12. CALMARIA

ENVOLTA NO BÁLSAMO QUE ERA ESTAR NOS BRAÇOS DELE, ERA FÁCIL ACREDITAR QUE OS ÚLTIMOS DIAS NÃO PASSARAM DE UM PESADELO.

Eu tinha minha cabeça deitada no peito marmóreo do meu marido. Embora agora a pele de Edward não parecesse mais mármore frio sob meu toque e nossos corpos partilhassem a mesma textura e temperatura, hábitos antigos eram difíceis de largar, e eu não conseguia deixar de lado a velha noção de que estava entre os braços de uma estátua de Michelangelo. A visão do rosto perfeito dele tão próximo ao meu apenas reforçava essa idéia.

Suspirei – outro hábito humano difícil de largar – e alcancei a mão de Edward, buscando por mais de seu contato. Contornei cada um dos dedos dele com a mesma reverência com que eles haviam traçado meu corpo na noite passada, até chegar ao anular esquerdo de Edward. A aliança dourada era a única jóia que o adornava. O mesmo dourado dos olhos dele, que um dia – dentro em breve, eu espero – seja também o tom dos meus olhos.

Deslizei minha palma para junto da de Edward, assistindo minha mão praticamente sumir dentre a dele. Meu anjo estreitou-me ainda mais entre seus braços e eu pude ouvi-lo suspirar de satisfação. Não precisava ver o rosto dele naquele momento para saber que Edward teria meu sorriso favorito em seus lábios. Aquele meio torto, que sempre fazia meu coração falhar uma batida quando eu era humana.

- No que você está pensando? – perguntei num murmúrio, quebrando o silêncio pela primeira vez em horas, sentindo-me irresistivelmente curiosa para descobrir a razão por trás da felicidade de meu marido.

- Pensei que essa era a minha linha. – ele respondeu, com um sorriso na voz.

Não pude negar a verdade nas palavras dele. Aquela sempre fora a frase de Edward. Sempre preocupado com meus pensamentos, meus desejos, minhas necessidades, tanto que sempre os colocava à frente de seus próprios.

Remexi-me entre os braços dele, de modo que pudesse encarar o rosto de anjo dele e tentar ler sua expressão, como ele sempre fazia comigo. Entretanto, quando busquei os olhos de Edward, não os encontrei focalizados nas minhas íris rubras, e sim em um ponto mais abaixo, onde o lençol havia escorregado para revelar a saliência dos meus seios.

Não pude evitar a sensação de orgulho e ligeira presunção que se espalhou dentro de mim ao notar o desejo contido que estava impresso no rosto dele. Apesar de tudo que transpirara entre nós na noite passada, em um certo grau ainda era difícil para mim acreditar que eu era a singular causa do desejo de Edward, que a mais perfeita das criaturas já moldadas à semelhança de Deus e seus anjos me queria tanto quanto eu queria a ele. Era inconcebível e, ao mesmo tempo, extremamente lisonjeiro. O olhar de Edward me tornava mais confiante, o suficiente para que eu fizesse a pergunta que minha mente havia acabado de adentrar minha mente:

- Está vendo alguma coisa que o interessa?

- Bastante. – ele respondeu com uma sinceridade que me fez tremer por dentro, aproximando-se para roçar o nariz contra a linha do meu rosto e ao longo do meu pescoço, em um gesto que certamente deixaria arrepios da minha pele caso eu ainda fosse capaz de ter esse tipo de reação.

Eu ri, baixinho, com o carinho dele. Seria tão fácil passar o resto da minha existência naquele momento feliz e abençoado. Parte de mim queria apenas esquecer tudo o que havia ocorrido – a dor, a sede, as mentiras, a fuga, as mortes, a vergonha – e fingir que minha eternidade começava bem ali. Que aquela era a primeira vez que eu acordava após minha transformação – e, de certa forma, realmente era. Ou, ao menos, era a primeira vez que eu me sentia lúcida e como eu mesma desde que me tornara uma vampira.

