Os impactos regionais da Portucel Industrial – C. F. de Cacia

 

Introdução

 

            Tudo o que existe sobre a superfície da Terra não poderá nunca existir isoladamente. Seja qual for a estrutura existente, obra do homem ou da natureza, que apareça no mundo, desencadeia uma serie de acções e reacções, impulsiona coisas novas, faz abortar ou modificar outras coisas, como se trata-se de um elo numa cadeia ou de uma célula de um ser vivo, por sua vez sujeito aos impulsos do exterior, desenvolvendo a cadeia ou fazendo os ser vivos crescerem e originarem novas formas de vida.

            Uma unidade industrial não escapa a tal determinação, seja ela, de grande ou pequena dimensão. A sua actividade encaixa em circuitos de relação, absorvendo matérias primas, expelindo produtos acabados, movimentando transportes, impulsionando outras indústrias e o comercio, promovendo o fomento da riqueza.

  Impactos económicos

 

            Analisar o impacto da instalação de uma unidade fabril implica necessariamente analisar a caracterização económica precedente. Nos anos 40 a Europa sarava as feridas da 2ª Guerra Mundial estando parcialmente (se não na sua quase totalidade) destruída. Portugal por seu turno não participou nesta catástrofe, mas a política do Estado Novo promoveu o isolacionismo ao mesmo tempo que se defendia um ruralismo como política de arranque do desenvolvimento. A região do Baixo Vouga não fugia a esta realidade nacional e a população dedicava-se na sua maioria à agricultura (nomeadamente à cultura do arroz, do milho e da batata) complementando esta actividade com a pecuária. As condições morfológicas e climáticas eram bastante favoráveis a estas actividades. Apesar deste facto a população apenas praticava a agricultura e a pecuária para subsistência pois a sua alimentação estava garantida e os excedentes apenas serviam para mais algumas (poucas) necessidades. Socialmente era uma comunidade onde a entre ajuda era visível e as aspirações quase que se resumiam ao próximo dia. É neste contexto de sociedade rural que se irá dar uma verdadeira “revolução industrial” a nível local.

            Seguidamente vai-se tentar analisar os impactos económicos mais em pormenor para uma melhor percepção dos mesmos. É necessário no entanto lembrar que estes impactos não são de maneira nenhuma estanques fazendo, acima de tudo, parte de um conjunto de efeitos que se encontram interligados e que se afectam mutuamente.

Volume de trabalho criado e salários

 

            A instalação de uma unidade industrial de grande porte leva sempre a uma necessidade de mão de obra muito elevada. Para uma pequena freguesia a mão de obra requisitada era muito difícil de ser satisfeita. É neste âmbito que se dão as primeiras “imigrações”. A construção de todo a estrutura física funciona assim como uma primeira atracção de mão de obra.

            Na década de 50 a reduzida população residente não era suficiente nem para a instalação da fábrica (como já se referiu) nem para a sua laboração. Cacia e a sua nova indústria passam a ser um ponto de atracção populacional vindo pessoas de vários pontos do país e que se fixaram na localidade ou nos arredores.

            O aumento de população irá permite assim a fixação de outras empresas nomeadamente familiares que tinham a sua actividade no sector terciário. Até aos anos 50 o comércio local era exíguo e constituído por pequenas lojas, em número reduzido, que tudo (ou quase tudo) vendiam.

            “São efectivamente centenas de famílias que, em Cacia e arredores, vêm fixar-se, e que traz, como consequência, que ali se fixem também um comércio e actividades afins que, até então, não passavam duma ou outra tasca onde de tudo se vendia um pouco.” (Portucel, 1978).

