pescoço, disse Maria. O presidente foi analisado escrupulosamente da cabeça aos pés, como uma estátua grega, ao sabor da cerveja Carls Berg. Já não havia quase ninguém no Passeio, quieto agora, sem o ruído tumultuoso dos passantes, sem música, todo iluminado pela claridade branda e melancólica do luar. Apenas se ouvia o grasnar áspero dos gansos nos reservatórios, o gritar estridente das marrequinha e a toada dos soldados no quartel, rezando. José Pereira tinha pedido mais uma garrafa de cerveja e instava para que Maria do Carmo tomasse “um bocadinho só”. A normalista, porém, cobria o copo com a mão, recusando. Que não: estava muito cheia, sentia uma pontinha de dor de cabeça. Botasse p’ra Lídia... Ora, fizesse favor, aceitasse, por vida de seus magníficos olhinhos de princesa encantada, suplicou o redator da Província fixando os olhos em Maria que esperava o assentimento do Zuza.: — Por que não toma, D. Maria? perguntou este num tom quase imperativo. O José Pereira pede-lhe com tão bons modos... Maria aceitou com um gesto de repugnância. — À sua saúde, fez José Pereira, tocando o copo no da normalista. Houve um tilintar de cristais chocando-se ao de leve, e todos beberam ruidosamente. — Agora vamo-nos chegando que se faz tarde, propôs Lídia levantando-se Mal se sustinha em pé. José Pereira ofereceu-lhe o braço. Uma languidez extrema tinha-se apoderado de Maria, cujas pálpebras pesavam como chumbo. Foi preciso amparar-se ao estudante para não cair redondamente. — Uma tonteira! Queixou-se ela fechando os olhos. Não era nada, disse o outro, passando-lhe o braço pela cintura; e enquanto o redator seguia pela avenida com a Lídia, deixavam-se ficar naquela posição, em pé ambos e quase abraçados. — Olhe, D. Maria... A rapariga tentou abrir os olhos, e nesse momento, naquele silencioso recanto do Passeio estalou um beijo. Depois seguiram também, e, juntos todos quatro foram tomar café no restaurante Tristão. 8 Maria do Carmo chegou à casa ofegante, esfalfada, com a cabeça a arder, muito corada e alegre, o olhar cheio de meiguice, transfigurada pelos efeitos da cerveja, rindo por da cá aquela palha. Atirou-se com todo o peso do corpo nos braços de João da Mata, fazendo-lhe festa, muito amorosa, como uma cadelinha de estima depois d’uma ausência. No seu olhar aveludado e submisso havia uma súplica irresistível. — Cheguei um bocadinho tarde, não é assim, padrinho? Perguntou cosendo-se ao amanuense, a cabeça derreada para trás. João olhou-a, olhou-a, hesitante, com um ar de extrema bonomia no rosto ainda há pouco carrancudo. Tinha acabado de ralhar pela demora da afilhada e agora achava-se sem ânimo de dizer uma só palavra áspera à rapariga, cujo olhar fascinava-o com um abismo. Ali estava ela a seus pés, submissa e mais bela do que nunca, acariciando-lhe a barba, toda sua, como uma escrava. — Sim senhora, chegou um bocadinho tarde. Isto não são horas de uma moça estar passeando... Afetava um tom repreensivo e ao mesmo tempo paternal. Quase dez horas! Não era bonito aquilo, tivesse mais juizinho. Enfim, por aquela vez, o dito pelo não dito, mas, por amor de Deus, não fizesse outra, senão, senão... — Mas, padrinho... — Não tem padrinho, não tem nada. Pode ir ao Passeio, mas, por favor, não me volte a estas horas. E afagava os cabelos de Maria, passava-lhe a mão nas faces, atoleimado, imbecil, como um velho impotente, o olhar aceso através dos óculos escuros, a calva reluzente como uma grande bola de bilhar. — Tu bebeste cerveja, aposto, tornou tomando entre as mãos a cabeça da rapariga, e cheirando-lhe a boca. Ora se tomou... — Tomei, sim, padrinho, tomei um copo assim. E indicou o tamanho do copo. Mas não estou tonta, não, padriozinho... Olhe, foi só um copo. — E quem t’o pagou? — Quem pagou? ... Ora, quem pagou... — Sim , quero saber quem te pagou a cerveja. Tu não levaste dinheiro... — Quem pagou foi o Sr. José Pereira... — Eu logo vi! Aposto em como o tal Zuca também entrou na festa. Maria fez-se desentendida, e agarrando-se ao pescoço do amanuense, com um pulo plantou-lhe um beijo na testa. João da Mata desequilibrou-se. — Ora, ora, ora, esta menina!... Não sabia o que fizesse. Ralhar? Não. Maria estava encantadora e pagava-lhe com beijos as recriminações. Calar? Também não. A rapariga era capaz de reincidir na falta. O verdadeiro era não falar mais no Zuca. E João da Mata rematou a conversa: — Vá, minha filha, vá dormir, que você não está boa... Maria beijou, como de costume, a mão descarnada do padrinho, e, d’um salto, recolheu-se ao seu querido quarto do meio, caindo pesadamente na rede, vestida como estava, sem ao menos lembrar-se de soltar os cabelos, tendo apenas tirado os sapatinhos e desabotoado o corpete. Arre! Estava muito fatigada, precisava descansar. E adormeceu imediatamente com um sorriso adorável na pequenina boca entreaberta. Teve sonhos impossíveis e horrorosos nessa noite. Cerca de onze horas acordou sobressaltada com um pesadelo. Sonhou, coisa extravagante! Que ia sozinha por um caminho deserto e interminável onde havia urze e flores em profusão. Estava perdida, sem saber o rumo que devia tomar , caminhando sem olhar p’ra trás. De repente — Arre corno! Ouviu a voz aguardentada do Romão, o mesmo que fazia a limpeza da cidade, e logo surgiu-lhe em frente a figura nauseabunda e miserável do negro. Era um Romão colossal, grosso e musculoso como um Hércules, nu da cintura p”ra cima, as espáduas largas reluzentes de suor, calças arregaçadas até os joelhos, preto como carvão, as pernas curvas formando um grande O, os braços levantados segurando na cabeça chata um barril enorme transbordando imundícies! —Arre corno! Grania o negro no silêncio da noite clara, cambaleando muito bêbado, perseguido por uma cáfila de cães que ladravam desesperadamente. Fazia um luar esplêndido... Assim que deu com os olhos nela, o negro atirou o chão o barril de porcarias, que se despedaçou empestando o ar. E o Romão, cambaleando sempre, muito fedorento, atirou-se a ela, rilhando os dentes num frenesi estúpido, beijando-a, besuntando-a. Que horror! Ela mais que depressa, cobrindo o rosto com as mãos, quis fugir sentindo toda a hediondez daquele corpo imundo, mas o negro deitou-a no chão com força e ... E Maria do Carmo acordou quase sem sentidos, sentando-se na rede, com um grande peso no coração, aflita, sufocada, sem poder falar, porque tinha a língua presa... — Virgem Maria! suspirou logo que pôde voltar a si. Que sonho feio!... Suava em bicas, muito pálida, como se acabasse de sair de um forno. Só então reparou muito admirada que ainda estava com a mesma roupa com que fora ao Passeio Público. Riscou um fósforo com a mão trêmula, acendeu a velinha de carnaúba e começou a despir-se depressa. Lá fora na rua, passava uma serenata. Uma voz de homem cantava uma modinha conhecida, acompanhada de violão e flauta: Não cho..res, querida Elvi...ra... Maria sentia-se doente, com um sabor desagradável na boca e uma dor forte nas têmporas. Vinha-lhe uma vontade de vomitar, de deitar fora a cerveja que bebera: sentia um mal estar geral em todo o corpo, como se estivesse para cair gravemente doente. Que seria, Deus do céu? Aproximou a vela do espelho, um velho traste com o aço muito estragado, e achou-se abatida, os olhos fundos, uma crosta esbranquiçada na língua. Nunca mais havia de tomar a tal cerveja, uma bebida selvagem, sem gosto, repugnante como um vomitório. Só tomara naquela noite por causa do Zuza, porque ouvira dizer que “era moda nas grandes cidades”, na Corte e no Recife, as senhoras tomarem cerveja. Mas credo! Noutra não caía. Se soubesse teria pedido cidra. Quis chamar a Mariana para lhe fazer um chazinho de laranja, mas era muito tarde, podiam desconfiar e, depois o padrinho agora dormia na sala de jantar... Não, não, era melhor não incomodar a ninguém! aquilo havia de passar, se Deus permitisse. Tinha até esquecido de rezar... Ajoelhou-se, mesmo em camisa, diante da oleografia que representava o Cristo abrindo o coração à humanidade, balbuciou uma oração, persignou-se e, mais aliviada, mais fresca, adormeceu novamente, pensando no estudante. O amanuense, no mesmo dia da briga com a mulher, resolvera de então em diante dormir numa rede na sala d jantar. Uma figa! Não estava mais para suportar o calor infernal da alcova, e, além disto, viviam ultimamente, ele e D. Terezinha, arengando consecutivamente como duas crianças invejosas, pela coisa mais insignificante. Ele, muito jubiloso, achava que tudo em casa ia muito ruim, que D. Terezinha não se importava com as coisas, que não se fazia mais economia — “Um gasto enorme de dinheiro! um desperdício sem nome, um esbanjar sem trégua, e afinal de contas, não passavam da carne cozida e do lombo assado com arroz. Isso assim ia mal, muito mal. Depois ninguém fosse chorar por dinheiro...” Quem, ela, chorar? Que esperança! Estava muito enganado, seu “pap’angu” de boceta. Tinha muito para onde ir, não faltavam casa de gente séria no Ceará. Socasse os eu dinheiro onde quisesse... Toda a vizinhança, ávida de escândalos, ouvia com risinhos de pérfida satisfação aqueles torniquetes às vezes imorais até, do amanuense com a mulher. Era um divertimento. — Deus o fez e o diabo os ajuntou, dizia a mulher d’um barbeiro que morava ali perto, paredes meias. Quando João da Mata entrava na pinga então a coisa tomava proporções assustadoras. Ameaçava expulsar a mulher de casa a pontapés, berrava como um possesso, batia as portas, quebrava louça ao jantar, rogava pragas e a própria empregada não escapava à sua cólera. Mariana era uma rapariga muito pacata e em pouco acostumou-se às impertinências ríspidas de “seu Joãozinho”. — Para que havia de dar o pobre homem, dizia ela às vezes, penalizada, cruzando os dedos sobre o ventre. Credo! A gente vê coisas! Hum, hum!... E muito risonha, muito tola, com o seu ar idiota de animal dócil, lá se ia para a cozinha cuidar das panelas e da louça, porque era ao mesmo tempo cozinheira e copeira. Quase todos os dias a mesma lengalenga, o mesmo duelo de palavras de porta de feira, a mesma pancadaria de descomposturas. Não era raro sair da boca desdentada do amanuense uma obscenidade! — Jesus! exclamava Maria fugindo para o seu quarto com as mãos nos ouvidos. Ao ouvir a voz de João da Mata berrando como um danado, a vizinhança chegava às janelas ávida de escândalo. Meninos em fralda de camisa, chupando o dedo, paravam defronte da porta do amanuense, muito espantados, olhando cheios de curiosidade pelas frinchas da rótula. E a algazarra crescia lá dentro, como se papagueassem muitas pessoas ao mesmo tempo. As duas criaturas faziam as delícias da rua do Trilho, que se regozijava com aqueles espetáculos gratuitos de um cômico irresistível. — “Aquilo ainda acabava mas era num escândalo badejo”, resmungava a mulher do barbeiro, uma magricela de cara de quem está sempre com dor de barriga. O Loureiro repetia indignado, dando-se ares de homem sério e reformador de costumes: — “Uma gente sem vergonha. Uma canalha! Tomara já se casar para ver-se longe de semelhante peste. Até que era feio a Lídia ter amizade com aquela gente”. E aconselhava à rapariga que fosse, pouco a pouco, deixando de ir à casa de João da Mata, porque não lhe ficava bem, a ela, “rapariga de família”, em véspera de casar, ter relações com uma corja d’aquela. Já não se jogava o víspora na casa do amanuense. As velhas coleções dormiam esquecidas no saquinho de baeta verde em cima do piano. D. Terezinha transformava-se a olhos vistos. Pouco lhe importavam os móveis cobertos de poeira e de fuligem das locomotivas; protestara nunca mais abrir o bico para dar ordens naquela casa. Esta cansada de agüentar desaforos “do corno” do Sr. João da Mata. E tudo por que? Por causa de uma peste que se lhe metera casa adentro e agora andava mostrando os dentes e mais alguma cousa ao padrinho, com partes de afilhada. Não, ela é que não servia de alcovitiira a ninguém, meu bem. Estava muito enganadinho . Se quisesse fazer mal à sonsa da Maria fosse fazer onde bem entendesse, mas ela, Teté, não servia de travesseiro, não, mas não mesmo... Estimava muito que lhe deixassem dormir só, na sua cama. Não perdia nada. Por seu lado o amanuense encarava a mulher com um desprezo solene. Vinha-lhe agora um arrependimento profundo por ter feito a asneira de amigar-se com D. Terezinha. Tanta rapariguinha fresca e bonita vivia à procura de um homem, tanta retirante ”moça” e pobre, tanta gente boa no mundo, fora amigar-se logo com quem? com quem, Sr. João da Mata? Com uma sujeita feiosa que só tinha carne nos quadris, um monstro de gordura, com pernas finas e ainda por cima estéril! Que grandíssima cabeçada! Entretanto, podia estar muito bem casado com uma mulher de certa ordem, rica mesmo, bem educada e bonitona. Depois que se mudara para sala de jantar apoderou-se dele um aborrecimento inexplicável por D. Terezinha.. Passava horas e horas estendido na rede, de papo para o ar, em ceroula e camisa de meia, acendendo cigarros, a pensar na vida, como um grande capitalista que sonha no dinheiro acumulado usurariamente; e Maria do Carmo aparecia-lhe na imaginação como um tesouro preciosíssimo, que ele receava fosse cobiçado um belo dia pelo rapazio galante da cidade... Estava ficando velho, era preciso aproveitar o resto da vida. É verdade que em 77, na seca, tinha desfrutado muita “bichinha” famosa. Nesse tempo ele era comissário de socorros... Mas nenhuma daquelas retirantes chegava aos pés da afilhada. Chegava o que! Nem havia termo de comparação. Maria, além de ser uma rapariga asseada, e apetitosa como uma ata madura, tinha, sobre as outras, a vantagem de ser inteligente e educada. Estas qualidades da normalista tinham um encanto extraordinário aos olhos do amanuense. Nunca em sua vida cheia de aventuras amorosas encontrara uma rapariga nas condições de Maria do Carmo, filha da família, branca, singularmente encantadora e que estivesse ao alcance de seu coração, ah! nunca. Maria punha-o doido com seus belos olhinhos cor de azeitona. A sua imaginação criava planos fantásticos, inexequíveis, por meio dos quais ele pudesse iludir a afilhada, e, zás, tirar-lhe o lírio branco da virgindade. Não queria precipitar-se com o risco de um escândalo comprometedor, isso não. Preferia insinuar-se pouco a pouco, devagar, no ânimo da pequena, sem a sobressaltar, fazendo-lhe todas as vontades, de modo que, na ocasião oportuna, no momento preciso, ela se entregasse prontamente, sem resistência. Com efeito Maria, agora, para não desagradar ao padrinho, obedecia-lhe cegamente, com a resignação indolente e fria duma escrava. Que havia de fazer, ela uma pobre filha adotiva, se o padrinho era quem lhe dava de comer e de vestir? Consentia, pudera não! sem a menor resistência, que o amanuense afagasse-lhe o bico dos seios virgens e lhe passasse a mão pelas coxas tenras e polpudas... — Está fazendo cócegas, padrinho, murmurava rindo, com riso sem expressão, que lhe vinha do fundo d’alma de donzela. — Sossega, tolinha, ralhava João. E ela não tinha remédio senão ficar quieta, imóvel, com o olhar úmido no teto, abandonada às carícias sensuais d’aquele homem repugnante que a perseguia com um animal no cio, mas que afinal de contas era seu padrinho... Muitas vezes, ah! quase sempre, vinham-lhe ímpetos de reagir com toda a força do seu pudor revoltado, mas ao mesmo tempo lembrava-se que era só no mundo, porque já não tinha pai nem mãe, e podia ser muito desgraçada depois... Sim, era preciso paciência para suportar tudo até que o Zuza se decidisse a ampará-la sob a sua proteção de rapaz rico. Vivia agora, sabe Deus como, entre a indiferença cruel de D. Terezinha e a vontade soberana do amanuense, por assim dizer sozinha naquela casa onde tudo tinha o aspecto sombrio e desolado da pobreza desonesta. Ah! mas aquilo havia de acabar fosse como fosse... A própria Lídia já não a procurava como dantes toda orgulhosa com o seu noivo. A felicidade da amiga aumentava-lhe ainda mais o desespero. Decididamente era muito infeliz. Aí vinham-lhe outra vez as lágrimas e os soluços concentrados. Recolhia-se com os olhos cheios d’água ao seu quarto com uma tristeza infinita no coração e só achava conforto nas confidências amorosas do Zuza, que ela guardava como uma relíquia no fundo de uma caixinha perfumada de sândalo. Esquecia-se a lê-las devagar, repetindo frases inteiras, admirando a bela caligrafia em que elas eram escritas, beijando-as sobre a assinatura do estudante, toda entregue ao seu amor. Havia uma semana que se correspondiam por cartas onde a vida de ambos era descrita como num diário, minuciosamente, em todos os seus detalhes. Porque o futuro bacharel desconfiara do modo frios com que o amanuense o recebia, e, sem dizer nada a ninguém, resolvera nunca mais pôr os pés naquela casa que ele “honrara” durante quase um mês com a sua presença. Pílulas! Todos os dias encontrava o sujeito com uma cara de mata-mouros, a pequena tinha ordem de não lhe aparecer, e mesmo era uma estopada ir ao Trilho a pé, sujeitando-se à crítica idiota dos mequetrefes da vida alheia. Estava decidido — não iria mais ao Trilho de Ferro. E cumpriu a sua palavra com a dignidade de um fidalgo. Encontravam-se diariamente na Escola, que o Zuza freqüentava agora com a pontualidade irrepreensível d’um inglês. E, como não podiam conversar à vontade sem escandalizar os créditos do estabelecimento já um tanto abalados, trocavam cartinhas no intervalo das aulas. Era voz geral na cidade que o estudante estava disposto a casar com a normalista mesmo contra a vontade de seus pais e a despeito da burguesia aristocrata que lamentava por sua vez tamanho “desastre”. Um rapaz fino, com um futuro invejável diante de si, estimado, amigo do presidente, casar-se com uma simples normalista sem eira nem beira! E em toda a parte, desde o Café Java até ao Palácio da Presidência, comentava-se, discutia-se ruidosamente o assombroso acontecimento. Uns asseguravam que o Zuza estava desfrutando a rapariga para depois — fuisser! pôr-se ao fresco e nunca mais pisar o solo cearense. Outros, porém, eram de parecer que o acadêmico tinha boas intenções e até fazia bem levantar da miséria uma criatura como a Maria, que estava se perdendo em companhia do amanuense. Havia outro grupo que acreditava no casamento do Zuza com a normalista porque, na sua opinião, a menina já “estava pronta”, isto é, o estudante já lhe tinha “plantado no bucho um Zuzinha”. E, assim, multiplicavam-se as opiniões, enquanto o Zuza, fazendo ouvidos de mercador, não se dava ao trabalho de desfazer boatos — “Que se fomentassem todos. Não tinha que dar satisfações a ninguém por seus atos”. Um belo domingo a Matraca lembrou-se outra vez de curtir o couro ao Zuza em redondilhas escandalosas que enchiam quase toda uma página. Os vendedores do pasquim atravessavam as ruas em disparada esbaforidos, apregoando alto e bom som o Namoro do Trilho de Ferro. Em todas as esquinas surgiam meninos maltrapilhos sobraçando o jornaleco, arquejantes sob a luz crua do sol que incendiava a cidade nesse luminoso meio-dia de novembro. O casarão do governo, acaçapado e informe, com o seu aspecto branco e tradicional de velho edifício português do tempo do Sr. D. João VI, com a sua fila de janelas, alinhas à maneira de hospital, espiando para a praça do General Tibúrcio, parecia dormir um sono bom de sesta, batido pelo sol, na mudez solene de um monumento arqueológico. Tinha dado meio-dia na Sé; ainda vibrava no espaço iluminado e azul a última nota das cornetas. Àquela hora o estudante acabara de almoçar com o presidente, e, de pernas cruzadas, reclinado numa cadeira de balanço, dedicava-se a fumar tranqüilo o seu havana mais o José Pereira, na larga sala de recepção do palácio. De repente: — A Matraca a 40 réis! O namoro do Trilho de Ferro! O estudante e a normalista! Grande escândalo! Um menino passava gritando a todo pulmão, numa voz fina de adolescente, as notícias da folha domingueira. Zuza — com o rosto afogueado pelo Bordeaux que tomara ao almoço — estremeceu na cadeira. — Hein? O vendedor de jornais repetia a lengalenga lá fora, na praça. Então o estudante, fulo de raiva, sacudindo fora o resto do charuto, levantou-se e foi direto à janela. — Psiu! Psiu! Ó menino da Matraca! — Eu? — Sim, você mesmo! Enquanto se esfrega um olho os dois encontraram-se em baixo na porta do palácio. — Que está você a gritar, seu patife? perguntou Zuza segurando o vendedor pelas orelhas. — Nada, seu dotô; é o namoro do Trilho... — Você ainda repete, seu grandíssimo corno! E, depois de encher o pequeno de petelecos, o futuro bacharel tomou-lhe todos os exemplares da Matraca, rasgando-os imediatamente. O outro abriu-lhe a goela a chorar encostando-se à parede, com a cabeça entre os braços. — E puxe! continuou o Zuza implacável, com o seu olhar de míope. Vá, vá, vá e diga ao dono desta imundície que eu ainda lhe quebro a cara a bengaladas, hein? Vá, vá, vá... O pequeno não teve outro jeito senão ir-se arrastando pela parede, muito triste, resmungando, protestando nunca mais vender a Matraca, enquanto o Zuza explicava o caso ao José Pereira e ao presidente, que o receberam com uma explosão de risos. O caso não era par rir, dizia ele formalizado limpando os óculos com a ponta do lenço de seda. O caso não era para rir, que diabo! Ainda havia de quebrar a cara do redator da Matraca. Aquilo excedia as raias do decoro e do respeito que se deve ter à sociedade. Que essa! Não era nenhum filho da mãe que estivesse a servir de judas a Deus e ao mundo. Era assim que se resolviam questões de dignidade pessoal — à bengala! — Mas vem cá, ó Zuza, disse amigavelmente o fidalgo paulista; tu perdes o tempo e o latim com semelhante gente... — Eu já o aconselhei, interrompeu José Pereira. O desprezo é a arma dos fortes. — Qual desprezo, hein? O desprezo é a arma dos covardes. Eu cá resolvo as coisas positivamente a bengaladas. — Quantas já destes ao redator da Matraca? — perguntou José Pereira para confundir o Zuza. — Não dei nenhuma ainda, mas pretendo, antes de me ir embora, quebrar-lhe os queixos, sabe você? O presidente para não provocar mais a bílis do Zuza perguntou, a propósito de jornais que se ocupavam da vida alheia, se tinham lido o Pedro II, e a conversa descambou para o terreno árido da política local. — Que diz o papelucho? perguntou fidalgo de dentro dos seus grandes colarinhos lustrosos. — A mesma coisa de todos os dias, respondeu José Pereira com um gesto de desprezo. Que você é um péssimo presidente, que você gosta de tomar champagne, e, finalmente, que você “vai encaminhando as coisas públicas para um abismo”. — Ora, suporte-se uma coisa destas!, saltou o Zuza. Eis aí: é ou não para se dar o cavaco? — Mas, Zuza, eu vou respondendo a cada artigo com a demissão de dez funcionários amigos da oposição. Queres ver uma coisa?... Que dia é hoje? — Domingo... — Pois bem, vou mandar lavrar a demissão de alguns empregados públicos, que se dizem miúdos, com a data de hoje. Eis aí está como se resolvem questões desta ordem. Insultam-me, não é assim? injuriam-me, acham que sou mau, que não tenho juízo, que sou indiferente à sorte do Ceará... Pois bem, hoje mesmo muita gente vai pagar pelos diretores do tal partido. Nada mais simples, não achas? Ante a resolução pronta e decisiva do presidente o Zuza ficou perplexo. Decididamente era um grande homem aquele! — Mas olha que vais reduzir à miséria muitas famílias... O presidente teve um sorriso de suprema indiferença àquelas palavras do estudante e dirigiu-se à secretaria com o passo firme de quem caminha para uma ação nobre com o seu belo porte de diplomata. Zuza pretextou uma forte enxaqueca e abalou a pensar no vendedor da Matraca. Tinha feito mal em esbofetear o rapazinho, porque afinal de contas o pequeno estava inocente, nada tinha que ver com os desaforos publicados. Era um simples vendedor, coitado. Enfiou pela rua da Assembléia, macambúzio, com um ar indolente, chapéu derreado para trás, riscando o chão coma bengala, muito distraído. “— Que diabo! A gente sempre faz asneiras...” E, pecador arrependido, entrou em casa esbaforido, soltando, logo à entrada, um bocejo de velho preguiçoso. Entretanto a demora do Zuza na capital cearense começava a inquietar o coronel Souza Nunes. Era época de exames e o estudante nem sequer falava em tirar passagem para o Recife onde já se devia achar a fim de concluir o curso. — Se lhe entrasse na cabeça a idéia de casamento com a tal senhora normalista, então, adeus, pensava o coronel; ia tudo águas abaixo. Seria talvez preciso improvisar um passeio à Europa, do contrário o rapaz era capaz de fazer uma estralada dos diabos. Ia falar ao Zuza como pai, ia repreendê-lo severamente, dizer-lhe com a franqueza rude de um superior para um subalterno que aquilo não podia continuar, que era tempo de seguir para o Recife, que se preparasse. Mas o filho tinha umas maneiras capciosas de convencê-lo, fazendo-se enérgico, revoltando-se contra a maledicência pública, provando-lhe com argumentos fortes que tudo que se dizia na rua era mentira, que ele, Zuza, até desejava ir-se logo para Pernambuco, o que decididamente faria no primeiro vapor. — O certo é que vapores passam, e tonam a passar e tu vais ficando, objetou-lhe um dia o coronel que abstinha-se de falar na normalista. — ... Mas, ora, há tempo bastante para tudo. Os exames começam tarde este ano. — Qual tarde, meu filho! tu estás perdendo um tempo precioso quando já devias estar lá. Havia ente os dois, pai e filho, uma familiaridade moderna, como se fossem apenas irmãos. A esposa do coronel é que não se envolvia em questões. Adorava o filho, é verdade, tratava-o com todo carinho, tinha orgulho nele, mas, sempre muito boa, respeitava as resoluções do Zuza e evitava contrariá-lo na mais pequena coisa. Demais, D. Sofia estimava até que o filho se demorasse o mais possível em sua companhia. A formatura do Zuza era para ela uma questão secundária que havia de se resolver mais cedo ou mais tarde; de si para si achava que o estudante tinha pouco amor aos estudos, mas não revelava este seu pensamento a ninguém. Vivia constantemente incomodada, com fortes dores no útero provenientes de um parto infeliz em que fora preciso arrancar a criança a fórceps. Era uma senhora de quarenta anos com todos os característicos de uma boa esposa; inimiga de passeios, importando-se pouco ou nada com a vida elegante, arrastando a sua enfermidade incurável pelo interior sossegado da casa. O Zuza tinha-lhe uma afeição supersticiosa. D. Sofia era a única mulher sincera e boa no mundo a seus olhos de filho agradecido. Um pedido, um desejo de sua mãe era satisfeito imediatamente, sem considerações, custasse o que custasse. Ela, por sua vez, a pobre senhora, retribuía-lhe o afeto com a mesma dedicação, com o mesmo desprendimento, não contrariando o mais leve pensamento do rapaz. “— É o que me obriga vir ao Ceará, dizia ele, é minha velha, do contrário jamais eu tornaria a esta província insuportável.” Mas entravam e saiam vapores e ele deixava-se ficar com o seu tédio, preso irresistivelmente aos olhos cor de azeitona da normalista como a uma forte cadeia de ferro. “— Tinha tempo, tinha tempo...” repetia, decidido a passar o Natal em, Fortaleza. Que diabo! deixassem-no ao menos provar o tradicional aluá. Os exames? ninguém se incomodasse, faria-os em março; era até melhor, porque assim podia estudar mais e “fazer figura”. E os dia passavam e cada vez mais crescia no seu espírito o desejo veemente, a ambição romântica de possuir completamente aquela rapariga que se tinha apoderado de todo o seu coração. Queria para esposa uma mulher nas condições de Maria do Carmo, órfã, de origem obscura e pobre. Decididamente casava-se desta vez embora isso custasse algum desgosto ao pai. Todo homem deve ter a liberdade de escolher a mulher que melhor lhe quadrar. — Mas olha que a rapariga é normalista... lembrava José Pereira maliciosamente. Que importava isso? Fazia muito bom juízo da sociedade cearense para não acreditar que todas as normalistas do Ceará fossem indignas de um rapaz de certa ordem. O que queria é que a pequena soubesse corresponder à sua confiança. 9 Foi num sábado, à noite, que se realizou cerimoniosamente, com toda a pompa de uma festa de província, o casamento da Lídia com o guarda-livros, na igreja de N.S, do Patrocínio. Às sete horas parou à porta da viúva Campelo um carro e saltou o Loureiro todo de preto, gravata branca, o cabelo lustroso, repartido ao meio em trunfas, empunhando o seu famoso clak. Estava glorioso dentro da sua casaca de pano fino mandada fazer especialmente para o ato. Que festa na rua do Trilho! No quarteirão compreendido entre a rua das Flores e a do Senador Alencar, notavase um movimento desusado de gente que se debruçava às janelas e parava na calçada e nas esquinas para esperar a saída dos noivos. Uma curiosidade flagrante estampava-se na fisionomia dos moradores que assistiam basbaques à chegada dos carros, comunicando a sua ruidosa alegria àquele pedaço de rua habitualmente silenciosa e sossegada. Havia folhas tapetando o chão defronte da casa da viúva onde reinava agora uma estranha aglomeração de pessoas de ambos os sexos, compactas, abafadas, espremidas entre as quatro paredes da pequena sala de visitas. A noiva estava acabando de colocar a grinalda quando entrou o Loureiro muito teso com um riso amável e desconfiado que lhe arrebitava o bigode espesso. Dois sujeitos, também encasacados, de luvas, foram recebe-los à porta. —“Chegou o homem”, anunciou uma voz, e a estas palavras cresceu o zunzum propagando-se por ali fora entre os curiosos que se acotovelavam à porta da rua. E logo toda gente a repetiu transmitindo-se a grande notícia —“chegou o noivo!” — e todos os olhares caíram de chofre sobre o guarda-livros transfigurado em herói de comédia. D. Amanda, muito azafamada, tomou-o pelo braço e conduziu-o à sala de jantar para lhe oferecer um calizinho de vinho do Porto. Loureiro queixou-se do calor sacando fora as luvas, rubro, com a testa reluzente de óleo, metido num colarinho em folha, todo ele recendendo opopánax. Nunca ninguém o vira tão bem disposto, tão lépido, com um ar ao mesmo tempo condescendente e soberano de capitalista sem débito. —“A noiva estava pronta?” — perguntou. E, sem esperar resposta, começou a contar um incidente que lhe sucedera no hotel no momento em que se vestia. Nada, uma infâmia que não lhe atingia sola do sapato. Uma carta anônima contra a reputação de Lídia, coisas do Ceará, coisas dessa terra... Incomodara-se a princípio, o sangue subira-lhe à cabeça ao ler semelhantes torpezas, mas acalmara-se logo, porque não valia a pena a gente incomodar-se por uma carta anônima escrita em péssima letra e, o que era mais, acrescentou convicto o Loureiro, “sem assinatura”. A viúva não se inquietou, atarefada, suando, muito apertada na sua toilette de seda escarlate, os grandes seios ameaçando romper o corpete e uma rosa no cabelo. — Calúnias, nada mais, observou servindo o vinho. O guarda-livros emborcou o cálice à saúde da noiva, gabando a boa qualidade do Porto. A pequena sala de jantar, caiadinha de novo, tinha agora outro aspecto mais asseado e alegre, sem manchas de gordura nas paredes amarelecidas, como d’antes, com vasos de flores no aparador, iluminada à vela de espermacete. Sobre a mesa do centro coberta com um pano novo de riscadinho encarnado, pousavam duas lanternas em forma de sino, jarros, pratos com bolos e garrafas intactas dispostas em simetria. O chão de tijolo ainda estava meio úmido da baldeação que se fizera na véspera. De resto os mesmos móveis do costume: um lavatório de ferro com espelho defronte do corredor, a mesa de jantar, o aparador de nogueira e o guarda-louça, uma velha peça que fora do tempo do marido de D. Amanda. A verdadeira casa do Loureiro, o ninho em que ele ia passar a lua-de-mel com a Lídia, era no Benfica, uma casinha também de porta e janela, mas muito fresca e alegre, nova, ainda cheirando à tinta. Resolvera não fazer festa. Um “copito” de vinho aos amigos, um taco de bolo e o deixassem em paz com a sua “querida”. Tinha feito muitas despesas com o casamento. Da igreja iria diretamente para a “chácara”, onde ficava à disposição dos amigos. Isso de pândega em noite de núpcias não era próprio, achava uma formidável maçada. Demais não era nenhum milionário para não contar o dinheiro que gastava. Uma miniatura a casinha do Benfica, um sonho do poeta lírico, assobradada, com a sua fachada azul ainda fresca, recebendo em cheio até o meio-dia toda a luz do nascente. Logo à entrada havia uma escadinha de três degraus, d’onde se via, lá dentro, nitidamente, como por um cristal muito límpido, a sala de jantar e as bananeiras do quintalejo, de um verde tenro... Sala e visitas, alcova, comunicando com um quarto, casa de jantar, varanda, dispensa, quarto para criado, cozinha e quintal, tudo asseado e confortável, com uns tons aristocráticos matizando a compostura graciosa dos móveis, papel claro nas paredes, e lustres na sala de visitas. Concluídas as obras da casa, o trabalho de renovação, Loureiro dera-se pressa em mobiliá-la a seu jeito, conforme as suas posses e os seus hábitos de empregado zeloso e metódico. Não pedira conselhos a ninguém; escolhera ele mesmo os móveis e objetos decorativos, tudo novo e lustroso, como se tivesse saído da fábrica naquele instante. Mandara vir dos Estados Unidos, por intermédio da casa Confúcio, um piano americano e uma máquina de costura. E uma vez tudo pronto, tudo no seu lugar, passou uma revista geral na casa, desde a sala de visitas até ao fundo do quintal, admirando com a alma cheia de satisfação a espécie de paraíso que ele próprio criara para si. “— Sim, senhor, tinha cumprido rigorosamente o seu dever. Estava tudo que nem um brinco! Agora, sim, podia casar.” Lídia pasmou diante daquele novo mundo que se lhe oferecia à vista. Nunca pensara que o guarda-livros soubesse preparar uma casa com tanta graça. Pelo primeira vez na sua vida o Loureiro revelara-se um homem moderno e civilizado. Estava encantada! Já agora não invejava a sorte de Maria do Carmo: o Loureiro podia competir com o Zuza em bom gosto! Quem diria? Supunha o guarda-livros mais tolo, mais ignorante e sensaborão. Agora estava convencida de que o seu homem era capaz de fazer figura em qualquer sociedade. Percorreu todos os aposentos, revistando os móveis, admirando a qualidade fina dos objetos, com exclamações de íntima alegria. Sentou-se ao piano e ensaiou uma escala achando-o excelente. — Esplêndido, hein, mamãe? Melhor que o das Cabraes! Mirou-se ao espelho, uma peça magnífica, de cristal, que o guarda-livros comprara num leilão particular por preço exorbitante. Subia de ponto a satisfação da rapariga. Esteve quase se atirando ao pescoço do noivo e beijando-o agradecida; conteve-se porém. A viúva, essa acompanhava a filha, embasbacada, dando graças a Deus por ter encontrado semelhante genro. —“Olha isto, menina, olha aquilo!” dizia, muito gorda chamando a atenção da Lídia. Da sala de visitas passaram à alcova. O guarda-livros guiava-as, na frente, explicando os melhores detalhes, a procedência dos objetos, o seu valor. — “Oh, a cama! saltou a Lídia, sentando-se no belo leito de ferro azul com esmaltes d’ouro, armado à inglesa em forma de dossel. Achava muito elegante as camas que se estavam usando. Experimentou o enxergão de arame calcando-o com o corpo. Magnífico! A viúva também se sentou um instantinho, e continuaram a visita. Era quase noite quando se retiraram. Agora, uma semana depois, num sábado, toda agente falava no casamento da Campelinho como d’um acontecimento extraordinário. A Campelçinho, hein? Quem diria!... Uma felizarda! E todos comentavam o fato com ruído, recapitulando a vida inteira da viúva e da filha, lembrando episódios, cochichando malícias, prognosticando o futuro da rapariga, admirando a boa fé do Loureiro. Coitado, ele talvez ignorasse mesmo certos pormenores da vida da Lídia... Daí quem sabia? talvez fossem muito felizes. Conheciam-se moças mal comportadas que, depois, casando-se tinham-se tornado verdadeiras mães de famílias. O Guedes, da MATRACA, esse, logo às seis horas começou a beber no Zé do Gatto mais o Perneta, vomitando todo o seu despeito contra a Lídia que ele cobria de impropérios aguardentados. Debalde o Perneta procurava acalmá-lo, o Guedes estava fora de si, com os olhos ensangüentados, esbravejando como uma fera. — Deixa-te disso, ó Guedes, aconselhava o Perneta. Olha que te podem ouvir, homem! — Que ouçam, que ouçam, cambada de infames! E batendo no peito orgulhoso: — Esse aqui beijou muito aquela tipa, sabes? Não preciso dela para coisíssima alguma, estás ouvindo? Aquilo é uma sem vergonha muito grande, aquela fêmea! — Cala a boca, menino... — Cala a boca, porque? Pensa você que tenho medo de caretas? Hei de dizer o que eu muito bem quiser, fique você sabendo! — Quem te diz o contrário, homem de Deus? O que não é bonito é estares por aí a dizer asneiras. De vez em quando aproximava-se o Zé Gato e suplicava que não falassem tão alto, que na rua se estava ouvindo. Mas o Guedes não atendia a coisa alguma, com o pensamento na Lídia, transbordando cólera, possesso. Escureceu e ele ainda lá estava no fundo da bodega esvaziando cálices de aguardente, a falar desesperadamente. Às sete horas dois foguetes queimados defronte da casa da viúva Campelo, no Trilho, deram sinal de que os noivos iam sair. Com efeito, d’aí a pouco surgiu na calçada a Campelinho caracterizada em noiva, afogada em seda branca, com uma auréola de imortalidade, cabisbaixa, pisando devagar, de braço com a firma Carvalho & Cia. E àquela aparição levantou-se um rumor em todo o quarteirão. “Já vem, já vem!” era a voz geral. Logo após vinha o Loureiro com a viúva, em seguida Maria do Carmo e um rapaz empregado no comércio, D. Terezinha, o Castrinho, e outras pessoas de mais ou menos intimidade, duas a duas. O cortejo desfilou a pé, ante a curiosidade indiscreta da vizinhança que se debruçava na janela para ver melhor a noiva. —“Como aquilo ia orgulhoso!”, disse Justina Proença, uma paraense equívoca, vizinha de João da Mata. —“Tão besta é um quanto o outro”, murmurou a mulher do barbeiro, num muxoxo. Moleques com tabuleiros de doces na cabeça acompanhavam o préstito. De repente houve um fecha-fecha na esquina onde iam dobrar os noivos. Que é? Que foi? Recomeçou o zunzum mais forte, como um zumbido de abelhas num cortiço e os boatos circulavam vertiginosamente. Toda a gente queria saber o que era, o que tinha acontecido. A verdade é que ao aproximar-se o “casamento” da venda do Zé Gato, saltou de dentro o Guedes, bêbedo como uma cabra, espumando, sem chapéu e pôs-se no meio da rua a vociferar obscenidades contra a Campelinho e mais o guarda-livros. Um escândalo. Soaram apitos; compareceram guardas de polícia; o Zé Gato saiu à rua para acalmar o borracho; foi alterada a ordem do préstito; a Lídia ficou branca debaixo do véu e ia tendo uma síncope; o Loureiro quis avançar contra o desordeiro, mas foi detido por João da Mata... Afinal de contas, depois de alguns segundos, fez-se a ordem e o “casamento” seguiu em paz, direto à igreja do Patrocínio. O Guedes forcejara por evadir-se dos braços do Zé Gato e d’outro sujeito, que procuravam conduzi-lo à venda. — Sou eu que te pedes, ó Guedes, vamos. Deixa de tolices, rapaz; estás dando escândalo, homem! — Não vou, porque não quero, está ouvindo? Não vou, porque não quero. Eu hoje faço o diabo! E agachava-se, e caía p’ra trás e tombava para os lados, sem gravata, os olhos esbugalhados, os cabelos em desordem, como um doido. Foi uma luta para acalmá-lo. Por fim o Zé Gato mandou vir uma xícara de café sem açúcar, deu-lhe a cheirar limão, e em pouco, o redator da Matraca dormia beatificamente, debruçado sobre a mesa de ferro onde serviam-se as bebidas. — Coitado! lamentou o vendeiro. Um talento famoso! É um segundo tomo de Barbosa de Freitas... Cerca de uma hora depois voltaram os noivos com o seu bizarro cortejo de amigos e amigas, mas agora vinham os dois na frente abrindo caminho, conversando baixinho, com um belo ar de familiaridade. Nas fileiras do préstito havia um rumor de franca liberdade. Falava-se um pouco alto, ouviam-se risadinhas gostosas, tinha-se perdido a cerimônia grave de momentos antes. A volta não se parecia com a ida. A alegria dos noivos comunicava-se instintivamente aos circunstantes como se na verdade estes compartilhassem da íntima felicidade daqueles. Outra vez a casinhola da viúva encheu-se que num um ovo. No meio dos convidados havia estranhos que invadiam a sala sem cerimônia, imiscuindo-se no tumulto de gente como se fossem amigos velhos, de paletó saco e gravatas de cores espaventosas. Ninguém os conhecia, mas ninguém ousava despedi-los, deixando-os ficar, por uma condescendência razoável. Curiosos de ambos os sexos debruçavam-se da parte de fora das janelas para dentro, espremidos uns contra os outros. Os noivos tinham se sentado no sofá, defronte à janela, aconchegados, prelibando as delícias do matrimônio na casinha do Benfica. Loureiro limpava devagar com o lenço recendendo opopánax o suor que lhe corria em gotas da testa, encarando com supremo orgulho a curiosidade pulha dos circunstantes. Pousava os pés sobre o tapete deixando ver as meias de seda cor de carne com pintas de ouro. Lídia estava divina com sua suntuosa toilette de noiva comprimindo-lhe os quadris rijos e carnudos, muito séria, o rosto afogueado. O guarda-livros contemplava-a de instante a instante com um profundo olhar apaixonado de dono que acaricia um objeto querido, sentindo-se mais que nunca irresistivelmente atraído pela formosura sensual da Campelinho. D. Amanda, sempre muito solícita, veio convidá-los para a ceia: que estava pronto o chá, e logo toda gente enfiou pelo corredor atrás dos noivos, sequiosa de cerveja e vinho do Porto. Um rubor de ocasião solene tomou as faces do Castrinho, disposto já a brindar os noivos num grande rasgo de eloqüência demostênica. A saleta de jantar resplandecia à luz dos dois castiçais de vidro com mangas em forma de sino, colocados nas extremidades da mesa. A um canto, sobre uma mesinha de pinho, uma bateria de garrafas de cerveja desafiava a ganância dos convidados. Houve um assalto à mesa. Todos acercaram-se dela com a avidez de gastrônomos, e, antes que os noivos tomassem assento à cabeceira, já havia alguém sentado no extremo oposto. O Castrinho não pode reprimir um — oh! de indignação, que felizmente passou despercebido. —“Sentem-se, sentem-se”, ordenava a viúva, inquieta como uma barata à volta da mesa, indicando as cadeiras. Todos se sentaram com ruído, acotovelando-se. Ao lado dos noivos os padrinhos, Carvalho & Cia. e a esposa, tinham o ar modesto de quem se vê cercado de honras imerecidas. O Castrinho que não faltava à festa alguma dessa ordem, sentou-se ao centro com uma comoção visível no olhar agitado. Os curiosos da rua tinham invadido o corredor e assistiam em pé, ao redor da mesa, àquela