Entretanto, apesar de saber que Edward não me negaria aquela escapatória fácil, na verdade, provavelmente ele insistiria para que tomasse aquela rota de fuga, afirmando que o que acontecera deveria ser esquecido, eu sabia que não poderia fazer aquilo. Minha sanidade, minha futura felicidade e, o que é mais importante, o bem-estar de Edward, dependiam que aqueles erros fossem reconhecidos e aceitos. Por nós dois.

Edward deve ter percebido a minha súbita sobriedade, pois logo levantou o rosto, encarando-me sério dessa vez. Notei que ele lutava para esconder um fantasma de ansiedade no fundo de seus olhos.

- Bella?

- Nós precisamos conversar.

Apesar de eu ter tentado usar o meu tom mais suave – tanto para tranqüilizar Edward quanto para evitar que o restante da casa nos ouvisse –, logo percebi que meus esforços foram inúteis quando a gargalhada estrondosa de Emmett assaltou meus ouvidos como se fosse um sino de igreja soando para a missa de domingo. Aquele, eu logo notei, seria um dos pontos negativos em ter uma família vampira. Apesar de Edward ainda não poder ler meus pensamentos, eu teria de pouca a nenhuma privacidade com a super-audição dos meus sogros e irmãos.

Notei o corpo de Edward tencionar minimamente e perguntei-me se, junto às gargalhadas, Emmett também estivesse bombardeando meu marido com pensamentos desagradáveis. Estreitei meus olhos, praguejando internamente contra o meu irmão-urso e pousando uma mão sobre o antebraço de Edward. Imediatamente, o contato pareceu fazê-lo relaxar.

Ótimo, ao menos um de nós estava calmo agora. Eu respirei fundo, um costume humano que provavelmente eu nunca deixaria, e cerrei meus olhos, buscando minha própria âncora de serenidade para iniciar uma conversa que, de antemão, eu já saberia que seria difícil.

- “Duas ou três vezes antes de conhecer-te a face ou o nome, te amei. Assim, na voz, na amorfa chama, os anjos nos afetam, e por isso sejam louvados”.

Eu reabri minhas pálpebras e a visão dos olhos dourados pontilhados de rubro de Edward me observando com tanta devoção, aliada à singela, porém extremamente bela, citação, teria trazido lágrimas aos meus olhos se eu ainda fosse capaz de produzi-las.

- Quem... – eu me surpreendi quando notei que minha voz estava ligeiramente embargada. Creio que apesar de a única secreção que possa deixar meu corpo seja veneno, eu ainda sinto toda a emoção do choro.

- John Donne. – Edward respondeu à minha pergunta não finalizada. – Quando eu conheci você, cogitei uma vez que um anjo a tinha moldado para depois fazê-la despencar no meu caminho, tornando impossível que eu não me sentisse atraído por você. – delicadamente ele acariciou meu rosto, puxando uma mecha da minha franja para longe dos meus olhos carmim – Eu amei você antes mesmo de conhecê-la, Bella. Mesmo que nunca tivéssemos nos cruzado, não poderia haver outra pessoa para mim.

Sorri, colocando uma de minhas mãos sobre a mão que Edward mantinha em meu rosto. Eu não era o tipo de pessoa que acreditava em destino, Renée era inconstante demais para mantivesse uma crença fixa e, por conseqüência, eu havia sido criada sem a preocupação de reconhecer uma entidade maior que guiava nossas ações, por isso não poderia afirmar reciprocidade à declaração dele. Até porque eu sabia que aquilo não era necessariamente verdade para mim. Eu havia tido outra opção, eu havia tido Jacob.

Jacob, meu melhor amigo, humano e afetuoso, seria a escolha natural para mim. Talvez o destino, se ele realmente existisse, houvesse me preparado para Jacob. No entanto, Edward aparecera... E, como uma força sobrenatural, ele era poderoso demais para ser resistido. Especialmente porque eu não queria resistir. Eu sempre corri, voluntariamente, para a armadilha dos braços dele, mesmo contra os meus melhores instintos. Mesmo quando ele tentava me manter longe.

- Eu amo você, Edward. Eu queria que houvesse uma expressão menos repetitiva que essa para dizer o que eu sinto. – e aquela era a verdade mais pura que eu poderia transmitir. Eu amava Edward com cada fibra do meu ser. Tudo o que eu fui, era e um dia viria a ser, tudo era dele. Para ele. Para sempre.

