Fic Especial: Mad Tea Party – Parte 1
Hoje começamos uma fic especial para comemorar os cincos anos de aniversário do Expresso Hogwarts.
Durante o próximo mês vocês se depararão com as aventuras de Mina no Mundo dos Sonhos, onde cada um dos personagens do Expresso vai encarnar um personagem de contos de fadas.
Quando lerem não pensem nas versões da Disney. Nossas fontes foram os contos de fadas originais. Por isso, para quem cresceu cantando com a Ariel, pode ser surpresa saber que no conto de Andersen a Sereiazinha morre e se transforma em espuma do mar, ou, que, em uma das versões da Cinderela (a chinesa) o sapatinho era de couro e não de cristal.
Contudo, não se trata de uma adaptação pura e simples, o que fizemos foi misturar os contos de fadas com as tramas do mundo de Harry Potter e as tramas do próprio Expresso.
Diferente das outras fics comemorativas, esta realmente faz parte da cronologia da trama do sétimo ano. Provavelmente se passa em algum ponto de dezembro ou janeiro.
Ela também é um modo de proporcionar a vocês previews de posts futuros do Expresso. Sim! No decorrer de todo Mad Tea Party vocês vão ser presenteados com trechinhos de coisas que já escrevemos e vão entrar na trama(só não vou dizer exatamente quando cada parte da história se encaixa. Hohohohohoho Daí é pedir demais e estragar o suspense)
Enfim, aqui começa a Nossa Festa Maluca do Chá. Esperamos que gostem comentem.
Abraços, Meri
ps- Este é apenas uma parte dos presentes que vamos ter no decorrer do nosso mês de festança. Aguardem que tenho certeza que vão adorar o que vem por aí.

Era uma sala cheia de espelhos. Havia espelhos nas paredes, espelhos no teto e, até mesmo no chão de azulejos, algumas pedras tinham sido removidas para que espelhos fossem colocados no lugar. Espelhos quadrados, espelhos ovais, pequenos e grandes, do tipo que a faziam parecer mais gorda, mais alta, mais magra, pequena, até o ponto em que sua imagem se encontrasse completamente distorcida.
Mina bufou com a boca fechada, fazendo um barulho estranho com o nariz.
- O que cargas d'água está acontecendo? E aonde diabos eu vim parar?
Ela se aproximou de um dos espelhos, observando-se, enquanto tentava compreender exatamente o que estava acontecendo. Até um minuto atrás ela estava no quarto de brincar de Kieran, lendo um dos livros da biblioteca do avô, enquanto esperava o irmão chegar do passeio que fora fazer com Maggie McArt em Prydery. Agora ela estava naquele lugar completamente estranho, usando sapatos boneca, meias brancas até as canelas, um vestido azul rodado infantil cheio de rendas e babados e, para completar, um enorme laço da mesma cor no alto da cabeça.
- Olá, Alice. - uma voz soou maliciosa não muito longe dela.
Mina prontamente se virou, reconhecendo a voz de imediato. E lá estava ele. Os olhos azuis brilhando, divertidos, o sorriso de orelha a orelha "trinta-e-dois-dentes-comercial-de-pasta-de-dente"... Ela o reconheceria em qualquer lugar. Obviamente, contudo, ela não esperava encontrá-lo com uma roupa listrada de rosa e vermelho, nem com patas, rabinho e - absolutamente - nunca com um par de orelhas de gato sobre os cabelos negros.
Ela cruzou os braços.
- Lusmore. Pode-se saber o que você está aprontando agora?
- Eu, Alice? Eu não estou aprontando nada... - ele desapareceu como se tivesse sido engolido pelo ar, apenas seu sorriso permanecendo, uma boca solta no nada, rindo - Você não virá para o chá? Estamos esperando você...
A essa altura, ela não tinha muita certeza se estava furiosa ou aterrorizada. O QUE SIGNIFICAVA AQUELA BOCA NO MEIO DO NADA?
- Nhá!!! Mimi, tá! Tá, lapel!
Ela se virou de novo, reconhecendo mais uma vez a voz que acabara de se pronunciar, em algum ponto não muito longe de seus pés. Lá estava Kieran, sentado no chão, usando um macacãozinho branco e felpudo, combinando perfeitamente com suas belas, fofas e ligeiramente rosadas orelhas de coelho.
- Ok, eu não sei o que você está planejando, Lusmore, mas, definitivamente, fazer crescer as orelhas do meu irmão não foi a melhor das suas idéias. Quando eu colocar minhas mãos em você... você estará tão morto...
Enquanto dizia isso, ela se encaminhava para o irmão, disposta a resolver aquela maluquice. Para sua surpresa, contudo, Kieran deu um pulo para frente antes que ela pudesse alcançá-lo, voltando a cabeça para ela e abrindo um sorriso não muito diferente do Lusmore e, não pela primeira vez, Mina pensou que, no futuro, teria muitos problemas com aquele sorriso e os corações partidos que Kieran deixaria pelo caminho...
Mais uma vez ela estendeu os braços. Mais uma vez ele escapou. De pulo em pulo, sem perceber, eles acabaram deixando a sala dos espelhos, passando por uma porta de madeira trabalhada, cheia de arabescos e altos relevos.
Quando Mina passou pela porta, ela se fechou atrás da garota com um estrondo, mergulhando tudo na mais completa escuridão... uma escuridão tão negra e tão densa que se você passasse uma faca por ela, conseguira cortá-la como pão quente para passar manteiga.
- Meus pensamentos não parecem estar fazendo muito sentido também. - ela murmurou para si mesma quando a idéia de uma fatia de escuridão com manteiga lhe ocorreu - Será que colocaram alguma coisa estranha para eu beber? Se eu pegar quem está por trás disso...
Com cuidado, ela continuou caminhando, tentando tatear o caminho a sua frente, sem sucesso. Andava com as mãos estendidas para frente, mas, onde quer que ela estivesse agora, parecia ser um lugar bem amplo.
- Kieran? - ela chamou, incerta - Kieran, você está me ouvindo?
Não houve qualquer resposta. Ela estava começando a ficar preocupada. Mas então, alguma coisa mudou em sua percepção. Mais exatamente, alguma coisa sob seus pés. Aliás, mais exatamente ainda, alguma coisa que não estava sob seus pés.
