Existe uma “forma Cristã” de Pensar?
A Idéia de uma Reflexão Cristã na Tradição
Reformacional
Guilherme V. R.
Carvalho[1]
(Artigo Publicado na
RTPC, ano 6, no 23, Julho/Dez
2005)
O pensamento reformacional
é uma importante tradição intelectual cristã, nascida no calvinismo holandês e
cujas raízes remontam a Agostinho. A proposta reformacional
de pensamento teórico se caracteriza por seu compromisso com a cosmovisão cristã, expressa na tríade Criação-Queda-Redenção.
No artigo o autor procura mostrar como cada um dos elementos da tríade tem
influência determinante na constituição de uma atitude reflexiva tipicamente
cristã, em oposição ao pensamento humanista.
Calvinismo,
filosofia reformacional, pressuposicionalismo,
cosmovisão, antítese, Abraham Kuyper.
Quando
comecei, há pouco tempo, a falar a respeito da necessidade de reformarmos a
mente evangélica, a primeira reação das pessoas foi de estranhamento. Acabei
descobrindo que boa parte dos crentes entende que o cristianismo é uma forma
diferente de crença, mas não necessariamente de pensamento. Segundo eles,
“razão é razão”: só haveria uma forma de raciocinar, válida tanto para crentes
como para incrédulos.
Há, no entanto,
muitos cristãos que tem uma posição diferente a respeito disso. Eles chegaram à
percepção de que o humanismo secular não apenas transmite uma interpretação anti-cristã do mundo, mas também incute padrões de pensamento anti-cristãos nos indivíduos. Em
resposta, propuseram uma reforma integral da ação da Igreja no mundo, que
incluiria a reforma do próprio pensamento teórico. Essa proposta tem suas
origens em Agostinho e Calvino; foi desenvolvida inicialmente na Holanda, com
Abraham Kuyper e seus seguidores, principalmente Herman Dooyeweerd, D. T. H. Vollenhoven, e ganhou expressão
mais recentemente no pensamento de Cornelius Van Til, Francis Schaeffer,
Charles Colson, Nancy Pearcey,
Alvin Plantinga, e muitos outros pensadores
evangélicos.[2]
A marca dessa tradição é o
compromisso com a cosmovisão cristã integral como ponto de partida para
o pensamento cristão, e a busca por uma reforma do pensamento científico e
filosófico. Por essa razão sua proposta de pensamento tem sido denominada
“filosofia reformacional”, ou “pensamento reformacional”.
Ora, se o
pensamento reformacional se caracteriza exatamente
pelo compromisso com a cosmovisão cristã, segue-se
que a primeira palavra sobre o pensar cristão deve ser uma interpretação
desse ato a partir da cosmovisão cristã. Durante
a história da igreja vários pensadores cristãos apontaram os elementos básicos
da Cosmovisão Cristã como sendo a tríade “Criação-Queda-Redenção”.
Assim uma visão cristã da reflexão
precisa considerar o pensamento humano sob estes três pontos de referência:
como criatura de Deus, como criatura caída, e como parte da obra redentiva de Deus em Cristo. Isso é o que pretendemos fazer
em nosso artigo.[3]
1. O Pensamento como Criação de Deus e o “Teocentrismo”
É o homem quem
pensa; mas ele só o faz porque Deus pensa e criou o homem “à sua imagem”. Esse
é o elemento central de uma visão cristã da reflexão: que tal capacidade faz
parte de nossa estrutura criada e, portanto, é algo intrinsecamente bom. Não é
ruim pensar, e é antibíblico ensinar as crianças evangélicas a
idéia de que quanto menos pensamos, melhor para a nossa fé.
Mas há algo mais aqui. Nós fomos
criados “à imagem de Deus”. Isso significa que a glória de Deus se revela
naquilo que nós fazemos. Não é que algo em nós seja a imagem de Deus, mas que
nós o somos! Portanto o “homem pensante” revela a sabedoria de Deus.
Se acreditamos,
no entanto, que o homem existe à imagem de Deus, não há lugar para a crença de
que o homem seja essencialmente um ser “racional”. Deus é uma pessoa divina que
também pensa, mas ele não é uma “razão cósmica”. Numa perspectiva cristã o
homem deve ser visto como um centro pessoal, ou um “coração” que tem uma razão,
mas que tem também outras funções igualmente importantes: a corporalidade,
as emoções, a fé, a sociabilidade, o senso moral, etc.