cena banal de doze pessoas que comiam bolo à guisa de pirão de farinha; ao todo eram quatorze, mas o Loureiro e a Lídia, por um escrúpulo mal entendido, apenas provaram o delicioso manjar e cruzaram o talher. O Castrinho não se fez demorar muito. Quando menos se esperava, ei-lo de pé, empunhando o cálice. — Silêncio, silêncio! advertiu uma voz. O poeta das Flores Agrestes pigarreou solenemente abrangendo com um olhar vitorioso toda a saleta, e enfiando a mão direita no bolso da calça. com um grande ar de tribuno acostumado a falar às massas, começou: — Meus senhores... e minha senhoras.... Fez-se um silêncio grave e recolhido, em que se destacava apenas, muito de leve, o ruído dos talheres que continuaram a funcionar ativamente. — Eu faltaria ao mais sagrado dos deveres.... Uma voz: — Não apoiado. — ... Si neste momento solene, em que toda a natureza veste-se de gaias para receber em seu vastíssimo seio os noivos presentes... eu, o mais humilde amigo desta casa... — Não apoiado... —... não erguesse a minha fraca voz... para saudar... para saudar o himeneu destas duas criaturas (apontando para os noivos) nascidas “no mesmo galho, da mesma gota de orvalho”... como diria o nosso Casimiro de Abreu... — Bravo! murmurou o mesmo apartista dos não apoiado numa voz cava, com a boca cheia. O orador, visivelmente inquieto, sem tirar a mão de dentro do bolso, endireitou a gravata com pancadinhas suaves, e, mergulhando o olhar na fruteira, continuou: — Sim, meus senhores... e minhas senhoras, o casamento é a base de toda a sociedade civilizada; o casamento, como dizia certo escritor, cujo nome não vem ao caso citar... o casamento é a mais nobre de todas as instituições, e o homem que se casa dá um passo para o infinito, isto é para Deus!... Uma salva de palmas cobriu as palavras do Castrinho, que agradeceu comovido. No peito de sua camisa, muito alva e lustrosa, reluzia uma pedra duvidosa. Crescia a animação da festa. Os talheres batiam nos pratos com mais força e as palavras do liceista comunicavam ao auditório certo entusiasmo sereno que se traduzia em apetite voraz e insaciável secura nas gargantas. Ouviam-se trabalharem as mandíbulas. Houve uma pausa depois da qual o Castrinho, tomando o cálice cheio, concluiu com ênfase: — Portanto, eu brindo ao ditoso par, desejando-lhe um futuro de rosas banhado pelos eflúvios do amor conjugal... E, escorropichando o cálice: — Aos noivos! — Hip, hip, hurra! Todos se levantaram. — Loureiro... — D. Lídia... — Sr. Castro não quer se servir de um pedacinho de bolo de mandioca? ofereceu a viúva por trás do poeta. — Agradecido, minha senhora, agradecido... Estou satisfeito. — Então, mais um copo de vinho... Aceitava, pois não. — Não façam cerimônia, minha gente, observou D. Amanda. Já acabou, Sr. João da Mata? Um pinguinho de doce de caju, Sr. Alferes... E você, menina, coma sem cerimônia. Maria do Carmo não podia disfarçar a tristeza, a ponta de inveja concentrada que lhe tomava de assalto a alma inteira. Sentara-se à mesa por civilidade, para corresponder aos reclamos da viúva, mas o seu único desejo era ir-se embora para casa; a festa da amiga fazia-lhe mal aos nervos, e, demais, o Zuza proibira-lhe de ir a qualquer parte onde ele não estivesse. Fora ao casamento da Lídia, porque o padrinho a obrigara, não por sua espontaneidade. E agora ali estava casmurra, silenciosa, com um arzinho recolhido de filha de Maria, vendo sem ver, ouvindo sem ouvir, as pessoas e os ruídos, numa abstração infinita, no meio de toda aquela gente que festejava o casamento da amiga. Agora, mais do que nunca, por um excesso de sensibilidade nervosa, doía-lhe no coração de pomba desolada não poder, como a Lídia e como outras tantas raparigas felizes, amar livremente, sem ter que obedecer aos caprichos de um padrinho atrabiliário e despótico como João da Mata. Enquanto os outros divertiam-se sorvendo cálices de vinho, saudando aos noivos, ela, toda entregue a seus pensamentos, permanecia muda e bisonha como quando pela primeira vez. apresentara-se à sociedade, logo ao chegar de Campo Alegre, menina ainda, matutinha. Ah! naquele tempo ela tinha o seu papai e a sua mamãe perto de si, não era como agora, anos depois, uma simples, uma pobre, uma desprezada órfã, assistindo com uma grande tristeza egoísta derramada nalma à felicidade alheia triunfante... — Atenção, meus senhores! Atenção! Desta vez ia falar o alferes Coutinho, quartel mestre do batalhão, um moreno, de costeletas, cabelo penteado em pastinhas, certo ar arrogante de pelintra acostumado a todas as festas, desde os sambas do Outeiro aos bailes do Clube Iracema, magricela, olhos cavados. Nas horas d’ócio dava-se ao luxo de fabricar sonetos no gênero piegas dos últimos trovadores de salão. Arrastava ao piano as valsas em moda e dizia-se exímio tocador de flauta. Convidado à toda parte, não perdia ocasião de exibir-se na poesia ou na música. Tinha fama de primeiro recitador do Ceará, ninguém como ele sabia marcar um quadrilha, todo enfezado, sempre de lenço na mão, metido invariavelmente na sua farda de alferes com colete branco. Houve um silêncio profundo. Todas as vistas caíra, de chofre sobre o militar como se de sua boca fossem sair preciosas revelações. Era o alferes Coutinho? Oh? magnífico! Psiu! psiu!... Silêncio!... — Meus senhores. Respeitabilíssimas senhoras... Não dispondo de dotes oratórios, tão úteis nas ocasiões solenes como esta, eu, que tenho a honra de pertencer à falange dos discípulos de Castro Alves, Casimiro de Abreu, Varela e tantos outros astros de primeira grandeza, que brilham no firmamento da poesia brasileira, eu vou ler uns versos de minha lavra, que tomei a liberdade de dedicar aos donos desta festa inolvidável... Nem um aparte. O mesmo silêncio cauteloso e recolhido. A noiva abaixou a cabeça afetando modéstia e Loureiro fixou o olhar atrevidamente no orador. Mas o Coutinho, calmo e desembaraçado, sacou do bolso da farda um papel, e lendo: — Noite de Núpcias é o título dos pobres versos... — Não apoiado... — ... que tenho a honra de oferecer a Excia. Sra. D. Lídia, uma das estrelas mais fulgurantes que ornam o céu da sociedade cearense... Lídia estremeceu com um belo sorriso de agradecimento, —... e ao Sr. Dias Loureiro, inteligente e zeloso guarda-livros da nossa praça, ambos, portanto, dignos um do outro e da nossa eterna amizade... — Apoiadíssimo, confirmou Carvalho & Cia, palitando os dentes. Sem mais preâmbulos, o alferes entrou a declamar com uma convicção admirável os tais versos de sua lavra, uma enfiada de palavrões antigos e bolorentos, que ele procurava animar com sua voz de trovão, seca e cavernosa, brandindo o papel com a mão esquerda e a direita gesticulando como se estivesse a marcar compasso de música. Ao terminar o último verso — “Chovam bênçãos de amor sobre os que casam!” Uma salva de palmas forte e prolongada ecoou na pequenina sala. — Bravo! muito bem! muito bem! E o poeta sentou-se agradecendo com repetidos movimentos de cabeça as manifestações de que era alvo. Diversas pessoas levantaram-se e foram cumprimentá-lo de perto. Um velho calvo que se sentava a seu lado, lembrou-se de perguntar-lhe ao ouvido “Se o Sr. Alferes era cearense”. — Não senhor, respondeu o Coutinho, voltando-se gravemente, sou guasca, nasci na cidade de Porto Alegre. E contou quando viera para o ceará, disse a sua grande simpatia por essa província e que pretendia casar com uma cearense. O “brinde de honra” foi feito em duas palavras por Carvalho & Cia à D. Amanda, “encarnação de todas as virtudes domésticas, senhora de incomparável brandura e sisudez”. — Hip! hip! hip! hurrah! Foi um delírio esse final de banquete nupcial, em que tomavam parte o exército representado pelo Alferes Coutinho, a poesia na pessoa do autor de Flores Agrestes e o comércio em grosso simbolizado no ventre obeso de Carvalho & Cia. Esgotaram-se as botelhas de vinho do Porto e de cerveja com um açoitamento de quem não bebia água há três dias e depara uma piscina abundante do precioso líquido. E, ao levantarem-se da mesa, os convidados olhavam com soberano desdém a toalha manchada de nódoas de vinho sobre a qual havia um confusão grotesca de copos e pratos em desordem, abandonados ali como restos de um festim sardanapalesco. Uma coisa tinha sido respeitada e conservava-se no mesmo lugar em que fora colocada pela mão zelosa de D. Amanda, era o paliteiro de prata representando um alcaide com chapéu de três bicos e aspecto napoleônico, de braços cruzados , numa imobilidade de objeto de luxo que se receia tocar por escrúpulo. Os espectadores intrusos evacuaram o corredor com a mesma facilidade de ligeireza com que se tinham introduzido e depressa a sala de jantar ficou entregue à viúva e ao criado. que se ocuparam de cobrir os restos dos bolos, recolhendo-os ao guarda-comidas. O troço dos comensais, homens e senhoras, enchiam a sala de visitas, cujas cadeiras estavam todas ocupadas, e palrava agora desembaraçadamente numa atmosfera pesada de fumaça e heliotrópico, — umas abanando-se com os grandes leques de cetim, outros com os lenços , porque o calor crescia. Transpirava-se por todos os poros, o que fazia o alferes Coutinho trazer constantemente o lenço no pescoço, resguardando o colarinho, onde já havia sinal de suor. A janela estava tomada por algumas pessoas que formavam roda ao redor do Loureiro, em pé. Senhoras entravam e saíam da alcova com ar desconfiado, compondo discretamente os vestidos. Deram dez horas no relógio da Sé, cujas badaladas faziam-se ouvir, graves e sonolentas, em todo o âmbito da cidade. Dez horas! Carvalho & Cia. consultou o relógio. Havia uma pequena diferença de dez minutos. Safa! o tempo voava!. E, alto, levantando-se: — Vamos, Quininha? — É muito cedo, acudiu a Lídia, que conversava com Maria do Carmo no sofá. — É verdade, minha gente, saltou D. Terezinha, saindo da alcova. Os noivos precisam descansar. Dez horas! — Estávamos tão distraídos! disse o alferes Coutinho puxando os punhos. — Vamos, vamos, repetiram muitas vozes. — É cedo, minha gente! implorava a Lídia muito amável, com um sorriso de irresistível faceirice. Imediatamente todos se levantaram impulsionados pela mesma idéia, à procura dos chapéus, num reboliço crescente, aos encontrões, enfiando pela alcova e pelo corredor. Estrondou um bocejo senil e demorado, que se propagou por ali a fora — era o velho calvo, de óculos, que se tinha encafuado a um canto da sala cochilando, e que despertara agora num espreguiçamento como se estivesse em sua própria casa. As senhoras agasalhavam-se nos fichus, defronte do espelho. D. Amanda, de um lado para outro, de dentro para fora da alcova, não descansava as pernas. Começaram as despedidas. Que de beijos estalados à queima roupa! Em pé no meio da sala, os noivos, competentemente formalizados, agradeciam reconhecidos a chuva de felicitações que caiam sobre eles à guisa de flores desfolhadas sobre suas cabeças, ao mesmo tempo que Lídia ia distribuindo a uns e outros botões de laranjeiras. Que fossem muito felizes; que tivessem uma eterna lua-de-mel; que fossem muito unidos sempre como dois irmãos; que não esquecessem as velhas amizades... — Olhe, minha filha, aconselhou D. Terezinha com a mão no ombro da Lídia, depois de a ter beijado. Olhe, seja sempre boa para seu maridinho, faça o que ele quiser, o que ele mandar. O homem é que faz a mulher e a mulher é que faz o homem. Adeus, ouviu? Todos tiveram mais ou menos o que dizer aos noivos. — Não esqueça o que lhe pedi, ouviu Lídia? recomendou de fora uma voz de mulher. — Boa noite! — Sejam felizes! — Durmam bem!... Em pouco todos tinham se retirado. Havia ainda alguns curiosos fora, na calçada. Loureiro mandou aproximar o carro que o esperava. A rua estava silenciosa e escura como se fosse alta noite. Defronte, em casa de João da Mata, fecharam-se as portas apagando-se completamente a última luz que clareava aquele trecho da rua do Trilho. D. Amanda chamou a filha à alcova onde estiveram conversando alguns minutos, e depois, abraçando-a ternamente com os olhos úmidos: — Deus os conduza em paz... Lídia beijou comovida a mão da viúva e, dando o braço ao Loureiro, entrou no carro que rodou em direção de Benfica, com a sua luzinha amarela tremeluzindo no escuro. Minutos depois D. Amanda recebia, como de costume, o Batista da Feira Nova... 10 Quando chegaria sua vez? pensava Maria do Carmo nessa noite, sem poder conciliar o sono, com um desalento profundo no coração apreensivo. Que tal , hein? O Sr. Zuza não se resolvia a pedi-la em casamento, sempre com evasivas, pretextando tolices, como se estivesse tratando com uma biraia qualquer! Porque isso? porque não se decidia logo a dizer a verdade fosse ela qual fosse? Era sempre melhor do que estar perdendo tempo sem tomar uma resolução franca e definitiva. Quem sabe? talvez o padrinho não fizesse questão agora que a tratava tão bem, que lhe fazia todas as vontades... Uma felizarda a Lídia!... Casara com um guarda-livros, mas embora, casara... E imediatamente vinha-lhe uma confiança ilimitada no estudante. Já estava tão acostumada com ele que nem era bom pensar em uma deslealdade. Paciência, paciência — Roma não se fez em um dia... Consolava-se ao penar nas confidências íntimas do futuro bacharel, embebidas de ingênua e tocante sinceridade, na franqueza ativa com que ele dizia todas as suas idéias e todas as suas ações, como se já fossem noivos. Zuza contava-lhe tudo com a maior simplicidade, dava-lhe conta de seus passeios, de seus planos, de suas intenções. Pode-se mesmo dizer que não havia segredo entre os dois. Era lá possível que o Zuza, aquele Zuza tão amável, tão sincero, tão bom a esquecesse, ele que reprovava com frases repassadas de indignação o procedimento de certos indivíduos para quem a mulher outra coisa não é senão uma espécie de fruto amargo que a gente prova e deita fora? Qual! O Zuza era incapaz de descer até onde começava o rebaixamento do caráter de um homem... Animava-se ao fazer estas considerações tão simples, tão espontâneas, saídas do mais íntimo de sua alma enamorada. Tinha momentos em que tudo afigurava-se-lhe uma comédia, cujo protagonistas — o estudante — aprazia-se em vê-la rendida a seus pés por um simples capricho de rapaz do mundo que se diverte à custa de muitas raparigas como ela, ainda não corrompidas pelos costumes modernos. Nascida no interior de uma província essencialmente católica, educada em um colégio religioso, o convívio com as suas colegas da Escola Normal não lhe apagara de todo essa bondade característica dos filhos do sertão, que se revela em uma confiança ingênua nos outros. Por isso é que ao mesmo tempo Maria não podia acreditar que o Zuza faltasse à sua palavra para com ela. Duvidava às vezes, mas não perdia de todo a confiança, porque amava deveras, e o amor transforma a pessoas ou objeto querido numa espécie de ídolo, que a gente adora como a um modelo de virtudes incomparáveis. Quando chegaria sua vez? E a figura de João da Mata surgia-lhe aos olhos como uma visão pavorosa, que a fazia estremecer da cabeça aos pés. Sim, o padrinho não gostava que se falasse no Zuza, implicava com ele, odiava-o gratuitamente, sim, gratuitamente, porque o rapaz nunca lhe fizera o menor mal, até pelo contrário, uma vez lhe emprestara cinqüenta mil réis, e ela o sabia pela boca de D. Terezinha. Que infelicidade, a sua, que caiporismo! além do padrinho não gostar do Zuza, aquela casa parecia agora um verdadeiro inferno: era o padrinho para um lado e a madrinha para o outro, ambos de cara fechada, sem se trocarem palavras, e ela, Maria, para um canto, coitada, sem amigas, sem parentes, vivendo uma vida de criminosa... Que maldito inferno!... Antes nunca tivesse nascido. Onze horas... meia noite! e ela ainda velava, sem um bocadinho de sono, a matutar na vida, a pensar em frioleiras. Entrou a parafusar no casamento da Lídia, rememorando toda a festa, tintim por tintim, com a pachorra de quem procura armar um castelo de cartas. — Assim mesmo tinha ido muita gente, sim senhora, parecia até uma festa de gente rica. Inegavelmente a Lídia estava encantadora debaixo do véu de noiva. Nunca vira a igreja de N.S. do Patrocínio tão cheia de povo! Ah! mas fora uma coisa horrorosa o escândalo provocado pelo Guedes. Que horror! Se fosse ela, Maria do Carmo, teria caído no meio da rua com um ataque... Palpitavam-lhe a imaginação, como num sonho, os menores acidentes daquela noite, em que todos tomaram o seu cálice de vinho e só ela, irressistivelmente mordida de inveja por ver a sua maior amiga num torno de felicidade, ela somente se deixara ficar esquecida como qualquer lagalhé, na impotência da sua tristeza. Entretanto, se não fora o padrinho, ela também podia breve estar de caminho para a igreja, ao lado de seu noivo, metendo inveja às outras. Então é que a festa seria d’estrondo! O coronel Souza Nunes abriria o seu salão iluminado como um palácio real, e haveria dança e música e um banquete lauto. E iria o presidente da província e toda a gente grande do Ceará. Que bom que seria!... Nisto adormeceu e logo tornou-lhe a aparecer em sonho o negro Romão com as calças arregaçadas e um barril na cabeça a gritar —Arre corno! cercado de garotos que lhe atiravam pedras e sacudiam-lhe punhados de farinha-do-reino na carapinha, por detrás no meio de gritos e assobios. Depois o preto deixou cair o barril, que se derramou, inundando a calçada de imundícias, e ei-lo montado num cavalo magro, a fazer de palhaço de Circo, uivando uma porção de asneiras, que a molecagem replicava sempre com o mesmo estribilho, a uma voz: — É sim, sinhô! Depois.... (não se lembrava o resto) Davam duas horas no relógio do vizinho, quando acordou muito assustada e nervosa, a olhar para todos os lados, sem consciência exata do ambiente que a cercava. Teve um sobressalto ao ver sobre uma cadeira, perto da rede, o vestido com que fora ao casamento. — Credo, que susto! A luzinha da vela de carnaúba agonizava numa poça de cera derretida. E essa! Era a segunda vez que sonhava com o Romão, sem quê nem p’ra quê... Com certeza estava para lhe suceder alguma desgraça. Que esquisitice! hum, hum,... A porta do quarto, que se conservava entreaberta, rangeu nas dobradiças, como se alguém a empurrasse de manso. Apoderou-se de Maria um pavor terrível; arrepiaram-se-lhe os cabelos, e uma extraordinária sensação de frio percorreu-lhe o sangue. Ficou assombrada, sem se mexer, com o ouvido alerta e os olhos fechados, numa prostração de quem está sem sentido. Pareceu-lhe ouvir chamar pelo seu nome e então subiu um ponto o terror que lhe tapava a boca como uma mordaça de ferro. Abriu os olhos para verificar se com efeito estava acordada e tornou a fechá-los mais que depressa. Instintivamente fez um esforço supremo para gritar, para chamar alguém, mas não podia abrir a boca, estarrecida. Maria? repetiu a mesma voz, que ela julgava ouvir, uma voz fina, mas abafada, como se saísse das entranhas da terra. E logo: — Sou eu, Maria. É o padrinho... De feito, João da Mata vinha-se chegando, pé ante pé, subtilmente, segurando-se à parede, equilibrando-se na ponta dos pés, como um ladrão, sem o menor ruído, com estalinhos de juntas. Maria encolheu-se toda debaixo do lençol duvidando. Tremia como um doente de sezões, embiocada que nem caracol. — Não grites, Maria, olha sou eu, teu padrinho, tornou João da Mata, agora quase ao ouvido da afilhada, agarrando-se ao punho da rede. A rapariga respirou forte, como se saísse de dentro de um buraco, e pôde abrir os olhos, meio aliviada, presa ainda de uma grande comoção. Ao medo sucedera-lhe uma apreensão dolorosa, que o seu espírito repelia como impossível. Não teve tempo de associar idéias, porque o amanuense foi se sentando na rede, a seu lado. — O padrinho por ali, no quarto d’ela, àquelas horas?... Estaria sonhando?... — Padrinho... — Sou eu mesmo, minha flor... Olha, queres saber uma coisa?... Deixe-me descansar um bocadinho e eu te direi, ouviste?... Espera... — Mas, padrinho!... — Olha, não fales alto... Sou eu, estás ouvindo? eu, teu padrinho mesmo... Bico... Maria do Carmo não compreendeu logo a presença de João da Mata ali no seu quarto, àquela hora. Fez-se uma confusão inextricável, caótica, no seu espírito subitamente assaltado por um turbilhão de idéias sem nexo, disparatadas; o coração pulsava-lhe forte, como se tivesse acabado de fazer um grande esforço; operava-se em seu duplo ser moral e físico um desses abalos extraordinários, que deixam a gente numa prostração invencível. Pela primeira vez na sua vida achava-se frente a frente com um homem, alta noite, no silêncio de um quarto escuro. Mal acordada do terrível pesadelo que acabava de ter, vendo ainda, esboçada na sua imaginação, a figura hedionda do negro com os bugalhos injetados, a boca abrindo-se num riso nervoso e alvar, o peito à mostra, a venta chata, ela permanecia imóvel, olhando para o escuro como uma idiota. A luz tinha se apagado completamente. Ouvia-se a respiração asmática da criada no quarto pegado à sala de jantar. Longe, nalgum quintal, ladrava um cão. Ao calor insuportável sucedia o friozinho bom da madrugada. João estava em ceroula, nu da cintura para cima. Desde que chegara da festa do Loureiro não fechara os olhos, a fumar no seu cachimbo curto, que preferia às vezes aos cigarros, andava-lhe na cabeça o plano há muito formado, de ir ao quarto da afilhada uma noite. Nada mais fácil: da sala de jantar, onde dormia agora, ao quarto eram dois passos; o diabo era se a menina abrisse a goela a chamar por gente, isto é que era o diabo!... Qual! ela não tinha coragem para tanto, mormente sabendo logo que era ele, o padrinho. — Mãos à obra, João; nada de pensar em asneiras. Isso a gente inventa uma história de embalar crianças, diz que a vida é esta, e ... foi um dia uma donzela. Oh! pois ela não é tua afilhada! demais, meu besta, já lhe pegaste umas tantas vezes no bico dos seios, sem que ela reagisse, a Maria, naturalmente porque sabes encampar a tua autoridade de padrinho. E depois, que diabo! Quem arrisca... Um, dois... E, com um salto, o amanuense levantou-se, dirigindo-se ao quarto da rapariga, cosendo-se às paredes, macio, cauteloso, todo agachado, pisando devagar, no bico dos pés descalços. A fresca da madrugada arrepiava-lhe o tronco magro e cabeludo. Ah! como se sentia bem agora, sentado na mesma rede em que ela dormia, sozinho com ela, adivinhando, no escuro, toda a incomparável perfeição de suas formas rechonchudinhas de rapariga nova! O calor brando do corpo dela comunicava-se agora a seu corpo, infiltrando-lhe no sangue um fluído bom e vigoroso. Sentia-se forte como um touro, ali assim a seu lado, ele, um pobre homem sem força, um magricela sem carnes. E Maria esperava, numa aflição, o desenlace daquela trapalhada que ela não compreendia bem. Estiveram ambos calados alguns minutos até que o amanuense, escorregando para o fundo da rede, pousou a mão sobre o ombro da afilhada, segredando-lhe — se ela estava com frio? — Frio? ... não ... — Pois olha, na sala de jantar, faz um frio dos demônios. Por isso eu vem para junto de ti... Maria não disse nada. Então o amanuense começou com uma lengalenga, um despropósito de palavras murmuradas como uma oração, numa voz que mal se ouvia, inclinado sobre a afilhada, sufocando-a com seu hálito nauseabundo, roçando-lhe no rosto a ponta da barba. — Olha, Maria, dizia-lhe, tu não sabes quanto eu abomino o Zuza... Há muito tempo que estava para te dizer umas certas coisas, mas era preciso segredo, muito segredo... Agora, que estamos sós, deixe que te fale com franqueza... Tu amas o rapaz, não é assim? Não mintas... sei que gostas muito dele, e até já se fala, na rua, em casamento. Ainda hoje alguém afirmou-me que vocês se beijam na Escola Normal. Eu sei de tudo, minha afilhada, eu sei de tudo. Mas, olha bem o que te digo, tudo depende de ti, só de ti... Maria estremeceu no fundo da rede, debaixo do lençol, e sentiu-se irressistivelmente presa às palavras de João da Mata. Se ele a quisesse deixar, nesse momento, ela não consentiria, tão viva era a sua curiosidade, agora que o padrinho lhe falara do Zuza; e o movimento quase imperceptível da rapariga não passou despercebido a João da Mata. — Sim, minha cabocla, tudo depende de ti, porque eu também te quero muito bem e não consentiria nunca nesse casamento, se... Olha, deixa dizer-te ao ouvido... E, colando a boca ao ouvido de Maria: — ... se não fosses boa para teu padrinho. Pouco a pouco o amanuense ia deitando ao lado da rapariga, acotovelando-a, machucando-a com o seu corpo ossudo, devagar, cautelosamente. “—Estava bem armada a rede? Era preciso comprar outra mais larga, mais rica...” Um grilo entrou a cantar monotonamente num canto do quarto — testemunha oculta daquela cena inacreditável. Entretanto Maria não dava palavra, com as pálpebras pesadas de sono, respirando a custo, numa espécie de inconsciência muda, como hipnotizada. Este estado porém durou pouco; espreguiçou-se, puxando o lençol para se cobrir melhor e começou a achar certo encanto naquela intimidade secreta, ombro a ombro com o padrinho. Seu instinto de mulher nova acordara agora obscurecendo-lhe todas as outras faculdades, ao cheiro almiscarado que transudava dos sovacos de João da Mata. Coisa extraordinária! aquele fartum de suor e sarro de cachimbo produzia-lhe um efeito singular nos sentidos, como uma mistura de essências sutis e deliciosas, desconcertando-lhe as idéias. Uma coisa impelia-o para o padrinho, sem que ela compreendesse exatamente essa força oculta e misteriosa. E quando ele, num tom paternal e amoroso, lhe falou no Zuza, Maria teve um frêmito bom, como se tivesse caído por terra o paredeiro que mediava entre ela e o estudante. Tudo dependia dela, somente dela... Ficou a pensar nestas palavras, sem atinar com o seu verdadeiro sentido, alheada, os olhos fitos, quase sem pestanejar, na telha de vidro, por onde escoava agora uma claridade tênue de alvorada; João respirou, e, passando-lhe o braço por trás do pescoço: — Então?... — É quase dia, padrinho, podem nos ver assim... — E que tem? já nos têm visto tantas vezes? Agora espera, só me vou se me deres uma boquinha... E, sem esperar resposta, o amanuense beijou-a na face, apertando-a contra si, numa impaciência de quem não tempo a perder. Maria repeliu-o brandamente. — Juro-te, continuou ele, juro-te que casarás com o Zuza, mas por amor de Deus, deixa... ou não contes comigo para coisíssima alguma. Por alma de tua mãe que está no céu. Olha, sou eu quem te pede... Ninguém saberá, o próprio Zuza não poderá saber nunca... É como se não tivesse havido nada, são segredos que não aparecem, sabes? Eu te peço... Tinha-se feito a verdade aos olhos da normalista, como um clarão que de repente iluminasse todo o quarto. ao mesmo tempo que uma luta medonha travava-se dentro de si, sem lhe dar tempo a pensar. Estava justamente em vésperas de ter o incomodo. Toda ela vibrava como uma lâmina de aço ao contato daquele homem que comunicava-lhe ao corpo um fluido misterioso, transformando-a numa criatura inconsciente atraída por um poder extraordinário como o de uma cobra sobre um rato. As palavras do padrinho, embebidas de voluptuosidade e o nome do Zuza pronunciado naquele instante e, mais que tudo isso, a invocação feita à alma de sua mãe, confundiam-lhe os sentidos, acordando no coração de donzela o que tinha de mais delicado. teve piedade de João, como se ele fosse na verdade o mais desgraçado dos homens. Sentiuo a seu lado, humilde como um ser desprezível que reconhece a sua baixeza, com uma tremura na voz, rendido, suplicante, e não teve coragem de o enxotar, de dar-lhe com a mão na cara e de desaparecer para sempre d’aquela casa imoral, onde ela vivia tristemente com as doces recordações de seu passado, como uma flor que vegeta num montão de ruínas. Ao contrário d’isto, a visível submissão do padrinho, doera-lhe nalma como a ponta d’uma lanceta. Sem o saber, João da Mata encontrou a afilhada numa dessas extraordinárias predisposições de corpo e alma. em que, por mais forte que seja, a mulher não tem forças para resistir às seduções de um homem astuto e audacioso. Conhecia suficientemente o gênio de Maria — nada mais, e isto lhe bastava para que a vitória fosse certa, infalível. De resto, algumas palavras atoa murmuradas à surdina, o contato morno de um corpo viril... e Maria do Carmo aumentava o número de suas dores. A madrugada veio encontrá-la de joelhos, mãos juntas, duas grandes lágrimas no olhar, como um anjo de sepultura, defronte da oleografia de Cristo abrindo o coração à humanidade. Nunca o doce e meigo olhar de Jesus pareceu-lhe tão meigo. Era domingo. Cantavam galos de campina nas ateiras do quintal. E enquanto, lá fora, a cidade acordava e a vida recomeçava seu eterno poema de alegrias e dores, Maria procurava no coração de Jesus um conforto para seu doloroso arrependimento. 11 Maria do Carmo passou uma semana inteira, oito dias consecutivos, sem ir à Escola Normal, sem pôr os pés na rua, sucumbida , mortificada, com receios de encarar os conhecidos, sem ânimo para se apresentar em público. Se até então a vida fora-lhe um nunca acabar de desgostos e contrariedades, o que seria agora, depois de se ter comprometido levianamente para todo o resto da sua existência, entregando-se, num momento de desvario dos sentidos, aos desejos concupiscentes do padrinho? Estava doida, não havia que ver, estava doida naquele momento, não tinha um bocadinho de juízo! Devia ter visto logo que uma mulher de certa ordem não se entrega por força alguma d’este mundo a outro homem, que não seja o seu marido, o dono de seu coração, o legítimo esposo de seu corpo e de sua alma. Que desgraçada imprudência a sua! Que vergonha, santo Deus, que vergonha! Era para isso que se tinha coração, para se deixar cair numa armadilha daquela... Se fosse uma mulher forte e resoluta, capaz de todos os escândalos, contanto que soubesse guardar a sua honra... bem, não teria sucedido nada. Mas, não : fora uma grandíssima tola, uma menina d’escola, deixando-se levar pelo coração até o ponto de compadecer-se do padrinho! Que infelicidade!... E chorava que nem uma criança, com a cabeça no travesseiro, metida no seu quarto, dizendo-se a mais infeliz de todas as mulheres, supersticiosa ao peso de sua culpa irremediável, com grandes manchas lívidas ao redor dos olhos, inconsolável na sua dor.. Às vezes supunha estar sonhando, como que procurava iludir-se a si própria, enxugava os olhos na ponta do lençol, via-se ao espelho e experimentava um bem-estar passageiro, um conforto muito íntimo; mas punha-se logo a pensar, a fazer consigo mesma mil conjecturas, e desandava outra vez num choro silencioso, que lhe sacudia o corpo todo em estremecimentos nervosos. Não sabia bem porque chorava; uma coisa, porém, dizia-lhe que nunca mais seria feliz em sua vida, desde o momento que, por sua condescendência imperdoável, entregara seu corpo àquele homem... À proporção que os dias passavam, sucedendo-se numa monotonia aborrecida, uniformes como os elos d’uma grande cadeia de ferro, crescia o desânimo em Maria do Carmo, cujas feições transformavam-se a olhos vistos. Tomava-lhe o rosto uma palidez de reclusa macerada pelos jejuns, cavavam-se-lhe os olhos, onde se refletia visivelmente o estado de sua alma, e os cabelos iam perdendo aquele brilho resplandecente que era o desespero do Zuza. Em uma semana sua fisionomia adquiria uma expressão iniludível de dor concentrada. No sábado recebeu um bilhete da Lídia convidado-a para jantar com ela no dia seguinte. “Espero-te sem falta. Todas as minhas amigas tem vindo me visitar, menos tu. Creio que não te dei motivo para procederes deste modo. Por andar incomodada é que ainda não fui te ver”. Quedou-se numa imobilidade profundamente triste, com a face na não, a olhar para a letra da amiga, escrita em papel-amizade, e ficou assim muito tempo, como num êxtase. Veio-lhe a mente o Zuza. Já não se lembrava d’ele, toda entregue à sua dor. Há uma semana que não o via, nem sequer tinha notícia dele, e agora o estudante aparecia-lhe vagamente na imaginação como a lembrança remota de uma coisa que se viu em sonho. As lágrimas começaram a cair-lhe dos olhos duas a duas, silenciosamente, sobre o bilhete de Lídia. Uma... duas... Duas horas da tarde. O amanuense ainda não tinha voltado da Repartição. D. Terezinha costurava na sala de jantar, cantarolando uma modinha cearense em desafio com o sabiá, que desferia seu eterno e monótono dobrado, esquecido ao sol. Havia no tépido interior d’aquela casa a calma preguiçosa d’essa hora do dia, em que se ouve o voar do moscardo impertinente e cantos do galo ao longe, nos quintais. Mariana suspirava na cozinha às voltas com as panelas, cachimbando. Sultão, esse dormia tranqüilamente o seu sono do meio-dia aos pés de D. Terezinha, orelhas murchas, deitado de banda. Todos os dias, invariavelmente, era a mesma quietação, a mesma sonolência, o mesmo ramerrão, até que viesse o amanuense com as suas hemorróidas ou com sua cachaça dar à casa o ar de sua graça. Freqüentemente João chegava às quatro horas, demorando-se às vezes até às cinco, o que não era muito raro. Nesse dia, porém, antes que o velho pêndulo da sala de jantar marcasse quatro horas, entrou de chapéu na cabeça, como de costume, para não constipar, e foi direto ao quarto da afilhada. “— Como tinha passado o dia? Muito fastio ainda!” — E puxando uma cadeira sentou-se ao lado de Maria, que ainda se conservava deitada. Ao pé da rede, sobre a esteira gasta, eternizava-se uma tigela com o resto de caldo onde flutuavam moscas. João fez um gesto de aborrecimento, e apanhando a tigela: — Mariana! Demônio de gente! Naquela casa ele é que fazia tudo, e, se havia uma pessoa doente, era o mesmo que nada. — Mariana! — Inhô! — Não está ouvindo chamar, seu diabo! D. Terezinha continuava a cantarolar, sem se dar por achada, por pirraça. Mariana apareceu à porta do quarto, sem casaco, os seios moles, dentro da cabeção da camisa tisnada. pés descalços, cabelos assanhados. João mediu-a com olhar, d’alto a baixo, e entregando-lhe a louça: — Por que ainda não tirou isto? — Estava cuidando do jantar... — Cuidando no jantar, hein? Cuidando no jantar?... Burra!... A criada, porém, deu-lhe as costas e saiu rindo com seu ar idiota. Uma pessoa somente interessava-se pela saúde de Maria do Carmo — era ele, João da Mata, cujos cuidados para com ela redobravam dia a dia. D. Terezinha, essa nem sequer chegava à porta do quarto, resmungando sempre, rogando pragas, dizendo indiretas, que Maria do Carmo ouvia com lágrimas nos olhos. Nunca João fora tão bom para a afilhada como agora: Trazia-lhe mimos da rua, bons bocados, confeitos, rendas, com uma solicitude paternal, animando-a, prometendo-lhe muitas felicidades, contando-lhe tudo quanto ouvia dizer na rua, dando-lhe notícias dos conhecidos. — Teve febre hoje? continuou ele tornando a sentar-se. — Não sei... — Deixe ver o pulso... Não, nem um bocadinho... Bom, não se amofine, hein, não se amofine. Amanhã, se Deus quiser, pode levantar-se. E baixo: — Tolice... Morrendo sem quê nem para quê! Se continuas, é pior... podem até saber... Isto a gente faz cara alegre e vai para a adiante, com as outras, minha tola... Olha a tua amiga Lídia... Casou e casou bem... E assim a maior parte... Deixa de tolices. Logo no dia seguinte à noite do seu defloramento Maria do Carmo queixou-se de fortes dores de cabeça e nos quadris, indisposição geral, e uma ausência quase absoluta de apetite. Não podia ver comida de espécie alguma nem sentir ao menos cheiro de guisados. Tudo a enjoava provocando-lhe náuseas. Cada vez que se lembrava de João vinham-lhe arrepios na pele e “agasturas na boca do estômago”. Pungia-lhe uma espécie de remorso, que a fazia passar horas inteiras numa abatimento medonho, encafuada no quarto, sem coragem para continuar a vida como dantes. Lamentava-se como uma desgraçada: — Que vida! que vida! Não quis almoçar e passou o dia com uma xícara de café, que a Mariana lhe levara. D. Terezinha não se abalava: era como se Maria do Carmo não existisse. Que fosse para lá com seus faniquitos, não tinha obrigação de criar filhos de ninguém. Antes de ir para a Repartição João lhe recomendara: — Olhe: Maria amanheceu doente. Está com uma pontinha de febre, não a deixe morrer de fome , hein... Foi como se não recomendasse, porque D. Terezinha nem sequer pôs os pés no quarto da rapariga. Limitou-se a dizer à criada: — Ouviste! Não deixes morrer de fome a mimosa. Ah! esse desprezo, essa indiferença da madrinha doía nalma de Maria como um insulto. Lembrava-se às vezes de a mandar chamar e pedir-lhe por amor de Deus que não a tratasse assim, que não a desprezasse... Mas ao mesmo tempo achava que isto era confessar a sua culpa, porque na verdade nunca houvera ente elas causa para o mais leve rompimento, a não serem as impertinências de João da Mata. Que culpa tinha ela se o padrinho dissesse desaforos à mulher? E assim ia passando agora, abandonada, sem uma pessoa que se interessasse verdadeiramente por sua sorte, a não ser João da Mata. — Trataram-na bem? perguntava o amanuense ao voltar do trabalho. — Trataram... murmurava ela. Mas a verdade é que Maria passava uma vida miserável De manhã, enquanto João ainda estava em casa, ele mesmo ia levar-lhe o café com torradinhas de pão, mas, depois, ela ficava entregue à preguiça da criada e à indiferença da madrinha, em termos de morrer de fraqueza. Davam-lhe um caldo ao meio-dia, único alimento com que ela esperava o jantar às quatro horas, quando o padrinho viesse. Por fim quase não podia suportar aquilo, e nove dias depois, um domingo, levantou-se resolvida a ir jantar com Lídia, ao menos por desfastio, que aquela casa era um horror! Mostrou a João a carta da amiga, acrescentando que até era bom para ela passar o resto do dia fora, no Benfica, ouvir tocar piano, distrair, enfim, porque andava muito triste. O amanuense aprovou prontamente: que sim! mas era preciso saber se já estava completamente boa, se não sentia mais nada. — Mais nada, passei muito bem a noite. João tomou-lhe o pulso com carinho. — Pois bem, vista-se e vamos. Amanhã pode até ir à escola, não é assim? E, noutro tom: — Não vale a pena a gente se amofinar por qualquer coisa, filha. A vida é isto mesmo — andar p’ra diante sempre com a cara alegre. Vamos, vá se vestir. Ainda não tinha dado meio dia no pêndulo. Maria foi ao quarto, abriu baús, mais consolada, escolheu o melhor de seus vestidos de cretone, um azul de riscados brancos, em pouco saiu do lado ao padrinho, traçando o fichu, sem dar palavra a D. Terezinha. Ninguém na rua do Trilho, deserta àquela hora como uma rua d’aldeia. Seguiram para a Praça Ferreira a tomar o bonde de Pelotas. Pouca gente na praça ensombrada por suas enormes mungubeiras. Dois sujeitos sentados um defronte do outro, jogavam silenciosamente o dominó no Café Java: Às portas da Maison Moderne famílias esperavam os bonds em pé, silenciosas, com ar de infinito aborrecimento. Dentro jogava-se bilhar. Muitas pessoas rodeavam uma das mesas para ver jogar o presidente, que, em colete, escanchado num ângulo da mesa, calculava o efeito das bolas. Maria teve um estremecimento ao vê-lo. Certo o Zuza também andava por ali... Instintivamente procurouo com o olhar. O José Pereira tomava cerveja a um canto mais o Castrinho. Os bonds iam chegando uns atrás dos outros , enfileirados. Antes de subir para o de Pelotas, Maria lançou um último olhar à sala de bilhares. O José Pereira sem o Zuza! Era realmente assombroso! Mas d’aí a pouco o bond rodava outra vez caminho do Benfica, e invadiu-lhe o coração uma melancolia sem causa, uma tristeza vaga que lhe deu vontade de estar só, de voltar à casa. Lídia veio receber a amiga de braços abertos, muito alegre, de branco, com papelotes no cabelo e sandálias de cetim. — Ora, até que enfim! Já não a esperava mais, Sra. D. Maria. Noiva de fidalgo... pudera! — Não diga isso, minha negra. não vim há mais tempo, porque tenha andado adoentada. Tu não imaginas... Cobriam-se de beijos. Lídia mandou-os entrar para a sala de visitas. — Como vai D. Terezinha, Sr. João? perguntou maliciosamente escancarando as janelas. — Bem, respondeu o amanuense num tom seco, pondo o chapéu sobre uma cadeira. E logo... — Homem, isto está que nem um paraíso! — Qual paraíso! Está nos debicando?... — Não senhora, longe de mim tal pensamento. O que digo é a verdade. O Loureiro preparou isto à fidalga.! E ia examinando, através dos detestáveis óculos escuros, os quadros, o papel da sala, o piano, os bibelots, com uma curiosidade infantil, estendendo o olhar de vez em quando até o interior da casa, disfarçadamente. Maria tinha-se sentado no sofá e por sua vez confirmava a admiração do amanuense: — Sim, senhora, tudo muito bem arranjadinho, muito chique... — Vejam só, vejam só, a graça! repetia a outra, sentando-se ao lado da amiga. — E o Sr. Loureiro como ia? inquiriu Maria. — Bem menina, muito atarefa do com o emprego. É uma vidinha cansada, esta de guarda-livros. O Loureiro, coitado, não tem sossego de espírito. Vive na loja, e, ainda por cima, trabalha em casa. Um horror! Tu é que estás magrinha: estou te achando tão abatida, tão pálida... — Saudades tuas... — Saudades, eu sei de quem... Riram. — Agora é que reparo, continuou Lídia muito amável, tira o fichu e vamos ver a casa. E levantando-se: — Preciso conversar muito contigo. Já não te lembravas de mim, hein?... Sr. João tenha a bondade de esperar um pouquinho — o Loureiro não tarde: está às voltas com a papelada. — Oh! minha senhora... João da Mata deliciava-se a observar os quadros e as estatuetas de terracota, de mãos para trás, como se estivesse numa exposição. Depois chegou à janela por onde entrava um arzinho puro impregnado de essência de resedás. Defronte enchia a vista o verde sombrio d’uma esplêndida floresta de cajueiros onde oscilavam pequeninos pontos amarelos e vermelhos quebrando a monotonia da paisagem larga e igual, batida de sol. O palacete azul do Loureiro perdia-se num fundo de verdura. À direita, lá longe, na esquina de um grande sítio, passava a linha de bonds. E que frescura! Dava vontade à gente pecar muitas vezes por dia, como Adão no Paraíso, ali assim, naquele pedacinho do Ceará, sem seca e sem política, entretendo relações sentimentais com a natureza agreste e sincera. — Bom para se copiar um balanço, isto aqui, costumava dizer o ingênuo guardalivros. João pôs-se a contemplar, com um enlevo nalma, toda essa poesia selvagem iluminada por um sol implacável. De súbito: — Olá, seu Mata, como vai você? Que milagre foi este? Era o guarda-livros, em chinelos, calça branca e paletó de seda amarelo. João voltou-se. — Oh!... Estava admirando a grandeza do Criador... Você assim mesmo tem gosto, seu Loureiro, você é um danado, homem! Sim, senhor, isto aqui é um maná! Faz vir água à boca. — Escolhi este local por ser muito isolado da civilização. Detesto o ruído da cidade... — Tens também a tua veia poética, hein? — Qual veia