BALA DE CANHÃO
Capítulo Um
A tarde lhe chegava, e a linha ofuscadora do sol,
refletida na fachada verde da casa lhe dava uma impressão reanimadora. Porém,
tinha de partir; a verdade lhe escapara uma vez e ainda uma outra vez. Agora o
sabia.
Não posso dizer o motivo porque o fez - o fato é que lhe corria a mente diversos
pensamentos bastante contraditórios. Tão logo o círculo solar desaparecia por
detrás da casa, voltou para a mesma, parando na porta para ter certeza do que
estava fazendo - uma vez que o fizesse, estava liquidado - e, por fim, entrou.
Parou em frente à sala de música, onde ficou por um minuto - que certamente lhe
parecera infinito. Esperava que Mme. de Albernaz estivesse ali, sentada ao
piano, e se viraria para dizer-lhe então todos os seus erros - já antecipara
tudo em sua mente - e, no entanto, não! O susto atravessou-lhe o peito, ao
colocar Mme. de Albernaz a mão em seu ombro. Ficou imóvel.
- Bom que tenha ficado. - disse-lhe ela, e um turbilhão
atacou-lhe a mente, e sentia como se fosse desabar - o que o impediu foi o
nervosismo.
Já havia passado horas do ocorrido, e suas mãos ainda tremiam. Sentiu-se
covarde. Não merecia o olhar comtemplativo e acolhedor da maravilhosa Lady Perth
- e era tão pura! Sentiu-se então enojado de si mesmo. Gostaria de mudar,
gostaria mesmo! - mas então lembrava-se de todas as vezes que tentara, e de como
falhara, vergonhosamente.
Gostaria que tudo aquilo fosse apenas um filme (um filme triste) e o mesmo
terminaria, como todos os filmes. E mais uma vez teve vergonha de si mesmo; eram
esses os pensamentos que o haviam tornado como era.Na manhã seguinte, acordou e
leu:”No fundo do coração guardava o pequeno Jonz, e a ele havia educado grande
parte de seus dias, na casa dos Miller. Agora estava morta.
Todos eles lamentaram, eram todos muitíssimo agradecidos, e, o pequeno Jonz
ainda mais - e o sabia. Foram todos ao enterro, mesmo como Mme. Alyons não
tivesse muita família mesmo, e Jonz, ao aproximar-se da sepultura, mostrava os
frutos da educação com que fora criado - colocou uma flor, que a mãe lhe
entregara, ao lado do caixão, onde havia uma placa, e a inscrição dizia “Mme.
Alyons, devotada criada”. E tudo se resumia a isso. Esta era a sua
história.”Havia terminado o livro, e deitara na cama novamente. Era uma dessas
vidas que gostaria de ter, uma dessas dos livros - lia-os, incessantemente, e
sempre que terminava um deles, tinha a sensação de ter deixado algo para trás.
Era como voltar a si mesmo, o que não lhe agradava.
Levantou-se afinal. Acordara tarde, e havia de se encontrar com Lúcio na praça,
com tudo pronto. Nada estava pronto e ainda pensava na pobre Lady Perth, e sua
inigualável pureza.
- Já é tarde demais! - pensou alto, e olhou pela janela, que
dava para um dos lados da praça. Lúcio não estava por ali, e deu graças que ele
tivesse se atrasado.
Saindo do quarto, ainda estava receoso quando à Mme. de Albernaz - não queria
falar-lhe e não queria que lhe falasse. Um misto de vergonha e arrependimento
ainda lhe assaltava o peito e temeu encontrá-la pelos corredores.
E foi exatamente o que aconteceu: estava parada ao alto da escada e olhava-o
agora com estranheza - e nada disse. E ele também nada disse, e ambos cruzaram o
caminho. O que mais desejava era sair da casa, e ainda assim, ao chegar à porta
principal, hesitou. Também não queria sair, expor-se ao mundo - o mundo que não
era aquele que lera nos inúmeros livros, que enchiam as estantes de seu quarto.A
porta abriu e a luz lhe veio. A branca luz da manhã enchia a praça, e a tudo
ofuscava, e fazia a grande estátua do Lorde Hymm brilhar, imponente e orgulhoso
de suas mil vitórias, no meio das quais terminara seus dias , na mesma praça, há
pouco mais de uma centena de anos. Debaixo da estátua, sentou num banco e olhou
em volta - tudo parecia tão acertado, todos tão ocupados, e a estátua brilhava,
pensou que seria um cenário perfeito para um romance cavalheiresco. Depois
censurou-se, e lembrou mais uma vez que era aquele tipo de pensamento que o
fizera ser como era, que fizera sua vida ser como era; e procurou prestar
atenção em como as pessoas agiam, como se portavam, como moviam seus chapéus
para os lados enquanto conversavam. Eram aquelas pessoas felizes, contentes com
suas vidas? Ou apenas o aparentavam?