Portanto a primeira contribuição que
a cosmovisão cristã pode dar para a nossa reflexão é a compreensão do lugar da
racionalidade na vida humana: trata-se de um aspecto fundamental da nossa vida,
intrinsecamente bom, mas que não pode ser posto à frente de outras qualidades
humanas. Essa constatação está diretamente ligada a um debate muito antigo da
filosofia e da teologia.
Na entrada do oráculo de Delfos
havia uma inscrição: “conhece-te a ti mesmo”. Sócrates, referindo-se a essa
expressão, disse certa vez: “a alma nos ordena conhecer aquele que nos adverte:
Conhece-te a ti mesmo”. Um dos temas centrais do pensamento de Sócrates era a
descoberta da “essência” do homem, que para ele se encontrava na alma racional.[4] Séculos mais tarde Santo
Agostinho nos ajudaria a conhecer a resposta cristã a essa pergunta tão
importante: “fizeste-nos para ti, e inquieto está o nosso coração, enquanto não
repousa em ti.”[5] Para ele a essência do
homem não é uma alma racional, mas uma orientação da vontade, como um rio que
corre para o mar.
Contrariamente aos filósofos
gregos, Agostinho insistia que conhecer a verdade não é necessariamente fazer a
verdade, pois a natureza essencial do ser humano não é a razão mas a vontade. O ser humano é criado de tal forma que não
tem outra escolha que não amar, orientar seu ser para algum objeto, princípio,
pessoa, com total devoção. O objeto supremo querido por cada pessoa caracteriza
seu ser total, dando-lhe suas pressuposições,
motivações, razões, vitalidade e objetivo. Não há ser humano sem tal fé,
‘religião’, ‘Deus’. Não se raciocina para tal objeto, mas se raciocina a partir
dele.[6]
Por isso para
Agostinho o autoconhecimento estava ligado ao
conhecimento de Deus,[7] e esse conhecimento não
poderia ser obtido sem a influência divina na vontade e a prática da verdade.[8] Mais de mil anos depois
Calvino diria:
“... pelo conhecimento de si mesmo
é cada um não apenas aguilhoado a buscar a Deus, mas até como que pela mão
conduzido a achá-lo. Por outro lado, é notório que jamais chega ao homem ao
puro conhecimento de si mesmo até que haja antes contemplado a face de Deus e
da visão dele desça a examinar-se a si próprio.”[9]
Chegamos assim à
concepção que eu chamaria socrática-agostiniana-calvinista de pensamento: o homem só
pode realmente chegar a um conhecimento verdadeiro do mundo se obtiver um
conhecimento crítico de si mesmo, e esse conhecimento de si é o conhecimento de sua orientação religiosa
fundamental em direção a Deus. Descobrindo em seu próprio coração o ponto
de partida religioso de toda a sua existência o homem é confrontado com a
necessidade de adorar, unir-se e realizar-se a partir da realidade última, seja
ela o que for. É assim, no coração, que o homem se perde em algum ídolo ou se
encontra em Deus.
Os
pensadores ocidentais tem apresentado críticas ao pensamento
teórico há séculos. Exemplos recentes são a filosofia
transcendental de Kant, o marxismo, a psicanálise e o pensamento hermenêutico. Mas parece que em nenhum desses modelos de
criticismo foi jamais lançada a questão da autonomia
da razão, aceitando-se tacitamente a solução socrática. Na verdade, essa
autonomia foi sempre pressuposta como a única condição incorrigível e capaz de
conferir ao pensamento o status de
crítica científica. No princípio do século XX os pensadores reformados
começaram a chamar o pensamento ocidental para prestar contas sobre o dogma da
autonomia da razão, e a responder à questão específica: como o pensamento
moderno constrói seu ponto de referência a partir do qual dá sentido à
realidade? Herman Dooyeweerd
chamava isso de “ponto arquimediano”.
Arquimedes se tornou famoso por dizer que se lhe dessem um ponto fixo, poderia
mover o mundo usando uma alavanca. Dizemos assim que todo pensamento tem um ponto arquimediano, o ponto fixo a
partir do qual o pensador tem a sua “visão de conjunto”, para relacionar as
coisas entre si.
A questão aqui é
se a visão cristã de mundo de fato controla o seu pensamento desde o princípio
ou não. Por exemplo, se você crê em Jesus, mas crê também que todas as
realidades do mundo podem ser explicadas a partir de um conjunto de leis
físicas simples nós temos um problema. Tendo a perspectiva cristã como ponto de
partida, você será levado a tratar a realidade como algo complexo e
irredutível. A crença de que poucas leis ou uma única lei pode dar conta de
tudo é parte de outra cosmovisão, o naturalismo filosófico, que exclui a visão cristã.
