Os textos de JP Esperanca

Textos sobre Timor e outros amores

Os livros da vida deles – texto explicativo

 

No início do segundo semestre do ano lectivo 2005/2006 pedi aos alunos de uma turma do primeiro ano (incluindo repetentes) da licenciatura de formação de professores de português da UNTL (a universidade pública de Timor) que escrevessem o nome de 5 livros que já tivessem lido na sua vida.

Recolhi os papelinhos e depois pedi-lhes que respondessem ao seguinte:

     Qual é o livro de que mais gostou na sua vida? Porquê?

A minha intenção era apenas tentar saber qual o tipo de histórias que gostavam de ler, quais os temas que os interessavam. As respostas são úteis – e por isso as disponibilizo aqui – para perceber as características dos alunos universitários em Timor-Leste nos dias de hoje. A preparação de materiais para o ensino-aprendizagem no contexto timorense deve ser feita tendo isto em conta para ser eficiente (contextualizar materiais didácticos não significa apenas trocar os topónimos e incluir umas quantas referências folclóricas).

Explicação das respostas deles:

- A referência feita por muitos deles ao livro “O que é a lusofonia” (a que chamam também “Livro da lusofonia” ou só “Lusofonia”) diz respeito a uma colectânea bilingue (português e tétum) de textos sobre pessoas, lugares e aspectos da cultura do universo lusófono, publicada em Díli pelo Instituto Camões em 2005, de que sou co-autor junto com quatro jovens timorenses. A razão pela qual o livro é mencionado tantas vezes é que este foi oferecido a todos os alunos (enquanto havia exemplares suficientes) e vários dos textos incluídos foram usados em diferentes cadeiras da licenciatura. Como cada texto tinha também a versão em tétum isso significou que todos os alunos o puderam ler independentemente do nível de português que tivessem. Para muitos dos estudantes este foi o único livro que realmente leram na vida (mesmo um livro como “O Principezinho” precisa de ser completamente esmiuçado nas aulas porque os alunos revelam uma grande dificuldade de compreensão da linguagem).

- O livro de Luís Cardoso “Crónica de uma travessia – A época do ai-dik-funam” é apontado por muitos, mas isso não significa que o tenham lido, é simplesmente um dos livros de que sabem o título (muitas vezes dizem-no mal, ou atribuem  a sua autoria ao dicionarista Luís Costa). Mencionam a Crónica porque nas minhas aulas insisto em que esta é a obra inaugural da literatura timorense em prosa (aliás, o livro é depois leitura obrigatória na cadeira de Literatura Timorense – em cujas aulas vários excertos são exaustivamente esmiuçados). Também um ou outro conto do mesmo autor estudado nas aulas é apontado por alguns alunos como “livro” que já leram.

- “Português sem Fronteiras” ou outros livros de didáctica do português L2/LE. Os alunos não tem hábitos de leitura e não estão habituados a dividir os livros por categorias. Quando se pergunta a alguém qual a obra que mais gostou de ler na vida o inquirido pode responder com o título de um dicionário ou de uma gramática.

- Livros de Luís Costa. Este autor escreveu um dicionário de tétum-português e um pequeno guia de conversação e ambos são bibliografia de consulta na cadeira de Linguística do Tétum (apesar de não seguirem as normas da ortografia oficial do tétum servem para comparação no estudo de alguns pontos do programa, e há uns anos atrás foram distribuídas cópias aos milhares em Timor). Muitos estudantes confundem frequentemente o seu nome com o de Luís Cardoso.

- Hakerek tetun tuir banati – É um dos vários títulos publicados pelo Instituto Nacional de Linguística de Timor-Leste para o ensino-aprendizagem da gramática e ortografia do tétum. Leitura obrigatória na cadeira de Linguística do Tétum.

- Nyata é uma revista indonésia de escândalos e mexericos da vida dos famosos, principalmente gente do mundo do espectáculo.

 

Durante a última meia dúzia de anos houve professores portugueses em Timor-Leste a usar como obra de leitura a estudar nas aulas o Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente. Tendo em conta que os alunos estão actualmente ainda a fazer um grande esforço para conseguirem dominar o português contemporâneo, será que isso foi uma opção adequada?

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