E era por isso que eu precisava conversar com Edward agora. Era por isso que eu precisava reviver os momentos daquela noite vergonhosa, para poder libertá-lo de seu fardo. Um fardo que sequer era dele para começar.

Eu apertei os dedos longos dele com um pouco mais de força, buscando dentro de mim o impulso para continuar.

- Você já sabe o que aconteceu ontem? – perguntei, em um fio de voz.

Ele assentiu minimamente, com uma expressão sóbria.

- Eu pude ouvir partes do que aconteceu. Tanto nos pensamentos quanto nas conversas. – ele disse.

Eu me virei mais uma vez, dessa feita ficando de frente para Edward. Minha intenção era encará-lo, entretanto eu logo me descobri incapaz de fazê-lo e abaixei imediatamente os meus olhos, a vergonha ainda queimando como uma brasa dentro de mim ao me lembrar das palavras hediondas que eu havia usado contra ele antes de minha fuga.

“Eu odeio o que você me transformou!”

Imediatamente, como se uma resposta à minha hesitação, senti os braços de Edward rodearam minha cintura, segurando-me firmemente contra ele, fazendo com que nossos corpos se tocassem por inteiro, moldando-se um ao outro.

- Ninguém culpa você, Bella. – ele murmurou com a voz de querubim no meu ouvido – Pelo contrário, você demonstrou mais auto-controle do que nós supúnhamos que pudesse ter. Você poupou a garota, mesmo quando ela estava sangrando na sua frente. Mais que isso, Bella... Você a salvou.

Fechei meus olhos, pesarosa. Em meio à agonia por relembrar as palavras que eu usara para ferir Edward, uma nova onda de vergonha me assolou ao me lembrar da moça no beco de Port Angeles, a quem eu havia confundido com Rosalie e quase matado em minha pífia tentativa de bancar a heroína.

Eu não era a mocinha daquela história, ao contrário do que Edward estava tentando pintar. Eu nunca mais seria a mocinha, não enquanto tivesse esse monstro rugindo por sangue dentro de mim. E monstro estaria ali para sempre. Eu tinha esperanças de um dia aprender a controlá-lo, como os demais Cullen o faziam, mas eu sei que seria uma batalha árdua e diária contra a minha própria natureza. Aquele era o preço a se pagar para estar com o amor da minha existência.

Voltei a encarar o meu anjo. Eu precisava fazê-lo compreender, precisava fazê-lo parar de me poupar.

- É realmente assim que você enxerga, Edward? Você já perseguiu tipos como aquele antes. Você teria matado os homens que tentaram me atacar... mas não o fez. Por quê?

- É diferente, Bella. Eu não era um recém-nascido sedento. Eu tinha consciência do que estava fazendo. – ele respondeu. Como era de costume ele tentava proteger-me e puxar para si erros que não eram dele.

Eu balancei a cabeça. Não daquela vez... Meus atos haviam sido monstruosos demais para passarem apenas como um momento de descontrole de uma neófita. Eu não era uma neófita qualquer. Eu havia escolhido aquela vida, escolhido me transformar em vampira, escolhido integrar uma família que eu sabia que se recusava a beber de sangue humano. Eu assumira um compromisso ao pedir a Edward que me tornasse uma Cullen e, indo contra o meu melhor julgamento, eu havia traído aquilo tudo.

- Ao menos eu agora sei que se você vai pelo inferno pelo que fez, eu não estarei muito atrás. – respondi, irredutível. – Não importa que eu tivesse ou não consciência, Edward. Eu matei. E não acho que a moça no beco tenha me visto como sua salvadora. Ela estava... – eu parei por um instante, conjurando em minha mente a face da moça, contorcida em lágrimas, medo e terror... Se eu ainda fosse capaz de dormir e sonhar, tinha certeza de que aquela face me acompanharia em pesadelos pelo restante de minha eternidade – Ela estava com medo de mim.

Pude perceber o olhar de Edward endurecer diante da minha fala.

