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Matéria publicada na edição 18 da Revista V, da Wolkswagen, aquela do fusca. R$ 6,90, na banca mais próxima da sua casa. *Reprodução sem fins lucrativos. Todos os direitos reservados à humanidade.
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McBode QUANDO CERTA MANHÃ este homem vindo do sertão nordestino despertou, depois de uma noite mal-dormida... havia se transformado num McBode, em pleno centrão de São Paulo, rua Barão de Itapetininga, onde outros tantos McBodes mais antigos, menos ressacados da noite, mas muito ressacados da existência, ensanduichados até a alma, já faziam da arte da invisibilidade suas vidas. Ao vestir aquelas placas ou coletes plásticos, o homem-sanduíche perde imediatamente o seu rosto. Também, ao ali chegar, o homem-sanduíche já tem perdido quase tudo, não resta mais nem alface. É a tragicomédia nacional indo e voltando, a face, tenha sido bonzinho ou tenha sido monstro, se diluindo na multidão, entre tantos outros, talvez piores. Centenas de McBodes, em plena metrópole, a mais moderna e avançada da América Latina, ganham apenas R$ 3 por dia, pior do que o pior dos mundos das roças dos coronéis latifundiários das antigas. "A gente ri da gente mesmo, fazer o quê? Quem não ri pela frente, ri pelas costas, o Compra-se ouro é o mesmo", complica um dos mais velhos homens-sanduba de SP, Orlando Alves de Souza, 71, uma década na função, depois da aposentadoria como vendedor autónomo. "Juro que até agora num descobri se é pra rir ou pra chorar, o freguês é quem escolhe. Eu prefiro o riso, mas rio dos outros que chegam aqui, os cabaços, os novatos." Com o anúncio clássico do Compra-se ouro, Orlando chega a faturar até R$ 13 por dia, incluindo comissões sobre alianças — de casamentos que já se foram pelo ralo de outros desmantelos — e peças de ouro ligadas afetivamente a outros passados demasiadamente desgraçados. GOSTOSO COMO A VIDA TEM DE SER O melhor ganho do gênero é quem se ensaduicha com anúncios de empregos. Fábio António dos Santos, 42, vive, além da rotina do tragicômico, um drama dentro de um drama — metadrama, como diria um empregado e ainda mal-pago professor de universidade. Vestido de metadrama para matar as horas. Indo e voltando. Fábio mora em São Paulo desde os 18. Veio de Ribeirão Preto, aqui casou, separou, teve dois filhos lindos, Vanessa, 17, Custavo, 8, abre a carteira, mostra as fotos, aqui trampou de vigilante, balconista, digitador, porteiro de boate, foi para um canto e para o outro, vagou... "Depois dos 40... nem adianta, ninguém pega, nem firma nem agência", fala com os olhos baixos dos derrotados do centro. "Aí, aqui só trabalho praticamente às segundas, quando o povo tá procurando emprego, aí fico vendendo essas falsas esperanças, duas, três vagas para quatrocentos..." 0 cara leva, numa boa segunda, dependendo de quantas pessoas ele indica para ir até a agência de empregos que representa, uns R$ 12, R$ 15, no máximo. E dificilmente tem o mesmo trampo na terça. Resta-lhe voltar na próxima segunda e encarar os desempregados que lêem suas possíveis ofertas mas não miram seu rosto. "DESGOTO!" dá vontade de escrever nas placas, ele só pensa, e me diz, numa rima em letras garrafais — é metido a poeta, ah se pudesse ganhar a vida com isso. "Repare só na minha situação, seu Francisco: um homem com mais de 40, desempregado talvez para sempre, com anúncios de esperança de emprego no peito!" manda quase sem fôlego sob aquele sol das segundas que dói n'alma dos homens que deixam suas mulheres e filhos e se deslocam da periferia para o centro e voltam quase mudos para casa, "ah, num arranjei nada". É COISA DO NORDESTINO ― Estás muito perto de se aposentar ou já és aposentado, né, tio? Ô, Carmen, até tu, querendo tirar da minha cara, só porque a maioria dos machos-sandubas já passaram dos 60! Me senti com o pé na cova, mas ela insistia em adivinhações outras: — Tem duas mulheres que te amam: uma branquinha e uma morena... É, pode ser, afinal de contas... Lembrei de duas lindas senhoritas da minha existência, uma de São Paulo outra do Recife, não necessariamente nessa ordem. — E uma terceira que não vale nada... Vixi, pronunciei, como autêntico McBode. — Se tu me deres cinco reais, digo o resto... A cigana fez suspense. — Mas se só estou ganhando três por dia nesse serviço? — disse-lhe, com próclise e tudo. Faço cara de interrogação, segurando o riso de dublê e já desmanchando a minha atuação de homem-sanduíche treinado no Actor's Studio de Elia Kazan, meu amigo de Nova York. Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe o endereço para a cigana vender na Barão de Itapetininga. Justo no momento que me passa um conhecido, Virgílio Gomes Neto — claro que só tenho o nome completo depois de interrogá-lo. Nem do Virgílio me lembrava. Fiquei ali naquela, como será este batismo? Depois de muito sacrifício, ele se apresentou para o jogo. Era até fácil. Era um ex-funcionário da Folha de S. Paulo, da parte burocrática, sabe-se lá, assim falou o truta, em 1994. Só um mala como aquele para conhecer algo invisível como um homem-sanduíche. Nas 40 horas em que fiquei na função — um expediente de 12 horas no primeiro dia e o resto quebrado ao longo de uma semana — passaram amigos meus, bem mais conhecidos que o tal do Virgílio. E nada. Vingou a famigerada lei da invisibilidade. Eu é que ficava curioso — diabos, aquele eu conhecia de não sei de onde... ficava quase a cutucar os passantes. E mulher-sanduíche, não rola?, indagava aos amigos, tirando uma onda. Os sandubamen, apesar da desgraça, tiram onda o tempo inteiro. "Ah,vai ali na Sete de Abril quase esquina com a República!" cutuca o baiano Lourival Santos, 60, que divide o serviço das placas com o de homem-da-cobra. Sim, aquele velho profissional das ruas que vende remédio para vermes e todos os males enquanto exibe as serpentes nos vidros, lembram? Com o enxerto as mulheres-sanduíche: "Ah, tenho vergonha não, venho aqui no centro procurar emprego de verdade, toda segunda, se não tem, pego o que tiver, pelo menos pra livrar a passagem", justifica-se Sabrina Soares, 22, chegada do Maranhão há dois meses. "Mas fome estou é longe de passar, em São Paulo todo mundo descola alguma coisa. E quem reclama, reclama de barriga cheia", brada. O SANDUBA DO HOMEM-SANDUBA — Um misto quente e um guaraná — me exibi. A moça exigiu que eu pagasse antes, São Tomé das ruas, tá certa, lá é que ela vive as experiências... E ficou com um olho de escandalizada por eu poder pagar tal lanche, porque aquele tipo de tiozinho que torra mais de R$ 3 numa visita àquela casa... NÃO EXISTE! Pior é que era tão linda a tal da preconceituosa... que mal levantei a voz. Um homem ensaduichado não tem voz. Não gritei porque havia incorporado a invisibilidade. Ninguém vê, nem mesmo o maior dos mortos e miseráveis de fome, o rosto de um homem-sanduíche. E isso não tem graça nenhuma! |