Em meio a sua indagação pessoal não viu Lúcio, que então entrou na sua frente
bloqueando o sol.
- Como vai, Caçador? - chamava-o daquela maneira, pois
de fato haviam se conhecido, anos atrás, num grupo de caça, atividade bastante
esquecida naquele tempo, a que se dedicara com vigor, chegando a se destacar.
- Você demorou - uma pequena culpa lhe atacou, mas não
o bastante para não tirar proveito do colega.
- Sim, sim…bem, desculpe. Mas encontrei algo bom. Algo
que você deveria ver.
Capítulo Dois
Parou, e refletiu no que o colega acabara de
contar, observando o papel recém saído das prensas, e chegado à suas mãos
antes de todos. E então, tudo lhe desabou.
A guerra, que fora evitada por tantos anos, tornando o Exército Nacional
quase supérfluo, agora eclodira. A família de Lady Perth voltaria ao outro
continente. Precipitou-se a correr, e o amigo botou-lhe a mão no ombro:
- Calma, não nos chamarão até pelo menos o
próximo mês.
Mas é claro! Não o sabia - jamais soubera. E todas as dores o invadiram, e
seu peito doía - o que fizera até agora? A que fim dedicara toda sua vida?
E, por fim, proferiu baixo o nome da amada. Lúcio não entendeu por certo,
nunca entendia nada:
- Ei, também não sou a favor da guerra, mas devo
dizer que estou um tanto contente por algo ter mudado nesta cidade. Vamos
tomar uma caneca!
Recusou com um simples “Não”. Tinha coisas a fazer. Tudo o que deixara de
fazer durante dua vida toda. Lúcio, ainda sem entender, disse meio que
para sí mesmo “- Não vá sumir!”.
Voltou à casa, e agora o verde das paredes lhe parecia velho, apagado.
Entrou e subiu as escadas. Mme. de Albernaz estava no topo - quanto tempo
passava alí? O que fazia ela, sempre ali, sempre parada? Lhe disse:
- Senhor. Sobre ontem à tarde…
- Agora não! - interrompeu-lhe. E foi direto para
o quarto; ao perceber o que acabara de fazer tremeu. Trancou a porta.
A dor lhe corroía o estômago e a ansiedade nao o deixava pensar direito.
Olhou em volta e pegou uma mala velha. Tinha de ir - mas para onde? E o
que faria afinal?
Parou e sentou na cama. Parecia calmo a quem o visse e, ainda, por dentro
desesperava-se.
E foi que, alí, o céu já em fim de tarde, numa cidade onde “quase nada
acontecia”, ouviu-se um estrondo. E tudo parou.
Foi olhar pela janela a praça. Haviam atacado. A fumaça se espalhava por
todo lado, e a estátua do Lorde Hymm jazia sem a cabeça - melhor seria
quebrá-la ao meio!
Engoliu sêco, e só quando a fumaça espessa se dissipou, lembrou-se de
Lúcio. Apoiou com as mãos na janela, e esperou. Gostaria que aquilo
tivesse durado mais tempo, para que pudesse recompor-se, e mesmo assim, ao
dissipar da fumaça, via-se Lúcio, entre cinco outros corpos, estendidos no
chão de pedra. E o sangue se espalhava. Gostaria de não existir. A igreja
do outro lado, mas ainda na linha de fogo, estava destruída. Subitamente,
esperando pelo pior, se perguntou por que não davam mais tiros, e ficou
alí parado, esperando - ou os tiros, ou suas pernas cessarem de tremer.
No dia seguinte, foi ao hospital. Lúcio estava bem; um braço quebrado.
- Você viu o caos? - disse -
Logo estaremos em batalhas! Não vá matar muitos antes de mim,
Caçador!
Sorriu do comentário, únicamente para agradá-lo - por que era tão
otimista?
- Me dê aquela caneta, e um papel. - e rabiscou
alguma coisa. - Hm, não é minha mão boa, talvez seja melhor você escrever.