- Você não irá para o inferno. – discordou ele, categórico e, eu podia notar, internamente colérico – De toda forma, essa é uma discussão inútil, visto sermos imortais. E eu não pretendo mudar essa condição enquanto tiver você ao meu lado, Bella. – ele garantiu-me.

Meneei a cabeça.

- Não é inútil, Edward, porque é algo em que você acredita. – discordei, enquanto passava as costas da mão pelo rosto de querubim dele – Porque esse é o principal motivo pelo qual você se sente culpado agora. Eu conheço você. – afirmei. Eu conhecia Edward o suficiente para saber exatamente como magoá-lo da pior forma possível. – O que eu disse antes... foi imperdoável. E era uma mentira. Mesmo assim, você se sente culpado. – suspirei. O momento havia chegado, afinal. Aquela era a hora de tentar me redimir e, também, fazer Edward afinal perceber o quão errôneos e infundados eram os seus temores. – Você estava esperando por isso; esteve esperando o tempo todo pelo momento em que eu cairia em mim e saísse correndo e gritando. E foi exatamente o que eu fiz, com uma diferença: não foi porque estava vendo a verdade; mas porque era incapaz de pensar com clareza. – afirmei, encarando com firmeza as piscinas de ouro que eram os olhos dele.

- Bella, eu não...

- Deixe que eu termine, Edward. – pedi, colocando um dedo sobre os lábios que tanto amava – O que eu quero dizer é que, não importa quais sejam as condições, eu vou sempre continuar amando você. Eu agora compreendo exatamente o peso das minhas escolhas, e, ainda assim, eu não desistiria disso. Eu não desistiria de nós. Você precisa entender que os erros que eu cometi ou que irei cometer são meus erros e você não tem parte neles.

Eu sabia que seria extremamente difícil para Edward assimilar aquela nova realidade. Desde o primeiro momento em que ele colocou os olhos em mim, ele sempre esteve tentando me proteger. Mesmo quando eu era uma mera estranha cujo sangue cantava para ele, como uma droga especialmente atraente para um viciado em eterna recuperação, ainda assim ele havia preferido abandonar toda a sua família apenas para não ceder aos seus instintos mais sombrios e primitivos. Ele havia escolhido me proteger desde então... Sempre o meu anjo da guarda, mesmo quando lutando para não assumir a face do anjo da morte.

Agora minha pele era resistente como uma blindagem. Eu tinha velocidade, força e reflexos sobre-humanos e os instintos de um predador. Eu nunca mais seria frágil e quebrável. Edward precisava compreender que agora a única ameaça para mim seria eu mesma, e minha sede. Mas não cabia a ele me proteger disso, cabia unicamente a mim aprender a controlar o monstro.

Com as costas da mão, Edward fez uma ligeira carícia em meu rosto. O toque era cálido e terno, sua pele macia e morna contra a minha.

- Não é da minha natureza... – ele começou, parecendo escolher cada palavra com cuidado – não me preocupar com você. Toda vez que você está infeliz, Bella, não posso deixar de sentir que... falhei com você. Eu fiz um voto quando me tornei seu marido. De fazê-la feliz pelo resto de nossa existência. No primeiro teste, contudo...

Eu senti-me obrigada a interrompê-lo naquele ponto.

- Edward, não é sua culpa. O que você fez, tentando me manter dentro de casa, foi sua forma de facilitar as coisas para mim. De me proteger. – busquei os olhos dele, em uma tentativa frenética de fazê-lo entender – Você não tinha como saber o que aconteceria; você não é o vidente da casa. Mesmo que os outros não concordassem, você tinha ao menos de tentar. Eu não esperaria outra coisa de você e você precisa entender isso.

Edward pareceu lutar internamente por um segundo com aquela nova noção. Logo, entretanto, os olhos dele voltaram a brilhar com sua gentileza característica.

- Eu entendo. Mas isso não significa que eu goste. – respondeu ele.

Bem, era melhor do que nada, considerando o extremo grau de teimosia do meu marido. Eu teria de me satisfazer com aquilo. Por enquanto.

- Ótimo. É um avanço. Temos tempo para trabalhar nos seus problemas. Vamos considerar uma terapia de choque se nada mais funcionar.