Muitos exemplos
desse tipo de incoerência poderiam ser indicados. Na teologia
por exemplo, encontramos aqueles que crêem em Jesus mas procuram
interpretar a Bíblia excluindo em princípio qualquer posição doutrinária – como
a inspiração bíblica – para salvaguardar a “neutralidade” de seu pensamento.
Nesse caso a única coisa que é protegida é o dogma da autonomia do pensamento
teórico.
A influência das
pressuposições em nosso pensamento pode ser ilustrada pelas palavras de
Einstein: “Sem a crença de que é possível entender a
realidade com as nossas construções teóricas, sem a crença na harmonia interior
do mundo, não pode haver ciência. Esta crença tem sido e sempre será o
motivo básico para toda criação científica.”[10] Ao contrário do que
muitos pensam, essas crenças não são algo universal nem óbvio, e essa é a razão
porque a ciência empírica se desenvolveu justamente na cultura ocidental
cristã.
Todo pensamento
tem pressuposições, e essas pressuposições tem outras
pressuposições, e assim por diante, mas não ad
infinitum. Se seguirmos esse
caminho até o princípio chegaremos a um conjunto de crenças fundamentais
que não se fundamentam em nenhuma crença, mas que expressam a orientação
fundamental do indivíduo, que poderíamos chamar de existencial, espiritual ou
religiosa. É por isso que o dogma da razão autônoma é inconsistente – a própria
divinização da racionalidade que ele implica não tem justificação racional.
Simplesmente não é possível pensar a partir de um ponto neutro e então concluir
com a fé, porque toda razão nasce a partir da fé.
Um caminho para
identificar o ponto arquimedeano
em qualquer teoria ou visão da realidade é fazer duas perguntas simples. A
primeira é: qual é a pressuposição “imexível” desse
pensamento? Ou seja: qual é o “ponto fixo” que faz tudo girar em torno dele? No
seu caso, você deve perguntar: eu tenho
um ponto fixo em meu pensamento que seja distinto de Jesus Cristo? A
segunda pergunta é: como esse ponto fixo confere a mim identidade e autocompreensão? Ou: como esse ponto influencia a atitude
que tenho para comigo mesmo e para com o mundo?
Chegamos então,
de novo à pergunta inicial: temos autoconhecimento?
Não se trata aqui de ter um autoconhecimento
exaustivo, mas um autoconhecimento verdadeiro, ainda
que elementar. A posição cristã é de que nós temos o autoconhecimento
porque sabemos que nada somos sem Deus, e temos encontrado repouso nele; e assim,
conhecendo-o no evangelho somos homens. Isso pode ser descrito como Teocentrismo, ou
Teonomismo. Mas aquele que não conhece sua orientação
religiosa fundamental jamais atingirá o autoconhecimento,
pois não pode saber porquê é quem é, nem porque pensa como pensa, nem que é e
pensa a partir de um ídolo. Para este, não haverá repouso.
2. Os Efeitos Nóeticos
do Pecado e a “Antítese”
Em princípio
afirmamos, portanto, que o homem, na totalidade do seu ser, é um reflexo da
imagem de Deus, e que a racionalidade do homem é um dos elementos que integram
essa imagem. Além disso, podemos dizer que quando o homem tem “autoconhecimento”, isto é, quando conhece a Deus e se
reconhece como imagem de Deus, ele sabe o lugar que o pensamento deve ocupar em
sua vida.
Entretanto, “todos pecaram e carecem
da glória de Deus”. A queda atingiu o homem em toda a sua totalidade, e isso
inclui o seu pensamento. Os efeitos do pecado sobre a mente do homem são
claramente ensinados em Romanos 1, 1Coríntios 2 e Efésios 2. A rejeição do conhecimento de Deus leva os
homens a construir raciocínios falsos, a partir de ídolos.
A conseqüência inicial disso é que a
reflexão cristã precisa guardar uma suspeita fundamental em relação a todo
pensamento humano; uma suspeita religiosa. Trata-se de um questionamento
permanente a respeito do ponto de partida do pensamento: há nele elementos
idólatras? Quais são? Como a rejeição do conhecimento de Deus está afetando
essa reflexão? Numa palavra: Antítese.
Em diversas
ocasiões tentou-se sintetizar o pensamento cristão com outras visões de mundo.