poética! Isso de versos não é comigo. Tenho até horror à poesia. O que eu quero é sossego, o bem estar, o conforto... — Fazes muito bem, filho, não há nada como se viver no seu cantinho com a sua mulher e os seus filhos, comendo com o suor do seu rosto. Eu, se pudesse fazia o mesmo — deserdaria da capital, do centro da civilização, para viver comodamente, bem longe de toda essa porcaria que se chama sociedade. Fazes muito bem. Quem não quer ser lobo não lhe veste a pele. — E você como vai? — Homem, assim mesmo: nem p’ra diante nem p’ra trás, remando contra a maré... Têm-me aparecido umas doresinhas do lado esquerdo... — Por que não usa você o vinho de caju? O guarda-livros fez a apologia do vinho de caju, citando casos de curas assombrosas produzidas pelo uso quotidiano desse depurativo. Ele mesmo, Loureiro, tinha-se curado radicalmente de um dartro na perna esquerda. Na sua opinião o vinho de caju era muitíssimo superior à salsa, ao iodureto e à quanta panacéia receita-se por aí sem resultado. O amanuense, porém, afirmou que seu mal era no pulmão, que já tinha consultado o Dr. Melo. — Não te fies em médicos do Ceará, que dão cabo de ti. Olha o Calado, conferente d’Alfândega: diagnosticaram-lhe lesão cardíaca e o pobre homem, coitado, estirou a canela no Rio de Janeiro com uma enfermidade nos rins. Uns ignorantes, seu João, uns magarefes da humanidade é o que eles são. Meta-se no vinho de caju, que é o grande remédio para as moléstias do sangue. Enquanto os dois, sentados no sofá, de pernas trançadas, iam discutindo banalidades, Lídia e Maria do Carmo comunicavam-se como boas amigas, numa intimidade franca e expansiva, abrindo-se mutuamente em confidências de colegial felizes. Primeiro tinham percorrido toda a casa. Lídia mostrara à outra todos os seus confortos e todas as suas jóias desde a cama de casados, ampla e fresca, até o presente de noivado, um magnífico jogo de pulseiras cravejadas de pérolas em forma de serpentes, o guardavestidos, os vidros de essências, os chapéus, as toalhas de labirintos, feitas no Aracati e tudo o mais que o Loureiro comprara com aquela bondade ingênua que o caracterizava. Maria via tudo aquilo embasbacada, com surpresas no olhar, falando por monossílabos, examinando com inveja cada objeto que seus olhos deparavam, achando tudo muito bom, muito fino, de muito bom gosto. E a outra: olha isto, vê lá, aqui está o meu relógio d’algibeira, comprado no Jaques, tu ainda não viste a minha cinta de tartaruga; é verdade, e o meu tinteiro de prata, presente do Carvalho, e o meu leque de plumas... Foram sair na sala de jantar, e aí, uma defronte da outra, em cadeiras de balanço, Lídia entrou indiscretamente a falar no Zuza. — Ainda o amas muito? Então fica para a volta?... Maria não compreendeu a pergunta. — Como fica para a volta? — Sim, de certo, creio que vocês não se casaram... — Não te compreendo? — Olha a engraçada!... Quer um peitinho?! — Por Deus como te não entendo... — Pergunto se o casamento é quando o Zuza voltar, não te faças tola... — Quando o Zuza voltar? — E então?... — Mas voltar d’onde? — Estás hoje muito misteriosa, minha espertalhona; Maria teve um pressentimento: — “E o Zuza tinha ido embora?” — Pois não embarcou anteontem? Olhavam-se as duas sem se compreenderem, como se estivessem jogando o disparate. — Para onde?... — Para o Recife, ora adeus! para onde havia de ser?... A estas horas anda ele bem longe do Mocuripe. Maria do Carmo empalideceu, como se acabasse de saber uma notícia funesta. — Estás gracejando, murmurou com a voz trêmula. — Não sabias? — Não, não sabia... — Pois a Província deu notícia. — Infame. E Maria não pode resistir à comoção que lhe sufocava, os olhos umedeceram-se-lhe de lágrimas, e desatou a chorara com o rosto mergulhado no lencinho de rendas. — Que é isso, criatura? Tolice! Lídia não contava com o pieguismo da amiga. Ora adeus, o rapaz havia de voltar, que asneira! Era preciso paciência para tudo, e então? Ela mesma, Lídia, não esperara pelo Loureiro quase um ano? Tolice... — Deixa-te d’isso, filha, vamos tocar piano. Estás nervosa. Inclinada sobre a rapariga, que soluçava como se lhe tivesse morrido alguém, Lídia procurava carinhosamente arrancar-lhe o lenço dos olhos , alisando-lhe os cabelos, comovida. — Então?... Levanta, vamos para a sala, que está mais fresco. Não sê criança, vamos... — Sou uma desgraçada, disse Maria enxugando os olhos com força. — Que desgraçada o que, estás feito criança... Isso acontece a todo mundo, criatura. Vamos, vamos p’ra sala. Já viste o meu álbum. Maria levantou-se devagar, preguiçosamente, com as faces escarlates, as pestanas úmidas, assoando-se; e arrependida. — Não, fiquemos aqui mesmo, depois se toca. Não foi nada — um nervoso... — Bem, mas não te ponhas a choramingar por aí, como uma tola. Tu sabes, a família do Zuza não quer o casamento, quem sabe se o rapaz foi obrigado a embarcar à última hora? Espera cartas, se ele não te escrever, então sim, podes ficar certa de que não te ama. Tornaram a sentar-se. A criada, alta como um pau de sebo, veio saber da Sra. D. Lídia “se a sopa era de macarrão ou de arroz”. — De macarrão mesmo, Tomázia, faça de macarrão, mas faça uma sopa gostosa, ouviu? E para a amiga: — Não imaginas quanto aborreço a cozinha. Há dias em que não ponho lá os pés. Felizmente o Loureiro arranjou uma boa criada, que até já foi cozinheira do Dr. Paula Souza, da Estrada de Ferro. É assim como viste, seca e ríspida, mas uma excelente criada. Faz tudo a meu gosto. — Mas, então o Zuza embarcou, hein? tornou Maria voltando à conversa. — Não falemos mais nisto. estás hoje muito sentimental e eu não quero que passes mal o resto do dia em minha casa, sabes? Não falemos mais nisto. — Mas, diz-me... aquilo foi uma tolice... diz-me, não o viste mais? — Não. O José Pereira é que está muito nosso amigo, sabes? Tem vindo aqui duas vezes nesta semana. E que amabilidades, menina, que delicadezas! Ofereceu-se para apresentar o Loureiro ao presidente da Província, mandou-nos outro dia um camarote para o teatro... — E tu, como passas a nova vida? — Perfeitamente. Desejava antes morar na cidade, mas o Loureiro é muito impertinente, diz que prefere isto — paciência. Agora quando vierem os filhos, isso então... Por enquanto estou muito satisfeita. Um bocado triste isto aqui no Benfica, mas ..vai se passando. É verdade, precisas vir passar uns dias comigo, estás muito magra; o ar aqui pé melhor que na cidade. Tens ido à Escola? — A Escola qual! Passei oito dias em casa como, uma freira, sem ir à parte alguma. creio que não irei mais àquilo. — Eu, no teu caso, faria o mesmo. Agora, então, que estou casada, olha... Fez um gesto com as mãos. — ... bananas, não estou para suportar desaforos d’aquela canalha. Porque tudo aquilo é uma canalha, menina. Fazes muito bem em não pondo os pés naquela feira de reputações. As raparigas ali aprendem a ser falsas e imorais. Conheço muito o tal Sr. Berredo, o tal Sr. Padre Lima e mais os outros todos. O próprio diretor... eu cá sei... Maria estava mais consolada ante a solicitude da amiga. Achava-a mais amável, mais expansiva. Foram para a sala de visitas, de braços trançados nas cinturas, e Lídia cantou ao piano o Non m’amava, a velha romanza sentimental, que encheu de lágrimas os olhos de Maria. E os dias passavam uns após outros, longos, intermináveis, como uma repetição monótona que faz mal aos nervos. Vieram as festas, o Natal e o Ano Bom. Maria do Carmo, cada vez mais magra, sentido-se definhar dia a dia, descrente de tudo, tinha agora uma certeza cruel que a torturava barbaramente, a certeza que estava para ser mãe, de que muito breve o seu nome estaria completamente desmoralizado. Sentia bulir dentro de si uma coisa estranha, que lhe incomodava como uma perseguição, e mais de uma vez, nos seus momentos de grande desânimo, atravessara-lhe a mente a idéia sinistra do suicídio. Sim, preferia matar-se a assistir às exéquias de sua honra na praça pública, em todas as ruas da cidade, em todas as bocas. estava irremediavelmente perdida, não tinha pai nem mãe, nem alguém que lhe fosse sincero no mundo, pois bem, acabar-se-ia de uma vez, sem ter que dar satisfação a ninguém por isso. Era um pecado, mas não era uma vergonha, porque não teria que corar nunca diante da sociedade, como uma criminosa, como uma culpada. Não, mil vezes, não! Outra, que não ela, preferisse arrastar uma existência vergonhosa, a morrer fosse como fosse. Uma ocasião estava prestes a ingerir uma dose de láudano, mas faltou-lhe coragem. Começou a imaginar mil coisas. Via-se morta dentro de um caixão azul, de mãos cruzadas sobre o peito, numa sala onde havia gente chorando e um crucifixo à cabeceira entre velas de cera que ardiam lugubremente. Que horror! recuou espantada fazendo em pedaços o vidro de veneno. Às vezes, vinham-lhe resignações, um desejo místico de ser irmã de caridade, depois que desse à luz a criança, arredar-se para sempre do mundo e ir viver na Santa Casa de Misericórdia, curando os enfermos metida nas suas vestes azuis, debaixo de um grande chapéu de asas, dedicar-se toda a Deus, como uma santa. Dera para devota; não faltava à missa aos domingos, na Sé, vestida com muita simplicidade, e rezava sempre, com uma contrição admirável, ao deitar-se e ao acordar, defronte da oleografia do Coração de Jesus. Foi em casa da Lídia que ela teve a certeza de achar-se grávida. Até então ignorava certos segredos da maternidade, certos fenômenos da fisiologia amorosa, que nunca lhe tinham dito, nem mesmo as companheiras de Escola, “aliás versadas em assuntos dessa natureza”. Tinha ido passar uma semana com a amiga, nas festas, e um dia a Lídia disse-lhe que “estava pronta” e que ela, Maria, havia de ser a madrinha do primeiro filho. Então, aproveitando a oportunidade, Maria do Carmo quis saber como as mulheres tinham certeza de estar grávidas. Lídia explicou tudo minuciosamente; a suspensão das regras, os antojos, as dores madre e, finalmente, os primeiros movimentos do feto no útero. Depois leram junto a Fisiologia do Matrimônio de Debay, que o Loureiro tivera o cuidado de comprar, especialmente o capítulo — da calipedia ou arte de procriar filhos, o mais importante, na opinião da esposa do guarda-livros. — Todo meu desejo, dizia a Lídia com o livro sobre a perna, todo meu desejo é que o pequeno, menino ou menina, se pareça com o presidente da província. Ainda no último baile em palácio não tirei os olhos dele. E Maria nesse dia, ao jantar, teve um grande enjôo da comida, cruzando o talher logo no primeiro prato, inapetente. Não havia dúvida, “estava pronta” também como a Lídia, e esta idéia tornou-se uma idéia fixa, de todos os dias, de todas as horas, de todos os minutos. Ela com um filho, Jesus! Decididamente estava perdida para sempre no conceito honesto da gente séria. Não passaria mais de uma simples rapariga que “já teve filho”! As revelações de Lídia tinham-lhe aberto os olhos; sentia agora perfeitamente bulir a criança, e até, na sua alucinação, parecia-lhe ouvir os vagidos do bebê. Se fosse possível evitar o seu desenvolvimento, matá-lo mesmo no ventre... Mas não: seria uma barbaridade, uma malvadez; Afinal de contas era seu filho, de suas entranhas, embora fruto de um crime... E Maria agoniava-se, fazendo essas considerações e mil outras conjecturas absurdas, sem coragem de esperar o desenlace d’aquele drama secreto que ela era a protagonista. Vivia assombrada e não raro caía num desfalecimento que lhe tirava a ação do corpo e do espírito. Por uma espécie de instinto, previa todas as conseqüências do seu estado e pressentia o desprezo acerbo que havia de lhe cair sobre a cabeça, implacavelmente, como uma grande mão de ferro, esse desprezo convencional e hipócrita de uma sociedade ávida de escândalos, cevando-se da desgraça alheia, banqueteando-se em torno da vítima, como para torturá-la ainda mais. E enquanto a Lídia ganhava, com sorrisos de triunfo, as simpatias dessa mesma sociedade que há poucos meses a maldizia, ela, Maria do Carmo, sobre cuja reputação pairava a sombra de uma nódoa, via-se pouco a pouco ludibriada, tratada como uma mulher a toa, num abandono completo, sem amigas, sem honra, pobre, sem pai, nem mãe, mísera cadela que a gente enxota a pontapés de dentro da casa por safada e indecente. 12 O Zuza abalara de feito numa sexta-feira, dias depois do casamento da Lídia. Por toda a parte se comentava, com risinhos sublinhados, o escandaloso namoro com a normalista, e o pai, o coronel Souza Nunes, escrupuloso em tudo que lhe dizia respeito, exigiu do filho que embarcasse no primeiro vapor, sob penas severas. — Mas, meu pai... — Tenha santa paciência, vocemecê embarca ou diz porque não embarca. Fala-se em toda a cidade nos seus namoros com a rapariga e eu não quero, não consinto em semelhante escândalo. Sei muito bem o que isso é. Não pode ser boa mãe de família uma rapariga educada em companhia de um safardana reconhecido, como o tal Sr. João da Mata. Prepare as malas e deixe-se de histórias, que é perder tempo. Nestas condições o estudante não teve jeito senão resignar-se ante a vontade imperiosa do pai e anunciar ao José Pereira o seu embarque d’aí a dois dias. — De acordo, aprovou o redator da Província. Deves tratar quanto antes da tua formatura e então podes voltar ao Ceará e fazer um figurão na nossa magistratura, que já conta em seu seio bons talentos, rapazes da tua estatura, inteligentes e resolutos. Sentia muito que o Zuza não se demorasse mais algum tempo, mas, enfim, como esperava em breve tornar a vê-lo formadinho, com o seu título de bacharel, “dando sorte” na capital cearense, que diabo! era preciso abafar a saudade e consolar-se. O Zuza, porém, estava contrariado. Agora que as coisas corriam-lhe tão bem, que a rapariga entregava-se-lhe de corpo e alma, é que o obrigavam a embarcar da noite para o dia, sem ao menos ter tempo de despedir-se d’ela, de dar-lhe uma beijoca, um abracinho sequer, às escondidas. É verdade que o seu amor não era lá para que se dissesse um amor extraordinário, uma dessas paixões incendiárias que decidem do futuro de um cristão, mas, tinha a sua simpatia por aqueles olhinhos ternos como os de uma santa, lá isso tinha... Tão boas as palestras ao meio-dia, na Escola Normal, enquanto as outras normalistas divertiamse lá para dentro à espera dos professores! Uma gentinha levada da breca, essas normalistas ! Com que facilidade a Maria do Carmo, aliás, uma das mais comportadas, entregava-lhe a face para beijar e escrevia-lhe cartinhas perfumadas, cheias de juras e protestos de amor! Se fosse outro, até já podia ter feito uma asneira... Arrependia-se agora de não ter aproveitado os melhores momentos... Grandíssimo calouro! podia ter desfrutado a valer. E concluiu, preparando-se para sair: — Ora sabem que mais? Há males que vêm para bem. A cidade está cheia do meu nome e do nome da rapariga, o verdadeiro é ir-me embora mesmo, sem dar satisfação a ninguém. Meu pai é um homem de juízo. Eu podia muito bem engraçar-me deveras com a menina para casar e depois... sabe Deus as conseqüências. Já se foi o tempo de um homem sacrificar posição e futuro por uma mulher pobre. Concluo o meu curso e sigo para a Europa, é o verdadeiro, ora adeus! Enfiou a manga do redingote, atabalhoado, e saiu a despedir-se dos amigos. Toda a cidade soube logo da viagem intempestiva do estudante. A notícia propalouse com a rapidez do fogo em palha, por todos os botequins, por todos os cafés e restaurantes, avolumando-se, como se se tratasse de um grande acontecimento. Quem o Zuza, o filho do coronel Souza Nunes? Então não se casava com a normalista? — Por esta já esperava eu, diziam uns convictamente. — E eu, repetiam outros. — Pela cara se conhece quem tem lombrigas, seu Sussuarana, afirmava um sujeito reles na botica do Travassos. Aquele tipo sempre me pareceu uma bisca. Agora a pobre rapariga é quem fica por aí com a cara de besta, sem achar quem lhe roa os ossos. — Pode dizer, seu compadre. Esses fidalgos o que querem é isso mesmo — desfrutar e pôr-se ao fresco. Todo nosso mal é recebermos em nossas casas qualquer sunganenén que chegue a esta terra. Nós, os pais de família, é que somos os culpados. — E o compadre João da Mata o que pretende fazer? — Eu sei lá, homem de Deus, aquele é outro... A viagem imprevista do Zuza assumia proporções de escândalos. Nas fileiras políticas especialmente entre os partidos contrários à administração presidencial, alardeavase o fato: que o rapaz era um produto da política do governo, que todos os amigos do presidente mediam-se pela mesma bitola, que era tudo uma súcia de bandidos de casaca, usurpadores da honra cearense, o diabo! Os jornais da oposição rosnaram contra a moralidade dos governistas, responsabilizando o presidente pelo “desmembramento de caracteres” que ia pela sociedade cearense, alcunhando-o de negro Romão. Tal dizia que “S. Excia. era homem de costumes dissolutos, acostumado a beber cerveja nos cafés cantantes de Paris, e a passear de braço com as cocottes no Bois de Boulogne”. Tal outro afirmava que “ S. Excia. sabia manobrar perfeitamente um phateon, montava muito bem a cavalo, mas não tinha capacidade para dirigir os destinos de um país”. Insinuava aquele que “a viagem inesperada de certo bacharel por formar-se era um atentado contra os nosso brios e contra a moral pública”, aquele outro confirmava que “a polícia devia dar caça a um tal Sr. bacharel de nome açucarado contra quem pesavam as mais sérias acusações no tocante ao seu procedimento para com a família cearense”. E toda gente sabia que se tratava do Zuza e da Maria do Carmo. O estudante, azucrinado por todos os lados, numa roda viva de indiretas, indagava na Agência se o vapor já tinha chegado, esbaforido, às carreiras, doido por já se ver barra afora, debruçado tranqüilamente na amurada, a ver sumirem-se no horizonte, como visões de uma noite mal dormida, as areias do Mucuripe. Uff! ... Estava cansado de suportar tanta sujidade! Decididamente não voltaria ao Ceará por preço algum. Diabo de província onde ninguém está livre da calúnia e da descompostura pela imprensa desde que não se submeta às imposições d’uma política de interesses pessoais. Revoltava-se de novo contra o Ceará, contra os costumes cearenses, contra a política, “essa política sem ideal e sem patriotismo, que só servia de nos rebaixar, obrigando o indivíduo a vender-se por amor de sua mulher e seus filhos”. Que diabo tinha ele com a política para que se viesse meter com sua vida? Só porque era amigo do presidente e filho de político? Sebo! Então não se podia ter amigos no Ceará, decididamente. E porque tanto barulho em trono do seu nome, porque não lhe diriam? Por causa de um simples namoro com uma pobre normalista sem eira nem beira? Era o cúmulo! Com que deliciosa alegria ele ergueu-se da rede no dia do embarque, de manhã muito cedo, as malas no meio do quarto prontas, a passagem comprada no bolso, sem dívidas, sem compromissos, completamente pronto a deixar o Ceará. Quando vieram lhe chamar para o banho, às seis horas, já há muito estava de pé, em chambre, muito bem disposto, fumando o seu cigarro, passando uma vista d’olhos na maleta do camarote onde refulgia, numa frescura capitosa, a roupa branca — ceroulas, camisas, meias e toalhas de rosto — tudo arrumado cautelosamente, com um cuidado feminino, umas cheirando ainda a sabão, passadinhas a ferro outras. Ah! ia deixando fora a Casa de Pensão. Tomou do livro que se achava sobre a mesa e colocou-o na maleta, ao lado, para ler na viagem. Agora sim, não faltava mais nada. Só pedia a Deus que não chovesse, porque um embarque debaixo d’aguaceiro era um desastre horroroso. De feito ameaçava chover. Era em Janeiro. Há dias caia sobre a cidade uma chuvinha sintomática de inverno, persistente e miúda, acompanhada de trovões longínquos, lavando a atmosfera, encharcando as ruas, alentando a população, enverdecendo as árvores. Os longos meses de seca iam ser compensados por uma abundância de chuvas consoladoras e refrigerantes. As manhãs iam se tornando frescas e já se viam passar, em tabuleiros, feixes de feijão verde e hortaliças para feira. Zuza tinha aberto a vidraça para consultar o tempo. Os telhados, defronte, estavam úmidos e o céu de uma cor esmaecida de safira, arqueava-se, sem uma nuvem na penumbra da ante-manhã. Passava um fiscal da Câmara com o seu boné, jaqueta com botões dourados, chapéu de chuva debaixo do braço, assoando-se com estrondo. — Tudo fechado ainda, com efeito! pensou o Zuza. Entretanto já tinha dado seis horas! Entrou e pôs-se a reler as cartas de Maria do Carmo, trincando a ponta do bigode. “Meu querido Zuza...” Nesta normalista jurava como não tinha ido ao Club Iracema; que era uma calúnia o que tinham dito ao estudante.. “Tua querida Maria”. Zuza meneou a cabeça com um ar de riso e abriu outra. “Zuza do meu coração...” Nest’outra Maria lamentava que o rapaz não tivesse aparecido na Escola Normal na véspera. “Tu já não me amas, Zuza; não queiras matar-me de saudades. Todos os dias peço a Deus por ti e tu nem sequer lembras da tua futura esposa!” E assim, uma a uma, o futuro bacharel releu toda a série de cartas da normalista, enfeixando-as depois, dobradinhas, com um cadarço. Que horror, meu Deus, quanta banalidade! E ela a tomar a coisa a sério! A gente sempre faz asneiras de criança nessa idade!... E guardando o maço de cartas no fundo da maleta: “— Magnífico rol de asneiras para fazer rir a rapaziada de Pernambuco.” As horas passavam vertiginosas. A claridade larga do sol penetrava no quarto pela janela aberta, como um visita sem cerimônia, anunciando um dia seco e esplêndido. Já lá fora, na rua, recomeçava a labuta quotidiana. Um barbeiro, que morava defronte, amolava as navalhas assobiando um trecho de fandango, com as pernas cruzadas, de frente para a rua. Passavam burricos com cargas d’água, procurando as coxias. Meninos apregoavam o Cearense. José Pereira ficara de vir almoçar com o Zuza, mais cedo que de costume, para seguirem juntos ao ponto de embarque. D. Sofia andava numa faina, da sala para a cozinha, com os olhos empanados de lágrimas, esquecendo as suas dores de útero para pensar no Zuza, no seu filho que ia embora. O coronel, esse não se alterava, calmo, consultando o relógio de vez em quando, bem humorado nesse dia, passeando o seu grande ar de homem independente. Cerca de 10 horas entrou o redator da Província anunciando a chegada do vapor. — A que horas sai? perguntou o estudante. — Está marcado para as duas. Em todo o caso é prudente ir mais cedo... — Sem dúvida. Ao meio dia, o mais tardar, devo estar a bordo. Qual é o vapor? — O Espírito Santo. — Diabo, uma carroça! José Pereira entrara para o quarto do Zuza, e, sentado na larga rede de varandas encarnadas, perna traçada com desembaraço, passeava o olhar morosamente naquele tabernáculo de rapaz solteiro, agora em desordem, como um ninho abandonado, enquanto o estudante acabava de fazer a toilette no aposento contíguo. Na frente das duas malas, uma grande e outra menor lia-se em letreiros impressos e nítidos — José de Souza Nunes — Recife. Perto estava um caixote com livros e o mesmo dístico no alto. — Dez e meia! fez o redator levando o relógio ao ouvido. Imediatamente surgiu o Zuza lépido, esfregando as mãos, como se saísse de um banho de perfumes. — Prontinho, disse ele. E misteriosamente: — Então, com quê a canalha tem-se divertido à minha custa, hein? — Como assim? — Oh! homem, inventaram por aí que eu deflorei a Maria do Carmo. Não leste o Pedro II e o Cearense? — E tens culpa no cartório? — Não, c’os diabos, mas isso é um horror! Ninguém pode mais gracejar, ninguém tem mais o direito de chegar-se a uma rapariga honesta sem intenções malévolas. Cada vez me convenço mais de que isso é uma terra selvagem, seu José Pereira! Isto é um país de bárbaros. Vocês da imprensa devem civilizar este povo, devem ensinar a esta gente a pensar e a ter juízo, do contrário... — Mas, fala a verdade, interrompeu o outro com um ar de riso malicioso; tu nunca... — Palavra como não! É verdade que dei alguns beijos, mas o nosso namoro nunca foi além disso, mesmo porque, tu compreendes a minha responsabilidade... Depois, só fui a casa do padrinho umas três vezes, no máximo. Calúnia, simples calúnia... — É. Este povo é muito indiscreto... — Indiscreto não — alcoviteiro, mentiroso, ignorante e besta, é o que ele é. E depois de uma pausa: — Bem, vamos almoçar que deve ser hora. Uma vez instalado a bordo, o seu camarote do lado do mar, o futuro bacharel, de binóculo a tiracolo e boné, respirou a todo pulmão e foi assistir da tolda a manobra do vapor que suspendia o ferro. Eram duas em ponto. O tempo estava magnífico. Ventava forte e o mar em ressaca atirava sobre o quebramar uma toalha de espuma que se desmanchava em poeira tenuíssima irisada pelo sol. A cada golpe do mar havia uma algazarra na praia coalhada de gente. Escaleres navegavam para a terra puxados a remo, destacando a bandeira do escaler Capitania do Porto. Zuza assestou o binóculo, e, sacando do lenço, correspondeu aos acenos que lhe faziam de um escaler que se afastava. sentia agora uma ponta de saudade a espiaçar-lhe o coração. Através da confusão que reinava no seu espírito, como um ponto luminoso por entre um nevoeiro denso, via mentalmente e nitidamente a cabeça branca de D. Sofia, de sua boa mãe, e só então sentiu que uma coisa prendia-lhe ao Ceará, atraía-lhe a essa terra que ele tanto detestava. Não sabia mesmo porque, por índole, por sistema, por pedantismo. — Sim, queria mal ao Ceará, mas não podia esquecer nunca o Ceará, porque nele ficava a sua velha que ainda há pouco, abraçando-o entre lágrimas, metera-lhe no bolso uma nota de cem mil réis e cheirando a fundo de baú. Boa e santa velhinha! pensava ele, e já não enxergava coisa alguma, porque os vidros do binóculo estavam úmidos e enevoados. Depois, quando o vapor singrava em direção ao Mucuripe, começou a examinar a costa cearense, como se nunca a tivesse visto de fora, da tolda de um navio. Viu passar diante de seus olhos arregalados todo o litoral de Fortaleza, desde o farol do Mucuripe até a Ponta dos Arpoadores... Primeiro o farol, lá muito longe, embranquecido, cor de areia, ereto, batido pelos ventos; depois a extensa faixa de areia que se desdobra em ziguezague até a cidade; a praia alvacenta e rendilhada de espumas. Em seguida o novo edifício da alfândega, em forma de gaiola, acaçapado, sem arquitetura, tão feio que o mar parece recuar com medo à sua catadura. Noutro plano, coqueiros maltratados pelo rigor do sol, erguendo-se da areia movediça que os ameaçava soterrar, uns já enterrados até a fronde, outros inclinados, prestes a desabar; o torreão dos judeus Boris, imitando a torre de um castelo medieval, cinzento e esguio; o seminário por trás, no alto da Prainha, com as suas torres triangulares; as torres vetustas e enegrecidas da Sé; o Passeio Público, com seus três planos em escadarias; a S. C. de Misericórdia, branca, no alto; o Gasômetro; a Cadeia; e por ali fora o arraial Moura Brasil, invadido pelo mar, reduzido a um montão de casebres trepados uns sobre os outros... — Sim, senhor, pensou o Zuza, bonito aspecto para se ver de longe, barra a fora...” Dentro em pouco o vapor começou a tombar desesperadamente. Fortaleza já não era mais do que uma pintura microscópica diluindo-se muito ao longe na tinta alvacenta do horizonte... ... E só agora, três dias depois da partida do Zuza é que Maria do Carmo sentia a dor do seu abandono, ao mesmo tempo que adquirir a certeza esmagadora de que estava para ser mãe; sim, para ser mãe de um filho espúrio, concebido num momento de desvario, mal acordada de um pesadelo horrível. Era de mais, era! Se dissesse que ela tinha deixado seu quarto para ir ter à rede do padrinho, oferecendo-se-lhe como uma fêmea desavergonhada vá; era justo que caísse sobre si toda a cólera dos homens; mas, ao contrário, ele, o infame do padrinho, é que fora alta noite ao seu quarto, provocar-lhe, impor-lhe, para bem dizer, uma coisa d’aquelas, e ela, coitada, tão inexperiente, tão tola que nem ao menos tivera coragem para dar um escândalo, expulsando-o, como se expulsa um ladrão, dando-lhe com a mão no focinho, embora com sacrifício de sua vida. Chegavam aos seus ouvidos, indistintamente, como um surdo rumor de cochichos, os ecos da maledicência. Na Escola Normal as outras raparigas atiravam-lhe indiretas fortes, que ela não tinha ânimo de repelir como dantes. Viam-na triste, para um canto, muito desconfiada, com grandes olheiras. Todas notavam a alterações de sua fisionomia, e certo desleixo no trajar, que faziam dela uma outra Maria do Carmo, albardeira e insociável, inimiga da convivência das companheiras, egoísta, intratável. — Aquilo é uma coisa... comentavam maliciosamente as normalistas. A Maria viu alma d’outro mundo, não é possível. — Que o quê, menina, são desgostos de família. Dizem que o padrinho a maltrata. — Quem, o João da Mata? Um grandíssimo miserável. D’aí talvez seja isso mesmo. — Não se iludam, meninas, insinuou a zarolha, a Maria ficou assim depois que o Dr. Zuza foi-se embora. Ela d’antes era até uma rapariga muito alegre, vocês não se lembram? — Coisas deste mundo, mulher, coisas deste mundo. Ninguém deve fazer mau juízo das pessoas. O diretor um dia maltratou-a. Ao chegar viu desenhada na pedra da aula, a giz, uma obscenidade. Ficou furioso, disse muitas grosserias às raparigas e quis saber quem era a autora de semelhante indecência. Silêncio profundo. Ninguém se atrevia a responder. — Tenham a bondade de dizer quem fez isto! repetiu o diretor, e, de relance, viu, na última fila, um dedo que apontava para Maria do Carmo. — Ah! foi a senhora, D. Maria do Carmo? Maria empalideceu. — Eu, não senhor! — Tenha a bondade, faça o favor de vir apagar isto. — Mas não fui eu, Sr. Diretor, tornou ela, erguendo-se. — Embora, venha sempre: a senhora paga pelas outras. — Não senhor, não posso responder por uma falta que não cometi. — Não vem? — Não senhor... Toda a aula estava voltada para Maria do Carmo, medindo-a de alto a baixo, como se vissem nela uma transfiguração extraordinária. — Então a senhora não vem? repetiu o homem, fazendo uma carranca medonha. — Não senhor... — Retire-se da aula! fez ele apontando a porta. A senhora é uma insubordinada, desobedeceu à primeira autoridade deste estabelecimento. Vamos, retire-se! Houve um silêncio grave, e Maria, tomando os livros, séria e resignada, sem olhar para as colegas, retirou-se taciturna, ouvindo atrás de si o atrito da esponja na pedra. E tudo mais era assim, sucediam-se as contrariedades como um castigo. Crescia-lhe na alma o desgosto, como uma nuvem que sobe no horizonte vagarosamente alastrando pouco a pouco toda a vasta cúpula do céu para se desfazer em chuva caudalosa. Tinha pena de não ser como as “outras mulheres”, indiferente a tudo, até nos momentos mais difíceis da vida. Vinham-lhe às vezes alegrias intermitentes, uma resignação infinita animava todo seu ser, e dispunha-se a enfrentar todas as conseqüências do seu desatino com uma calma heróica, sem dar mostra da mais leve tristeza. Nesses momentos abria-se em infusões de ingênua bondade para com D. Terezinha, procurando-a, puxando conversa, oferecendo-se-lhe para pentear o cabelo, gabando-lhe os vestidos, com uma humildade de escrava. Mas a madrinha, seca e indomável, aborrecia-se com aquilo, enfadava-se, sempre de cara fechada, respondendo por monossílabos às perguntas da afilhada. Quando amanhecia mal humorada, com as suas desconfianças, inquisilava-se demais. — “Deixe-me, criatura, deixe-me, por amor de Deus, oh!” Maria não dizia palavra, recolhia-se ao silêncio do seu quarto a costurar ou a ler o Almanaque das Senhoras por desfastio, para se distrair. Entretanto João da Mata progredia no vício de beber aguardente. Andava agora muito chegado ao Perneta e ao Guedes, de quem se dizia amigo do coração. A bodega do Zé Gato continuava a ser o ponto de suas reuniões, onde se demoravam às vezes até alta noite a jogar a bisca num esquecimento absoluto de família e de deveres, saturados de álcool,, lívidos à luz de um miserável candeeiro de querosene. O triste ordenado que lhe pingava no bolso em cada fim de mês escorria-lhe por entre os dedos como azougue, transformando-se em fichas na banca de jogo e desaparecendo como por encanto, sem que ele próprio soubesse disso. Quantas vezes sucedia entrar em casa sem um real no bolso para mandar à feira no dia seguinte! Era preciso então tomar dinheiro a juros aos agiotas, correr toda a cidade atrás de alguém que lhe emprestasse alguns mil réis até ao fim do mês, contar as suas necessidades, as pequeninas misérias domésticas, inventar situações incríveis. Porque os seus “amigos do coração”, o Perneta e o Guedes da Matraca, também eram pobretões e perdulários, sentiam muito as necessidades do Janjão, mas não podiam lhe ser úteis por forma alguma, senão dando-lhe a ganhar no jogo quando a sorte o protegia. — É. Eu bem sei que vocês também têm família como eu e precisam também. É o diabo, é o diabo. D’aí as dissensões, os conflitos, em casa, com a mulher por causa de dinheiro. Ele já não conseguia impor a D. Terezinha a sua autoridade de chefe da casa, como d’antes; ao contrário, agora suportava-lhe as impertinências, as saraivadas de impropérios, com uma passividade de animal submisso. — Tenha vergonha, homem de Deus, tenha vergonha, que você já não é criança, dizia-lhe nas bochechas, quase lhe abanando o queixo. Olhe para as barbas que tem na cara, porte-se como gente! Ele ouvia tudo aquilo sem dizer água vai, caladinho, como um prego, murcho, impotente. Como os tempos mudam! Há poucos dias era ele o forte, o manda-chuva naquela casa; bastava um olhar seu, por cima dos óculos escuros, para que todos, D. Terezinha, Maria do Carmo e a Mariana, estremecessem com medo, porque sabiam de quanto ele era capaz nos momentos de cólera; agora não, tinham-se trocado os papéis; bastava um olhar de D. Terezinha para que ele desse-lhe as costas disfarçadamente para evitar barulho. — Basta, basta, basta! costumava dizer quando a mulher dirigia-se para ele com os olhos chamejantes, de mãos fechadas. E escafedia-se até ao fundo do quintal para não lhe ouvir os disparates. Estava magro, muito magro, e queixava-se de dores nos intestinos. Diabo de Repartição não lhe deixava tempo para nada. Era um trabalhar sem descanso, sentado a uma banca, das nove às três, copiando ofícios, riscando papel estupidamente. Se ao menos tivesse quem lhe arranjasse com o ministro uma aposentadoria ainda que fosse com a metade do ordenado... Mas qual! tudo uns políticos sem importância, uns legalhés que iam para a Câmara proferir barbaridades, a repetir que o país estava à beira d’um abismo e nada mais. Até estimava que lhe demitissem do emprego, porque iria fazer pela vida noutra parte, e escusava perder tempo a emporcalhar papel, para no fim do mês — tome lá seu ordenado, uns míseros vinténs que mal chegavam para o boi. Uma desgraça. De resto a Maria não lhe dava muito cuidado. A princípio ainda lhe fizera uns carinhos, dera-lhe uns cortes de chita e um rico vestido de cassa da Índia para agradar, porque também seria uma ingratidão vê-la para um canto a se acabar, magra e amarela que nem uma lesma. Achava até que tinha feito muito. Outros havia piores que ele, ora! — Meu bem, tristezas não pagam dívidas. É andar, é andar sem olhar para trás. Mas quando, um belo dia, Maria declarou-lhe positivamente que estava prenha, que sentia “uma coisa” bolir-lhe na barriga, João estremunhou. — Que se há de fazer, filha? Agora é ter paciência. Foi uma fatalidade, foi uma fatalidade. Há de se arranjar a coisa do melhor modo possível. Vais aí para qualquer sítio, fora da cidade, e ninguém saberá de coisa alguma. Dá-se tanto d’isto... — E depois? murmurou Maria mordendo a ponta do lenço, cabisbaixa. — E depois? E depois... ora adeus! e depois dá-se a alguém para criar o trambolho e tu voltas à tua santa vidinha. Maria soluçava baixo, fungando numa crise nervosa. — Já te pões a chorar como uma criança! Tolice! Estou a dizer-te que o caso é muito simples... Uma tarde em que o Mendes, o juiz municipal e a mulher, tinham ido passear ao Trilho, João da Mata entrou alvoroçado, sem fôlego, com uma notícia a escapulir-lhe da boca.— Sabem quem está muito doente? Todos voltaram-se surpreendidos, com o olhar cheio de curiosidade. — Não, ninguém sabia. Algum conhecido? — O presidente, o Dr. Castro, teve um ataque há um pouquinho. A rua está cheia. Diz que está bem mal. — De quê, menino? interrogou o juiz muito admirado e já nervoso. Houve logo um interesse comovido nos circunstantes. E João, sentando-se, sem apertar a mão aos Mendes, pálido, limpando a testa, foi dizendo o que sabia: — Muita gente defronte do palácio. Tinham sido chamados todos os médicos, e todos, menos o Dr. Melo, eram de parecer que se tratava de um caso de febre amarela. O presidente tinha acabado de jantar e lia à cabeceira da mês a correspondência do sul chegada naquele momento, quando começou a sentir-se mal — embrulho no estômago, tonteiras, calafrios. Imediatamente, ergueu-se, lívido, e, ao dar o primeiro passo, caiu fulminado!... — Ai! fez D. Terezinha cruzando as mãos sobre o regaço. E depois? — Depois conduziram-no à cama, sem sentidos, vomitando uma coisa preta... João fez esgar de nojo. Todos cuspiram. — ... e quando os médicos chegaram já o encontraram sem pinga de sangue no rosto, vomitando ainda golfadas de bílis sobre a esposa que o amparava, coitada, nem sei mesmo como... — Coitado! lamentaram num tom arrastado as duas senhoras. Maria do Carmo ouvia silenciosa e compungida a narração do padrinho, ao lado do piano, com os olhos úmidos e o ar assustado. — Mas, João, isto é sério? perguntou o juiz municipal erguendo-se com os braços cruzados, estupefato. — Oh! senhor, pois eu havia de inventar uma coisa d’esta? Admiro até como vocês ainda não sabiam, porque a rua está cheia. Eu soube ali, na bodega do Zé Gato. Fez-se um silêncio repassado se suspiros. — Um homem tão forte, vendendo saúde! fez o juiz. — Mas bebia muito, coitado, tornou João da Mata, respirando com força. Era homem que não bebia água. — Por isso não, atalhou D. Terezinha. Que asneira! Tanta gente se embriaga todos os dias e não lhe sucede nada. — D’aí pode ser que escape, murmurou D. Amélia; não queiram sepultar o homem em vida. — Pode ser. — Pode ser, repetiu o juiz. A ciência faz milagres. — Que dúvida! Então o Mendes tomando o chapéu, muito impressionado, as mãos trêmulas: — Bem, vamo-nos Amélia. esta vida, esta vida! Era cedo, insistiu D. Terezinha triste. Mas os Mendes pretextaram afazeres, lembraram as crianças que tinham ficado com a criada e despediram-se. Maria do Carmo passou a noite nervosa com insônias, sentida com a doença do Dr. Castro, muito apreensiva. Não podia se conformar com a idéia da morte do presidente, o homem da moda, o “querido das moças”, o grande amigo do Ceará, que tantos benefícios fizera a esta província, mandando construir açudes no sertão, reconstruindo o Passeio Público, ativando as obras do porto, facilitando a emigração, prodigalizando esmolas, e, finalmente, introduzindo em Fortaleza certos costumes parisienses, como por exemplo, o sistema de passear a cavalo a chouto, de aparar a cauda aos animas de sela. Lembrava-se as qualidades pessoais do fidalgo paulista, o seu modo de falar num sotaque aportuguesado, muito moderado na conversação íntima, as suas maneiras delicadas, os seus belos dentes branquejando sob um bigode sedoso e bem tratado. Uma vez, no baile oferecido à oficialidade do cruzador “1º de março” dançara com ele uma quadrilha, por sinal bebera muita champagne nessa noite a ponto de ficar um pouco tonta da cabeça. Coitado! uma alma boa. É verdade que tinha demitido o Pinheirão mais os filhos, deixandoos na miséria, mas no dia seguinte mandara-lhe um envelope com cinqüenta mil réis. Tudo por causa da política; a política é que o fazia mau. Tinha rasgos de generosidade fidalga, lá isso era inegável, tanto assim que um dia dera ao negro Romão, um negro sujo coma aquele, cinco mil reisinhos. Era uma pena se morresse, coitado, havia de fazer uma falta tão grande. ... — Compadecia-se como se fosse seu parente. Balbuciou uma promessa às almas do purgatório e só muito tarde, pela uma hora da manhã, conseguiu adormecer. Ao outro dia procurou saber logo como ia o presidente. As notícias eram cada vez mais desagradáveis. As janelas do palácio continuavam fechadas e os transeuntes olhavam contristados o casarão ao redor do qual pairava uma melancolia lúgubre. Os boatos multiplicavam-se penetrando todas as casas como um vento de desgraça. A Província suspendeu a publicação por condolência, e os jornais da oposição fizeram uma pausa nos seus ataques à administração provincial. As filhinhas do presidente estavam em casa do José Pereira, na rua Major Facundo, duas crianças louras e inteligentes, que falavam francês, uma nascida em Paris, e outra no Rio de Janeiro. Um cabo de ordem, arrastando o chanfalho, passava a toda pressa em direção ao telégrafo. O espírito público começava a inquietar-se com a sorte do presidente, e os próprios adversários políticos enchiam-se de penas concentradas. Pela noite desabou um formidável aguaceiro e toda a população, por assim dizer toda, aguardava ansiosa, dentro da casa, ao sussurro da chuva que caía fora, sacudida pelo vento, notícias sobre o estado do Dr. Castro. Maria, como toda a gente sentia um peso no coração ao lembrar-se daquele homem sadio e robusto, a seus olhos a síntese da mais requintada elegância. que tanto amara o Ceará, e cujo nome andava gravado a canivete até nos troncos dos cajueiros, nos sertões por onde tinha andado, tão moço ainda e já às portas da morte, acabando-se como qualquer mortal! — A Providência às vezes era injusta com os homens: poupava um ente abominável como o padrinho e um pelintra desleal como o Zuza, para aniquilar, enquanto se esfrega um olho, um homem da força do Dr. Castro, “útil ao país e benfeitor da humanidade!” Indignava-se com essa preferência injusta das cortes celestes , e, de si para si, concluía que não valia a pena uma pessoa ser honesta, trabalhar noite e dia, dedicar-se a uma coisa nobre, engrandecer-se aos olhos da humanidade para um belo dia — toma! vá para a cova que é seu lugar! Uma coisa estúpida a vida, afinal de contas. Entretanto outros viviam aí a cometer mil desatinos, a roubar, a assassinar, a iludir os incautos e tinham vida para um século inteiro, livre de congestões, de febre amarela e de quanta doença há. Acordou cedo e foi pôr-se à janela à espera de alguém que lhe desse notícias do presidente. O céu estava carregado de nuvens compactas e neblinava. A casa da viúva Campelo, defronte, estava fechada; a viúva tinha ido passar uns dias com a filha no Benfica. Passou um empregado da Estrada de Ferro, condutor de trem, com as calças arregaçadas, comendo pão. Maria chamou-o: — O Sr. sabe me dizer como