
Resenha Literária
Forte como um Ébano
Uma análise do livro Ébano – Minha Vida na África(Heban) de Ryszard Kapuscinski, trad. Tamasz Barcinski.
Com o nome de uma árvore de madeira forte e escura, a qual costuma designar a bela cor dos africanos, Ryszard Kapuscinski nomeou seu livro que descreve sua vida na África. “Descrever”, aliás, é o verbo que menos se aplica ao que ocorre nessa obra. Kapuscinski detalha, explica, sobrepõem e idealiza acontecimentos e fatos que ocorreram durante os quarenta anos que fora correspondente de um jornal polonês nesse continente misterioso. Ele presenciou desde os primeiros movimentos de independência, passando pela depressão dos anos 80 até o fim do século XX, quando a África começou a se reerguer devagar. Infelizmente Kapuscinski já faleceu e não pode observar o que esta ocorrendo hoje em dia: pouco a pouco, a África está ficando de pé. Mas isso ele já sabia que ia acontecer. Sua experiência africana foi tão intensa que ele dispensa comentários para sua visão da África futura. A última frase do livro resume: “Ainda era noite, mas já estava próximo o momento mais deslumbrante de toda a África – o amanhecer.”
Kapuscinski não escreve uma história com o tempo europeu, com a cultura européia ou com características de sua própria cultura, mas escreve a África com tinta africana para olhos de fora. Ao invés de colocar suas impressões ou um simples relato africano, Kapuscinski explica ao leitor questões históricas, culturais e geográficas. O autor separa as diferentes culturas desse continente imenso e diverso, mas une as questões em comum de quase cada cantinho desse Ébano gigante. A África é mostrada como um lençol de retalhos: cada trecho diverso, mas uno como um todo. E em cada uma dessas culturas ele adapta o seu olhar, retirando sempre o olhar europeu, que por séculos permeou a visão que tínhamos da África. Sabendo do conhecimento limitado do leitor, Kapuscinski sempre explica de forma clara e numa leitura que flui facilmente.
A mesma organização que se vê no continente, reflete na narração. Kapuscinski não conta simplesmente. Ele não usa muitos conectivos, expondo acontecimentos, histórias e juízos em flashes epifânicos, nem sempre respeitando a ordem de acontecimento. Mas não é assim a própria África? Diversa,separa, mas coesa? A coesão de Kapuscinski permeia a obra, mas não se reflete diretamente sobre a linguagem. Somente o leitor atento consegue sentir a ordem, o pensamento e o próprio espírito africano sobre a narração.
Ao fim do livro tem-se a sensação de que viajamos por toda a África e podemos, finalmente, compreender esse continente gigante, silencioso e misterioso. Suas questões encobertas – aquelas que todo africano sabe mas nunca diz – parecem que saltam pelas palavras do livro e quase, digo quase, sabemo-nas. Kapuscinski deve ter compreendido cada milímetro desse elefante africano, literalmente e metaforicamente.
Jessica Grant C., 2-12-2007

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