Herman Dooyeweerd, pioneiro da filosofia calvinística
Apresentação por John Witte Jr., na introdução de "Uma Teoria Cristã de Instituições Sociais" (Herman Dooyeweerd, trad. Magnus Verbrugge. 1986, Fundação Herman Dooyeweerd.) Traduzido do Inglês com permissão por Guilherme Carvalho.
Herman Dooyeweerd nasceu em Amsterdã em 1894, filho de pais Calvinistas. Em 1912
ele se matriculou como um estudante de direito na Universidade Livre de
Amsterdã, uma instituição Cristã fundada em 1880. Cinco anos mais tarde obteve o
doutorado em direito. [A Dissertação de Dooyeweerd, De Ministerraad em
Nederlandsche Staatsrecht (O Parlamento na Lei Constitucional holandesa) foi
escrita sob a supervisão de D.P.D. Fabius, um teorista constitucional.] De 1918
até 1921 Dooyeweerd trabalhou no Departamento holandês do Trabalho como um
escrivão legislativo. Do final de 1921 até à metade de 1926 serviu como diretor
assistente da recentemente organizada Fundação Dr. Abraham Kuyper, um órgão de
pesquisa e ação política do Partido Anti-Revolucionário dos Países Baixos (ver
"O Legado de Kuyper," abaixo). Lá ele foi responsável não só pelo encaminhamento
dos assuntos imediatos de política que surgiam diante do Partido
Anti-Revolucionário, mas também pela elaboração dos princípios Calvinistas de
lei, política, e sociedade sobre os quais Partido tinha sido estabelecido cerca
de 80 anos antes. Foi ao se desincumbir desta responsabilidade - uma
responsabilidade em que ele mesmo insistiu - que Dooyeweerd começou (1) a
estudar sistematicamente as teorias Calvinistas tradicionais do direito,
política, e sociedade; (2) a explorar as estruturas e organização de várias
sociedades históricas; e (3) se empenhar criticamente numa grande variedade de
teorias presentes e passadas de lei, política, e sociedade. Seu trabalho nestes
quatro anos culminou em cinco artigos principais, incluindo um tratado de quinze
partes, "Na Luta por uma Política Cristã" [Herman Dooyeweerd, "In den strijd om
een Christelijke Staatkunde. de Proeve een fundeering der Calvinistische levens-
en wereldbeschouwing in hare Wetsidee," I Antirevolutionaire Staatkunde (daqui
em diante A.R.S.) 7-25 62- 79, 104-118, 161-173, 189-200, 228-244, 309-324,
433-460, 489-504, 528- 542 581-598, 617-634, (1924-5); 2 A.R.S. 244-65, 425-445
(1926). A.R.S. era o jornal mensal da Fundação Dr. Abraham Kuyper, que
Dooyeweerd editou por vários anos. Este trabalho aparecerá como o volume B5 das
Obras Completas de Dooyeweerd.] e uma importante monografia sobre “O Calvinismo
e Lei Natural” (contido no volume B1 das Obras Completas de Dooyeweerd).
Em 1926 Dooyeweerd retornou à sua alma mater como um professor de
filosofia do direito, história do direito holandês, e enciclopédia de leis. Ele
reteve esta posição até sua aposentadoria em 1965. Nos primeiros cinco ou seis
anos de sua docência, ele mudou o enfoque de sua pesquisa e publicações dos
assuntos mais gerais de teoria política e social Calvinista para perguntas
complicadas de doutrina e filosofia do direito. Em uma série de brilhantes
artigos, ele analisou, historicamente e filosoficamente, as questões complicadas
da causalidade jurídica, culpa, responsabilidade, propriedade, e fontes da lei.
Desde o princípio, porém, ele insistiu em ver estas questões legais, como também
questões de política e sociedade, no contexto de uma teoria mais ampla da
natureza e destino do homem (antropologia), do ser e da ordem (ontologia), e do
conhecimento e suas fontes (epistemologia). Nos anos 30 Dooyeweerd começou a
elaborar sistematicamente e em detalhes estes três campos filosóficos para
mostrar a sua importância na definição e solução de assuntos de lei, ciência
política, sociologia, e muitas outras ciências. Primeiramente ele articulou suas
visões em “A Crise de Teoria Política Humanística à Luz da Cosmologia e
Epistemologia Calvinista (1931) (De Crisis der Humanistischen Staatsleer in het
Licht eener Calvinistische Kosmologie en Kennistheorie [Amsterdã: 1931)]. Mas
esse trabalho foi rapidamente eclipsado por sua revolucionária obra em três
volumes, “A Filosofia da Idéia Cosmonômica” (1935-1936) [De Wijsbegeerte der
Wetsidee (Amsterdã: 1935-36)]. Enquanto seus artigos de uma década antes tinham
feito avanços apenas rudimentares nos ensinos Calvinistas tradicionais, as
idéias e análises apresentadas nestes volumes posteriores eram contribuições
profundas e originais, arraigadas no pensamento Calvinista. Eles permaneceram no
centro de sistema filosófico do Dooyeweerd para o resto de sua vida. Sua obra
nos quarenta anos seguintes era, em muitos aspectos, uma amplificação e
aplicação das
idéias
seminais desenvolvidas neste período formativo. Ele ampliou sua antropologia e
sua crítica de teorias tradicionais em uma série de artigos e revisões, e então
em uma obra em três volumes, “Reforma e Escolasticismo em Filosofia” [volumes A5,
A6 A7 das Obras Completas de Dooyeweerd]. Ele ampliou sua ontologia e
epistemologia em vários artigos subseqüentes e em edições e traduções
posteriores de sua “Filosofia da Idéia Cosmonômica”. Ao mesmo tempo, ele retomou
seu tratamento detalhado das perguntas de lei, política, e sociedade com que ele
começou sua carreira. Sistematizou muitos de seus conceitos de direito e
política e “afiou” sua análise antiga da história de teoria legal e política em
seu trabalho de dois volumes, “Enciclopédia de Ciência do Direito” [Encyclopacdie
der Rechtswetenschap – a aparecer como volumes A8 - A12 das Obras completas de
Dooyeweerd]. Ele elaborou também sua teoria social em vários artigos e revisões
nos anos 40 e 50. Um dos mais importantes dentre estes trabalhos é a obra “Dez
Conferências de Sociologia”, que é traduzida no volume mencionado acima nas
Fontes - será republicado no B-Série do Obras completas de Dooyeweerd.