Ela acabara de alcançar um graaaaande vazio.
- Oh-oh... - foi a última coisa que ela disse, antes de começar a cair - AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!!!!!!
*Tchibum*
continua
Fic Especial: Mad Tea Party – Parte 2

Mina sentiu a água penetrar por cada orifício, e poro de seu corpo. Seus ouvidos pareciam que explodiriam a qualquer instante com a pressão, seu nariz, sua garganta, seus olhos... Tudo se encharcava, inchava, doía enquanto ela afundava cada vez mais e mais até alcançar o fundo de... qualquer que fosse o lugar onde estava.
A sensação, contudo, não durou muito tempo. Embora não tivesse qualquer dúvida de que estava dentro d'água, ela conseguia respirar. Não apenas conseguia respirar. Ela também conseguia se mover, caminhar com desenvoltura, como se estivesse em terra firme.
- Ótimo. Eu morri e agora me tornei um ser marinho. - ela resmungou para si mesma, fazendo algumas bolhas escaparem de sua boca.
Em cima dela, alguém riu. Mina piscou os olhos, confusa, antes de levantar a cabeça, enquanto tentava segurar a saia do vestido que, com as correntes que passavam de um lado para o outro, insistiam em querer levantar.
Um cardume de peixes dourados e vermelhos passou rápido por ela, executando manobras totalmente radicais, antes de se afastarem. Muito longe, ela percebeu a superfície da água brilhar, um sol distorcido surgindo por entre as ondas. Pelo gosto salgado, ela só podia adivinhar que caíra no mar.
O que um mar estava fazendo debaixo de um buraco que ficava numa sala escura junto a um lugar maluco cheio de espelhos? E de onde viera o sol? Ela tinha absoluta certeza enquanto caía que não vira sol algum. Na verdade, ela não vira nada, já que com a escuridão, não havia muito que ver.
A coisa estava piorando a cada minuto que passava.
Mais uma vez, alguém riu, dessa vez às suas costas. Mina girou nos calcanhares. Não havia nada lá, contudo. Ela suspirou. Pelo andar da carruagem, ela certamente estava tendo algum delírio e, quando voltasse ao mundo real, perceberia que estava presa numa sala alcochoada, usando uma camisa de força. Isso, é claro, se lhe restasse alguma sanidade para perceber as coisas ao seu redor.
Ela abaixou a cabeça, os ombros caídos, numa postura de completa desolação. Foi quando ela percebeu um ligeiro movimento à sua frente. Mina ergueu os olhos para então se deparar com a face invertida de Samantha Blair a sua frente, sorrindo, divertida, os cabelos flutuando ao seu redor como algas marinhas.
Os olhos dela subiram mais um pouco para o busto coberto por conchas brancas e peroladas e, por fim, para uma longa, brilhante, e escamosa cauda de peixe.
- Me internem. - foi tudo o que a moça conseguiu dizer, surpresa demais para fazer sentido até mesmo para si própria.
Sam riu de novo.
- Você é engraçada.
- E você é um peixe. - Mina respondeu.
- Uma sereia, na verdade. - a "Sam-peixe" respondeu, dando uma volta completa pelo próprio corpo, os cabelos longos movimentando-se graciosamente, como se tivessem vida própria.
Mina suspirou.
- Hum... Escute, Sam, você não teria visto o Kieran por aí, não é? Eu já mostrei fotos dele, você sabe como ele é, será que não poderia me ajudar a procurá-lo? Ele... hum... está usando orelhas de coelho no momento.
Ela riu, deliciada.
- Você é engraçada. Todo mundo lá em cima é como você?
- Não, só os loucos e psicóticos de toda espécie. - Mina respondeu - Mas, sinceramente...
Os olhos de Sam tornaram-se sombrios de repente. A outra garota estranhou, seguindo então o olhar dela. Lá em cima, muito além da superfície, o sol tinha desaparecido. Uma tempestade estava se formando.
- Desculpe, eu preciso ir. - a sereia disse, ao mesmo tempo em que observava determinada as águas que começavam a se tornar revoltas.
- Mas e o meu irmão?
- Bem, eu não vi nenhum coelhinho por aqui. Aliás, o que é um coelho? - ela perguntou, antes de menear a cabeça - Não importa agora. Eu preciso ir. O príncipe...
- Que prín... - Mina não teve tempo de terminar a frase, por Sam acabara de partir, rápida, deixando-a sozinha - Deixa pra lá, eu... - dessa vez, foi ela mesma quem se interrompeu, piscando os olhos - Príncipe? Sereia? Tempestade?
Aos poucos, as peças começaram a cair no lugar. O que quer que estivesse acontecendo, naquele lugar, sua amiga Sam era ninguém mais ninguém menos que a Pequena Sereia. E, se ela era a Pequena Sereia prestes a ir salvar o Príncipe e se apaixonar por ele...
- Ah, não. Não mesmo. Nem pensar. Eu NÃO vou deixar minha amiga se transformar em espuma por causa de um príncipe idiota!
Com isso, ela pulou pra cima, começando a nadar, sentindo a resistência da água que não parecia querer permitir que ela avançasse. Mas o mar ainda não conhecera a teimosia de Mina. Decididamente, não seriam decalhões de litros de água que a impediriam de salvar Sam.
Enquanto isso, no mundo "real" - se é que existe algo real e não um supercomputador que nos faz pensar que vivemos enquanto se alimenta de nossas ondas cerebrais até que tomemos uma pílula azul ou vermelha graças a um carinha de óculos e careca que aparece do nada porque você é o "Escolhido"...
Kieran engatinhou até junto do colchão, sob as vistas de Holly, que sorria, parecendo muito satisfeita. Tinha acabado de chegar da vila, para onde fora levado de manhã por Maggie McArt para poder se "sociabilizar com outras crianças" enquanto a irmã estava fora.
- Eu trarei seu almoço daqui a pouco, Kieran. Fique de olho nela por enquanto, sim?
O bebê sentou-se desajeitadamente no chão, apoiando as mãozinhas para poder se suster, encarando a governanta com seus grandes olhos azuis.