            Esta terá sido uma das alterações profundas provocadas no seio da comunidade. A evolução para uma sociedade mais desenvolvida onde o comércio ganha bastante terreno, a agricultura cede e a indústria sobressai como a grande dinamizadora do crescimento económico. Um estudo citado no livro de Bartolomeu Conde pode dar uma ideia desta evolução até à década de oitenta. Entre 1980 e 1984 encontravam-se colectadas, em Cacia, as seguintes actividades económicas:

 

 

Actividade económica

N.º de estabelecimentos

Serviços

55

Comércio

95

Construção Civil

36

Fábricas

12

Hotel

1

Total

199

 

            É esta de facto a evolução registada. Cacia conseguiu no espaço de 30 anos (desde a instalação desta empresa até a data deste estudo), evoluir das ditas “tascas” para uma actividade diversificada e mais consentânea com o desenvolvimento que se espera para qualquer localidade deste país. A análise desta evolução não pode contudo deixar uma perspectiva que apenas a Portucel contribuiu para este desenvolvimento. A empresa foi o grande impulsionador mas na sua peugada surgiram depois outras grandes empresas (da qual evidencio a unidade da Renault Portuguesa e a sua associada Frunfrap) que ajudaram ao impulso para o desenvolvimento económico através da criação de milhares de empregos que possibilitou que hoje Cacia seja “um centro comercial e industrial de grande importância no concelho e distrito de Aveiro” (Conde, 1989; p.83).

            Outra problemática que se nos depara quando falamos de indústria é a questão dos salários. No meio industrial, na década de 50, o salário do operário era o garante da sustentação de uma família que, por vezes, atingiam um n.º de elementos bastante alto. Cacia esteve (e ainda se encontra) numa industrialização crescente que levou a uma transformação social, onde o trabalhador por conta de outrem era por norma o elemento que obtinha rendimento (a agricultor deixou de ser actividade principal sendo apenas exercida por alguns agricultores mais idosos ou em regime de complementaridade com a actividade principal).  É neste âmbito que a análise dos salários adquire importância na análise dos impactos socio-economicos regionais.

            A empresa procedeu a uma política de promoção dos trabalhadores através de uma política de salários acima da média. É esta política da empresa que permitiu criar ainda um maior impacto económico, pois conseguiu desta forma elevar o nível de vida das populações locais, permitindo a evolução do consumo e com isto arrastar outras actividades, nomeadamente o lazer. Este facto é salientado por João de Almeida no livro Celulose de Cacia: “Praticamente desde o inicio da laboração da fabrica, os salários nesta praticados eram superiores aos auferidos noutra qualquer unidade fabril da região e, não raro, do país.” (Portucel, 1978; p.95).

            Este facto explica também o grande interesse em trabalhar para a empresa e por isso a grande massa de pessoas que até ali se deslocam para trabalhar e/ou procurar emprego.


 

                                                                             Fonte: Barreto, 1996;  Portucel, 1978

        Com este gráfico podemos comprovar também que entre 1960 e 1977 apenas no último ano os salários médios brutos cresceram menos do que a inflação. Pode-se afirmar então que a empresa alimentou um crescimento real dos salários dos seus trabalhadores alimentando, também devido a isso, a dinamização económica da região.

 Impacto na silvicultura

 

            Como atrás foi referido os dois produtos principais na laboração da empresa são a madeira de pinho e de eucalipto. O aparecimento desta unidade fabril possibilitou dar um impulso no sector agrícola, mais propriamente na silvicultura, no âmbito regional, uma vez que grande mancha de eucalipto se situa no eixo Coimbra – Aveiro, onde alguns concelhos têm áreas de cobertura desta espécie da ordem dos 30%.

            A cultura do pinheiro bravo é bastante mais antiga e possui fins mais variados como por exemplo os sectores das serrações e do mobiliário, o que leva a que os efeitos sentidos não sejam tão profundos. Por outro

 lado tem-se assistido a uma substituição dos pinhais por eucaliptais apesar da legislação dificultar esta operação, uma vez que o rendimento do pinheiro é bastante inferior estimando-se que a sua produtividade seja cerca de 1/3 da do eucalipto.

            Contrariamente ao pinho, o eucalipto apresenta-se como uma espécie quase exclusivamente consumido pelas celuloses (cerca de 90% da produção), e a utilização deste produto pelo Centro Fabril de Cacia levou a um aumento substancial desta cultura. Em meados da década de 50 existiam cerca de 50 000 hectares desta cultura passando-se nos anos 80 para cerca de 459 000 hectares. Esta expansão decorre do modelo de desenvolvimento adoptado que visava a substituição de importações e inseriu-se num processo de reorganização e de especialização em produtiva em curso no país.

