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Capa da edição de julho de 1968
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Ele vive infiltrado nas rodas da malandragem, sempre espreitando, fingindo-se de malandro também. O seu trabalho é um só: cagüetar, endedar, engessar, falar, entregar, dar o serviço, atraiçoar aquêles de quem se faz companheiro. Contar à polícia tudo o que viu entre os malandros. É uma profissão suja e perigosa, que êle exerce para viver em paz com a lei e ter livre trânsito no mundo do crime. Um mundo onde não existe maior ofensa do que a palavra ca-güeta. Assim, maldito por todos os lados, êle é detestado pelos policiais, que o usam mas não confiam nêle, e pelos malandros, que têm para êle um código: "Quem fala morre." Para a polícia, é um mal necessário: "Êle ajuda, mas quem entrega de um lado pode entregar do outro." Para a malandragem, é um perigo: "Entrega até a mãe." Chacal, alcagüeta, ca-güete, cachorrinho, delator, informante, reservado, federal, engessador, falador, bôca mole, bôca de litro, dedo duro, são a mesma coisa. Êle não tem rosto. E até quando vai prêso é uma armadilha para os bandidos continuarem acreditando nêle. Por isso, quase tôda vez que um grupo de malandros cai nas mãos da polícia, o homem que os entregou também está entre êles, apenas para despistar. TEXTO de João Antônio
Começa conhecendo todos os tipos de marginais Onze e meia da noite no subúrbio. Num terreno escuro e baldio, cinco homens formam uma roda. Fala o crioulo Macalé: — É hora. O Carioca ficou de passar aqui na quebrada pra comprar os bagulhos. Nenhum dos outros responde. Há um silêncio, a espera está pesando. Um dêles acende um cigarro estranho, fininho. Aspira fortemente, mais, mais, fazendo uma sucção demorada, nervosa. E passa o cigarro ao próximo. No escuro, a brasa do cigarro andando, parando, andando, é o que melhor aparece. Chega o esperado. Cumprimenta com voz macia. Disposto, bem humorado: — Olá, meus compadres! Estamos a bordo. Como é que é? Trouxeram os bagulhos? O crioulo tem a seus pés duas malas de viagem. Abre uma. Lá dentro, alguns eletrodomésticos. Retira um rádio de pilha. Convida: — Chega mais, meu camarada. Vem apreciar a mercadoria. Subitamente, rápidos, acesos, dois homens, armas na mão, faroletes, invadem o terreno: — Aqui é cana! Todo mundo de mão pra cima. Os revólveres e a viatura policial se aproximando paralisam os homens da roda. Não há movimentos. Descem mais três homens da perua. Agem rapidamente, vão metendo as algemas. A porta traseira da viatura é arreganhada, num tranco. Um dos tiras investe, de supetão, aos gritos: — Pra dentro! O crioulo Macalé quer ensaiar qualquer coisa: — Mas isto foi cagüetagern! Alguém aqui abriu o bico. O tira interrompe aos safanões: — Foi... foi uma droga. Pra frente, ô rapaz! Você vai é entrar no pau! Os outros policiais perdem a paciência. Um, dois, três tapas estalam. Torcem braços, exigem urgência. — Pra dentro, cambada! Um homem, aos trambolhões, é o primeiro a ser enfiado na perua. Vai debaixo de bofetões e pontapés. É quem mais apanha, cabeça encolhida se guardando das pancadas. É aquêle um que Macalé disse que ia comprar os bagulhos. É o chamado Carioca.
