(Con estas palabras comienza la narración que el jeque Abú Abdallati Muhammad Ibn Abdalah Ibn Muhammad Ibn Ibrahin Al Klawatti, conocido como Ibn Batutta a lo largo de los ciento veinte mil kilómetros que pasaron bajo sus plantas, dictó hace más de seiscientos años.)
«... Durante mis viajes, que aún no finalizan – sólo el Insondable sabe qué es lo que busco y si habré de encontrarlo algún día –, conocí a tres clases de viajeros: primero están los piadosos peregrinos. Que el Generoso vele por ellos. Luego vienen los serenos comerciantes que siguen la huella de las caravanas. Que el Perfecto cuide sus bienes y los multiplique. Y finalmente están aquellos que suspiran contemplando el indefinible horizonte del mar. Extraños hombres sin apego a los bienes que Alá les dispensa. Prefieren depender de su voluntad durante las horrorosas tormentas a disfrutar de la amorosa hospitalidad del bazar. Sus almas encuentran mayor sosiego en el pavoroso rugir del viento que en la piadosa voz del iman anunciando el tiempo de oración desde lo alto del minarete. Que el Misericordioso alivie sus penas y las mías, porque a éstos los siento mis hermanos...»
«O que eu quero principalmente é que vivam felizes».
- Não lhes disse talvez estas palavras, mas foi isto o que eu quis dizer. No sumário, pus assim «Conversa amena com os rapazes». E pedi, mais que tudo, uma coisa que eu costumo pedir aos meus alunos: lealdade. Lealdade para comigo e lealdade de cada um para cada outro. Lealdade que não se limite a não enganar o professor ou companheiro: lealdade activa, que nos leva, por exemplo, a contar abertamente os nossos pontos fracos ou a rir só quando temos vontade (e então rir mesmo, porque não é lealdade deixar então de rir) ou a não ajudar falsamente o companheiro.
«Não sou, junto de vós, mais do que um camarada um bocadinho mais velho. Sei coisas que vocês não sabem, do mesmo modo que vocês sabem coisas que eu não sei ou já esqueci. Estou aqui para ensinar umas e aprender outras. Ensinar, não: falar delas. Aqui e no pátio e na rua e no vapor e no comboio e no jardim e onde quer que nos encontremos».
Não acabei sem lhes fazer notar que «a aula é nossa». Que a todos cabe o direito de falar, desde que fale um de cada vez e não corte a palavra ao que está com ela.
Excerto do livro “Diário” de Sebastião da Gama (1958)
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«Saida maka ha’u hakarak liuliu maka imi moris haksolok».
- Ha’u la dehan liafuan hirak-ne’e duni karik, maibé ha’u-nia intensaun maka hatete ida-ne’e. Iha sumáriu aula nian, ha’u hakerek hanesan ne’e «Konversa halimar ho labarik sira». No ha’u husu, liu buat hotu-hotu, buat ida ne’ebé ha’u toman husu ba ha’u-nia alunu sira: laran-moos. Laran-moos ba ha’u no laran-moos husi ema ida-idak ba ema sira seluk. Laran-moos ne’ebé la signifika de’it la lohi profesór ka kolega: laran-moos badinas, ne’ebé lori ita, porezemplu, atu dehan-sai kedas no la subar ita-nia pontu fraku sira ka atu hamnasa bainhira ita sente vontade de’it (no entaun hamnasa duni, tanba la’ós laran-moos se entaun ita la hamnasa) ka atu la ajuda-bosok ita-nia kolega.
«Ha’u la’ós, iha-ne’e ho imi, hanesan buat seluk selae kamarada boot liu imi uitoan. Ha’u hatene buat oioin ne’ebé imi la hatene, hanesan mós imi hatene buat oioin ne’ebé ha’u la hatene ka ha’u haluha tiha ona. Ha’u iha-ne’e atu hanorin buat balu no aprende buat seluk. Hanorin, lae: ko’alia kona-ba buat sira-ne’e. Iha-ne’e no iha rekreiu no iha lurón no iha ró-ahi no iha komboiu no iha jardín no iha ne’ebé de’it bainhira ita hasoru malu».
Ha’u la remata molok ha’u fó-hatene ba sira katak «aula ita hotu nian». Ema hotu-hotu iha direitu atu ko’alia, se ida-idak ko’alia iha ninia tempu no la korta netik liafuan ba ema ne’ebé ko’alia hela.
Parte husi livru “Diário” husi Sebastião da Gama (1958) – tradusaun husi JP Esperança ho Emília Araújo, publika tiha iha «Jornal Lia Foun», Díli (Timor-Leste), Edições Média Alta,Lda, ano 0 (nº 23), 19 de Agosto de 2005, p. 15
Sindhi Woman
Barefoot through the bazaar,
and with the same undulant grace
as the cloth blown back from her face,
she glides with a stone jar
high on her head
and not a ripple in her tread.
Watching her cross erect
stones, garbage, excrement, and crumbs
of glass in the
I, with my stoop, reflect
they stand most straight
who learn to walk beneath a weight.
Jon Stallworthy (born in 1935)
Oração de S. Francisco
“Senhor
Fazei de mim um instrumento da Vossa Paz:
Onde houver ódio, que eu leve o Amor;
Onde houver ofensa, que eu leve o Perdão;
Onde houver discórdia, que eu leve a União;
Onde houver dúvida, que eu leve a Fé;
Onde houver erro, que eu leve a Verdade;
Onde houver desespero, que eu leve a Esperança;
Onde houver tristeza, que eu leve a Alegria;
Onde houver travas, que eu leve a Luz.
Senhor,
Fazei que eu procure mais:
consolar que ser consolado,
compreender que ser compreendido,
amar que ser amado.
Pois é
dando que se recebe,
é perdoando que se é perdoado,
é morrendo que se ressuscita para a Vida Eterna!”
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(tetun)
S. Fransisku nia Orasaun
“Na'i
tulun ha'u ba dame, fó pás ba ema:
Iha ne'ebé odi malu, Na'i, halo ha'u lori Domin;
Iha ne'ebé aat ba malu ha'u lori Perdaun;
Iha ne'ebé hirus malu, Na'i, ha'u lori Uniaun;
Iha ne'ebé neon la metin, halo ha'u lori Fé;
Iha ne'ebé lia la loos, Na'i, ha'u lori Lia-loos;
Iha ne'ebé hein la metin, ha'u lori Esperansa;
Iha ne'ebé laran susar, Na'i, halo ha'u lori ksolok;
Iha ne'ebé rai-nakukun, ha'u lori naroman.
Na'i,
Tulun ha'u haksolok ema
Hodi la simu ksolok,
Fó laran, rona ema,
Hodi la simu ema nia laran-luak:
Hadomi ema hodi la simu domin.
Tan hodi fó mak sei simu;
Hodi perdua mak sei hetan perdua;
Hodi mate mak sei hetan moris,
ba moris rohan-laek!”
Depois daquela vitória, foram ao bar da esquina festejar a certeza de que não só o trono da Lunda estava salvo, mas também o seu espectáculo. A Directora declarou hoje sou eu que pago e todos aplaudiram. Lu e Cândido estavam sentados lado a lado, depois Jaime e Olga, a Directora e os outros. Faltava Afonso Mabiala, mas tem uns dias já que anda desaparecido, embora me tivesse dito que hoje ia aparecer sem falta para me pagar umas despesas fiadas. E é muito dinheiro, confidenciou o dono do bar aos bailarinos, ele bebe e mija, bebe e mija, bebe e mija. No meio compõe umas músicas.
- Não assuste – disse Jaime. – Ele vai receber bué agora.
- Espero que não gaste tudo antes de me pagar.
- É preciso ser indulgente para os génios – disse Lu.
- E não tenho sido? – perguntou o dono do bar. – Até o deixo dormir aí nos fundos quando não aguenta ir para casa... E aqui para nós, é mesmo um génio. Quase choro ao ouvir as músicas dele.
Foi buscar as cervejas e cafés, pausa aproveitada pela Directora para falar:
- Podemos dizer o espectáculo está pronto. Mais uma semana para limar as arestas e depois, ensaio geral. Haka, se soubesse nunca me tinha metido nesta, vejam o que emagreci.
- Deixe disso – falou Jaime. – Até gostou. E fica melhor assim magrinha. O seu marido que o diga.
- Este aqui deu-nos trabalho – disse a Directora, apontando para o Cândido. – Primeiro que descobríssemos o mambo, eu quase desesperava.
- O mal é que vocês não conheciam os Cuvale, só de nome. Nós somos seres independentes, sempre fomos. Para nos dominarem, só massacrando. E renascíamos. Como queriam aprisionar um cuvale com as vossas marcações? Obrigar-me a fazer uma pirueta quando eu estava mesmo a ver tinha era de saltar! Enfim, compreenderam.
- Mais um a engrossar a tribo dos anarquistas – suspirou Jaime. – Como querem fazer um país com cada um a agir como pensa e se marimba para o colectivo, para as regras seculares e sagradas?
- Aqui não estamos a fazer país nenhum – disse Lu. – A arte não tem que o fazer, apenas reflecti-lo.
- Frase profunda – disse Jaime. – Talvez falsa, mas quimporta? E estou de acordo. Não percebeste a ironia, Lu. Eu queria era fustigar os dogmas, un, deux, foueté, un, deux, trois, quatre, plié…
- Eu sei, Jaime. Por isso te inscreves na corrente do realismo animista...
- É. O azar é que não crio nada para exemplificar. E ainda não apareceu nenhum cérebro para teorizar a corrente. Só existe o nome e a realidade da coisa. Mas este bailado todo é realismo animista, duma ponta à outra. Esperemos que os críticos o reconheçam.
- Questória é essa? – perguntou Cândido.
- O Jaime diz a única estética que nos serve é a do realismo animista – explicou Lu. Como houve o realismo e o neo, o realismo socialista e o fantástico, e outros realismos por aí.
- Hum, estou mais ou menos a ver – disse Cândido.
- Ainda bem – disse Jaime. – Porque às vezes eu não vejo. Mas isto que andamos a fazer é sem dúvida alguma. E se triunfamos é graças ao amuleto que a Lu tem no pescoço. Ela não quer contar a estória, mas que é um amuleto ela não pode negar.