            A expansão da agricultura foi nos anos anteriores a década de 50 a custa da retracção da área florestal e que determinou a paisagem rural, tal como hoje a conhecemos. Nos anos 60 a agricultura começava a dar sinais de grande fragilidade, os rendimentos dos agricultores eram muito baixos, não permitindo um nível de vida que se começava a pretender. Havia ainda o problema de muitos terrenos não serem de boa qualidade para o exercício de actividades agrícolas. Aos factores condicionantes de uma vida agrícola, à necessidade de grande produtividade para se poder competir no mercado junta-se ainda uma grande necessidade de eucalipto para abastecer a empresa, e é neste ponto que se dá uma reconversão agrícola. A introdução desta cultura em massa permitiu aos activos deste sector acederem a um nível de rendimento superior, principalmente aos assalariados, resolver o problema de falta de mão de obra devido ao êxodo rural e ao mesmo tempo manter vivo o mundo rural. Entre as actividades alternativas as utilizações que se faziam era sem dúvida a área florestal aquela que tinha mais potencialidades, inseria-se no padrão, já referido, da especialização portuguesa, contribuindo para uma dinâmica económica regional e sectorial.

 

 

 Impacto ambiental

 

            A partir da idade da razão vinda com os filósofos gregos a evolução e o desenvolvimento não pararam de crescer e a palavra natureza passou a ser conotada com uma outra - Ambiente.

            O mesmo ambiente que despontou como valor e como símbolo nos anos 70, teve consagração política nos anos 80, e acaba de ganhar peso nas políticas de desenvolvimento e de qualidade de vida da década de 90.

 

Os actuais desafios ambientais colocados às produtoras de pasta de papel, sobretudo pela União Europeia (UE), obrigam, segundo aquele técnico, "a olhar não apenas para uma fábrica mas a levar em conta a totalidade do ciclo", isto é, "da árvore até ao destino final, seja a incineração, aterro ou reciclagem".

 

            Um ambiente que é precioso preservar, mas e simultaneamente conjugar com os factores progresso, tecnologia e industrialização.

            A harmonia é desejada por todos, mas só possível se os esforços dos agentes económicos e políticos do país se unirem e se, em conjunto planearem uma política ambiental justa e enriquecedora para todos os intervenientes no processo.

            Encontramo-nos num ponto em que a sociedade já não anseia só por um crescimento desenfreado e imaturo, mas num nível em que é importante que dege­nere num aumento proporcional do nível de qualidade de vida.

            Um dos aspectos mais importantes para a qual a consciência colectiva está desperta é o direito à preservação do património ecológico pertencente a todos nós, ou seja, o homem sendo mais um elemento do ecossistema deverá interrelacionar-se de uma forma sábia, responsável e equilibrada.

                        A indústria de pasta de papel, que ocupa, no contexto mundial, um lugar destacado, não podia ser uma excepção para o contributo contaminante que toda a indústria gera. Esta indústria é de tal forma poluente que se admite que seja responsável por cerca de 20% da poluição industrial, isto é, cerca de 10% da poluição global, considerando apenas a poluição das águas. A alteração do meio ambiente em resultado de uma instalação fabril de pasta para papel pode-se dar, genericamente, por várias formas:

·        Pelas matérias solidas depositadas, afectando a flora e a fauna dos ecossistemas;

·        Formação de blocos de fibras de cheiro nauseabundo no leito dos cursos de água;

·        Destruição da fauna e flora aquáticas em caso de excesso de descargas de efluentes;

·        O teor de oxigénio na água com níveis muitas vezes inferiores aos níveis necessários a manutenção da vida aquática;

·        O cheiro e sabor do peixe alterado;

·        A atmosfera desagradável em torna da instalação fabril.

