Notas de Viagem


Uma destilaria de pisco no Chile

Apesar do pisco ser considerada uma bebida típica chilena (pelos chilenos), explico no título que a destilaria ficava por lá pois algumas pessoas acreditam que a origem do destilado é peruana (essas pessoas são os chamadas peruanos). O resto das pessoas do mundo não dá a mínima para quem decidiu destilar vinhos primeiro. Por ter ido somente ao Chile e ter conhecido melhor essa parte da história, fico com a versão chilena. Além disso, eles têm uma cidade chamada Pisco Elqui. Sem contar que o Pisco Sour feito com o chileno é bem mais gostoso. O peruano tem gosto de álcool demais e gosto de uva de menos.

Enfim, vamos à Capel.

Após o primeiro café da manhã em Vicuña, cidade no norte chileno, fui passear, conhecer um pouco da cidade, que, apesar de minúscula, era encantadora. Fora os observatórios, que por problemas climáticos não pude visitar, as grandes atrações são a praça do centro (com um rosto gigante de Gabriela Mistral, a poetisa da cidade, que ganhou um Prêmio Nobel) e o Mirador Cerro de la Virgen, um morrinho com uma cruz no alto, de onde se tem uma bela vista da cidade inteira, dos parreirais da região e do rio Elqui.


                                Vicuña vista do Cerro de la Virgen #1

 

                                          Vicuña vista do Cerro de la Virgen #2

Na volta do passeio no morro e quando me encaminhava à Capel, comecei a ser seguido por um cachorro. Graças a ele quase fui atacados por todos dobermans (ou seria “dobermen”?) que fazem a segurança dos parreiras e de empresas (tudo relacionado ao pisco e, principalmente, à Capel) da região. Muitos apuros e voltas depois (é meio complicado chegar lá, apesar de a cidade ser minúscula), cheguei à destilaria.

Já na entrada, o cachorro (chamemos-no de Pateta) me colocou em mais uma encrenca. Os guardas da Capel disseram que era proibido entrar com animais lá. Tentei explicar que ele não era meu cachorro, que estava me seguindo pela cidade. Dei então carta branca para eles expulsarem o cachorro de lá. Entrei sem olhar para trás e já entrei na casa que funciona como loja e dá acesso a um pátio bem agradável, com flores e uma fonte. Desse pátio também é possível ir ao museu da destilaria no subsolo e, virando à esquerda, à planta onde é feito o vinho e, posteriormente, a destilação. É para lá que vamos daqui a pouco.

Antes de começar o passeio, sentei a uma das mesas e fiquei olhando tudo em volta. A fonte agradável que dava uma refrescada no ambiente, os cactos, as roseiras – que possuíam as rosas mais vermelhas que já vi na vida – e o grupo de adolescentes chilenos que estavam caindo de bêbados depois de uma tour com deegustação grátis e algumas compras nas sacolas. As garotas estavam até se insinuando para uma garrafa de pisco gigante que fica no pátio. Claro que estava de olho em nosso amigo Pateta entrando no museu e azucrinando a vida de todas pessoas que estavam por ali no momento, especialmente os adolescentes. Não é que ele tenha me dado sossego definitivo, ele só havia encontrado mais algumas pessoas e tentava fazer amizade com elas. Mas ninguém queria ser seu amigo. No fim, ele acabou se deitando perto de mim até minha tour começar.

Quando começou o passeio, o cachorro começou a ir junto, o que deixou a guia meio puta da vida. Mas ela e os guardas conseguiram afastar o cachorro do setor onde as uvas são processadas para fazer o vinho inicial. Enfim teria um pouco de sossego.

Conhecemos então a máquina que processa as uvas moscatel, compradas de diferentes produtores da região, o que justifica a enorme produção de pisco deles. Essa máquina lembrava um enorme moedor de carne, onde a uva vira suco e segue por canos até enormes tanques de concreto para ser fermentada. Como o objetivo não é fazer um grande vinho, a fermentação é a mais curta possível. Depois fomos para onde acontece a destilação e o envelhecimento. Vemos apenas enormes tonéis de carvalho e um antigo alambique, que não funciona, mas serve de exemplo para mostrar como é feito o pisco. A guia nos explicou que nos últimos anos a empresa começou a guardar uma parte da produção para envelhecer em carvalho. Era uma linha chamada Alto del Carmen (nome de uma comuna – espécie de mini-estado – da região de Atacama), que até o momento possuía três versões de pisco: com envelhecimento de seis meses, um e dois anos.

