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Coraline: veja o filme, leia o livro
Por Katchiannya Cunha

Poucos dias atrás, chegou aos cinemas uma simpática animação stopmotion estrelada por uma garotinhas de cabelos azuis. Os traços e o estilo, não por acaso, lembravam algo de “James e o Pêssego Gigante” ou mesmo de “O Estranho Mundo de Jack”
Não por acaso exatamente pelo fato de serem todos esses três filmes dirigidos pelo sensacional Henry Selick. Pouca gente sabem, mas, apesar de Jack ser uma criação do Tim Burton (Noiva Cadáver) foi Selick quem dirigiu a película.
O filme agora lançado foi inspirado no livro homônimo do autor inglês Neil
Gaiman, que pode ser considerado um dos mais importantes escritores de
fantasia da atualidade, e ilustrado pelo genial Dave MacKean. Entretanto, ele começou sua carreira
como jornalista. Um dos seus primeiros trabalhos foi Violent
Cases, no qual ele traçava um paralelo entre a brincadeira
infantil da dança das cadeiras e o massacre de São
Valentino cometido por Al Capone. Essa foi a primeira vez em que
ele e Dave McKean trabalharam juntos.
Graças
a essa obra, ele e McKean conseguiram uma vaga na DC e realizaram
a minissérie Orquídea Negra - que está
sendo relançada no Brasil. Essa minissérie falava
sobre uma obscura super-heroína da editora e possibilitou
que eles alcançassem vôos maiores. Gaiman passou a
escrever a série mensal Sandman e McKean, além
de ser o capista oficial de Sandman e de Hellblazer,
também realizou o especial Asilo Arkhan, escrito
por Grant Morisson e estrelado pelo Batman.
Sandman,
que é considerada como a maior obra de Gaiman para os quadrinhos,
é uma das mais fascinantes histórias já publicadas
pela DC Comics, e foi, juntamente com o Monstro do Pântano
de Alan Moore, um dos catalisadores que possibilitou a criação
da linha de quadrinhos adultos da DC: a Vertigo. Além de Sandman, Gaiman também escreveu para os quadrinhos: Livros da Magia (estrelado por um jovem mago de 12 anos, dono de uma coruja e que usa óculos, muito antes de Harry Potter aparecer), Miraclemen, Angela, algumas minisséries estreladas pelos Perpétuos (personagens de Sandman), entre outras coisas.
Mas Gaiman não se contentou em escrever apenas para os quadrinhos. Graças ao seu talento, se saiu bem em praticamente tudo o que fez. Ele já escreveu livros de contos e poesias (Fumaças e Espelhos), séries de TV (Neverwhere), romances de fantasia (o premiado Deuses Americanos e o divertido Belas Maldições, mãos de Terry Gilliam), fábulas para adultos (Stardust), livros infantis (The day I swapped my dad for 2 goldfishes e Wolves in the Walls) e cinema, o roteiro de Beowulf é dele e a adaptação de Princess Mononoke para o inglês também. . Também ganhou diversos prêmios importantes, como o Eisner, World Fantasy Award, Brain Stocker Award, American Library Association's Alex Award e o Nebula.
Como
já disse, a parceria entre Gaiman e McKean é antiga
e começou em Violent Cases. Mais que parceiros profissionais,
Gaiman e McKean se tornaram grandes amigos e juntos realizaram Mr.
Punch, The day I swapped my dad for 2 goldfishes,
Sandman (a série) e Sandman Noites sem Fim
(McKean era o capista), Wolves in the Walls, entre outros.
Os dois trabalharam juntos em Mirror Mask, um filme ao
estilo de Labirinto, clássico dos anos 80, em que
Gaiman foi o roteirista e McKean foi o diretor, além
de ser também responsável pelo designer das personagens
e cenários. E há, é claro, Coraline.
Coraline
é uma obra especial para Gaiman. Ele começou a escrevê-la
cerca de 10 anos atrás para sua filha mais velha, Holly.
No livro, somos apresentados a Coraline Jones, uma garotinha que
vive em uma velha mansão com seus pais. Como muitas casas
antigas da Inglaterra, o casarão onde Coraline vive foi dividido
em pequenos apartamentos. Em um deles moram as senhoritas Forcible
e Spink, duas velhinhas simpáticas que já foram atrizes
de teatro. No sótão vive um estranho senhor que diz
treinar uma banda de música composta por ratos brancos.
Coraline é uma menina comum, um pouco mimada
(não gosta de experimentar comidas diferentes), e que detesta
que falem o seu nome errado ou que não prestem atenção
no que ela diz (o que acontece praticamente o tempo todo, pois os
adultos insistem em chamá-la de Caroline). Mas, antes de
tudo, Coraline é uma exploradora.
Em um dia de chuva, sem nada para fazer, seu pai
sugere que ela explore o apartamento, anotando, entre outras coisas,
o número de portas da casa. Coraline descobre que, das 14
portas do apartamento, uma não se abre. Depois que sua mãe
abre a porta com uma velha chave negra, primeiro a menina acredita
que a porta dá apenas em uma parede de tijolos.
Mas, ao destrancar a porta, a mãe de Coraline
abriu passagem para um mal antigo, que está atrás
da menina. Certa noite, Coraline abre novamente a porta, que agora
revela um longo corredor. Do outro lado, ela encontra uma outra
versão de sua casa, com uma outra mãe, um outro pai,
outros vizinhos, praticamente tudo igual, tirando o fato de que
lá todos sabem o seu nome, tudo é como ela mais gosta
e as pessoas que ela conhece têm reluzentes botões
negros no lugar dos olhos(!?).