            Neste capitulo tentarei enquadrar ambientalmente a região e mostrar de que forma a instalação desta unidade fabril alterou o ecossistema regional, o que ela fez no sentido da diminuição das externalidades negativas por ela criadas. Esta analise dos poluentes e das medidas preconizadas será dividida pelos diversos sectores de produção por forma a se fazer uma análise mais consistente.

 

Poluição

 

            No aspecto ambiental, a Portucel, como indústria química que é, é uma indústria altamente poluidora. Têm no entanto sido feitos grandes investimentos, a fim de minimizar essa poluição e reduzir o grau de agressividade para o meio ambiente. Existem na empresa meios de tratamento das águas lançadas ao rio e existe também um processo de captação das partículas lançadas pelas chaminés.

 

             Neste ponto retractar-se-á de forma sucinta a poluição deste tipo de instalações.

            Contamina-se o ar, quer sob a forma de gases, quer sob a forma de poeiras. Os gases, cujos maiores volumes provêm das caldeiras de recuperação e fornos de cal, podem ser divididos, grosseiramente, em três categorias:

·        ricos, essencialmente, em dióxido de enxofre, libertando, quer através do processo, em si, quer através da queima de fuel;

·        ricos, essencialmente, em substâncias mal cheirosas, onde predomina o sulfureto de hidrogénio e compostos orgânicos de enxofre, nomeadamente o metil-mercaptan, o dimetil sulfureto e o dimetildissulfureto, que estão normalmente presentes nas emissões fabris (caldeira de recuperação, evaporação, digestores e fornos de cal);

·        ricos em compostos orgânicos de cloro.

As poeiras são formadas por vários compostos de sódio (principalmente sulfato), das caldeiras de recuperação e óxido de cálcio, dos fornos de cal.

            Contamina-se a água, através de substâncias dissolvidas e em suspensão. As primeiras podem dividir-se em dois grandes grupos:

·        do tipo inorgânico, incluindo sulfatos, carbonatos e cloretos, geralmente com o catião de sódio, e que provêm das operações de cozimento e branqueamento;

·        do tipo orgânico, que derivam da madeira e são especialmente lenhina, carbohidratos e os seus compostos degradados. Enquanto a lenhina tem uma velocidade muito lenta, os carbohidratos decompõem-se biologicamente com relativa facilidade, sendo oxidados pelos microorganismos existentes no meio receptor, consumindo, desse modo, o oxigénio dissolvido na água. A cor introduzida pela lenhina, além de reduzir a profundidade  de visibilidade e interferir com a síntese fotoquímica, torna o tratamento da água muito difícil e com um custo extremamente oneroso.

            As substâncias em suspensão, como fibras, resíduos de casca, lamas, cinzas e aditivos de papel, tendem a decantar no meio receptor, na maior parte, numa zona vizinha do ponto de descarga, podendo alterar a estrutura do sedimento e, por isso, interferir na vida biológica do receptor.

            Os processos industriais usados pela Portucel Industrial, nomeadamente o branqueamento sem utilização de cloro elementar (ECF - elemental chlorine free) aliado aos sofisticados sistemas de tratamento primário e secundário do efluente líquido, são os mais compatíveis com a preservação do ambiente, não havendo vantagens dos processos de branqueamento sem utilização de compostos de cloro (TCF - totally chlorine free) na qualidade do efluente.

 

 

 Diagnóstico

            Seguindo a tendência observada, a nível mundial, a partir do fim da década de 60, também o Centro Fabril Cacia iniciou uma luta contra a poluição, no decorrer da década de 70. Com efeito, ao seleccionar algum do equipamento existente, já teve a preocupação em adquirir aquele que proporcionar os mais baixos parâmetros de poluição. Mas, o grande impulso foi iniciado em 1977, quando encarregou uma firma sueca, experiente no domínio da poluição, para proceder a um diagnóstico dos níveis poluentes então existentes no Centro e para apresentar soluções para a redução das descargas poluentes, para níveis internacionalmente aceitáveis. Foi elaborado um programa para a realização de um conjunto de medidas internas destinadas a reduzir:

            - o consumo de água

            - as perdas de fibra

            - as perdas de produtos químicos

A fim de as descargas para o meio receptor não ultrapassarem os níveis toleráveis de sólidos suspensos, foi proposta a instalação de um tratamento primário e foi ainda sugerida a instalação futura de um tratamento secundário, a projectar de modo a remover a quase totalidade dos materiais biologicamente oxidáveis.

