Feito Cães e Gatos







Volume 08 - Capítulo 18

Aquele em que Rika entra em cena










Tomoe abriu os olhos, a cabeça estava pesada, o corpo dolorido pela tensão que ainda se embolava em seu peito. Ela levantou-se com custo, mas sabia que não poderia evitar a angústia que sentia.

A vidente praticamente se arrastou pela casa, os olhos procurando Shigure à principio, mas o silêncio quase mórbido que preenchia o chalé, indicava que ela era a única ocupante no momento.

Finalmente ela alcançou a cozinha, percebendo que antes de sair para onde quer que houvesse ido, o amigo tivera a delicadeza de deixar o café da manhã preparado para ela.

Tomoe pegou o pão e o queijo que estavam no forno colocando-os na mesa, acendeu o fogão, deixando a água do chá ferver. Quando tudo estava preparado, ela se sentou, apoiando a cabeça em uma das mãos. Os olhos permaneceram perdidos, fitando o desjejum intocado e o chá que esfriava lentamente.

Ela apenas levantou o rosto ao escutar passos ecoarem pelo chalé. Sabia que não era Shigure. O caminhar era suave demais e baixo demais para pertencerem ao professor de astronomia.

Os cabelos vermelho-alaranjados de Rika se insinuaram no recinto, e Tomoe se esforçou para sorrir, mas foi uma tentativa inútil. A garota também sorriu, deixando seu olhar vagar por alguns instantes na figura da professora, com os cabelos soltos e bagunçados caídos sobre os ombros, o mesmo quimono com que a vira pela última vez no dia anterior amarrotado.

- Ohayo, Tomoe-san. Ojisan pediu para eu vir encontrá-la. A senhora está bem? - ela perguntou, sentando-se defronte à mulher.

A mulher soltou um suspiro, meneando a cabeça. Talvez houvesse razões para esconder de Rika o estado turbulento em que Tomoe se encontrava, afinal, a garota era a melhor amiga de Otsu e também deveria estar preocupada. Não seria justo jogar sobre a menina o fardo de ter de lidar também com a angústia da vidente. Contudo, a professora sentia não ter forças para aparentar um estado de espírito mais ameno.

- Não estou bem, Rika... nem sei quando vou estar. - Tomoe reconheceu.

A garota deu um pequeno sorriso, tímido demais para ser notado.

- Otsu-chan está bem, Tomoe-san. Eu tenho certeza que sim. Ela sabe se cuidar e se alguma coisa tivesse acontecido com ela, nós saberíamos. E, bem... Ojisan disse que a Myrai-no-kami não estava preocupada, então isso significa que ela já viu Otsu voltando para nós. De uma maneira ou de outra, ela vai voltar para nós. Então, só temos que ser pacientes, nee? - ela suspirou - Eu não achei que fosse ficar bem ontem... Eu estava tão preocupada... Mas Kitsune ficou comigo e Kitsune foi quem chegou a maior parte dessas conclusões, que não deixam de ser muito lógicas. A senhora também vai ficar bem. Eu tenho Kitsune para me ajudar e a senhora tem Shigure-ojisan. Nós vamos ficar bem.

Tomoe observou a moça com genuíno afeto. Desejava ter o otimismo e a inocência de Rika. Era ela quem estivera com Setsuna na noite anterior, era ela quem vira impressos nos olhos da irmã a frieza e o descaso em relação à própria filha. A vidente não acreditava que a aparente tranqüilidade de Setsuna se devesse à visões futuras. Talvez ela simplesmente não se importasse.

Otsu eventualmente voltaria para eles, Tomoe desejava acreditar nisso. Na realidade, no fundo da sua mente ecoava uma voz baixa, porém insistente, que lhe dizia aquilo. A questão - e a verdadeira razão para o tormento da mulher - era em que estado a sobrinha retornaria.

Contudo, a professora tinha que concordar com Rika em duas coisas. A primeira é que Otsu sabia se cuidar. Ela era uma menina forte. Depois do que acontecera no ano anterior, Tomoe soube que qualquer que fosse os obstáculos que surgissem na frente da hime, ela seria capaz de enfrentar. Se conseguiu sobreviver àquilo, seria capaz de encarar qualquer outro infortúnio.

A segunda é que, realmente, Tomoe tinha Shigure para ampará-la. Este último pensamento fez com que uma leve curiosidade se insinuasse nos pensamentos da mulher.

- Aonde Minamoto foi, Rika?

- Ele foi a Suzuko. Tentar descobrir alguma coisa a mais sobre o paradeiro de Otsu-chan. Ele pediu para que eu viesse vê-la, já que tinha de sair cedo para poder pegar a barca e disse que sentia muito por não poder estar aqui quando você acordasse.

Ok, aquela última parte não chegava a ser verdade; ainda que Rika soubesse que, inconscientemente, o tio certamente sentia muito por não poder estar com Tomoe. Mas o que importava era a intenção...

Pela primeira vez desde o começo da conversa, um esboço de sorriso se insinuou no rosto da mulher. Talvez Shigure realmente conseguisse descobrir algo sobre o paradeiro de Otsu, talvez ele conseguisse alcançar a hime antes que a moça se afastasse demais. Se existia alguém que poderia fazer aquilo, Tomoe acreditava, que este alguém era Shigure.

- Está tudo bem, Rika. - a professora sorriu mais uma vez para no instante seguinte, cair novamente em um mutismo quase apático.

Por mais que a companhia da mais jovem dos Minamoto fosse sempre um alento, Tomoe não conseguia saber o que mais poderia dizer à menina. Rika, contudo, parecia ter idéias próprias sobre o assunto.

- Se a senhora não comer, ojisan vai achar que não cuidei direito da senhora. - ela sorriu de leve - Não precisava conversar se não quiser, Tomoe-san, eu sei que é difícil... Mas a senhora precisa comer e se preparar para as aulas hoje. Precisa ser forte por um pouco mais de tempo.

A vidente assentiu de leve. Enquanto a ruivinha se levantava para requentar a água do chá, Tomoe se esforçou para comer um pouco do pão e do queijo que Shigure separara para ela. Rika estava certa. Tomoe precisava se manter forte, precisava tentar manter as esperanças de que muito em breve voltaria a aninhar sua chibi em seus braços.

Glossário
Ohayo - bom dia
ojisan - tio
hime - princesa
chibi - pequena