“Artur Fostes” - com “s”. Procure-o, ele é o encarregado da nossa região e
nos colocará em um bom posto. - Temeu ao imaginar o que Lúcio poderia
querer dizer com aquilo.
- Espero que mehore - disse, falsamente - e que
não perca a mira.
- Meus olhos estão perfeitos! - e sorriu.
E, ao sair, desejou que fosse ele no lugar de Lúcio. Não por ele mesmo,
veja bem, mas pelo País.
Passando pela praça na volta, tudo parecia morto. As pedras do chão,
quebradas, ainda estavam lá, e a igreja já estava sendo restaurada. O
nobre Lorde Hymm continuava sem a cabeça, mas a mesma não mais
estava alí, havia sido levada.
Um garoto que tocava violino entrou em sua frente. A música alegre do
violino parecia-lhe agora triste e desesperadora. Deu-lhe alguns trocados
e atravessou a praça até a casa. Entrou e subiu as escadas - Mme. de
Albernaz não estava no topo. Entrou no quarto, e sentou-se na cama. Já era
noite, e ainda não sabia o que fazer, mas tinha agora um nome, e - mesmo
que não soubesse - um destino. E estava mais calmo
Capítulo Três
O chamado às armas lhe vinha. Falara com Artur
Fostes na véspera e certamente seria encaminhado à guerra no posto de
2º Comandante de Tropas. Entre as várias frentes de batalha, seria
responsável por três ou quatro delas, tinha poucas chances de se ferir
gravemente e talvez apenas enfrentasse um general ou um comandante inimigo
- afinal, Lúcio o havia posto em um bom cargo. “Era um bom amigo” - pensou
- “como sempre se mostrara.”
Com Lúcio agora incapacitado devido a um braço quebrado, ele, que fora
sempre o segundo, não pela falta de habilidade - mas talvez pela falta de
ousadia - teria agora, quisesse ou não, seu momento único. Apenas Ele
teria de fazê-lo, sem mais ninguém. Isso lhe provocou uma incerteza funda
- por tanto tempo esperava por tal momento, e agora fremia diante dele?
Não, não mais! Estrelaria na guerra e comandaria exércitos para a batalha.
Fosse ou não vitorioso, agora lhe confiavam suas tropas, e ele às levaria
à guerra.
Chegando de volta à casa verde, pouco se falou, ele arrumou as poucas
coisas que mantinha e trocou algumas palavras com Mme. de Albernaz, que,
ao momento de sua saída, desejou-lhe por fim ’sorte’, o rosto de lado e
ajeitando os cabelos quase brancos. Ele a olhou, e pensou por um momento
que nunca realmente conhecera aquela pessoa. E fechou a porta do lado de
fora.
O navio partiria em poucas horas e havia ainda algum tempo para visitar
Lúcio, bem como para qualquer coisa que ele possivelmente lhe pedisse.
Adentrou o hospital, e ficou sabendo que Lúcio já havia saído, e que
estaria hoje no café confraternizando com amigos até a hora do navio
zarpar. E ainda para que lhe avisassem se fosse o caso de ir lhe procurar.
Foi ao café Insula Rotunda, o maior da região, que ficava numa
ruela próxima à praça, e que sempre abria depois do meio-dia, mantendo-se
aberto até quase a manhã do dia seguinte, e juntando todo tipo de gente,
desde veteranos de antigas guerras, como também os jovens àvidos por uma
vida social farta, e intelectuais de toda espécie. E ali estava Lúcio,
numa roda de gente estranha, fumando e alternando entre o cigarro e o
café, com uma mão disponível apenas. Conversavam alegremente, e o clima de
comemoração pré-viajem, um pouco melancólico, inundava o local.
Chegou à mesa do amigo - não sem antes cumprimentar meia dúzia de amigos
pelo caminho - e sentou-se. Não sentia vontade de festejar. Era sério, e
sabia disso. Não havia aprendido a virtude dos grandes homens de esquecer
de tudo antes de um grande confronto. Tentou, porém sem ambientar, e fez
até algumas apostas com cartas, que alegraram o ambiente, e ele também se
alegrou, apesar de ter perdido a maioria delas. Logo o sol se punha, e os
dois seguiram para o navio, que acabou por se atrasar mais de uma hora.