- Mimi uia.
A mulher sorriu, fechando a porta, deixando os irmãos sozinhos. Kieran voltou a se virar para a irmã, que se encontrava no momento profundamente adormecida, deitada no colchão que ele costumava utilizar para tirar suas sonecas vespertinas.
Considerando que o colchão fora feito sob medida para ele, mais da metade do corpo da menina estava no chão. Ela estava deitada de lado, as duas mãos postas debaixo do rosto, onde uma marca vermelha já podia ser vista. Não muito longe estava um livro aberto numa página onde uma bela ilustração mostrava uma sereia sentada sobre um rochedo, penteando os longos cabelos.
- Mia? - ele perguntou, estendendo um dedo, tocando-o na ponta do nariz da irmã.
Mina apenas soltou um ligeiro suspiro em resposta.
continua
Fic Especial: Mad Tea Party – Parte 3
Voltando para onde estávamos anteriormente...
Finalmente ela emergiu. A chuva caía, impiedosa. Havia raios e trovões, clarões fantasmagóricos em meio às nuvens pesadas e cinzentas. Não muito longe, ela divisou a imagem de um navio.
Mina ofegou, sentindo o peso do vestido molhado querendo puxá-la de volta para o fundo, enquanto voltava a nadar, os braços profundamente doloridos com todo o esforço. Precisava chegar até o navio antes de Sam e, se possível, deixar o tal príncipe se afogar e, assim nunca permitir que os dois se conhecessem. Se bem que... será que eles já não se conheciam?
Ela não se lembrava muito bem dos detalhes da história. Bem, ou afogava o príncipe, ou o forçava a se apaixonar por Sam. Isso, claro, se não se afogasse primeiro.
A garota só percebeu tarde demais, contudo, que estava se arrastando direto para um redemoinho...
A corrente a puxou, violenta. Desesperada, Mina ainda tentou nadar para fora, conjurando toda a força que ainda possuía para tanto, a voz presa na garganta, incapaz de gritar por socorro. Não foi o suficiente.
O laço azul foi a última coisa que desapareceu antes de ela ser engolida pelo olho do redemoinho. Mina esperou sufocar, afogar, perder a consciência. Mas, para sua surpresa, ela percebeu que estava novamente caindo no vazio. E que não havia água alguma ao seu redor.
- Ótimo. Escapo de morrer afogada para morrer com a coluna quebrada. - ela observou para si mesma, cansada demais para gritar por socorro, de maneira "otimista".
Ela não precisou se preocupar muito com isso, dessa vez. Aos poucos, ela começou a desacelerar, até pousar suavemente no chão, em pé, sem qualquer arranhão.
- E onde eu estou agora? - ela se perguntou, erguendo o braço para tirar uma mecha que caíra sobre seus olhos.
Para sua surpresa, contudo, seu corpo não se mexeu.
A voz da mulher na cozinha era ouvida em toda a casa. Sorte, para ela, era que lá só tinha mais um morador, que naquele momento não estava.
Com o fone do seu mp4 no ouvido, Sam cantava enquanto cozinhava. Uma vez ela vira um filme onde os sentimentos de que cozinhava ia para o alimento e concordou com aquilo. Já gostava de se divertir cozinhando, só deram um motivo.
- Fazer um brownie de chocolate especial para meu amor que vai chegar... – Ela cantarolou enquanto colocava os ingredientes na batedeira
Volta e meia Sam parava de cantar e sorria ao olhar em volta. A animação da morena era grande, há tempos não via o namorado e estar ali fazia seu coração sorrir, junto com seus lábios, claro. O casal ficou mais de um mês sem se ver. O que eles sabiam que acabaria acontecendo, ela morando na Inglaterra e ele em outro país.
Ela tinha ainda que esperar acabar seus estudos antes de pensar em outra coisa e na verdade os dois não tinham tanta preocupação com o futuro. Sempre aproveitavam o máximo o tempo que tinham juntos.
Ao abrir o armário procurando onde estava a forma para colocar a massa, Sam percebeu que se sentia em casa na casa dele. Ela lembrou do seu passado, onde achava que nunca amaria novamente. Quando ela não queria saber de ninguém e ele lutou por ela, conquistando totalmente seu coração.
Um vulto parou na porta da cozinha, só que ao ver sua namorada cantando tão animada ele parou para admirá-la. Não quis interromper o show que acontecia somente para ele. Ele recostou a cabeça no batente da porta admirando aquela mulher que roubara seu amor de um modo que ele nunca achou possível.
Sam colocou a forma no forno e pegou a colher de pau para raspar o resto da massa que ficara. Na primeira colherada ela sentiu duas mãos possessivas a abraçarem pela cintura e ouviu a voz do seu namorado no seu ouvido.
- Samantha com chocolate, meu prato favorito...
Enquanto a cena se desenrolava a sua frente, ela podia apenas observar, incapaz de se mexer. Mas então, naquele preciso momento, ela abaixou os olhos, percebendo, pela terceira vez desde que tudo aquilo começara que não havia chão sob seus pés.
Mina suspirou, resignada.
- E lá vamos nós de novo...
continua
Extra

Clique para ver ampliada
Fic Especial: Mad Tea Party – Parte 4

Dessa vez, quando a queda se findou, ela estava aos pés de uma torre toda feita de pedra, coberta de hera, com arbustos crescendo por todo o redor. A garota levantou a cabeça, surpreendendo-se ao perceber a altura da torre.
- Mas não há nenhuma porta... Nem janelas... Por que alguém construiria algo assim?
Bem, uma torre sem entradas não era exatamente algo em que estivesse interessada. Ainda tinha que encontrar Kieran e aquele lugar não lhe parecia exatamente promissor, afinal, ele não tinha como entrar ali.
Tampouco ela.
Assim, Mina deu as costas à construção, observando a floresta que a cercava. Se Kieran era um coelho, talvez ele gostasse de florestas, não?
Foi nesse momento que ela ouviu uma voz melodiosa e distante cantando alguma coisa em uma língua que ela tinha absoluta certeza não ser inglês. Ela olhou por todos os lados, perguntando-se onde a dona da voz - afinal, ela era feminina - poderia estar. Ao final das contas, toda a ajuda era bem-vinda.