Eu o vi revirar os olhos, com certo divertimento.

- Jasper vai adorar isso. – ele disse, em falso desgosto.

Eu ri baixinho em resposta, virando de lado e mergulhando o rosto contra o pescoço alvo dele, inspirando fundo contra a pele dele. Mesmo humana eu sempre pensara que Edward tinha um aroma atraente, somente agora no entanto, com meus sentidos mais aguçados de vampira, é que eu era capaz de sentir com plenitude o perfume delicioso dele. Rocei a ponta de meu nariz atrás da orelha de Edward enquanto salpicava pequenos beijos estalados pela extensão da garganta dele. Além de cheirar apetitosamente bem, creio que meu marido merecia uma pequena recompensa por estar sendo tão estranhamente... Concessivo.

Senti o peito dele se mover contra o meu quando ele riu em puro contentamento. Era um deleite por si só ouvir o som angelical da risada dele.

- Edward? – murmurei contra o ombro dele enquanto ele enrolava preguiçosamente uma mecha do meu cabelo entre meus dedos.

- Diga, amor. – ele respondeu, em um tom igualmente baixo e carinhoso.

Eu respirei fundo novamente, tentando absorver mais do cheiro dele.

- Quanto tempo... quanto tempo eu tenho? – senti minha voz tremer involuntariamente no final.

Foi a vez de ele inspirar profundamente, provavelmente lembrando-se do estado lastimável em que a sede me deixara.

- Não vai chegar àquele ponto de novo, Bella. Eu a levarei para caçar ainda por esses dias. – ele garantiu-me.

Aquilo, entretanto, não me tranqüilizou como ele desejava. Eu sabia que a única coisa que estaríamos caçando seriam cervos e pequenos mamíferos na floresta dos arredores da casa e eu já podia sentir meu estômago reclamando, exigente, ao me lembrar do gosto viscoso e ferroso do sangue que Edward me servira nos últimos dias. Depois de ter provado o gosto de sangue humano e fresco, ainda quente, sendo bombeado das artérias diretamente para a minha boca, eu sabia que o sangue de animais, que já não me era muito apetitoso antes, jamais se compararia.

- Mas o sangue animal... – eu apontei, mas evitei continuar. Não queria jogar o erro de Edward na cara dele, e creio que apenas aquilo já foi o suficiente para ele perceber a que eu me referia.

Ele me abraçou, depositando um beijo em minha fronte, em uma clara tentativa de me confortar.

- Você ainda sentirá sede, mas permanecerá coerente e completamente senhora de si... desde que não entre em contato com humanos. – ele prometeu.

Eu suspirei. Bem, aquilo era tudo o que eu ousava esperar a essa altura. Contanto que eu permanecesse lúcida e não saísse por aí atacando estranhos inocentes ou, o que é pior, machucando algum membro da minha família, já poderia me considerar uma vampira de sorte. Meu estômago teria que se acostumar com pratos menos apetitosos.

- Os pingüins me parecem uma boa alternativa agora. – eu disse, em uma tentativa patética de brincadeira.

Edward riu, provocando um sorriso em mim também.

- Se é isso que você prefere no cardápio... – ele concedeu, com meu sorriso torto favorito – Agora, acho melhor nos vestirmos e reentrarmos a civilização, ou mandarão uma turma de busca atrás de nós.

Eu suspirei, olhando para o teto e exagerando calculadamente no gesto. Acho que eu sempre podia confiar em Edward para estragar a minha diversão.

- Certo. Mas só porque eu não quero que Emmett irrompa pela porta enquanto estamos no meio de alguma coisa. – sussurrei de forma quase inaudível, tentando manter ao menos aquela parte da nossa conversa privada.

Ele sorriu conspiratoriamente e assentiu, ainda segurando a minha mão enquanto deixávamos o conforto da nossa cama.

Mesmo com a minha brincadeira acerca de Emmett, nós fomos deliberadamente lentos para nos vestirmos. Edward ficou pronto antes de mim, mas sentou-se na cama enquanto esperava pacientemente que eu desembaraçasse meus cabelos, sob o seu olhar sempre atento.