Zé Peteleco é um dedo duro Mas o seu nome não é Carioca. Seu nome é José. Que se encurtou para Zé e se acrescentou de Peteleco, devido a seu jeito nervosinho, espevitado. De família pobre, cheio de irmãos, morou até os dezessete anos numa vilazinha de Carapicuiba, uma hora de trem nos subúrbios da Sorocabana, em São Paulo. Todos lutavam no trabalho pesado, Zé não queria nada. Um dia, o velho, seu pai, achou que sacrifício tinha de ser de todos e mandou que Zé se explicasse: arrumava emprego ou caía no mundo. Caiu na Capital. Pegou, como quem começa, maus pedaços. Engraxou e esmolou, coisa que não gosta de lembrar. Até que um dia ganhou prumo, apanhando e entregando roupa num tintureiro na Rua do Triunfo, na chamada Bôca do Lixo. Era nôvo, mirrado e, como estivesse com um pé na bôca do crime, foi ali mesmo que conheceu todos os tipos de malas (malandros). Ali se concentrava gente que mexia com um ramo variado — prostituição, tráfico de tóxicos, assaltos, vigarices. Era fracote, mas estava no ambiente. Com o tempo, arranjou uma moleza, um mingau, uma ótaria (mulher da vida, fácil de dar dinheiro a seu homem, fácil de dobrar). Zé entrava com o amor e ela com o resto — cama, no próprio bordel, onde êle aparecia para dormir depois das três da manhã, terminado o trabalho das mulheres; comida, cigarros e uma notinha (um dinheirinho) todo santo dia.
Um dia aceita uma proposta: trair seus amigos Estava naquela vida, sem experiência nenhuma. Quando em quando, se distraía, abusava nos copos do botequim e ficava bobeando. Essa bobeira (estar à toa, sem nada para fazer) em plena Bôca do Lixo dá xadrez com facilidade. Uma ronda policial o apanhava bêbado, falando grosso, mais alto, do que devia, e pronto: quatro ou cinco dias na cadeia. Zé Peteleco nunca foi homem forte. Nem corajoso. Não era bom jogador, não havia aprendido a roubar, nem sabia, pelo próprio esforço, onde arranjar maconha, bolinhas ou cocaína. Não era um taco no bilhar, não era um linha-de-frente no jogo do carteado, não conseguia fazer dos entorpecentes meio de vida. Também não pertencia à curriola dos rapazes fortes da geração mais jovem, saídos do Juizado de Menores, espertos e considerados de todos, inclusive da polícia. Zé Peteleco sempre foi um sujeito de obedecer e não de dirigir. Nesse tempo, por essas e por outras, já estava sendo observado por um investigador. O bom menino tinha quase todas as qualidades para se tornar um homem de dar o serviço, um bôca mole: mirradinho, desses que, quando não estão bêbados, mais ouvem do que falam, covardezi-nho e, disfarçado, desbaratinado, capaz de passar por malandrinho, poderia ser infiltrado de campana (para espionar) em várias situações. Foi assim que Zé pensou estar fazendo amizade com um rato legal, um boa gente da polícia. Que se chegou para Peteleco e convidou, com a malícia escondida, na crocodilagem: — Vem cá, meu considerado. Fique sabendo que malandragem nunca deu camisa a ninguém, não, Malandro não tem futuro. Malandro tem é de morar na Detenção. Você tá perdendo tempo e o negócio é mandar bola pra frente. Olhe aí: você até que pode me ajudar na situação de um afano. E o investigador escolou. Haviam feito um roubo, um afano, na pastelaria de um japa, um japonês. Coisa fácil de descobrir. Zé Peteleco estava no meio dos malandros, e ali não havia quem não acreditasse nêle. Logo, que sondasse e desse o serviço. Zé Peteleco ficou só escutando, no seu canto, cabreiro (desconfiado) com o tira. Mas êsse sabia que poderia ganhá-lo na manha, no papo, na saliva, na psicologia. E garantiu: — Qual nada, rapaz! O seu negócio é cuidar de você. Se trabalhar direitinho, legal, eu arranjo uma colocação para você lá no Departamento. E lhe dou tôda cobertura. Você nunca mais vai tomar estarro, não vai entrar mais em cana, nem vai ter perturbação com os homens da lei. Tá? É papo firme, não dá no bico. Aí, Zé Peteleco se encolheu, prometendo: — Tá legal. Vou ver o que posso fazer. Mas o tira advertiu, limitando a confiança, para evitar futuras liberdades e inconveniências. E, já mandando: — Vê se dá uma maneirada com a bebida. Juízo. Quando o bicho bebe demais fica zonzeira, goiaba, melado e muito louco. Acaba falando mais do que deve. Vê lá o que me apronta.