- Claro que é – disse Lu, muito rápido. – Só que se contar, talvez ele perca o efeito.
- Disparate! – disse Cândido. – Se o espectáculo resulta, é porque vocês todos tinham capacidades e energias até aqui ignoradas. E acreditaram em vocês próprios. Vontade, muita vontade, foi esse o feitiço.
Um dos bailarinos que veio do Dundo pediu disciplinadamente a palavra, levantando o braço, dá licença? Todos olharam para ele, permitindo-lhe a fala:
- Sou vosso mais velho. E já vi muita coisa. Na Lunda então, que é terra de mistérios... Não dá pra duvidar. E esse amuleto eu conheço, é dos mais velhos, não é?
- É – disse Lu.
- Esse tem muita força.
- Ora – interrompeu Cândido. – Andaram vocês a fazer esse esforço todo, a lutar contra tudo e contra todos e agora dão o mérito só a um bocado de pau. Não acham que é modéstia demais?
- Anarquista e materialista! – disse Jaime. – Já viram o que nos saiu na rifa? E espantem, vindo dos desertos, onde nada se faz sem uma cerimónia sagrada.
- Estás a brincar e eu estou a falar sério, Jaime.
- Olha, Cândido – interrompeu Lu. – Eu também não acredito...não acreditava, agora já nem sei...O certo é que começou tudo a sair melhor. Ou quase tudo...
- Te deu confiança, só isso. Quando se acredita que se consegue fazer alguma coisa, é já meio caminho andado. Mas uma vaca não consegue parir um leão, com todos os amuletos que se lhe ponha ao pescoço.
- Oh, as vacas tinham de vir – disse Jaime. – Ou não se tratasse dum cuvale.
- Cada um usa os exemplos que conhece. Desculpa se tenho pouco conhecimento citadino. Sou um criador de gado, mas não acredito nessas magias de que tanto falam. Estudei o suficiente para entender a raiz das coisas.
- OK, OK, não te zangues, cada um fica com as suas crenças. Mas que só podia ser o realismo animista a contar a estória de Lueji, isso não podes negar.
- Obscurantismos! – refilou Cândido, meio irritado.
Lu lhe segurou na mão por cima da mesa, calma, essas coisas não devem ser discutidas, nunca se chega a lado nenhum. Depois retirou a mão, porque todos os olhavam, admirados. Lu não era muito desses gestos de ternura para os amigos, havia já algo por trás? Não, não havia, foi um gesto irreflectido, apenas. No entanto, Jaime ficou pensativo.
- De qualquer maneira, agora que as coisas estão a correr bem, Lu, não abandones o amuleto – disse a Directora. – Ninguém acredita nisso, mas mal não faz. Cágado sábio morre velho...
- Não faz mal! – disse Cândido. – Vocês não entendem. Realmente os citadinos nunca deixam de me surpreender. Vivem numa metrópole onde aparece gente de todo o Mundo, vêem cinema e televisão de todo o lado. Deviam ter um espírito científico, ainda mais porque estamos a meses do ano 2000. E afinal querem desenterrar crenças que só atrasam...
- Desenterrar? – falou Olga pela primeira vez. – Elas estão aí, como desenterrar?
- Sim, tens razão – concordou Cândido. – Desenterrar é palavra imprópria. Querem reforçar, assim está melhor. As religiões só amarram o homem. Nunca estiveram no campo, não é? Pois não sabem o que se faz em nome dessas crenças e religiões. O homem é impotente perante a Natureza, deixa se subjugar por ela, não há nada a fazer, os espíritos é que sabem se deve chover ou não, o deserto avança e o gado morre, são os espíritos que eu querem porque alguém cometeu um crime contra eles. E as obras necessárias não se fazem e o homem continua escravo da Natureza ou dos outros homens mais poderosos. Os tais que defendem as tradições para que tudo se mantenha na mesma e eles conservem ou reforcem o seu poder sobre a sociedade. Isto não é teoria, passa-se ali na minha região. E nas outras. E venho para Luanda, onde deviam nascer as ideias mais avançadas, e afinal o que vejo? Intelectuais, artistas, rezando aos deuses ou com amuletos ao pescoço. E perdendo a confiança em si próprios, perdendo até o amor-próprio, subjugados a vontades de cazumbis. Francamente!
Ninguém replicou. Eram palavras magoadas, ditas em tom sério mas sem agressividade. Não ficaram chocados, apenas reflectindo. Cândido continuou:
- O bailado é bom porque se juntaram vontades e talentos fora do comum. Vocês são mesmo bons e criaram uma coisa bela. Não diminuam o valor do vosso trabalho. Deixem que os outros o diminuam, por todas as razões obscuras que conhecemos. Não sejam vocês a ver defeitos no vosso filho.
- Porque te pões de fora? – perguntou Lu.
- Porque já apanhei o comboio em movimento. O mérito é vosso. Eu não fiz nada...
- Criaste, sim. Estás a enriquecer o que estava planeado.
- OK! Estou enriquecer. Estamos todos. Não foi nenhum ser sobrenatural que nos ajudou, é isso que minteressa compreendam.
- Claro que não foi – disse a Directora. – No fundo, sabemos. Mas pensar que a conjunção de astros ou de espíritos é favorável reforça a nossa confiança e faz com que as coisas saiam melhor, porque mais convictas. É só isso.
- Continua a ser uma concessão ao obscurantismo.
- Se declarássemos isso numa entrevista, então seria – disse Jaime. – Mas fica só entre nós. É uma espécie de cumplicidade colectiva, meio a brincar, que reforça a coesão do grupo.
- Meio a brincar? É a brincar que põem uma panela com água à entrada da sala, quando vão ensaiar?
- Oh, isso é para os espíritos malignos não passarem da porta – disse Jaime, com uma gargalhada. – O que o checo devia ter feito quando ensaiámos o “Cahama”. Daí o fracasso...
Cândido levantou, agora furioso, da mesa. A voz saiu contundente, parecia mesmo um cuvale a comandar um ataque:
- Com vocês não dá mesmo para falar.
Ia sair mas Lu lhe segurou de novo na mão, espera, não nos vais acompanhar a casa? O teu hotel é para as nossas bandas. O grupo inteiro levantou da mesa, se diluiu aos grupos na noite de cacimbo que já caía sobre a cidade. Cândido acompanhou Lu e Olga. Durante um bom bocado em silêncio. Lu pensava na força que emanava do carácter do parceiro. Teimoso, obstinado, talvez dogmático, também ele? A obstinação da raça estava bem patente, quem não conhecia a irredutibilidade dos Cuvale, que sempre levantaram a cabeça contra todas as opressões, orgulhosos com o seu gado e as suas ongandas? Mas ao mesmo tempo Cândido era generoso e sabia ser meigo, como Ilunga. Uma combinação de Ilunga com Tchinguri? Já antes tinha pensado o mesmo de Uli, mas então estava errada, Uli não tinha a firmeza de Tchinguri. Cândido, sim, era a síntese. Que significa isso para mim? Recusou ir mais longe nos pensamentos e disse:
- Vens jantar connosco. A Olga vai preparar uma coisa boa, não é, Olga?
Cândido aceitou e entraram no prédio, cujas escadas estavam mais uma vez às escuras.
- Nunca mais vai haver luz aqui – queixou Olga.
- Mas porquê? – perguntou Cândido.
- Sempre que põe lâmpadas novas, roubam-nas. Continua a haver falta na cidade.
Subiram pela escada às apalpadelas nas paredes. E Olga foi preparar o jantar. Cândido aproveitou falar:
- Não queria voltar ao mesmo, mas francamente, Lu, vocês desiludem-me. Brincam com essas coisas, uns brincam, outros não, mas dizem que brincam... E não vêem as consequências. Imagina os bailarinos que vieram da Lunda. Não têm o vosso nível de instrução. Acreditam totalmente no feitiço. E que vão dizer quando para lá voltarem? Os artistas da cidade também acreditam, até põem panela com água para afastar os cazumbis. Isso reforça as suas crendices e vai lhes dar um argumento fortíssimo para convencerem os seus lá na Lunda. Ora os artistas têm uma responsabilidade muito grande na educação do povo. Pelo que dizem ou criam e pelo exemplo. E é esse o exemplo? Gostava que pensasses nisso, Lu. O que pode ser uma brincadeira na cidade, sem mais consequências, é de uma importância terrível no campo. Luanda tem de começar a pensar em termos do resto do País, não viver só para si.
- O Jaime brinca com isso, mas eu não. Um dia vou te contar a estória, é pelo menos perturbante. Mas hoje não.
- Então eu conto-te a minha. Quando fui para a escola, acreditavas nisso tudo como qualquer miúdo cuvale. Depois comecei a estudar Ciências e a encontrar a respostas para as perguntas que fazia na onganda e que me explicavam pelas forças naturais ou feitiços ou maldades desconhecidas. E as respostas da ciência tinham sentido. Interessei-me, era curioso, e estudei mais que ninguém. E cada vez mais as respostas tinham sentido. Fui para o Tchivinguiro, só queria estudar para encontrar respostas cada vez mais coerentes. E convenci-me. Essas crenças só servem para escravizar. Por isso quis ser professor. Para libertar aqueles jovens que vão para lá cheios de superstições, pois praticamente todos vêm do campo. Qual é o citadino que quer estudar Agronomia ou Pecuária? E o meu trabalho é esse. Mostrar que, se se tem mentalidade científica, o gado produz mais e as pessoas obtêm mais bens, vivem melhor. Essa é a minha luta de todos os dias. Também como professor de dança, mostrando que a tradição deve ser utilizada, mas num sentido de progresso, de libertação das pessoas. Pois bem. Imagina que o brincalhão do Jaime vai lá expor as suas brincadeiras. Destrói todo esse trabalho. É justo?
- Estou muito baralhada. Claro que não é justo ir um diletante qualquer lá estragar o vosso trabalho. Por diletantismo. Mas não estou tão certa que essas crenças escravizem...