Dooyeweerd permaneceu um estudioso profundo e prolífico
até à sua morte em 1977. No curso de sua vida, ele publicou mais de 200 livros e
artigos, presidiu numerosas sociedades legais, filosóficas e simpósios, editou
uma variedade de publicações acadêmicas e populares, e ensinou extensamente na
Europa e América do Norte. Embora a novidade de suas idéias, e a acuidade de
suas críticas outros pensadores tenha freqüentemente tornado o seu trabalho um
objeto de controvérsia, Dooyeweerd angariou o respeito e o louvor tanto de
aderentes como de antagonistas. Ele foi um líder Cristão polivalente ganhando a
atenção dos estudiosos em cada disciplina na qual buscou integrar fé e
conhecimento.
O legado de Kuyper
A Fundação Abraham Kuyper foi estabelecida com a morte de Kuyper (1837- 1920),
um brilhante teólogo Calvinista, pastor, jornalista, e político. Como teólogo e
pastor, Kuyper articulou uma teologia Calvinista sistemática rica, revitalizou
as raízes do calvinismo nos Países Baixos, e liderou em 1886 a separação (Scheiding)
das novas igrejas reformadas (Gereformeerde Kerken) da igreja reformada antiga (Hervormde
Kerk). Como um político e jornalista, ele reorganizou o Partido Político
Anti-revolucionário e o trouxe ao poder, servindo como Primeiro-Ministro dos
Países Baixos de 1901 a 1905. Ao longo de sua carreira, Kuyper permaneceu
comprometido com a aplicação de reformas a todas as veredas da vida. Nesse
espírito, ele fundou a Universidade Livre de Amsterdã em 1880, exigindo na
Constituição da Universidade que todas as esferas de erudição fossem imbuídas de
princípios Calvinistas. Nesse espírito, ele apresentou também suas “Palestras
sobre o Calvinismo” (em português; cf. "bibliografia comentada", na página
principal) na Universidade de Princeton em 1898, articulando os princípios
Calvinistas básicos de religião, política, lei, ciência, e arte. Nesse espírito
também, seguidores de Kuyper (Colijn e Idenburg) articularam quando de sua morte
a Fundação Dr. Abraham Kuyper, cuja missão é fornecer um foro para articular
princípios Calvinistas de lei, política, sociedade e economia, em busca de
soluções para assuntos específicos de política.
Apreciação de outros estudiosos

Em conclusão, três apreciações são mencionadas:
1. Dr. P.B. Cliteur, presidente da Liga Humanista dos Países Baixos e professor
de filosofia na Universidade Técnica de Delft escreveu em 8 de outubro de 1994:
"Herman Dooyeweerd é indubitavelmente o filósofo holandês mais formidável do
século 20. ... Como um humanista eu sempre olhei para a minha própria tradição
em busca de exemplos semelhantes. Eles simplesmente não existem. Claro,
humanistas escreveram muitos livros importantes, mas no caso de Herman
Dooyeweerd nós estamos justificados em falar sobre um filósofo de reputação
internacional."
2. Na ocasião da comemoração do 70° aniversário de Dooyeweerd um artigo apareceu
no Jornal holandês ‘Trouw' (6 de outubro, 1964). Foi escrito pelo prof. G.E.
Langemeijer, um jurista da Universidade de Leiden, procurador geral da suprema
corte holandesa e presidente da Academia Real Holandesa de Ciências. Ele
explicitamente mencionou que vem de "uma visão de mundo totalmente diferente" e
continuou observando que Dooyeweerd pode ser chamado "o filósofo mais original
que a Holanda já produziu, incluindo Spinoza."
3. Giorgio Delvecchio, o grande filósofo Italiano Neo-Kantiano, considerou
Dooyeweerd "o filósofo mais profundo, inovador, e penetrante desde Kant."