Eu sorri para ele quando terminei e estendi minha mão direita para que ele a segurasse, como era de seu direito. Edward tomou a minha mão entre a sua e guiou-nos para a porta, segurando-a aberta para que eu passasse. Não chegamos a avançar muito no corredor, contudo, antes que a figura de Emmett nos interrompesse.

Eu franzi o cenho, perguntando-me se seria possível que Emmett tivesse ouvido a minha brincadeira de agora a pouco e tivesse aparecido ali justamente com o intuito de fazer valer os meus temores e flagrar a mim e a Edward em um momento constrangedor. Sinceramente, eu não duvidava de nada que viesse de Emmett...

- Bom ver vocês de novo. – ele sorriu aquele seu sorriso amplo, que fazia covinhas aparecerem em suas bochechas e o transformava de um monstro ameaçador em um ursinho de pelúcia gigante – Bella, Rose quer falar com você.

Se o sorriso com covinhas de Emmett havia me deixado confortável, a menção do nome da loira me fizera congelar por dentro.

Rosalie... eu me lembrava vagamente de ela ter estado no beco também, na última noite, da mão dela posada no meu ombro e seu olhar tranqüilo quando me dissera que estava bem, que tudo ficaria bem.

Para dizer a verdade, eu ainda estava incrivelmente envergonhada por tê-la confundido com aquela humana em Port Angeles. Se eu não estivesse tão delirante e fora de controle, aquela tragédia jamais haveria acontecido. Mas, além de tudo isso, Rosalie era a Cullen para quem eu sentia que havia a maior necessidade de me... provar. De provar minha dignidade, o meu valor. Ela sempre fora enfática ao afirmar que não desejava que eu me tornasse uma vampira. Era para Rosalie, acima de qualquer outro, que eu deveria provar que poderia ser uma Cullen. No primeiro teste contra a sede, entretanto, eu falhara miseravelmente.

Rosalie também fora testada, e de uma forma pior do que a minha. Ela estivera frente à frente com seus algozes quando humana e não derramara uma gota de sangue sequer. Agora que minhas lembranças humanas estavam menos embotadas, eu podia me lembrar de Rosalie dizendo, presunçosa, alguma coisa sobre seu histórico ser quase tão limpo quanto o de Carlisle.

Bem, de nada me adiantaria tentar esconder-me agora. Creio que eu deveria considerar uma vitória que Rosalie quisesse sequer conversar comigo, afinal ela era a única Cullen que não havia querido me ver após a minha transformação. Por esse motivo eu assenti de leve para Emmett e soltei, um tanto hesitantemente, mão de Edward.

Meu anjo certamente percebeu meu desconforto, o que não era uma surpresa, pois Edward conhecia-me melhor do que ninguém, e sorriu para mim, de forma a confortar-me um pouco. Eu também esbocei um sorriso, em agradecimento, e cumprimentei Emmett com um meneio de cabeça antes de passar por ele, rumo à escadaria que levava ao primeiro andar da casa.

Não foi difícil descobrir, com meus novos sentidos, onde Rosalie se encontrava em nossa casa. Na realidade, foi com certo alívio que percebi estar distinguindo cada vez melhor os sons, odores e todas as demais sensações que me rodeavam. Sem a sede a me torturar de modo inclemente, era mais fácil discernir o mundo com mais clareza.

Eu segui o odor de maçãs e rosas característico de Rosalie, misturado com óleo, graxa e gasolina. Ela estava na oficina, possivelmente regulando algum dos inúmeros automóveis da família. Assim que eu abrir a porta, vi a figura perfeita dela inclinada sobre o capô aberto do Porshe amarelo-canário de Alice. Certamente ela notara a minha aproximação, mas fiquei parada alguns segundos próxima à porta, esperando que ela fechasse o capô e se voltasse para mim.

A beleza dela era tão divina quanto a minha memória guardara da noite anterior, contudo, naquele instante havia uma leveza diferente, algo que eu nunca notara antes em Rosalie. Era como se naquele instante, ela estivesse mais relaxada e desprendida. Até mesmo uma pequenina mancha de graxa, que teria sido imperceptível aos meus antigos olhos humanos, maculara a pele alva de minha nova irmã.

