The Quest for Snow
Quando ganhei as passagens para ir conhecer o Chile, escolhi a data baseado em algumas coisas: queria ir para o aniversário de um grande amigo que agora mora em Santiago; queria passar pelo menos um dia de outono por lá para fazer fotos; e queria ver neve, o que sabia ser difícil em abril. Mesmo assim, mantive a esperança de ver neve pela primeira vez na vida, assim como em todas as vezes em que fui ao Rio Grande do Sul no inverno.
Antes de viajar, até consultei sites de meteorologia para saber se iria nevar nas redondezas de Santiago, mas eles não traziam muita perspectiva. Já tinha até programado um jeito de ir até Osorno, na Patagônia para subir o vulcão (também Osorno) e ver neve sem erro. O que me deu um pouco de esperança – silly me – foi durante a viagem, cruzando a fronteira da Argentina e, conseqüentemente, a Cordilheira dos Andes, quando vi as neves eternas (pleo menos por enquanto) das montanhas.
Cheguei numa terça-feira e na quarta-feira, meu amigo disse que havia visto neve no alto do Colorado, visível do terraço de seu antigo apartamento. Ele apontou onde estava a neve e programamos para o fim de semana uma viagem até o alto dos montes Colorado e Valle Nevado. Faltava pouco para eu ver neve pela primeira vez.
Alugamos um carro para o fim de semana e no sábado fomos escalar as montanhas de carro. Antes da subida, porém, paramos em uma Farmácia Ahumada, uma das grandes redes de farmácia por lá, onde compramos de tudo, exceto medicamentos. Na verdade era como um mercado com medicamentos. Compramos sanduíches, bebidas, chicletes, bolachas, entre outras gostosuras. O pior é que o preço era o mesmo do que nos mercados e lojas de conveniência, diferentemente do que acontece no Brasil.
Apesar dos avisos de não comer antes da subida, já que as curvas podem causar enjôo, antes de começarmos, já tinha comido um sanduíche e montes de bolachas (incluindo a ótima Calypso Jam, extinta no Brasil). Com certo medo de vomitar no carro alugado, começamos a subida. E no meio do caminho, devo confessar, até senti a fome batendo de novo.
A paisagem da subida é linda, com árvores de folhas já amareladas e avermelhadas, a grama muito verde e cada vez menos sinal de vida humana... até a bifurcação que leva ao topo dos montes. Optamos primeiro pelo Valle Nevado, era menos provável que houvesse neve por lá, portanto, deixaríamos a opção mais certa para o fim. Chegando ao topo, não havia neve nenhuma, na verdade, ele deveria se chamar Valle Pedrado, pois havia apenas pedregulhos lá em cima. De lá, era possível ver o topo de alguma montanha com neve, mas era impossível chegar até lá. Bem no alto do Valle Nevado, acessível apenas por uma escalada ou uma viagem de teleférico (CH$ 5000 ou aproximadamente R$ 20,00). Mas fui avisado que talvez não valesse a pena, já que a neve deveria estar já velha e dura, na verdade, parecendo gelo de freezer.
De qualquer forma, a vista era deslumbrante. Devo ter ficado uns 20 minutos apenas olhando a paisagem e ouvindo o vento. Descendo de lá e voltando para o carro, deescobri, graças a alguns turistas brasileiros que a neve que estava no topo do monte era realmente um monte de resto de gelo de freezer duro. Graças a Deus eu não gastei tempo e dinheiro indo até lá. Se essa fosse minha primeira neve, eu ficaria muito decepcionado, já que não iria parecer nada com a neve que a gente vê em filmes, desenhos, quadrinhos etc. Na verdade, durante a descida vimos um pouco de gelo derrentendo na montanha, mas eu nem conto isso como neve, já que era só uma água meio gosmenta e gelada.
Vista do Valle Nevado
Voltamos de carro até a bifurcação e seguimos agora para o Colorado, onde era garantido haver um pouco de neve, apesar de não estar nada frio em Santiago na época. Mais uma vez, decepção. Não havia nem sinal de neve, porém a paisagem era muito mais bonita do que no Valle Pedrado. Ficamos lá até o Sol começar a se pôr, quando a vista ficou ainda mais deslumbrante. Voltamos para Santiago antes de ficar totalmente de noite sem termos visto neve de verdade nessa viagem.