Estava nas docas, e o vermelho banhava o céu, vibrante e terrível. Aquilo
era tudo. As coisas seriam então diferentes, não lhe importava realmente
se era para melhor ou para pior, as coisas mudariam, era o bastante. A
noite foi chegando, e logo o vermelho tornou-se um rosa claro, e logo mais
o céu estava de um azul escuro, quase como o mar, formando com ele uma
unidade, que criava a ilusão de ser uma coisa só.
O navio partiu, e eles foram jantar, um pouco abatidos de tudo que lhes
acontecera.
- Coma o porco grelhado, é o melhor que há aqui.
Ele sempre dava conselhos.
- Mas diga-me, eu achei que você não viria nesta
leva, quero dizer, com seu braço e tudo o mais…
- Ah, claro. Esqueci de lhe contar! - sentaram-se
à mesa.
O general Fostes me colocou como Supervisor de Tropas, um tipo de
Subcomandante. Não digo que realmente preferia estar longe da batalha, mas
é um bom cargo, estudei todas as estratégias. - e engoliu um pedaço de
porco.
Acho que me dei bem no final. E você, se não me engano, será Segundo
Comandante, não? Já estava sabendo?
- Sim, agradeça ao General, é realmente um bom
cargo.
- Estaremos em contato. Nós dois juntos somos
melhores que muitos deles - e pausou - mas bem que eles são muitos.
- Estaremos no mar?
- Temos vantagem no mar. Não sairemos antes que
se aproximem o bastante. Além disso, as armas deles não tem alcance. Com
certeza virão até nós.
- Eles tem canhões…
- Um só. Foi o que me atingiu. É perigoso o
bastante, mas é um só.
O jantar prosseguiu por cerca de uma hora, e então Lúcio fez um comentário
qualquer sobre a duração da viagem, e, algum silêncio depois, o amigo lhe
disse: - “Pelo que afinal guerreamos?”.
Capítulo Quatro
Havia passado dois meses desde a partida, e o
porto inimigo estava há algumas semanas de distância, os armamentos eram
preparados lentamente e tudo estava calmo. Na hora da ceia havia
comentários do tipo “Não parece que estamos prestes a entrar em batalha!”,
e sobre a permanência longe da cidade, em alto mar. O tempo estava claro e
bastante agradável.
Lúcio estava no convés, fumando um cachimbo. Foi até ele:
- Com as coisas calmas, é difícil pensar em
guerra.
- Ah, aí está você. Está quase tudo pronto. Isto
será grande.
Ele estava empolgado.
- Ouça…obrigado pelo cargo.
- Comandaremos nós dois, eu no Norte, e você ao
Sul! Faremos uma grande batalha.
- E ao Leste?
- Não creio que virão pelo Leste. Estão rodeados de
montanhas, e a força que têm é terrestre. Precisariam de muito tempo e
esforço pra trazer um exército direto pelo Leste.
- E o mar?
- Está dominado! Nossas tropas tem lutado lá desde que
saímos. Olhe, o mar já se agita. É como se pressentisse a batalha…
- É mesmo um bom amigo, Lúcio.
Era verdade. O mar se agitava enquanto que a costa se tornava cada vez
mais perto. Já era possível ver os clarões esparsos das explosões no
horizonte.
- Ah sim! O general quer vê-lo em sua sala - qualquer
coisa sobre sua posição, ou suas tropas.
- Sim, é melhor eu ir.
- Eu o verei no bilhar? - soltou uma baforada.
- Certamente.
O general queria vê-lo. Com certeza algo importante. Ele havia se tornado
importante, agora o percebia. Desde tempos atrás quando era apenas um
soldado, e se preocupava em acertar o alvo. Havia conhecido as pessoas
certas, e tivera as atitudes certas, e agora tinha tropas a comandar, numa
guerra no exterior! E era chamado pelo general.
- Sente-se.
- Obrigado. - não estava nervoso. - Está tudo certo?
- Sim, sim. Mas tinha de falar com você. Foi lhe dado o
encarregamento de comandar quatro tropas ao Sul…
- Darei o meu melho, Senhor.
- Sim, sim. Ainda assim, tenho uma proposta. - E puxou
dois cigarros.
Eles acenderam, e soltaram algumas baforadas, o único som vindo do mar ao
fundo, batendo contra o navio.
- O ar é bom nesta época - tentou fugir.