Isso explicado, rumamos para a última parte do passeio: uma ida até a sala subterrânea onde poderíamos degustar diversos produtos deles. Poderíamos escolher entre todas as novidades, como a caipirinha de pisco e o pisco sour de manga e de limão pica. Provei a “caipirinha”, por sugestão da guia, e larguei o copinho quase todo cheio, já que era muito ruim. Pressionei, junto com outras pessoas, para provar o Alto del Carmen envelhecido dois anos. E não é que era muito bom mesmo. O pisco sour pré-fabricado (sabor limão) eu já havia provado antes. Ele é bom, mas não tanto quanto um feito na hora. Ainda sobrava beber o de manga, mas como não gosto muito de manga, nem toquei no copo que já estava servido.

Poderia ter provado também o pisco básico, de 35º de álcool, mas havia sido alertado por sr. Umberto, o dono do albergue onde estava hospedado que esse é o responsável pela dor de cabeça de muita gente que bebe pisco. Aliás, a guia nos mostrou o pisco de 35º que vem em uma garrafa em formato de moai e que custa mais caro que um Alto del Carmen. De todos os piscos que vi em duas semanas no Chile, realmente é a garrafa que mais se destaca, apesar de ser um pouco cafona. Após alguma pressão de todos os presentes, ela acabou confessando que é a mesma coisa do pisco mais básico “embalado para estrangeiros” (palavras dela).

Quando achava que já tinha acabado, vi na porta, caminhando para dentro da sala nosso velho amigo Pateta. Não sabia o que fazer, se corria, se dava um pouco de pisco para ver se ele ficava meio grogue ou se me conformava que aquele cachorro iria me seguir por um tempo ainda. Fiquei com a última opção. Consegui pelo menos convencê-lo a ficar deitado na entrada da casa enquanto fazia compras na loja. Levei uma garrafa de Alto del Carmen envelhecido por dois anos e uma bomba a vácuo para conservação de vinhos. Esta última acabou sendo presenteada ao amigo que me hospedou em Santiago.

Com a sacola nas mãos e pronto para voltar ao centro da cidade, chamei o cachorro. E não é que ele nem deu bola. Chamei mais uma, duas, três vezes e nada de ele vir atrás de mim. Ele só se deu ao trabalho de virar a cabeça para mim para depois baixá-la novamente. Decidi ir embora sem ele.

Quando cheguei ao portão, escutei um dos guardas gritanto:

Ei, ¡ su Perro!

No es mi perro”.

(Como meu espanhol ainda é muito fraco, tomo a liberdade de traduzir o resto do diálogo)

“Mas ele veio com você, então é seu cachorro”.

“Mas ele está me seguindo pela cidade, não é meu”

“Se veio com você, é sua responsabilidade”

E lá fui eu buscar o cachorro, que agora se recusava a me seguir. Só queria saber de ficar deitado. Nesse meio tempo, os funcionários da fábrica e as pessoas que participaram do passeio comigo ficavam só rindo. E eu sem saber onde enfiar a cara. A vergonha era maior do que se saísse trançando as pernas de bêbado, afinal de contas, esse era o comportamento esperado de alguém que ia fazer uma visita gratuita a uma fábrica de pisco, ainda mais com degustação grátis (da maioria dos produtos, diga-se de passagem) no fim.

Enfim um funcionário da Capel conseguiu convencer o cachorro a se levantar ameaçando de jogar uma pedra invisível nele. Dessa forma recomeçava a peregrinação pelas ruas da cidade ao lado do Pateta. O único problema é que nas redondezas da destilaria ele não parecia muito animado, provavelmente por estar longe de seu território e sentir ameaçado por todos outros cachorros da vizinhança.


                            Pateta, na melhor foto que consegui dele

Porém, a jornada e nosso relacionamento precisavam acabar. E isso começou a ser ensaiado assim que ele começou a se animar novamente e a latir para os carros que passavam. Numa dessas ocasiões, estava em frente a um mercado (um dos vinte numa cidade de 25 mil habitantes). Aproveitei então e corri para dentro, onde fiquei por volta de meia hora, tempo suficiente para perder o Pateta de vista. Até a noite pelo menos, mas isso já é uma outra história.

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