Vista do Pôr-do-Sol no Colorado
-x-
Como disse antes, tinha planos de ir até a cidade de Osorno e subir o vulcão homônimo. Porém, por recomendação do meu amigo, decidi ficar uns 150 km para o Norte de Osorno e fui até Pucón, aos pés do vulcão Villarica, que está sempre ativo. Ali eu teria grandes chances de ver neve já e poderia subir o vulcão. (Nota: na época em que não há neve e o céu está limpo, é possível ver um vulcão do topo do outro).
No primeiro dia na cidade fui fazer o passeio turístico de conhecer a região: várias partes do Lago Villarica, os rios e bosques (em um deles comi a deliciosa fruta murta ou murtilla, típica da região, diretamente do pé) e as termas, com água quente natural e rica em minerais, diretamente do meio da Terra. Achava que as duas horas previstas pelo passeio não seriam suficientes, mas não acho que agüentaria muito mais do que isso.
O segundo dia, quando iria subir até a base do vulcão, foi passado no quarto do albergue, com direito a alguma caminhada pelo centro da cidade. Santiago é um lugar seco, mas Pucón naquele 18 de abril ficou debaixo de chuva o dia inteiro. Por um lado, eu agradecia por ter ficado na cidade aquele dia. Tinha ouvido dizer que quando chove na cidade (seja qual for), está nevando nas montanhas. O Villarica seria meu no dia seguinte.
Acordei relativamente cedo, já que o carro da agência de turismo sairia às 10 horas. Fui para lá e enquanto esperava para sair, passei em uma lanchonete ao lado para comprar umas empanadas (fracas) para comer durante o passeio, também comprei no mercado umas caixinhas de Colun, um achocolatado muito comum por lá, assim como Toddynho por aqui.
Começamos a subida. O guia ia dizendo que naquela região, que já é o começo da Patagônia, é comum ver, em certas épocas, zorros – espécie de raposa. Tanto quanto ver neve, agora queria ver um zorro (Já os lhamas que não fazia questão de ver, acabei encontrando na subida para o Colorado). No fim não vi nenhum zorro.
Após um tempo de subida, começamos a ver neve. Ela era muito rala, mas já havia umas casas e plantas todas cobertas por uma fina camada branca. Além do mais, a estrada se tornou escorregadia, o que nos obrigou a parar para colocar correntes nos pneus da picape. No momento em que vi a neve, foi como se tivesse voltado a ser criança (no bom sentido) e estava ganhando aquele tão sonhado presente de aniversário (mas acho que foi ainda maior, pois nunca fui ligado nos grandes presentes).
Subimos mais um pouco e a corrente da roda esquerda traseira arrebentou. Isso significava muita merda pela frente, mas significava também que teríamos que parar de subir antes de termos alcançado a base do vulcão. Eu honestamente não me importava, quando a camada de neve era grossa, eu já queria descer e pular nela. Se pudesse, eu iria mergulhar na neve. Desde que eu era pequeno, sou fascinado por neve, mas como nunca havia deixado este país tropical, não tinha muita chance de vê-la, apenas quando minha irmã morou no Rio Grande do Sul, entre 1992 e 1994, mas ela só viu neve em sua cidade uma vez e eu não estava lá nessa ocasião.
A vista de quando saí do carro
Quando paramos, saí logo do carro com as câmeras e fui para a neve. Não caía na hora, mas não tinha importância, pois eu afundava quase 30 centímetros a cada passo que dava, já estava satisfeito. Corri, cai, peguei neve na mão, enterrei mãos e pés, fiz fotos, atirei bolas de neve e fiquei olhando, não querendo que aquele dia acabasse nunca mais ou que vivesse em um lugar assim para sempre.
Neve na minha mão
Quando estava já me recuperando, voltando ao meu estado normal veio mais uma novidade: começaram a cair uns microflocos em meu casado. Estendi a mão e minha luva começou a ficar branca. Era uma neve muito fina e ralinha que caía, mas já estava ótimo. Eu nem contava cim nada caindo do céu aquele dia. Com o tempo, vieram flocos maiores e maiores e começou a nevar de verdade, com vento e direito a me enxarcar no fim das contas, mas não importava. Esse era um de meus objetivos no Chile, talvez o mais difícil, e eu tinha conseguido.
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