Impactos ambientais do eucalipto

 

            Uma parte significativa da discussão sobre a expansão do eucaliptal, em Portugal, relaciona-se com a atitude das populações urbanas, a qual é condicionada, em parte, pela reacção visual a este tipo de cultura. É, todavia, de salientar que a componente estética é apenas um dos aspectos da complexa atitude das pessoas perante a floresta de eucalipto. As modificações constantes que esta cultura permite, por ser de crescimento rápido, dá uma sensação de perda de controlo das modificações, por parte das pessoas, aumentando assim a sua aversão a esta espécie florestal. Esta análise pretende ser racional, tentando explicar os perigos reais desta cultura e ao mesmo tempo desmistificando os problemas por ela criados.

            As plantações de Eucalyptus Globulus que a Portucel gere para produzir a sua matéria-prima são um exemplo pioneiro, afirmando-se como a forma ambientalmente adequada de produzir eficazmente fibra lenhosa de alta qualidade, sendo com base nesta cultura florestal que se conseguirá sustentar o crescimento do consumo de papel sem colocar em risco a sobrevivência das florestas naturais existentes no mundo.
            Não se pode falar num impacto directo do Centro Fabril de Cacia nos possíveis problemas ambientais que esta espécie possa causar, contudo, sendo o pioneiro na utilização desta matéria prima foi também o impulsionador da sua cultura numa grande escala. Por outro lado a grande mancha florestal de eucalipto situa-se num raio bastante  pequeno pelo que se justifica esta abordagem.

 

 Impacto sobre os recursos hídricos

            Muito se tem falado sobre o impacto da cultura do eucalipto nas disponibilidades de água, especialmente porque é uma cultura de crescimento rápido e que consome bastante água. Ao nível do consumo de água, e se se fizer uma ocupação dos solos correcta estes impactos em Portugal serão os normais para uma floresta de produção intensiva. Os impactos dependerão muito do tipo de técnicas silvícolas utilizadas e só podendo ser analisadas mediante os vários interesses de todos os potenciais consumidores de água. Naturalmente que esta cultura consome mais água mas, em principio, não haverá impactos ambientais desastrosos. A eficiência do uso de água desta espécie é bastante elevado.

            Contudo, ao nível da erosão hídrica,  o impacto mais significativo dá-se nas épocas da preparação do terreno, para as plantações, e dos cortes rasos.

            Em suma podemos afirmar que os recursos hídricos serão muito mais afectados pelas técnicas utilizadas na plantação e corte desta espécie do que pela própria espécie.

 Impacto sobre os solos

            As influências das plantações desta cultura são bastante semelhantes as encontradas em terrenos com outras espécies de crescimento rápido. Os principais impactos dão-se na alteração das características físicas dos solos. A este nível modifica-se a densidade aparente, porosidade, compactação e permibialidade dos solos. Os valores dos aspectos atrás referidos são muito mais desfavoráveis ao eucalipto quando, por exemplo, se compara com o sobreiro. Estas modificações são muito mais perigosas quanto  menor for a pluviosidade da região, contudo, os estudos efectuados indicam que estas modificações estão muito mais relacionadas com o tipo e intensidade de preparação dos solos do que com a influência directa da espécie.

            O eucalipto caracteriza-se por imobilizar grande parte dos nutrientes na biomassa e nas folhas, o que através de um processo de decomposição rápida desta cultura, permite uma libertação de nutrientes bastante rápida. Da exploração do eucalipto não ocorrem muitas alterações no nível de nutrientes o que não acontece com a exploração da biomassa (casca, folhas e pequenos ramos). Interessa então devido a este factor fazer-se uma correcta fertilização do solo, permitir a auto-fertilização através da decomposição da biomassa, tendo em atenção a necessária prevenção de incêndios florestais.