- Olá?! Tem alguém aí?!
A resposta veio às suas costas. Exatamente como do gato-Lusmore, do coelho-Kieran e da sereia-Sam. Se bem que Sam a surpreendera não exatamente pelas costas, mas por cima...
Mina meneou a cabeça, espantando esses pensamentos enquanto se virava para então se deparar com um laço cor-de-rosa na ponta de uma trança dourada. Ela ergueu os olhos. Uma trança dourada que tinha seu começo em algum ponto perdido muito além de onde sua vista alcançava.
- Ótimo. Rapunzel. - ela revirou os olhos - Era tudo o que eu precisava agora. Ter de praticar alpinismo.
Ela não tinha muita escolha no momento. Assim, Mina segurou a trança, puxando-a um pouco para baixo para ter certeza de que era segura.
- Eu só espero que a Rapunzel lá em cima não tenha muita dor de cabeça. Se bem que... - ela continuou conversando consigo mesma, enquanto apoiava os pés na torre, começando a subir - Ela recebe o príncipe desse jeito. Ele deve ter, no mínimo, o dobro do meu peso, já que tem de ser forte e poderoso. Coloquemos uns oitenta quilos por baixo. Mas ele é um príncipe, isso é um conto de fadas, então, ele deve vir visitá-la todo paramentado. O que significa que temos de somar ao peso dele, o peso de uma armadura completa. Quanto ela agüenta então? Cem quilos? Cara, como é que ela não cai com o peso? Será que ela tem de se amarrar no pé da cama? E como os cabelos não caem? Ela deve usar um xampu fortalecedor para fios quebradiços.
Enquanto se perdia entre conjecturas sem muito sentido, Mina ia subindo, subindo, subindo, subindo... até perceber uma janela. E, na janela, um rosto que lhe era certamente conhecido.
- Selune? - ela perguntou, quando alcançou o parapeito da janela.
A francesinha estreitou ligeiramente os olhos claros.
- Quem é você? Eu pensei que era a bruxa...
Mina mordeu a língua para não dizer que, sim, ela era uma bruxa, mas não exatamente a que era esperada ali.
- Escute... Você viu algum bebê coelho por aqui? - ela decidiu ir direto ao assunto, antes que mais alguma coisa sem noção acontecesse.
Selune meneou a cabeça.
- Non... Mas... Você gostaria de tomar chá conosco? - ela perguntou apontando para uma mesinha mais à frente, onde havia um aparelho de chá de porcelana e vários gatinhos tomando leite em pires.
Mina sorriu ao reconhecê-los. Lucky, Freyr, e os quatro filhotes dos quais era avó.
- Tudo bem, acho que posso tomar um chá com você sim. - ela respondeu, aproximando-se de Freyr, fazendo-lhe um carinho na cabeça.
Numa galáxia não muito distante...
Kieran mamou com gosto, enquanto Holly o observava, sorrindo. Mina continuava dormindo, totalmente alheia ao resto do mundo. Mas então, lá de fora, veio um altear de vozes e a governanta desfez o sorriso.
- Eu volto logo, Kieran. - ela murmurou, seguindo para a porta.
Assim que se viu sozinho, o menino largou a mamadeira, piscando os olhos, confuso. Então, de novo, ele se voltou para a irmã. Ela também precisava comer... Mas ele não queria acordá-la.
Isso só lhe deixava uma alternativa...
Engatinhando, ele se aproximou da irmã, até deixar-se cair sentado exatamente ao lado dela. E então, sem maiores preparações, ele enfiou a mamadeira que segurava entre os lábios entreabertos de Mina.
continua
Fic Especial: Mad Tea Party – Parte 5
Numa galáxia não muito distante...
Kieran mamou com gosto, enquanto Holly o observava, sorrindo. Mina continuava dormindo, totalmente alheia ao resto do mundo. Mas então, lá de fora, veio um altear de vozes e a governanta desfez o sorriso.
- Eu volto logo, Kieran. - ela murmurou, seguindo para a porta.
Assim que se viu sozinho, o menino largou a mamadeira, piscando os olhos, confuso. Então, de novo, ele se voltou para a irmã. Ela também precisava comer... Mas ele não queria acordá-la.
Isso só lhe deixava uma alternativa...
Engatinhando, ele se aproximou da irmã, até deixar-se cair sentado exatamente ao lado dela. E então, sem maiores preparações, ele enfiou a mamadeira que segurava entre os lábios entreabertos de Mina.
Voltando aos braços de Morfeu...
Engraçado... ela já experimentara o chá de canela, de erva-doce, de capim santo e o chá verde... Mas todos tinham o mesmo gosto.
Será que Selune estava colocando leite em sua xícara em vez de chá?
A loirinha sorriu docemente enquanto servia mais uma xícara para a recém-chegada. Mas então, o bule foi ao chão e ela soltou um esgar de dor, enquanto seus olhos demonstravam claro pavor.
- A bruxa! A bruxa! Se ela encontrá-la aqui, vai matá-la! E me matará aussi!
Mina se levantou de um pulo.
- Nós temos que impedi-la então.
- Non! Non, se enfie debaixo da cama! Rapidement, se esconda, elle...
Selune ia empurrando-a enquanto falava, a cabeça distendida, e, a cada minuto, o sotaque se tornava mais pronunciado, até o ponto em que as palavras dela se tornassem incompreensíveis.
Assim é que Mina se viu enfiada debaixo da cama, seu campo de visão sendo apenas aquele que o vão da colcha permitia, ou seja, do chão até o meio da canelas de Selune. Ou Rapunzel, a depender do ponto de vista.
Aquilo estava indo de mal a pior... E desde quando ela tinha de se esconder debaixo da cama?
Freyr veio bamboleando, enfiando-se também debaixo da cama, até parar exatamente na frente de sua dona. Mina piscou os olhos, enquanto a gata balançava o rabo, diretamente sobre seu rosto.
- Não, Freyr! Saia! Eu... - ela tentou espantar a gata, sussurrando num tom urgente.