Serviço dado: positivo Três dias depois, Peteleco já estava por dentro de todo o caso; no meio da massa da malandragem, os cochichos e os bochechos correm depressa. Há quem diz e até garante que todo ladrão é otário, todo malandro é otário. Porque gosta de contar vantagem, dizer que é mais do que o outro, que é o bom, o ponta-firme. Claro que não são todos. Mas quem rouba duzentos cruzeiros novos, ou seja, duzentas lucas ou duas pernas, da pastelaria de um japonês, e ainda se esquece jogando crepe (jogo de dados) nas bôcas... sua façanha acaba chegando aos ouvidos de um Zé Peteleco. Que pilhou esta frase: — Tição mandou um japa em duzentas abobrinhas. Só no crepe, ontem à noite, perdeu oitenta pedros. Peteleco não teve dúvidas. Deu seu primeiro serviço. Chegou-se para o tira e endedou Tição. Encheu as bochechas e falou: — O negócio é com Tição mesmo. Êle está gordo e ainda não queimou nem metade da grana afanada. O investigador teve pouco trabalho. Encanou, deu voz de prisão ao malandro, que estava dormindo no hotel. Depois dêste, Zé Peteleco faz outros serviços, procurando desempenhar legal, não dar mancada, não dar no bico. Já está mordido pelas falas do policial que o iniciou. E não lhe custa meter na cabeça que êle também, bem lá no fundo, sempre teve muita vontade de ser investigador. Mas como fosse um zé mané qualquer, sem instrução e sem padrinho, sem goma (lar, casa) e até mesmo sem endereço fixo, nunca conseguiu mandar para a frente êste plano. De repente, um tira se aproxima, faz que se engraça, e êle descobre que ser dedo duro é um caminho que, palmilhado direitinho, com muita atenção e juízo, pode desembocar num emprego bom. Zé Peteleco descobriu cagüetas que chegaram a ganhar um lugar de motorista ou de carcereiro na Segurança Pública. Também soube que, embora a Secretaria não dê nenhuma verba para os delatores, ela manda imprimir e lhes fornece umas carteirinhas de agente reservado. E a caixinha dada pelos investigadores, principalmente os ligados a roubos e entorpecentes, varia muito, mas é sagrada quando o serviço é bom.
Não é corajoso, mas leva vida muito perigosa Peteleco já tem vontade de ser policial. Ainda que tipos ajuizados lhe advirtam que, na continuação, aquela vida não compensa. Franzino, covardezinho, medíocre, o que lhe interessa é andar de algemas e revólver na cintura, arrotar umas grandezas e criar nome no meio dos policiais. Conhece outros cagiietas. Uns, viciados em tóxicos, entregam traficantes, para apanhar uma pequena parte da mercadoria e, assim, matarem o vício: a êsses, se descobrir algo no ramo dos entorpecentes, Zé Peteleco vende informações. A ocasião é boa para morder, beliscar uns cobres: — Eu dou a dica. Mas tem de me molhar a mão (gratificar). Naquele ambiente, muita coisa vira façanha e muita peripécia vira lenda. E se fala de vários elementos que hoje estão com boa situação na polícia e começaram como cagiietas. Então, Peteleco, já um ex-marginal, conclui que a melhor maneira de chegar a policial, algum dia, é endedando, apresentando serviço, descobrindo, e se fazendo notar pelos policiais. Ouve dizer, de vez em quando, que a alcaguetagem é a alma da polícia, e sem os delatores o campo de ação dos policiais estaria bem limitado. (Mas que não é o caso dos policiais dos homicídios, que não trabalham com alcagüetes.) Peteleco prossegue. Meio explorador de mulheres e meio dedo duro, passando agora por policial, já que carrega arma e carteirinha de reservado. Pretende tornar-se um alcagüete inteligente, dêsses que descobrem casos difíceis. E que, intimamente, se julgam superiores ao policial a que servem. O tira leva o nome de descobridor do serviço, mas o dedo duro é quem levanta a pista. Um faz a música e o outro leva o nome de autor. Peteleco não enxerga nisso uma injustiça. Para êle, são "ossos do ofício". Mais importante: são degraus de uma carreira. Sabe que não pode confiar em ninguém porque, no