Impacto sobre a fauna e flora

            Esta problemática não tem tido muita atenção por parte dos investigadores, pois não existem muitos estudos que consigam determinar, com um nível grande de certeza, os impactos desta cultura sobre a fauna das áreas da sua implementação. Os trabalhos existentes levam no entanto a entender que os impactos do eucalipto são semelhantes ao de outras culturas, florestais ou agrícolas, intensivas. A estrutura e composição florística muito  simples leva a baixas riquezas e diversidades faunísticas. Estas características de típicas de explorações industriais de curta rotação são ainda agravadas, em Portugal, por o eucalipto ser uma espécie exótica no nosso país (não nos esqueçamos que ele é originário da Tasmânia e da Austrália). Os impactos negativos desta cultura na fauna serão importantes, no entanto, quando existirem florestações em manchas continuas de grandes dimensões ou se ocorrerem substituições importantes de habitates de espécies. Torna-se assim necessário definir as zonas de florestação e a forma de uso do solo.

            No eixo de maior mancha de eucalipto em Portugal, entre Coimbra e Aveiro, assiste-se a grandes extensões de eucaliptal o que poderá provocar a curto prazo problemas na fauna existente. Caberá as empresas produtoras de pasta, que possuem cerca de 35% da área florestal desta espécie, um importante papel na minimização destes impactos ambientais promovendo nas suas florestas povoamentos mistos, promovendo investigação na melhoria genética do eucalipto para que ele possa ser uma fonte de alimento para os habitantes das matas.

            Ao nível da flora a documentação existente é reduzida mas permite obter o principal impacto do eucalipto na fauna: redução da diversidade florística do sub-bosque. O crescimento bastante rápido nos primeiros anos e a existência de fortes raízes nos horizontes superficiais do solo levam a uma competitividade muito forte pelos nutrientes que é normalmente ganha pelo eucalipto. A juntar a este facto temos a exploração intensiva desta cultura sendo então fácil de aceitar que eucaliptais de exploração rápida terão uma riqueza florística muito pobre.

            Pelos aspectos que foram expostos é de importância fulcral tomar algumas medidas nomeadamente ao nível dos plantios mistos, das técnicas e processos de cultivo e corte desta espécie.

 

Impacto social, cultural e geográfico

 

Crescimento populacional

 

            Cacia foi em tempos longínquos um local de forte atracção populacional. A sua localização geográfica permitia facilmente o comércio atraindo a si inúmeros mercadores. Com as alterações morfológicas da ria de Aveiro, e consequentemente do rio Vouga, como sendo o entupimento da barra e a consequente estagnação das águas, a população diminuiu. A população residente dedicou-se na sua esmagadora maioria à agricultura, a uma agricultura rica pela diversidade possível mas uma agricultura apenas de quase subsistência. Este panorama prolongou-se até ao inicio deste século. Contudo dá-se uma evolução no pensamento de uma significativa parte da população. Inicia-se um processo de emigração de população em busca de melhores condições de vida, alterando por completo o papel que outrora pertenceu à freguesia. Cacia deixou de funcionar como polo de atracção populacional e passou a ser um centro de irradiação de população. A partir do final da década de 40 a comunidade de Cacia viu-se autenticamente invadida por um surto de industrialização. É neste contexto que nos surge a implantação do Centro Fabril de Cacia, nos anos 50. Se a transformação operada pela saída de população foi muito grande, muito maior e com muita mais rapidez foi a transformação operada a partir dos anos 50. A Companhia Portuguesa de Celulose, em Cacia, constitui um ponto crucial de referência pois abre uma nova era social, económica e no próprio género de vida da população de Cacia. “(...) pelo vulto, pelas condições de trabalho que se derramou, pelo nível de vida de uma grande parte da população, nitidamente melhorado, (...) representa (a empresa) a mola maior, de mais valia e maior influência na modificação (...) de Cacia.”(Conde, 1989; p.31).