- Sabe que é o nosso melhor atirador, não sabe? Poderia
ter feito carreira, e não o fez, não importa o motivo…
- Senhor…
- Ouça-me. Lúcio confia em você, nós confiamos no
Lúcio, e Eu confio em você. Sei que irá liderar bem nossas tropas, sei que
é capaz disso. Mas precisamos de um bom atirador aqui - não, do Melhor
atirador aqui. Consegue fazer as duas coisas?
- Como…?
- Você ficará no rifle de longuíssima distância
instalado no navio, e liderará as tropas ao mesmo tempo. Depois dos 600
metros você sai do rifle e segue com as tropas. Precisamos do melhor, você
entende?
E agora deveria fazer duas coisas ao mesmo tempo.
- …ficarei honrado, Senhor.
- Bom. - e reclinou a cabeça na poltrona, num sinal de
cansaço e alívio de uma vez. Nós temos mais chances do que eles. E vocês
ficarão bem.
O silêncio tomou o ambiente mais uma vez…
- O que foi? Não o vejo entusiasmado com a batalha.
Levantou-se.
- Senhor, estou satisfeito por estar lutando por nossa
terra, e bastante contente pelo cargo que me foi confiado, mas não fico
contente em matar homens de família, que não estão- -
- Ah!…sente-se. - pegou mais um cigarro e coçou a
cabeça.
Olhe, esses homens estão aqui porque querem. Não porque foram obrigados.
Sei que este pensamento não o faz sentir-se melhor, mas você está aqui
porque assim decidiu, e os soldados deles assim o quiseram também. E
quando ficarem velhos, tudo do que irão se orgulhar é de ter estado nesta
velha guerra.
Caiu na poltrona.
- Por que lutamos, Senhor…?
- Para sentirmo-nos vivos. E livres! Todos gostaríamos
de matar algumas pessoas, mas não nos deixariam. - e sorriu por um
segundo. - A vida moderna nos traz o conforto, e nos traz também o tédio.
O homem não foi feito pra viver calmamente. A guerra é só uma grande
desculpa pra que os homens possam viver no extremo de suas vidas. Correr
perigo, e precisar uns dos outros, ah sim! Sentirem-se parte de algo maior
do que eles.
…ninguém devia lamentar se um homem morre na guerra… -Levantaram-se.
- Darei o meu melhor, Senhor.
- É só o que peço - e sorriu mais uma vez.
- Minha pontaria é perfeita. - e apertaram as mãos.
- Mas…faça o favor de não morrer.
Capítulo Cinco
"A morte…160m…jamais pensara duas vezes…150m…um homem
na guerra não é um homem…140m…é um alvo…130m…tão insignificante…120m…não
faz diferença…110m…o tiro! - e mais um cai na lama.
A relação do homem com seu rifle é algo maior do que a vida de outro
homem…algo…"
- Senhor! Atingiram os 500m!
Devia pensar rápido…
- Divida-os em três grupos, lado a lado, e faça-os
voltar - estava calmo - uns 100 metros…
- Sim senhor!
"Homens morrendo pelo país - não - por sí mesmos…por todos os
lados…alvos…apenas alvos…e…um canhão! Que máquina maravilhosa, capaz de
atirar uma bola de ferro a distâncias enormes! Mas há um erro, ela precisa
de um homem no comando - o erro está sempre na parte humana - ah sim…
O homem do canhão, visto através da mira, parece bastante empenhado…seus
colegas estão lutando e morrendo ao seu lado, e ele não percebe…precisa
verificar cada detalhe do canhão…sua rota, alinhamento, o pavio bem
colocado. Ele olha ao redor, e alinha o canhão…deve acertar em cheio…
O fogo é colocado e o pavio queima lentamente…queima-se por completo, e a
bala é atirada - não se ouvia o som, estava muito longe. A bala voava para
o ar, e ele a acompanhava com a mira, uma trajetória perfeita…um
matemático não poderia fazê-lo melhor…pensando bem, talvez ele seja um
matemático…talvez…"
… - -
Tudo tremia! Algo o havia atingido na perna, e o rifle estava quebrado em
três partes…onde havia estado ele?!
- Senhor, alcançou-se os 400m!
Meio desconcertado ainda, ele responde:
- Sim, estarei com vocês!
- Sim, senhor!
Deu um passo e tropeçou. Sua perna sangrava e havia um pedaço de madeira
cravada. Mordeu firme e puxou o pedaço com as mãos, que saiu respingando
sangue. Por sorte não fora fundo o bastante.