Como
diz o velho ditado, quando a esmola é muita, o santo desconfia.
As coisas não são o que parecem e Coraline vai passar
por grandes apertos para sair daquele lugar, contando apenas com
sua coragem, sua habilidade de exploradora e a ajuda de um gato
preto.
O livro
traz de volta elementos clássicos da literatura infantil
inglesa, presente em obras de autores como Lewis Carroll (Alice
no País das Maravilhas e Alice no País dos
Espelhos) ou C.S. Lewis (Crônicas de Nárnia)
ou J.M. Barrie (Peter Pan). Tem em comum com esses trabalhos
o tema da criança que, através de um portal (um buraco
ou um espelho no caso de Alice, um guarda-roupa nas Crônicas
de Nárnia) ou de um artefato mágico (o pó
mágico de Peter Pan), encontra um lugar mágico
e fantástico, a princípio bastante agradável,
mas que se revela cheio de segredos sombrios e obscuros - especialmente
no caso de Alice e Peter Pan.
Gaiman
não é como muitos autores atuais, que pintam em suas
obras um mundo politicamente correto, florido e cor-de-rosa. Os
tons empregados em Coraline são negros e cinzentos. Há
passagens que certamente nos fazem estremecer de medo, mas também
não faziam isso os velhos contos infantis de outrora? Lembro-me
muito bem do meu horror ao saber que, na história do Pequeno
Polegar, o gigante decapitou suas sete filhas achando que era
o Polegar e seus irmãos, e ainda assim eu adorava essa história.
Ler Coraline me trouxe essa velha sensação
perdida em minha infância, um misto de medo e atração.
Por isso, só posso brindar à ousadia de Gaiman.
Com seu texto inteligente, ágil e envolvente,
Gaiman não subestima a capacidade dos seus leitores infantis,
criando uma obra que pode ser apreciada prazerosamente por platéias
de qualquer idade.
Quanto
às ilustrações de Dave McKean, não poderia
deixar de dizer que elas foram uma agradável surpresa. Como
assim? Bem, apesar de conhecer a obra desse artista há anos,
a maior parte de seu trabalho que eu conhecia era feito através
das técnicas de pintura ou uma mescla entre pintura e fotografia.
Em Coraline, McKean trabalha basicamente com desenhos em
preto, cinza e branco, feitos em nanquim e tinta, se eu não
me engano. Fiquei surpresa exatamente por ele dominar tão
bem técnicas tão distintas e ainda colocar sua marca
pessoal nas obras. Você vê uma capa de Sandman
ou uma página de Orquídea Negra, e depois
olha uma ilustração de Coraline, sabe imediatamente
que é Dave McKean, e o melhor, adora o que vê. É
difícil encontrar um pintor que também seja um excelente
desenhista. Em termos de comparação, Bill Sienkiewicz
(Elektra Assassina), por exemplo, é um pintor e
ilustrador fenomenal, mas seu trabalho como desenhista e arte-finalista
não me agradam nem um pouco. Cada vez mais me torno mais
fã do trabalho de McKean.
Os
desenhos em Coraline conseguem passar simultaneamente o
clima de conto infantil e de história de terror que os textos
de Gaiman demandam. Também gostaria de cumprimentar a tradutora
do livro, Regina de Barros Carvalho, pelo excelente trabalho feito,
ao respeitar a obra original e, ao contrário de certos tradutores,
não ficar trocando nomes próprios de personagens ou
abrasileirando coisas que não tem a mínima necessidade
de serem abrasileiradas, dada a universalidade do tema.
O filme mantém exatamente as mesmas linhas narrativas do livro, contudo, ser permite à mudanças de ritmo e a introdução de novos personagens: Wybie Lovat, vizinho da mesma idade de Coraline, e sua avô. Também altera a ocupação dos pais da protagonista e explicita alguns elementos sobre a mansão onde a garotinha se mudou com os pais
Eu, particularmente, não sou uma fã purista daquelas que se ressente porque determinado trecho do livro não foi literalmente transposto para a tela de cinema. Exatamente porque, da minha perspectiva, por mais que possam existir aproximações entre cinema e literatura (e muitos movimentos de vanguarda inclusive reforçam essa aproximação, mas discorrer sobre isso aqui é fugir do nosso tema), cinema e literatura são efetivamente meios diferentes. Cada um com recursos e gramáticas próprias, portanto, muitas são as vezes em que aquilo que fica maravilhosamente bem nos livros, pode ser tornar enfadonho e sem graça na telona.
E, no caso de Coraline, acredito que até o mais radical fã de Gaiman vai se render à forma meticulosa e bem amarrada que Selick adaptou a história, afinal, todas essas mudanças são exatamente para tornar visuais algumas explicações e situações que podem ser descritas formidavelmente em palavras, mas se tornariam enigmáticas visualmente.
Enfim,
Coraline é um livro para ser lido e relido diversas vezes,
sejam vocês adultos ou criançCoraline também é um filme que merece ser visto várias e várias vezes pelas mesmas razões.
. Se nenhum dos motivos que eu dei for suficiente para
te convencerem disso, basta lembrar que Coraline é
na verdade um conto de fadas e, colocando aqui uma citação
feita por Gaiman na introdução do livro, vocês
não poderiam achar motivo maior, afinal:
“Contos
de Fadas são a pura verdade: não porque nos contam
que os dragões existem, mas porque nos contam que eles podem
ser vencidos. (G. K. Chesterton)”
Nota A título de curiosidade, existe também um curta-metragem italiano, maravilhoso, inspirado em Coraline, quem se interessar em ver, basta clicar AQUI
Imagens do filme - Clique para ampliar
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