            Esta grande evolução altera assim profundamente toda a geografia humana de Cacia que passa a figurar como um ponto assinalado no mapa de Portugal. De uma população reduzida a escassas centenas de fogos, Cacia passa a ser um ponto industrial de relevo com uma indústria considerada de base, com um crescimento de população bastante assinalável. Para lá acorreu uma parte do “(...) excedente demográfico do interior (...)” (Portucel, 1978; p.95). O aumento de população pode ser verificado através do número de residentes reflectidos nos censos (recenseamentos gerais da população) ao mesmo tempo podemos analisar a evolução dos trabalhadores da empresa que, na sua maioria, se fixaram em Cacia e nos arredores.

 

 


De uma perda de população registada em 1940 dá-se um aumento, não muito significativo, em 1950. A este aumento não será indiferente a necessidade de mão de obra necessária para a construção das instalações da empresa, a qual se dirigiu em número significativo para Cacia. O aumento populacional atingiu o ponto alto em 1960, já com a unidade fabril em plena actividade, e em que o número de trabalhadores foi um dos mais elevados na historia da empresa. Em 1970 o número de trabalhadores era mais reduzido e o acréscimo de população foi também menor (foi aliás o menor acréscimo registado nos últimos 30 anos). Este acréscimo menor não será alheio a 3 factos:

1.      Redução de pessoal na empresa;

2.      A emigração que se registou em Portugal na década de 60;

3.      A guerra colonial que levou a ausência de muitos portugueses que combatiam no Ultramar.

            Apesar destes factores, e realçando o primeiro, nota-se que a atracção populacional já não depende só do Centro Fabril de Cacia, isto é o primeiro impulso dado pela empresa permitiu criar condições para que outras actividades se instalassem promovendo também o emprego regional.  Esta tendência torna-se mais evidente nas décadas seguintes onde o n.º de trabalhadores foi reduzido gradualmente mas a população continua a aumentar com acréscimos da ordem da unidade de milhar de pessoas.

            Assiste-se, no espaço de 40 anos, a uma duplicação da população, passando-se de 3 074 habitantes para 6 691 habitantes o que corresponde a um acréscimo de 117%.

            Com estes dados podemos então concluir que de facto o inicio do crescimento populacional começa a ser bastante preponderante a partir dos anos 50/60. Antes destas décadas a população era mais ou menos constantes, com pequenas oscilações. Este será o principal impacto ao nível sociocultural. Naturalmente que não se pode desleixar os impactos causados pela atracção de pessoas de outras regiões, que levou a uma conjugação de culturas e saberes regionais que permitiram a aquisição de novos hábitos por parte dos naturais da freguesia. O contacto com outras realidades e o aumento de população levou também a um processo de “socialização urbana”, que se tem acentuado ao longo dos anos, isto é, o hábito de comunidade foi desaparecendo aos poucos, impondo-se cada vez mais uma sociedade de hábitos urbanos que desencadeou todo um processo de alteração social de Cacia com todos os aspectos positivos e negativos daí advindos. Hoje podemos falar em Cacia como uma vila urbana, que não sendo um dormitório de Aveiro, adquiriu muito dos seus hábitos sendo actualmente uma extensão da sede de concelho.

 

O  crescimento das famílias e aumento de edifícios


            O Centro Fabril de Cacia foi, como já se referiu, o grande responsável pelo primeiro fluxo migratório para a freguesia. Como consequência do aumento de população verifica-se um incremento no número de famílias e naturalmente no número de edifícios, incrementando-se também a indústria da construção.

        

    Fonte: INE

          

           Este gráfico permite-nos analisar que os impactos registados no aumento da população se reflectiram também no incremento do número de famílias e no número de edifícios. Os dados existentes dos recenseamentos á habitação datam apenas dos anos 60 até 1991. Apesar deste senão o impacto geográfico pode ser analisado a partir das plantas existentes. Cacia cresceu sem dúvidas. Construíram-se edifícios, agora zonas de expansão urbana, que eram inicialmente terrenos agrícolas. As novas construções não obedeceram a um padrão único, isto é, inicialmente as construções eram mais ou menos dispersas, evoluindo-se depois para zonas de construção mais concentrada. Surgiram zonas urbanas novas, onde a mais importante, e mais recente, seja a Urbanização de Cacia Nova.