
Capítulo 01
A lerdeza do líder-sama
Koji, ensopado dos pés à cabeça, abriu a porta da sala de ensaios do clube de música para dar de cara com o rosto de Kazuhiko que, coincidentemente, também tentava abrir a porta no mesmo instante.
- Nossa, até que enfim! Eu já estava indo atrás de você, sabia? Achei que talvez tivesse sido abduzido ou algo assim. Você sabe, essas bandas concorrentes são meio doidas, e ninguém ficou muito feliz quando ganhamos o torneio de bandas de novo. Quero dizer, nós ficamos felizes... E quem votou em nós ficou feliz também. Mas quem perdeu para nós não deve ter partilhado de tal alegria. Ou então você poderia ter sofrido algum acidente. Koji-chan, sabia que a chance de se escorregar na calçada, cair, rachar o crânio e morrer praticamente triplica em dias chuvosos como este?
O sempai suspirou ao ouvir todo o falatório do guitarrista.
- Shiro, será que você pode dar um jeito nisto? – pediu Koji, indicando Kazu, que ainda continuava com o seu monólogo.
- Ei! – o loiro protestou, cruzando os braços e fazendo uma cara emburrada.
No entanto, Kazu não reclamou quando o outro guitarrista levantou-se de seu lugar no sofá da sala de ensaios e parou ao seu lado, envolvendo seus ombros em um meio abraço.
-Vamos lá, Kazu, deixe o Koji em paz por um instante. – disse Shiro, caminhando de volta para o interior da sala e trazendo Kazuhiko consigo.
- Eu estava apenas sendo um bom amigo e alertando-o. Sem falar que, molhado desse jeito, ele pode muito bem acabar pegando uma gripe. Ou uma pneumonia e então eu teria que propriamente notificar os pais dele que o seu único e querido filho encontra-se delirando em seu leito de morte na enfermaria de Amaterasu.
Nori girou os olhos, começando a se irritar com o falatório trágico do amigo.
- Ah, Kazuhiko, fica quieto. Julgando pelo sorriso de besta estampado na cara do líder-sama, parece que ele está muito satisfeito em ter tomado chuva.
O loiro estreitou os olhos, encarando a pequena figura do vocalista, que remexia em alguma coisa nas caixas de som no fundo da sala. Antes, porém, que pudesse retorquir, Shiro deu-lhe um leve beliscão no braço e um olhar que dizia com todas as letras para que ele não respondesse. Bufando, Kazuhiko afastou-se do moreno, indo sentar-se junto de Aki no sofá.
Koji meneou a cabeça com um sorriso, observando a interação de sua banda. Todo ensaio era a mesma coisa. Kazuhiko começava a falar e falar, até que Nori ficasse irritado e o mandasse calar a boca; embora todos soubessem que, na verdade, o vocalista não estava realmente bravo. Era apenas o jeito não tão carinhoso de ser dele... Mas Nori e Kazu eram amigos a tempo demais para se deixarem levar por essas querelas triviais.
- Ei, Koji-kun, vai ficar plantado aí até quando?
O baterista piscou, a voz de Nori arrancando-o de seus pensamentos. Quando ele olhou para os companheiros de banda, já em pé e com os instrumentos a postos, notou que os quatro tinham sorrisos marotos desenhados nos seus lábios.
Desculpando-se, Koji fechou a porta atrás de si e finalmente entrou propriamente na sala. Mas mesmo após ter executado um encantamento para secar suas roupas (realmente, a história de pneumonia de Kazu não havia lhe parecido nada convidativa) e se posicionado atrás de sua bateria, o rapaz ainda encontrou seus amigos fitando-o com os mesmos sorrisos.
- Está bem, o que foi? – perguntou ele, abaixando suas baquetas.
Aki desviou o olhar dele, rindo um pouco.
- Nada, nada...
- Que nada porcaria nenhuma. – interveio Nori. – Acho que o que todos nós aqui estamos ávidos para saber é que tipo de catástrofe fez o líder-sama atrasar-se para um ensaio que ele mesmo marcou?
Koji cruzou os braços, incrédulo.
- Nori-kun, falando desse jeito parece até que isso nunca aconteceu.
- Mas isso NUNCA aconteceu. – Kazu e Nori responderam em uníssono.
Shiro preferiu fingir que não estava ouvindo aquele interrogatório, e Aki resolveu seguir pela mesma deixa.
O baterista suspirou. Bem, ele não pretendia esconder aquilo dos amigos por muito tempo mesmo. Na verdade, quanto antes compartilhasse a novidade com eles, melhor seria.
- Ok, ok. Eu estava com a Hilde-chan. Satisfeitos?
Nori meneou a cabeça.
- Koji, Koji... Desse jeito nós ficamos com ciúmes, sabia? Parece até que você dá mais importância para o Tsuru do que para a nossa banda. – disse o vocalista em um tom irônico, porém ainda deixando claro que era uma brincadeira.
Despercebidos por Koji e Nori, os outros três membros do Maggots trocaram olhares cúmplices entre si, confirmando algo que os três haviam notado: um certo brilho diferenciado que havia perpassado os olhos do baterista ao mencionar Hilde.
- Na verdade, Nori-kun, eu não estava tratando de assuntos do jornal; pelo menos não dessa vez. – Koji respondeu com um sorriso misterioso.
Noriko piscou, visivelmente confuso. Atrás dele, Kazuhiko tentava esconder o riso entre as mãos. Será possível que apenas o vocalista não houvesse percebido o que estava acontecendo?
- Eu estava tendo um encontro com a minha namorada, Nori-kun. – o baterista finalmente completou, tendo agora um sorriso maroto idêntico ao que os seus amigos portavam anteriormente.
Nori franziu a testa... Namorada? Demorou pelo menos uns dois ou três segundos para que a palavra fizesse sentido em sua mente e ele arregalasse os olhos, naquele dia com lentes de contato azul-gelo.
- Peraí, você está namorando com a Rostand??!
Koji quase se sentiu sem graça com a expressão incrédula no rosto do amigo. Tudo bem, Hilde era mais nova do que ele - era irmã de Rylan - mas mesmo assim... Será que a idéia dele namorando a fotógrafa parecia tão absurda e inconcebível assim?
- Sim. Eu já gosto dela tem bastante tempo, na verdade...
- Desde quando? – Nori interrompeu-o de maneira urgente.
- Quando? Ahn... – Koji coçou levemente a cabeça, tentando lembrar-se de uma data com precisão. – Desde o começo desse ano letivo, eu acho...
- Seu LERDO! - todos na sala viraram suas cabeças para o vocalista após aquele grito. Koji tinha os olhos tão arregalados que pareciam prestes a pular das órbitas. - Eu não acredito que você me fez perder quase um ano inteiro! Argh!
Depois de um girar de olhos frustrado, Nori deu as costas para o baterista e caminhou pisando duro até a porta, a qual foi batida com força após ele ter saído da sala.
Desistindo de esconder, Kazuhiko deixou a gargalhada fluir solta. Shiro ponderava que, no final das contas, o ensaio deles já era. Aki tinha os pensamentos no dormitório, tentando decidir que camisa usaria para o encontro com Megumi que teria naquela noite... E Koji continuava sentado atrás de sua bateria, perplexo demais para pensar em qualquer coisa.