Capítulo 02

Cinco motivos para a impaciência de Nori










Sayuri sorriu, os olhinhos brilhando na penumbra da sala de rádio. Na boca, uma chave de fenda com ponta em formato de estrela, enquanto outra, de haste consideravelmente mais fina, encontrava-se enganchada em cima de sua orelha, como se fosse uma caneta. As mãos, a essa altura completamente sujas de graxa, desatarraxavam com cuidado os últimos parafusos de um dos amplificadores que utilizava nas transmissões.

Finalmente ela removeu a placa que protegia o aparelho e, com os olhos púrpuras brilhando de excitação, observou os circuitos que tinha diante de si.

Não demorou mais que cinco minutos para descobrir o defeito: uma das placas estava queimada. Delicadamente, ela fechou os circuitos para não danificar ainda mais o aparelho, conseguindo tirar a placa e, enquanto a colocava de lado para poder estudá-la mais tarde, procurava em sua caixa de ferramentas um pacote de placas novas que comprara na última visita a Asahikawa.

Estava terminando de abrir os contatos quando ouviu a porta da sala abrir e fechar com violência, fazendo-a pular de susto. Estreitando os olhos, ela limpou o pouco suor que tinha na testa - sujando-se de graxa no processo - e recolocou seus óculos de lentes laranjas - que, naquele dia, estavam combinando com os cabelos.

- Nori-kun? - ela perguntou ao reconhecer o visitante, soltando um suspiro de alívio ao reconhecê-lo - O que está fazendo aqui?

O rapaz tentou tomar fôlego por alguns instantes, antes de notar a situação de Sayuri. Ela tirara o casaco e a gravata do uniforme e folgara a blusa, deixando os primeiros botões entreabertos. Os cabelos caíam em cachos sobre os ombros e ele podia enxergar o brilho curioso dos olhos dela, mesmo através das lentes coloridas.

- Say-chan... - ele começou, ainda esbaforido.

- Sim?

- Você aceita sair comigo?

Sayuri tirou os óculos, observando-o com a boca ligeiramente aberta.

- O quê?

Nori respirou fundo mais uma vez. Sua paciência estava muito próxima do limite. Também, pudera, ele tinha motivos de sobra para tanto, afinal...

I – no começo daquele maldito ano, ele tinha se apercebido do fato insano de que estava gostando da colega e amiga de longa data, Katsuo Sayuri;

II – na mesma ocasião ele se convencera de que Koji também gostava de Sayuri, e que, possivelmente, eles tinham alguma espécie de romance secreto, visto o tempo que passavam juntos por conta do rádio e do jornal;

III – entre as opções de brigar com um amigo e acabar com a banda para ficar com uma garota e simplesmente deixar aquilo quieto e continuar tudo do mesmo jeito de sempre, ele preferira a segunda alternativa;

IV – agora Koji aparecera-lhe com a história de que estava namorando a Rostand, o que significava que suas teorias anteriores estavam incorretas e, não bastasse o fato de ele detestar estar errado, seu erro significara também perder um ano inteiro quando poderia tê-lo aproveitado muito bem com Say-chan e, para completar,

V – Sayuri não iria compreender tão cedo o que estava acontecendo e ele também não estava com tempo sobrando para explicar, porque tinha até o final daquele ano para resolver as coisas ou desistir de uma vez da colega... e a segunda opção não era válida.

- Você quer sair comigo? - ele perguntou mais uma vez. – ‘Tá difícil ou quer que eu soletre?

- Por quê? - ela perguntou, tentando compreender o que raios estava acontecendo ali.

Ele girou os olhos e traçou os passos que faltavam até a menina. Parando na frente dela, o vocalista abaixou-se até ficar com o rosto na altura do de Sayuri, que se encontrava sentada no chão. Quando era impossível que a face dele chegasse mais perto da jovem sem de fato tocá-la, Nori falou:

- Como assim por quê? É porque eu gosto de você.

- Ahn... certo. – ela respondeu, mas na verdade não poderia estar se sentindo mais perdida.

Nori afastou-se dela com um sorriso.

- Ótimo. Asahikawa, então?

Sayuri assentiu com um gesto de cabeça, quase sem perceber o que havia feito, mas fora o suficiente para fazer com que o rapaz deixasse a sala sentindo-se incrivelmente satisfeito.

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Megumi mordeu a ponta da caneta, olhando pensativa para as duas amigas, entretidas com as cartas que ela trouxera naquele dia para que lessem. Sayuri fazia seu trabalho, compenetrada, mas Hilde parecia ligeiramente aérea, brincando com os clipes sobre a mesa, mordendo os lábios de tempos em tempos.

- Ok, minna-san, vamos fazer uma pausa. - ela largou os papéis que segurava, espreguiçando-se, forçando para trás a cadeira em que estava sentada.

Sayuri a encarou através da cortina de cabelos lilases que caíra sobre seu rosto.

- Mas você ainda não escolheu quais cartas vai responder esse mês.

- Não é como se fosse um trabalho muito imprescindível. - a morena respondeu, balançando a mão. - E já faz algum tempo que não podemos nos sentar e conversar sobre as novidades que têm acontecido por aqui. Não é mesmo, Hilde-chan?

Embora tivesse corado ligeiramente, a sextanista apenas sorriu. Sayuri, por sua vez, afastou a franja de cima dos olhos, enquanto apoiava o rosto sobre a mão.

