Notas de Viagem


Visita a vinícolas chilenas

É o terceiro dia no Chile (e em Santiago) e no dia anterior todos os passeios mais turísticos já foram feitos, como a tour do centro, conhecer (só por fora) o Palacio de la Moneda, a Cathedral e o Museo Precolombino. Além do Cerro Santa Lucía e do nada turístico restaurante japonês Izakaya Yoko, onde comi o melhor sashimi de salmão da minha vida (não foram muitos, confesso, mas esse foi insuperável) acompanhado de saquê quente.

Enfim, o terceiro dia estava reservado para uma visita a vinícolas da região de Santiago. A primeira da lista era a Concha y Toro, logo às 10 e meia da manhã, um excelente horário para se tomar um vinho. Depois de atravessar uma boa parte da cidade de metrô, cheguei ao pé da cordilheira dos Andes, onde ainda precisaria pegar um táxi até a vinícola. CH$ 2.000 (aproximadamente R$ 8,00) e alguns minutos depois, cheguei à vinícola com um pequeno atraso. A visita tinha sido agendada no dia anterior, mas algo me diz que se tivesse chegado lá sem marcar nada, teria conseguido fazer a tour sem problemas.

Começamos  o passeio conhecendo a mansão (somente por fora) de Don Melchor de Concha y Toro, o fundador da vinícola e ficamos sabendo um pouco da história de como ela foi fundada e que a casa enorme era, num primeiro momento, apenas onde ele e sua família passavam os fins de semana. Com as mudas de uva viníferas vindas da Europa e com a inauguração da vinícola, aquela passou a ser a residência oficial dos Concha y Toro.

Em seguida, passamos aos vinhedos. Vimos apenas um deles, o Pirque Viejo, com uvas Cabernet Sauvignon plantadas em 1978, porém até onde a vista alcançava era possível enxergar vinhedos.


                                                   Vista do Vinhedo Pirque Viejo #1

No Pirque Viejo, logo depois de chegar um grupo com dois japoneses e um chileno, ficamos sabendo como e quando é feita colheita (havia sido feita uma semana antes da visita, ou seja, estava tudo calmo demais por lá), qual o processo de fabricação dos vinhos e que as parreiras da vinícola vivem até os 50 anos, idade que eles consideram limite para produção. “Depois disso”, dizem eles, “elas começam a produzir menos uvas e de menor qualidade”. É possível notar também que próximo a cada fila de parreiras há uma enorme roseira. A guia explica que se alguma doença ou praga vai atacar as plantas, ela ataca primeiro as roseiras.


                                                     Vista do Vinhedo Pirque Viejo #2

A tour segue para a entrada das adegas subterrâneas, onde, de barriga vazia, ganhamos uma taça com o logo da vinícola já cheia de Casillero del Diablo Carménère 2005. Fomos apresentados – ou relembrados – da história da Carménère. De sua origem francesa (Bordeaux) de como ela foi extinta na Europa com a praga de filoxera que devastou todos vinhedos do velho mundo. E que as mudas de Carménère no Chile haviam sido confundidas com Merlot até 1994, quando foi identificada corretamente (pelo francês Jean-Michel Boursiquot, “que notou que algumas cepas de Merlot tardavam em maturar” – Wikipedia).

Tivemos ainda uma lição básica de degustação, aprendendo a olhar e identificar a cor do vinho, sentir os aromas e o sabor do vinho. A guia ainda indicou o modo correto de se segurar uma taça, sempre pela haste e jamais pelo bojo.  Ela ainda disse que segurar a taça pela base é um bom indicativo do grau de álcool no sangue. Não discordei dela na hora, mas em observações que fiz, uma coisa que aprendi é que no matter what, bêbado não derruba uma gota de sua bebida.

Com as taças em mãos, seguimos para a adega. Primeiro, no nível térreo, onde há inúmeras barricas onde os vinhos envelhecem um pouco e onde a temperatura e a umidade são constantes, com ar condicionado e freqüentes sprays de água. Não foi dito em momento algum, mas suspeito que tudo aquilo vai virar o Reservado da Concha y Toro, a linha mais básica deles, que não se encontra a venda no Chile, nem mesmo em mercados.