Freyr não fez menção de se mover, contudo. Mina sentiu a garganta começar a coçar, o nariz tremendo. Por debaixo da colcha, ela percebeu um par de sapatos negros entrar em seu parco campo de visão.
Ela ia espirrar... Se Freyr não saísse logo dali, ela ia espirrar... Mas não podia. Não podia...
Tão preocupada estava em tentar afastar Freyr silenciosamente e em segurar o espirro, que mal notou o que se passava entre Rapunzel e a bruxa. O rabo de Freyr encostou em seu rosto, logo abaixo do nariz.
Mina não conseguiu controlar mais.
*ATCHIM!*
continua
Fic Especial: Mad Tea Party – Parte 6
Num instante, a cama desapareceu de cima dela, expondo-a completamente. Mina arregalou os olhos ao dar de cara com a bruxa: Dolores Umbridge.
Selune tinha toda razão de estar com medo.
- Você! - a mulher exclamou com uma vozinha fina e estridente - Eu vou...
Mina se levantou rápida, sentindo o nariz coçar de novo.
- Atchim!
- Eu vou matar você!
- Atchim!
- Como se atreve a vir aqui em cima!
- Atchim!
- Pare aí! Pare de correr!
- Atchim!
Umbridge finalmente perdeu a paciência, desistindo de correr feito barata tonta atrás de uma espirrante Alice. Tirando a varinha das vestes, ela apontou para a garota.
E Mina se viu jogada para fora da janela. flutuando por um mísero instante no ar. A domadora suspirou, refletindo que, de alguma forma, aquilo a fazia se lembrar de um Coiote e de ridículas armadilhas que tinham um selo escrito "ACME".
- De novo não... - ela murmurou.
E, de novo, ela se viu em queda livre, ao mesmo tempo em que a realidade ao redor dela parecia se distorcer, a torre, o céu azul e a floresta desaparecendo, para dar lugar a um jardim com um caramanchão, onde um homem conversava com Selune Priout. Um homem que lembrava bastante a própria francesinha...
Sebastian Priout ergueu ambas as mãos e desatou o laço que atava a fita ao cabelo da filha, puxando-a lentamente. Em seguida, colocou a mão no bolso do casaco e, ao tirá-la, um brilho cintilou delicado entre seus dedos fortes.
- Um anel de diamante?
- Um solitário. – ele respondeu quase sem olhá-la, tão atento estava em amarrar o anel na fita. – Não parece um bom nome para um anel, não é mesmo?
- Não muito. – ela viu que, como ela, ele ostentava um sorriso um pouco triste ante a cena. O que vai fazer com ele, papa?
- É hora de guardar o passado, filha. Hoje eu vim pelo que há de vir.
Sebastian tomou a mão da filha e caminhou de volta ao caramanchão. Ao alcançarem o último degrau da escada ele parou e olhou-a nos olhos.
- Espere aqui.
Ele caminhou em direção ao fundo do espaço circular, onde, rodeadas por velas flutuantes como as que enfeitavam o teto do salão de Hogwarts durante as festas, erguiam-se três placas de metal da altura de uma criança de cinco anos.
Selune pôde perceber inscrições magicamente gravadas que sabia conhecer, mas da distância em que se encontrava, não conseguia lê-las. Quando fez menção de aproximar-se mais, Sebastian ergueu os olhos para ela:
- Dos que se foram, ao que virão. É o que está escrito aqui. Sobre o que se encontra nesse lugar não posso lhe dizer muito. E como percebe, também não lhe é permitido entrar.
Ele ajoelhou-se diante da primeira placa e, calmamente depositou o amuleto sobre um livro ricamente encadernado, velho como o início dos tempos.
- O Áureos... – sussurrou mais para si que para o Pai, que assentiu calmamente.
- Nem sempre é tão ruim quanto parece, papillon. Agora é somente um livro velho. Um livro de famílias.
- Promete.
- Prometo. Mas nesses tempos, por mais que se deseje ardentemente, nem sempre é possível manter promessas. Você seria capaz de perdoar algo assim, petite?
Por todo o tempo que durara o... o que quer que fosse aquilo, Mina permanecera presa, como da vez anterior, com Sam. Isso lhe dera tempo para refletir sobre algumas coisas, como por exemplo...
1. A pessoa que estava por trás de tudo aquilo tinha um senso de humor estranho e pouca ou nenhuma criatividade, visto que toda vez a fazia cair da mesma maneira em um vazio sem fim para passar à próxima cena.
2. Tal pessoa também tinha uma espécie de obsessão por desenhos animados como os que ela estudara nas aulas de Estudo dos Trouxas e contos de fadas em geral.
3. A dita cuja também não ia muito com a sua cara, visto que já tentara afogá-la, quebrar seu pescoço, colocá-la frente a frente com a Grande Sapa e ainda desaparecera com seu irmão.
E agora, para variar um pouco seu dia, ela estava novamente caindo, sem qualquer aviso, o chão tendo simplesmente aberto sob seus pés e engolido-a, como se ela fosse algum tipo de alimento.
Aquilo a fazia se lembrar de Sir Úrico...
continua
Extra

Clique para ver ampliada
Fic Especial: Mad Tea Party – Parte 7

- Sério, nós precisamos dar uma revisada nos seus conceitos de passagem de cenas. - ela observou para o nada e, obviamente, não recebendo qualquer resposta - Essa coisa de cair no vazio existencial da sua mente insana, seja quem você for, está ficando batida. Você precisa manter sua mente aberta para novas possibilidades.
Com isso, Mina se contorceu até conseguir alcançar uma posição horizontal, começando então a balançar os braços como se estivesse nadando. O vestido atrapalhava um pouco daquele jeito - de outra forma, ela talvez pudesse usá-lo como uma pára-quedas mas, como não sabia quem poderia estar lá embaixo quando chegasse a... algum lugar, preferia não se arriscar a ficar com as anáguas de fora.
Aos poucos, a escuridão foi dando lugar a um céu azul e sem nuvens e a uma grande cobertura verde no chão. A gravidade, que até então parecera se esquecer de Mina (ou, eventualmente, ela se esquecera da gravidade...), subitamente, decidiu que não estava gostando muito daquele peixe fora d'água tentando fazê-la funcionar contra sua natureza.