- É evidente para quem viveu nessas sociedades. O poder tradicional baseia-se nisso. Dos velhos sobre os novos,dos homens sobre as mulheres,das ideias velhas sobre as ideias novas. E a submissão do homem à Natureza. O homem se torna incapaz de iniciativas para mudanças benéficas, pois tudo gira segundo a vontade dos ventos ou do oma-kisi. O homem acaba por não contar, é um joguete das forças superiores. Se o homem não conta, como vai mudar a sociedade e aperfeiçoar os métodos de trabalho? Só a educação pode mudar as coisas, mas uma educação vista em termos globais, de cultura. É o que fazemos lá.
- Talvez tenhas razão.
- Devemos aproveitar os cânticos, as danças, as outras artes tradicionais. Mas depurando-as das crendices obscurantistas.
- O que significa adulterar a cultura, pois esta é um todo.
- Qualquer aperfeiçoamento é uma adulteração. E nenhuma cultura se mantém parada. Isso queriam os nossos tradicionalistas, para não perderem os privilégios.
- Talvez.
- Não te chateio mais. Põe música. Tens Vivaldi?
- Como adivinhaste, Cândido?
- Talvez eu seja um pouco feiticeiro!
E riram os dois. Os primeiros acordes das Quatro Estações invadiram a sala e Lu se sentia bem com Cândido a seu lado. Um cuvale materialista que gostava de Vivaldi. Que mistura! Eu, como escritor, nunca teria a ousadia de inventar um personagem assim. Mas essa é a magia do nosso mítico Sul, que cria tais homens.
Excerto do livro “Lueji – O Nascimento de um Império” de Pepetela (Publicações Dom Quixote, 3ª edição, 1997, página 451-456).
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Liutiha vitória ne’ebá, sira bá bár iha dalan sikun atu festeja tanba sira hatene loos ona katak la’ós de’it kadeira liurai nian iha Lunda maka salva maibé mós sira-nia espetákulu. Diretora hateten ohin ha’u maka selu no sira hotu basa liman. Lu ho Cândido tuur besik malu hela, tuir fali Jaime ho Olga, depois Diretora ho sira seluk. Falta Afonso Mabiala, maibé loron balu tiha ona nia lakon, maski nia dehan mai ha’u katak ohin nia sei mosu mai duni, atu selu osan ne’ebé nia tusan mai ha’u. No nia tusan barak, bár nia na’in konta segredu ba bailarinu sira, nia hemu no mii, hemu no mii, hemu no mii. Iha klaran nia kompoin múzika balu.
- Keta ta’uk – Jaime dehan. – Nia sei simu barak agora.
- Ha’u hein katak nia sei la gasta hotu molok nia selu ha’u.
- Ita tenke fó deskulpa ba matenek-na’in sira – Lu dehan.
- Entaun ha’u la fó deskulpa ba nia? – bár nia na’in husu. – To’o ha’u husik nia toba iha kotuk ne’ebá bainhira nia la bele ona fila ba uma… No ha’u dehan ba imi de’it, nia matenek hanesan jéniu duni. Ha’u besik atu tanis bainhira rona ninia múzika sira.
Nia ba foti serveja no kafé sira, no Diretora aproveita pauza ne’e atu ko’alia:
- Ita bele dehan espetákulu prontu ona. Semana ida tan atu halo kabeer de’it no tuir mai ensaiu jerál. Ah, se ha’u hatene uluk karik, ha’u sei la kaer knaar ne’e, imi haree to’ok oinsá maka ha’u-nia isin tun.
- Husik bá – Jaime hateten. – Tebes, Ita gosta duni. No Ita di’ak liu krekas hanesan ne’e. Ita-Boot nia katuas-oan maka bele dehan.
- Ida-ne’e fó susar mai ita – dehan Diretora, no hatudu ba Cândido. – Molok ita foin bele deskobre problema, ha’u kuaze lakon neon.
- Buat ida ne’ebé ladi’ak maka imi la koñese ema-kuvale [1] sira, imi hatene de’it ami-nia naran. Ami ema independente, hori uluk hori wa’in ami hanesan ne’e. Atu bele ukun ami, só liuhosi masakre. No ami moris fila fali. Hanu’usá imi hakarak dadur kuvale ida ho imi-nia markasaun sira? Obriga ha’u halo pirueta ida bainhira ha’u haree duni katak tuir loloos ha’u tenke haksoit! Ikus liu imi komprende.
- Ida tan atu aumenta tribu anarkista sira-nian – Jaime dada iis maka’as. – Oinsá maka imi hakarak harii nasaun ida ho ida-idak halo hela konforme nia hakarak no la liga ba koletivu, ba regra sekulár no lulik sira?
- Ami iha-ne’e la harii nasaun ida – Lu dehan. – Arte lalika harii nasaun, só tenke leno nasaun.
- Fraze kle’an – Jaime dehan. – Kala laloos, maibé sé mak liga? No ha’u mós hanoin hanesan ne’e. Ó la komprende ironia ne’e, Lu. Ha’u-nia intensaun atu hu’an dogma sira, un, deux, foueté, un, deux, trois, quatre, plié…
- Ha’u hatene, Jaime. Tanba ne’e maka ó tuir korrente realizmu animista nian…
- Sin. Azár maka ha’u la halo buat ida atu sai banati. No seidauk mosu kakutak ida atu halo teoria ruma kona-ba korrente ne’e. Só iha de’it nia naran no nia realidade. Maibé bailadu ida-ne’e tomak realizmu animista, husi hun to’o rohan. Ita espera katak krítiku sira sei rekoñese ne’e.
- Istória saida mak ne’e? – Cândido husu.
- Jaime dehan katak estétika ida de’it ne’ebé di’ak ba ita maka realizmu animista – Lu esplika. – Hanesan iha tiha ona realizmu no neorealizmu, realizmu sosialista no realizmu fantástiku, no realizmu oioin tan.
- Hmmm, maizomenus ha’u haree ona – Cândido dehan.
- Ne’e di’ak – Jaime dehan. – Tanba dala ruma ha’u la haree. Maibé buat ne’ebé ita halo daudaun ne’e realizmu animista la iha dúvida ida. No se ita hetan susesu ne’e ita tenke agradese ba biru ne’ebé Lu tara iha kakorok. Nia lakohi atu konta istória, maibé nia la bele nega katak ne’e biru ida.
- Loos duni – Lu dehan, lailais tebes. – Maibé se ha’u konta karik nia sei lakon nia kbiit.
- Keta beik! – Cândido dehan. – Se espetákulu ne’e sai di’ak, ne’e tanba imi hotu iha kapasidade no enerjia ne’ebé to’o agora imi seidauk hatene. No imi fiar imi-nia an. Vontade, vontade maka’as, ne’e maka fekit.
Bailarinu ida ne’ebé mai husi Dundu husu ho respeitu atu ko’alia, foti liman, Ita-Boot sira fó lisensa? Sira hotu hateke ba nia, atu husik nia ko’alia.
- Ha’u boot liu imi. No haree tiha ona buat barak. Liuliu iha Lunda, ne’ebé rain mistériu nian… Ita labele duvida. No biru ida-ne’e ha’u koñese, ne’e ferik no katuas sira-nian, loos ka lae?
- Loos – Lu dehan.
- Ida-ne’e maka’as liu.
- Afinál – Cândido korta. – Imi haka’as an kleur hanesan ne’e, luta hasoru buat hotu-hotu no ema hotu-hotu no agora imi fó-méritu ka agradese de’it ba ai pedasuk ida. Imi la hanoin katak ne’e haraik an demais?
- Anarkista no materialista! – Jaime dehan. – Imi haree saida maka ita hetan iha rifa? No hakfodak bá, nia mai husi rai-maran fuik, ne’ebé la iha buat ida ema halo la ho serimónia lulik ruma.
- Ó halimar hela no ha’u ko’alia sériu, Jaime.
- Rona, Cândido – Lu korta tiha. – Ha’u mós la fiar… uluk ha’u la fiar, agora ha’u la hatene ona… Tebes maka buat hotu hahú sai di’ak liu. Ka kuaze buat hotu-hotu…
- Nia fó fiar-an ba ó, mak ne’e de’it. Bainhira ita fiar katak ita konsege halo buat ruma, ne’e hanesan ita la’o tiha ona to’o dalan klaran. Maibé karau-baka inan ida sei la bele hahoris leaun ida, maski ó tara biru barak iha ninia kakorok.
- Oh, karau-baka sira mós tenke temi – Jaime dehan. – Se lae la’ós ema-kuvale ida.
- Ida-idak uza ezemplu ne’ebé nia hatene. Deskulpa se ha’u ladún hatene kona-ba sasán sidade nian. Ha’u ema ne’ebé hakiak karau, maibé ha’u la fiar majia hirak ne’ebé imi temi barak. Ha’u-nia eskola to’o ona atu bele komprende buat sira nia hun.
- OK, OK, keta hirus, ida-idak hela ho ninia fiar. Maibé katak só realizmu animista de’it maka bele konta istória Lueji nian, ne’e ó labele nega.
- Fiar-bosok! – Cândido murmura, hanesan atu hirus ona.
Lu kaer nia liman iha meza leten, kalma, buat hirak-ne’e lalika diskute, ita nunka sei to’o ba nia rohan. Depois nia hasai nia liman, tanba sira seluk hotu hateke ba sira, hakfodak hela. Lu ladún toman halo jestu hamaus ho estima hanesan ne’e ba nia belun sira, iha buat ruma karik! Lae, lae ida, ne’e jestu ida ne’ebé nia halo de’it la hanoin buat seluk. Maski hanesan ne’e, ne’e halo Jaime hanoin.
- Dekualkér maneira, agora bainhira buat hotu-hotu la’o di’ak hela, Lu, keta soe biru ne’e – Diretora dehan. – La iha ema ida fiar buat ne’e, maibé mós sei la halo aat ba ó. Lenuk matenek mate bainhira nia katuas ona…
- La halo aat! – Cândido dehan. – Imi la komprende. Tebes duni, ema-sidade sira la para halo ha’u hakfodak. Imi hela iha sidade-boot no iha-ne’e mosu ema husi rain hotu-hotu iha mundu, imi haree sinema no televizaun husi fatin hotu-hotu. Tuir loloos imi tenke iha hanoin sientífiku, liuliu tanba falta de’it fulan balu ba tinan rihun rua. Maibé afinál imi hakarak ke’e-sai fali fiar atrazadu de’it…
- Ke’e-sai fali? – Olga ko’alia ba dala uluk. – Fiar hirak-ne’e iha-ne’e hela, hanu’usá “ke’e-sai fali”?