Descemos então uma escada que nos levava à adega subterrânea, onde não são necessários recursos tecnológicos para manter a temperatura e a umidade sob controle, basta uma parede feita com tijolos grandes, dispostos do jeito certo e assentada com argamassa e clara de ovos, o que lhes dá um certo tom brilhante e uma enorme resistência aos terremotos. Vimos tanto os barris de envelhecimento quanto as garrafas de safras anteriores que continuam deitadas por lá, esperando, na temperatura perfeita, para serem abertas algum dia.

No subsolo fomos apresentados à história do Casillero del Diablo, e como Don Melchor inventou a lenda de que ali era a casa do diabo para assustar as pessoas que invadiam sua adega em busca de vinhos. Inclusive, há um elevador da mansão diretamente para a adega, por onde ele descia para arrastar correntes, acender luzes e fazer sombras nas paredes. Em pouco tempo seus vinhos estavem seguros. Olhando numa parede, atrás da grade onde as garrafas de safras passadas ficam guardadas é possível ver a sombra de um diabo, cuja existência a guia negou aos risos.

Após essa visita, subimos novamente e fizemos a segunda degustação do dia (e última incluída no pacote): uma taça de Don Melchor Cabernet Sauvignon 1998, considerado o melhor (e o mais caro) vinho feito pela vinícola. Apesar de andar meio cansado de vinhos Cabernet Sauvignon, este era excelente, com as características básicas dos vinhos feitos com essa uva: aromas de frutas vermelhas. Porém, havia um toque muito especial, algo mentolado, o que o tornava diferente dos Cabernet Sauvignon básicos.

Segui com a taça ainda pela metade para o restaurante da vinícola, um salão com decoração simples, mas bem estilosa. Havia um balcão enorme com alguns bancos, sobre o qual é colocada uma estufa com seis pratos. Olhando atrás do balcão, vê-se garrafas de vinho abertas e conservadas em uma máquina que substitui a bebida por nitrogênio, o que, obviamente, evita a oxidação. As garrafas abertas incluíam as linhas Casillero del Diablo (o mais básico a venda no Chile), Terrunyo, o Don Melchor Cabernet Sauvignon e até mesmo o top chileno Almaviva, produzido pela Concha y Toro em parceria com os franceses Rothchild em uma propriedade também no Vale do Maipo, ao redor de Santiago.

Na promoção do dia, era possível escolher um dos pratos e a degustação de três Terrunyo: Sauvignon Blanc, Carménère e Cabernet Sauvignon. Isso tudo por CH$ 6.000 (R$ 15,00).

Como ainda tinha Don Melchor na taça, decidi pedir um dos pratos para acompanhar o vinho. A sugestão da bartender era a degustação de frios e embutidos. Quando acabou, pedi uma degustação Terrunyo (aquela lá de cima). As taças eram muito bem servidas. O suficiente para acompanhar os pratos e ainda sobrar uma boa quantidade. Não sei se era porque ninguém de nenhum outro passeio havia ficado no restaurante para comer alguma coisa.

Seguindo a regra básica de degustações (já quebrada por ter começado pelo encorpado Cabernet Sauvignon), pedi primeiro o Terrunyo Sauvignon Blanc, acompanhado de um prato de presunto cru e queijos de cabra.

Para o Carménère, escolhi o Pastel de Choclo, que é um prato típico chileno feito, principalmente, com milho (choclo) e carne, mas cada um tem sua receita. E a receita do chef da vinícola era fantástica, uma massa muito leve, macia e bem caprichada no Merquen (tempero apimentado dos chilenos nativos). Diferentemente do Pastel de Choclo tantas vezes comido em São Paulo, no ótimo restaurante El Guatón. No Brasil falta o Merquen e o prato é mais pesado.