- Emmett me disse que você gostaria de conversar comigo – eu disse, com uma voz muito mais tímida e hesitante do que eu desejara transparecer.

Eu não sabia o que esperar dela, não depois de ela ter se recusado a me ver depois de transformada, não depois de eu ter salvado aquela outra garota achando que a estava salvando, e, especialmente, não depois de, em nossa única conversa realmente séria, ela ter me revelado os motivos que a levaram a se tornar uma vampira. A noite em que não apenas o corpo dela fora violentado, mas também todos os seus sonhos.

- Sim, eu quero. Só estou pensando por onde começar – ela respondeu, enquanto passava as costas da mão no lugar onde a mancha estivera, tornando o rosto dela mais uma vez impecavelmente alvo como o de um anjo deve ser.

Rosalie reclinou-se para trás, encostando-se no Porshe. Ela enfiou as mãos nos bolsos da calça que usava, um pouco mais larga que a maioria das roupas que ela usava no dia-a-dia. Sem saber direito o que fazer, puxei um dos bancos altos que haviam na garagem e me sentei aguardando a próximas palavras dela.

- Ao contrário do que Edward deve pensar, aqui é o meu lugar favorito da casa, e não a frente do espelho – ela voltou a falar, sem esconder certa altivez e ironia na voz.

- Eu não acho que Edward te ache tão fútil... – eu tentei amenizar.

- Ele acha sim – ela respondeu, curvando de leve os lábios pintados de carmim – Foi por isso que ele me rejeitou quando Carlisle me transformou. Você sabe que beleza sempre foi importante para mim, mas não é apenas isso que me interessa. E mesmo um telepata como Edward não consegue estar cem por cento certo sobre o que as pessoas pensam e sentem. Eu confesso que senti ciúmes e raiva quando ele demonstrou tanto interesse em você, não porque eu goste de Edward desse modo, mas, em parte porque era estranha para mim a idéia de que eu pudesse ser ofuscada por alguém que não fosse tão exuberante quanto eu mesma me acho. Velhos hábitos não terminam nem com a morte.

Eu pensei em falar alguma coisa, em interrompê-la, afirmar que aquilo tudo já passara e que muita coisa que ela estava dizendo agora eu já havia compreendido quando ela me contara sobre a sua vida humana, mas a expressão que recaiu sobre o rosto de Rosalie naquele instante me refreou. Era algo que eu não sabia definir se era dor, tristeza ou algo ainda mais indefinido.

- Mas a verdade é que eu não entendia porque Edward preferira alguém que ainda podia ter tudo o que eu nunca mais poderia ter, e não compreendia porque você desejava tanto não ser quem você era, queria tanto ser um de nós. Eu sentia inveja de você e muita raiva. Uma parte de mim queria te proteger enquanto a outra queria te punir de alguma forma. Acho que foi por isso que quando tivemos uma reunião de família, logo depois do Edward te salvar de ser esmagada pelo carro e era claro que você estava começando a descobrir a verdade sobre nós, eu apoiei a idéia de te matar.

Eu deixei a minha boca entreabrir-se, completamente atônita pela revelação que Rosalie acabara de me contar.

Nunca, em momento algum, passara pela minha cabeça a possibilidade de que aquelas pessoas que eu aprendera a amar com tanta intensidade e a quem eu dedicava tanto afeto, que eu sabia serem realmente boas, pudessem ter um dia cogitado a possibilidade de me matar para manter o seu segredo. Era simplesmente surreal a imagem dos Cullen sentados ao redor de uma mesa, discutindo o destino da vida de alguém.

- Jasper foi a favor – Rosalie continuou, aparentemente, sem notar o meu estado de quase choque. – Entenda que ele ainda pensa como um soldado, tudo o que ele queria era nos proteger, principalmente Alice. Eu, por outro lado, dizia para mim mesma que decidira te matar para manter nosso estilo de vida, quando na verdade eu estava era irritada com a sua estupidez em querer flertar com o perigo. Se era isso que você queria, era isso que daríamos a você. Depois que a raiva passou, foi fácil perceber que quem estava sendo idiota era eu. Se eu te matasse, não seria muito melhor do que Royce foi um dia.