Esse é o caso do platonismo cristão no período patrístico,
da filosofia tomista, da teologia liberal ou da
teologia da libertação. O que se pressupõe nessas tentativas é que a natureza pode
operar adequadamente sem a necessidade de um controle da fé, e assim sistemas
compostos sem ter a fé em Cristo como ponto de partida poderiam ser
verdadeiros. Mas resultado nessas sínteses foram soluções dualistas e
distorções inevitáveis da fé cristã.
Essas sínteses
não poderiam ser bem sucedidas uma vez que a direção de cada mentalidade é dada
por seu ponto de partida religioso, e os pontos de partida são sempre
absolutos. Conceitos relativos podem ser sintetizados, mas pontos de partida
absolutos e contrários são mutuamente excludentes. Sistemas com pontos arquimedianos diferentes (com
seus respectivos “archés”) permanecem numa oposição
insolvível e mesmo que contenham idéias verdadeiras que podem ser
compartilhadas até certo ponto, são estruturalmente incompatíveis.[11] Linhas paralelas nunca se
tocam.
Na verdade a
oposição entre sistemas distintos é a oposição entre modos distintos de vida
religiosa, pois o ponto de partida religioso do pensamento é o ponto de partida
de toda a existência. Assim, o cristianismo é um modo de existência singular e
fundamentalmente oposto aos modos de existência que tem como ponto de partida
algum ídolo. Dizemos que há uma antítese absoluta entre a mente cristã e as
mentes idólatras. Santo Agostinho falava da Civitas Dei numa oposição sem fim à Civitas Mundi. A
cidade de Deus é a igreja, uma cidade que existe hoje, “sobre o monte”, e que
funciona tendo Deus como centro. A cidade do homem é Babel, e seus cidadãos
constroem sua identidade e sua cultura a partir da absolutização
de alguma realidade do cosmo. Embora essas duas cidades estejam atualmente
misturadas, são contrárias, tendo pontos de partida contrários, e projetos de
civilização contrários: “Eu lhes tenho dado a tua palavra, e o mundo os odiou,
porque eles não são do mundo, como também eu não sou.”[12]
Se
queremos confrontar o humanismo, precisamos assumir uma
posição antitética. “Não ameis o mundo”, disse João.[13] O autoconhecimento
nos leva naturalmente a compreender natureza irreconciliável da tensão entre a Civitas Dei e a Civitas Mundi, e a aceitar a cruz de Cristo
permanecendo no mundo, mas contra mundum. [14] Assumir a posição
antitética é obedecer ao imperativo paulino:
“Não vos conformeis com este século.” Somente o posicionamento corajoso e
integral pela fé cristã pode nos libertar do molde de existência imposto a nós
pela Civitas Mundi, e esse
posicionamento exige o pensamento antitético e o desafio consistente da mente
do mundo desde as suas raízes. Como disse Kuyper cem
anos atrás:
O Cristianismo está exposto a grandes
e sérios perigos. Dois sistemas de vida estão em combate mortal. O Modernismo
está comprometido em construir um mundo próprio a partir de elementos do homem
natural, e a construir o próprio homem a partir de elementos da natureza;
enquanto que, por outro lado, todos aqueles que reverentemente humilham-se
diante de Cristo e o adoram como o Filho do Deus vivo,
e o próprio Deus, estão resolvidos a salvar a herança cristã ... Desde o
início, portanto, tenho sempre dito a mim mesmo, - Se o combate deve ser
travado com honra e com esperança de vitória, então, princípio deve ser
ordenado contra princípio. A seguir, deve ser sentido que no Modernismo, a
imensa energia de um abrangente sistema de vida nos ataca; depois também, deve
ser entendido que temos de assumir nossa posição em um sistema de vida de
poder, igualmente abrangente e extenso. E este poderoso sistema de vida não
deve ser inventado nem formulado por nós mesmos, mas deve ser tomado e aplicado
como se apresenta na História.[15]
Isto
é pensar antiteticamente. Pensar o mundo de forma
coerente, a partir da fé, e então pensar as mentes incrédulas a partir dessa
mesma fé. Podemos nos lembrar aqui das palavras de Paulo em 1Coríntios 2.14-16.