fundo, ninguém confia nêle. Não goza da verdadeira consideração dos malandros e, se fôr descoberto, será apagado, liquidado no primeiro cochilo. Também por isso não tira o 32 da cintura. Com o tempo, começa a acordar para certos fatos e descobre que as coisas não andam e nunca andarão boas para o seu lado. Às vêzes êle saca (percebe) um tira dizendo baixinho ao ouvido de outro: — Ôlho no Peteleco. E êle já sabe o que aquilo significa: — Eu ando cabreiro com Peteleco. Essa peça se mudou lá pro subúrbio e eu sei que naquela paróquia (praça, lugar) anda havendo um chorrilho (série) de assaltos a residências. E o Peteleco não tem apresentado muito serviço. Sabe como é que é: quem entrega de um lado, entrega do outro. No outro lado, o dos marginais, Zé Peteleco sabe que não existe perdão para a palavra cagiieta. Tem que pagar com a vida. Não desconhece também que se cair numa cadeia de verdade, quente, e fôr desmascarado, não sairá vivo, além de ser torturado e até obrigado a bancar o pederasta passivo. Malandro que é malandro não deixa por menos. Serve a um só tira e tem com êle a sua caixinha, a sua cara, isto é, todo fim de mês o investigador lhe arruma algum, que não é grande coisa. O salário de um policial de investigação não dá nem quatrocentos cruzeiros novos mensais. Zé recebe ainda por serviço apresentado, e como tem mulher na vida, se prostituindo para ganhar e lhe dar, vai levando.
Uma topada e dois tecos Peteleco não joga, pois não se sente uma fôrça no jogo, e também não é besta. Não é viciado em tóxico, fuma cigarros de seiscentos mangos, come e dorme às custas da mina. É um bom cabra safado, sujeira, escama, barra suja — mau caráter. Seu pequeno deslize, a única situação em que não é covarde e se espalha, é quando está de porre. De tempos a tempos, abandona um pouco aquela vida dissimulada e abusa das bebidas. Então, na birosca, no boteco onde está, protegido pelo babilaque (documento) que carrega, expõe e ostenta, costuma dar, em volta alta, uma dessas: — Aqui é cana! Aqui é polícia! Vocês precisam saber com quem estão falando, cambada! Mas isso é lá no subúrbio, onde mora. No centro da cidade, numa bôca pesada ou num botequim de favela, êle é do tipo que se encolhe todo. Incapaz de enfrentar um valente. Porque valente é brabo, lei do cão, ferrabrás, encrenca ruim. No entanto, em grupo, Peteleco se comporta como homem de coragem, para aparecer e crescer aos olhos dos policiais. Quando sai na perua com os tiras, vai ansioso, interessado e contente, porque está a campo para dar cana. Ou então, para dar a topada, que seria assim, com suas próprias palavras: — Sempre aparece moleza, a gente apanha um mala e toma nota. Depois dividimos, eu também levo a minha. A topada é um mingau. A gente topa um malandro que tem muito no bolso e está carregado de pepino (culpa). Êle dá o que tem para não pegar uma cana dura. Aí, a Peteleco foi melhorando, se aprimorando como cagüe-ta, e ao transformar-se num dos bons informantes da massa policial teve também de enfrentar situações novas. Numa dessas, foi metido numa captura da turma do quilo, da quilometragem, a turma da pesada. Acontece que houve uma reação violenta dos meninos, dos lalaus (ladrões). Eles não tinham nada a perder, assaltantes traquejados, acostumados a tudo. Não queriam saber de prosa fiada com a polícia. Eram todos dedos moles — gente que pega num revólver e aperta mesmo, põe o indicador no gatilho. Peteleco chegou junto com o pessoal da dona maria (polícia) e teve de desempenhar papel de macho. Os ladrões resistiram e foi uma maquinada (tiroteio, bala por todos os lados). Peteleco, de natural medroso, apavorado, não podia demonstrar sua frouxidão aos policiais. E partiu para a linha de frente, marcou bobeira (se expôs exageradamente), quase foi apagado. Levou dois tecos na perna esquerda. É por isso que êle puxa a perna, meio capenga, até hoje. Mas costuma dizer que aquilo foi por causa de mulher.