- Como pude ser tão estúpido!
Colocou o capacete e pegou o rifle de curta distância - o que o fez
famoso.
Correu tropeçando até a 100 metros do navio, aonde estava o carro que o
levaria até junto de suas tropas. Bombas explodiam e tiros passavam perto,
fazendo seu ouvido zunir. Nunca estivera em uma guerra, e não era nada do
que imaginara. Como estaria se saindo Lúcio? - certamente bem…
Então avistou o canhão ao longe, em meio à fumaça. O homem havia sido
baleado, e ajeitava os óculos em um esforço para recalcular o canhão.
Mirou em sua cabeça, esperando estar perto o bastante para que bala o
alcançasse, nenhum problema em acertar um alvo enquanto em movimento.
Mirou logo acima da orelha do homem, e sentiu novamente tudo voltar - mais
uma vez nada mais existia, e ele se preocupava em acertar o alvo. Todo
ruído cessou, e por um momento o homem olhou-o no carro - e no momento
seguinte caía morto na lama. E todo o barulho voltava. Recarregou o rifle
calmamente, e seguiu para a marca dos 400 metros.
No caminho, via centenas de corpos estendidos, metade do seu exército fora
dizimado, grande parte deles certamente se devia ao canhão - engoliu sêco.
Mas lutavam bravamente! Empunhou seu rifle, e do carro - agora parado já
no local - começou a mirar e atirar, e derrubava um por um, sem errar um
tiro, apesar da fumaça e das explosões.
Protegia-se das balas que voavam, ficando atrás do carro, e ia,
mecânicamente, executando o inimigo. Seus olhos viam apenas alvos, um a
um, quando então se deparou com um soldado de sua tropa vindo em sua
direção. Olhou para ele, e fez com a cabeça como que uma pergunta. O
soldado chegou perto dele, os olhos em puro desespero. Subitamente tirou a
faca que escondia nas costas e atacou. Por pouco não furou-lhe o abdômen,
e então ele percebeu tudo - um inimigo disfarçado! Esquivou-se da faca, e
com habilidade deu um golpe na mão do soldado , que deixou a faca cair.
Segurou o soldado pelo pescoço. Os olhos ainda em desespero, o soldado se
contorcia, e tossiu palavras de ódio, sorriu, e de debaixo da jaqueta
tirou uma granada de mão - a terrível!
Tentou fugir, mas o soldado segurava-lhe pelo braço. Empurrou o soldado,
que caiu no chão, e não mais que dois ou três passos em direção oposta, a
bomba explodiu, e ele foi jogado para longe, e rolou por mais alguns
metros…
Tudo é fumaça e lama. Levantou-se e sentiu o braço doer, como nunca havia
antes. Então algo pareceu-lhe estranho, e em pouco tempo percebeu, seu
braço esquerdo havia sido destruído até logo acima do cotovelo. Caiu no
chão, e lembrou-se que não podia parar - isto não era um treinamento, lhe
havia sido confiada a liderança. E ele sem o braço esquerdo! Correu de
volta até o carro, esquecendo da perna ferida, pela perda maior, chegou
até o carro, aonde um jovem soldado o olhou paralisado em terror.
Sentou-se no chão, perdido em agonia e olhou em volta. Pouco havia para
ser visto, quase não se ouvia mais explosões, e através da fumaça pôde ver
um soldado que vinha em sua direção. Primeiro ambos se assustaram, e então
o soldado disse:
- Senhor…vencemos! Os poucos que sobraram deles estão
capturados. A Norte está também sob controle. Vamos levá-lo de volta…
Ele havia vencido. A guerra estava vencida. Agora ele voltava ao navio.
Havia perdido um braço, que ainda ardia como no momento da explosão. Como
estaria Lúcio? Estivesse melhor.
Ele não sentia-se melhor do que antes de tudo…mas na verdade, nunca pensou
que uma guerra mudaria algo. As guerras nunca mudam nada… Elas só explodem
- os destroços voltam a se reunir logo após. Mas isso não importava, agora
ele iria para casa. Com certeza conseguiria uma pensão pela perda do
membro, pelo resto de sua vida…poderia viver bem, sem se preocupar. E
mesmo assim, sabia que muitos anos depois, quando ficasse velho…ainda
poderia lembrar-se da guerra, o único momento de sua vida no qual fora
alguém, no qual fora verdadeiramente livre.