Pensar antiteticamente seria assumir a mente de Cristo e discernir todas as coisas por meio do
evangelho. É claro que o homem natural não aceitará nossos pensamentos,
porque ele não poderá entendê-los; por outro lado, nós poderemos discernir
todas as coisas, mesmo que sejamos um mistério incompreensível para eles. Mas
se não praticarmos esse discernimento, seremos para sempre crianças, andando
segundo os homens.[16]
Ao pensar antiteticamente,
examinamos os pensamentos dos incrédulos até às suas raízes religiosas,
e observamos os efeitos malignos dessas raízes em sua produção cultural e em
suas existências individuais. Examinamos também os problemas contemplados pelos
pensamentos dos incrédulos a partir de nossa fé, e damos forma assim à resposta
cristã a esses problemas libertando-nos de forma consciente e decidida da tirania
do “príncipe da potestade do ar.”[17] Assim, pensar antiteticamente é descobrir exatamente em que ponto o
pensar cristão é irredutivelmente distinto do pensar não cristão, ordenando
princípio contra princípio, mente contra mente, civitas
contra civitas. Todos os cristãos, mas especialmente
aqueles envolvidos com educação e produção de conhecimento devem sujeitar os
conceitos e teorias de seu próprio campo à análise antitética.
3. Redenção e Reflexão “Reformacional”
A Queda
comprometeu o pensamento humano, razão porque precisamos praticar a antítese.
Mas nem mesmo poderíamos pensar em antítese se Deus não tivesse iniciado sua
obra redentiva. A graça de Deus opera no mundo
preservando e redimindo a sua criação, e isso inclui a mente. E nós cristãos,
como primícias da redenção, temos o dever de “desenvolver a nossa salvação”
manifestando em nossa vida e obra o impacto redentivo
da obra de Cristo. Isso significa, entre outras coisas, que os nossos padrões
de pensamento devem ser transformados: isso é exatamente o que Paulo ensina em
Romanos 12: a renovação da mente. Ou, para usar um termo historicamente
importante: a “Reforma” do pensamento.
O pensamento
antitético não é meramente uma atividade destrutiva. É antes a preparação do
terreno para uma atividade positiva de construção. O pensamento reformado
sempre enfatizou o lugar da criação na mente cristã, e a tarefa que Deus deu ao
homem no princípio de tudo, o mandato
cultural.[18]
O homem foi posto no mundo para manifestar a imagem de Deus por meio da
atividade cultural, desvelando os potenciais presentes na criação no serviço ao
próximo para a glória de Deus. A produção cultural é fruto do mandamento de
Deus.
A queda tornou essa produção cultural idólatra, destrutiva para a criação e para o
próprio homem, mas não a tornou impossível. Por causa da graça comum,
Deus impede que o pecado tenha seu efeito total sobre o
homem, conferindo-lhe a possibilidade de viver em sociedade e cumprir o
mandato cultural por meio da arte, da filosofia, da ciência, da política, e de
toda a sua produção cultural. Mesmo assim, toda essa produção é orientada
contra Deus.
O cristão, no
entanto, está numa posição muito especial. Como qualquer homem, ele pode e deve
cumprir o mandato cultural; mas o pecado não tem sobre ele a mesma influência
que tem sobre o homem natural. Ele recebeu a revelação de Deus em Cristo pelo
Espírito, e participou da palingênese, [19]
a restauração de todas as coisas por meio de Cristo, recebendo assim novos
olhos, para ver o mundo na perspectiva divina. Assim ele não atua sobre o mundo
apenas com o auxílio da graça comum, mas também da graça especial, manifestando
em sua própria produção cultural os efeitos da palingênese,
mesmo que de forma imperfeita.[20]
Isso significa,
em primeiro lugar, que o cristão tem dever de produzir cultura. O pensar
cristão deve ser criativo, propondo soluções originais para os problemas
teóricos e construindo uma cultura cristã. Por outro lado o cristão não deve
“sair do mundo”, pois Jesus nos enviou ao mundo, para viver no mundo.[21]
Assim, o cristão deve
não apenas produzir, mas também reformar. A finalidade do pensamento
antitético é tornar possível a reforma, que é a expressão provisória da graça
no mundo, até à consumação. Por isso, o pensar cristão é criativo e reformacional. Criticamos sim,
até às raízes, a mente do mundo, e denunciamos a sua apostasia, mas reaproveitamos todos os vislumbres de verdade que ela
produziu na construção do modo cristão de pensar e viver. Buscamos manter um
processo permanente de reforma de nosso pensar e de nossa vida cultural, de
forma a mantê-la coerente com o evangelho.
Ao pensar reformacionalmente reconhecemos que toda produção cultural humana se
fundamenta na graça comum e nos apropriamos dessa produção cultural buscando
sua conversão estrutural de forma que ela reflita a nossa fé em Deus. Pensar reformacionalmente
é assumir uma atitude positiva em relação à cultura, agindo redentivamente
no meio dela ao cumprir o mandato cultural com a força renovada do evangelho.