vai o presidente? — Faleceu ás duas horas da madrugada, respondeu o sujeito, mastigando, indiferente. — Obrigado, disse Maria, empalidecendo, e entrou imediatamente batendo o postigo. — Coitado! foi dizendo pela casa, com grade mágoa na voz. Coitado! Que pena! — Que foi? perguntou o amanuense, que subia o corredor em ceroulas. — O presidente morreu!... João parou assombrado como se lhe tivesse caído um raio defronte. — Morreu, hein?! — Disse-me agora mesmo um empregado da Estrada de Ferro. — Realmente! E vá gente se fiar na justiça divina! Morre um homem d’aqueles, da noite para o dia, como qualquer bêbedo! E lá foi resmungando contra Deus e contra os padres. Os sinos da Sé começaram a dobrar a finados. Aumentava a chuva, que já se ouvia chiar nas calçadas como uma panela fervendo. Maria entrou para o seu quarto, aflita. Essa manhã foi para ela de tristeza e desânimo. Acudiam-lhe à imaginação lembranças extravagantes, idéias lúgubres, como aves negras que pousassem de chofre num arvoredo, alvoraçadas, cantando sinistramente. Caía em abstrações prolongadas em que se punha a contar os dedos maquinalmente, como se fosse ensandecer. Apoderou-se dela um medo pueril, um inexplicável pavor das coisas sombrias, um supersticioso receio d’almas d’outro mundo, um mal estar, um quer que era que lhe trancava a respiração, que lhe oprimia o peito. Procurava disfarçar as apreensões, arrumando os trastes do quarto, mexendo nos baús, numa inquietação crescente, num vira-e-mexe cada vez mais açodado, abrindo e fechando gavetas, atarantada, com o coração aos pulos. — O enterro! o enterro! bradou à porta a Mariana que ia às compras. Todos correram à janela. D. Terezinha, na precipitação, deixou cair um copo, que se esfarinhou; e João da Mata esquecera os óculos, enfiando as mangas da camisa. Maria arrancou como uma louca, dando um encontrão na mesa do centro da sala de visitas. Continuava a chover, agora devagar, com uma insistência importuna, o sol a espiar por trás d’uma nuvem, frio, indeciso, mandando, com um supremo desdém pelas coisas cá de baixo, uma réstia de luz tímida e complacente sobre a manhã úmida. O enterro do presidente passava na esquina, caminho do cemitério. Maria do Carmo assistia com a respiração suspensa e um nó na garganta o desfilar do préstito, o caixão levado por seis homens de preto, coberto de galões dourados debaixo da chuva miúda, o acompanhamento — uma comparsaria dispersa de gente de todas as classes de chapéu-de-chuva aberto, marchando resignadamente ao som da música do batalhão que tocava à funeral. Os padres já tinham passado, na frente, com os seus acólitos, muito graves, olhando para o chão evitando as poças d’água. Um carro seguia atrás, todo fechado, devagar. E a chuva a cair e a música a tocar o funeral, deixando por onde passava uma tristeza vaga que lembrava um dia de finado entre as sepulturas... D. Terezinha enxugava os olhos com a aba do casaco e João da Mata pigarreava disfarçando a comoção. Maria ficou à janela vendo passar o resto do acompanhamento, sujeitos sem paletó, de chapéu de palha de carnaúba, outros sem chapéu. — Que triste, meu Deus! E entrou muito inquieta, com um frio na medula, as pupilas dilatadas, pálida, toda trêmula. Mas no meio da sala perdeu o equilíbrio — escureceu-lhe a vista, tropeçou numa cadeira e estendeu-se no chão pesadamente, como morta. — Chega! A Maria teve uma coisa! gritou D. Terezinha, correndo para a filhada. Chega, Janjão, chega depressa! — A água Florida, a água Florida, em cima da cômoda! O amanuense precipitou-se pelo corredor a grandes passadas, atônito, aterrado, sem saber o que fizesse, seguido pelo Sultão que lhe tomou a frente ganindo. — Jesus, o que foi?! — Sei lá, uma coisa que lhe deu de repente... Segura aí nos braços... E ambos, João da Mata e a mulher, pálidos, muito vexados, conduziram a rapariga para a alcova, arrastando os pés com o peso. — Chega depressa água Florida, mandou João abando o rosto à doente D. Terezinha trouxe a garrafa e começou logo o afanoso trabalho de umedecer a têmporas de Maria, dando-lhe a cheirar o líquido, friccionando-lhe a testa com força, numa aflição. — Um copo com água, um copo com água, Janjão. Maria deu um grande suspiro, entreabrindo os olhos, estendida no comprido na larga cama de jacarandá. — Cheira mais, cheira mais, recomendava D. Terezinha, agora mais aliviada. Maria murmurou que estava melhor. — Já pode se sentar? perguntou o amanuense, chegando o copo. Vá, faça um esforçozinho... Upa! — Não seria bom chamar o médico? lembrou D. Terezinha. Maria fez com a mão que não, e com a voz fatigada, apoiada ao espelho da cama: — “Não era preciso, já estava boa...” — Sentes alguma coisa? quis saber o amanuense. Se sentes, dize. — Apenas uma dorzinha aqui... — E indicou o flanco esquerdo. — Bom, bom, bom, quietinha... E desde esse dia aumentaram as suspeitas de D. Terezinha, que observava agora os menores movimentos da afilhada, insistentemente, examinando-lhe a roupa usada, medindo-lhe o volume da barriga, perseguindo-a com os olhos. — Isto, isto ainda acaba mal! pensava ela. 13 Em poucos meses o estado interessante de Maria do Carmo foi carecendo de cuidados mais sérios, e João da Mata assim o julgou, tratando logo de arranjar uma casa, um sítio nos subúrbios, onde ela pudesse tranqüilamente e sem escândalo, alijar a carga, desembuchar a criança. Mas onde e como poderia ele dispor as coisas do melhor modo, sem despertar a curiosidade pública? Esta era a grande questão que afligia o amanuense, cada vez que seu olhar vesgo descia sobre o ventre da afilhada, vendo-o crescer dia a dia, tomar uma forma esférica iniludível, arredondar-se, arquear-se para fora numa convexidade característica e esmagadora. — “E agora?” interrogava-se ele, passando a mão na calva. O caso ia se tornando grave, urgia fazer qualquer arranjo logo e logo, antes que a Teté rebentasse por aí em quatro pedras a acusá-lo violentamente, atirando-lhe em rosto a sua infidelidade, o seu crime, a sua pouca vergonha. A rapariga engordava a olhos vistos: só um cego não veria dentro d’aquela redondeza uma criatura humana em formação. Toda ela — o ventre, os seios, os braços, o rosto — inchava, adquiria um cunho extraordinário de maturidade precoce. Notavam-se-lhe agora, asperezas na pele, uma cor seca de folha sazonada e certo ar amolentado que se traduzia numa sonolência infinita e na prematura tendência para o abandono de si mesma. Com efeito, Maria, apenas com quatro meses de grávida, tinha perdido muito da antiga expressão insinuante e viva de sua fisionomia. Na idade em que a mulher, como a flor, em plena exuberância dos tecidos, desabotoa numa singular alacridade de cores, toda frescura e beleza, ela, que não transpusera ainda os dezoito anos, olhava a vida com uma indiferença, única, estiolando ali assim entre as paredes d’aquela casa sem ar e sem luz, esperando resignadamente o seu fim. Queria ver até quando duraria aquele estado de coisas, até onde a queriam levar! Já não chegava à janela com vergonha de ser vista pela vizinhança e pelos conhecidos — refugiara-se, como uma culpada, no ádito misterioso do seu quarto, egoisticamente, sem ao menos lembrar-se da Lídia que não a esquecia e que lhe mandava de onde em onde presentezinhos, recados e abraços. E João inquietava-se, procurando meio de evadir-se da alhada em que se metera com risco de um escândalo medonho! Havia um mês que Maria do Carmo caíra com o ataque no meio da sala. D. Terezinha ruminava sutilidades para descobrir uma sombra sequer, um vestígio que confirmasse de uma vez as suas suspeitas. Batera todos os aposentos, todos os cantos da casa, indagara da lavadeira se não vira alguma nódoa, alguma mancha na roupa da afilhada; acordava vezes sem conta, alta noite, prestando ouvidos a qualquer ruído, por mais leve, e nada! absolutamente nada! Faziam-lhe espécie os modos reservados de Maria, esse impenetrável desgosto que a punha triste, com um ar esquisito de “galinha choca”. Alguma coisa havia, por força, era capaz de jurar. D. Terezinha nunca mais dormira com João da Mata e era só quem passava bem naquela casa; até estava criando banha no pescoço. Pudera! Uma vida relativamente calma, senhora absoluta de seu nariz, ganhando um dinheirão com o negócio de rendas que mandava para o norte pelo despenseiro do vapor, tudo corria-lhe às mil maravilhas. Queria ter um pesinho para rusga, isso queria. E se ainda “fazia vida” com o Janjão, era por condescendência, para não dar escândalo; achava feio uma mulher deitar-se com um homem e depois — passe bem — abalar por esse mundo afora, como uma doida, atrás de aventuras. Não era mulher para essas coisas; o que queria era o seu descanso — comer bem, dormir bem, passar bem; não admitia que a fizessem de tola. Tinha uma amiga sincera — a Amélia, senhora do Dr. Mendes. Essa, sim, sabia-lhe apreciar as virtudes, dar-lhe importância, tratá-la com consideração, mesmo porque ela, Terezinha, trabalhava para ganhar a vida honradamente. — Você é tola, Teté, a gente não deve se matar, dizia-lhe a mulher do Dr. Mendes. — Lá isso é verdade, mas você o que quer? É fado, é mania... As conhecidas admiravam-lhe a boa disposição para o trabalho. Sentava-se à máquina às dez horas do dia, cabelos úmidos sobre a toalha de banho estendida nos ombros e labutava três, quatro horas consecutivas a cantarolar modinhas, costurando para o fornecedor da polícia. E sempre gorda, sadia e forte! — Mulher mouro! dizia João da Mata aos amigos. Uma tarde, ao voltar da rua, o amanuense entrou alegre, como se tivesse tirado a sorte grande na loteria, saboreando um charuto mau que lhe dera o Guedes. Vinha um pouco toldado. — Olha esse jantar! bradou para dentro, atirando fora aponta do charuto. E começou a cantar desafinadamente os Sinos de Corneville, então muito repisados Vai, marinhei...ro, vôa ligei...ro, velas à brisa no espelho do mar E logo: Nunca percas a esperan...ça, Quando houver temporal, que há de ver a bonan...ça, e depois o ... final — À cena a Naghel, à cena a Naghel! bradava o amanuense batendo as palmas com fúria. — Ainda mais esta! resmungou D. Terezinha na sala de jantar. — Olha essa lambugem! tornou João enfiando pelo corredor. Estava num de seus dias felizes. Foi até à cozinha acompanhado pelo Sultão que lhe pulava às pernas, ganindo alegre. Mariana mexia o pirão escaldado de farinha num velho alguidar de barro, com a saia arrepanhada na cintura, o casaco desabotoado, exibindo como de costume, o seu detestável colo nu. — Como vai isto, ó estafermo! rosnou o amanuense, espalmando a mão em cheio nas ancas da rapariga. — Sô Janjão... fez esta pudicamente. E João trauteou, fazendo festa ao cão. Mariana diz que tem sete saias de veludo... — Tenha modos, homem de Deus! repreendeu D. Terezinha. Tenha juízo, dê-se a respeito! — É boa! Então já não de pode ser alegre?! Ora muito obrigado! Durante o jantar declarou que a Maria, no dia seguinte, domingo, ia passar uma semana no Cocó, em casa da tia Joaquina, conhecida pela velha dos cajus. — Faz ela muito bem, aprovou D. Terezinha, com enfado, cortando o cozido. E João, muito meigo, olhando por cima dos óculos: — Você compreende, ela anda adoentada, teve outro dia aquele ameaço... não tem apetite, e o médico, o Dr. Azevedo, disse-me a mim que aquela gordura não val’nada, é toda postiça, é uma gordura falsa... Sim, a rapariga coitada, precisa tomar o seu leitinho, descansar um pouco... Maria, que se sentara defronte da madrinha, não pode ocultar seu embaraço. Fez-se escarlate, e muito submissa: — É se a madrinha consentir... — Ainda mais esta! Podes ir até p’ra China quanto mais p’ro Cocó!... — E tu, não queres ir também? perguntou João com certa frieza. Mas D. Terezinha torceu o beiço com desdém: — “Só se estivesse doida, credo”. — Vá você com sua afilhada. — Ah! se eu pudesse passar uma temporadazinha fora... suspirou João. Mas qual, minha filha, não posso faltar um só dia à Repartição, que o chefe não venha logo com os seus arrebatamentos que o governo não sustenta vadios, que o empregado público deve ser infalível como o papa, e tanta asneira!... Coitado, já está velho e suspira, como eu, por uma aposentadoria. Houve um ligeiro silêncio. — Pois é isto, tornou o amanuense limpando o bigode com a toalha. Está ouvindo, Maria? Prepare o seu bauzinho, a sua roupinha. Amanhã depois da missa da madrugada. É p’ra lá do Outeiro, na Aldeola, um sitiozinho, um lugar muito bom, muito saudável. A casa é que é pobre, mas, ora! pobres somos nós também... Os talheres batiam nos pratos com força. João falava mastigando, com a boca cheia, cortando o invariável e sediço lombo assado, com uma voracidade espantosa. Galinhas debicavam debaixo da mesa, cacarejando. Sultão muito rechonchudo, sentado nas patas traseiras, orelhas em pé, alongava o olhar súplice para cima, à espera que lhe caísse um osso ou uma pelanca. Ouvia-se o miar desesperado de um gato na cozinha. De onde em onde a voz da Mariana punha em debandada os parasitas de crista: — “Chô, galinha! Chô!...” Havia um rumor d’asas pesadas, e um velho galo de cauda furtacor estendia o pescoço num cocorocô estridente e prolongado que fazia João fechar os ouvidos, berrando para Mariana que enxotasse “aquele demônio”. A sala de jantar era uma espécie de alpendre assentado sobre grossos pilares de tijolo, abrindo toda para o quintal, onde, àquela hora, via-se a roupa lavada a enxugar, de uma brancura de hóstia, ao redor da cacimba. Fazia ângulo à esquerda com a cozinha, e, à direita, um velho muro escalavrado separava o quintal d’outros quintais, com uma medonha dentadura de cacos de garrafa. Desde as três horas começava a fazer sombra no alpendre e às quatro já se podia respirar ali a frescura das ateiras. Sobre a mesa nada mais que um toalha com manchas de gordura, pratos e copos em desordem, uma moringa muito estragada, bananas e laranjas. D. Terezinha fazia bocados de pirão com os dedos em pinha e atirava a Sultão. — Boa alma aquela tia Joaquina, continuou o amanuense acendendo o cigarro. O mestre Cosme, esse é um homem pobre, coitado, mas honesto como poucos. Vive de vender lenha na feira... Bom velho! — Leva estes pratos, Mariana, disse D. Terezinha erguendo-se. Tinha jantado num momento. A tia Joaquina, conhecida no mercado pela velhinha dos cajus, e mais o mestre Cosme, eram um pobre casal que moravam na Aldeota, cerca de um quilômetro da cidade, numa casinhola de taipa, dentro de um largo cercado de pau-a-pique plantado de cajueiros, todo verde no inverno, com um grande poço no centro, cavado toscamente, e ao fundo do qual sangrava um veio d’água cristalina. Era aí que viviam, há anos, desde a seca de —77, entre brenhas de camapus e matapasto, à sombra dos cajueiros, felizes, sem filhos. Corria-lhe a vida como um abundante manancial d’águas límpidas em leito de areia. Pela manhã, muito cedo, mestre Cosme saltava da rede armada no alpendre, enfiava a grossa camisa d’algodão e lá ia, com um xícara de café no estômago, atrás da jumenta, da sua inseparável jumenta, que lhe dava o pão de cada dia e que carinhosamente chamava-a Coruja. O dócil animal costumava pastar à beira da cerca, tão feliz quanto o dono, cuja presença punha-lhe uma expressão reconhecida no olhar manso. Mestre Cosme metia-lhe o focinho no freio, armava-lhe a cangalha, e abalava para o morro do Cocó a explorar a mata, a fazer lenha para vender no mercado a dez tostões a carga. Um dinheirão! Mestre Cosme não queria vida melhor. Ao por do sol voltava com seus ricos dobrões na ponta do lenço, escanchado na Coruja, sem cuidados, debaixo do seu grande chapéu de palha de carnaúba. Tia Joaquina ficava trocando os bilros na almofada, Mas, em chegando o fim do ano, ia também à cidade fazer o seu negócio, com uma grande cuia na cabeça: — “Olha o cajuzinho bom do Cocó! Olha o cajuzinho bom!” E voltava com a cuia vazia e com a isquinha de fígado para a ceia ou com o cangulinho fresco d’alto mar. Chamavam-na a velhinha dos cajus, porque os cajus que tia Joaquina vendia tinham um sabor especial, eram doces como açúcar. Queriam-se os dois como um casal novo em lua de mel. “meu velho” e “minha velha” — é como se tratavam. João da Mata conhecia-os de longa data, desde a seca, por sinal naquele tempo tinham uma filha moça — também Maria (Maria das Dores) que morrera das febres em 77. João era comissário de Socorros e fazia-lhes muitos benefícios. Mestre Cosme morava, então, no Pajeú, numa palhoça miserável. — Tempo de calamidades! murmurava o velho ao lembrar-se da seca. O amanuense viu o mestre Cosme no mercado e teve a idéia de lhe falar da ida de Maria do Carmo para a Aldeota “—Tinha um grande favor a pedir ao mestre Cosme”, começou, pousando a mão no ombro do velho — Pois diga lá... Seu Joãozinho sabe que a gente vive no mundo p’ra servir uns aos outros... — É isto, mestre Cosme: A Maria, minha afilhada, tem andado doente, coitada, está fraquinha, precisa tomar um pouco de leite fora da cidade... Eu queria que ela fosse passar uns tempos no Cocó, a rapariga tem um fastio que até mete pena... O bom velho ficou admirado: “— Só isso?... Ora, seu Joãozinho, isso não é favor! Eu até estimo. A menina pode ir quando quiser. È casa de pobre, vocemecê bem sabe, mas a gente sempre veve... — Pois está bem, mestre Cosme, a pequena vai domingo cedo. Diga à tia Joaquina. Deixe estar que não lhe esquecerei. Lembra-se da seca?... — Se me alembro? Ora, ora, ora, como se fosse hoje. Comi muita farinha do seu Joãozinho, pois não hei de me alembrar? Aquilo é que foi morrer gente!... — Bem. Você ainda mora na mesma casa, não é assim? — Sim senhor, p’ra lá do Asil; na Aldeota, à direita de quem sobe... — Muito bem, adeus. Domingo, sem falta. Tome lá p’ra você comprar fumo. E João deu um níquel ao velho. Estava tudo arranjado. O amanuense começou a ver claro na espessa caligem de seu espírito. Decididamente era um homem de recurso. No domingo, com efeito, depois da missa da madrugada na Sé, Maria do Carmo e o padrinho seguiram para a Aldeota, a pé. Ainda tremeluziam estrelas no alto. Para as bandas do Coração de Jesus, por ente os coqueiros que se avistavam da praça do Colégio, nuvens esfarripavam-se numa soberba apoteose de púrpura e violeta. Tinham-se apagado as luzes da cidade e pouco a pouco, imperceptivelmente, como numa mágica, sucediam-se as nuances, cada vez mais claras, esbatendo o contorno das coisas há pouco difundidas numa meia tinta escura. Ia-se fazendo gradativamente a majestosa mise-en-scêne do dia: clarões rasgavam-se d’um e d’outro lado do horizonte, incendiando a fachada dos edifícios e o cabeço dos montes longínquos, iluminando tudo... Ao passarem pela Imaculada Conceição, a normalista olhou por entre as grades do colégio. Lá estavam, como antes, sombrios e silenciosos, os quatro pés de tamarindo, numa imobilidade tímida e respeitosa. Ouvia-se lá dentro o coro abafado das educandas ora pro nobis...ora pro nobis. Maria teve um estremecimento, um vago desejo de viver como as irmãs de caridade; mas passou logo... Ia vestida de preto, com o pescoço e a cabeça envolvidos num fichu cor de creme, segurando o manual da missa. João ao lado fumava distraidamente, muito preocupado. Chegaram à praça do Asilo. O grande edifício, à esquerda, abria as janelas sonolentas para o descampado. Havia luz dentro. À direita, no meio da praça, a “cacimba do povo”, cor de tijolo, em forma de quiosque, desolada àquela hora, tinha um aspecto misterioso, quase lúgubre. E adiante, lá longe, por trás da floresta baixa e espessa, branquejavam os morros do alto Cocó. Já era dia. Mulheres em tamancos passavam para a cidade falando alto, de cachimbo no queixo, cuia de hortaliças na cabeça, ar desenvolto, chale trançado. João da Mata perguntou a uma delas “se ainda estava longe o mestre Cosme?” — Hum, hum, respondeu a mulher, meneando a cabeça, sem tirar o cachimbo da boca. E voltando-se: — Está vendo aquele cercado lá adiante, aquela casinha branca na encruzilhada? pois é ali. — Obrigado. Corria um ar fresco e matinal. Revoada de periquitos, num vôo de flecha, cortavam a limpidez da atmosfera e desciam d’um e d’outro lado da estrada sobre o matagal espesso e verde. As primeiras chuvas do ano tinham fecundado a terra, cuja exuberância ostentavase agora prodigiosamente na esplêndida paisagem que os olhos de Maria do Carmo viam com admiração. Sentia-se um fartum de terra úmida que fazia gosto. As matas da Aldeola, de um verde gaio pitoresco, estendiam-se por ali fora, a perder de vista, eriçadas pelo terral, sob a larga irradiação do sol nascente. Aquela estrada branca de areia, larga e interminável, desenrolava-se aos olhos da normalista como uma via láctea de ilusões, como um caminho de ouro que a conduzisse a uma outra vida, completamente outra daquela que até ali vivera, a uma vida sossegada, sem hipocrisias e sem traições, sem dores e sem lágrimas... Fazia-lhe bem, como um tônico, o ar fresco da manhã que lhe bafejava o rosto. Sentia-se melhor respirando aquele ar, bebendo toda a selvagem frescura do campo, todo o delicioso, o inefável perfume que se levanta dos crotons e das salsas bravas. — Que dizes a isto, hein? perguntou João bruscamente, apontando o campo. Vais engordar, minha filha, vais passar bem. Para longe a tristeza, para longe as mágoas, e deixa correr o marfim. E descrevendo um círculo com a mão espalmada. — Como está isto bonito! Não há notícia de inverno igual. Mete inveja, a quem mora naquele inferno de cidade. Uma delícia, Maria, isto é que é vida! O que vais engordar! Aproximaram-se da casinha de mestre Cosme. Vacas babujavam silenciosamente e voltavam a cabeça com uma vagarosa melancolia no olhar. Os velhos já estavam de pé na porteira do cercado. — Ora muito bom dia! saudou o amanuense — Louvado seja N. S. Jesus Cristo, correspondeu a tia Joaquina, recuando. — Então é esta a sua afilhada. — Esta mesma, tia Joaquina. Moça feita e... bonitona, como está vendo. — Entrem, entrem, convidou mestre Cosme solícito. — Sim senhor! fez a velha admirada. Bonita mesmo, pode dizer! Coitadinha, parece que vem tão cansada... Maria teve um sorriso consolado. Estava, com efeito, cansada e pálida. Houve logo um princípio de intimidade entre ela e os velhos, que não cessavam de contemplar o seu belo perfil de noviça envolto numa penumbra melancólica. Provisoriamente instalada no seu bucólico e nemoroso retiro da Aldeota, longe de tudo que lhe arreliava o juízo, a um bom quilômetro das rabujices de D. Terezinha e do mau hálito de João da Mata, outra foi com efeito a vida de Maria do Carmo. O viver simples e sossegado de Mestre Cosme e da tia Joaquina, o aspecto úmido da mata resplandecendo num fundo verde claro e onde variados matizes da flora agreste punham efeitos surpreendentes, o bom leite puro e fresco bebido pela madrugada à porta do curral, e, à tardinha, quase ao anoitecer, o violão de mestre Cosme gemendo saudades de um país remoto e abençoado, a liberdade que se bebia ali na larga convivência da Natureza, tudo isto robustecia-lhe o corpo e a alma, inoculando-lhe no sangue um conforto viril, ressuscitando-lhe o quase extinto amor à vida, a alegria, a mocidade, e as apagadas reminiscências do bom tempo em que ela, ainda inocente, em Campo Alegre, ia esperar o papai que voltava da vasante. Que mudança na sua vida, que transformações desde 77! Antes nunca tivesse saído da Imaculada Conceição para se meter numa escola sem disciplina e sem moralidade, sem programa e sem mestres, e onde uma rapariga, filha de família, é expulsa da aula porque outra de maus costumes escreveu obscenidades na pedra! Mil vezes a Imaculada Conceição com os seus claustros, com as suas capelas, com o seu silêncio respeitoso, com a sua disciplina austera; ao menos não teria voltado à casa dos padrinhos, àquela maldita casa de hipócritas, e não teria dado espetáculos com Sr. Zuza. Ah! o Zuza... Vinha-lhe um forte desejo de vingar-se do estudante, de caluniá-lo e de culpá-lo pela sua desgraça. Àquela hora o que não estariam dizendo d’ela na cidade?... Pensava essas coisas no seu pobre quartinho de taipa abrindo para a Natureza, enquanto tia Joaquina fazia rendas. Dentro de um mês era notável a influência do campo na sua saúde. Criara novas cores, novo sangue, muito solícita agora nas preocupações domésticas. — A menina Maria está criando banha! admirava a tia Joaquina. Sim senhora! — O leite, tia Joaquina, o leitinho é que tem me feito bem. João da Mata aos domingos, invariavelmente, ia ver a afilhada, afetando grande interesse por seu estado. Dizia-lhe as novidades, os escândalos, dava-lhes lembranças da Lídia Campelo, e, ao retirar-se prevenia: — “Se houver necessidade mandem-me dizer”. — Vá descansado, seu Joãozinho, vá descansado, que há de chegar o dia... Mas o estado de Maria do Carmo não inspirava cuidados. O útero revigorava, funcionando com a regularidade precisa d’uma excelente máquina moderna; por sinal Maria, desde que se mudara para a Aldeota, nunca mais sentira pontadas. O amanuense exultava, alegre e feliz. A princípio receara um aborto, mas agora tinha a certeza de que triunfavam as qualidades procriadoras da rapariga. — É, pensava ele, roendo o canto das unhas. Um bom útero é tudo na mulher: eqüivale a um bom cérebro! E esquecia-se a filosofar na vida intra-uterina, admirando-se muito do que uma simples gota de esperma pudesse gerar um homem! 14 A ausência de Maria do Carmo não passou despercebida às rodas de calçada e aos freqüentadores do Café Java, cujo tema quotidiano — a política — não lhe satisfazia o prurido de entrar pela vida alheia a esmiuçar escândalos como quem procura agulha em palheiro. Nas portas de botica, nos cafés, nas repartições públicas, mo mercado, em toda aparte comentava-se o desaparecimento da normalista, em tom misterioso e com risadinhas sublinhadas a princípio, depois abertamente, sem rebuços, com uma ponta de perfídia, traindo a sisudez convencional da burguesia aristocrata. Que tinha ido tomar ares a Maracanaú, afirmavam uns acentuando a ironia: outros — que andava adoentada de uma pneumonia “proveniente de desarranjos na madre”; outros — que estava proibida de sair à rua e de chegar à janela por desconfianças do amanuense. Alguns, porém, como o José Pereira, comunicavam secretamente, pedindo toda a cautela, que a rapariga tinha sido raptada por um paraense e que se achava depositada no Cocó, em casa de uma tal Joaquina Xemxem, por sinal o Manoel Pombinha, tipógrafo, “os vira passar uma note embuçados numa capa preta” caminho do Outeiro. Na Escola Normal rebentavam suspeitas à flor das discussões que preenchiam o intervalo das aulas. Quem, a Maria do Carmo? Aquela mesma não era mais moça, não, meu bem. Ela sempre fora muito metida á aristocrata, por isso mesmo caíra na mãos de um Zuza. Era bem feito! Uma grandíssima orgulhosa com carinha de santa. Aí estava a santidade... Vinham à baila casos análogos de filhas-famílias que tinham ido para fora da cidade tomar ares e, no fim de contas, iam mas era “desembuchar” onde ninguém pudesse ver... — Então, já apareceu a rapariga? perguntava-se com interesse. O Guedes ardia em desejos de saber a verdade nua e crua. Diabo de tantas histórias e ninguém descobria a incógnita do problema. Aproveitou uma ocasião em que João da Mata jogava a bisca no Zé Gato. O amanuense estava já um pouco atordoado pela cachaça. É agora! pensou da Matraca, e formalizou-se, carregando o chapéu para a nuca. — Então é verdade o que se diz por aí, ó João? — Sobre os amores secretos do falecido presidente? — Não, homem, não é essa a ordem do dia. Isso passou. A questão é outra. — Desembucha! — Pergunto se é verdade o que corre sobre... —... Sobre a Maria do Carmo? Uma calúnia, seu Guedes, uma calúnia. Você bem conhece este povo. — Eu já tinha dito isso mesmo a alguns amigos: que a D. Mariquinha era incapaz de semelhante procedimento. — Idem, idem, atalhou o Perneta embaralhando as cartas. Essa é a minha opinião. — E que fosse verdade, continuou João da Mata partindo o baralho, e que fosse verdade, não era da conta de ninguém. — Que dúvida! confirmou o Guedes. — Mando copas, rosnou o amanuense. E o jogo continuou sem que o Guedes soubesse a verdade. Mas, ao retirarem-se, cerca de meia noite, interpelou novamente o amanuense na esquina, à luz de um lampião. João da Mata cambaleava, equilibrando-se, a praguejar contra o calçamento das ruas e contra a Câmara Municipal. A rua do trilho perdia-se na escuridão, silenciosa como um subterrâneo. O Guedes tinha tomado pouco nesse noite e fumava o seu cigarro com um grande ar de superioridade, pisando forte, o gesto largo e o paletó aberto num abandono frouxo de boêmio. — Cuidado ! não vás cair, avisava com as mãos nos ombros do outro. — Que cair nada, homem! Pensas tu que estou bêbedo, hein? estás muito enganado! O diabo dos óculos escuros é que não me deixam ver bem... — Por aqui, por aqui, guiava o Guedes, cauteloso. Espera, vais fumar um cigarrinho fino... Pararam. Um polícia passou do outro lado da rua, sonolento e lúgubre. Então o redator da Matraca abraçando o amigo pelo pescoço, depois de lhe ter dado o lume: — Tu não me quiseste ser franco ainda agora na presença do Perneta, mas nós somos amigos... tu sabes... Aonde diabo meteste tu a rapariga? João cuspinhou para o lado. — Hein? — A Maria do Carmo, onde anda ela? — Ah! seu marreco, você quer saber onde está a rapariga, hein? Pois não lhe digo, não... — Fala sério, homem. Dizem que está no Cocó, que teve um filho?... Juro-te como esta boca não se abrirá... Sentemo-nos aqui um pouquinho, que ainda não deu meia-noite. Sentaram-se à beira da calçada, debaixo do gás e o amanuense, encostando-se à coluna do lampião, o chapéu, o inseparável chile enterrado na cabeça, foi dizendo à meia voz: — A coisa não é como se diz, seu Guedes; a verdade é esta, que eu lhe confio porque sei que você é meu amigo: a menina está no Cocó, mas ainda não teve a criança... — Ah!... — Sim, quero dizer, você bem sabe o que quero dizer... O Guedes era todo ouvidos. Luziam-lhe os bugalhos no fundo das órbitas, parados, imóveis, caindo sobre o amanuense com a fixidez de clarabóias de vidro. Sentia um prazer especial, uma comoçãozinha esquisita, um extraordinário bem estar ao ouvir a história, a verdadeira história do escândalo, narrada pelo João da Mata, pela própria boca do padrinho da rapariga, gente de casa, testemunha ocular. Encolhia-se todo de gozo, ante aquelas maravilhosas palavras do amanuense. — E o pai? — Que pai? O pai morreu no Pará... — Não, homem, o pai da criança... — Sim... o pai da criança, o Zuza? Pois não foi-se embora para Recife? Aquilo é um infame, um biltre... Eu cá previa tudo quando proibi formalmente que a pequena lhe mostrasse o nariz, logo a princípio, mas, que querem? encontravam-se na Escola Normal, no Passeio Público, e, afinal foi o que resultou... Soaram doze badaladas graves e dormentes na Sé. João contou uma a uma. — Meia noite, seu compadre, vou-me embora, adeus! Perdi hoje tanto como dez pintos. E separaram-se friamente, como dois desconhecidos. Perto de casa o amanuense esbarrou com um vulto que se movia no escuro, — era um burro, o pobre animal babujava a rama da coxia, solitário e mudo. Uma vez senhor do segredo, o Guedes não se conteve, disse-o, ao ouvido Perneta, e com pouco ninguém ignorava na cidade, “que a normalista do Trilho fora desembuchar, ao Cocó, um filho do Zuza”. — Do Zuza? exclamou o José Pereira ao saber da novidade na redação da Província, pela manhã. — Sim, do Zuza, confirmou o Castrinho pousando a pena atrás da orelha. É o que diz o público. Vox populi... — E esta! José Pereira arrepanhou as abas da sobrecasaca, e, passeando o olhar sobre a banca de trabalho onde destacavam dois grandes dicionários de Aulete, sentou-se vagarosamente, voltando para o poeta. — Admira-se você, tornou este. Oh! homem, pois um fato que toda gente previa!.. O outro recomendou que falasse mais baixo por causa dos tipógrafos... E o Castrinho, à meia voz, estrangulado por uns colarinhos extraordinariamente altos: — Qual! O fato está no domínio público, não há por aí quem não o saiba. Dizem que o velho Souza Nunes só falta perder a cabeça. Em todo caso sempre era prudente guardar certo sigilo, negar mesmo , se possível fosse, uma vez que se tratava da reputação do Zuza... Meninos de bolsa a tiracolo questionavam com o agente da folha, do outro lado do tabique que dividia a sala da redação e onde se viam o empilhamento de jornais sobre uma velha mesa gasta. Daí a pouco entrou o Elesbão, outro redator, um sujeito lúgubre, muito pálido, faces encovadas, olhar triste, tossindo devagar. Foi perguntando, numa voz sumida e lenta, do que se tratava. O Castrinho disse, empertigando-se na cadeira, que se tratava “dos brios da sociedade cearense”. O outro arregalou os olhos com ar de espanto. — Como assim? E explicou: Tinha estado fora, na Guaiúba, a leites, não sabia as novidades. — Um fato muito natural, disse José Pereira, nada mais que a reprodução de fatos velhos... Não valia a pena tocar na ferida... Mas o Eslebão estranhou que “os colegas” tivessem segredos para ele... E, depois de saber o “mistério”: — Magnífico assunto para folhetim realista, hein? Escrevia folhetins realistas para o rodapé da Província e trabalhava num livro de fôlego, os Mistérios de Arronches, com que, dizia, pretendia fundar uma escola “mais consentânea com o estado atual da ciência”. A sua opinião sobre o novo escândalo que preocupava agora a população cearense era que “nós ainda não tínhamos compreendido o importante papel da mulher na civilização”. — A educação feminina, acrescentou com cansaços na voz, a educação feminina é um mito ainda não compreendido pelos corifeus da moderna pedagogia. Queríamos introduzir no Ceará os dissolventes costumes parisienses, à fortiori, mas não eram essas as tendências do nosso povo essencialmente católico e essencialmente crédulo. Não admitia a teocracia tal como a aceitavam os padres — “essa corja de especuladores” — mas era preciso respeita as crenças populares, o verdadeiro sentimento religioso, sem hipocrisia, sem preconceitos. De quando em quando a tosse o interrompia, uma tossezinha seca e pigarreada; levava a mão ao peito e expectorava. — “Diabo de catarro não o deixava em paz!” E, continuando: — Que é a Escola Normal, não me dirão? Uma escola sem mestres, um estabelecimento anacrônico, onde as moças vão tagarelar, vão passar o tempo a ler romances e a maldizer o próximo, como vocês sabem melhor que eu... José Pereira contestou, lembrando o Berredo, “uma ilustração invejável” , o padre Lima, “um excelente educador em cujas aulas as raparigas aprendiam ao mesmo tempo a ciência e a religião”. — Mas não têm método, não fazem caso d’aquilo, vão ali por honra da firma, por amor aos cobres, rebateu o Eslebão, forcejando por falar alto. Aquilo é uma sinecura, não temos educadores, é o que é. — Você deste modo ofende o atual diretor da Escola Normal, tido e havido como um pedagogista de primo cartello! advertiu o Castrinho, que se conservava calado. — Não ofendo a ninguém, ao contrário, folgo em reconhecer nele um homem estudioso e bem intencionado, mas isto não basta , meu caro... Novo acesso de tosse desta vez mais prolongado. —... É preciso orientação e muito bom senso, isto é justamente o que falta aos nossos corpos docentes... — Tudo isso é inútil, Elesbão, tudo isso é completamente inútil quando uma mulher tende fatalmente para um homem. Foi o que se deu com a Maria do Carmo... — É verdade, gabou o Castrinho roendo as unhas desesperadamente. Dizem que é inteligente e bem educada. — E além d’isto, acrescentou José Pereira, uma rapariga até morigerada... — Não creio, duvidou o Eslebão batendo com o pé, curvado, já com uma poça de cuspo ao lado da cadeira, no chão. O amor tem suas exigências, incontestavelmente, mas, quando a mulher é bem educada e tem noções exatas da vida, dificilmente se entregará a qualquer mariola que se lhe chegue. E sentenciosamente: — Todo fenômeno é conseqüência de uma causa. Não há efeito sem causa. No caso vertente a causa é a falta de educação, a falta de absoluta de quem sabe dirigir a mocidade feminina. A nossa educação doméstica é detestável, os nossos costumes são de um povo analfabeto. Um tipógrafo aproximou-se e pediu licença ao Sr. José Pereira para perguntar uma palavra. — O que é? O rapaz mostrou o original: — “Está aqui”, disse apontando com o dedo sujo de tinta... — Crápula, disse o José Pereira. O tipógrafo foi repetindo — crápula, crápula... — Que é isso? inquiriu Eslebão curioso. Era um artigo contra o Pedro II, uma formidável descompostura a um dos redatores da folha oposicionista. Entraram a falar no novo presidente da província. A notícia do escândalo chegou até o Benfica, à casa do Loureiro. A Lídia ficou estupefata. — A Maria, hein?! Tão calada, tão sonsa... E repetia: — Este mundo, este mundo!... Ao mesmo tempo apoderava-se dela um pesar sincero pela amiga. Tão moça ainda, coitada, tão boazinha... — São coisas, são coisas, rosnava o Loureiro. Eu nunca me enganei com aquela gente. Uma súcia de doidos, a começar pelo tal Sr. João da Mata, um tipo que anda caindo nas ruas, bêbedo como uma cabra. — Que é isso, Loureiro! ralhava a Campelinho, empinada, carregando os seus oito meses de prenhez. Pensou em escrever à Maria lamentando o deplorável acontecimento, mas não sabia ao certo onde ela parava. Ouvia falar no Outeiro, na Aldeota, no Cocó... Se fosse possível, até iria, ela mesma, dar um abraço na sua amiga de escola, consolá-la. Imaginava-a muito triste, cortada de desgostos, num abandono pungente, em casa d’alguma mulher à toa, sem ter quem lhe aparasse as lágrimas... Pobre Maria! É assim — uns tão felizes e tão maus, outros ao contrário, bons e infelizes... E Lídia soltava uns suspiros vagos, traspassados de pena ao lembrar-se de sua velha companheira agora atirada ao desprezo como um ente nulo e prejudicial à sociedade! — Este mundo, este mundo!... Entretanto, corria-lhe a vida deliciosamente, não lhe faltava coisa alguma, o Loureiro a estimava cada vez mais, comia e vestia do melhor, tinha relações com as principais famílias da capital, ia ao teatro e freqüentava o Club Iracema; gozava! Se pudesse repartir a sua felicidade com Maria, coitadinha... Ultimamente andava muito preocupada com o enxoval do seu primeiro filho. Até já havia escolhido um nome para ele, para o pequeno — chamar-se-ia Julieta ou Romeu. O Loureiro tinha lhe dito que Romeu era nome de gato, mas ela teimava em batizar o filho com este nome se fosse “menino”. Os padrinhos também já estavam designados — o comendador Carreira e a esposa. Por sua vez a mulher do juiz municipal correu logo à casa de João da Mata numa ânsia de saber como as coisas tinham se passado. Era da escola de S. Tomé — ver para crer. Vestiu-se às pressas, atabalhoadamente, e voou para o Trilho de Ferro, como uma seta, atirando-se nos braços de D. Terezinha, esfalfada, sem fôlego, o rosto quente do mormaço. A mulher do amanuense saudou-a com o seu invariável — salvou-se uma alma! — proferido entre beijos. Sem esperar oportunidade, D. Amélia foi direto ao móvel da sua inesperada visita. — “Então era mesmo certo o que se dizia na rua?” — De que? — Da Maria... — Se era? Tão certo como dois e dois são quatro. Jurava sobre os Santos Evangelhos. O demônio metera-se-lhe em casa com a rapariga, e por tal modo que, de certo tempo àquela parte, nem fazia gosto a gente viver. A Amélia não fazia idéia — uma vergonha! criatura, uma vergonha! Ela, Terezinha, estava cansada de sofrer desapontamentos, nem sequer saía à rua para não ser olhada com maus olhos. Haviam de pensar que ela era outra... — E onde está Maria? — Sei lá, menina, sei lá... No Cocó, na Aldeota, no inferno. Tomara que aquela peste não me entre mais em casa! — E tu não viste logo se ela estava grávida? — Vi lá o que! Andava aqui toda espremida, com um arzinho de mosca morta, metida no quarto que nem uma feira. Uma sonsa, Amélia, uma sonsa é o que ela é. — O tal do Sr. Zuza, hein?! — Qual Zuza, mulher, elas é que são as culpadas, porque não se dão ao respeito, não têm vergonha. — E o que diz a isso o Sr. Joãozinho? Furioso, hein? — É o que tu pensas, indiferente como se não fosse com gente dele... E o diálogo continuou animado, sem que D. Terezinha revelasse à amiga as suspeitas acerca de João da Mata e Maria do Carmo. D. Amélia falou sobre o José Pereira, queixando-se de que ele há muitos dias não aparecia em nossa casa, “todo embebida com a outra , com a Lídia”. O redator da Província não tirava os pés do Benfica, e, às vezes, voltava depois da nove, no último bonde. A Teté não achava feio isso, um homem ir diariamente, às mesmas horas, à casa duma senhora casada! Era feíssimo! Já andavam dizendo até coisas. E então o José Pereira que não era tolo e tinha fama... — Queira Deus que a tal Sra. D. Lídia não vá se arrepender... É verdade, a mãe, a viúva Campelo, como vai? — Naquilo mesmo, respondeu D. Terezinha com um sorriso de malícia, piscando um olho. Riram baixinho e a conversa recaiu sobre D. Amanda àquela hora entregue ao seu delicioso farniente de mulher solteira que dispõe do tempo a seu bel-prazer e da algibeira de um capitalista generoso. Toda a cidade vivias agora do escândalo, dando-lhe vulto, criando novelas de romance, esmiuçando pequeninos acidentes domésticos, com um olho na política e outro na normalista, à espera de chuvas e de novos acontecimentos sensacionais. João da Mata não se inquietava muito, de resto, e continuava a sua vida inalterável de empregado subalterno, sem prestar ouvidos à maledicência, encantonado no seu absoluto desprezo à sociedade e à opinião pública, cada vez mais submisso à mulher que o cobria de injúrias e labéus. — Sedutor de filhas alheias! dizia-lhe ela na cara, ameaçadoramente. Peste! Coisa ruim! Sem vergonha! E ele punha-se a cantarolar, com os ouvidos arrolhados, o olhar no teto, estendido na rede, mudo, impotente como um eunuco. Uma noite, pela madrugada, despertou com o desejo veemente de ir ter com D. Terezinha na alcova. Há meses não se chegava à mulher alguma, cheio de aborrecimento pelo outro sexo, frio mole, inacessível quase às carícias da fêmea. Agora, porém, renascialhe a virilidade, sentia uma forte vontade, indomável e impetuosa, de amar fisicamente, de crucificar-se nos braços de uma mulher que não fosse de todo o mundo e confundir-se o seu sangue com o dela num demorado e indescritível espasmo. Tremiam-lhe as carnes como ao contato de um condutor elétrico, uma formidável ereção a distender-lhe os nervos escabujando na rede em espreguiçamentos lúbricos, vergando, como um vencido, ao poder irresistível da animalidade humana. O sangue pulava-lhe nas artérias numa hiperquinesia que lhe atordoava os sentidos, que lhe tirava a respiração, impelindo-o para a mulher... Pensou na Mariana, que dormia ali perto, mas a Mariana era uma criada que não se lavava, um estafermo sem sexo, incapaz de satisfazer os apetites de um homem. Não havia jeito senão tentar a Teté. E lá se foi sutilmente, pé ante pé, corredor a fora, direito à alcova da infeliz senhora. A alcova tinha uma porta para o corredor. João olhou pelo buraco da fechadura, mas não pode ver senão o espelho do velho toucador, defronte, inclinado para a frente, refletindo um vaso noturno e roupas espalhadas no chão. Bateu de leve, e, receoso da criada, deu volta pela sala da frente, tateando no escuro, sem ruído. A outra porta da alcova conservava-se entreaberta: empurrou de leve enfiando a cabeça para dentro. — Teté! chamou numa voz quase imperceptível. Silêncio profundo. Os cortinados da cama estavam cerrados. João foi entrando devagar, equilibrando-se nos bicos dos pés. — Teté! repetiu à meia voz. Ninguém respondeu. Adiantou-se e escancarou as cortinas, mas — oh!... — o leito matrimonial, largo e fresco, branquejava desolado, sem sombra de mulher. João ficou boquiaberto, muito admirado. —“Que significava aquilo?” Os lençóis revoltos acusavam o desespero de uma pessoa que não teve tempo a perder. Ante a clarividência assombrosa da realidade, o amanuense rodou sobre os calcanhares, e, resignado como um boi, sem proferir palavras, murcho, sentiu desaparecer-lhe subitamente o forte desejo que ainda há pouco o espicaçava como uma urtiga. Retirou-se macambúzio a pensar nos caprichos da sorte. 