O último dessa degustação era o Cabernet Sauvignon, acompanhado de mini-empanadas, as melhores experimentadas no Chile, mas ainda assim inferiores às do El Guatón. Para encerrar a jornada no restaurante, pedi uma taça do doce Late Harvest com o prato de doces, como trufa de nozes e canapés de manjar (dulce de leche) e purê de lúcuma (deliciosa fruta chilena).

Desnecessário dizer que todos os pratos foram acompanhados maravilhosamente bem com os vinhos sugeridos pela casa.

E até o fim fui muito bem servido e continuei sendo o único que ficou das quatro ou cinco tours (sem contar a minha própria) que passaram por lá. Após toda essa comilança e “bebelança” precisei até de um tempo sentado no banco da praça da vinícola até que tivesse condições de pegar um ônibus e o metrô novamente. E precisava estar em bom estado, afinal de contas, às 15 horas teria uma visita a outra vinícola e mais degustações. Tinha duas horas ainda até lá. Dei uma breve passada na loja da Concha y Toro, mas não me empolguei a comprar nada por lá, apesar de ter diversas safras de Don Melchor e todas elas com um preço absurdamente mais barato, se comparado com os preços brasileiros, claro.

Para ir à outra vinícola do dia, a Cousiño-Macul, foi muito simples. Primeiro esperei o efeito do álcool baixar. Quando tinha coordenação suficiente para mexer um pé de cada vez, foi só sair da Concha y Toro, andar até uma rua próxima (a primeira à esquerda) e pegar qualquer micro (ônibus) azul que chegaria ao metrô. Quando estava perto do metrô e suspeitava disso, uma chilena sentada no banco de trás, atenta à situação e muito prestativa, explicou que era só descer no próximo ponto e caminhar pouco até o metrô. De lá era só ir reto até a estação Quilín.

A Quilín é uma estação que parece localizada no meio de um deserto (ela poderia muito bem estar em Las Vegas), mas onde há um mercado Líder (uma espécie de Carrefour do Chile, o que foi aprendido em ocasião futura em La Serena). De lá peguei um táxi – depois de uns dez minutos de procura em todas as direções – até a próxima vinícola do dia.

Na saída do metrô já podia ver as parreiras da Cousiño-Macul, porém, a viagem de táxi até a entrada da vinícola demorou quase cinco minutos. Cheguei alguns minutos adiantados e ainda houve espera por mais algumas pessoas antes de começarmos o tour. Mais uma vez: A excursão estava agendada desde o dia anterior, mas se aparecesse sem ter telefonado, tenho quase certeza de que faria o passeio sem problema algum, mesmo porque eles nem checaram em nenhum lugar pelo meu nome.

Diferentemente da Concha y Toro, as excursões à Cousiño-Macul são exclusivamente bilíngües (espanhol e inglês), portanto havia gente de diversos lugares, como Canadá, Colômbia, Brasil e Holanda, por exemplo.


                                Vista da propriedade da vinícola Cousiño-Macul

Começamos o passeio e nosso guia, engraçadinho, fez piada com a taça da Concha y Toro que carregava na sacola que ganhei por lá. Apesar do tom de brincadeira, achei melhor não arriscar muito e colocar a taça dentro da mochila. Na primeira parte conhecemos os (enormes) barris onde as uvas são fermentadas e onde nos é contada um pouco da história da vinícola e o que significa Cousiño (sobrenome da família fundadora) e Macul (mão direita em mapuche).

Na próxima sessão onde fomos, as uvas estavam sendo manualmente escolhidas, afinal, naquele dia 12 acontecia a colheita de merlot. Não fomos conhecer os vinhedos, mas tivemos a oportunidade de chuparmos uvas viníferas recém-colhidas. E elas são deliciosas, bem mais doces do que as uvas encontradas para compra. Elas também possuem muito menos polpa, graças à casca mais grossa. O guia definiu aquelas uvas como “vinho em cápsula”, um pouco de exagero, já que elas não apresentavam toda complexidade, mas eram muito boas mesmo assim. Ainda nessa parte, nos foi explicado que eles trabalham com as mesmas castas desde a fundação da casa, portanto, não elaboram vinhos com a (agora) típica chilena Carménère, diferentemente de quase todas outras vinícolas do País.