- Sin, ó dehan loos duni – Cândido hatán. – Ke’e-sai ne’e liafuan laloos. Imi hakarak haberan fiar hirak-ne’e, hanesan ne’e di’ak liu tan. Relijiaun sira só kesi ema. Imi seidauk ba foho, loos ka lae? Ne’e duni, imi la hatene buat hirak ne’ebé ema halo tanba fiar no relijiaun sira-ne’e. Ema labele halo buat ida hasoru natureza, sira husik natureza hanehan sira, la iha buat ida atu sira bele halo, rain-na’in no mate-klamar de’it maka hatene sei udan ka lae, rai-maran fuik sai luan liu tan no karau sira mate, rain-na’in ka mate-klamar sira maka hakarak hanesan ne’e tanba ema ruma halo sala hasoru sira. No obras ne’ebé presiza hodi hadi’a situasaun ema la halo, no ema kontinua nu’udar atan ba natureza ka ba ema sira seluk ne’ebé kbiit boot liu. Sira-ne’e maka defende tradisaun ba buat hotu-hotu atu kontinua hanesan ne’e de’it nafatin no sira bele rai ka haberan sira-nia kbiit iha sosiedade nia leten. Ne’e la’ós teoria, ne’e akontese iha ne’ebé iha ha’u-nia rejiaun. No iha fatin seluseluk. No ha’u mai iha Luanda, ne’ebé tuir loloos iha-ne’e maka tenke mosu ideia hirak ne’ebé avansadu liu, no afinál saida maka ha’u haree? Intelektuál sira, artista sira, hamulak ba maromak oioin ka tara biru iha sira-nia kakorok. No lakon sira-nia fiar-an, lakon mós sira-nia domin ba an rasik, haraik an ba rain-na’in sira. La di’ak liu!
La iha ema ida hatán. Nia liafuan hatudu nia laran-kraik, ko’alia ho jeitu sériu maibé la hirus. Sira la hakfodak, sira hanoin de’it. Cândido kontinua:
- Bailadu ne’e di’ak tanba imi tau hamutuk vontade no talentu la hanesan baibain. Imi mesak di’ak de’it no imi halo buat furak ida mosu. Keta hamenus folin husi imi-nia knaar. Husik bá ema seluk hatun imi-nia folin, tanba razaun aat oioin ne’ebé ita hotu hatene. Keta imi rasik maka haree buat ladi’ak iha imi-nia oan.
- Tanbasá maka ó tau ó-nia an iha li’ur? – Lu husu.
- Tanba ha’u sa’e komboiu bainhira nia la’o hela ona. Méritu imi-nian. Ha’u la halo buat ida…
- Ó haburas loos. Ó hasa’e folin ba buat ne’ebé ami tau ona.
- OK! Ha’u hasa’e hela folin. Ita hotu hasa’e hela folin. La’ós kriatura sobrenaturál ruma maka ajuda ita, ne’e maka ha’u hakarak imi atu komprende.
- Konserteza la’ós – Diretora dehan. – Loloos, ami hatene. Maibé hanoin katak fitun sira-nia pozisaun ka rain-na’in sira-nia tulun di’ak ba ita haberan ita-nia fiar-an no halo buat hotu-hotu sai di’ak liu tan, tanba ita halo ho neon-metin. Mak ne’e de’it.
- Ne’e kontinua nafatin fó fatin ba fiar-bosok.
- Se ami fó-sai buat hirak-ne’e iha entrevista ida, entaun ne’e loos – Jaime dehan. – Maibé ne’e iha ita-nia leet de’it. Ne’e hanesan kumplisidade koletiva, halimar uitoan, ne’ebé hametin unidade ka koezaun iha grupu laran.
- Halimar uitoan? Imi halimar hela bainhira imi tau sanan ida ho bee iha odamatan kotuk, bainhira imi atu treina?
- Oh, ne’e ba mate-klamar aat sira la bele tama liu odamatan – Jaime dehan, no hamnasa maka’as. – Ne’e maka di’ak liu se ema nia aman xeku ne’ebá halo bainhira uluk ita halo ensaiu ba “Cahama”. Tanba ne’e maka ita la susesu…
Cândido hamriik husi meza, agora nia nervozu. Nia lian sai kro’at, nia haree duni hanesan ema-kuvale ida komanda hela atake ida:
- Ho imi maka ha’u la bele ko’alia.
Nia atu sai maibé Lu kaer fila fali nia liman, hein, ó sei la la’o ho ami ba uma? Ó-nia otél besik ami-nia fatin. Grupu tomak hamriik husi meza, sira fahe malu iha grupu oioin, lakon iha kalan ho mahobeen ne’ebé monu hela ona iha sidade leten. Cândido akompaña Lu no Olga. Durante tempu balu sira nonook de’it. Lu hanoin hela kona-ba forsa ne’ebé mosu-sai husi nia parseiru nia karater. Ulun-toos, neon-na’in, kala dogmátiku, nia mós hotu? Fasil atu haree katak nia iha ninia povu nia neon-metin duni, sé mak la hatene kuvale sira-nia aten-barani ne’ebé nunka lakon neon, sira sempre foti ulun hasoru opresaun sira hotu, ho orgullu ho sira-nia karau no sira-nia onganda [2]? Maibé Cândido mós hatene sai laran-luak no estimadór, hanesan Ilunga. Nia hanesan Ilunga kahur ho Tchinguri? Uluk nia mós hanoin tiha ona hanesan ne’e kona-ba Uli, maibé iha momentu ne’ebá nia hanoin sala, Uli la neon-na’in hanesan Tchinguri. Cândido, sin, nia maka sínteze. Ne’e signifika saida mai ha’u? Nia nega atu hanoin ba dook tan no nia dehan:
- Ó mai han-kalan ho ami. Olga sei prepara buat ruma gostu, ne’e ka, Olga?
Cândido aseita no sira tama iha uma-andár, ne’ebé nia eskada iha nakukun laran hela dala ida tan.
- Iha ne’e sei nunka iha ahi – Olga murmura.
- Maibé tanbasá? – Cândido husu.
- Dala ida-idak ne’ebé ita tau ahi-oan foun, ema ruma na’ok tiha. Ahi-oan sei kuran nafatin iha sidade.
Sira sa’e eskada lamas-lamas ba parede. No Olga bá prepara tiha hahán-kalan. Cândido aproveita atu ko’alia:
- Ha’u lakohi fila fali ba asuntu ohin nian, maibé la di’ak liu, Lu. Imi halo ha’u laran-kraik. Imi halimar ho buat hirak-ne’e, balu halimar, balu lae, maibé sira dehan sira mós halimar… No imi la haree ba konsekuénsia sira. Imajina bailarinu sira ne’ebé mai husi Lunda. Sira la eskola-boot hanesan imi. Sira fiar duni ba fekit. No sira sei dehan saida bainhira sira fila fali ba sira-nia rain? Artista sira husi sidade mós fiar. Sira to’o atu tau sanan ho bee hodi hadook rain-na’in no mate-klamar sira. Ida-ne’e sei haberan sira-nia fiar-bosok no sei fó argumentu ida maka’as loos ba sira hodi konvense sira-nia ema iha Lunda ne’ebá. Maibé artista sira iha responsabilidade boot ida ba edukasaun povu nian. Ho buat ne’ebé sira dehan ka hamosu no ho sira-nia ezemplu. No ida-ne’e maka ezemplu ne’ebé imi hatudu? Ha’u hakarak ó hanoin kona-ba buat ne’e, Lu. Buat ne’ebé bele sai hanesan halimar iha sidade, ne’ebé la iha konsekuénsia tan, sai importante paramate iha foho. Luanda tenke hahú hanoin ba nasaun tomak. Labele moris ba nia an de’it.
- Jaime halimar ho buat ne’e, maibé ha’u lae. Loron ida ha’u sei konta istória ne’e ba ó, nia pelumenus halo ita neon-taridu. Maibé ohin lae.
- Entaun ha’u konta ha’u-nian ba ó. Kuandu ha’u bá eskola, ha’u sei fiar buat hirak-ne’e hotu hanesan labarik kuvale baibain. Depois ha’u hahú estuda siénsia sira no ha’u komesa hetan resposta ba pergunta hirak ne’ebé uluk ha’u halo iha onganda, ne’ebé ema iha-ne’ebá toman esplika mai ha’u liuhosi forsa naturál sira ka fekit ka malisan ne’ebé ema la hatene. No resposta sira siénsia nian loloos duni. Ha’u interesa, ha’u kuriozu no ha’u estuda barak liu ema hotu. No beibeik-beibeik resposta sira sai loloos liu tan. Ha’u bá Tchivinguiro, ha’u só hakarak estuda atu bele hetan resposta ne’ebé klaru liu tan. No ha’u hetan duni. Fiar hirak-ne’e só serve atu halo ema sai atan. Tanba ne’e maka ha’u hakarak sai profesór. Atu liberta foin-sa’e sira ne’ebé tama iha-ne’ebá nakonu ho superstisaun ka fiar-bosok sira, tanba sira kuaze hotu-hotu mai husi foho. Ema-sidade ida-ne’ebé maka hakarak estuda agronomia ka pekuária? No ida-ne’e maka ha’u-nia serbisu. Hatudu katak se ita iha mentalidade sientífika karau sira sei aumenta liu tan no ema sei hetan sasán barak liu tan, sei moris di’ak liu tan. Ne’e maka ha’u-nia luta loroloron. Nu’udar profesór dansa nian mós hanesan ne’e, hatudu katak ita tenke uza ita-nia lisan, maibé ho diresaun ba progresu, ba libertasaun ema sira-nian. Nune’e. Imajina katak Jaime halimardór bá ne’ebá hatudu ninia halimar. Nia sei sobu serbisu ne’e hotu. Ne’e justu?