Eu balancei a cabeça simplesmente confusa demais com aquela enxurrada de informações que Rosalie despejava sobre mi, sem compreender plenamente aonde ela de fato desejava chegar com toda aquela conversa.

- Eu... não... entendo... – balbuciei, inaudível senão para ouvidos de vampiros.

Rosalie desviou momentaneamente o rosto, passando as mãos pelos cachos loiros antes de me encarar com olhos dourados que pareciam reluzir em brasa.

- O que eu estou querendo dizer, Bella, te contando tudo isso é que, no fundo, eu nunca te odiei. E que nossa família não é tão perfeita quanto eu imagino que você pensa que somos. Todos nós cometemos e ainda vamos cometer erros. Não tem por que você se culpar pelo que aconteceu ontem. Especialmente considerando que você salvou a vida daquela garota, de tantas formas que você nem pode imaginar. Mesmo se eles não a matassem, o que pretendiam fazer com ela, caso conseguissem, seria como matá-la um pouco por dentro. Ela teve sorte por você estar por perto... gostaria que alguém tivesse feito o mesmo por mim...

Eu suspendi a minha respiração sem nem ao menos perceber, ao mesmo tempo em que Rosalie se aproximou de mim, me envolvendo em um abraço estranhamente desajeitado para alguém que tinha habilidades acrobáticas sobre-humanas.

- Obrigada por ter “me” salvado – ela murmurou.

Eu senti um alívio preencher cada uma das partículas do ser que eu me tornara. Se eu ainda tivesse lágrimas, com certeza estaria me debulhando nelas, mas como não mais as possuía, tudo que pude fazer foi abraçar Rosalie de volta.

Apenas me soltei dela quando a senti se afastar, olhando por cima do meu ombro. Virei o rosto notando que Alice estava nos observando com uma expressão divertida e ligeiramente sapeca.

- Não tem nenhum problema com o seu Porshe – Rosalie falou, dirigindo-se à nossa irmã vidente.

- Eu sei que não – Alice respondeu, deixando um enorme sorriso aflorar em seu rosto élfico – Eu vi que você ia se sentir mais a vontade conversando com a Bella aqui, Rose, assim como vi que vocês duas acabariam se tornando boas amigas depois dessa conversa.

Eu deixei que o sorriso dela se espelhasse em meu rosto, e pude notar que os lábios de minha outra irmã também se curvaram em alegria. Era reconfortante sentir, depois de tudo que Edward e eu discutimos e depois de tudo o que Rosalie dissera, que as coisas poderiam entrar novamente nos eixos, que, apesar da transgressão guiada pela dor da sede, nós poderíamos ser realmente felizes de agora em diante.

Entretanto, aquela paz durou menos do que eu desejei. O rosto de Alice se cobriu de preocupação e tensão, ela olhou para mim e para Rosalie momentaneamente paralisada.

- Edward acabou de me dizer que temos visitas. Eu não imaginei que viriam tão rápido.

- Quem está aqui? – eu perguntei sem esconder minha apreensão.

- Os Quileutes. Os Lobos. – ela respondeu, sua voz de soprano soando mais aguda que me costume.

Eu abaixei o rosto compreendendo o peso daquelas palavras. Eu havia quebrado o acordo na noite passada, não apenas uma vez, mas duas. Entrando no território deles, matando uma pessoa. Eu fui ingênua de imaginar que tais atos não me trariam mais nenhuma conseqüência.

Mais uma tempestade estava por vir.

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Nota da Dhara: Pessoal, peço desculpas pela demora na postagem. Eu fiquei encarregada de fazer os ajustes finais e colocar o capítulo no ar esta semana, mas acabei tendo uns probleminhas técnicos com a minha internet carroça no decorrer do dia...

Enfim, aqui está o 12°, ainda dentro do prazo estipulado, portanto guardem os tomates (ou o que quer que estejam querendo jogar em nós), ok?

Veremos vocês dentro de quinze dias, com mais New Dawn, neste mesmo bat-horário e no mesmo bat-canal!

Beijos e comentem, comentem, comentem!

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