Matéria publicada na edição 18 da Revista V, da Wolkswagen, aquela do fusca. R$ 6,90, na banca mais próxima da sua casa.

*Reprodução sem fins lucrativos. Todos os direitos reservados à humanidade.

TR.E.M.A.

 

McBode
por xico sá
fotos joão correia

QUANDO CERTA MANHÃ este homem vindo do sertão nordestino despertou, depois de uma noite mal-dormida... havia se transformado num McBode, em pleno centrão de São Paulo, rua Barão de Itapetininga, onde ou­tros tantos McBodes mais antigos, menos ressacados da noite, mas muito ressacados da existência, ensanduichados até a alma, já faziam da arte da invisibilidade suas vidas. Ao vestir aquelas placas ou coletes plásticos, o homem-sanduíche perde imediatamente o seu rosto. Também, ao ali chegar, o homem-sanduíche já tem perdido quase tudo, não resta mais nem alface. É a tragicomédia nacional in­do e voltando, a face, tenha sido bonzinho ou tenha sido monstro, se diluindo na multidão, entre tantos outros, talvez piores. Centenas de McBodes, em ple­na metrópole, a mais moderna e avançada da América La­tina, ganham apenas R$ 3 por dia, pior do que o pior dos mundos das roças dos coronéis latifundiários das antigas.

"A gente ri da gente mesmo, fazer o quê? Quem não ri pela frente, ri pelas costas, o Compra-se ouro é o mesmo", complica um dos mais velhos homens-sanduba de SP, Or­lando Alves de Souza, 71, uma década na função, depois da aposentadoria como vendedor autónomo. "Juro que até ago­ra num descobri se é pra rir ou pra chorar, o freguês é quem escolhe. Eu prefiro o riso, mas rio dos outros que chegam aqui, os cabaços, os novatos." Com o anúncio clássico do Compra-se ouro, Orlando chega a faturar até R$ 13 por dia, incluindo comissões sobre alianças — de casamentos que já se foram pelo ralo de outros desmantelos — e peças de ouro ligadas afetivamente a outros passados demasiada­mente desgraçados.

"Meu Deus, por trás desse ouro só tem lágrimas, mas lágrimas que começaram com risos, ou você acha que a vi­da é só tristeza? Nada disso. Toda tristeza começa com um bolo, seja de casamento ou batizado... e os parentes mor­tos de felizes", taí o tiozinho na pele de Nietzsche, sim, o alemão filósofo. Os homens-sanduba estão a serviço de um comércio para lá de misterioso, pra dizer o mínimo. São salinhas apertadas ao longo das principais ruas do centro, que compram, a preço de banana, o ouro dos tolos e dos sem rumo. Pior: não há nada de ilegal nisso, a não ser a sem-vergonhice de sempre de quem monta na corcunda do ou­tro chamado ser humano. Quem vai vender, indicado pe­las placas que vestem estas criaturas, chega lá e mal avis­ta o olho de quem compra. Só uma brecha na parede os separa. O diálogo é rápido. Quanto quer? Vale tanto, pron­to, só pago isso, passar bem, adeus, vaza daqui, num tem diálogo. Não tem acordo. É arapuca para desesperado. Não se sabe o que é pior: vender uma aliança que já lhe rendeu um chifre, a velha e demasiada humana traição, ou ouvir a risível proposta do Compra-se ouro. A vida de um homem-sanduba é 100% tragicômica. Não tem morno, não tem meio-termo.

GOSTOSO COMO A VIDA TEM DE SER
Quando certa manhã virei um McBode, senti isso na pele. E para que esta certa manhã chegasse... foram duas ma­nhãs de tentativas nas portinholas dos pestes. Era tanta a disputa por uma vaga para ganhar R$ 3 mais comissão por ouro comprado aos tolos e perdidos que só consegui me ensaduichar ao terceiro dia, ali na Barão de Itapetininga. E a minha primeira sensação foi risível. Depois comprovada pe­los comparsas de profissa: nunca foi tão fácil o direito de co­çar o saco. Com a placa a encobrir-nos... "Pior é saber que a gente num carece de placa pra fazer isso", gargalha, numa mesa-redonda de homens-sanduíche na hora do rango — sanduba a R$ 0,80, mais o suco, claro! — o meu chapa Luis Car­los Mastroieni, 53, quase o batismo italiano do ator, quase, se não fosse a troca do "E" de "errado" pelo "A" de acerto... Motorista em busca da aposentadoria, desempregado, é pau­listano mesmo, caso raro, e conta com uma ajuda de três fi­lhos para ir vivendo, indo e voltando, como manda o gerún­dio de quem porta anúncio na frente e atrás. Ele pega de tu­do. Agora tem algo dos tempos modernos: aviso de internet a partir de R$ 1 por hora.

O melhor ganho do gênero é quem se ensaduicha com anúncios de empregos. Fábio António dos Santos, 42, vi­ve, além da rotina do tragicômico, um drama dentro de um drama — metadrama, como diria um empregado e ainda mal-pago professor de universidade. Vestido de metadrama pa­ra matar as horas. Indo e voltando. Fábio mora em São Pau­lo desde os 18. Veio de Ribeirão Preto, aqui casou, separou, teve dois filhos lindos, Vanessa, 17, Custavo, 8, abre a car­teira, mostra as fotos, aqui trampou de vigilante, balconis­ta, digitador, porteiro de boate, foi para um canto e para o outro, vagou... "Depois dos 40... nem adianta, ninguém pe­ga, nem firma nem agência", fala com os olhos baixos dos derrotados do centro. "Aí, aqui só trabalho praticamente às segundas, quando o povo tá procurando emprego, aí fico vendendo essas falsas esperanças, duas, três vagas para quatrocentos..."