- Ha’u konfuza loos. Konserteza la’ós justu se ema lasériu bá ne’ebá estraga imi-nia serbisu. Atu halimar de’it. Maibé ha’u sente ladún loos katak fiar hirak-ne’e halo ema sai atan…
- Ne’e fasil tebetebes atu haree ba ema ne’ebé moris tiha ona iha sosiedade hirak-ne’e. Podér tradisionál nia hun mak ne’e. Husi katuas sira ba foin-sa’e, husi mane sira ba feto sira, husi ideia antigu sira ba ideia foun sira. No ema nia haraik-an ba natureza. Ema sai kbiit-laek ba mudansa sira ne’ebé di’ak, tanba buat hotu-hotu la’o tuir anin sira ka oma-kisi [3] sira-nia hakarak. Ema sai hanesan laimportante, nia hanesan brinkedu ba forsa superiór sira. Se ema laimportante, oinsá maka nia bele muda sosiedade no hadi’a lala’ok serbisu nian? Edukasaun de’it maka bele muda buat hirak-ne’e, maibé edukasaun ida ne’ebé tenkesér globál, kultura nian. Ne’e maka ami halo iha-ne’ebá.
- Kala ó loos duni.
- Ita tenke kaer metin ba hananu no dansa, no arte tradisionál sira seluk. Maibé presiza hamoos, halakon tiha fiar-bosok atrazadu.
- Ne’e signifika adulterasaun, katak halakon kultura ne’ebé tebes no hamosu kultura ne’ebé falsu ona, tanba kultura ne’e buat ida ne’ebé tomak.
- Hadi’a ka aperfeisoamentu hotu-hotu sempre adulterasaun ida. No la iha kultura ida ne’ebé para hela nafatin. Se bele hanesan ne’e duni karik, ne’e sei halo kontente ita-nia tradisionalista sira atu la lakon sira-nia priviléjiu.
- Kala hanesan ne’e.
- Ha’u la xateia tan ó. Tau múzika lai. Ó iha Vivaldi?
- Oinsá maka ó si’ik, Cândido?
- Ha’u matan-dook uitoan karik!
No sira na’in-rua hamnasa. Primeirus akordes husi Quatro Estações hakonu sala laran no Lu sente di’ak ho Cândido iha nia sorin. Kuvale materialista ida ne’ebé gosta Vivaldi. Arbiru de’it! Ha’u, nu’udar hakerek-na’in, sei nunka barani atu inventa personajen ida hanesan ne’e. Maibé ne’e majia husi ita-nia rain mitu nian iha Súl, ne’ebé halo mosu mane hanesan ne’e.
[1] NhT: “Kuvale” ne’e naran husi etnia ida iha rai-Angola
[2] Lutu ba defeza ne’ebé hale’u liurai nia uma no nia feen sira-nian.
[3] Duruhui
[Tradusaun husi parte husi livru “Lueji – O Nascimento de um Império” Pepetela nian (Publicações Dom Quixote, edisaun datoluk, 1997, pájina 451-456). Tradusaun husi portugés ba tetun ida-ne’e husi João Paulo T. Esperança no Icha Meiliana Bossa, publika tiha iha Várzea de Letras, Suplemento Literário mensal do jornal Semanário, nº 7, Agosto 2004]
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«-Adieu, dit le renard. Voici mon secret. Il est très simple: on ne voit bien qu’avec le coer. L’essentiel est invisible pour les yeux.»
in “Le Petit Prince”, de Antoine de Saint-Exupéry
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Creio que todos, homens do mar, temos uma toninha que só aparece uma vez na vida e que, ao ir-se de vez, nos deixa um vazio no coração. E dá vontade mesmo, quando o Sol morre no mar, ganir para essa toninha que tem algas como cabelos. Ela procura uma ilha, temos de a deixar seguir o seu caminho, mesmo que fiquemos na praia a perdê-la, morrendo toda a vida.»
tétum (tetun)
8 1Maibé Jezús sa’e ba foho Oliveira. 2Iha dadeer, Nia mosu fali iha templu. Povu tomak hakbesik Nia, no Jezús tuur hodi hanorin sira. 3Eskriba no farizeu sira lori feto ida ne’ebé ema toman halo sala ho mane seluk. 4Sira tau feto ne’e iha klaran, hodi dehan ba Jezús: “Mestre, ema toman feto ne’e halo sala ho mane seluk. 5Tuir ukunfuan, Moizés haruka ita atu tuda mate feto sira hanesan ne’e. Ó dehan sa loos?”
6Sira husu ne’e hodi koko Nia, atu sira bele hetan lia ruma hasoru Nia. Maibé Jezús hakru’uk, hodi hakerek iha rai ho nia liman-fuan.
7Tan sira litik nafatin Nia, Jezús hamriik hodi dehan ba sira: “Imi ida ne’ebé sala la iha, nia mak tuda uluk feto ne’e!” 8Hafoin Nia hakru’uk fali hodi hakerek iha rai. 9Rona tiha liafuan hirak ne’e, sira idaidak sai daudaun, hahú hosi katuas sira. Ikusmai Jezús hela mesak ho feto ne’ebé hamriik iha Nia oin.
10Hodi foti matan, Jezús dehan ba nia: Feto, sira hotu bá ne’ebé? Ema ida la tesi lia ba ó?” 11Nia hatán: “La iha, Na’i.” Jezús ko’alia fali hodi dehan ba nia: “Ha’u mós la tesi lia hasoru ó; la’o ona ba, no keta sala tan.”
Liafuan di’ak ba imi. Dili, Dioseze Dili nian, 2000
[maibé iha-ne’e testu muda tiha ba ortografia padronizada tuir Instituto Nacional de Linguística]
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português
8 1Jesus foi para o Monte das Oliveiras. 2De madrugada, voltou outra vez para o templo e todo o povo vinha ter com Ele. Jesus sentou-se e pôs-se a ensinar. 3Então, os doutores da Lei e os fariseus trouxeram-lhe certa mulher apanhada em adultério, colocaram-na no meio 4e disseram-lhe: «Mestre, esta mulher foi apanhada a pecar em flagrante adultério. 5Moisés, na Lei, mandou-nos matar à pedrada tais mulheres. E Tu que dizes?»
6Faziam-lhe esta pergunta para o fazerem cair numa armadilha e terem de que o acusar. Mas Jesus, inclinando-se para o chão, pôs-se a escrever com o dedo na terra.
7Como insistissem em interrogá-lo, ergueu-se e disse-lhes: «Quem de vós estiver sem pecado, atire-lhe a primeira pedra!» 8E, inclinando-se novamente para o chão, continuou a escrever na terra. 9Ao ouvirem isto, foram saindo um a um, a começar pelos mais velhos, e ficou só Jesus e a mulher que estava no meio deles.
10Então, Jesus ergueu-se e perguntou-lhe: «Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?» 11Ela respondeu: «Ninguém, Senhor.» Disse-lhe Jesus: «Também Eu não te condeno. Vai e de agora em diante não tornes a pecar.»
Bíblia Sagrada – para o terceiro milénio da encarnação. Lisboa/Fátima, Difusora Bíblica dos Franciscanos Capuchinhos, 2000
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tocodede (tokodede)
8 1Jezús sa’e la Hoho-Lau Kai-Oliveira ni. 2Bus-buso, Ú gelelu hali la templu los atu nour mai saka Ú. Jezús mederi i komesa dinua ro’o. 3Entaun, panaadór kidia-la Lei los Farizeu ro’o odi hine iso mane atu hali-kidia aipíl ú putu los mane selo punu dole. Ro’o posi hine kede’e her telaa 4los ro’o dale: «Mestre, atu hali-kidia hine kede’e aipíl ú ena los mane selo. 5Moizés, her Lei, kusuu kiti bada hatu la hine seri-kede’e rata mate. I Ko dale heta?»
6Ro’o tugu megees kede’e odi lasu Ú para depois ro’o lebo akuza Ú. Mais Jezús, huku los komesa kero los lim-huu her rae.
7Ro’o kontinua litik Ú, entaun Ú brii los dale la ro’o: «Kimi iso-mane tet dia dole, u ke bada hatu munu!» 8Depois, Ú huku hali odi kero her rae. 9Aipíl ro’o pli’i bo’a-huu kede’e, ro’o sai iso-iso dara-ro’o, komesa pe mekei ro’o, rata peni mesa Jezús los hine kede’e.
10Entaun, Jezús brii los tugu la ú: «Hine, ro’o her-mane? Ted dia atu iso kondena ko?» 11Hine mataar: «Tet dia atu iso, Na’i.» Jezús dale la ú: «A mós tet kondena ko. Lá se los komesa agora tet lebo punu dole pita.»
Tradusaun la tokodede (Likisá ni) pe Fernanda de Jesus Correia los João Paulo Tavares Esperança dara versaun her Bíblia Sagrada – para o terceiro milénio da encarnação. Lisboa/Fátima, Difusora Bíblica dos Franciscanos Capuchinhos, 2000
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mambai (manbae)
8 1Jezús lao Rae-Udu Ai-Oliveira ni. 2Nei busloi, Urá fila sul lao templu nor artúb niri ma sak Urá. Jezús medei ôd nôr rom. 3Entaun, matenek-ubu Lei ni nor artúb-farizeu rom ôd lao Urá bui-hine id pun sal nor man selu, rom tid bui-hine ta medei nei pusu 4nor tetér lao Jezús: «Mestre, am pal tom bui-hine rai pun sal kek nor man id. 5Nei Lei, Moizés manda it tia bui-hine mandai rat mat. Nor O tou sap?»
6Rom tug ará ôd kok Urá nor mendá rom leb et nam seri ôd ne-sal lao Jezús. Mais Jezús, hai-hu lao rae nor komesa akerek nor Ni lima-snaga nei rae.
7Nah rom tug menhati Urá, Urá mirí ôd tetér lao rom: «ôs im id bae sala ba nei, urá pe hei tia mun bui-hine ra!» 8Tom sul, Urá hai-hu lao rae, ôd akerek loi. 9Arpíl rom plig ter-hua ra, rom id-id sai komesa ôs artúb mai gar, rat Jezús nor bui-hine ta pe hela.