15 Quando mestre Cosme, uma manhã, foi avisar a João da Mata que “a menina estava com as dores”, o amanuense dormia ainda sob os lençóis e nem sequer sonhava com a afilhada. Ergueu-se da rede, com um pulo, enfiou as calças, lavou-se num instante, e abalou mais o velho para a Aldeota, sem dizer palavra à D. Terezinha. — Já tinham arranjado parteira? inquiriu acelerando o passo. — Já, nhor sim, a comadre Joana Pataca, uma do Outeiro. — Boa? Mestre Cosme não afirmava porque não conhecia bem, mas era limpa e não tinha má cara. Diz que era a melhor parteira do Outeiro. Agora, se seu Joãozinho não quisesse... A mulher já estava cuidando da menina... — Quando apareceram as dores? — Se Maria gemia muito... O velho informou tudo minuciosamente, sem ocultar um só detalhe, juntando às palavras os seus gestos rudes de homem do campo. A rapariga há dois dias queixava-se d’uma dores nas “ancas e no pé da barriga”, acompanhadas de fraquezas nas pernas e grande falta de ar... Se gemia? Muito, coitada, metia até pena. Pudera! novinha ainda... A parteira disse logo que a criança estava no nascedouro. Aquela noite as dores tinham piorado, ninguém dormira, velando a pobre moça. Eram chás e fricções, e — corre d’aqui e chega depressa — todos com cuidado, rezando à N.S. do Bom Parto. Logo da porteira do sítio João escutou os gemidos de Maria do Carmo, trêmulos, sentidos, longos ... e aquilo apertou-lhe o coração. No pequeno quarto de taipa, com uma janelinha para o descampado, achava-se Tia Joaquina, à cabeceira da normalista, alisando-lhe os cabelos, com carinho, e uma outra mulher gorda, pançuda, sem casaco, muito trigueira, com marcas de bexiga no rosto, meio idosa. — Dão licença? murmurou João da Mata descobrindo-se com respeito. A mulher gorda tomou o casaco, às pressas, e Maria volveu os olhos úmidos e profundamente melancólicos para o padrinho, gemendo. Mestre Cosme trouxe um tamborete. Sentia-se um cheiro ativo de alfazema queimada: encostada à parede fumegava o braseiro. — Então, como vai? perguntou João tomando a mão da afilhada. Muitas dores, hein? — Assim... respondeu a rapariga mordendo o beiço com um gesto doloroso, revirando-se na rede, e continuou a gemer alto. — A senhora é que é a parteira? tornou João para a mulher gorda que se conservava imóvel com o queixo na mão. — Sua criada Joana Pataca. — Já verificou se a criança está perfeita, se não há novidade? — Ora, ora, ora... há que tempo! D’aqui a pouquinho o menino está fora, se Deus quiser. O amanuense encarou por cima dos óculos, com ar de desconfiança o todo obeso da mulher. E, sentando-se: — A senhora tem licença para assistir? Não era preciso licença, não senhor. No Ceará qualquer mulher podia ser parteira contanto que merecesse confiança. Ela, Joana Pataca, era muito conhecida no Outeiro, por sinal tinha partejado uma vez a mulher do comandante do batalhão... — Vocemecê duvida? — Não, não... é que eu queria saber... Então não é preciso licença? — Inhor não. É qualquer uma. — Está bom, está bom... Mas não se descuide... Olhe não vá esquecer... A parteira pousou no chão o cachimbo que estivera fumando, e foi aquecer uns panos. Deu meio dia e a rapariga não teve a criança. As dores tinham melhorado um pouco. Tia Joaquina batia os beiços rezando “—Tenha paciência, minha filha, tenha fé no Senhor do Bonfim”, dizia ela muito solícita. João da Mata passou todo esse dia na Aldeota, aguardado o sucesso, bebendo aguardente e acendendo cigarros, esquecido da repartição. Mestre Cosme armara-lhe uma rede no alpendre e fora-se a desbastar a mata, escanchado na Coruja. Fazia um belo dia de sol, calmo e luminoso. O arvoredo imóvel dormitava na esplêndida pulverização da luz que o narcotizava para beber-lhe a seiva. O passaredo aninhava-se na verde espessura dos cajueiros em flor, contubernal e gárrulo; rolas bravas debicavam nas clareiras os minúsculos diamantes que o sol punha na areia. E no silêncio e na beatitude d’aquela espécie de cemitério João pôde dormir um sono bom de duas horas, embalado pelos gemidos da afilhada como por um vago e monótono estribilho repassado de melancolia. Às sete horas da noite, ao acender-se a primeira vela, Maria teve um sobressalto e ergueu-se bruscamente com uma fortíssima dor no baixo ventre, muito branca, o olhar desvairado e os cabelos em desordem. — Que é isso, comadre! repreendeu-a a parteira agarrando-a. — Minha filha! fez a tia Joaquina. E em pé, entre as duas mulheres, com a cabeça arqueada para trás, contorcendo-se numa aflição suprema, a rapariga soltava gemidos estrangulados, cortada de dores, agarrando-se como uma louca ao pescoço das velhas, no bico dos pés, em camisa. Houve uma confusão extrema. — Sente-se, comadre, sente-se, por amor de Deus! suplicava a parteira, agarrando com jeito. — Sente-se, minha filha, repetia a outra. João da Mata acudiu gelado. — Calma! calam! bradou estacando à porta do quarto. Mas era tarde. Ouviu-se uma pancada surda no chão, como a queda de um balão de barro úmido, e, imediatamente, rios de sangue jorraram aos pés da parteira, e no linho branco da camisa de Maria do Carmo desenhou-se larga faixa rubra, d’alto a baixo, como uma bandeira de guerra desdobrada. — Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo! rosnou Joana Pataca estremecendo. Passou-se a noite às voltas. O amanuense resolveu não chamar médico — que era uma asneira, o perigo tinha passado. A parturiente adormecera profundamente, depois de lhe terem ministrado um hidromel de aguardente. Sobre uma grande caixa de pinho, a um canto do quarto, envolvido, em panos, o recém nascido — uma criança nutrida e robusta — dormia o sono eterno, roxo, d’olhos fechado, as gordas mãozinhas cruzadas sobre o peito, com um fio de sangue a escorrer-lhe do nariz. João não pregara os olhos, pensativo, com a calva entre as mãos, ao lado da afilhada. — Era o diabo, era o diabo! Até lhe doía a cabeça! Grandíssima besta, a parteira, que nem ao menos soubera apanhar a criança! Estúpida! deixar morrer assim uma criança tão bem feita e nutrida! Isso só acontecia a ele, João da Mata. De meia em meia hora acendia um cigarro automaticamente e punha-se p’r’ali a ruminar silenciosamente, à luz d’uma triste vela de carnaúba, que pingava a sua cera denegrida no gargalo d’uma velha botija de genebra, esbatendo ao fundo do quarto o perfil do recém-nascido. Diabo! pensava o amanuense quebrando a cinza do cigarro. Um caiporismo! Tantos cuidados, tanta aflição, e, afinal de contas, lá ia tudo por água abaixo. Por um lado era uma felicidade o pequeno ter morrido, porque isso de filho natural sempre dava que falar às más línguas e até podia-se descobrir a verdade. Consolava-se com esta idéia. Perto, numa palhoça vizinha, havia um samba que durava desde o anoitecer. No silêncio da noite ecoava um alarido medonho, vozes aguardentadas, sapateados que estremeciam o chão, cantos, desafios ao som d’uma viola cansada. Maria ressonava docemente, com o rosto voltado para a parede, o tronco repousando sobre chumaços de pano onde brilhavam manchas de sangue. Cerca de onze horas moveu-se devagar, abrindo os olhos e soerguendo-se , como quem acorda de um pesadelo; mas faltaram-lhe as forças e repousou novamente. — Queria alguma coisa? perguntou João. — Onde está meu filho? — Não te lembres d’isto agora, vê se descansas... — Mas onde puseram ele? está vivo? — Qual vivo, filha! Pois queria tu que escapasse? E em tom lamentoso: — Coitado, ao menos está no céu, livre das misérias d’este mundo... Maria não se conteve: repuxou o lençol, e, com os olhos cheios d’água, murmurou numa voz entrecortada de soluços: — Pobrezinho! ... Porque não me disseram logo? — Já te pões a chorar! Maria do Carmo soluçava com desespero, sentindo crescer dentro de si, no íntimo de seu coração, avassalando-a, abalando todo o seu ser, toda sua delicada alma de mulher, como um sopro violento e devastador, esse inestimável desgosto que as mães sentem ao verem o filho morto. Ela que desejava tanto criá-lo, amamentá-lo com o seu leite, que era o seu próprio sangue, a sua própria vida, amá-lo, adorá-lo, com toda a força do seu coração!... Era um filho natural, mas era seu filho, nascido em suas entranhas, carne de sua carne, sangue do seu sangue, havia de amá-lo muito... — Quero vê-lo, deixe-me vê-lo, pediu aflita. — Que tolice! fez João agasalhando-a melhor. Não pense nisto agora, criatura, os médicos recomendam toda a calma. A criança está morta, que se há de fazer? Continuavam os soluços, um choro estugado, interrompido por um tossezinha convulsa. — Mau! mau! tornou João. E, imediatamente, foi buscar o cadáver do filho, depondo-o carinhosamente sobre os joelhos. Tia Joaquina apareceu, envolvida numa larga coberta de chita feita de retalhos. “— O que era?...” — Nada, tia Joaquina. Ela que desejou ver o filho, explicou João. Uma imprudência. Até pode lhe fazer mal... — Vejam a vela, por favor, pediu Maria. Quero ver meu filho... E ao mirar o rosto lívido da criança, os bracinhos rechonchudos, o filete de sangue escorrendo do nariz como um veio de rubim, a rapariga sentiu um calafrio e um grande vácuo no peito, como se lhe tivessem arrancado um pedaço do corpo. E entrou a soluçar outra vez de um modo tão penoso e comovente que João da Mata não pode recalcar duas lágrimas, as primeiras de sua vida, que rolaram vagarosas nas suas faces magras, como duas linhas cristalinas na aspereza tosca d’uma rocha. No dia seguinte, antes do sol nascer, mestre Cosme foi ao fundo do sítio cavar uma sepultura para o pequenino cadáver. João acompanhou-o taciturno. Pararam ao pé de um grande cajueiro, que ficava defronte da casa, e, com pouco, o amanuense viu sumir-se debaixo da terra o corpo do seu primeiro filho. Mestre Cosme socou bem a areia, nivelou o terreno com os pés e suspirou com força, como depois d’um trabalho penoso. João assistiu em pé, sem dar palavra, mãos p’ra trás, olhos cravados na terra. — Pronto! fez o velho pousando a enxada no ombro. — Bem, murmurou João. E seguiram por entre as ateiras, calados e graves. Seriam seis horas da manhã. No alto de um coqueiro que farfalhava à beira do cercado, cantava uma gralha, e as notas límpidas do seu canto vibravam demoradamente na transparência do ar, sobre a verde monotonia do campo, como um toque de alvorada! Tinha-se calado o samba havia pouco. Meses depois, quando Maria do Carmo apresentou-se na Escola Normal para concluir o curso interrompido, estava nédia e desenvolta, muito corada, com uma estranha chama de felicidade no olhar. A sua presença foi uma ressurreição. “—A Maria do Carmo, hein? Nem parecia a mesma!” — Houve um alarido entre as normalistas: abraços, beijos, cochichos... Até o edifício tinha-se pintado de novo como para recebê-la. O programa era outro, mais extenso, mais amplo, dividido metodicamente em educação física, educação intelectual, educação nacional ou cívica, educação religiosa... pelo moldes de H. Spencer e Pestalozzi; o horário das aulas tinha sido alterado, havia uma escola anexa de aplicação, estava tudo mudado! A esse tempo um grande acontecimento preocupava toda a cidade. Lia-se na seção telegráfica da Província as primeiras notícias sobre a proclamação da república brasileira. Dizia-se que o barão de Ladário tinha sido morto à pistola por um oficial de linha, na Praça da Aclamação, e que o imperador não dera uma palavra ao saber dos acontecimentos em Petrópolis. O Ceará estremecia a esses boatos. Grupos de militares cruzavam as ruas, ouviamse toques de corneta no batalhão e na Escola Militar. Tratava-se de depor o presidente da província a um coronel do exército. Os canhões La Hitte, da fortaleza de N.S. d’Assunção, dormiam enfileirados na praça dos Mártires, defronte do Passeio Público, guardados por alunos de patrona e gola azul. Ninguém se lembrava dos escândalos domésticos nem de pequeninos fatos particulares. Um homem revoltava-se, indignado com o novo estado de coisas — era João da Mata. — É boa! bradava ele na Bodega do Zé Gato, esmurrando a mesa. Isto é um país sem dignidade, uma nação de selvagens! Expulsar do trono um Monarca da força de D. Pedro II, mandá-lo para o estrangeiro doente e quase louco, é o cúmulo da ignorância e da selvageria! E Maria do Carmo. agora noiva do alferes Coutinho, da polícia, via diante de si um futuro largo, imensamente luminoso, como um grande mar tranqüilo e dormente. Bom-crioulo, de Adolfo Caminha Fonte: CAMINHA, Alfredo. Bom-crioulo. São Paulo: Ática, 1995. Texto proveniente de: A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo Permitido o uso apenas para fins educacionais. Texto-base digitalizado por: Sérgio Simonato – Campinas/SP Este material pode ser redistribuído livremente, desde que não seja alterado, e que as informações acima sejam mantidas. Para maiores informações, escreva para . Estamos em busca de patrocinadores e voluntários para nos ajudar a manter este projeto. Se você quer ajudar de alguma forma, mande um e-mail para e saiba como isso é possível BOM-CRIOULO Adolfo Caminha 1 A velha e gloriosa corveta — que pena! — já nem sequer lembrava o mesmo navio d’outrora, sugestivamente pitoresco, idealmente festivo, como um galera de lenda, branca e leve no mar alto, grimpando serena o corcovo das ondas!... Estava outra, muito outra com o seu casco negro, com as suas velas encardidas de mofo, sem aquele esplêndido aspecto guerreiro que entusiasmava a gente nos bons tempos de “patescaria”. Vista ao longe, na infinita extensão azul, dir-se-ia, agora, a sombra fantástica de um barco aventureiro. Toda ela mudada, a velha carcaça flutuante, desde a brancura límpida e triunfal das velas até a primitiva pintura do bojo. No entanto ela aí vinha — esquife agourento — singrando águas da pátria, quase lúgubre na sua marcha vagarosa; ela aí vinha, não já como uma enorme garça branca flechando a líquida planície, mas lenta, pesada, como se fora um grande morcego apocalíptico de asas abertas sobre o mar... Havia pouco entrara na região das calmarias: o pano começava a bater frouxo, mole, inchando a cada solavanco, para recair depois, com uma pancada surda e igual, no mesmo abandono sonolento; a viagem tornava-se monótona; a larga superfície do oceano estendia -se muito polida e imóvel sob a irradiação meridional do sol, e a corveta deslizava apenas, tão de leve, tão de leve que mal se lhe percebia o movimento. Nem sinal de vela na linha azul do horizonte, indício algum de criatura humana fora daquele estreito convés: água, somente água em derredor, como se o mundo houvesse desaparecido num dilúvio medonho..., e no alto, lá em cima, o silêncio infinito das esferas obumbradas pela chuva de ouro do dia. Triste e nostálgica paisagem, onde as cores desmaiavam à força de luz e a voz humana perdia-se numa desolação imensa! Marinheiros conversavam à proa, sentados uns no castelo, outros em pé, colhendo cabos ou estendendo roupa ao sol, tranqüilamente, esquecidos da faina. As chapas dos mastros, a culatra das peças, varais de escotilha, tudo quanto é aço e metal amarelo reluz fortemente, encandeando a vista. De vez em quando há um grande rebuliço: a mastreação geme, como se fora desprender-se toda, o pano bate com força de encontro às vergas, chocam-se cabos com um ruidozinho seco, e ouve-se o cachoeirar da água no bojo da velha nau. — Agüenta! diz uma voz. E volta o sossego e continua a pasmaceira, o tédio, a calmaria sem fim... Já os primeiros sintomas de indolência refletiam-se no semblante da gente, convertendo-se em bocejos e espreguiçamentos de sesta, e ainda ficavam tão longe as montanhas da costa e os carinhos da família!... Escasseavam os gêneros, e o regimen de carne-seca e das conservas em lata aproximava-se ameaçadoramente, causando apreensões à marinhagem. Tinham dado onze horas na sineta de proa. O tenente que estava de quarto no passadiço conferiu o relógio d’algibeira, um belo cronômetro de ouro comprado em Toulon, torceu o bigode, passou uma vista d’olhos no aparelho, e, dirigindo-se para a espada que descansava junto ao mastro, numa voz clara um pouco, metálica: — Corneta! Era um oficial distinto, moço, moreno, os olhos vivos e inteligentes, grande calculista, jogador da sueca e autor de um Tratado elementar de navegação prática. Ninguém a bordo o excedia na procura dos logaritmos. Calculava d’olhos fechados, e senos e cosenos acudiam-lhe à ponta do lápis de um modo admirável. Era, invariavelmente, o primeiro que achava a hora meridiana. Tornara-se conhecido logo ao sair da escola pelo sei entranhado amor às matemáticas e à vida naval. Como guarda-marinha deixava-se ficar a bordo nos dias de folga, somente “para não perder o hábito”. Inimigo de terra, preferia o farniente de seu camarote, ali ao pé dos livros e das fotografias marítimas, ao movimento esterilizador e absorvente dos cafés e dos teatros. — Corneta! repetiu, carregando o semblante numa sombria expressão de constrangimento. Outras bocas foram transmitindo a ordem até que surgiu, correndo, a figura exótica de um marinheiro negro, d’olhos muito brancos, lábios enormemente grossos, abrindo-se num vago sorriso idiota, e em cuja fisionomia acentuavam-se linhas características de estupidez e subserviência — Pronto! disse levando a mão ao boné com um jeito marcial. — Toca mostra, ordenou o tenente. Às primeiras notas da corneta, límpidas e sem eco no silêncio do mar alto, houve logo um estranho bulício em todos os recantos da corveta. — Agora os marinheiros que descansavam à proa, olhavam-se por cima dos ombros com ar desconfiado. Na tolda e pelas cobertas o movimento foi-se acelerando à proporção que o toque finalizava, sobressaindo no atropelo a voz dos guardiões: — Sobe, sobe, — tudo para cima! — de envolta com um barulho de ferros que vinha dos porões. O “mestre d’armas”, cabrocha pedante, muito cheio de si e de seus galões reluzentes, ia enfileirando a marinhagem por alturas, num exagero metódico de instrutor de colégio, arredando uns para colocar outros, advertindo estes porque não tinham a camisa abotoada e aqueles porque não tinham “fita” no boné, ameaçando estoutro de levá-lo à presença de “seu” tenente porque recusava-se a perfilar... Oficiais começavam a aparecer em segundo uniforme — boné e dragonas —, arrastando as espadas, mirando-se d’alto a baixo, apertados no talim de pano azul, por cima da farda. Com pouco estava tudo pronto, marinheiros e oficiais — aqueles alinhados a dois de fundo, num e noutro bordo, estes a ré, perto do mastro grande, em atitude respeitosa de quem vai assistir a um ato solene. Tinha-se feito silêncio. Uma ou outra voz segredava baixinho, timidamente. E agora, no silêncio da mostra, é que se ouvia bem o cachoeira de água no bojo da corveta caturrando... — Agüenta! Por fim apareceu o comandante abotoando a luva branca de camurça, teso na sua farda nova, o ar autoritário, solta a espada num abandono elegante, as dragonas tremulando sobre os ombros em cachos de ouro, todo ele comunicando respeito. Era homem robusto de feições e presença nobre, olhar enérgico, muito moreno, desse moreno carregado, cor de bronze, que o sol imprime nos homens do mar, bigode largo e compacto, levemente grisalho, com uma ponta de arrogância convencional. Silêncio absoluto nas fileiras da marinhagem. Cada olhar tinha um brilho especial de indiscreta curiosidade. Um frêmito de instintiva covardia, como uma corrente elétrica, vinha à face de toda aquela gente abespinhada ali assim perante um só homem, cuja palavra trazia sempre o cunho áspero da disciplina. Era um respeito profundo chegando às raias da subserviência animal que se agacha para receber o castigo, justo ou injusto, seja ele qual for. — Os presos..., fez o comandante, sem se alterar, dando um puxão na manga da farda. Todos os olhos voltaram-se para o fiel d’artilharia, vivamente curiosos, enquanto este, obedecendo à ordem, precipitou-se pela escada que ia ter à coberta, mudo e taciturno. O tenente continuava no passadiço, a passear como se tudo corresse às mil maravilhas naquele pequeno mundo flutuante de que ele era, agora, uma espécie de rei provisório. Ouvia-se-lhe o passo vagaroso e igual como o de uma sentinela noturna. A luz intensa do sol caía do alto, pondo brilhos de malacacheta no cristal imenso do mar clamo. Um calor forte e asfixiante penetrava a carne, acelerando a circulação, congestionando, irritando o sistema nervoso atrozmente, implacavelmente. Toda a atmosfera parecia vibrar num incêndio universal. E o pano, largo e frouxo, a bater, a bater como uma cousa desesperada... — Calmaria estúpida! pensava o tenente consultando os horizontes. — Ele, o grande patesca, a olhar o tempo, sem fazer nada, por causa de um diabo de calma interminável. Raríssimas vezes lhe acontecia aquilo: era mesmo para danar uma pessoa... Chegam os presos: um rapazinho magro, muito amarelo, rosto liso, completamente imberbe; outro regulando a mesma idade, mas um pouco moreno, também grumete; e um primeira-classe, negro alto, espadaúdo, cara lisa. Vinham em ferros, um a um, arrastando os pés num passo curto e demorado, e encaminharam-se para o meio do convés, fazendo alto a um aceno do comandante. Este imediatamente segredou a outro oficial, que estava a seu lado com um livro na mão, e, dirigindo-se ao primeiro sentenciado, o da frente, o rapazinho amarelo, cor da terra: — Sabe por que vai ser castigado? O grumete, sem levantar a cabeça, murmurou afirmativamente: que sim, senhor... Chamava-se Herculano e no seu rosto imberbe de adolescente havia uns longes de melancolia serena, assim como uma precoce morbidez sintomática... um secreto arrependimento. Na gola quadrangular de flanela azul destacava a divisa branca de sua classe. As unhas metiam náusea, muito quilotadas de alcatrão, desleixadas mesmo. Triste figura essa, cujo aspecto deixava uma impressão desagradável e persistente. O comandante, depois de um breve discurso em que as palavras “disciplina e ordem” repetiam-se, fez um sinalzinho com a cabeça e logo o oficial imediato, um louro, de bigode, começou a leitura do Código na parte relativa a castigos corporais. A marinhagem, analfabeta e rude, ouvia silenciosa, com um vago respeito no olhar, aquele repisado capítulo do livro disciplinar, em pé, à luz dura e mordente do meio dia, enquanto o oficial do quarto, gozando a sombra reparadora de um largo toldo estendido sobre sua cabeça, ia e vinha, de um bordo a outro bordo, sem se preocupar com o resto da humanidade. Junto aos presos equilibrava-se um homem de grande estatura, largo e reforçado, tipo de caboclo nascido no Amazonas, trajando fardeta e boné e segurando com ambas as mãos, sobre o joelho em descanso, o instrumento de castigo: era o guardião Agostinho, o célebre guardião Agostinho, especialista consumado no ofício de aplicar a chibata, o mais robusto e valente de todos os guardiões, e cujo zelo em cousas de “patescaria” tornara-se proverbial, Nos momentos de manobra difícil, era ele quem auxiliava o mestre na faina, invariavelmente munido de um apito de prata, não se afastando nunca de suas obrigações. — Caboclo macho! diziam os companheiros. Se acontecia desprender-se um moitão, um cabo qualquer, lá cima nos mastros, em lugar arriscado, ele, mais que depressa, galgava os enfrechates, com aquele corpo muito pesado, transpunha o cesto da gávea, sem olhar para trás, e ei-lo agarradinho aos vaus, atando e desatando, ligeiro, alvo de todos os olhares, oscilando com o navio, em termos de precipitar-se no mar. Homem de poucas palavras, muito metido consigo, tolerante e enérgico ao mesmo tempo em matéria de serviço, não compreendia a disciplina sem chibata, “único meio de se fazer marinheiro”. E tinha sempre esta frase na ponta da língua: — Navio de guerra sem chibata é pior que escuna mercante... Por isso os companheiros não o estimavam muito; pelo contrário, evitavam a sua presença, procurando intrigá-lo com o mestre e com os outros inferiores. — O guardião Agostinho, sim, que era homem valente, capaz de comandar um quarto... E riam às escondidas, praguejando contra “o burro do Agostinho, que nem ao menos tinha jeito para capitão de proa...” Ele ali se achava também, no sue posto, à espera de um sinal para descarregar a chibata, implacavelmente, sobre a vítima. Sentia um prazer especial naquilo, que diabo! cada qual tem a sua mania... — Vinte e cinco..., ordenou o comandante. — Tira a camisa? quis logo saber Agostinho radiante, cheio de satisfação, vergando o junco para experimentar-lhe a flexibilidade. — Não, não: com a camisa... E solto agora dos machos, triste e resignado, Herculano sentiu sobre o dorso a força brutal do primeiro golpe, enquanto uma voz cantava, sonolenta e a arrastada: — Uma!... e sucessivamente: duas!... três!... vinte e cinco! Herculano já não suportava. Torcia-se todo no bico dos pés, erguendo os braços e encolhendo as pernas, cortado de dores agudíssimas que se espalhavam por todo o corpo, até pelo rosto, como se lhe rasgassem as carnes. A cada golpe escapava-lhe um gemido surdo e trêmulo que ninguém ouvia senão ele próprio no desespero de sua dor. Toda gente assistia aquilo sem pesar, com a fria indiferença de múmias. — Corja! regougou o comandante brandindo a luva. Não se compenetram de seus deveres, não respeitam a autoridade! Hei de ensiná-los: ou aprendem ou racho-os! O caso era simples: Herculano tinha uns modos esquisitos de viver sempre retraído, pelos cantos, evitando a companhia dos outros, fazendo seu serviço calado, não se envolvendo em sambas à noite, na proa. Tímido e esquivo, cada vez mais pálido, o olhar morto com uma pronunciada auréola de bistre, a voz cansada, caindo de fraqueza, — tinham-lhe dado o apelido ridículo de Pinga... O grumete não podia se conformar com esse tratamento, por mais inofensivo que ele fosse, e vingava-se dos companheiros atirando-lhes palavrões de regateira aprendidos ali mesmo a bordo. — Ó Pinga!... Bastava isto para que ele desenrolasse o vocabulário do insulto numa cólera ameaçadora que às vezes chegava ao delírio. Os outros, porém, caíam na gargalhada: — Olha o Pinga! Segura ele! — Pinga é ... E lá ia uma obscenidade, um calão grosseiro. Palavra puxa palavra, quase sempre o gracejo acabava em questões de outra ordem e daí prisões, castigos... Ora, aconteceu que, na véspera desse dia, Herculano foi surpreendido, por outro marinheiro, a praticar uma ação feia e deprimente do caráter humano. Tinham-no encontrado sozinho, junto à amurada, em pé, a mexer com o braço numa posição torpe, cometendo, contra si próprio, o mais vergonhoso dos atentados. O outro, um mulatinho esperto. que tinha o hábito de andar espiando, à noite, o que faziam os companheiros, precipitou-se a chamar o Sant'Ana, e, riscando um fósforo, aproximaram-se ambos “para examinar”.... No convés brilhava a nódoa de um escarro ainda fresco: Herculano acabava de cometer um verdadeiro crime não previsto nos códigos, um crime de lesa natureza, derramando inutilmente no convés seco e estéril, a seiva geradora do homem. Grande foi o seu desapontamento ao ver-se apanhado em flagrante naquela grotesca situação. Investiu para o Sant'Ana, fulo de raiva, extremamente pálido, e com pouco estavam os dois agarrados numa luta corpo a corpo, aos trambolhões, acordando os que dormiam por ali o bom sono da madrugadinha... Terminou o alvoroço com a prisão de ambos. — Ah! seu Pinga, seu Pinga!... repetia o guardião do quarto. Não pense que, por ser branco, há de fazer das suas... Tal fora o delito de Herculano e do seu camarada Sant’Ana que também ia ser castigado. O Sant'Ana, porém, não era lá rapaz de que sofresse calado: tinha sempre o que dizer na ocasião do castigo, desculpando-se como podia perante a autoridade a fim de escapar manhosamente à ação criminal, o que nunca lhe sucedera, porque toda gente o conhecia bastante. Era um pobre diabo de terceira classe, moreno cor de jenipapo, cabelo rente, à escovinha, olhos negros, nariz acaçapado, cara magra, e cujo nome lá estava no livro de castigos um ror de vezes. Gago de nascença, fazia rir aos companheiros quando abria a boca para dizer qualquer cousa, principalmente se estava num de seus momentos de sobreexcitação colérica, porque, então, ninguém o compreendia. Tinha a facilidade ingênita das lágrimas: a mais leve comoção fazia-o chorar, transformando-lhe os olhos em duas fontes de úmida ternura. Pôs-se logo a gaguejar uma história de “implicações”: que estava bem sossegadinho no seu canto e o Herculano fora provocá-lo, “implicar com ele”... — Vamos, guardião, vamos, que é tarde. Não estou para ouvir histórias. Vá!... Agostinho vergou o junco e, resolutamente, sem inquirir cousa alguma, com um risinho de instintiva malvadez no canto da boca, desfechou o primeiro golpe: — Uma! contou a mesma voz de há pouco. O rapaz empinou-se na ponta dos pés, arregalando muito os olhos, esfregando as mãos. — Ah! gemeu com um grito de dor. — Pe... pe... pelo amor de... de... de Deus, seu... seu... comandante! — Vamos, vamos!... Seguiram-se as outras chibatadas implacáveis, brutais como cáusticos de fogo, caindo uma a uma, dolorosamente, no corpo franzino do marinheiro. Ele não teve jeito senão suportá-las todas, uma a uma, porque de nada lhe serviam os gritos, as súplicas e as lágrimas... — Hei de corrigi-los, bradava o comandante, aceso em súbita cólera, mal humorado sob a luz ardentíssima do meio dia tropical. — Hei de corrigi-los: corja! Nenhum frêmito de comoção na marinhagem, testemunha habitual daquelas cenas que já não logravam produzir efeitos sentimentais, como se fora a reprodução banal de um quadro muito visto. Começava a cair uma aragenzinha leve, tão leve que apenas atenuava a força cáustica do sol, inflando as velas quase imperceptivelmente. O tenente, um pouco animado agora com a viração que precede os ventos largos, tomava notas num pequeno caderno, ansioso por chamar a gente aos “braços”. Meio dia quase e ainda não estava acabado o castigo. Seguia-se o terceiro preso, um latagão de negro, muito alto e corpulento, figura colossal de cafre, desafiando, com um formidável sistema de músculos, a morbidez patológica de toda uma geração cadente e enervada, e cuja presença ali naquela ocasião, despertava grande interesse e viva curiosidade: era o Amaro, gajeiro da proa — o BOM CRIOULO na gíria de bordo. — Aproxime-se, disse o comandante imperiosamente, carregando na voz e no semblante. Houve um sussurro longínquo, um leve, um tímido murmúrio nas fileiras da marinhagem, assim como o vago estremecimento que assalta os espectadores de um teatro nas mutações de cenário. Agora a cousa era outra, na verdade. O Herculano e o Sant'Ana, de resto, não passavam de uns pulhas, de uns miseráveis marinheiros que dificilmente agüentavam no lombo vinte e cinco chibatadas: uns criançolas!... Queria-se ver o Amaro, o célebre, o terrível Bom- Crioulo. Fez-se nova leitura do Código em voz lenta e cadenciada de ofício religioso, e o comandante, formalizando-se dentro de sua farda muito justa e luzida: — Sabe por que vai ser castigado? — Sim senhor. Estas palavras, Bom-Crioulo proferiu-as num tom resoluto, sem o mais ligeiro constrangimento, firmando o olhar, atrevidamente, nos galões de ouro daquele oficial. Em pé, junto ao mastro, unidos os calcanhares, os braços caindo ao longo do corpo, militarmente perfilado, havia, contudo, na linha dos ombros, no jeito da cabeça, onde quer que fosse, um recolhido e traiçoeiro cunho de flexibilidade e destreza felinas. Com efeito, Bom-Crioulo não era somente um homem robusto, uma dessas organizações privilegiadas que trazem no corpo a sobranceira resistência do bronze e que esmagam com o peso dos músculos. A força nervosa era nele uma qualidade intrínseca sobrepujando todas as outras qualidades fisiológicas, emprestando-lhe movimentos extraordinários, invencíveis mesmo, de um acrobatismo imprevisto e raro. Esse dom precioso e natural desenvolvera-se-lhe à força de um exercício continuado que o tornara conhecido em terra, nos conflitos com soldados e catraieiros, e a bordo, quando entrava embriagado. Porque Bom-Crioulo de longe em longe sorvia o seu gole de aguardente, chegando mesmo a se chafurdar em bebedeiras que o obrigavam a toda a sorte de loucuras. Armava-se de navalha, ia para os cais, todo transfigurado, os olhos dardejando fogo, o boné de um lado, a camisa aberta num desleixo de louco, e então era um risco, uma temeridade alguém aproximar-se dele. O negro parecia uma fera desencarcerada: fazia todo mundo fugir, marinheiros e homens da praia, porque ninguém estava para sofrer uma agressão... Quando havia conflito no cais Pharoux, já toda gente sabia que era o Bom-Crioulo às voltas com a polícia . Reunia povo, toda a população do litoral corria enchendo a praça, como se tivesse acontecido uma desgraça enorme, formavam-se partidos a favor da polícia e da marinha... uma cousa indescritível! O motivo, porém, de sua prisão agora, no alto mar, a borda da corveta, era outro, muito outro: Bom-Crioulo esmurrara desapiedadamente um segunda classe, porque este ousara, “sem o seu consentimento”, maltratar o grumete Aleixo, um belo marinheirito de olhos azuis , muito querido por todos e de quem diziam-se “cousas”. Metido em ferros no porão, Bom-Crioulo não deu palavra. Admiravelmente manso, quando se achava em seu estado normal, longe de qualquer influência alcoólica, submeteu-se à vontade superior, esperando resignado o castigo. — Reconhecia que fizera mal, que devia ser punido, que era tão bom quanto os outros, mas, que diabo! estava satisfeito: mostrara ainda uma vez que era homem... Depois estimava o grumete e tinha certeza de o conquistar inteiramente, como se conquista uma mulher formosa, uma terra virgem, um país de ouro... Estava satisfeitíssimo. A chibata não lhe fazia mossa; tinha costas de ferro para resistir como um Hércules ao pulso do guardião Agostinho. Já nem se lembrava do número das vezes que apanhara de chibata... — Uma! cantou a mesma voz. — Duas!... três!... Bom-Crioulo tinha despido a camisa de algodão, e, nu da cintura para cima, numa riquíssima exibição de músculos, os seios muito salientes, as espáduas negras reluzentes, um sulco profundo e liso d’alto a baixo no dorso, nem sequer gemia, como se estivesse a receber o mais leve dos castigos. Entretanto, já iam cinqüenta chibatadas! Ninguém lhe ouvira um gemido, nem percebera uma contorção, um gesto qualquer de dor. Viam-se unicamente naquele costão negro as marcas do junco, umas sobre as outras, entrecruzando-se como uma grande teia de aranha, roxas e latejantes, cortando a pele em todos os sentidos. De repente, porém, Bom-Crioulo teve um estremecimento e soergueu um braço: a chibata vibrara em cheio sobre os rins, empolgando o baixo-ventre. Fora um golpe medonho, arremessado com uma força extraordinária. Por sua vez Agostinho estremeceu, mas estremeceu de gozo ao ver, afinal, triunfar a rijeza de seu pulso. Marinheiros e oficiais, num silêncio concentrado, alongavam o olhar, cheios de interesse, a cada golpe. — Cento e cinqüenta! Só então houve quem visse um ponto vermelho, uma gota rubra deslizar no espinhaço negro do marinheiro e logo este ponto vermelho se transformar numa fita de sangue. Nesse momento o oficial, ponteirando o óculo de alcance, procurava reconhecer uma sombra quase invisível que parecia flutuar muito longe, nos confins do horizonte: era, talvez, a fumaça de algum transatlântico... — Basta! impôs o comandante. Estava terminado o castigo. Ia recomeçar a faina. 