Um serviço na sinuca Quando Zé Peteleco não tem nada que espiar, êle baixa nos salões de sinuca, onde pode arranjar um e outro serviço bom e ainda morder alguma grana dos malandros ganhadores no jogo. Como aqueles, os tacos, vivem apenas de sinuca, precisam estar em liberdade para sobreviver. Razão por que temem e ao mesmo tempo detestam um Zé Peteleco. O ambiente também é bom para o cagüeta porque, na madrugada, sempre pintam (aparecem) nos salões, malandros de outras áreas. Aparecendo para apreciar o joguinho, a turma da pesada costuma tomar um trago; no balcão encontra um cagüeta e não sabe onde está pisando. Acha que êle é da mesma situação, da mesma profissão, porque se comporta como malandro. Então pede o tira-gôsto, bebe o traçado, vai queimar um fuminho (maconha) num canto escondido e fica ligado; ou, junto com o cagüeta, injeta uma picada, um pico, uma injeção de euforizante, fica tomado pelo tóxico e começa a contar vantagem. O dedo duro está só de campana, trampando — colhendo o serviço. Às cinco da manhã, o resto da cidade parece dormir e até os dancings e os últimos restaurantes e botequins baixaram as portas para descanso. O salão de bilhares vai seguindo na madrugada, agüentando o seu ritmo como um ôlho aceso na noite, muito movimento nas mesas, quase tôdas tomadas. Pelos cantos e no balcão, tipos conversam, bebericam, fazem apostas neste ou naquele taco. É uma variedade de peças (tipos), desde os parceirinhos, jogadores de sinuca, curiosos, desocupados, gente da noite, até homens de outras áreas de malandragem, como chorros (batedores de carteira) e algum marginal da pesada. Êsses, de hábito, não jogam nem apostam, ficam ali batendo papo, malbaratando o tempo, tomando um e outro trago. Num canto, Zé Peteleco espia o ambiente e dissimu-ladamente toma o rumo do balcão, no momento exato em que lá fora uma viatura policial já parou e os — Aqui é cana! Assusta-se o salão. Parceirinhos param o jogo, os tacos no ar. Porte de arma. Revista. Documentos. E, na colheita, cinco homens são levados para dentro da viatura e trancafiados. Entre eles, Zé Peteleco — tido e havido naquela roda como pedra 90, bom malandro, de fé, gente boa, ponta-firme, isto é, de confiança. Na Delegacia, cinco homens são identificados e levados para um chiqueirinho, pequeno quarto em péssimo estado de higiene, onde todos se misturam. Um investigador passa os olhos sôbre os nomes dos recém-chegados e resolve chamar, um a um. Na vez de Zé Peteleco, as falas se amaciam e ficam diferentes; êle chega e logo se abre, se racha com o investigador, conta o seu tem isso, tem aquilo. Com voz macia: — Ali só o mulato mesmo é um quilo. Aquela história do assalto é com êle mesmo. Êle é a peça, o resto é tudo gente da leve. Fôra uma prisão de araque, de grupo, de palha. Sòmente para garantir aparências na massa da malandragem onde, amanhã ou depois, o dedo duro precisará atuar de nôvo.