10Mendá, Jezús mirí nor tug lao urá: «Bui-ra, rom her-bae? Ba nei artúb id hana kastigu o?» 11Urá atán: «Ba nei artúb id, Nai.» Jezús tou lao urá: «Au mêt ba ne-sal lao o. Lao lab nor komesa agora ba leb sal loi.»
Tradusaun lao manbae (Ainaru) ôs Lucrécia Guterres de Araújo nor João Paulo Esperança tom versaun ru nei Bíblia Sagrada – para o terceiro milénio da encarnação. Lisboa/Fátima, Difusora Bíblica dos Franciscanos Capuchinhos, 2000 nor Liafuan di’ak ba imi. Dili, Dioseze Dili nian, 2000
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crioulo guineense (kriol di Giné)
8 1Enton Jesus bai pa rotcha di Oliveiras, 2ma, par manhá cedo, i parci utro biás na templo. Suma tudo povo bim perto d’El, i sinta, i cumça na sina élis. 3Scribiduris di lei cu Fariseus ê tissi Jesus um mindjer qui panhado na pecado cu utro ome, ê pul diante di djintis, 4ê fala Jesus: «Mestre, es mindjer i panhado na pecado cu utro ome. 5 Lei di Moisés mandanu pa nô da pedrada es coldade di mindjeris. Abô, quê que Bu na fala?»
6Ê na fálaba assim pa ê pul armadidja, pa ê tene um cussa contra El. Ma Jesus impina, i cumça na scribi cu dedo na tchon.
7Suma ê continua na puntal, i lanta, i fala élis: «Quim di bós qui ca tem pecado, pa i fertchal prumero pedra!» 8I impina utro biás, i continua na scribi na tchon. 9Ma otcha élis ê obi quil palabra, ê cumça na fusi um som um som, ma ê cumça na omis grandis.
10Jesus lanta, i falal: «Mindjer, nunde êlis? Ninguim ca condenau?» 11I ruspundil: «Ninguim, Sinhor.» Jesus tornal palabra: «Ami també n’ca na condenau! Bai bo caminho, di li pa diante ca bu torna fassi pecado».
Nobo Testamento na Criol. Bissau, Diocese di Bissau, 1991
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indonésio (bahasa Indonesia)
8 1tetapi Yesus pergi ke bukit Zaitun. 2Pagi-pagi benar, Ia berada lagi di Bait Allah, dan seluru rakyat datang kepada-Nya. Ia duduk dan mengajar mereka. 3Maka ahli-ahli Taurat dan orang-orang Farisi membawa kepada-Nya seorang perempuam yang kedapatan berbuat zinah. 4Mereka menempatkan perempuan itu di tengah-tengah lalu berkata kepada Yesus: “Rabi, perempuan ini tertangkap basah ketika ia sedang berbuat zinah. 5Musa, dalan hukum Taurat, memerintahkan kita untuk melempari perempuan-perempuan yang demikian. Apakah pendapat-Mu tentang hal itu?”
6Mereka mengatakan hal itu untuk mencobai Dia, supaya mereka memperoleh sesuatu untuk menyalahkan-Nya. Tetapi Yesus membungkuk lalu menulis dengan jari-Nya di tanah.
7Dan ketika mereka terus-menerus bertanya kepada-Nya, Ia pun bangkit berdiri lalu berkata kepada mereka: “Barangsiapa di antara kamu tidak berdosa, hendaklah ia yang pertama melemparkan batu kepada perempuan itu.” 8Lalu Ia membungkuk pula dan menulis di tanah. 9Tetapi setelah mereka mendengar perkataan itu, pergilah mereka seorang demi seorang, mulai dari yang tertua. Akhirnya tinggallah Yesus seorang diri dengan perempuan itu yang tetap di tempatnya.
10Lalu Yesus bangkit berdiri dan berkata kepadanya: “Hai perempuan, di manakah mereka? Tidak ada seorang yang menghukum engkau?” 11Jawabnya: “Tidak ada, Tuhan.” Lalu kata Yesus: “Aku pun tidak menghukum engkau. Pergilah, dan jangan berbuat dosa lagi mulai dari sekarang.”
Alkitab. Jakarta, Lembaga Alkitab Indonesia, 2001
[Terjemahan ini diterima dan diakui oleh Komperensi Waligereja Indonesia]
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Fraga Neto ia à Tenda em busca de contacto com o povo, com as massas trabalhadoras, conforme sua expressão. Por vezes, ouvindo-o falar da vida européia, dos estudos, do movimento político, da agitação operária, Pedro Archanjo sentia-se velho, homem de outro tempo a escutar a linguagem nova de profeta generoso de um mundo onde não pudessem subsistir nem mesmo as sutis diferenças a separar Archanjo e Fraga Neto.
- Pois, meu bom – disse o professor arremedando Archanjo e lhe interrompendo os pensamentos –, há uma coisa que me escapa e me deixa curioso. Sobre ela, há muito desejava lhe falar.
- Que coisa é? Diga e, se puder, responderei.
- Pergunto como é possível que você, um homem de ciência, sim, um homem de ciência, por que não? Porque não é formado? Vamos deixar de conversa fiada e dizer as coisas como elas são. Pergunto como é possível que você acredite em candomblé.
Esvaziou o copo de cerveja, voltou a enchê-lo:
- Porque você acredita, não é? Se não acreditasse, não se prestaria a tudo aquilo: cantar, dançar, fazer aqueles trejeitos todos, dar a mão a beijar, tudo muito bonito, sim, senhor, o frade chega a se babar de gosto, mas, vamos convir, mestre Pedro, tudo muito primitivo, superstição, barbarismo, fetichismo, estágio primário da civilização. Como é possível?
Pedro Archanjo ficou um tempo em silêncio, empurrou o copo vazio, pediu ao espanhol um trago de cachaça: daquela que você sabe e não de outra.
- Eu podia dizer que gosto de cantar, de dançar, frei Timóteo gosta de assistir, eu gosto de fazer. Seria bastante.
- Não, você sabe que não. Quero saber é como você pode conciliar seu conhecimento científico com as obrigações de candomblé. Isso é o que eu desejo saber. Sou materialista, você sabe, e por vezes pasmo ante certas contradições do ser humano. Esta sua, por exemplo. Parece haver dois homens em você: o que escreve os livros e o que dança no terreiro.
Chegara a cachaça, Pedro Archanjo emborcou o copo: aquele bisbilhoteiro queria a chave da adivinha mais difícil, do cabuloso enigma:
- Pedro Archanjo Ojuobá, o leitor de livros e o bom de prosa, o que conversa e discute com o professor Fraga Neto e o que beija a mão de Pulquéria, a iyalorixá, dois seres diferentes, quem sabe o branco e o negro? Não se engane, professor, um só. Mistura dos dois, um mulato só.
Voz severa e lenta, de desabitual gravidade, cada palavra arrancada do peito.
- Como lhe é possível, mestre Pedro, conciliar tantas diferenças, ser ao mesmo tempo o não e o sim?
- Sou um mestiço, tenho do negro e do branco, sou branco e negro ao mesmo tempo. Nasci no candomblé, cresci com os orixás e ainda moço assumi um alto posto no terreiro. Sabe o que significa Ojuobá? Sou os olhos de Xangô, meu ilustre professor. Tenho um compromisso, uma responsabilidade.
Bateu na mesa chamando o garção. Mais cerveja para o professor, cachaça para mim:
- Se acredito ou não? Vou dizer ao senhor o que até agora só disse a mim mesmo e, se o senhor contar a alguém, serei obrigado a lhe desmentir.
- Fique descansado.
- Durante anos e anos acreditei nos meus orixás como frei Timóteo acredita nos seus santos, no Cristo e na Virgem. Nesse tempo tudo que eu sabia aprendera na rua. Depois busquei outras fontes de saber, ganhei novos bens, perdi a crença. O senhor é materialista, professor, não li os autores que o senhor cita, mas sou tão materialista quanto o senhor. Ainda mais, quem sabe?
- Ainda mais? E por quê?
- Porque sei, como o senhor sabe, que nada existe além da matéria, mas sei também que, mesmo assim, às vezes o medo enche meu tempo e me perturba. O meu saber não me limita, professor.
- Explique isso.
- Tudo aquilo que foi meu lastro, terra onde tinha fincado os pés, tudo se transformou num jogo fácil de adivinhas. O que era milagrosa descida dos santos reduziu-se a um estado de transe que qualquer calouro da Faculdade analisa e expõe. Para mim, professor, só existe a matéria. Mas nem por isso deixo de ir ao terreiro e de exercer as funções de meu posto de Ojuobá, cumprir meu compromisso. Não me limito como o senhor que tem medo do que os outros possam pensar, tem medo de diminuir o tamanho de seu materialismo.
- Sou coerente, você não é! – explodiu Fraga Neto: - Se não acredita mais, não acha desonesto praticar uma farsa, como se acreditasse?
- Não. Primeiro, como já lhe disse, gosto de dançar e de cantar, gosto de festa, antes de tudo festa de candomblé. Ademais, há o seguinte: estamos numa luta, cruel e dura. Veja com que violência querem destruir tudo que nós, negros e mulatos, possuímos, nossos bens, nossa fisionomia. Ainda há pouco tempo, com o delegado Pedrito, ir a um candomblé era um perigo, o cidadão arriscava a liberdade e até a vida. O senhor sabe disso, já conversamos a respeito. Mas, sabe quantos morreram? Sabe por acaso por que essa violência diminuiu? Não acabou, diminuiu. Sabe por que o delegado foi posto na rua? Sabe como se deu?
- Já ouvi contar, mais de uma vez. Uma história de absurdos com seu nome no meio.
- O senhor pensa que, se eu fosse discutir com o delegado Pedrito, como estou discutindo com o senhor, teria obtido algum resultado? Se eu houvesse proclamado meu materialismo, largado de mão o candomblé, dito que tudo aquilo não passava de um brinquedo de criança, resultado do medo primitivo, da ignorância e da miséria, a quem eu ajudaria? Eu ajudaria, professor, ao delegado Pedrito e sua malta de facínoras, ajudaria a acabar com uma festa do povo. Prefiro continuar a ir ao candomblé, ademais gosto de ir, adoro puxar cantiga e dançar em frente aos atabaques.