0 cara leva, numa boa segunda, dependendo de quantas pessoas ele indica para ir até a agência de empregos que representa, uns R$ 12, R$ 15, no máximo. E dificilmente tem o mesmo trampo na terça. Resta-lhe voltar na próxima se­gunda e encarar os desempregados que lêem suas possí­veis ofertas mas não miram seu rosto. "DESGOTO!" dá vontade de escrever nas placas, ele só pensa, e me diz, numa rima em letras garrafais — é metido a poeta, ah se pudes­se ganhar a vida com isso. "Repare só na minha situação, seu Francisco: um homem com mais de 40, desemprega­do talvez para sempre, com anúncios de esperança de em­prego no peito!" manda quase sem fôlego sob aquele sol das segundas que dói n'alma dos homens que deixam suas mu­lheres e filhos e se deslocam da periferia para o centro e vol­tam quase mudos para casa, "ah, num arranjei nada".

É COISA DO NORDESTINO
Quando certa manhã virei um McBode, uma cigana, daque­las de Itapevi [SP], Carmen, sim, era o batismo, me puxou pelo braço ali no Viaduto do Chá, e me perguntou, sem mais nem menos:

―  Estás muito perto de se aposentar ou já és aposenta­do, né, tio?

Ô, Carmen, até tu, querendo tirar da minha cara, só por­que a maioria dos machos-sandubas já passaram dos 60! Me senti com o pé na cova, mas ela insistia em adivinhações outras:

— Tem duas mulheres que te amam: uma branquinha e uma morena...

É, pode ser, afinal de contas... Lembrei de duas lindas se­nhoritas da minha existência, uma de São Paulo outra do Recife, não necessariamente nessa ordem.

— E uma terceira que não vale nada...

Vixi, pronunciei, como autêntico McBode.

— Se tu me deres cinco reais, digo o resto...

A cigana fez suspense.

— Mas se só estou ganhando três por dia nesse serviço? — disse-lhe, com próclise e tudo.
— Compra aliança? — insiste, num comércio nunca dantes. a partir de:
— Depende!
— Toma aqui, baratinho, 30 reais! — oferece.

Faço cara de interrogação, segurando o riso de dublê e já desmanchando a minha atuação de homem-sanduíche trei­nado no Actor's Studio de Elia Kazan, meu amigo de Nova York. Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe o endereço para a cigana vender na Barão de Itapetininga. Justo no momen­to que me passa um conhecido, Virgílio Gomes Neto — cla­ro que só tenho o nome completo depois de interrogá-lo. Nem do Virgílio me lembrava. Fiquei ali naquela, como será este batismo?

Depois de muito sacrifício, ele se apresentou para o jogo. Era até fácil. Era um ex-funcionário da Folha de S. Paulo, da parte burocrática, sabe-se lá, assim falou o truta, em 1994. Só um mala como aquele para conhecer algo invisível como um homem-sanduíche. Nas 40 horas em que fiquei na fun­ção — um expediente de 12 horas no primeiro dia e o resto quebrado ao longo de uma semana — passaram amigos meus, bem mais conhecidos que o tal do Virgílio. E nada. Vingou a famigerada lei da invisibilidade. Eu é que ficava curioso — dia­bos, aquele eu conhecia de não sei de onde... ficava quase a cutucar os passantes.

E mulher-sanduíche, não rola?, indagava aos amigos, ti­rando uma onda. Os sandubamen, apesar da desgraça, tiram onda o tempo inteiro. "Ah,vai ali na Sete de Abril quase es­quina com a República!" cutuca o baiano Lourival Santos, 60, que divide o serviço das placas com o de homem-da-cobra. Sim, aquele velho profissional das ruas que vende remédio para vermes e todos os males enquanto exibe as serpentes nos vidros, lembram?

Com o enxerto as mulheres-sanduíche: "Ah, tenho vergonha não, venho aqui no centro procurar emprego de verdade, toda segunda, se não tem, pego o que tiver, pe­lo menos pra livrar a passagem", justifica-se Sabrina Soa­res, 22, chegada do Maranhão há dois meses. "Mas fo­me estou é longe de passar, em São Paulo todo mundo descola alguma coisa. E quem reclama, reclama de bar­riga cheia", brada.

O SANDUBA DO HOMEM-SANDUBA
Quando na terceira manhã estava de novo de McBode... pas­sou um quase parente, seu Aristides Moreno, velho amigo do meu pai, do Sítio das Cobras, Santana do Cariri, sul do Ceará, divisa com a Exu de Luiz Gonzaga, que lá sempre apa­recia na feira, por conta de parentes comuns do velho ser­tão de Pernambuco. Diabos, ajeitei as placas, terá sido ele mesmo? Sim, era sim, sem dúvida. Aíbateu a fome e fui en­carar um sanduba de fato e de direito. Pense na humilhação! Como escolhi uma lanchonetezinha fora dos padrões dos ho-mens-sandubas..., ali saindo da Barão de Itapetininga ru­mo a Sete de Abril... Uma casa que tinha sanduíches pas­sando dos dois reais... Fui vestido a rigor, com as placas na frente e atrás...

— Um misto quente e um guaraná — me exibi.

A moça exigiu que eu pagasse antes, São Tomé das ruas, tá certa, lá é que ela vive as experiências... E ficou com um olho de escandalizada por eu poder pagar tal lanche, porque aquele tipo de tiozinho que torra mais de R$ 3 numa visita àquela casa... NÃO EXISTE! Pior é que era tão linda a tal da preconceituosa... que mal levantei a voz.

Um homem ensaduichado não tem voz. Não gritei porque havia incorporado a invisibilidade. Ninguém vê, nem mesmo  o maior dos mortos e miseráveis de fome, o rosto de um ho­mem-sanduíche. E isso não tem graça nenhuma!