A quadrilha nas mãos Por vinte e poucos dias Zé Peteleco passou a se chamar Carioca. Enfiou-se num subúrbio para fazer o seu trampo (trabalho). Assaltos infestavam o lugar e os roubos iam de chorrilho. Tôdas as pistas indicavam tratar-se de uma quadrilha. Zé Peteleco ficou na espia, viveu o tempo todo de campana, infiltrando-se. O bairro estava cheio de marginais conhecidos; era barra das mais pesadas. Peteleco começou indo às bôcas acesas pelas madrugadas. Primeiro perambulou pelos bilhares. Ficava até as tantas, tomando umas e outras bebidas, conversando na gíria. Também se enfiava na sinuca, jogando a dinheiro, perdendo, ganhando, até sentir que os malandros se acostumavam à sua presença. Travaram-se os primeiros diálogos, um querendo saber da vida do outro: — Como é que é, compadre? De onde você é? — Sou do Rio, meu. Tou passando uns dias aí na casa de um amigo. Mas daqui a pouquinho vou dar no pé pra Brasília, pois lá está morrendo gente (correndo dinheiro, prosperando). Grana lá tem às pampas, otário aos montes, mina ganhando quanto quer. — Ô, meu compadre, onde é que eu posso arranjar um cheio? Cheio é um pacau, quantidade de maconha suficiente para uma boa porção de cigarros. — Não sei, não. Eu não trato disso. Peteleco cortou rente, abriu uma fala de simpatia: — Que nada, meu irmão! Será que você está me estranhando? Eu sou limpeza, sou cadeeiro (que já tomou muita cadeia). Pode botar fé — e se abriu num sorriso —, meu nome é Carioca. O crioulinho se explicou: — Não é por nada, não. Mas sabe como é que é: a gente não se conhece e tem de andar desconfiado. Zé Peteleco percebeu que o crioulo estava dobrado, conquistado. O escurinho, então, convidou: — Vamos chegar até o pedaço (local onde estava oculta a maconha), que aqui tem muito antena e muito mirão (sujeito que fica ligado, espreitando com curiosidade). — Chega mais pra cá, Macalé, vamos dar uma bola na coisa (bola, borrifo ou presilha significam tragadas na maconha). E o chapa aí, é seu camarada? O crioulo Macalé confirmou. E perguntou a Zé Peteleco quanto iria querer de maconha. — Manda logo um pacau, que eu estou numa falta que não tem nem tamanho. Era uma curriola de homens fortes, calejados em assaltos. Peteleco fazia o seu papel com mêdo. No fundo, ele estava a perigo. O cigarro de maconha, o baseado, começou a circular na roda, passando de mão em mão. Os homens sugavam, aspiravam fortemente a erva, repetindo, nervosos, o movimento de sucção da fumaça, querendo que ela corresse pelas veias. Veio a vez de Zé Peteleco. Êle deu bola ao fuminho, fingiu tragar profundamente. E começou, dissimuladamente, a arrotar vantagens: — Saí de pinote do Rio. Corrido da canuncha (cadeia). Estou premiado com cinco primaveras (condenado a cinco anos) e mais outros pepinos que estão para estourar. Falou e correu os olhos pela roda, furtivamente. Conferiu o efeito, viu que convencia. (Se conseguisse um daqueles homens, apenas um, seria um grande ponto a seu favor na polícia, um sucesso. Porque aquele traria o outro. O segundo traria o terceiro, e assim viria a quadrilha toda. Seria a chamada carambola, todos acabariam apanhados, inclusive os receptadores.) O mêdo de Zé Peteleco foi sumindo, ganhou força: — Se alguém souber de algum bagulho (objeto roubado), é comigo mesmo. é aqui com o Carioca. E, olhe aí: estou pagando bem. Pois chegando em Brasília eu vendo tudo. Estava jogada a isca. O mais que Peteleco fêz foi esperar. Dois dias depois êle está perturbando (frequentando e fazendo coisas de malandro) na bôca de sinuca, quando uma peça da curriola o chama: — Ô, Carioca, chegue mais. Vamos tratar de um assunto particular. De nôvo lhe correu o frio nas pernas. Estava chegando a hora da colheita. E êle se sentia novamente a perigo. Disfarça, finge tranquilidade: — Vai dizendo, meu. Qual é o galho? — O negócio é que o Macalé me disse que você está a fim de comprar uns bagulhos. Bem. Juntou a fome com a vontade de comer. Zé Peteleco impaciente. Mas se aguenta. Fala com cabimento e até modéstia: — Positivo. Certinho. Se não fôr muita grana, a gente pode chegar num entendimento. Espera aí. Peteleco finge estudar um encontro. — Amanhã a gente se cruza, tá? Onde posso ver os bagulhos? — No mesmo lugar. Lá no esquisito. Amanhã às onze e meia da noite. Despediram-se com as mãos no ar, à maneira dos malandros. No outro dia, acordou nervoso. Precisava deixar o disfarce de Carioca e voltar a ser Zé Peteleco. Pela primeira vez, tinha uma quadrilha nas mãos. Correu à cidade, logo de manhãzinha. Vasculhou tôdas as bôcas, como um cachorrinho. Precisava encontrar o seu tira. Apanhou-o com uma cara de sono, ali por volta do meio-dia. E deu todo o serviço. |