- Assim, mestre Pedro, você não ajuda a modificar a sociedade, não transforma o mundo.
- Será que não? Eu penso que os orixás são um bem do povo. A luta da capoeira, o samba-de-roda, os afoxés, os atabaques, os berimbaus são bens do povo. Todas essas coisas e muitas outras que o senhor, com seu pensamento estreito, que acabar, professor, igualzinho ao delegado Pedrito, me desculpe lhe dizer. Meu materialismo não me limita. Quanto à transformação, acredito nela, professor, e será que nada fiz para ajudá-la?
O olhar se perdeu na praça do Terreiro de Jesus:
- Terreiro de Jesus, tudo misturado na Bahia, professor. O Adro de Jesus, o Terreiro de Oxalá, Terreiro de Jesus. Sou a mistura de raças e de homens, sou um mulato, um brasileiro. Amanhã será conforme o senhor diz e deseja, certamente será, o homem anda para a frente. Nesse dia tudo já terá se misturado por completo e o que hoje é mistério e luta de gente pobre, roda de negros mestiços, mísica proibida, dança ilegal, candomblé, samba, capoeira, tudo isso será festa do povo brasileiro, música, balé, nossa cor, nosso riso, compreende?
- Talvez você tenha razão, não sei. Devo pensar.
- Digo-lhe mais, professor. Sei de ciência certa que todo sobrenatural não existe, resulta do sentimento e não da razão, nasce quase sempre do medo. No entanto, quando meu afilhado Tadeu me disse que queria se casar com moça rica e branca, mesmo sem querer pensei no jogo feito pela mãe-de-santo no dia em que ele se formou. Trago tudo isso no sangue, professor. O homem antigo ainda vive em mim, além de minha vontade, pois eu o fui por muito tempo. Agora eu lhe pergunto, professor: é fácil ou é difícil conciliar teoria e vida, o que se aprende nos livros e a vida que se vive a cada instante?
- Quando se quer aplicar as teorias a ferro e fogo, elas nos queimam a mão. É isso que você quer dizer, não é?
- Se eu proclamasse minha verdade aos quatro ventos e dissesse: tudo isso não passa de um brinquedo, eu me colocaria ao lado da polícia e subiria na vida, como se diz. Ouça, meu bom, um dia os orixás dançarão nos palcos dos teatros. Eu não quero subir, ando para a frente, camarado.
in “Tenda dos Milagres”, de Jorge Amado (Lisboa, Editora Planeta de Agostini, s.d., p. 277-280. ISBN 972-747-646-5, Depósito Legal nº 181227/02 [1ª edição no Brasil: 1969])
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Fraga Neto had begun going to the Tent because he wanted contact with the people, with “the working masses”, as he put it. Sometimes, hearing him talk about life in Europe, his studies and the political movements and labor agitation he had witnessed, listening to the generous prophet’s news of a world where not even the subtle differences that separated Archanjo and Fraga Neto would persist, Pedro Archanjo felt antediluvian, like a vestige of another age.
“Well, meu bom,” said the professor, imitating Archanjo and interrupting his train of thought, “there’s one thing about you I can’t make out, and it piques my curiosity. I’ve been wanting to talk to you about it for a long time.”
“What is it? Ask me and I’ll answer if I can.”
“I’ve been wondering how it’s possible for you, a man of science – yes, a man of science, and why not? Because you didn’t graduate from a university? Let’s stop this nonsense and call a spade a spade – I wonder how it’s possible for you to have any belief in candomblé.”
He drained his glass of beer and filled it again.
“Because you do believe in it, don’t you? If you didn’t, you surely wouldn’t lend yourself to that performance of singing, dancing, and all those capers, letting people kiss your hand and all that. Oh, it’s a very good show you put on, I’ll grant you that. The friar practically drools over it. But you’ll have to agree, Master Pedro, that’s it’s all very primitive. Superstitious barbarism, fetishism, barely the initial stage of civilization. How can you do it?”
Pedro Archanjo remained silent for a time. Then he pushed away his empty glass and asked the Spaniard for a glass of cachaça: the kind you know I like, not the other.
“I could say it’s because I like to sing and dance. Frei Timóteo likes to watch it and I like to do it. That would be enough.”
“No sir, it wouln’t. What I want to know is how you manage to reconcile your scientific knowledge with your candomblé obligations. That’s what I want to know. I’m an empiricist, as you know, and sometimes I’m flabbergasted by the contradictions in human beings. In you, for instance. There seem to be two men inside you: the one who writes those books and the one who dances in the terreiro.”
The rum had arrived and Pedro Archanjo emptied his glass in turn; that meddler wanted the key to the hardest riddle of all, the most painful enigma.
“Pedro Archanjo Ojuobá, the conversationalist and the book-worm, the man who talks and argues with Professor Fraga Neto and the one who kisses the hand of Pulquéria the iyalorixá – are they two different people, the white man and the black, perhaps? You’re mistaken, Professor, if that’s what you think. There is only one, a mixture of the two. Just one mulatto.”
His voice was slow, severe, and full of unaccustomed gravity. Every word seemed to have been dragged out of his breast.
“But Master Pedro, how can you possibly reconcile such enormous differences, be no and yes at one and the same time?”
“Because I’m a mestizo, part black and part white, and so I’m white and black at the same time. I was born to candomblé, I grew up with the orixás, and when I was still a boy I assumed a high position in the terreiro. Do you know what Ojuobá means? I, my distinguished professor, am the eyes of Xangô. I took on a commitment and a responsibility.”
He rapped on the table to call the waiter. More beer for the professor, and cachaça for me.
“You want to know whether I believe in it or not? I’m going to tell you something I’ve never told anyone except myself, and if you tell anybody I’ll have to say you are lying.”
“Don’t worry, I won’t.”
“For years I believed in my orixás just as much as Frei Timóteo believes in his saints, in Christ, and in the Virgin. At that time all I knew was what I had learned in the streets. Later I went in search of other sources of knowledge, and though I learned many things that were good, I lost my faith. You, professor, are a materialist, you say. I haven’t read the authors you like to quote, but I’m just as much a materialist as you are. Maybe more, who knows?”
“Maybe more? Why do you say that?”
“Because I know, just as you do, that there is nothing except matter, but I also know that sometimes, even so, fear fills my days and I am disconcerted. I am not limited by what I know, Professor.”
“Please explain what you just said.”
“Everything that was my ballast, the earth where my feet were firmly rooted, all that has turned into a childish game of riddlemeree. What was once the miraculous descent of the saints is reduced to a state of trance that any college freshman could analyze and expose. As far as I’m concerned, Professor, all that exists is matter. But that is no reason for me to stop going to the terreiro and carrying out the duties of my position as Ojuobá, of fulfilling my commitment. I refuse to limit myself, as you do. You’re afraid of what people may think; you’re afraid to cut your materialism down to size.”
“At least I’m consistent, and you’re not!” exploded Fraga Neto. “If you don’t believe in it any more, don’t you think it’s dishonest to take part in a farce as if you did believe in it?”
“No. First of all, as I’ve already told you, I like to dance and sing. I live parties, especially candomblé parties. Besides, there’s this: we’re engaged in a hard, cruel struggle. Look at how violently they try to destroy everything that belongs to us Negroes and mulattoes, our goods and even our very features. Just a short time ago, when Chief Pedrito was still around, anyone who went to a candomblé was taking his life in his hands. You know that; we’ve talked about it before. But do you know how many people were killed? And do you know, incidentally, why that violence let up? It hasn’t stopped, only diminished. Do you know why the assistant police chief was fired? Do you know how it happened?”
“I’ve heard about it once or twice. A crazy story with your name mixed up in it.”
“Do you think if I had gone and argued with Chief Pedrito, as I’m arguing with you here, that any good would have come of it? If I had proclaimed my materialist philosophy, washed my hands of candomblé, said that all that stuff was just a game for children, a product of primitive fear, ignorance, and misery, who would I have been helping? I would have been helping Pedrito and his pack of gangsters, Professor. I would have helped destroy that festival of the people. I’d rather go on taking part in the candomblé. Besides, I like to go. I love to lead the singing and dancing in front of the drums.”
“Well, Master Pedro, you’ll never change society or transform the world that way.”
“Won’t I? I think the orixás are a blessing to the people. Capoeira fighting, circle sambas, afoxés, atabaques, berimbaus are all blessing for the people. All those things and many others that you, with your narrow way of thinking, would like to do away with, just like Chief Pedrito, if you’ll pardon my saying so. My materialism does not limit me. As for change and transformation, Professor, I believe in it. Do you think I’ve done nothing to help it along?”
His gaze was lost in the Terreiro de Jesus.
“Terreiro de Jesus. Everything in
“I don’t know. Maybe you’re right. I’ll have to think about it.”
“Let me tell you something else, Professor. I know for a fact that nothing supernatural exists, that it is a result of emotion, not reason, and is almost always born of fear. Still and all, when my godson Tadeu told me he wanted to marry a rich white girl, I thought, unconsciouly and without meaning to, of the shells cast by the mãe-de-santo on his graduation day. All that is my blood, Professor. Primitive man is alive in me, somewhere beyond the reach of my will, because he and I were the same person for so long. Now let me ask you this, Professor: is it easy or is it hard to reconcile life and theory, the things we learn from books and life as we live it?”
“When we try to apply our theories with fire and sword they burn our hands. That’s what you mean, isn’t it?”
“If I proclaimed my own truth to the four winds and said all this is nothing but a game, I’d be siding with the police and would surely rise to a higher station in life, as they say. Listen, meu bom: one day the orixás will be dancing on the stage. I don’t want to rise, I just want to be in the forward march, camarado.”
in “Tent of Miracles”, from Jorge Amado; translated from the Portuguese by Barbara Shelby Merello (Madison, The University of Wisconsin Press, 2003, p. 311-315. ISBN 0-299-18644-x)
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Fraga Neto allait à la Boutique aux Miracles pour rechercher le contact avec le peuple, avec les «masses laborieuses» selon son expression. Parfois, en l’entendant parler de la vie européenne, des recherches, du mouvement politique, de l’agitation ouvrière, Pedro Archanjo se sentait vieux, un homme d’un autre temps qui écoutait le langage nouveau d’un prophète généreux parlant d’un monde où ne subsisteraient plus les subtiles différences qui séparaient Archanjo et Fraga Neto.