Mina desabou entre as árvores, sentindo os galhos cortarem seus braços e o rosto.
*Ugh*
Um tronco de pinheiro.
*Argh*
Um galho estrategicamente colocado na trajetória de suas costelas.
*Afff*
Algumas folhas engolidas. E ela nem gostava de verduras...
*Thud*
O chão enfim. Ela se sentou sobre a grama, sentindo a cabeça rodar. Pela maneira como ela caíra, deveria, no mínimo, ter quebrado o pescoço. Engraçado é que, apesar dos arranhões serem visíveis e ela ter tido a sensação de dor... Os machucados não pareciam muito reais.
Não tinha sido à toa que a domadora ganhara certa fama de Sherlock Holmes no ano anterior, quando das investigações dos comensais mirins. As engrenagens e roldanas do cérebro dela começaram a funcionar, juntando os fatos que tinham ocorrido até então.
- Eu estou sonhando.
Essa frase não foi dita em tom de quem pede "por favor, me dê um beliscão" ou de quem percebe que "isso é impossível, irreal, só pode ser coisa da minha cabeça, eu tenho de ser internada o mais rápido possível antes que eu comece a representar um perigo para a espécie humana".
Na verdade, ela significava exatamente aquilo que significava. Mina agora se lembrava de ter se deitado "uns minutinhos" para "tirar um pequeno cochilo" no colchonete em que Kieran costumava tirar sua soneca. Estava com um livro de contos de fadas, às voltas com suas pesquisas para o que escrever a seguir.
Em resumo: a mente doentia que insistia em fazê-la cair no vazio era a sua própria. E ela precisava urgentemente de um analista.
Mas o que vira depois de Sam-sereia e Selune-rapunzel não pareciam fazer muito sentido para sua teoria. Aqueles não eram seus sonhos. Eram os sonhos das duas meninas. O que significava, por fim, que, de alguma maneira, ela estava visitando os amigos em sonho.
- Eu já disse que preciso de um analista? - ela perguntou em voz alta, enquanto tentava se levantar apoiada a uma das árvores do bosque.
Pela estrada à fora, eu vou bem sozinha...
Ela estreitou os olhos. Aquela voz lhe era conhecida...
Levar esses doces para a vovozinha...
Aparentemente, ela estava agora num terreno mais seguro... E mais conhecido também. Na verdade, pelo cheio de bolo e chocolate que chegava aos seus sentidos, ela tinha absoluta certeza de que, finalmente, alguma coisa boa aconteceria.
E se tiver sorte, o lobo bonzinho...
Sim, a Chapeuzinho Vermelho tinha o lobo, mas havia também o lenhador, então não havia por que... Hum... Ela ouvira a expressão "lobo bonzinho"?
Virá para o chá para comer docinhos...
- Ok. - Mina respirou fundo - Isso é coisa da minha cabeça. Eu não ouvi ela dizer que vai tomar chá com o lobo.
Nesse instante, cruzando uma curva no caminho ladeado de hortências e margaridas, vinha Raven, segurando uma cesta e usando uma graciosa capinha vermelha. Os cruzamentos necessários foram feitos na mente da domadora.
- Ah, claro. - ela suspirou - Snape. Mas não seria mais adequado então se em vez de lobo fosse um morcego? O problema é que Batman não é um conto de fadas, ou então...
- Ei, você! - Raven-chapeuzinho vermelho a chamou - O que está fazendo parada no meio da estrada? Você é uma estranha e eu não devo falar com você, mas se importa de sair da frente para que eu possa continuar?
continua
Fic Especial: Mad Tea Party – Parte 8
O tom dela era curioso e gentil. Mina deu um meio sorriso.
- Desculpe, eu não queria ficar no seu caminho. Meu nome é Mina. - ela pareceu pensar por alguns instantes - Você não teria visto um bebê coelho por aí, não é?
Raven meneou a cabeça.
- Um bebê coelho? Você diz, um filhote de coelho, não?
- Não, eu... - a menina suspirou - Esquece... Você está indo visitar sua avó?
Chapeuzinho Vermelho assentiu alegremente. Mina mordeu ligeiramente os lábios, pensando se seria seguro perguntar a próxima questão que dançava em sua mente.
- Hum... O lobo "bonzinho" vai estar lá também?
- Ele é um lobo bonzinho, você não precisa ficar com medo. - Raven afirmou - Você quer ir comigo para conhecê-lo?
- Eu pensei que você não pudesse conversar com estranhos. - Mina observou.
A outra fez um gesto de descaso com a mão livre.
- Mas você não é estranha. Você é a Mina, não é? Você acabou de se apresentar, logo, não é estranha. Além disso, talvez vovó ou o Lobo saibam sobre seu filhote de coelho.
Mina sentiu o coração perder uma batida.
- Hum... A dieta do lobo bonzinho inclui filhotes de coelho?
Raven não a estava ouvindo mais, porém. Os olhos da Chapeuzinho estavam agora fixos em um ponto um pouco mais além, grandes e pensativos. Mina se virou, tentando enxergar o que a amiga observava com tanto interesse.
- Cogumelos? - ela perguntou.
Raven sorriu.
- Você sabia que todos os cogumelos são comestíveis?
Mina arqueou uma sobrancelha.
- Sério?
A morena assentiu, abaixando-se junto aos cogumelos, aos pés de uma árvore de tronco oco e raízes à mostra.
- Alguns apenas uma vez. - ela completou, sorrindo agora um tanto... malignamente.
- Por favor, me diga que esse diálogo não nasceu da minha cabeça. - Mina pediu, olhando para o céu; ou, para ser absolutamente verdadeiro, para as pequenas nesgas de céu que se tornavam visíveis por entre a cobertura vegetal da floresta.
- Esses cogumelos são extremamente venenosos. - Raven observou - Eles serviriam muito bem para a poção em que eu estou trabalhando. Algo para combater pragas.
Ok, talvez ainda houvesse alguma esperança e ela não precisasse se internar. Raven estava fazendo algum sentido, logo, se ela era a responsável pelos diálogos do sonho, ela não...
Peraí... Aquilo estava começando a se tornar realmente confuso...