2 Inda estava longe, bem longe a vitória do abolicionismo, quando Bom-Crioulo, então simplesmente Amaro, veio, ninguém sabe donde, metido em roupas d’algodãozinho, trouxa ao ombro, grande chapéu de palha na cabeça e alpercatas de couro cru. Menor (teria dezoito anos), ignorando as dificuldades por que passa todo homem de cor em um meio escravocrata e profundamente superficial como era a Corte — ingênuo e resoluto, abalou sem ao menos pensar nas conseqüências da fuga. Nesse tempo o “negro fugido” aterrava as populações de um modo fantástico. Dava-se caça ao escravo como aos animais, de espora e garrucha, mato a dentro, saltando precipícios, atravessando rios a nado, galgando montanhas... Logo que o fato era denunciado — aqui-del-rei! — enchiam-se as florestas de tropel, saiam estafetas pelo sertão num clamor estranho, medindo pegadas, açulando cães, rompendo cafezais. Até fechavam-se as portas com medo... Jornais traziam na terceira página a figura de um “moleque” em fuga, trouxa ao ombro, e, por baixo, o anúncio, quase sempre em tipo cheio, minucioso, explícito, com todos os detalhes, indicando estatura, idade, lesões, vícios, e outros característicos do fugitivo. Além disso o “proprietário” gratificava generosamente a quem prendesse o escravo. Conseguindo, porém, escapar à vigilância dos interessados, e depois de curtir uma noite, a mais escura de sua vida, numa espécie de jaula com grades de ferro, Amaro, que só temia regressar à “fazenda”, voltar ao seio da escravidão, estremeceu diante de um rio muito largo e muito calmo, onde havia barcos vogando em todos os sentidos, à vela, outros deitando fumaça, e lá em cima, beirando a água, um morro alto, em ponta, varando as nuvens, como ele nunca tinha visto. Depois mandaram-no tirar a roupa do corpo (até ficou envergonhado...), examinaram-lhe as costas, o peito, as virilhas, e deram-lhe uma camisa azul de marinheiro. No mesmo dia foi para a fortaleza, e , assim que a embarcação largou do cais a um impulso forte, o novo homem do mar sentiu pela primeira vez toda a alma vibrar de uma maneira extraordinária, como se lhe houvessem injetado no sangue de africano a frescura deliciosa de um fluido misterioso. A liberdade entrava-lhe pelos olhos , pelos ouvidos, pelas narinas, por todos os poros, enfim, como a própria alma da luz, do som, do odor e de todas as cousas etéreas... Tudo que o cercava: a planura da água cantando na proa do escaler, o imaculado azul do céu, o perfil longínquo das montanhas, navios balouçando entre ilhas, e a casaria imóvel da cidade que ficava para trás — os companheiros mesmo que iam remando igual, como se fossem um só braço —, e sobretudo, meu Deus!, sobretudo o ambiente largo e iluminado da baía: enfim, todo o conjunto da paisagem comunicava-lhe uma sensação tão forte de liberdade e vida, que até lhe vinha vontade de chorar, mas de chorar francamente, abertamente, na presença dos outros, como se estivesse enlouquecendo... Aquele magnífico cenário gravara-se-lhe na retina para toda a existência; nunca mais o havia de esquecer, ó, nunca mais! Ele, o escravo, o “negro fugido” sentia-se verdadeiramente homem, igual aos outros homens, feliz de o ser, grande como a natureza, em toda a pujança viril da sua mocidade, e tinha pena, muita pena dos que ficavam na “fazenda” trabalhando, sem ganhar dinheiro, desde a madrugada té ... sabe Deus! No princípio, antes de ir para bordo, foi-lhe difícil esquecer o passado, a “mãe Sabina”, os costumes que aprendera nos cafezais... Muita vez chegava a sentir um vago desejo de abraçar os seus antigos companheiros do eito, mas logo essa lembrança esvaía-se como a fumaça longínqua e tênue das queimadas, e ele voltava à realidade, abrindo os olhos, num gozo infinito para o mar crivado de embarcações... A disciplina militar, como todos os seus excessos, não se comparava ao penoso trabalho da fazenda, ao regimen terrível do tronco e do chicote. Havia muita diferença... Ali ao menos, na fortaleza, ele tinha sua maca, seu travesseiro, sua roupa limpa, e comia bem, a fartar, como qualquer pessoa, hoje boa carne cozida, amanhã suculenta feijoada, e, às sextas-feiras, um bacalhauzinho com pimenta e “sangue de Cristo”... Para que vida melhor? Depois, a liberdade, minha gente, só a liberdade valia por tudo! Ali não se olhava a cor ou a raça do marinheiro: todos eram iguais, tinham as mesmas regalias — o mesmo serviço, a mesma folga. — “E quando a gente se faz estimar pelos superiores, quando não se tem inimigos, então é um viver abençoado esse: ninguém pensa no dia d’amanhã!” Amaro soube ganhar logo a afeição dos oficiais. Não podiam eles, a princípio, conter o riso diante daquela figura de recruta alheio às praxes militares, rude como um selvagem, provocando a cada passo gargalhadas irresistíveis com seus modos ingênuos de tabaréu; mas, no fim de alguns meses, todos eram de parecer que “o negro dava para gente”. Amaro já sabia manejar uma espingarda segundo as regras do ofício, e não era lá nenhum botocudo em artilharia; criara fama de “patesca”. Nunca, durante esse primeiro ano de aprendizagem, merecera a pena de um castigo disciplinar: seu caráter era tão meigo que os próprios oficiais começaram a tratálo por Bom-Crioulo. Seu maior desejo, porém, sua grande preocupação, era embarcar fosse em que navio fosse, acostumar-se a viver no mar, conhecer, enquanto estava moço, os costumes de bordo, saber praticamente “amichelar uma verga, rizar uma vela, fazer um quarto na agulha...” Podia muito bem ser promovido logo... Invejava os que andavam no alto-mar, longe de terra, bordejando à solta por esses mundos de Deus. Como devia de ser bom para a alma e para o corpo o ar livre que se respira lá fora, sobre as águas!... Divertia-se a construir pequenas embarcações de madeira imitando navios de guerra com flâmula no tope do mastro e portinholas, cruzadores em miniatura, iatezinhos, tudo à ponta de canivete e com a paciência tenaz de um arquiteto. Mas, nada de o fazerem embarcar definitivamente! Ia para bordo, às vezes, em exercício, remando no escaler, mas voltava logo com a turma dos outros aprendizes, triste por não ter ficado, sonhando histórias de viagens, cousas que havia de ver, quando pela primeira vez saísse pela barra fora... Chegou afinal esse dia. Bom-Crioulo estava nomeado para embarcar num velho transporte que seguia para o sul. — Ora, até! fez ele, erguendo os braços com um gesto de maravilhosa surpresa. Até que enfim, graças a deus, lembraram-se do Bom-Crioulo! E saiu por ali muito feliz, muito alegre, todo alvoroçado, anunciando seu destino. — Queriam alguma cousa do sul? Nem uma lembrançazinha do Rio Grande? Nada, nada ?... — Traze uma paraguaia, ó Bom-Crioulo, gracejava um. — Olha, eu me contento com uma dúzia d’ovos, de Santa Catarina... Outros encomendavam-lhe cousas impossíveis: um pedaço de “gringo” assado; uma terça de sangue espanhol: a orelha de um “barriga-verde”... E riam todos no rancho, e todos o que estimavam é que Amaro fosse muito feliz na sua primeira viagem, que voltasse gordo e forte “pra matar galego no cais dos Mineiros”. Alguns gabavam o comandante do transporte, o velho Novais, bom homem, que não gostava de castigar e que era até amigo dos marinheiros. — E o imediato? Ora, o imediato era um tal Pontes, um de suíças, que naufragara na corveta Isabel, muito feio, coitado, mas boa pessoa; também não fazia mal a ninguém, pelo contrário — marinheiro que lhe caísse nas graças era tratado a vinho do Porto... Bom-Crioulo exultava! O embarque devia se efetuar à tardinha, pouco antes de “arriar a bandeira”. Todo ele estava pronto, e via-se-lhe no olhar, na fala, nos modos, o grande contentamento de que estava cheio seu coração. Era uma felicidade estranha, um bem estar nunca visto, assim como o começo de uma loucura inofensiva e serena, que o fazia mais homem vinte vezes, que o tornava mais forte e retemperado para as lutas da vida. Suave embriaguez dos sentidos, essa que vem de uma grande alegria ou de uma tristeza imensa... Bom-Crioulo só experimentara prazer igual quando o tinham obrigado a conhecer o que é liberdade, recrutando-o para a marinha. Essa liberdade ampliava-se agora a seus olhos, crescia desmesuradamente em sua imaginação, provocando-lhe frêmitos de alucinado, abrindo-lhe n’alma horizontes cor-de-rosa, largos e ignorados. Não deixava um só inimigo, um rival sequer na fortaleza; ia bem com todos, egoísta na sua felicidade, mas levando a saudades irresistível dos que se vão embora... Quando o escaler que o conduzia se afastou da ponte, onde os companheiros acenavam com os bonés, num entusiasmo comovente, ele sentiu a quentura de uma lágrima fugitiva descer-lhe rosto abaixo, e, disfarçando, pôs-se também a acenar, em pé na embarcação, vendo sumirem-se pouco a pouco, na bruma do crepúsculo, os contornos da ilha e as saudações da maruja. Parecia-lhe ouvir ainda, na proa do transporte, como as últimas reminiscências de um sonho, a voz dos companheiros abraçando-o: — Adeus, ó Bom-Crioulo: sê feliz! Não dormiu toda essa noite. Estendido no convés sobre o dorso, como se estivesse num bom leito macio e amplo, viu desaparecerem as estrelas, uma a uma, na penumbra da antemanhã, e o dia ressurgir glorioso, dourando os Órgãos, ourejando os edifícios, cantando o hino triunfal da ressurreição. E pouco depois o esplêndido cenário da baía transformara-se num vastíssimo oceano deserto e resplandecente, desdobrando-se num círculo imenso d’água, onde não verdejava sequer um canto de oásis... A grandeza do mar enchia-o de uma coragem espartana. Ali se achava, ao redor dele, a sublime expressão da liberdade infinita e da soberania absoluta, coisas que o seu instinto alcançava muito vagamente através de um nevoeiro de ignorância. Dias e dias correram. A bordo todos o estimavam como na fortaleza, e a primeira vez que o viram, nu, uma bela manhã, depois da baldeação, refestelando-se num banho salgado — foi um clamor! Não havia osso naquele corpo de gigante: o peito largo e rijo, os braços, o ventre, os quadris, as pernas, formavam um conjunto respeitável de músculos, dando uma idéia de força física sobre-humana, dominando a maruja, que sorria boquiaberta diante do negro. Desde então Bom-Crioulo passou a ser considerado um “homem perigoso” exercendo uma influência decisiva no espírito daquela gente, impondo-se incondicionalmente, absolutamente, como o braço mais forte, o peito mais robusto de bordo. Os grandes pesos era ele quem levantava, para tudo aí vinha Bom-Crioulo com seu pulso de ferro, com a sua força de oitenta quilos, mostrar como se alava um braço grande, como se abafava uma vela em temporal, como se trabalhava com gosto. Entretanto, o seu nome ia ganhando fama em todos os navios. — Um pedaço de bruto, aquele Bom-Crioulo! diziam os marinheiros. — Um animal inteiro é o que ele era! Tinha um forte desejo ainda: suspirava por embarcar em certo navio, cujo comandante, um fidalgo, dizia -se amigo de todo marinheiro robusto; excelente educador da mocidade, perfeito cavalheiro no trato ameno e severo. Bom-Crioulo conhecia-o de vista somente e ficara simpatizando imensamente com ele. Demais, o comandante Albuquerque recompensava os serviços de sua gente, não se negava a promover os seus afeiçoados. Isso de se dizer que preferia uma sexo a outro nas relações amorosas podia ser uma calúnia como tantas que inventam por aí... Ele, Bom-Crioulo, não tinha nada que ver com isso. Era uma questão à parte, que diabo! ninguém está livre de um vício. Mas, anunciou-se a viagem da corveta, e lá Bom-Crioulo deixou o cruzador para seguir seu novo destino. Contava então cerca de trinta anos e trazia a gola de marinheiro de segundaclasse. Por sua vontade não sairia mais barra fora: em dez anos viajara quase o mundo inteiro, arriscando a vida cinqüenta vezes, sacrificando-se inutilmente. — Afinal a gente aborrece... Um pobre marinheiro trabalha como besta, de sol a sol, passa noites acordado, atura desaforo de todo mundo, sem proveito, sem o menor proveito! O verdadeiro é levar a vida “na flauta”... Nessa viagem Bom-Crioulo não foi mais feliz que nas outras. Nomeado gajeiro de proa, espécie de fiscal do mastro do traquete, a princípio dera conta irrepreensivelmente de suas obrigações e podia-se ver o asseio e a boa ordem que reinavam ali, desde a borla do tope té embaixo à chapa das malaguetas. Fazia gosto a presteza com que se efetuavam as manobras. A faina corria sempre na melhor ordem, livre de acidentes, como se todo o mastro fosse uma grande máquina movida a vapor, desafiando a gente dos outros mastros. Agora, porém, de torna-viagem as cousas tinham mudado. O traquete era um dos últimos a estar pronto, havia sempre um obstáculo, uma dificuldade: era um cabo que “pegava”, um “andarivelo” que se partia ou cousa que faltava... — Anda com isso! bradava o oficial do quarto já impaciente. E só depois de muito tempo é que o Bom-Crioulo anunciava lá de cima do mastaréu, com a voz estragada: — Pronto! Diziam uns que a cachaça estava deitando a perder “o negro”, outros, porém, insinuavam que Bom-Crioulo tornara-se assim, esquecido e indiferente, dês que “se metera” com o Aleixo, o tal grumete, o belo marinheirito de olhos azuis, que embarcara no sul. — O ladrão do negro estava mesmo ficando sem vergonha! E não lhe fossem fazer recriminações, dar conselhos... Era muito homem para esmagar um! O próprio comandante já sabia daquela amizade escandalosa com o pequeno. Fingia-se indiferente, como se nada soubesse, mas conhecia -se-lhe no olhar certa prevenção de quem deseja surpreender em flagrante... Os oficiais comentavam baixinho o fato e muitas vezes riam maliciosamente na praça d’armas entre copos e limonadas. Tudo isso, porém, não passava de suspeitas, e Bom-Crioulo, com o seu todo abrutalhado, uma grande pinta de sangue no olho esquerdo, o rosto largo de um prognatismo evidente, não se incomodava com o juízo dos outros. — Não lho dissessem na cara, porque então o negócio era feio... A chibata fizera-se para o marinheiro: apanhava até morrer, como um animal teimoso, mas havia de mostrar o que é ser homem! Sua amizade ao grumete nascera, de resto, como nascem todas as grandes afeições, inesperadamente, sem precedentes de espécie alguma, no momento fatal em que seus olhos se fitaram pela primeira vez. Esse movimento indefinível que acomete ao mesmo tempo duas naturezas de sexo contrários, determinando o desejo fisiológico da posse mútua, essa atração animal que faz o homem escravo da mulher e que em todas a espécies impulsiona o macho para a fêmea, sentiu-a Bom-Crioulo irresistivelmente ao cruzar a vista pela primeira vez com o grumetezinho. Nunca experimentara semelhante cousa, nunca homem algum ou mulher produzira-lhe tão esquisita impressão, desde que se conhecia! Entretanto, o certo é que o pequeno, uma criança de quinze anos, abalara toda a sua alma, dominando-a, escravizando-a logo, naquele mesmo instante, como a força magnética de um imã. Chamou-o a si, com a voz cheia de brandura, e quis saber como ele se chamava. — Eu me chamo Aleixo, disse o grumete baixando o olhar, muito calouro. — Coitadinho, chama-se Aleixo, tornou Bom-Crioulo. E imediatamente, sem tirara vista de cima do pequeno, com a mesma voz branda e carinhosa: — Pois olhe: eu me chamo Bom-Crioulo, não se esqueça. Quando alguém o provocar, lhe fizer qualquer cousa, estou aqui eu, para o defender, ouviu? — Sim senhor, fez o marinheirito levantando o olhar com uma expressão de agradecimento. — Não tenha vergonha, não: Bom-Crioulo, gajeiro da proa. É só me chamar. — Sim senhor... — Olhe mais, tornou o negro segurando a mão da pequeno: — Muito sossegadinho no seu lugar para não sofrer castigo, sim? Aleixo só fazia responder timidamente: — Sim senhor — com um arzinho ingênuo de menino obediente, os olhos muito claros, de um azul garço pontilhado, e os lábios grossos extremamente vermelhos. Era filho de uma pobre família de pescadores que o tinham feito assentar praça em Santa Catarina, e estava se pondo rapazinho. Seu trabalho a bordo consistia em colher cabos e arear os metais, quando não se ocupava na ronda pela noite. Bom-Crioulo metia-lhe medo a princípio, e quase o fizera chorar uma vez porque o encontrara fumando em intimidade com o sota de proa na coberta. O negro deitara-lhe uns olhos!... Felizmente não aconteceu nada. Mas daí em diante Aleixo foise acostumando, sem o sentir, àqueles carinhos, àquela generosa solicitude, que não enxergava sacrifícios, nem poupava dinheiro, e, por fim, já havia nele uma acentuada tendência para Bom-Crioulo, um visível começo de afeição reconhecida e sincera. Foi então que o negro, zelosa da sua nova amizade, quis mostrar ao grumete o seu grande poder sobre os outros e té onde o levava esse zelo, esse egoísmo apaixonado, esmurrando implacavelmente o segunda-classe que maltratara Aleixo. A idéia de que Bom-Crioulo sofrera por sua causa calou de tal maneira no espírito do grumete que ele agora estimava-o como a um protetor desinteressado, amigo dos fracos... Quando regressou dessa longa viagem ao sul, estava inda mais forte, mais viçoso e mais homem. Era uma massa bruta de músculos ao serviço de um magnífico aparelho humano. No tocante à disciplina mudara também um pouco: já ninguém lhe via certos escrúpulos de obediência e seriedade, perdera mesmo aquele ar, aquela compostura de respeito que o fazia estimado pelos oficiais em Villegaignon, e o distinguia da marinhagem insubmissa e desbriada. A maioria dominara-o positivamente; aquele caráter dócil e tolerante, deixara-o ele no alto mar ou nas terras por onde andara. Agora tratava com desdém os superiores, abusando se esses lhe faziam concessões, maldizendo-os na ausência, achando-os maus e injustos. Uma cousa, porém, ele soubera conservar: a força física, impondo-se cada vez mais aos outros marinheiros, que não ousavam agredi-lo nem brincando. Sua fama de homem valente alargara-se de modo tal que mesmo na província falava-se com prudência no “Bom-Crioulo”. — Quem é que não o conhecia, meu Deus? Por sinal tinha sido escravo e até nem era feio o diabo do negro... Do transporte em que fizera sua primeira viagem passou a servir num cruzador chegadinho da Europa. Aí a vida não lhe ocorreu muito calma. O comandante, um Varela, capitão-de-mar-e-guerra, severo e inflexível como nenhum outro oficial do seu tempo, homem que não ria nunca, chamou-o a conta um belo dia, e quase o deixou sem fala, simplesmente porque Bom-Crioulo dera com um remo na cabeça de outro marinheiro por uma questiúncula de ofício. Tal foi o seu primeiro castigo depois de quatro anos de serviço. Profundamente magoado, concentrou-se para reaparecer mandrião e insubmisso, cheio de ressentimento, não se importando, como dantes, com os seus deveres, trabalhando “por honra da firma” sem vexame nem sacrifício. — “Tolo era quem se matava. Havia de receber seu soldo quer trabalhasse, quer não trabalhasse. — ... que os pariu!” E ia se fazendo esquerdo, cuidando mais de seus interesses que de outra cousa, passando um mês no hospital e outro mês a bordo, ou em terra, com licença. 3 À calmaria equatorial da véspera sucedera, felizmente, uma viração fresca e reparadora, crispando a larga superfície d’água, enchendo as velas e dando a todas as fisionomias um aspecto novo de bom humor e jovialidade. O céu tinha uma cor azul esverdeada, limpo de nuvens, alto e imenso na eterna glória da luz... Avezinhas de colo branco acompanhavam a corveta, pousando n’água, trêfegas e alvissareiras, misturando sua alegria ruidosa com o surdo marulhar das vagas, num rápido espanejamento d’asas. Agora, sim, todos regozijavam com a esperança de chegar breve, em paz e salvamento, à Guanabara, lá onde havia sossego e abastança, lá onde a vida corria suave e cheia de tranqüilidade, porque se estava perto da família, defronte da cidade, sem os cuidados de quem anda no alto-mar... E depois já era tempo! Vinte dias a bordejar estupidamente, sem ver um pedaço de terra, uma ilha sequer, passando mal como cão! Já era tempo... Só uma pessoa desejava que a viagem se prolongasse indefinidamente, que a corveta não chegasse nunca mais, que o mar se alargasse de repente submergindo ilhas e continentes numa cheia tremenda, e a velha nau, só ela, como uma cousa fantástica, sobrevivesse ao cataclismo, ela somente, grandiosa e indestrutível, ficasse flutuando, flutuando por toda a eternidade. Era Bom-Crioulo, o negro Amaro, cujo espírito debatia-se, como um pássaro agonizante, em torno dessa única idéia — o grumete Aleixo, que o não deixava mais pensar noutra coisa, que o torturava dolorosamente... — Maldita hora em que o pequeno pusera os pés a bordo! Até então sua vida ia correndo como Deus queria, mais ou menos calma, sem preocupações incômodas, ora triste. ora alegre é verdade, porque não há nada firme no mundo, mas enfim, ia -se vivendo... E agora? Agora... hum, hum!... agora não havia remédio: era deixar o pau correr... E vinha-lhe à imaginação o pequeno com seus olhinhos azuis, com o seu cabelo alourado, com suas formas rechonchudas, com o seu todo provocador. Nas horas de folga, no serviço, chovesse ou caísse fogo em brasa do céu, ninguém lhe tirava da imaginação o petiz: era uma perseguição de todos os instantes, uma idéia fixa e tenaz, uma relaxamento da vontade irresistivelmente dominada pelo desejo de unir-se ao marujo, como se ele fora de outro sexo, de possui-lo, de tê-lo junto a si, de amá-lo, de gozá-lo!... Ao pensar nisso Bom-Crioulo transfigurava-se de um modo incrível, sentindo ferroar-lhe a carne, como a ponta de um aguilhão, como espinhos de urtiga brava, esse desejo veemente — uma sede tantálica de gozo proibido, que parecia queimar-lhe por dentro as vísceras e os nervos... Não se lembrava de ter amado nunca ou de haver sequer arriscado uma dessas aventuras tão comuns na mocidade, em que entram mulheres fáceis, não: pelo contrário, sempre fora indiferente a certas cousas, preferindo antes a sua pândega entre rapazes a bordo mesmo, longe das intriguinhas e fingimentos de mulher. Sua memória registrava dois fatos apenas contra a pureza quase virginal de seus costumes, isso mesmo por uma eventualidade milagrosa: aos vinte anos, e sem o pensar, fora obrigado a dormir com uma rapariga em Angra dos Reis, perto das cachoeiras, por sinal dera péssima cópia de si como homem; e mais tarde, completamente embriagado, batera em casa de uma francesa no largo do Rocio, donde saíra envergonhadíssimo, jurando nunca mais se importar com “essas cousas”... E agora, como é que não tinha forças para resistir aos impulsos do sangue? Como é que se compreendia o amor, o desejo da posse animal entre duas pessoas do mesmo sexo, entre dois homens? Tudo isto fazia-lhe confusão no espírito, baralhando idéias, repugnando os sentidos, revivendo escrúpulos. — É certo que ele não seria o primeiro a dar exemplo, caso o pequeno se resolvesse a consentir... Mas — instinto ou falta de hábito — alguma cousa dentro de si revoltava-se contra semelhante imoralidade que os outros de categoria superior praticavam quase todas as noites ali mesmo sobre o convés... Não vivera tão bem sem isso? Então, que diabo! não valia a pena sacrificar o grumete, uma criança... Quando sentisse “a necessidade”, aí estavam mulheres de todas as nações, francesas, inglesas, espanholas... a escolher! Caía em si, arrependido e frio, escrupulizando as cousas, traçando normas de proceder, enchendo-se de uma ternura por vezes lânguida e piedosa — o olhar erradio no azul inconsútil. O castigo por causa do Aleixo trouxera-lhe outro prejuízo: no mesmo dia deixou ele o cargo de gajeiro de proa, o que afinal era um descanso, um alívio de trabalho. Tudo quanto lhe fizessem estava muito bem feito, contanto que o deixassem no seu canto, no seu ramerrão: nunca pedira favores a ninguém. — Olha, dizia ele ao grumete com uma ironia na voz conselheira: não te metas com oficiais. São muito bons, muito amigos da gente, enquanto precisam de nós, só enquanto precisam, mas depois — adeus, hein! — dão-nos com o pé no focinho. Aleixo estava satisfeitíssimo com a vida que ia levando naquele céu aberto da corveta, querido, estimado por todos, invejado por meia dúzia. Nada lhe faltava, absolutamente nada. Era mesmo uma espécie de principezinho entre os camaradas, o “menino bonito” dos oficiais, que o chamavam de “boy”. Habituando-se depressa àquela existência erradia, foi perdendo o acanhamento, a primitiva timidez, e quem o visse agora, lesto e vivo, acudindo à manobra, muito asseado sempre na sua roupa branca, o boné de um lado, a camisa um poucochinho decotada na frente, deixando ver a cova do pescoço, ficava lhe querendo bem, estimava-o deveras. Essa metamorfose rápida e sem transição perceptível, foi obra de Bom-Crioulo, cujos conselhos triunfaram sem esforço no ânimo do grumete, abrindo-lhe na alma ingênua de criançola o desejo de conquistar simpatias, de atrair sobre a sua pessoa a atenção de todos. Gabando-se de conhecer “o mundo”, Bom-Crioulo cuidou primeiro em lisonjear a vaidade de Aleixo, dando-lhe um espelhinho barato que comprara no Rio de Janeiro — “para que ele visse quanto era bonito”. O pequeno mirou-se e... sorriu, baixando o olhar. — Que bonito o quê!... Uma cara de carneiro mocho! — Mas não abandonou o trastezinho, guardando-o com zelo no fundo da trincheira, como quem guarda um objeto querido, uma preciosidade rara, e todas as manhãs ia ver-se, deitando a língua fora, examinando-se cuidadosamente, depois de ter lavado o rosto. Bom-Crioulo compreendeu o efeito da experiência e tratou de completar a “educação” do marinheiro. Ensinou-lhe como se dava laço na gravata... (gravata não, dizia ele, isso não se chama gravata, chama-se lenço...); aconselhou-o que nunca usasse o boné no meio da cabeça: — Um marinheiro deve usar o boné de lado, com certa graça... E a camisa? — Oh, a camisa devia ser um bocadinho aberta para mostrar a debaixo, a de meia. O hábito faz o monge. O grumete aceitava tudo com um ar filial, sem procurar a razão de todo esse esmero. Via marinheiros imundos, mal vestidos, cheirando a suor, mas eram poucos. Havia os que até usavam essências no lenço e óleo no cabelo. No fim de alguns dias Aleixo estava outro e Bom-Crioulo contemplava-o com esse orgulho de mestre que assiste ao desenvolvimento do discípulo. Um belo domingo, em que todos deviam se apresentar com uniforme branco, segundo a tabela, o grumete foi o último a subir para a mostra. Vinha irrepreensível na sua toilette de sol, a gola azul dura de goma, calças boca-de-sino, boné de um lado, coturnos lustrosos. Bom-Crioulo, que já estava em cima, na tolda, assim que o viu naquela pompa, ficou deslumbrado e por um triz esteve fazendo uma asneira. Seu desejo era abraçar o pequeno, ali na presença da guarnição, devorá-lo de beijos, esmagá-lo de carícias debaixo do seu corpo. — Sim senhor! Parecia uma menina com aquele traje. Esta mesmo apto! Então o espelhinho sempre servira, hein? E com um gesto rápido, nervoso, disfarçando a concupiscência: — Bonitinho! O pequeno, longe de se amuar com o gracejo, mirou-se d’alto a baixo, risonho, deu um muxoxo e seguiu para a forma sem dizer palavra. Depois de terminada a leitura do regulamento, feita a revista, Bom-Crioulo chamou-o à proa, e entraram numa longa palestra, deliciosa para o negro a julgar pela expressão cada vez mais fulgurante de sua fisionomia. O mar estava relativamente calmo, apenas eriçado por uma viração branda que ameigava o mormaço. Nuvens aglomeravam-se para o sul, crescendo em bulcões pardacentos, como impelidas pela mesma força, longe ainda, rente com o horizonte. Em cima, no alto do grande hemisfério que a luz do meio dia incendiava, o azul sempre o azul claro, o azul imaculado, o azul transparente e doce, infinito e misterioso... Parecia que se estava muito perto de terra, porque no mesmo horizonte da corveta ia passando uma velinha triangular de jangada, microscópica e fugitiva. Pela alheta de boreste vinha-se chegando também o vulto sombrio de um grande vapor de dois canos. Bom-Crioulo e Aleixo conversavam à sombra da bujarrona, lado a lado, indiferentes à alegria dos outros marinheiros, cuja atenção volvia-se agora para o transatlântico. Todos, menos os dois, queriam saber de que nacionalidade era o “bruto”. Uns afirmavam que era inglês, por causa do tamanho; outros viam na cor dupla das chaminés o distintivo das Messageries Maritimes: devia ser o Equateur ou o Gironde — um dos dois. Faziam-se apostas, enquanto o monstro se aproximava silenciosamente e a jangadinha sumia-se pouco a pouco... — Mas, olhe, você não queira negócio com outra pessoa, dizia Bom-Crioulo. O Rio de Janeiro é uma terra dos diabos... Se eu o encontrar com alguém, já sabe... O rapazinho mordia distraidamente a ponta do lenço de chita azul-escuro com pintinhas brancas, ouvindo as promessas do outro, sonhando uma vida cor-de-rosa lá nesse Rio de Janeiro tão falado, onde havia uma grande montanha chamada Pão d’Açúcar, e onde o imperador tinha o seu palácio, um casarão bonito com paredes de ouro... Tudo avultava desmesuradamente em sua imaginação de marinheiro de primeira viagem. Bom-Crioulo tinha prometido levá-lo aos teatros, ao Corcovado (outra montanha donde se avistava a cidade inteira e o mar...), à Tijuca, ao Passeio Público, a toda parte. Haviam de morar juntos, num quarto da rua da Misericórdia, num comodozinho de quinze mil-réis onde coubessem duas camas de ferro, ou mesmo uma só, larga, espaçosa... Ele, Bom-Crioulo, pagava tudo com o seu soldo. Podia-se viver uma vida tranqüila. Se continuassem no mesmo navio, não haveria cousa melhor; se, porém, a sorte os separasse dava -se jeito. Nada é impossível debaixo do céu. — E não tem que dizer isto a ninguém, concluiu o negro. Caladinho: deixe estar que eu toco os paus... Nesse momento o transatlântico defrontava com a corveta, içando a ré a bandeira inglesa, uma grande lenço de tabaco, encarnado, e saudando com três guinchos medonhos o navio de guerra, cuja bandeira também flutuava na popa, verde e ouro. Um mundo de gente movia -se na proa do inglês, decerto imigrantes italianos que chegavam ao Brasil. Distinguia-se bem o comandante, em uniforme branco, chapéu de cortiça, no passadiço, empunhando o óculo. Lenços acenavam para a corveta que ia ficando atrás, toda em panos, lenta e soberba. E o paquete desapareceu como uma sombra, e ela continuou na sua derrota, sozinha no meio do mar, desolada e lúgubre. Os marinheiros tinham se espalhado pela tolda e pelas cobertas, entregues à labuta, esperando o rancho das quatro horas. A montanha de nuvens que há pouco erguia-se fantasticamente lá longe, ao sul, alastrava o céu, aproximando-se cada vez mais, cor de chumbo, tempestuosa, desdobrando-se em contornos de feições bizarras, como uma barreira enorme que de repente se levantasse entre a corveta e o horizonte. Meio encoberto já, o sol coava sua luz triste através das nuvens, irisando-as de uma faixa multicor e brilhante, espécie de auréola, que descia para o mar. O aguaceiro estava iminente. — Obra dos joanetes e sobres! gritou o oficial de quarto. A essa voz o movimento foi geral. Imediatamente soaram apitos e a tolda encheu-se de marinheiros e oficiais, que surgiam das escotilhas num alvoroço, correndo, empurrando-se. A figura do guardião Agostinho destacava à proa, calma e solene, medindo a mastreação. — Arria, carrega! Trilaram de novo os apitos num desespero de manobra açodada: avalanches de marinheiros precipitaram-se de um bordo e doutro, alando os cabos, atropelando-se em correrias de horda selvagem, batendo os pés, ao barulho dos moitões que chiavam como carro de bois na roça. — Agüenta o leme! avisava o oficial todo embuçado na sua capa impermeável. O tempo escurecera completamente, e a ventania refrescando, esfuziava na mastreação de modo sinistro, com a força extraordinária de titãs invisíveis. Mar e céu confundiam-se na escuridão, formando um só conjunto negro em torno da corveta, abarcando-a em todos os sentidos, como se tudo ali dentro fosse desaparecer debaixo das águas e das nuvens... Passavam grandes ondas altaneiras, rugindo sob a quilha, dançando uma dança medonha e vertiginosa na proa, cada vez que o navio mergulhava o bojo com risco de abrir pelo meio... Chuva copiosíssima alagava o convés obrigando os marinheiros a se arregaçar, encharcando as pilhas de cabo, numa baldeação geral e inesperada. A corveta ficara somente em gáveas e mezena, e corria, agora, sobre o mar, como se fosse um simples iatezinho de recreio, leve, enfunada, cavalgando as ondas — a bordas quase rente com a água... Que orgulho para o oficial de quarto! Como ele sentia-se bem naquele momento, debaixo de seu sueste, molhado té à ponta dos pés, todo olhos para que o navio não saísse fora do rumo, cheio de responsabilidade, calmo no seu posto, enquanto os outros descansavam na praça d’armas! De vez em quando olhava para a popa e via, com grande júbilo d’alma, a larga esteira de espuma que a corveta ia deixando atrás. Sentiase forte, sentia -se homem! — Decididamente a marinha é, por excelência, uma escola de coragem! pensava. Durou hora e meia o aguaceiro, uma chuva cerrada e insistente de revés, que parecia não acabar mais. O céu abriu-se de repente, claro e azul; a luz tornou a iluminar os horizontes; e pouco a pouco foram desaparecendo os últimos vestígios da “brincadeira”, como dizia, depois, o tenente Souza, o da calmaria, que entrava de quarto. O vento, porém, continuava rijo, açoitando os cabos, fustigando a superfície d’água, gemendo tristemente salmodias de violoncelo fantástico, em lufadas que faziam estremecer todo o navio. Dez milhas, acusava a barquinha, dez milhas por hora. — Cuidado com o leme! Marinheiros vassoiravam o convés, enquanto outros iam passando o lambaz onde já não havia água. De cima, da tolda, ouvia-se a voz dos oficiais conversando na bateria, sentados por ali numa desordem grotesca, fumando, rindo... O comissário, um de suíças longas, magro, estudava clarinete, embaixo, na praça d’armas, com admirável paciência, equilibrando-se. A chuva reanimara-os a todos, oficiais e marinheiros, desentorpecendo-lhes o corpo. Bom-Crioulo, cansado da faina, descera à coberta, e conversava também com Aleixo, de quem só se separava na hora do serviço. A umidade, o frio que entra pelas escotilhas, aquele ambiente glacial comunicava-lhe um desejo louco de amor físico, um enervamento irresistível. Unido ao grumete num quase abraço, a mão no ombro de Aleixo que, àquele contacto, experimentava uma vaga sensação de carícia, o negro esquecia todos os seus companheiros, tudo que o cercava para só pensar no grumete, no “seu bonitinho” e no futuro dessa amizade inexplicável. — Tiveste muito medo? — De quê? — Do tempo... — Não, nem por isso. E Aleixo aproveitou o ensejo para narrar rum caso de vento sul em Santa Catarina: — Tinham saído, ele e o pai, numa canoa de pesca, assim pelo meio-dia. De repente o mar começa a encrespar, o vento desaba... e agora? Estavam sozinhos perto da ilha dos Ratones dentro de uma canoa que era ver uma casquinha de noz. O velho, coitado, não teve dúvida, não! puxou pelo remo: — vuco, te vuco..., vuco, te vuco...— Segura-te, meu filho! E o vento cada vez mais forte, zunindo no ouvido que nem o diabo. Mas veio uma rajada de supetão, um golpe de vento medonho, e quando ele, Aleixo, quis agarrar-se ao pai, era tarde: a canoa emborcou! — Emborcou? — Emborcou de verdade, pois então? Sei bem que fui ao fundo e voltei à tona. Aí perdi o sentido... quando acordei estava na praia, são e salvo, graças a Deus! — Assim mesmo foste feliz, disse o negro com interesse. Podias morrer afogado... Bom-Crioulo também quis contar sua história, e a conversa prolongou-se té ao anoitecer, quando todos subiram par a distribuição do serviço. Em vez de abrandar, o sueste soprava com mais força, duro e tenaz, ameaçando levar tudo quanto era cabo e pano. A corveta, o “velho esquife”, como a chamavam, ia numa vertigem por aqueles mares, arfando suavemente, oscilando às vezes, quando o vagalhão era maior, com os seus dois faróis de cor — o encarnado a boreste, o verde a bombordo — e a lanterninha do traquete, pálida e microscópica no alto do estai da giba. Sempre em gáveas e mezena, vento em popa, grande e sombria na noite clara, espectral e silenciosa, ela voava desesperadamente caminho da pátria. A lua surgindo lenta e lenta, cor de fogo a princípio, depois fria e opalescente, misto de névoa e luz, alma da solidão, melancolizava o largo cenário das ondas, derramando sobre o mar essa luz meiga, essa luz ideal que penetra o coração do marinheiro, comunicando-lhe a saudade infinita dos que navegam. E nada de serenar o vento! Naquele caminhar, cedo se estaria em terra. Cousa talvez de um dia mais... Enquanto não chegava a hora triste do silêncio oficial, a hora do sono, que se prolongava té o romper d’alvorada, marinheiros divertiam-se à proa, cantando ao som de uma viola chorosa, numa toada sertaneja, rindo, sapateando, a ver quem melhor improvisava modinhas de pé quebrado, “cantigas do mato”... — Não se perdia um luar como aquele! Tinham trabalhado muito: era preciso folgar também. Deitados no convés, de ventre para o ar, outros em sentido contrário, queixos na mão — um sentado pacatamente, aquele outro de pernas cruzadas fumando — todos em plena liberdade, formavam roda em cima do castelo, enquanto era cedo. O oficial do quarto passeando, passeando, escutava-os enternecido, cheio de contemplação por aquela pobre gente sem lar nem família, que morria cantando, longe de todo carinho, às vezes longe da pátria, onde quer que o destino os conduzisse. Aquelas cantigas assim rudes, assim improvisadas, quase sem metro e sem rima, tinham, contudo, o sabor penetrante dos frutos naturais e o misterioso encanto de confissões ingênuas... Fazia bem ouvi-las, como que o coração dilatava-se numa hipertrofia de saudade terna e consoladora. Deixá-los cantar, os pobres marinheiros, deixá-los esquecer a vida incerta que levam — deixá-los cantar!... Geme a viola, soluça uma alma em cada bordão; ressoam cantares em desafio no silêncio infinito da noite clara... O tempo voa, ninguém se apercebe das horas, ninguém se lembra de dormir, de fechar os olhos à paisagem translúcida e fria do luar tropical varrida pelo vento sul. Misterioso instrumento essa viola, que fazia esquecer as agruras da vida, embriagando a alma, tonificando o espírito! Bom-Crioulo não tomou parte no folguedo. — Estava cansado de ouvir cantigas: fora-se o tempo em que também gostava de fazer seu pé-de-alferes, dançando o baião, fazendo rir a rapaziada. E quando a sineta de proa badalou nove horas, viram-no passar esgueirando-se felinamente, sobraçando a maca. Ia depressa, furtando-se à vista dos outros, mudo, impenetrável, sombrio... Embarafustou pela escotilha, escadas abaixo, e sumiu-se na coberta. Que iria ele fazer? Algum crime? Alguma traição? — Nada: Bom-Crioulo tratava de se agasalhar como qualquer mortal, o mais comodamente possível. — Lá em cima fazia um arzinho de gelo, caramba! A coberta sempre era um pouco mais quente. O seguro morreu de velho... Abriu a maca, estendeu-se sobre o convés cautelosamente, com mãos de mulher, examinou o lençol, e, sacando fora a camisa de flanela azul, deitou-se com um largo suspiro de conforto. — Ah! estava como queria. Boa noite!... Nem uma voz rompia o silêncio regulamentar, senão a do oficial, de hora em hora: — Barca! Ventava forte ainda. O convés, tanto na coberta como na tolda, apresentava o aspecto de um acampamento nômade. A marinhagem entorpecida pelo trabalho, caíra numa sonolência profunda, espalhada por ali ao relento, numa desordem geral de ciganos que não escolhem o terreno para repousar. Pouco lhe importavam o chão úmido, as correntes de ar, as constipações, o beribéri. Embaixo era maior o atravancamento. Macas de lona suspensas em varais de ferro, umas sobre as outras, encardidas como panos de cozinha, oscilavam à luz moribunda e macilenta das lanternas. Imagine-se o porão de um navio mercante carregado de miséria. No intervalo das peças, na meia escuridão dos recôncavos moviam-se corpos seminus, indistintos. Respirava-se um odor nauseabundo de cárcere, um cheiro acre de suor humano diluído em urina e alcatrão. Negros, de boca aberta, roncavam profundamente, contorcendo-se na inconsciência do sono. Viam-se torsos nus abraçando o convés, aspectos indecorosos que a luz evidenciava cruelmente. De vez em quando uma voz entrava a sonambular cousas ininteligíveis. Houve um marinheiro que se levantou, no meio dos outros, nu em pêlo, os olhos arregalados, medonho, gritando que o queriam matar. No fim de contas o pobre-diabo era vítima de um pesadelo, nada mais. Tudo voltou ao silêncio. E lá cima, no passadiço, o oficial de quarto, vigilante e imperturbável, de hora em hora: — Barca! Havia um rebuliço ligeiro; o guardião apitava acordando a gente de serviço: — Levanta, levanta! olha a barca!... — e as horas iam correndo assim, monotonamente. Bom-Crioulo estava de folga. Seu espírito não sossegara toda a tarde, ruminando estratagemas com que desse batalha definitiva ao grumete, realizando, por fim, o seu forte desejo de macho torturado pela carnalidade grega. Por vezes tinha querido sondar o ânimo do grumete, procurando convencê-lo, estimulando-lhe o organismo, mas o pequeno fazia-se de esquerdo, repelindo brandamente, com jeitos de namorada, certos carinhos do negro. — Deixe disso, Bom- Crioulo, porte-se sério! Nesse dia Priapo jurou chegar ao cabo da luta. Ou vencer ou morrer! — Ou o pequeno se resolvia ou estavam desfeitas as relações. Era preciso resolver “aquilo”. — Aquilo quê? perguntou o rapazinho, muito admirado. — Nada; o que eu quero é que não te zangues comigo. E precipitadamente: — Onde vais dormir esta noite? — Lá bem à proa, na coberta, por causa do frio. — Bem: havemos de conversar. Às nove horas, quando Bom-Crioulo viu Aleixo descer, agarrou a maca e precipitou-se no encalço do pequeno. Foi justamente quando o viram passar com a trouxa debaixo do braço, esgueirando-se felinamente... Uma vez lado a lado com o grumete, sentindo-lhe o calor do corpo roliço, a branda tepidez daquela carne desejada e virgem de contactos impuros, um apetite selvagem cortou a palavra ao negro. A claridade não chegava sequer à meia distância do esconderijo onde eles tinham se refugiado. Não se viam um ao outro: sentiam-se, adivinhavam-se por baixo dos cobertores. Depois de um silêncio cauteloso e rápido, Bom-Crioulo, aconchegando-se ao grumete, disse-lhe qualquer cousa no ouvido. Aleixo conservou-se imóvel, sem respirar. Encolhido, as pálpebras cerrando-se, instintivamente de sono, ouvindo, com o ouvido pegado ao convés, o marulhar das ondas na proa, não teve ânimo de murmurar uma palavra. Viu passarem, como em sonho, as mil e uma promessas de Bom-Crioulo: o quartinho da Rua da Misericórdia no Rio de Janeiro, os teatros, os passeios....; lembrouse do castigo que o negro sofrera por sua causa; mas não disse nada. Uma sensação de ventura infinita espalhava-se em todo o corpo. Começava a sentir no próprio sangue impulsos nunca experimentados, uma como vontade ingênita de ceder aos caprichos do negro, de abandonar-se-lhe para o que ele quisesse — uma vaga distensão dos nervos, um prurido de passividade... — Ande logo! murmurou apressadamente, voltando-se. E consumou-se o delito contra a natureza. 