«Eh bien, mon bon – dit le professeur imitant Archanjo et interrompant ses pensées –, il y a une chose qui m’échappe. Je voulais vous en parler depuis longtemps.
- Quelle chose ? Dites, si je peux je répondrai.
- Je me demande comment il est possible que vous, un homme de science, oui, un homme de science, pourquoi pas ? Parce que vous n’avez de diplôme ? Abandonnons les politesses et disons les choses commes elles sont. Je me demande comment il est possible que vous croyez aux candomblés.»
Il vide son verre de bière et le remplit à nouveau :
«Parce que vous y croyez, n’est-ce pas ? Si vous n’y croyez pas vous ne vous prêteriez pas à tout ça : chanter, danser, faire tous ses gestes, donner votre main à baiser, tout ça c’est très pittoresque, bien sûr, et le frère s’en enchante, mais il faut convenir, maître Pedro, que c’est très primitif, superstitieux, barbare, fétichiste, un stade primaire de la civilisation. Comment est-ce possible ?»
Pedro Archanjo resta un moment silencieux, il prit son verre vide, demanda à l’Espagnol de la cachaça : celle que vous savez, pas l’autre.
«Je pourrais vous répondre que j’aime chanter danser le frère Timóteo aime assister, moi j’aime participer. Ça suffirait.
- Non, vous savez que non. Je veux savoir comment vou pouvez concilier votre connaissance scientifique avec les obligations du candomblé. C’est ça que je désire savoir. Je suis matérialiste, vous le savez, et, parfois, je suis stupéfait de certaines contradictions de l’être humain. Les vôtres, par example. On dirait qu’il y a deux hommes en vous : celui qui écrit des livres et celui que danse au terreiro.»
La cachaça était arrivée. Pedro Archanjo vida le verre : ce finaud voulait la clef de la devinette la plus difficile, de la plus indéchiffrable énigme :
«Pedro Archanjo Ojuobá, le lecteur de livres et le beau parleur, celui qui bavarde et discute avec le professeur Fraga Neto et celui qui baise la main de Pulquéria, la iyalorishá, deux êtres différents, le Blanc et le Noir, qui sait ? Ne vous y trompez pas, professeur, un seul. Un mélange, des deux, un mulâtre seul.»
Voix sévère et lente, d’une inhabituelle gravité, chaque parole arrachée de sa poitrine.
«Comment vous est-il possible, mâitre Pedro, de concilier tant de différences, d’être en même temps le non et le oui ?
- Je suis un métis, j’ai du Noir et j’ai du Blanc, je suis blanc et noir en même temps. Je suis né au candomblé, j’ai grandi parmi les orishás et, très jeune, j’ai eu un poste élevé au terreiro. Vou savez ce que signifie Ojuobá ? Je suis les yeux de Shangô, mon illustre professeur. J’ai une obligation, une responsabilité.»
Il tapa sur la table, appelant le garçon. Une autre bière pour le professeur, une cachaça pour moi :
«Si j’y crois ou nom ? Je vais vous dire ce que jusqu’ici je n’ai dit qu’à moi-même et, si vous le répétiez à quelqu’un, je serais obligé de vous démentir.
- Soyez sans crainte.
- Pendant des annés et des annés, j’ai cru à mes orishás comme le frère Timóteo croit à ses saints, au Christ et à la Vierge. Pendant tout ce temps, ce que je savais, je l’avais appris dans la rue. Ensuite j’ai cherché d’autres sources du savoir, j’ai acquis de nouveaux biens, j’ai perdu ma crédulité. Vous êtes matérialiste, professeur, je n’ai pas lu les écrivais que vous citez, mais je suis aussi matérialiste que vous. Plus, qui sait ?
- Plus ?Et pourquoi ?
- Parce que je sais, comme vous le savez, que rien n’existe hors de la matière, mais je sais aussi que, malgré ça, parfois la peur m’envahit et me perturbe. Mon savoir ne me limite pas, professeur.
- Expliquez-moi ça.
- Tout ce qui a été mon assise, la terre où j’ai planté mes pieds, tout s’est transformé en un facile jeu de devinettes. Ce qui était une miraculeuse descente de saints s’est réduit à un état de transe que n’importe quel docteur [sic] de la Faculté analyse et explique. Pour moi, professeur, seule existe la matière. Mais je ne cesse pas pour autant d’aller au terreiro et d’exercer les fonctions de mon poste d’Ojuobá, d’accomplir mes engagements. Je ne me limite pas comme vous que avez peur de ce que les autres peuvent penser, qui avez peur de compromettre votre matérialisme.
- Je suis cohérent, vous ne l’êtes pas ! explosa Fraga Neto. Si vous ne croyez plus, ne trouvez-vous pas malhonnetê de jouer la comédie comme si vous croyez ?
- Non. D’abord, comme je vous l’ai dit, j’aime danser et chanter, j’aime la fête, par-dessus tout la fête du candomblé. Et il y a ça encore : nous sommes dans une lutte, cruelle et dure. Voyez avec quelle violence on veut détruire tout ce que nous, Noir et mulâtres, nous possédons, nos biens, notre physionomie. Il n’y a pas si longtemps, avec le commissaire Pedrito, aller au candomblé était périlleux. On y risquait sa liberté et même sa vie. Ça, vous le savez, nous en avons déjà parlé. Mais, savez-vous combien sont morts ? Savez-vous, par hasard, pourquoi cette violence a diminué ? Je ne dis pas cessé, diminué. Savez-vous pourquoi le commisaire a été mis à la porte ? Savez-vous comment ça s’est passé ?
- J’en ai entendu parler. Une histoire absurde à laquelle votre nom est mêlé.
- Pensez-vous que, si j’avais discuté avec le commissaire comme je discute avec vous, j’aurais obtenu un résultat ? Si j’avais proclamé mon matérialisme, abandonné le candomblé, dit que tout ça n’étaint qu’un jeu d’enfant, le résultat d’une peur primitive, de l’ignorance et de la misére, qui aurais-je aidé ? J’aurais aidé, professeur, le commissaire Pedrito et sa meute de brigands, j’aurais aidé à en finir avec une fête du peuple. Je préfère continuer à aller au candomblé d’autant que j’aime y aller, j’adore chanter et danser devant les tambours.
- De cette façon, maître Pedro, vous n’aidez pas à modifier la société. Vous ne transformez pas le monde.
- Non ? Je pense que les orishás sont un bien du peuple. La lutte de la capoeira, le samba de roda, les afoshés, les tambours, les berimbaus sont un bien du peuple. Toutes ces choses, et beaucoup d’autres que vous, avec votre conception étroite, vous voulez voir disparaître, professeur, exactement comme le commissaire Pedrito, pardonnez-mois le dire. Mon matérialisme ne me limite pas. Quant à la transformation, j’y crois, professeur et n’ai-je vraiment rien fait pour y aider ?»
Son regard se perdit sur la place du Terreiro de Jésus :
«Terreiro de Jésus, tout est mêlé à Bahia, professeur. Les parvis de Jésus, le Terreiro d’Oshalá, Terreiro de Jésus. Je suis le mélange des races et des hommes, je suis un mulâtre, un Brésilien. Demain sera comme vous le dites, comme vous le souhaitez, certainement il le sera, l’homme va de l’avant. Ce jour-là tout se sera complètement mélange, et ce qui aujourd’hui est un mystère et une lutte de gens pauvres, une ronde de nègres et de métis, une musique prohibée, une danse illégale, candomblé, samba, capoeira, tout ça sera une fête du peuple brésilien, musique, ballet, notre couleur, notre rire, vous comprenez ?
- Peut-être avez-vous raison, je ne sais pas. Je dois réfléchir.
- Je vais vous dire une autre chose, professeur. Je sais de science certaine que tout le surnaturel n’existe pas, qu’il vient de l’instinct, nom de la raison, qu’il naît presque toujours de la peur. Pourtant, quand mon filleul Tadeu m’a dit qu’il voulait épouser une fille riche et blanche, sans même le vouloir j’ai pensé au jeu qu’avait fait la mère-de-saint le jour de son diplôme. Je porte ça dans mon sang, professeur. Le vieil homme m’habite encore, en dehors de ma volonté. Maintenant, je vous demande, professeur : est-il difficile de concilier la théorie et la vie, ce qui s’apprend dans les livres et la vie qui se vit à chaque instant ?
- Quand on veut appliquer les théories par le fer et par le feu, elles vous brûlent la main. C’est ce que vous voulez dire, n’est-ce pas ?
- Si je proclamais ma vérité aux quatre vents et je disais : tout ça n’est qu’un jeu, je me mettrais du côté de la police et je monterais dans la vie, comme on dit. Écoutez, mon bon, un jour les orishás danseront sur la scène des théatres. Je ne veux pas monter, je vais de l’avant, camarade. »
in “La Boutique aux Miracles”, de Jorge Amado; traduit du Portugais par Alice Raillard. (s.l., Éditions Stock, 2001, p. 341-345. ISBN 2-253-93282-5, Dépôt légal Édit 16684-11/2001)
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“Andarei mais vinte dias
ao frio, ao vento e à fome
às escondidas da sorte
um dia fraco, outro forte,
que um dia em que se não come
é um dia a menos para a morte”
[Sérgio Godinho, na cantiga “Romance de um dia na estrada”. ]
“Ha'u sei la'o loron ruanulu tan
iha malirin, iha anin, no hamlaha
halimar subar ho sorte
loron ida fraku, loron seluk forte,
tanba loron ida ne'ebé ita la han
ne'e loron ida menus ba mate”
[Sérgio Godinho, iha kantiga “Romance de um dia na estrada” – tradusaun ba tetun husi JP Esperança ho Fernanda Correia]
“A heki sole aer sakuruu pita
her tukudu, her gelu, i salae
dalai sola los sorte
aer iso fraku, aer selo forte,
pita aer iso mane kiti tet a'a
kede'e aer iso menus la mate”
[Sérgio Godinho, her kantiga “Romance de um dia na estrada” – tradusaun la tokodede pe JP Esperança los Fernanda Correia]
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