- Muito bem... Sobre que novidades vamos discutir? As férias que estão chegando? As provas que virão em janeiro? O futuro? O fato de Koji-kun finalmente ter despertado para nossa querida fotógrafa? O anúncio do seu casamento com o Aki?

Megumi revirou os olhos.

- Eu não vou me casar com o Akiroki, Sayuri. Pelo menos, não por agora.

- Não por falta de insistência dele, óbvio. - Hilde observou, antes de se voltar para a radialista, séria. - Say-chan, você vai continuar aqui ano que vem?

A setimanista meneou a cabeça.

- Eu tinha pensado de início em prestar os testes para o Tanteidan agora no final do ano e, dependendo do resultado, cursar uma especialização... Mas eu não sinto muita vontade de ter uma rotina tão rígida... e meu pai me convidou para trabalhar com ele na editora.

- Bem, quando eu sair daqui, vou tentar alguns contatos com uns conhecidos da família... - Megumi suspirou. - Ainda não sei se sigo na dança mesmo ou se entro de cabeça na proposta do oniisan de agenciar as exposições dele.

- Você está falando do pai do Ayami? - Hilde perguntou. - Você já organizou uns três coquetéis de abertura de exposições dele.

Megumi assentiu.

- Ele disse que eu levo jeito para a coisa. - ela respondeu, dando de ombros. - Mas e você, Hilde-chan? Conte-nos tudo, não nos esconda nada. Como vai ser com o Koji?

- Como assim "como vai ser"? - ela perguntou, lembrando-se da conversa totalmente inconveniente que tivera alguns dias atrás com as amigas e rezando para que Megumi não seguisse pelo mesmo caminho.

Sayuri sorriu de lado.

- Calma, Hilde... Ela não está pensando se terá que devolver a chave do quarto do Koji ainda...

Megumi, cruzou os braços, enquanto Hilde corava.

- Como você sabe? - Megumi perguntou, arqueando uma sobrancelha.

Sayuri piscou um olho.

- Segredo... mas não é muito difícil de imaginar vendo você rondando o dormitório dos meninos, arrastando o pobre Aki com você...

- Hum... Acho que tenho que ser mais discreta então... - Megumi suspirou, virando-se para Hilde. - Bem, considerando o pouquíssimo tempo que nos resta aqui na escola, não acho que vá dar tempo deles fazerem alguma coisa.

- Podemos trocar de assunto? - Hilde perguntou, ainda vermelha. - Alguém pode me explicar como é que as coisas sempre acabam nesse ponto? Não faz nem uma semana que começamos a namorar e todo mundo já...

- Você é muito inocente, Hilde-chan... - Megumi observou, balançando a cabeça de modo a enfatizar suas palavras. - Sinto informar-lhe que, por mais doce e gentil que Koji-kun possa ser, os meninos sempre acabam por pensar nisso. O que me lembra... Say-chan, é verdade que Nori te chamou para sair?

- Hai. - ela afirmou, sem entender porque Megumi citara isso. - Vamos na véspera do Natal à Asahikawa. Acho que ele quer ajuda para comprar alguma coisa.

- É, eu sei com que ele quer ajuda... - Megumi respondeu, baixinho, de modo que apenas ela mesma ouviu seu comentário. - Mas, voltando, Hilde, o que eu estava querendo perguntar é como vai ser daqui por diante, porque o Koji vai sair da escola, e você ainda tem um ano pela frente. Dois, se quiser se especializar.

- Serão dois, Megumi, e não porque eu vá querer fazer especialização. - Hilde respondeu, séria. - Eu vou deixar a escola no final do sétimo ano, mas porque vou passar o ano seguinte todinho na Inglaterra.

- Por que isso? - Sayuri perguntou.

- Porque eu ainda sou descendente direta dos MacFusty. Portanto, a tradição é válida para mim também. O Ryl terá que passar o próximo ano nas Hébridas. Quando ele voltar, será minha vez de ir fazer meu super estágio como domadora de dragões.

- Mas você quer ser domadora? - foi a vez de Megumi questionar.

- Iie, mas eu não posso escapar a esse um ano. É a tradição. - Hilde suspirou. - Pelo menos tem a Mina por lá.

- Bem, não se preocupe, Hilde-chan, nós cuidamos do Koji para você! - Megumi exclamou, sorrindo.

- Quem vai cuidar de mim?

Três pares de olhos ergueram-se para a porta, por onde o sempai do clube de jornalismo acabara de passar, segurando com certa precariedade uma bandeja repleta de sanduíches e uma grande garrafa de café. Hilde sorriu quando ele parou ao lado dela, depositando a bandeja sobre a mesa, antes de se inclinar junto ao seu rosto, roubando um beijo rápido dos lábios da namorada.

- Estávamos conversando sobre o futuro, Koji. - Sayuri respondeu. - E nos comprometemos a ficar de olho em você quando a Hilde tiver que ir para a Inglaterra.

Koji sorriu.

- E por que vocês teriam que ficar de olho em mim?

- Para que suas fãs malucas não arranquem suas calças pela cabeça. - Megumi respondeu, ao que Hilde e Koji se encaravam, incertos sobre o que responder àquele último comentário. - Ok, pausa para o café.

- Eu pensei que já estávamos em pausa. - Sayuri observou.

- Estamos em pausa ao quadrado. - a sempai de dança deu de ombros. – E, depois, voltamos às cartas...