                                  Seleção manual de uvas merlot

Fomos então a uma espécie de museu, onde ficam máquinas usadas antigamente na elaboração e engarrafamento dos vinhos, além de estarem expostas algumas garrafas antigas (já vazias). Lá fomos apresentados à novidade da vinícola, o Cabernet Sauvignon Gris (cinza), onde o tinto é elaborado pelo mesmo processo do branco, ou seja, as cascas não ficam em contato com as uvas durante o processo de fermentação (nos rosés, a casca fica em contato com as uvas apenas por um tempo e nos tintos, isso ocorre durante toda fermentação). Não chega a ser um vinho empolgante, mas é interessante, bem simples e refrescante. Um vinho para o dia-a-dia do verão.

Este não seria o vinho que apagaria uma pequena má impressão que tinha da vinícola graças a um Natal onde o anfitrião tentou harmonizar peru e aquelas outras comidas super-leves para nosso feriado tropical com um Cabernet Sauvignon (também muito adequado ao verão) muito alcoólico e forte.

Ainda com um pouco de vinho nas taças, descemos à adega subterrânea, onde ficam as barricas de envelhecimento (trancadas atrás de portões) e as garrafas de safras antigas (também trancadas). Só tínhamos acesso a uma grande bancada e a uma vista de tudo que ficava trancado. Mais uma vez nos foi contado como são assentados os tijolos para resistir a terremotos e que a parte brilhante das paredes era clara de ovo. O toque especial ficava pela história do terremoto que não derrubou as paredes, mas sim as barricas e que havia quase dois metros de vinho enchendo todo o subsolo. “Em cinco minutos tínhamos voluntários suficientes para limpar tudo”, nos contou o guia antes mesmo de alguém pensar em fazer essa piada.

Subimos ao térreo novamente e fomos à loja. Precisamos decidir entre degustar entre o Antiguas Reservas Cabernet Sauvignon e o Merlot, ambos da safra 2005. Como estava acompanhado, consegui provar os dois. Apesar disso contrariar as regras de degustação, comecei pelo Cabernet Sauvignon (mais forte), que realmente não parecia o vinho top de uma vinícola. Era bom, mas não era excepcional, ainda mais depois do Don Melchor, freqüentemente eleito o melhor Cabernet Sauvignon chileno. Bom, talvez eu também ande de saco cheio dessa uva, mas ele realmente não me pareceu um grande vinho, daqueles que valem a compra. Já o Merlot merece até um novo parágrafo. Vamos a ele.

Apesar de estar em Santiago, abaixo da latitude de Montevidéu, ou seja, um lugar nada tropical, o sabor mais presente tanto no vinho era de mangas, isso eu esperaria de um vinho indiano ou do Rio Sol, produzido no vale do São Francisco. Ainda encantado com o vinho, comecei a conversar com Denis, um canadense que mostrou um guia de vinhos chilenos onde constava que aquele havia sido eleito o melhor Merlot produzido no País. Na loja da vinícola ele custava algo como R$ 30,00. E a mala levada especialmente para trazer vinhos já ganhava duas garrafas.

Cada excursão às vinícolas custou CH$ 6.000 (ou uns R$ 26,00 pelo câmbio da época) por pessoa e dava direito às degustações além de uma taça para levar de souvenir. Durante as duas semanas que passei no Chile, estas foram as duas únicas vinícolas que visitei. Havia planos para uma ida até a Casa Marín, em San Antonio, perto do litoral, mas foi tudo frustrado. Compensei trazendo uma garrafa de Sauvignon Blanc e uma de Pinot Noir deles, ambas compradas em uma loja de Las Condes, bairro elegante de Santiago. Fiz também uma visita à fábrica de pisco da Capel em Vicuña, mas isso fica para outra história.

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