- Que tipo de pragas? - ela perguntou, tentando encontrar algum tópico de conversa para distraí-la de seus pensamentos desconexos.
Mais uma vez, Chapeuzinho Vermelho sorriu de forma... sinistra.
- Lesmas.
- Aonde é que eu vim me meter? - Mina perguntou baixinho para si mesma - Ela está planejando matar o professor Slughorne. E eu juro que não tenho nada a ver com isso.
Aquilo era realmente perfeito. Ela estava perdida no meio de uma floresta com uma Chapeuzinho Vermelho psicótica. Tudo bem que ela era a Raven, mas...
O som de um bater de asas veio a interromper seus pensamentos. Raven, por sua vez, que já tinha terminado de encher a cesta de doces com cogumelos (Mina esperava sinceramente que os doces não se contaminassem com o veneno que estava por cima deles), levantou-se olhando para cima cheia de expectativa.
- É o Lobo!
- Hã? - Mina virou-se para ela, perguntando-se se talvez a amiga também não precisasse de um analista. Ao final das contas, aquele não deixava de ser o sonho da própria Raven.
Raven voltou-se para ela, sorrindo de orelha a orelha.
- O Lobo é o guardião da floresta, protetor da noite, O LOBO MORCEGO! E também, é claro, o Senhor do Meu Coração.
continua
Fic Especial: Mad Tea Party – Parte 9
- Onde estão as janelas quando eu preciso delas? - Mina se perguntou - Eu não quero ter essa imagem mental. Por favor, poupem-me dessa imagem mental. Eu DEFINITIVAMENTE não quero ver Snape vestido de lobo E morcego ao mesmo tempo. É demais para a minha sanidade.
Se soubesse o que a esperava a seguir, talvez ela tivesse preferido ficar calada. Talvez ela tivesse preferido ver Snape-Lobo-Morcego dançando a rumba.
Ou talvez não...
No chão, junto aos pés de Mina, as raízes da árvore junto a qual Raven recolhera os cogumelos começaram a se mexer. Outras raízes e galhos começaram a serpentear do oco que havia no tronco, um buraco do exato tamanho de Mina.
Vocês já ouviram dizer que não existem coincidências nesse mundo, mas apenas o inevitável?
Mina sentiu algo se enrolando em sua canela, algo frio, pegajoso e que não deveria estar no lugar onde estava. Devagar, como se temesse ver o que havia ali para ver, a garota abaixou a cabeça.
A essa altura, outros galhos já começavam a alcançá-la, subindo por sua perna, prendendo-a firmemente antes que ela tivesse presença de espírito suficiente para tentar se debater.
- Hum... Raven?
A morena não a ouviu, contudo. Na verdade, quando Mina voltou a olhar para o lugar onde Chapeuzinho Vermelho deveria estar, acabou por encontrar... absolutamente nada.
Um dos galhos lhe passou uma rasteira e ela caiu no chão, de barriga para cima, enquanto mais e mais galhos subiam, começando a enrolar seus braços, formando quase um novelo com ela no meio, antes de começar a puxá-la na direção do oco, que parecia agora rir.
- Hum... Hei... Er... - Mina tentava se soltar, mas qualquer tipo de movimento estava difícil no momento - Será que podemos rever as possibilidades? Eu retiro o que eu disse antes. Eu prefiro quedas livres no vazio.
Isso não diminuiu o aperto das raízes em seu corpo, tampouco fez com que as mesmas parassem de arrastá-la para o buraco.
- É sério, eu retiro o que eu disse! Se bem que... ei! O sonho é meu! Eu ordeno que me soltem! Eu é quem mando aqui! Eu não quero mais ser uma pessoa criativa! Quedas livres! Eu prefiro quedas livres! EU PRE-hum-hum-HUMMMMMMMMMMMMMM!!!!
Cansada de ouvir os resmungos da jovem MacFusty, um dos galhos alcançou-lhe a boca, impedindo-a de falar. E assim foi que Mina se viu engolida pela árvore, sendo arrastada por um longo túnel de terra antes de ver novamente alguma luz no fim do túnel - de forma completamente literal.
Mas, mesmo quando chegaram lá, as raízes não a soltaram.
Havia escuridão. E havia silêncio.
Apenas o brilho de algumas tochas e o som seco de passos se faziam ver e ouvir. Angústia. Opressão. Sensação de que nada de bom resultaria daquele aglomerado de pessoas paradas em círculo, mal iluminadas pelas tochas.
As perigosas tochas. E os livros. Muitos livros. Montes deles, empilhados de qualquer jeito, sem o mínimo respeito, no meio do círculo. E a pilha só fazia aumentar, pois a cada vez uma pessoa do círculo atira ao monte mais um volume.
Os olhos de Raven, irritados pela fumaça, fixavam alguns títulos. Todos, de alguma forma, ligados aos trouxas. Alguém se aproxima perigosamente deles com uma tocha.
O coração dela se aperta. Seus pés estão grudados ao chão. Ela faz força, cravando as unhas nas palmas das mãos.
Inútil.
Então as chamas se apagam, e ela fica só. Só, frente à pilha de literatura fumegante.
Finalmente, ela sentiu as raízes que a prendiam afrouxarem o aperto, soltando-a ou, melhor dizendo, simplesmente sumindo no ar.
Mais uma vez, Mina se viu na escuridão. Bem, pelo menos não estava caindo. Mas o que exatamente ela devia fazer agora?
continua
Extra

Clique para ver ampliada
>
Fic Especial: Mad Tea Party – Parte 10

Sem escolha, ela começou a caminhar, dando-se conta de que, apesar de não haver qualquer tipo de luz, ela conseguia enxergar até razoavelmente bem.
- É um sonho, Mina. O que você queria? Sair batendo o nariz por aí até um buraco abrir sob seus pés de novo e você cair infinitamente por todo o infinito?
Nesse momento, ela percebeu algo que destoava da... hum... na falta de palavra melhor, "paisagem" pela qual estivera caminhando até então.
Uma janela. Uma janela flutuando em meio ao... hum... nada. Simplesmente uma janela. E havia apenas uma coisa que ela poderia fazer agora.