4 Amanhecera um belo dia de sol, quente, luminoso, de uma transparência fina de cristal lavado. Logo pela madrugadinha, antes de apagar-se a última estrela, a corveta “acendera fogos”, e demandava o porto, em árvore seca, impulsionada pela sua velha máquina de sistema antigo — um estafermo quase imprestável, porejando vapor, abrindo-se toda em desconjuntamentos de maquinismo secular. Enfim se chegava! Agora cada um tratava de si, de sua roupa, do que trouxera da longa viagem ao sul, dessa viagem maldita que parecia não acabar nunca. Lá estava bem defronte, por bombordo, o Pão d’Açúcar, talhado a pique, sombrio, íngreme, batido pelas ondas, guardando a entrada; e mais longe para o sul — termo final de uma espécie de cordilheira primitiva e bronca — o cocuruto da Gávea, cinzento, dominando o mar... — E aquela ilha com ponto branco? perguntou Aleixo curiosamente, Estava ao lado do Bom-Crioulo, contemplando embevecido a costa fluminense. — Aquela ilha é a Rasa, explicou o negro. Não vês o farol, aquilo branco?... E começou a descrever o pedaço do litoral que se ia desdobrando à luz, alcantilado e fulgurante, como essa terras lendárias de tamoios e caramurus... Aquela faixa de areia, muito estreita, do outro lado (e estendia o braço por cima do ombro do pequeno), beirando a água, chamava-se Marambaia. Lá adiante, uma montanha quase apagada, era o Cabo Frio... E foi indicando, um a um, com exclamações de patriotismo, os acidentes da entrada, os edifícios: as fortalezas de S. João no alto, e de Santa Cruz à beira mar, olhando-se, com sua artilharia muda; a Praia Vermelha, entre morros; o hospício; Botafogo... Tudo aquilo, dizia ele abarcando com um gesto largo, morros e casas, tudo aquilo é a cidade de Niterói, ouviste falar? — Não ... — Pois é ali. Aleixo, de resto, não experimentava grande surpresa. Entre montanhas havia ele nascido e perto do mar. O entusiasmo de Bom-Crioulo nem sequer o abalava: fazia outra idéia do Rio de Janeiro! — Mas isto ainda não é a cidade, meu tolo, explicava o negro. Tu não viste nada por enquanto... A corveta aproximava-se de Villegaignon... Bom-Crioulo mal teve tempo de dizer ao grumete: —“Foi ali que eu comecei...” E desapareceu entre a chusma da marinhagem. Era quase meio-dia. Escaleres de guerra vinham em direção da fortaleza, cortando a água numa carreira macia de out-riggers. Ouvia -se a pancada igual dos remos acompanhando a voga. Ao redor da barca de banhos pairavam botes de comércio. Lanchas apitavam cruzando a baía. Navios de guerra imóveis, aproados à barra, faziam sinais, içando e arriando bandeiras. Entre esses havia uma grande couraçado ao lume d’água, raso, chato e bojudo, com uma flâmula azul no mastro grande. A corveta diminuiu a marcha, seguindo vagarosa e dominando com seu porte de nau antiga e legendária, o conjunto de embarcações que por ali estacionavam. Pouco adiante de Villegaignon fez uma parada imperceptível, tocando atrás: ouviu-se um grande baque n’água e logo um rumos de amarras que se desenrolam, que se precipitam... — Ora, graças! exclamaram algumas vozes ao mesmo tempo, como se houvessem combinado fazer coro de alegria. Entretanto, Bom-Crioulo começava a sentir uns longes de tristeza n’alma, cousa que raríssimas vezes lhe acontecia. Lembrava-se do mar alto, da primeira vez que vira o Aleixo, da vida nova em que ia entrar, preocupando-o sobre a amizade do grumete, o futuro dessa afeição nascida em viagem e ameaçada agora pelas conveniências do serviço militar. Em menos de vinte e quatro horas Aleixo podia ser transferido para outro navio — ele mesmo, Bom-Crioulo, quem sabe? talvez não continuasse na corveta... Instintivamente seu olhar procurava o pequeno, acendia-se num desejo sôfrego de vê-lo sempre, sempre, ali perto, vivendo a mesma vida de obediência e de trabalho, crescendo a seu lado como um irmão querido e inseparável. Por outro lado estava tranqüilo porque a maior prova de amizade Aleixo tinha lhe dado a um simples aceno, a um simples olhar. Onde quer que estivessem haviam de se lembrar daquela noite fria dormida sob o mesmo lençol na proa da corveta, abraçados, como um casal de noivos em plena luxúria da primeira coabitação... Ao pensar nisso Bom-Crioulo sentia uma febre extraordinária de erotismo, um delírio invencível de gozo pederasta... Agora compreendia que só no homem, no próprio homem, ele podia encontrar aquilo que debalde procurara nas mulheres. Nunca se apercebera de semelhante anomalia, nunca em sua vida tivera a lembrança de perscrutar suas tendências em matéria de sexualidade. As mulheres o desarmavam para os combates do amor, é certo, mas também não concebia, por forma alguma, esse comércio grosseiro entre indivíduos do mesmo sexo; entretanto, quem diria!, o fato passava-se agora consigo próprio, sem premeditação, inesperadamente. E o mais interessante é que “aquilo” ameaçava ir longe, para mal de seus pecados... Não havia jeito, senão ter paciência, uma vez que a “natureza” impunha-lhe esse castigo. Afinal de contas era homem, tinha suas necessidades, como qualquer outro: fizera muito em conservar-se virgem té aos trinta anos, passando vergonhas que ninguém acreditava, sendo muitas vezes obrigado a cometer excessos que os médicos proíbem. De qualquer modo estava justificado perante sua consciência, tanto mais quanto havia exemplos ali mesmo a bordo, para não falar em certo oficial de quem se diziam cousas medonhas no tocante à vida particular. Se os brancos faziam, quanto mais os negros! É que nem todos têm força para resistir: a natureza pode mais que a vontade humana... Começou a faina de arriar escaleres, uma lufa-lufa barulhenta e ensurdecedora, um incessante rumor de cabos e moitões, de vozes e apitos, confundindo-se em algaravia de mercado público, ressoando clamorosamente no silêncio da baía. Em torno da corveta agitava-se uma multidão de escaleres e lanchas conduzindo oficiais de marinha e senhoras, que acenavam para bordo — aqueles em uniforme de “visita”, espada e luva branca, afetando autoridade, aprumando-se no paineiro com essa desenvoltura natural dos homens do mar; aquelas em toilletes de verão, muito rubras do sol. Houve um momento de geral precipitação, em que todos procuravam subir a escadinha do portaló, investindo a um tempo, quando a visita sanitária pôs-se ao largo. — Atraca daí! gritava uma voz. — Larga a canoa! bradava a outra. — Ciando à ré! — Abre de proa! — Rema avante! Ninguém se compreendia no tumulto. Daí a apouco, porém, foi-se restabelecendo a ordem, todo aquele alvoroço desapareceu e ouvia-se apenas a voz dos marinheiros conversando. Foi então que atracou um escaler coma bandeira inglesa, e um oficial ruivo, de suíças, muito parecido com o rei Guilherme, da Alemanha. Era o comandante do Ironside, cruzador britânico. Austero, hermeticamente abotoado, subiu e desceu logo, sem se voltar, pisando forte nos degraus da escadinha. Bom-Crioulo que se debruçara na amurada, assim que o viu saltar no escaler: — Inglês bruto! murmurou entre dentes, e ficou-se com sua indignação, olhando a água calma... Ele ali estava, enfim, na baía do Rio de Janeiro, depois de uma ausência de seis longos meses! Precisava ir à terra naquele mesmo dia para arranjar o negócio do quarto da Rua da Misericórdia, antes que o pequeno se arrependesse; tinha umas compras a fazer... Mas, havia ordem para não desembarcar, e Bom-Crioulo, como toda a guarnição passou a tarde numa sensaboria, cabeceando de fadiga e sono, ocupado em pequenos trabalhos de asseio e manobras rudimentares. — Diabo de vida sem descanso! O tempo era pouco para um desgraçado cumprir todas as ordens. E não as cumprisse! Golilha com ele, quando não era logo metido em ferros... Ah! vida, vida!... Escravo na fazendo, escravo a bordo, escravo em toda a parte... E chamava-se a isso de servir à pátria! Anoiteceu. Noite estrelada, cheia de silêncio, profundamente calma e reparadora. A guarnição da corveta dormia sem abalos um sono tranqüilo e delicioso de oito horas, ao ar livre, sobre o convés desbastado. Bom-Crioulo nem sequer pensou em Aleixo: estava incapaz de trocar palavra, sucumbido pela canseira, o corpo mole reclamando conforto, o espírito parado; todo ele sem ânimo para cousa alguma. Trabalhara brutalmente; não havia resistir à fadiga. Momentos há em que os próprios animais caem extenuados... Deitou-se a um canto, longe de todos, e adormeceu imediatamente num sono cataléptico. Ao primeiro toque d’alvorada espreguiçou-se, abrindo os olhos com surpresa, e sentiu-se alagado. — Oh! ... — Passou a mão no lugar úmido, tateando, e verificou, cheio de indignação, cheio de tédio, com um gesto de náusea, a irreparável perda que sofrera inconscientemente durante o sono — um verdadeiro esgotamento de líquido seminal, de forças procriadoras, de vida, enfim, que “aquilo” era sangue transformado em matéria! Se ao menos tivesse gozado... Mas não sentira nada, absolutamente nada, mesmo em sonho! Dormira toda a noite como um porco, e o resultado ali se achava no lençol — quase um rio de goma prolífica! E triste, desesperado, maldizendo a natureza na linguagem torpe das galés, ergue-se e foi juntando a roupa de cama bruscamente, atabalhoadamente, como se alguém houvesse concorrido para a sua “desgraça”. Entrou pelo dia com ares de quem não quer se incomodar, o semblante carregado numa sombria expressão de aborrecimento, falando pouco e em tom grosseiro, ameaçando: — que o deixassem, que o deixassem; não queria brincadeira; ainda rachava a cabeça dum! Os outros pediam-lhe desculpa, humilhavam-se, adulavam-no, porque sabiam que “o negro era meio doido”. À tarde, porém, esse estado nervoso amainou, graças ao Aleixo que lhe fora perguntar, com certo interesse e com uma meiguice na voz de adolescente, se ele, Bom- Crioulo, estava disposto a ir à terra. — Por que não? Já estava concedida a licença. — Ah! pensei que tinha se esquecido. — Qual esquecido! Pois eu não te disse que hoje mesmo havíamos de arranjar nosso ninho? E muito carinhoso: — Espero em Deus estrear hoje... Faltava, entretanto, a licença do grumete. Aleixo não se animava a pedir que o deixassem ir à terra, com receio de uma negativa. Bom-Crioulo encorajou-o — Não fosse tolo! Isso a gente dizia que voltava logo, que era um instante, ou então forjava qualquer história... — Dize ao imediato que tens um padrinho rico em terra, uma cousa assim... Aleixo criou ânimo, e daí a pouco voltava muito satisfeito, risonho, dando pinchos. — Não havia nada como a gente ser um menino bonito! Até os oficiais gostavam... Bom-Crioulo é que não gostou da pilhéria. Ferrou o olhar no pequeno — hum! hum! — como para o fulminar. Mas o grumete corrigiu prontamente: — Brincadeira, menino, brincadeira... pois não se podia brincar? — Isso não são brinquedos, repreendeu o negro. Eu quando gosto de uma pessoa gosto mesmo e acabou-se! Já lhe disse que ande muito direitinho... Vestiram-se e abalaram no escaler das cinco horas, depois da ceia. — Vamos primeiro tomar um golezinho de jeribita, disse Bom-Crioulo ao saltar no cais Pharoux. Aqui mesmo no quiosque ... É preciso esquentar os rins. — Eu não quero. — Hás de tomar nem que seja um copo de maduro. — Maduro? — Sim, maduro: é uma bebida muito boa. Foram andando... O relógio das barcas marcava seis horas menos um quarto, e a cidade, mergulhada no crepúsculo, adormecia lentamente, caía pouco a pouco numa estagnação de praça abandonada, num triste silêncio de aldeia longínqua... Acendiam-se as luzes e rareavam os transeuntes no Largo do Paço. Um ou outro retardatário, em pé na sombra, e sujeitos que saltavam dos bondes em frente à estação das barcas, conduzindo embrulhos. O velho pardieiro dos Braganças, o sombrio casarão, em que, durante quase um século, a monarquia fez reclamo de suas pratas, imobilizavase lugubremente, ermo e fechado aquela hora. Bom-Crioulo tomou à esquerda, por baixo da arcada do Paço, enfiando pela rua da Misericórdia, braço a braço com o grumete, fumando um charuto que comprara no quiosque. Lá adiante, nas proximidades do Arsenal de Guerra, pararam defronte um sobradinho com persianas, de aspecto antigo, duas varandolas de madeira carcomida no primeiro andar, e lá em cima, no telhado, uma espécie de trapeira sumindo-se , enterrando-se, dependurada quase. Embaixo, na loja, morava uma família de pretos d’Angola; ouvia-se naquele momento, no escuro interior desse coito africano, a vozeria dos negros. — É aqui, disse Bom-Crioulo, reconhecendo a casa, e desaparecendo no corredor sem luz, que ia ter ao sobradinho. Aleixo acompanhava-o taciturno, silenciosos, cosendo-se à parede, como quem pela primeira vez entra num lugar estranho. — Anda tolo! fez o outro, segurando-lhe o braço. De que tens medo?... Subiram cautelosos, por ali acima, uma escada triste e deserta, cujos degraus, muito íngremes, ameaçavam fugir sob os pés. O negro puxou o cordão que pendia da cancela e lá dentro, na sala de jantar, uma campainha fez sinal, timbrando surdamente. Bom-Crioulo tornou a puxar com força. — Quem é? Oh!... — Sou eu, D. Carolina: tenha bondade. — Já vai... E com pouco o marinheiro atirava-se nos braços de uma senhora gorda, redonda e meio idosa, estreitando-a contra o peito, suspendendo-a mesmo, apesar de toda a sua gordura, com essa alegria natural de pessoas que se tornam a ver, depois de um ausência. — Conta-m’lá, Bom-Crioulo, anda, entra... Quem é este pequeno? — Este pequeno?... Por causa dele mesmo é que estou aqui. Depois conversaremos... — E tu, como vais, meu crioulo? Dize, conta... Ora, se eu soubesse que era tu... Dá cá outro abraço, anda! Abraçaram-se de novo, com grande alvoroço, rindo, gargalhando, ela de avental, muito rechonchuda, o cabelo em duas tranças, partido ao meio, Bom-Crioulo fazendo-se amável, cobrindo-a de exclamações, achando-a mais gorda, mais bonita, mais moça!... D. Carolina era uma portuguesa que alugava quartos na Rua da Misericórdia somente a pessoas de “certa ordem”, gente que não se fizesse de muito honrada e de muito boa, isso mesmo rapazes de confiança, bons inquilinos, patrícios, amigos velhos... Não fazia questão de cor e tampouco se importava com classe ou profissão do sujeito. Marinheiro, soldado, embarcadiço, caixeiro de venda, tudo era a mesmíssima cousa! o tratamento que lhe fosse possível dar a um inquilino, dava-o do mesmo modo aos outros. Vivia de sua casa, de seus cômodos, do aluguelzinho por mês ou por hora. Tinha o seu homem, lá isso pra que negar? Mas, independente dele e de outros arranjos que pudesse fazer, precisava ir ganhando a vida com um emprego certo, um emprego mais ou menos rendoso para garantia do futuro. Isso de homens não há que fiar: hoje com Deus, amanhã com o diabo. Quando moça, tinha seus vinte anos, abrira casa na rua da Lampadosa. Bom tempo! O dinheiro entrava-lhe pela porta em jorros como a luz do dia, sem ela se incomodar. Uma fortuna de jóias, de ouro e brilhante! Já era gorducha, então: chamavam-na Carola Bunda, um apelido de mau gosto, invenção da rua... Depois esteve muito doente, saíram-lhe feridas pelo corpo, julgou não escapar. E, como tudo passa, ela nunca mais pode reerguer-se, chegando, por desgraça, ao ponto de empenhar jóias e tudo, porque ninguém a procurava, ninguém a queria — pobre cadela sem dono... Passou misérias! até quis entrar para um teatro como qualquer cousa, como criada mesmo. Foi nessa época, num dia de carnaval (lembrava-se bem!), que começou a melhorar de sorte. Um clubezinho pagou-lhe alguns mil-réis para ela fazer de Vênus, no alto de um carro triunfal. Foi um escândalo, um “sucesso”: atiraram-lhe flores, deram-lhe vivas, muita palma, presentes, — o diabo! Durante quase um ano só se falou na Carola, nas pernas da Carola, na portuguesa da rua do Núncio. A pobre mulher narrava isso com lágrimas e suspiros de profunda e melancólica saudade, e repetia: Bom Tempo! Bom tempo! Esteve duas vezes amigada, tornou a cair doente, foi à Portugal, regressou ao Brasil, cheia de corpo e de novas ambições, amigou-se outra vez, e, afinal de contas, depois de muito gozar e de muito sofrer, lá estava na Rua da Misericórdia, fazendo pela vida, meu rico!, explorando a humanidade brejeira, enquanto o seu “macacão” trabalhava por outro lado em negócios de carne verde e fornecimento para os quartéis. De resto, essa aliança com o açougueiro, uma senhor Brás, homem de grandes barbas e muitos haveres, essa aliança pouco ou nada lhe rendia, a ela, porque o sujeito era casado e só de mês em mês dava o ar de sua graça, deixando-lhe a ninharia de cento e cinqüenta mil-réis para o aluguel do sobradinho, fora a carne que mandava diariamente. — Tenho quarenta anos de experiência, dizia, quarenta anos e alguns fios de prata na cabeça. Conheço este mundo velho, meu amor; tudo isso pra mim é miséria. Estimava Bom-Crioulo desde o dia em que ele, desinteressadamente, por um acaso providencial, livrou-a de morrer na ponta uma faca; história de ladrões... Era caso até para beijar os pés do marinheiro, porque nunca vira tanta coragem e tanto desinteresse! D. Carolina buscava sempre ocasião de recordar o fato, narrando-o com todas as cores, dando-lhe mesmo umas tintas de paleta rembrantesca, desfazendo-se em elogios à gente da marinha, gabando os homens do mar, “uns benfeitores da humanidade”. Uma noite — só ao pensar tinha calafrios! — vinha de assistir ao Drama no alto-mar, que se representava na Phenix, quando, ao meter a chave na porte, foi surpreendida por dois indivíduos, cuja fisionomia não pode reconhecer e que lhe pediram os anéis e dinheiro que porventura trouxesse. Ela, com efeito, além de um anel de brilhante, lembrança dos bons tempos! e duas esmeraldas, levava cinqüenta mil-réis. Ora, já se passava de meia noite e a Rua da Misericórdia estava deserta que nem um cemitério. Nenhum guarda por ali! Quis abrir a boca e pedir socorro, mas os gatunos foram dizendo logo que, se ela ousasse gritar, morria. E brandiram os punhais, duas lâminas de bom aço, tamanho de facões! Ah! mas Deus é grande! Nesse momento ia passando o vulto de um marinheiro e ela disparou correndo, sobre ele: — Socorro! Socorro! — Travou-se uma luta. O marujo saltava fugindo aos punhais e investindo logo, como uma fera, de navalha em punho. Felizmente (Deus sabe o que faz!) aos gritos de socorro, encheram-se as janelas de gente em camisa de dormir, soaram apitos no escuro e a polícia chegou a tempo de prender os ladrões, completamente desarmados pelo bem-vindo marinheiro. — Qualquer pessoa nos casos dela faria o que ela fez: abriu cerveja para o seu protetor, que disse chamar-se Amaro, vulgo Bom-Crioulo, marinheiro de um navio da esquadra. E, como no sobradinho moravam praças de bordo, Bom-Crioulo deu-se a conhecer, havendo logo uma intimidade entre ela, Carolina, e o negro. Palavra d’honra como nunca vira tanta coragem num homem. Estimava-o por isso: porque era um marinheiro valente — homem para quatro! Bom-Crioulo começou a freqüentar o sobradinho onde iam outros marinheiros, e daí a grande amizade da portuguesa por ele, não que houvesse outra intenção: ela sabia que o negro não era homem para mulheres... — Vamos, conta-m’lá essa viagem! Tinham-se sentado, os três, numa sala de jantar, à luz do gás. D. Carolina estufada, muitíssimo gorda, cabeceando, sem fôlego, estava ansiosa por saber notícias. O negro, de boné no alto da cabeça, recostado familiarmente, acabava o charuto, cuja cinza abria-se de vez em quando num clarão rubro e quente. Aleixo, imóvel numa cadeira, olhava as paredes, examinando o papel do forro, os quadros — oleografias de carregação figurando assunto de alcova, duas em cada parede, colocadas simetricamente —, o guarda-louça quase vazio, e uma coleção de estampilhas de caixa de fósforo armada em leque. Tudo velho e incolor, poento e maltratado. Respirava-se uma atmosfera de sebo e cânfora, renovada por uma triste janelinha que abria para a espécie de área pertencente à loja. Bom-Crioulo resumiu em poucas palavras a viagem da corveta: — Seis meses de estupidez! O Aleixo é que trouxera um pouquinho de alegria na volta... E desfiou a história do grumete. — Agora D. Carolina vais no arranjar um quartinho, mesmo que seja no sótão, rematou; mas um quartinho sem luxo, para quando viermos à terra. — Uma cama ou duas? perguntou sorrindo a quarentona. — Como quiser... Marinheiro é gente que dorme aos quatro, aos cinco... aos cinqüenta! Se houvesse uma caminha larga... — Arranja-se, meu Deus, arranja-se, tornou a portuguesa. O comodozinho de cima está desocupado, e, quer que lhe diga? eu acho que ficavam melhor... Sempre risonha e trêfega, sufocada pelo calor, a mulher piscou o olho a Bom- Crioulo. — Então, já sei que vens outro... Bendita viagem! ou o mar ou as tais cantáridas!... Riram, compreendendo-se, enquanto Aleixo, debruçado à janela, cuspia para baixo, para o quintalejo dos africanos. 5 Bom-Crioulo, desde a primeira noite dormida no sobradinho, começou a experimentar uma delícia muito íntima, assim como um recolhido gozo espiritual — certo amor à vida obscura daquela casa onde ultimamente quase ninguém ia, e que era o seu querido valhacouto de marujo em folga, o doce remanso de sua alma voluptuosa. Não sonhava melhor vida, conchego mais ideal: o mundo para ele resumia-se agora naquilo: um quartinho pegado às telhas, o Aleixo e ... nada mais! Enquanto Deus lhe conservasse o juízo e a saúde, não desejava outra cousa. O quarto era independente, com janela para os fundos da casa, espécie de sótão, ruído pelo cupim e tresandando a ácido fênico. Nele morrera de febre amarela um portuguesinho recém chegado. Mas Bom-Crioulo, conquanto receasse as febres de mau caráter, não se importou com isso, tratando de esquecer o caso e instalando-se definitivamente. Todo dinheiro que apanhava era para a compra de móveis e objetos de fantasia rococó, “figuras”, enfeites, cousas sem valor, muita vez trazida de bordo... Pouco a pouco o pequeno “cômodo” foi adquirindo uma feição nova de bazar hebreu, enchendo-se de bugigangas, amontoando-se de caixas vazias, búzios grosseiros e outros acessórios ornamentais. O leito era uma “cama de vento” já muito usada, sobre a qual Bom-Crioulo tinha o zelo de estender, pela manhã, quando se levantava, um grosso cobertor encarnado “para ocultar as nódoas”. Durante meses viveu ele uma vida calma, escrupulosamente pautada, rigorosamente metódica, cumprindo seus deveres a bordo, vindo à terra duas vezes por semana em companhia de Aleixo, sem dar motivo a castigos ou recriminações. Até os oficiais estranhavam-lhe o procedimento, admiravam-lhe os modos. — “Isso é cousa passageira, insinuava o tenente Souza. Breve temo-lo aqui, bêbedo e medonho. Sempre o conheci refratário a toda norma de viver. Hoje manso como um cordeiro, amanhã tempestuoso como uma fera. Cousas de caráter africano...” O grumete, por sua vez, trazia a alma na perpétua alegria dos que não têm cuidados. Em terra ou a bordo, não tinha de que se queixar: andava sempre limpo, ninguém o via deitado no convés, ou emporcalhando-se de alcatrão à proa. Felizmente o imediato escolhera-o para o serviço de cabo-marinheiro, em atenção à sua conduta, reconhecendo nele um rapazinho de bons costumes, amigo do asseio, obediente e trabalhador. De modo que raro via-se Aleixo entre a marinhagem. Seu lugar predileto era o passadiço ou a ré cosendo bandeiras, tesourando flâmulas, aprendendo certos misteres do ofício. Às vezes tinha palestras com o oficial do quarto, narrando histórias de Santa Catarina, casos da província, do tempo em que ele era um simples filho de pescador, um pobre menino da beira-mar. Os outros marinheiros olhavam-no com inveja, tocando-se os cotovelos maliciosamente. Havia um guarda-marinha, moço bem educado e muito democrata, que, uma vez por outra, dava-lhe dinheiro, níqueis para cigarros. Ele ia logo mostrar a Bom-Crioulo as moedinhas de tostão que “seu guardamarinha lhe dera”. Todos a bordo lhe faziam festa; o próprio guardião Agostinho, seco e ríspido, tratava-o bem, com branduras na voz. Uma vida regalada! Em terra, no quarto da Misericórdia, nem se falava! — ouro sobre azul. Ficavam em ceroulas, ele e o negro, espojavam-se à vontade na velha cama de lona, muito fresca pelo calor, a garrafa de aguardente ali perto, sozinhos, numa independência absoluta, rindo e conversando à larga, sem que ninguém os fosse perturbar — volta na chave por via das dúvidas... Um cousa desgostava o grumete: os caprichos libertinos do outro. Porque Bom- Crioulo não se contentava em possuí-lo a qualquer hora do dia ou da noite, queria muito mais, obrigava-o a excessos, fazia dele um escravo, uma “mulher-a-toa” propondo quanta extravagância lhe vinha à imaginação. Logo na primeira noite exigiu que ele ficasse nu, mas nuzinho em pêlo: queria ver o corpo... Aleixo amuou: aquilo não era cousa que se pedisse a um homem! Tudo menos aquilo. Mas o negro insistiu: Ninguém o levava a capricho:— Ou bem que somos ou bem que não somos... — Que asneira! fez o grumete. Por-se agora nu em pêlo defronte do Bom-Crioulo ! Está visto que tinha vergonha. — Vergonha de quê? tornou o outro. Não és homem como eu? Donde veio essa vergonha? — Decerto!... — Ora, deixa-te de luxo, menino, vamos: tira a roupa... Havia luz no quarto, uma luz mortiça. no topo de uma vela de sebo. — Nem se vê nada... fez Aleixo choramingando, sem lágrimas. — Sempre há se de se ver alguma cousa... E o pequeno, submisso e covarde, foi desabotoando a camisa de flanela, depois as calças, em pé, colocando a roupa sobre a cama, peça por peça. Estava satisfeita a vontade de Bom-Crioulo. Aleixo surgia-lhe agora em pleno e exuberante nudez, muito alvo, as formas roliças de calipígio ressaltando na meia sombra voluptuosa do aposento, na penumbra acariciadora daquele ignorado e impudico santuário de paixões inconfessáveis... Belo modelo de efebo que a Grécia de Vênus talvez imortalizasse em estrofes de ouro límpido e estatuas duma escultura sensual e pujante. Sodoma ressurgia agora numa triste e desolada baiúca da Rua da Misericórdia, onde àquela hora tudo permanecia numa doce quietação de ermo longínquo. — Veja logo... murmurou o pequeno, firmando-se nos pés. Bom-Crioulo ficou extático! A brancura láctea e maciça daquela carne tenra punha-lhe frêmitos no corpo, abalando-o nervosamente de um modo estranho, excitando-o como uma bebida forte, atraindo-o, alvoroçando-lhe o coração. Nunca vira formas de homem tão bem torneadas, braços assim, quadris rijos e carnudos como aqueles... Faltavam-lhe os seios para que Aleixo fosse uma verdadeira mulher!... Que beleza de pescoço, que delícia de ombros, que desespero!... Dentro do negro rugiam desejos de touro ao pressentir a fêmea... Todo ele vibrava, demorando-se na idolatria pagã daquela nudez sensual como um fetiche diante de um símbolo de ouro ou como um artista diante duma obra prima. Ignorante e grosseiro, sentia-se, contudo, abalado até os nervos mais recônditos, até às profundezas do seu duplo ser moral e físico, dominado por um quase respeito cego pelo grumete que atingia proporções de ente sobrenatural a seus olhos de marinheiro rude. — Basta! ... suplicou Aleixo. — Não, não! Um bocadinho mais... Bom-Crioulo tomou a vela, meio trêmulo, e, aproximando-se, continuou o exame atencioso do grumete, palpando-lhe as carnes, gabando-lhe o cheiro da pele, no auge da volúpia, no extremo da concupiscência, os olhos deitando chispas de gozo... — Acabou-se! tornou Aleixo depressa, impaciente já, soprando a luz. Seguiu-se, então, no escuro, um ligeiro duelo de palavras gemidas à surdina. e, quando Bom-Crioulo riscou o fósforo, ainda uma vez triunfante, mal podia ter-se em pé. Tais eram os “desgostos” de Aleixo. Fora disso a vida corria-lhe admiravelmente, como um leve barco à feição... D. Carolina, essa tratava-o pelo carinhoso apelido de bonitinho: —“o meu bonitinho” é como ela dizia, ameigando o sotaque peninsular. Achava uma graça infinita naquele pedacinho de homem vestido de marinheiro, alvo e louro, sempre muito bem penteado, o cabelo sedoso, os borzeguins lustrosos, todo ele cheirando a essência, como uma rapariga que se vai que se vai fazendo mulher... O pequeno, muito acessível a tudo quanto fosse carinho, mostrava-se reconhecido, não subia para o quarto sem primeiro dar os bons-dias à portuguesa, abrindo-se com ela com franquezas ingênuas, deixando-se agradar. Ele, D. Carolina a Bom-Crioulo eram como uma pequena família, não tinham segredos ente si, estimavam-se mutuamente. Para que vida melhor? Longe de seus pais, numa terra estranha, encontrava naquela casa um asilo de amor, um paraíso de felicidade... A corveta, dias depois de chegar ao Rio de Janeiro, entrou para o dique. Esgotada a grande bacia de granito, larga e profunda, como um abismo natural, aberta à picareta nos seio da rocha dura e implacável, começaram as obras. Um martelar contínuo reboava ciclopicamente no interior daquela sepultura de pedra, como numa forja subterrânea: operários em mangas de camisa recomeçavam todos os dias a mesma faina brutal de calafetar o bojo da velha “barcaça”, enquanto os marinheiros iam, por outro lado, raspando o mexilhão que o calor apodrecia no fundo seco do dique. Sufocava, lá embaixo, o cheiro forte dos mariscos em decomposição: subindo como bafos de monturo, resistindo à potassa e ao ácido fênico. Era justamente em dezembro, mês de epidemias e de insuportável calor. Dir-se-ia que aqueles homens, operários e marinheiros, não tinham aparelho respiratório, não tinham pulmões, ou estavam saturados de miasmas. Trabalhavam cantando e martelavam assobiando, com uma indiferença heróica, sem pensar no grande perigo que os ameaçava. Pela noite, desde o escurecer, o odor pestilento aumentava e então não havia remédio: a marinhagem toda precipitava-se para fora, como um formigueiro alvoroçado tapando o nariz: — Foge! foge! olha a febre amarela! Navio no dique, marinheiro à solta. O serviço diminuía, tinha-se mais liberdade, podia-se folgar à vontade, porque o campo era largo, o convés estendia-se pela ilha até certa distância. Dali para terra era um pulo, não faltavam botes de ganho; breus em quantidade atracavam próximo ao dique: vivia-se como em qualquer parte. De vez em quando: “Seu tenente dá licença que eu visite um amigo no hospital? — Vá, mas não demore...” O hospital ficava no topo da ilha, numa eminência que dava acesso por uma estrada em ziguezague. Todas as tardes passavam marinheiros naquela direção, subindo lentamente aos quatro, em procissões: iam visitar os companheiros, ou eram baixas que vinham da esquadra. Bom-Crioulo agora multiplicava os passeios à terra. Assíduo no trabalho, nunca se negando a fazer o que lhe ordenavam, cumprindo suas obrigações com a mesma paciência de outrora, quando o futuro lhe sorria esperanças de vida melhor, reabilitavase a olhos vistos de umas tantas falcatruas que cometera em viagem. O imediato fazia - lhe concessões prevenindo-o que “tomasse cuidado, não fosse beber demasiadamente”. Todo marinheiro trabalhador e disciplinado tinha nele um amigo, um verdadeiro pai: a questão era andar direitinho, “portar-se como gente”. E Bom-Crioulo compreendendo isso, fazia o possível para o não descontentar, trabalhando sempre que havia serviço, de cara alegre, sem constrangimento, na certeza de ir à terra. Um dia sim outro não ei-lo no seu quarto da Rua da Misericórdia, todo entregue ao descanso, livre, completamente livre de incômodos e obrigações. Não esquecia de beber seu golito de “conhaque brasileiro”, mas sabia se conter evitando excessos. De resto, era tão calma sua vida, corria-lhe a existência tão doce, tão suave, que ele até estranhava. Ultimamente começou a achar-se magro, sentindo mesmo uns longe de fraqueza no peito. Quando trabalhava muito ou fazia qualquer esforço, vinha-lhe uma sonolência profunda, uma vontade de estirar o corpo na cama fresca e macia, um relaxamento dos nervos... Os próprios companheiros notavam certa mudança em sua fisionomia: — Estás magro, ó Bom-Crioulo, que diabo é isso? — Eu, magro?... e passava a mão no rosto examinando-se. Estarei doente? — Alguma crioula, hein? — Qual crioula! Um dia consultou ao grumete: — Achas que estou emagrecendo? Aleixo também foi de parecer que sim, mas “era pouca cousa”. Bom-Crioulo não se importou: foi continuando a viver tranqüilamente, ora a bordo, ora em terra, numa grande paz de espírito, vendo crescer a seu lado o Aleixo, assistindo-lhe o desenvolvimento prematuro de certos órgãos, o desabrochar da segunda idade, como quem estuda a evolução de uma flor curiosa. Sua amizade ao grumete já não era lúbrica e ardente: mudara-se num sentimento calmo, numa afeição comum, sem estos febris nem zelo de amante apaixonado. Quase um ano de convivência fora bastante para que ele se identificasse absolutamente com o grumete, para que o ficasse conhecendo, e a convicção de que Aleixo não o traía, entregando-se à fúria selvagem de qualquer marmanjo, a certeza de que era respeitado, a certeza que era respeitado pelo outro, comunicava-lhe essa tranqüilidade confiante de marido feliz, de capitalista zeloso que traz o dinheiro guardado inviolavelmente. Decorreu quase um ano sem que o fio tenaz dessa amizade misteriosa, cultivada no alto da Rua da Misericórdia, sofresse o mais leve abalo. Os dois marinheiros viviam um para o outro: completavam-se. — Vocês acabam tendo filhos, gracejava D. Carolina. Nunca vira dois homens gostarem-se tanto! Bom-Crioulo não era tolo nem nada... Tolo era quem se fiasse nele... E o negro sorria orgulhoso, com seus dentes de marfim, meio aguçados, como presas de tubarão. A corveta saíra do dique, indo amarrar numa bóia por trás do morro de S. Bento com fronte ao Arsenal. Em todo caso sempre era mais perto de terra que no poço, no ancoradouro dos navios de guerra, onde a gente não tinha liberdade. Mas Bom-Crioulo um dia foi surpreendido com a notícia de que estava nomeado para servir noutro navio — um de aço, muito conhecido pelo seu maquinismo complicado e pela sua formidável artilharia; belo conjunto de forças navais, que fazia desse couraçado uma dos mais poderosos do mundo. Bom-Crioulo desapontou: —... que os pariu! Nem se tinha tempo de conhecer bem os navios: hoje num, amanhã noutro... Até parecia brincadeira!” E furiosos, amarrando o saco de lona, trombudo: — Por isso é que um marinheiro fica relaxado: por isso... Enquanto os outros passavam e tornavam a passar de popa à proa, tranqüilos, no seu descanso, ele, somente porque era uma boa praça, lá ia para o couraçado — aquele diabo de ferro, aquele monstro, sem o Aleixo, sem o seu Aleixo... Vivera tantos meses ali a bordo da corveta mais o pequeno e agora, de repente, sem quê nem para quê: — Passe... Era mesmo uma perversidade! Mas, Deus é grande! pensava Bom-Crioulo . Deus sabe o que faz: a gente não tinha remédio senão obedecer calada, porque marinheiro e negro cativo, afinal de contas, vem a ser a mesma cousa. Aleixo consolava-se, resignado: paciência, homem, o mundo não se acabava. Sempre haviam de se ver, que diabo! Para isso é que tinham alugado quarto. Um dia sim outro não podiam se encontrar do mesmo modo em terra... — Agora vê lá se vais fazer alguma... preveniu o negro. Renasciam-lhe os zelos; aquela separação brusca e inesperada irritava-o, acordando no fundo de sua alma um egoísmo exacerbado, uma desconfiança vaga no futuro. — É verdade que o grumete já não era uma criança para se deixar iludir, mas, meu amigo, podia o rapaz se entusiasmar por algum oficialzinho bonito, e, adeus, Bom- Crioulo!... Com o espírito cheio de apreensões, o olhar triste e a face carrancuda, estreitou ao peito seu querido Aleixo, e, sem proferir palavra, mudo na sua tristeza, como um preso que deixa uma prisão para entrar noutra, viu desaparecerem os mastros da corveta e a sombra do grumete que lhe acenava ao longe, na penumbra crepuscular, vaga e nebulosa, como a própria saudade. O couraçado lá estava encoberto pela ilha, muito grande e solene, com o seu belo aspecto de casamata flutuante, aproado à maré, respeitável e glorioso. — Rema força, que é tarde. E a pequena embarcação, impelida vigorosamente, ia deixando atrás, sem o saber, a alma de Bom-Crioulo, terna e dolente... 6 No dia seguinte Aleixo encontrou fechada a porta do quarto. — Oh! Bom-Crioulo não tinha ido à terra, como prometera. — Exigências do serviço, pensou. No couraçado a disciplina era outra; o imediato, homem feroz, só falava de chibata e golilha. Estava muito satisfeito na sua corveta assim mesmo velha e triste... Abriu a janela para entrar luz e começou a se despir, trauteando qualquer coisa, o olhar perdido lá fora no ar imóvel, no azul coruscante... O calor abrasava. Nenhuma aragem sequer. O sol das duas horas caía obliquamente, pondo reflexos de ouro sobre os telhados, vitorioso e torrencial, pulverizando crisólitos de brilho raro ao longe nas vidraçarias... Uma opulência de luz nunca vista! Aleixo despiu-se, pela primeira vez acendeu um cigarro, deitando-se à larga na velha cama de lona. — Passa ! Que forno!... Queria descansar um bocado, esperar Bom-Crioulo té às cinco horas, dormir uma soneca. Saíra de bordo muito cedo porque ajustara com o negro, e agora não tinha remédio senão esperar naquela pasmaceira, naquele calor. Enfim, como fizera quarto a noite passada, ia ver se conseguia dormir... Não chegou ao fim do cigarro, um detestável mata-ratos que Bom-Crioulo esquecera sobre a mesinha, e que abriu-se de todo em sua mão desajeitada. — Não sabia que diabo de gosto o dos fumantes. Qual! decididamente não se acostumava com o fumo. Vinha-lhe logo a dor de cabeça... Pôs-se a olhar o teto, as paredes, um retrato do imperador, já muito apagado, que viera na primeira página de um jornal ilustrado, preso em caixilhos de bambu, um cromo de desfolhar, examinando com atenção o pequeno aposento, os móveis — a mesa e duas cadeiras —, como se estivesse num museu de cousas raras. Adormeceu justamente quando soaram duas horas no relógio de D. Carolina, embaixo, no primeiro andar. Acordou indisposto, sobressaltado, num banho de suor, a língua seca — torcendo-se em espreguiçamentos de quem dormiu toda uma noite. O sol abrandara um pouco e já havia nuvens no alto, quebrando a monotonia do azul. — Nada; com certeza Bom-Crioulo não vinha mais, pensou o grumete. Diabo de insipidez! De resto, o negro não lhe fazia muita falta: estimava-o, é verdade, mas aquilo não era sangria desatada que não acabasse nunca... Essa idéia penetrou-o com uma lembrança feliz, como um fluido esquisito que lhe inoculassem no sangue. — Podia encontrar algum homem de posição, de dinheiro: já agora estava acostumado “àquilo”... O próprio Bom-Crioulo disseram que não se reparavam essas cousas no Rio de Janeiro. Sim, que podia ele esperar de Bom-Crioulo? Nada, e, no entanto, estava sacrificando a saúde, o corpo, a mocidade... Ora, não valia a pena! Saltou da cama e foi se vestindo devagar, assobiando baixinho, dominado por aquela idéia. — Estava aborrecido, muito aborrecido; precisava mudar de vida... — Dá licença? — Oh! madama... Era a portuguesa: ainda não tinha visto o “seu bonitinho”, dera-lhe uma saudade... — Bom-Crioulo não veio hoje? Não , não tinha vindo. E Aleixo contou a paisagem do negro para o couraçado, o desgosto de Bom-Crioulo, a vida de trabalho que o outro ia levar... — Coitado! lamentou D. Carolina. Mas há de vir à terra... — Sim, por que não? Sempre há de vir. Não será tanto como na corveta... — Coitado!... — Tem aí uma cadeira, ofereceu Aleixo. Por que não se senta? — Que calor, hein? tornou a mulher sentando-se. Temos chuva. E logo, muito curiosa: — Vai sair? — Vou dar uma volta, passei o dia tão aborrecido... — Que falta, o negro, hein? acentuou a portuguesa sublinhando um risinho, abanando-se com o avental. Tinha-se sentado, muito vermelha, o casaco arregaçado, os pés nus dentro de uns tamancos de pano com que batia a roupa no quintal. — Não, disse Aleixo, com um desdém na voz. Aquilo já está me aborrecendo... — Oh! Já?... Muito cedo, homem. E fraternalmente: — Pois é uma boa criatura, coitado. Eu, às vezes, tenho-lhe pena. — É porque madama não sabe quem está ali... Muito bom, mas quando se zanga, Jesus! chega a meter medo... — Assim? — Ora!... — Pois, meu filho, se eu lhe disser que nunca vi Bom-Crioulo zangado... — Uma fera! Aleixo estava defronte do espelho acabando a toilette. O cabelo cheio d’óleo, escorrido e liso, tinha um brilho fugaz de seda preta. Abria-o de um lado, puxando em pasta sobre a calote esquerda, até quase a sobrancelha. Era uma de suas grandes preocupações — o cabelo bem penteado, úmido sempre. Que trabalho para lhe dar jeito! Desmanchava-o um sem número de vezes, tornava a acertá-lo, e, afinal, depois de repetidas tentativas, punha o boné devagar, jeitosamente. — Pronto! fez ele dando a última demão. — Gosto de ver um marinheiro assim, elogiou a mulher, erguendo-se para endireitar a gola do grumete, que estava dobrada. Ninguém me venha falar em homem porco. E colocando-se diante de Aleixo, os braços em arco e as mãos nos quadris: — Está mesmo d’encantar, o diabinho! Vai daqui namorar alguma biraia no Largo do Rocio, aposto! O efebo soltou uma risada muito sem gosto, olhando-se ainda uma vez no espelho. — Qual o quê, madama! Vou daqui ao Passeio Público; às nove horas, o mais tardar, cá estou de volta. — E não me convida? — Quer ir, vamos... — Não, obrigada; bom proveito e volte direitinho, é o que eu quero... Foram saindo. — Mas, olhe, tornou D. Carolina com resolução, no alto da escada. Preciso lhe falar: volte cedo. — Por que não diz agora? — Não, não: quando voltar; prefiro conversar à vontade. — Pois sim... é um instante. Até logo! — Té loguinho. E alto, de cima da escada, enquanto o grumete desaparecia no corredor: — Cuidado hein?! Estaca escurecendo: seriam seis e pouco. Na rua já havia luz. Continuava o calor, um ar abafadiço, de subterrâneo, sem oxigênio, pesado e asfixiante. A portuguesa desceu a escadinha do sótão, que estalava com o seu peso, e foi acender o gás da sala de jantar, muito alegre, cantando uma modinha sentimental lá da terra, numa voz lânguida e tremida. Há dias metera-se-lhe na cabeça uma extravagância: conquistar o Aleixo, o bonitinho, toma-lo para si, tê-lo como amantezinho do seu coração avelhentado e gasto, amigar-se com ele secretamente, dando-lhe tudo quanto fosse preciso: roupa, calçados, almoço e jantar nos dias de folga — dando-lhe tudo enfim. Era uma esquisitice como qualquer outra: estava cansada de aturar marmanjos. Queria agora experimentar um meninote, um criançola sem barba, que lhe fizesse todas as vontades. Nenhum melhor que Aleixo, cuja beleza impressionara-a desde a primeira vez que se tinham visto. Aleixo estava mesmo a calhar: bonito, forte, virgem talvez... Arranjava-se perfeitamente, sem que Bom-Crioulo soubesse. Mas como falar ao grumete, como propor -lhe o negócio? Ele talvez ficasse ofendido, e podia haver um escândalo... O verdadeiro era pouco a pouco ir lhe dando a compreender que o estimava muito, oferecendo-se-lhe pouco a pouco, excitando-o. Outras mais velhas gabavam-se, por que é que ela, com os seus trinta e oito anos, não tinha o direito de gozar? Histórias! mulher sempre é mulher e homem sempre é homem. Viu-se ao espelho e notou que realmente ainda “prestava serviço”: — Qual velha! Nem um pé-de-galinha sequer, nem uma ruga — pois isso era ser velha? Certo que não. Lá quanto à idade ninguém queria saber. A questão era de cara e corpo... Ora, adeus!... Começou a fazer-se muito meiga para o rapazinho, guardando-lhe doces, guloseimas, passando a ferro, ela própria, seus lenços, gabando-se na presença de estranhos, fingindo-se distraída quando queria mostrar-lhe a exuberância de suas carnes — perna, braço ou seios... Uma ocasião Aleixo vira-a em camisa curta, deitada, com as pernas de fora; porque os aposentos da portuguesa davam para o corredor e, nesse dia, ela esquecera de fechar a porta. O grumete voltou o rosto depressa, todo cheio de respeito, como se aquilo fosse uma profanação: mas, depois, ao lembrar-se do caso, tinha sempre uns arrepios voluptuosos, não podia evitar certa quebreira, certo desfalecimento acompanhado de ereção nervosa... Nunca mais lhe saíra da lembrança aquela cena de alcova: uma mulher deitada com as pernas à mostra, muito gordas e penugentas — num desalinho irresistível, braços nus, cabelo solto. — Devia de ser esplêndido a gente dormir nos braços de uma mulher. A portuguesa não era mazinha. Aleixo, porém, estava longe de supor que D. Carolina, aquela D. Carolina, que o tratava como filho, bondosa e meiga, pretendesse fazê-lo seu amante. Semelhante idéia nunca lhe passara pela imaginação. Via entrar homens no quarto dela, sabia os amores do açougueiro, mas isso era lá com os outros de barba; o que lhe parecia impossível, e ele nem sequer pensava, é que D. Carolina tivesse intenções com um rapazinho de sua idade, uma criança quase... — Pronto! fez ele ao voltar do Passeio Público. — Oh! depressa! exclamou a portuguesa, erguendo-se. Venha cá, no meu quarto está mais fresco... O quarto de D. Carolina ficava justamente por baixo do sótão, na frente da casa, um largo aposento de mulher solteira, onde havia uma bela cama de casal com travesseiros de renda. Quando o grumete chegou, ela estava na sala de jantar lendo os anúncios do Jornal do Comércio, à luz do gás. — Divertiu-se muito? — Qual! Fui e voltei logo. — Por minha causa? — Não, o Passeio é que estava insípido... Pouca gente. Aleixo parou à porta do quarto como quem receia entrar. — Entra, filhinho, entra, que isto aqui é nosso, isto aqui é da tua portuguesinha, não vês? E, alegre como nunca, foi abrindo as janelas que diziam para a Rua da Misericórdia, num alvoroço. Enquanto o pequeno andava fora, ela fizera nova toilette, penteara-se, mudara a roupa, trocara os tamancos por umas sapatinhas cor de sangue e colocara os anéis, os célebres anéis que lhe tinham querido roubar: transformara-se completamente. — Senta, deixa de tolice, filho! Aleixo sentou-se muito acanhado, com um ar de colegial que pela primeira vez penetra num lugar suspeito. Morava naquela casa há um ano e só agora entrava ali, no quarto da portuguesa. — Bonita sala! Bonita o quê, ó pequeno; estás a debicar, hein? disse a mulher acendendo o gás, no bico dos pés, rindo. Bonito és tu — tu é que és bonitinho... — D. Carolina gosta de caçoar com a gente!... E a portuguesa, sentando-se também, alisando-lhe o cabelo com as mãos, rubra de calor: — Pois é isto, minha flor: o que eu tinha a dizer é que estou apaixonada por ti! — Ora!... — Estou falando sério; não vais dizer a Bom-Crioulo que eu lhe quero tomar o amigo... Olha que o negro é capaz de estrangular-me... — Já está D. Carolina com brincadeiras... — Não é brincadeira, não, filho, tornou a outra, afetando seriedade. Quero que durmas hoje, ao menos hoje, com a tua velha... E foi se derreando sobre os ombros de Aleixo, com uma fingida ternura de mulher nova. O pequeno desviava o olhar dos olhos dela, cheio de pudor, um sorriso fixo na boca sombreada por um buço em perspectiva, muito encolhido na sua cadeira, sem dizer palavra. O contato de sua perna com a da portuguesa produzia-lhe um calorzinho especial, um brando enleio d’alma, uma vaga e deliciosa canseira no fundo do ser, um esquisito bem-estar. Por sua vontade ficaria naquela posição eternamente, sentindo cada vez mais forte a influência magnética daquele corpo de mulher sobre os seus nervos de adolescente ainda virgem... D. Carolina chegava-se pouco a pouco, estreitando-o, colando-se-lhe num grande ímpeto de fúria lúbrica, de mulher gasta que acorda para uma sensação nova... — Tu não podes comigo, disse trançando a perna sobre o joelho do Aleixo. E envolvendo-o todo com o seu corpo largo de portuguesa rude: — Dize lá: ficas ou não ficas? O efebo teve um arranco de novilho excitado, e, segurando-se à cadeira com as mãos ambas, todo trêmulo agora, sem sangue no rosto: — Fico! Então ela, como se lhe houvessem aberto de repente uma caudal de gozo, cravou os dentes na face do grumete, numa fúria brutal, e segurando-o pelas nádegas, o olhar cintilante, o rosto congestionado, foi depô -lo na cama: — Pr’aí, meu jasmim de estufa, pr’aí! Vais conhecer uma portuguesa velha de sangue quente. Deixa a inocência pro lado, vamos!... Bateu a porta e começou a se despir a toda pressa, diante de Aleixo, enquanto ele deixava-se estar imóvel, muito admirado para essa mulher-homem que o queria deflorar ali assim, torpemente como um animal. — Anda, meu tolinho, despe-te também: aprende com tua velha... Anda, que eu estou que nem uma brasa!... Aleixo não tinha tempo de coordenar idéias. D. Carolina o absorvia, transfigurando–se a seus olhos. Ela, de ordinário tão meiga, tão comedida, tão escrupulosa mesmo, aparecia-lhe como um animal formidável, cheio de sensualidade, como uma vaca do campo extraordinariamente excitada, que se atira ao macho antes que ele prepare o bote... Era incrível aquilo! A mulher só faltava urrar. E a sua admiração cresceu ainda mais quando ela, sacando fora a camisa ensopada de suor, caiu nua no leito, arquejante, segurando os seios moles, com um estranho fulgor no olhar de basilisco. Mas Aleixo sabia, por Bom-Crioulo, até onde chega a animalidade humana, e, passando o primeiro momento de surpresa, sentiu que também era feito de carne e osso, como o negro e D. Carolina: — Valia a pena decerto uma noite como aquela! Acordou cedinho, pela madrugada. Queria ir para bordo no escaler das compras. A portuguesa ergue-se, fez café ali mesmo no quarto, sem despertar ninguém, jubilosa como uma noiva, exultando! Graças a Deus estava muito conservadinha, não era tão velha como se pensava. Ainda tinha forças para inutilizar muito homem robusto, olá se tinha! — E agora já sabes, meu pequerrucho: quando o negro não vier à terra — um abracinho à Carola. D’hoje em diante quero que me chames Carola, ouviste? É mais bonito, entre pessoas que se estimam... Carola e Bonitinho é como nos devemos tratar. Vinha amanhecendo quando o grumete, ainda bêbedo de sono, os olhos apertados, o passo leve, saiu direto ao Cais dos Mineiros. Estava muito pálido, com grandes olheiras, repetia maquinalmente: — Se Bom-Crioulo soubesse!... ao mesmo tempo que seu espírito voltava-se todo para o sobradinho da Rua da Misericórdia, onde aquela hora D. Carolina encharcava-se num magnífico banho frio de chuveiro. — Se fosse possível não me encontrar mais, nunca mais, com aquele negro, ah! que felicidade! pensava o grumete aproximando-se de um grupo de marinheiros, perto do cais. E a figura da portuguesa, muito gorda e risonha, os dentes muito alvos, os quadris largos, a face rubra, dançava em sua imaginação, como um sonho diabólico. 