Pensando reformacionalmente, poderemos construir uma
mente cristã, sólida, rica, profunda, contextualizada e abrangente, que dará
respaldo teórico ao grande projeto cultural reformado: a
revelação histórica da Civitas Dei.
4. Sintetizando: “Fides
quaerens Intellectum”
Para concluir,
destacamos então que o pensamento cristão precisa partir, antes de tudo, do “autoconhecimento”, que é fruto do conhecimento de Deus.
Isso significa que devemos ver a nós mesmos do ponto de vista de Deus, e isso
só pode ser feito pela fé. A partir desse ponto de vista, compreendemos que o
pensamento é algo bom, mas que não deve ser posto à frente das outras funções,
mas cooperar com elas. Isso inclui a própria fé.
Além disso
o cristão precisa praticar a antítese, suspeitando e criticando o pensamento secular.
Mas não se pode parar na antítese: é preciso prosseguir em direção à “Reforma”,
transformando e absorvendo o produto cultural a partir da fé. Assim uma
reflexão cristã precisa ser Teocêntrica (ou teonômica), Antitética e Reformacional.
Seria possível resumir essas três
atitudes básicas numa única expressão? Eu acredito que a fórmula que
melhor expressa tudo isso é aquela usada por Agostinho, Anselmo e vários outros
pensadores cristãos: “Fides quaerens
Intellectum”: A Fé em Busca de Compreensão”.
Mas há uma palavra,
bastante utilizada nos últimos anos, que também expressa de modo objetivo a
nossa posição: a palavra “pressuposicionalismo”. A
forma cristã de pensar que defendemos pode ser descrita como “pensamento pressuposicional”, porque se caracteriza pelo
reconhecimento da influência decisiva que as pressuposições religiosas tem
sobre o nosso pensar. Pensar pressuposicionalmente é
assumir a verdade do evangelho e enfrentar com seriedade, mas também com fé os
desafios do pensamento.
[1] O autor é mestre em Teologia com ênfase em Novo Testamento (Faculdade Teológica Batista de São Paulo) e bolsista do CNPq no programa de mestrado em Ciências da Religião da UMESP. É também pastor batista (CBN) e diretor do Centro Kuyper de Estudos Cristãos de Belo Horizonte.
[2] O pensamento reformacional surgiu como movimento autoconsciente ao final do século XIX entre os neo-calvinistas holandeses, sob a liderança Abraham Kuyper, e depois de Herman Dooyeweerd. Essa tradição está estruturalmente conectada a uma compreensão calvinista das Escrituras, da relação entre Deus e sua criação, da Queda, etc.
[3] Em uma próxima oportunidade discutiremos os principais obstáculos ao pensamento reformacional, e sua relevância para a igreja evangélica atual.
[4] Curiosamente, parece que o Deus supremo era, para Sócrates, a mente ou a inteligência infinita.
[5] AGOSTINHO, Aurélio. Confissões, Livro 1, cap. 1:1. São Paulo: Paulus, 1997, p. 19.
[6] GOUVEIA, Ricardo Quadros. Paixão pelo Paradoxo: Uma Introdução a Kierkegaard. São Paulo: Novo Século, 2000, p. 169,170.
[7] Confissões, p. 115.
[8] Ibid, p. 269.
[9] CALVINO, João. As Institutas, vol 1, cap. 1. São Paulo, CEP, 1985, p. 54.
[10] Citado por RAMACHANDRA, Vinoth. A Falência dos Deuses. São Paulo: ABU, 1996, p. 184.
[11] Ver os comentários de Ricardo Gouveia a respeito do pensamento antitético de Dooyeweerd em Paixão pelo Paradoxo, p. 174-177.
[12] João 17.14.
[13] 1João 2.15.
[14] Cf. João 17.15; 1Jo 5.4.
[15] KUYPER, Abraham. Calvinismo. São Paulo: Cultura Cristã, 2002, p. 19.
[16] 1Coríntios 3.1ss.
[17] Efésios 2.2ss.
[18] Para saber mais sobre a aliança da criação e o mandato cultural, cf. ROBERTSON, O. Palmer. O Cristo dos Pactos. Campinas, LPC, 1997, p. 61-79.
[19] Do grego palingenésis, que significa regeneração ou recriação.
[20] Porque a redenção é uma realidade ainda incompleta, até que o reino de Deus seja consumado.
[21] João 17.15-18.