7 Bom-Crioulo não estava satisfeito no couraçado, naquela formidável prisão de aço, que lhe consumia o tempo, e cuja disciplina — um horror de trabalho — privava-o de ir à terra hoje sim, amanhã não, como nos outros navios, Ah! mil vezes a corveta. mil vezes! Ao menos tinha-se liberdade. Separado agora de Aleixo, vivendo no meio de toda gente desconhecida e sem amor, lembrava-se, com tristeza, da bela vida que passara em companhia do grumete: um ano quase de sossego e felicidade!... Era bem certo o ditado: não há bem que sempre dure... Enchia-se ódio contra os superiores: — Uma cáfila! Todos a mesma cousa; faziam do pobre marinheiro um burro... Ninguém os entendia. — Revoltava-se principalmente contra o Quartel-General que o mandara passar da corveta para o couraçado. Não lhe custava nada ir ao ministro, contar uma história muito grande e pedir, inda que fosse de joelhos, outro embarque. Se duvidasse muito, baixava ao hospital, desertava, ia-se embora pelo mundo com o pequeno. Estavam enganadinhos! Bom-Crioulo tinha sangue nas guelras e era homem para viver só num deserto...: “—... que os pariu!...” Logo no primeiro dia teve o desgosto de ficar à bordo: seu nome fora recomendado ao imediato em bilhete especial: —“Muita cautela com o Amaro (Bom- Crioulo). É uma praça irrepreensível quando não bebe, mas em chupando seu copito, guarda debaixo! faz um salseiro dos diabos”. Houve logo prevenção entre os oficiais. — Era bom não o deixar ir à terra muitas vezes. Um homem daquele até metia medo! E ficou assentado que ele só teria licença um vez por mês. Passou o primeiro dia, o segundo, o terceiro. O quarto era um sábado. — Seu imediato, eu precisava ir à terra, implorou o negro perfilado, a mão em pala no boné. — Ainda não, resmungou o oficial, sem prestar-lhe atenção. Quando chegar sua vez eu direi. — Mas seu imediato... — Já lhe disse, não me amole! Bom-Crioulo retirou-se calado, o olhar no convés, mordiscando o beiço. Ia cheio de uma cólera muda. jurando vingança talvez... — Ah! era assim? calculava ele depois, na proa. Havia de mostrar... E no dia seguinte pela manhã ofereceu-se ao guardião para remar no escaler que ia às compras. Embarcou, sem dar à perceber cálculo algum, e lá foi remando na voga, o boné carregado pra frente, muito sério, teso na sua bancada. O domingo amanhecia esplêndido e preguiçoso numa soberba ostentação de azul, fresco e transparente. As montanhas da baía, o Pão d’Áçucar, os Órgãos, e, lá longe, o Corcovado, sem um floco de nuvem no topo, desenhava-se na eteral limpidez do ar calmo, davam à vista uma doce impressão de aquarela. Bela manhã para um bródio sobre a água. O vulto de um paquete alemão ia saindo barra fora, impassível e misterioso... O mastro do Castelo fazia sinais. Os navios de guerra pareciam dormitar ainda silencioso e imóveis. Era quase dia... — Leva! manobrou o patrão do escaler. Tinham chegado ao cais. Os marinheiros, todos a um tempo, suspenderam os remos, arriando-os logo, com um movimento igual, dentro da embarcação. Daí ao mercado era perto. Começaram a atracar os escaleres doutros navios. Pouco a pouco ia clareando... A praça, entretanto, permanecia quase deserta ainda; um ou outro galego, homem de ganho, vagava em torno dos quiosques. Bom-Crioulo desembarcou, a pretexto de “fazer uma necessidade”, prometendo voltar logo. — Era um pulo... Enfiou pelo jardim que decorava o largo, e, uma vez fora da vista dos companheiros, estugou o passo em direção à Rua da Misericórdia, resmungando insultos que ninguém ouvia. A porta do sobradinho estava fechada. Bateu. D. Carolina ressonava. Tornou a bater, impaciente, dando fortes punhadas na porta. O caixeiro da padaria defronte, veio espiar quem é que batia com todo aquele desespero. — Quem havia de ser? Um negro!... Afinal vieram abrir: um senhor de longas barbas, obeso, em suspensórios, com cara de réu, e que se afastou para deixar passar o marinheiro. — Bom dia! — Bom dia! correspondeu o barbaças. — Quem é? perguntou lá de cima a voz abafada da portuguesa. — Sou eu, D. Carolina; desculpe a maçada. — Ah! é o Bom-Crioulo? Que maçada o quê! Por aqui tão cedo? Ninguém o vê mais!... A chave está no prego!... — Obrigado... E com pouco Bom-Crioulo escancarava a janelinha do quarto, recebendo em cheio, no rosto, a frescura matinal: — Agora queria ver se o arrancavam dali. Uma ova! Estava em sua casa, muito bem escondido. Não era nenhum burro de carga!... Veio-lhe à mente o grumete: — Aleixo ainda se lembraria dele? Sim, porque neste mundo a gente vive enganada... Quanto mais se estima uma pessoa, mais essa pessoa trata com desprezo. E afinal, ele, Bom-Crioulo , não caíra do céu... Abriu as gavetinhas da mesa, revistou móveis, remexeu papéis, como quem procura um objeto, examinou a cama, farejando, tateando... O vidro de óleo não estava na cantoneira e tinha sofrido uma limpa; a garrafa d’água Florida, que ele deixara pelo gargalo, quando muito podia ter seis dedos...; a latinha de graxa imobilizava-se no chão, de borco, ao pé do lavatório de ferro; o assoalho era uma imundície de pontas de cigarro e cuspo. — Eu faço idéia! ... murmurou Bom-Crioulo interpretando aquela desordem habitual. Eu faço idéia!... Nesse instante o carrilhão de S. José começou a bimbalhar os “Sinos de Corneville”, enchendo o espaço de uma alacridade sonora e festiva que multiplicava-se em notas de uma limpidez offenbachiana, como se fosse um maravilhoso instrumento de cristal suspenso nos ares... Instintivamente o marinheiro cantarolou o velho trecho da opereta: Dlingo, dlingo, dlingo, Dlingo, dlingo, dlão! No fundo estava alegre, sentia-se humorado, com ímpetos de criança brejeira, como um pássaro solto... Estranhava-se até! Há muito não amanhecia tão bem disposto... O retrato do imperador sorria-lhe meigo, com a sua barba de patriarca indulgente. Era o seu homem. Diziam mal dele, os tais “republicanos”, porque o velho tinha sentimento e gostava do povo... Acendeu um cigarro e deitou-se. — Ah! isso era outra cousa! não lhe fossem falar em navios de guerra: preferia sua cama, seu bem estar, seu descanso. Pela janela entrava agora uma réstia de sol, e o carrilhão continuava o seu interminável estribilho musical... Dlingo, dlingo, dlingo, Dlingo, dlingo, dlão! — Bom-Crioulo, ó Bom-Crioulo! — Anh!... Que é? — Acorda rapaz, olha que não tarda meio-dia. — Meio-dia? — Sim, pois não vês o sol como vai alto? D. Carolina, vendo que o marinheiro estava custando a descer, foi acordá-lo. Amaro dormia profundamente, com a boca aberta, estendido na cama, o boné sobre os olhos, um fio de baba escorrendo pelo queixo, imóvel... Pendiam-lhe os braços numa frouxidão cadavérica. A mulher, ao entrar no quarto recuou pálida. — Jesus! estaria morto? O negro, porém, ressonava alto. — Que susto. Aproximou-se timidamente para o não sobressaltar e, quando ele abriu os olhos, viu-a, diante de si, muito gorda e risonha, toda em roupa nova, um avental branco. — Acorde, seu preguiçoso! fez ela dando uma palmada na coxa do negro. Vamos, levante-se, que isto não são horas de dormir. Bom-Crioulo ergueu-se vagarosamente, limpando a saliva com a manga, perguntou pelas horas, o corpo mole, os olhos vermelhos, um sabor esquisito na boca. — Então que foi isso hoje? perguntou a portuguesa... — Eu que fugi, disse o marinheiro naturalmente, abrindo os braços num bocejo. Vim no escaler das compras e aqui estou sem licença. — Que loucura, filho! São capazes de mandar-te prender... —... que os pariu! Não sou escravo de ninguém. Fujo quantas vezes quiser; ninguém me proíbe... — Modera-te, rapaz. É preciso ir com jeito... — Qual jeito qual nada, minha senhora! Depois que estou naquele navio ainda não tive descanso. Isso também é demais! — Ora, meu filho, paciência. Deus há de ajudar... — É a tal história: fia-te na Virgem e não corras... — Vocês lá se entendem, rematou a portuguesa, fitando o retrato do imperador, como se nunca o tivesse visto. — Uma cousa, tornou Bom-Crioulo: o Aleixo tem vindo à terra? — Veio quinta feira, se não me engano... E o outro contando os dedos: — Quinta, sexta, sábado, domingo: ontem era dia dele vir... — Agora vocês vivem sempre desencontrados. Não combinam... — Vamos a saber, disse a mulher. Queres comer alguma cousa, ou já almoçaste? — Nada, vou petiscar ali no frege. — Manda-se comprar... — Não, obrigado, preciso mesmo dar uma volta, esticar as pernas, fazer exercício. — Cuidado! Olha algum oficial... E dirigindo-se para a escadinha: — Bom, vim apenas te acordar. Até logo. — Té logo, madama. Então o pequeno só veio uma vez, hein? — Uma vezinha, coitado... E o negro ficou pensando no grumete, sentado à mesa, de crista caída, esgravatando maquinalmente a unha com um fósforo — “Aquilo” não ia bem... Precisava tomar uma resolução: abandonar o Aleixo, acabar de uma vez, meter-se a bordo, ou então amigar-se aí com uma rapariga de sua cor e viver tranqüilo. Estava emagrecendo à toa, não comia, não tinha descanso, em termos de adoecer, de apanhar uma moléstia, por causa do “senhor Aleixo”. Se ao menos pudesse vê-lo todos os dias, como na corveta...; mas assim, longe um do outro? Não valia a pena, era cair no desfrute... E, tomando o boné, com uma expressão de aborrecimento: — Ora, adeus! havia de se resolver hoje ou amanhã; Bateu a porta, deu volta à chave, e saiu por ali fora, palpando os bolsos. com desespero. D. Carolina estava para dentro e lá ficou estendendo uma roupinha no coradouro. Faiscavam as pedras da rua sob a luz perpendicular do meio-dia. Na taverna da esquina, ali perto, havia uma aglomeração de gente e cada transeunte que passava era mais uma curioso, um basbaque. Os moradores debruçavam-se às janelas, esticando o pescoço com uma interrogação no olhar. Um oficial de bombeiros passou correndo para o lugar do “acontecimento”. Gente punha-se em pé nos bondes. O padeiro, em mangas de camisa, chegou à porta, com um lápis atrás da orelha, arrastando os chinelos. Bom-Crioulo supôs logo que fosse algum “rolo” e precipitou-se, abrindo caminho. Era um sujeito acometido de gota, que se espojava no chão, babando, o rosto ensangüentado, a barba suja de areia, em contorções horrorosas. Caíra de repente, ao sair da venda. — Tinha bebido muita cachaça, dizia penalizado o taverneiro. Se soubesse, não teria vendido... Dois guardas tentaram erguer o homem pelo torso, mas fraquejaram. — Passa fora, o animal pesava que nem chumbo! — Espera, espera! saltou Bom-Crioulo. Vocês também não prestam pra nada... O povo recuou, admirado, e viu o negro suspender o homem com as duas mãos e levá-lo ao ombro à Santa Casa de Misericórdia, sem grande esforço, como se pegasse uma criança. Fez-lhe pena ver aquele pobre homem caído ali assim, no meio da rua, cercado de gente, estrebuchando como um animal sem dono. Aquilo apertou-lhe o coração, fê-lo estremecer, comoveu-o... Talvez fosse algum pai de família, coitado, algum infeliz... Um horror, a tal gota! já noutra ocasião salvara uma mulher bêbeda que ia sendo pisada por um bonde. E o português da venda, o padeiro, os guardas, um doutor que passava casualmente, o dono do açougue, todos gabavam o pulso do negro. “— Sim senhor, tinha força para desancar um burro! — Essa gente do mar é uma gente perigosa! — Dois guardas não puderam com o homem, no entanto só o negro fez tudo! — A marinha sempre é a marinha...” Um soldado, que estava presente, ergueu o seu protesto: — Não senhor, não era tanto assim. Cá e lá más fadas há... No exército também se encontravam homens de pulso, assim como na armada havia gente fraca, rapazinhos de papelão... Ninguém disse mais uma palavra, e pouco a pouco o ajuntamento reduziu-se a duas ou três pessoas que ficaram por ali conversando. Bom-Crioulo voltou imediatamente no seu passo largo, sacudindo os braços, o boné derreado como de costume, a face radiante. — Na verdade o homem pesava seu bocadinho, mas era uma vergonha dois guardas não poderem com ele. Olhe que eram dois guardas! E, dirigindo-se ao vendeiro: — Uma terça, faz favor... O português, muito amável, sem despregar os olhos do marinheiro, encheu a medida. — Sim, era uma vergonha para o Brasil, murmurou sorrindo. Em Portugal... Bom-Crioulo tossiu, escarrou, e escorropichando o copo: — Puah!... fez com repugnância. — Arre, diabo, que isto é mesmo que beber fogo! Desatou a ponta do lenço, onde costumava trazer o cobre — um triste lenço enxovalhado, com desenhos na margem. — São os últimos vinténs; resto do soldinho, do miserável soldinho... Felizmente eu não me aperto enquanto existir uma portuguesa chamada Carolina... O bodegueiro piscou o olho: — Ahn, ahn!... Como era fino, hein?... — Que quer, meu amigo, faz-se pela vida... Tinha a cabeça muito fraca, muito leve: um gole de aguardente. uma dose insignificante de líquido espirituoso, um martelo de vinho punha-lhe os olhos em brasa, desequilibrava-o, subindo logo ao cérebro. E, quando bebia demais, em pândega, lá uma vez ou outra — santo Deus! ninguém podia com ele: redobrava de força, não conhecia os amigos, insultava a humanidade, ameaçando, brandindo o punho fechado, carregando o boné, gingando o corpo — medonho, terrível! Nesse dia como que Bom-Crioulo resolvera se embriagar propositalmente. Pouco depois de engolir a cachaça, meio tonto, empinando-se para não demonstrar fraqueza, mas com a vista caliginosa e um azedume na língua, retirou-se da venda sem rumo certo, para os lados do cais do Pharoux. Ia triste, zarolho, vendo casas em duplicata e rodando em torno de sua cabeça, encostando-se à parede, monologando cousas imperceptíveis, transfigurado já. Confundiam-se-lhe as idéias numa turva agitação de quem vai perder o juízo; os objetos começavam a parecer-lhe sombrios, tinha vontade de cometer loucuras, de se sentar no meio da rua e abrir a boca e dizer horrores como um alienado. — Eu daqui vou direitinho, mas é para bordo, murmurava. Hei de mostrar à canalha! Vou porque quero, porque sou livre! E batia com força no peito. — ... que os pariu! Salvei o homem da gota, fiz um ato de caridade, agora podem falar! Papagaio de noite não tem olho, como dizia meu comandante... já não me lembra o nome... Eram duas horas da tarde. As lojas tinham-se fechado: os armazéns de madeira, todas as casas de negócio, com exceção de raríssimos cafés, estavam trancadas àquela hora dominical. Poucos transeuntes iam passando vagarosamente, ao sol, numa marcha lenta de gado que recolhe à tardinha, calados, pensando na vida... Bom-Crioulo desceu rua abaixo, cambaleando, ziguezagueando, sem prestar atenção à ninguém. Mas, ao desembocar no Largo do Paço, um cachorro vadio começou a ladrar, atirando-se a ele, perseguindo-o, cercando-o. Outros cães vieram se juntar ao primeiro e fez-se logo em torno do negro um alarido infernal, que aumentava pouco a pouco, ensurdecedor e azucrinante. Garotos açulavam a canzoada com assobios e gritos. Houve um alarma entre os galegos do cais. — Ora quem havia de ser? Quem havia de ser?... O negralhão, o marinheiro! No entanto, Bom-Crioulo caminhava sempre, aos tombos, equilibrando-se, investindo contra os cães, ameaçando-os à pedra, ganindo insultos: —... que os pariu!” Viram-no se dirigir para o cais. — Ó do escaler! gritou ele avistando uma pequena embarcação de guerra imóvel sob os remos, ao largo. Ninguém respondeu. Havia calma no mar. A água reluzia como aço polido. Abafava! Defronte, lá muito longe, em Niterói, via-se a torre branca de uma igreja, pequenina, esguia como um obelisco. Botes de ganho flutuavam silenciosamente, com o toldo aberto, amarrados uns aos outros, na lingüeta de mar, entre as estações das barcas, quietos, modorrentos... — Ó do escaler! bradou o negro. A embarcação não se movia: era como se não houvesse ninguém a bordo. Os marinheiros fingiam-se distraídos. — Cambada de burros! Atraca essa porcaria! E abriu a boca numa tremenda explosão de impropérios, fechando o punho ameaçadoramente, desenrolando todo o vocabulário imundo e obsceno das tarimbas contra os companheiros, berrando em alta voz “que era livre, que havia de fazer, que havia de acontecer!...” — Infames! Não preciso de vocês pra nada! Pra nada! Mas, ao voltar, deu de ombros com um português, que estava a seu lado rindo tranqüilamente, segurando um remo. — E você também, seu galego; você está se rindo, porque ainda não apanhou nessa lata! fez Bom-Crioulo dando um empurrão no homem. O português carregou o rosto, medindo o negro d’alto a baixo, sem dizer palavra. — E não tem que olhar não, não! Se dúvida faço-o beber água salgada. — Vá-s’embora, homem de Deus! murmurou o outro com benevolência. Vás’embora... — O quê? — Mal vai a cousa... — O quê, seu galego, o quê? E “abotoou” o português, oferecendo-lhe o peito e sacando fora o boné. — O senhor não me provoque... — Arrebento-lhe a cara, seu galego, aqui mesmo! O homem perdeu a calma Nos seus olhos fulgurou um clarão de raiva, o sangue tomou-lhe o rosto, o remo caiu-lhe da mão, e, investindo para o Bom-Crioulo, quis derrubá-lo corpo a corpo, naquele mesmo instante. Era sujeito baixote, rijo, de bigode fulvo, muito vermelho, com pintas de sarda. Abriu-se a luta imediatamente. O cais, todo o espaço entre as duas estações marítimas, coalhou-se de gente rumorosa, alvoraçada, que vinha de todos os ângulos da praça numa precipitação de avançada. — “Rolo! Rolo!” E, no desespero da briga, os dois homens iam ganhando terreno para o largo, afastando-se daquele ponto insustentável, onde não se podiam mover livremente, sem risco de cair n’água, abraçados, corpo a corpo, enroscados um no outro, qual mais forte — iguais na envergadura muscular. O escaler de guerra tinha se aproximado. Havia grande rebuliço nos botes: o alarma era geral no cais e imediações. — Desaparta! Desaparta! gritavam os catraieiros. Assobios, canzoada, berros: — Não pode! não pode! confundiam-se num alvoroço descomunal, reboando na praça. De repente, com um safanão medonho, Bom-Crioulo separa-se do português e rápido, ligeiro, esgueirando-se, puxa do cós um objeto: logo toda gente viu, com espanto, reluzir na mão do marinheiro o aço de uma anavalha. — É agora! disse uma voz no meios do povo. A multidão espalhou-se, recuando, abandonando o campo da luta. O clamor aumentava: — Pega! Pega! não pode! O português, com a roupa em frangalhos e o cabelo em desordem, abalou na carreira; mas o negro, vendo se aproximarem polícias, brandindo a arma furioso, ameaçou: — Quem for homem, venha! A figura do “galego” tinha desaparecido: sua cólera voltava-se agora contra o povo e contra a polícia. Ninguém ousava se aproximar daquele homem-fera, cujo olhar fazia medo... Quatro horas no relógio da estação. Daí a pouco saltou no cais um oficial da marinha. Bom-Crioulo esperou-o a pé firme: — Não venha, que leva! Era um primeiro tenente; acompanhavam-no marinheiros. — Segurem aquele homem, ordenou, parando à distância. — Não venha! Não venha! exclamou o negro, gingando com a navalha no ar. Os homens dividiram-se, três para cada lado, e marcharam impavidamente, de prancha desembainhada. Foi um momento de ansiedade e assombro. A figura colossal do negro, multiplicando-se em movimentos de requintada clownerie, torcia-se, evitando as baionetas, como se o impelisse oculta mola de arame. — Não venha! Não venha!... Mas, quando, num formidável arranco, salta à direita, um pulso mais forte “gruda-o” pela esquerda e Bom-Crioulo, o invencível Bom-Crioulo, sente-se agarrado, preso como um animal feroz! O povo todo afluiu vitorioso ao lugar do conflito, sem o receio de agressões, comentando o fato, e o marinheiro foi acompanhado à beira d’água por uma onda de curiosos. Que luta para o embarcar! O negro escabujava, mordia, no auge de um desespero hidrofóbico, insultando, rogando pragas. Afinal, lá o conduziram à viva força, e a embarcação deslizou, toda branca, na baía calma... 8 O comandante do couraçado, bela estampa de militar fidalgo, irrepreensível e caprichoso, era o mesmo, aquele mesmo de quem, na frase tosca de Bom-Crioulo, “falavam-se cousas...” Um lenda obscura e vaga levantara-se em torno do seu nome, transformando-o numa espécie de Gilles de Rais menos pavoroso que o da crônica, cheio de indiferença pelo sexo feminino, e cujo ideal genésico ele ia rebuscar na própria adolescência masculina, entre os de sua classe. Calúnia, talvez, insinuações de mau gosto. Os marinheiros narravam entre si, por noites de luar e calmaria, quando não tinham que fazer, lendas e histórias muitas vezes forjadas ali mesmo no fio da conversa... O comandante, diziam, não gostava de saias, era homem de gênio esquisito, sem entusiasmo pela mulher, preferindo viver a seu modo, lá com a sua gente, com os seus marinheiros... E havia sempre uma dissimulação respeitosa, um pigarrear malicioso, quando se falava no comandante. Fosse como fosse, ninguém o desrespeitava, todos o queriam assim mesmo cheio de mistério, com o seu belo porte de fidalgo, manso às vezes, disciplinador intransigente, modelo dos oficiais. Bom-Crioulo, porém, nunca o estimara verdadeiramente: olhava-o com certa desconfiança, não podia se acostumar àquela voz untuosa, àquele derretido aspecto protetoral que ele sabia fingir nos momentos de bom humor. Evitava-o como se evita um inimigo irreconciliável. Por quê? Ele próprio, Bom-Crioulo, ignorava. Repugnância instintiva, natural antipatia — forças opostas que se repelem... — Esse homem nasceu para me fazer mal, pensava o negro supersticiosamente. Metido em ferros no mesmo dia do “rolo”, a imagem do comandante brilhou na caligem de sua embriaguez e o perseguiu toda a noite sem trégua, sem o deixar um instante, ora terrível, ameaçadora, implacável, outras vezes, doce, meiga e complacente... Dormiu essa noite numa sepultura de ferro, espécie de jaula estreita e sem luz onde só cabia um homem. Trancado ali dentro, imóvel, porque os pés e as mãos estavam presos, adormeceu quando os outros acordavam, ao primeiro toque d’alvorada, quase dia. Durante o sono viu a figura do português inchando para ele com uma faca, desafiando-o: “Vem, negro, vem, que eu te mostro!” Era um homem reforçado, em cuja roupa havia manchas de sangue — barba longa, olhar atrevido. Iam se pegar, mas Aleixo não consentiu dizendo que a polícia vinha os prender, que não valia a pena brigar por uma cousa à toa... Então Bom-Crioulo, como gostava do pequeno, fugiu, deixando o português no meio de uma praça muito grande, cheia de arvoredos. A realidade, porém, veio despertá-lo. Eram onze horas. Tinha-se aberto a porta da solitária e, mesmo em jejum, ele ia ser castigado. Faltava o comandante para se dar princípio à solenidade. Uma onda de luz banhou a prisão iluminando o rosto do marinheiro. — Levante-se! ordenou o sargento da guarda. Bom-Crioulo não podia se mover: foi preciso que o segurassem. Apertava-lhe a boca uma mordaça de ferro. Havia no seu olhar uma indignação muda e triste. Ergueu-se trôpego, bambo, os olhos como duas tochas, uma equimose roxa na face, porque adormecera com a cabeça no joelho em posição de múmia indígena. Fezlhe bem o ar livre da manhã; a luz que se esperdiçava no espaço reanimou-o; todo ele sentiu-se vibrar; oferecia -se ao castigo, sem medo, impávido e sereno, odiando intimamente, lá no fundo de sua natureza humana, aquela gente que o cercava exultando, talvez, com a sua desgraça. Não tinha ninguém por ele — era um abandonado, um infeliz... O próprio Aleixo onde estaria? Essa lembrança o comoveu. Sim, o Aleixo era a causa de tudo... Enquanto vivera na companhia do grumete, nunca se embriagara positivamente: bebia, de longe em longe, um golezinho de cachaça para aquecer, e ficava satisfeito. Agora não, só se contentava com uma terça e gostava de repetir. — Ah! seu Aleixo, seu Aleixo!... Como da outra vez, na corveta, houve “mostra geral”, a guarnição inteira formou à ré, na tolda. O castigo foi tremendo. — Não se iluda a guarnição deste navio! perorou o comandante. Desobediência, embriaguez e pederastia são crimes de primeira ordem. Não se iludam!... E, como da outra vez, Bom-Crioulo emudeceu profundamente sob os golpes da chibata. Apanhou calado, retorcendo-se a cada golpe na dor imensa que o cortava d’alto a baixo, como se todo ele fosse uma grande chaga aberta, viva e cruenta... Morria-lhe na garganta um grunhido estertoroso e imperceptível, cheio de angústia, comprimido e seco; dilatavam-se-lhe os músculos da face em contrações galvânicas; o sangue convulsionado, rugia dentro, nas artérias, no coração, no íntimo de sua natureza física, palpitante, caudaloso, numa pletora descomunal! Ele sofria tudo com aquele orgulho selvagem de animal ferido, que se não pode vingar porque está preso, e que morre sem um gemido, com um olhar aceso de cólera impotente! Errava na luz intensa do meio dia uma tristeza vaga e universal. Lá de fora, da barra, vinha, encrespando a agia, um arzinho fresco impregnado de maresia. A cidade, em anfiteatro, cintilava entre montanhas na lânguida apatia daquela hora calmosa. O vulto do couraçado, largo e imóvel no meio da baía, com seu enorme aríete, com sua cobertura de lona, resplandecia destacado, longe dos outros navios, longe de terra, fantástico, arquitetural! À última chibatada, Bom-Crioulo rodou e caiu em cheio sobre o convés, porejando sangue. Ah! mas não havia no seu dorso uma nesga de pele que não fosse atingida pelo vime. Caiu fatalmente, quando já não lhe restava a menor energia no organismo, quando se tornara desumano o castigo e a dor sobrepujara a vontade. Só então apareceu o médico, trêmulo e nervoso, dizendo que “não era nada, que não era nada; que trouxessem o vidrinho de éter e água, um pouco d’água...” O comandante aproximou-se também, mas retirou-se logo com o seu desdenhoso aspecto de fofa nobreza: — “Não se iludam, não se iludam!” E daí a pouco largava um escaler sem flâmula, conduzindo o marinheiro para o hospital. Fica-te malvado, fica-te! exclamou Bom-Crioulo, voltando-se para o couraçado, em caminho: — Fica-te! Aleixo nesse dia estava de folga, e muito cedo, cousa de um hora, veio à terra impelido por uma grande saudade que o fazia agora escravo da portuguesa. Receava encontrar Bom-Crioulo, ter de o suportar com seus caprichos, com o seu bodum africano, com os seus ímpetos de touro, e esta lembrança entristecia-o como um arrependimento. Ficara abominando o negro, odiando-o quase, cheio de repugnância, cheio de nojo por aquele animal com formas de homem, que se dizia seu amigo unicamente para o gozar. Tinha pena dele, compadecia-se, porque, afinal, devia -lhe favores, mas não o estimava: nunca o estimara! Subiu devagar, pé ante pé, a escada do sobradinho, meticulosos, agarrando-se à parede, ouvido alerta, comprimindo a respiração. — Felizmente a porta de cima estava aberta... De vez em quando pisava em falso e os coturnos de bezerro gemiam surdamente. — Era o diabo se o Bom-Crioulo estivesse... Foi andando sempre cauteloso, té à sala de jantar. Ninguém! Enfiou pela cozinha; e, da janela que abria para o quintal, viu lá baixo, vergada sobre um montão de roupa úmida, a portuguesa em tamancos, arregaçada e sem casaco, às voltas, cantarolando. O instinto fê-la voltar-se e olhar para cima; seu primeiro movimento foi um grito de surpresa e alegria: — Oh! o pequenino, o meu pequenino! já lá vou. Espera, sim? Aleixo pediu silêncio, com o dedo na boca, e, indicando o sótão, perguntou, debruçando-se à janela, sem Bom-Crioulo estava... — Qual Bom-Crioulo! rompeu D. Carolina alto e sem mistério, estabanadamente. Qual Bom-Crioulo! Tua negra está só, meu pequenino! Já lá vou. Mas o grumete não se conteve: desceu ao quintal para examinar aquela fartura de mulher em trajos de lavadeira, que seus olhos viam extasiados. Com efeito, a portuguesa estava irresistível para um adolescente nas condições de Aleixo, bisonho em aventuras dessa ordem, e cuja virilidade apenas começava a destoucar-se. D. Carolina vestia camisa e saia curta que lhe dava pelo joelho; a cabeça estava coberta com um grande lenço de chita amarrado por baixo do pescoço. — Não venhas, meu pequeno, disse ela, percebendo as intenções de Aleixo. Olha, deixa-me acabar isto, sim? O grumete formalizou-se: — “Oh! podia acabar podia acabar...” E logo, aproximando-se: — Vim apenas vê-la de perto... — Estás caçoando, hein! estás caçoando com a tua velha... — Caçoando, não. Estou falando sério. A portuguesa desatou numa risada límpida e gostosa, de uma sonoridade vibrante, sacudindo os quadris, cabeceando histericamente: — Ora o meu pimpolho! Ora o rico pimpolhozinho! E ria, ria num desespero. Aleixo encavacou: — Está bom, vou-me embora. — Oh! não, não... Brincadeira! Se vais, fico zangada. Vê lá, hein! vê lá... E com fingida ternura, ameigando a voz: — Fica, meu bonitinho, fica, junto à tua negra... Ele sorriu vagamente e entraram a conversar como bons amigos. Estiveram ali, debaixo do telheiro de zinco, um ror de tempo — o grumete sentado à beira do tanque, perna trançada, a portuguesa muito açodada na faina de concluir a lavagem. Fora daquele pequeno espaço refrescado pela água, brilhava o sol com uma intensidade rútila e abrasadora. O capim seco do coradouro ardia, muito raso, muito desolado e outoniço. Na vizinhança, um papagaio de estima berrava estridentemente. Havia grande calma. A água da bica não cessava de cantar no tanque, escorrendo, escorrendo... Aleixo dependurou a jaqueta de flanela azul e deixou-se ficar em camisa de meia, ouvindo cantar a água, enquanto D. Carolina ia enxaguando a roupa. Falaram em Bom-Crioulo e riram à custa do negro, baixinho, à socapa. — Boa criatura! sentenciou a portuguesa com um quê de ironia. — Para o fogo! acrescentou Aleixo. Não sabiam do “rolo”. A portuguesa disse apenas que o outro saíra na véspera, depois do meio dia, e não regressara. — Naturalmente fora preso... Um relógio deu horas. — Quantas? perguntou a mulher. — Quatro, disse o grumete. — Jesus! Vou acabar, vou acabar! Fica pr’amanhã o resto. — É! Basta de trabalho, isso não vai a matar, disse Aleixo erguendo-se. E seus olhos pousavam traiçoeiramente sobre o colo nu, sobre a espádua nua de D. Carolina, cheios de desejo, ávidos de gozo. Ela, como se sentisse no próprio corpo as ferroadas daquele olhar, como se lhe experimentas e o calor vivo, a força magnética, o poder físico, material e irresistível, chegou-se ao grumete e disse-lhe ao ouvido estas palavras, que produzira, nele o efeito indizível e vago de um estremecimento nervoso: — Vamos tomar banho?... — Aqui? — Por que não? — Podem ver... — Fecha-se a porta da rua. Não tenho inquilinos agora... Aleixo não disse que sim nem que não. Espreguiçou-se todo, contorcendo-se num espasmo incompleto, sentindo um friozinho bem, extraordinariamente bom, uma comoçãozinha maravilhosa percorrer-lhe as fibras, descendo pelo espinhaço e espalhando-se por todo o organismo. A portuguesa foi depressa lá cima, ao sobrado, e voltou, sem demora, com a face radiante. Quis ela mesma despir o rapaz, tirar-lhe a camisa de meia, tirar-lhe as calças, pôlo nu a seus olhos. Bom-Crioulo já lhe havia dito que Aleixo “tinha formas de mulher”. Depois começou a se despir também... O tanque estava cheio a transbordar. Via -se-lhe o fundo claro através da água límpida e fresca. Ninguém os via naquela nudez primitiva, frente a frente — o corpo largo e mole da portuguesa em contraste com as formas ideais e rijas do efebo —, escandalosamente nus, pecadoramente bíblicos no silêncio do quintalejo ao abrigo do sol que vibrava em torno do pequeno alpendre a sua luz de ouro fulvo! O que eles fizeram, antes e depois do banho, ninguém saberá nunca. Os muros do quintal abafaram toda essa misteriosa cena de erotismo consumada ali por trás da Rua da Misericórdia num belíssimo dia de novembro. D. Carolina realizara, enfim, o seu desejo, a sua ambição de mulher gasta: possuir um amante novo, mocinho, imberbe, com uma ponta de ingenuidade a ruborizar-lhe a face, um amante quase ideal, que fosse para ela o que um animal de estima é para o seu dono — leal, sincero, dedicado até ao sacrifício. Aleixo remoçava-a como um elixir estranho, milagrosamente afrodisíaco. Sentia-se outra depois que se metera com o pequerrucho: retesavam-se-lhe os nervos, abria-se-lhe o apetite, entrava-lhe n’alma uma extraordinária alegria de noiva em plena lua-de-mel, toda ela vibrava numa festiva exuberância de vida, numa eclosão torrencial de felicidade — o corpo leve, o espírito calmo... Aleixo pertencia-lhe, enfim; era seu, completamente seu; ela o tinha agora preso como um belo pássaro que se deixasse engaiolar; tinha-lhe ensinado segredinho de amor, e ele gostara imenso, e jurara nunca mais abandoná-la, nunca mais! O grumete, por sua vez, experimentava o que experimentaria qualquer adolescente — uma tendência fatal para a portuguesa, um forte desejo de possuí-la sempre, sempre, a toda hora, uma vontade irresistível de morde-la, de cheira-la, de palpa-la num frenesi de gozo, num grande ímpeto selvagem de novilho insaciável. A tarde passou rapidamente. Depois do jantar (sopa, cozido e bananas de S. Tomé, fora o vinho fornecido pelo açougueiro) dirigiram-se à sala da frente. Aleixo quis ver o álbum de retratos; a portuguesa trouxe-lho. E sentado no velho sofá, num quase abraço — ele muito curioso, desejando saber de quem eram as fotografias, ela meio derreada, o cabelo úmido e solto, explicando minuciosamente cada figura, paisagens da Europa, trechos de Portugal e das ilhas —, esperaram a noite. Escureceu. D. Carolina foi acender o bico de gás, queixando-se do calor, “que a sua vontade era não sair d’água, viver dentro d’água, morrer n’água, flutuando...” Aleixo riu, achou graça, lembrando-se, talvez, da semelhança que havia entre a portuguesa e uma grande corveta bojuda... — Ora, dize uma cousa, ó pequerrucho, tu me queres bem mesmo ou isso é uma esquisitice, uma pândega? E risonha, sentando-se: — Mas olha, dize a verdade! Vê lá me vens com história... Ele então disse que estimava-a do fundo do coração e tornou a jurar que havia de morrer junto dela, na mesma cama — juntinho, lado a lado... — E se morreres a bordo, no mar? — Paciência, murmurou o grumete num tom de tristeza. Mas, arrependida, ela o cobriu de beijos: — Não, ele não morreria no mar. Brincadeira, brincadeira... Havia no rosto imberbe e liso do grumete uns tons fugitivos de ternura virginal, o quer que era breve e delicado, a branca melancolia de certas flores, o recolhimento ingênuo e discreto de uma educanda; e era isso justamente, esse quê indefinível, essa poesia inocente derramada no semblante de Aleixo, que provocava a portuguesa, ferindo a corda sensível do seu coração abandonado e gasto. Era uma pena, decerto, ver aquele rosto de mulher, aquelas formas de mulher, aquela estatuazinha de mármore, entregue às mãos grosseiras de um marinheiro, de um negro... Muita vez o pequeno fora seduzido, arrastado. Ela até fazia um benefício, uma obra de caridade... Aquilo com o outro, afinal, era uma grossa patifaria, uma bandalheira, um pecado, um crime! Se Aleixo havia de se desgraçar nas unhas do negro, era melhor que ela, uma mulher, o salvasse. Lucravam ambos, ele e ela... Mas Aleixo não podia esquecer Bom-Crioulo. A figura do negro acompanhava-o a toda parte, a bordo e em terra, quer ele quisesse quer não, com uma insistência de remorso. Desejava odiá-lo sinceramente, positivamente, esquecê-lo para sempre, varrêlo da imaginação como a um pensamento mau, como a uma obsessão insólita e enervante; mas, debalde! O aspecto repreensivo do marinheiro estava gravado em seu espírito indelevelmente; a cada instante lembrava-se da musculatura rija de Bom- Crioulo, de seu gênio rancoroso e vingativo, de sua natureza extraordinária — híbrido conjunto de malvadez e tolerância —, de seus arrebatamentos, de sua tendência para o crime, e tudo isso, todas essas recordações o acovardavam, punham-lhe no sangue um calafrio de terror, um vago estremecimento de medo, qualquer cousa latente e aflitiva... Suas expansões com a portuguesa eram incompletas, vibravam-lhe os lábios em sorrisos de falsário, cada vez que ela o exaltava para deprimir o outro... Todavia a noite foi como um delírio de gozo e sensualidade. D. Carolina cevou o seu hermafroditismo agudo com beijos e abraços e sucções violentas... 9 Vida triste era a de Bom-Crioulo, agora, no hospital, longe da Rua da Misericórdia e do seu único afeto, obrigado a um regimen conventual, alimentando-se parcamente, ouvindo a toda hora gemidos que lhe entravam na alma como uma salmodia agourenta, como a dorida expressão de seu próprio abandono, metido entre as paredes de uma lúgubre enfermaria — ele que amava a liberdade com um entusiasmo selvagem, e cujo ideal era viver sempre na companhia de Aleixo, do ingrato Aleixo... A figura do rapazinho, rechonchuda e nédia, esvoaçava-lhe na imaginação provocadoramente, seduzindo-o, arrastando-o para um mundo de gozos, para uma atmosfera de lubricidade, para o silêncio misterioso de uma existência devotada ao amor clandestino, ao regalo soberano da carne , a todos os delírios de uma paixão que chegava à loucura. A ausência aumentava-lhe o desespero, aquela vida triste de hospital enchia -o de aborrecimentos, era um castigo sem nome para quem, como ele, reclamava liberdade e amor — liberdade absoluta de proceder conforme o seu temperamento, amor físico por uma criatura do mesmo sexo que o seu, extraordinariamente querida como Aleixo... Nunca mais tivera notícias dele, nunca mais o vira, nunca mais haviam trocado um simples olhar... Entretanto, quê de recordações povoavam-lhe o cérebro, à noite, quando, só ele Bom-Crioulo, d’olhos abertos no escuro, fitando o teto da enfermaria, velava, ele só, ali dentro! Quê de recordações, meu Deus! Via, como se estivesse vendo na realidade, as formas do grumete, o seu olhar azul e a face branca, o quartinho morno da Rua da Misericórdia, trepado, lá cima, no sótão, à beira do telhado, a cama de lona, o retrato do imperador, pregado à parede, muito sério, com um ar de suprema bonomia, e tudo que o cercava no voluptuoso ambiente, onde vivera tantos dias de felicidade... Ficava horas e horas pensando, horas e horas mergulhado numa abstração vagarosa, num êxtase calmo, recordando, capítulo por capítulo, a história de seu amor. Daí um profundo e inexplicável desgosto, uma idiossincrasia especial feita de ciúme e de ternura dolente. Imaginava cousas de homem que perdeu o juízo: — Aleixo ainda o estimaria? Não, com certeza. Se ainda o estimasse, tê-lo-ia procurado, onde quer que ele, Bom-Crioulo, estivesse; mas Aleixo nunca mais se importara, desde o dia da separação. Quem sabe? novos amores... O negro enchia-se de ódio ao mesmo tempo que sentia aumentar dentro do coração o desejo de possuir eternamente o rapazinho. Desejava-o, sim, mas virgem de qualquer outro contato que não fosse o dele, queria-o como dantes, para si unicamente, para viver a seu lado, obediente a seus caprichos, fiel a um regimen de existência comum, serena e cheia de dedicações mútuas. Era-lhe impossível abandonar o grumete; e agora principalmente, agora é que esse amor, essa obsessão doentia redobrava com uma força prodigiosa impelindo-o para o outro, acordando zelos que pareciam estagnados, comovendo fibras que já tinham perdido antigas energias. o Bom-Crioulo da corveta, sensual e uranista, cheio de desejos inconfessáveis, perseguindo o aprendiz de marinheiro com quem fareja uma rapariga que estréia na libertinagem, o Bom-Crioulo erotômano da Rua da Misericórdia, caindo em êxtase perante um efebo nu, como um selvagem de Zanzibar diante de um ídolo sagrado pelo fetichismo africano — ressurgia milagrosamente. Ele ali se achava no hospital, abandonado e só, gemendo tristezas inconsoláveis, arrastando os farrapos de sua alma, ganindo — pobre cão sem dono — blasfêmias contra a sorte que o desligara de Aleixo, contra Deus, contra tudo! As janelas da enfermaria davam para o mar, ficavam defronte dos Órgãos, abriam para o fundo melancólico da baía. Na sala umas dez camas de ferro, colocadas em ordem, simetricamente imobilizavam-se com os seus cobertores de lã vermelha dobrados a meio e pondo uma nota viva de sangue na brancura dos lençóis. Aí, como em todos os alojamentos do hospital, predominava um cheiro erradio de desinfetantes, o vago odor característico das casas de saúde e dos necrotérios, insuportável, às vezes, como uma exalação de sepultura aberta. Os doentes, em seu uniforme branco de algodão, erguiam-se e tinham licença para recrear fora, nas dependências do estabelecimento, licença especial do médico a quem estavam entregues. Cada enfermaria tinha o seu especialista. Bom-Crioulo fora recolhido à seção dos escrofulosos, à grande sala que dizia para o mar e donde se gozava um belíssimo aspecto de natureza americana. Indiferente a tudo que não fosse o grumete, cuja lembrança infligia-lhe as maiores torturas, ninguém o vira sorrir depois que baixara ao hospital. Carrancudo, o olhar atrevido e ameaçador — fugindo à companhia dos outros, não podia esquecer, não podia apagar do espírito aquela idéia-pesadelo: o grumete nos braços doutro homem... Ah! bastava isso para tirar-lhe o sossego, para fazer dele um ente miserável, contorcendo-se nas angústias de um ciúme bárbaro. Aleixo fazia -o padecer noites inteiras, dias sucessivos, como ave que se debate em estreita gaiola de ferro. — Amava muito decerto, queria um bem louco ao pequeno, preferia-o a todas as mulheres boni