- Ironia cruel... - ela murmurou para si mesma, enquanto abria as vidraças, sentindo um vento gelado entrar, enquanto pequenos flocos de neve pregavam-se em seu cabelo.
Ela olhou para baixo. Havia nuvens logo abaixo da janela. Ótimo. Outra queda livre. Mas, dessa vez, seria ela quem providenciaria para cair. Na verdade, se bem conhecia o humor negro de sua própria mente, era esperado que ela pulasse da janela.
Como sempre costumava dizer.
- Ok, eu tenho minha janela. - ela suspirou, passando uma perna pelo parapeito - Isso é para eu aprender onde amarro meu hipogrifo. Pague a língua agora, Mina.
Ela passou a outra perna, balançando-as no vazio, ainda sentada junto à janela. Respirou fundo uma, duas vezes. Fechou os olhos.
E pulou.
Quase imediatamente, seus pés encontraram o chão. Ou melhor, a neve. Mina estreitou os olhos, fazendo uma careta, observando a altura de que tinha caído.
Menos de meio metro, certamente.
- Eu não estou rindo. - ela resmungou - Não foi uma piada engraçada.
Como de hábito, não houve resposta. Mina bufou, começando a caminhar com dificuldade pela neve, abraçando-se para tentar se aquecer. Um casaco seria uma aquisição interessante no momento. Mas onde ela poderia arranjar um casaco ali?
A neve caía, suave, rodopiando com o vento. Havia pinheiros altos, cobertos de pingentes de gelo. E, no meio da paisagem, surpreendendo a garota quando esta o enxergou, havia um esquife de cristal.
Em outra realidade, mais quente - embora não muito - e menos nevada...
- Desculpe pela demora, Kieran, espero que você... - Holly parou à porta, arregalando os olhos ao ver a mamadeira vazia ainda na boca de Mina, enquanto Kieran folheava o livro que a menina estivera lendo mais cedo, encarando curioso uma figura de "Branca de Neve".
- Mia orme, Mia mamá. - Kieran respondeu, orgulhoso - Mais mamá?
- Não, eu acho que você já deu de mamar o suficiente para sua irmã. - Holly respondeu, rindo ligeiramente enquanto se aproximava, recolhendo a mamadeira - Mas agora eu terei de fazer outra para você.
Ela estendeu uma mão para tocar o rosto adormecido da jovem. O sorriso desapareceu, dando lugar a um semblante preocupado. Ela podia sentir algo de errado... algo que, tecnicamente, não deveria estar acontecendo.
- Ela não está dormindo. - Holly murmurou para si mesma - Eu preciso...
Antes que ela pudesse fazer alguma coisa, Kieran pousou a mãozinha pequena sobre o pulso da mulher, meneando a cabeça.
- Mia orme.
Qualquer outra pessoa teria ignorado as palavras titubeantes do menino. Mas não Holly.
- Muito bem... Eu vou levá-la para a cama. Mas se ela não despertar até amanhã, no máximo, Kieran, eu terei de trazê-la de volta de alguma maneira.
Ele sorriu, os olhinhos brilhando, enquanto observava Holly aproximar-se mais uma vez de sua irmã, puxando-a delicadamente por um braço.
E agora, para a fábrica de picolé...
Um esquife perdido em meio a uma paisagem desolada, vazia... Enquanto se aproximava, Mina tentava se lembrar de algum conto de fadas em que houvesse esses elementos.
Mas foi apenas quando chegou a ele, limpando-o na neve que se acumulara em cima, reconhecendo o rosto da pessoa que estava lá dentro que ela percebeu, enfim, do que se tratava aquilo.
- Branca de Neve. - ela murmurou para si mesma - Um pouco dramática a composição de cena, mas faz sentido se formos pensar que Adhara tem uma ascendência russa.
Fic Especial: Mad Tea Party – Parte 11
Ela se apoiou sobre o cristal, observando a face adormecida de Adhara - cabelos negros como o ébano, lábios vermelhos como o sangue, pele branca como a neve...
O que mais havia no conto? Uma bruxa má, um caçador, um espelho... A bruxa queria comer o coração da Branca de Neve para permanecer jovem e bela... Sete anões numa floresta...
- Coitados dos anões... A essa altura eles já congelaram... - Mina observou para si mesma, dando a volta no esquife, observando os entalhes em torno dele.
Uma maçã! A bruxa descobria que Branca de Neve não tinha sido morta pelo caçador a quem ela confiara a tarefa. Então, ela fora atrás da Branca de Neve e dera a ela uma maçã envenenada.
- A maçã ficou presa na garganta da princesa, impedindo-a de respirar. Então... Se eu fizer a Adhara colocar o pedaço da maçã para fora... ela voltará à vida! - Mina pulou, batendo palmas - Eu sou um gênio!
Com alguma dificuldade, ela conseguiu empurrar o vidro para cima, cortando ligeiramente os dedos no processo. O frio fazia até as articulações doerem, mas ela estava mais preocupada em salvar a morena que em qualquer outra coisa.
Ao completar seu intento, ela se afastou ligeiramente, esfregando uma mão contra a outra, tentando se aquecer.
- Ok, vamos logo com isso.
Mina sentou-se na beirada do esquife, puxando o corpo de Adhara para cima. Com esforço, ela se arrastou até ficar bem atrás da garota, passando então os braços por debaixo dos braços dela, fechando-os em torno da cintura, começando então a apertá-la.
- Vamos lá, Dhara! Cuspa essa maçã podre para fora!
Três apertões e nada. Talvez colocar a garota de cabeça para baixo ajudasse.... Mina começou a cumprir as etapas de seu próximo procedimento, tentando puxar o corpo imóvel de Adhara consigo, quando ouviu, não muito longe, o galope de um cavalo.
Ela fechou os olhos, tentando lembrar algum outro detalhe da história. Havia um príncipe também... E, em uma das versões da história, Branca de Neve engolia totalmente a maçã... E só despertava ao receber um beijo de seu verdadeiro amor.
- Acho que pensei na versão errada da história. - ela murmurou para a Adhara adormecida - Mas como é que eu ia adivinhar que vinha o príncipe? Para todos os efeitos, eu deveria encontrar aqui sete anões e todos os bichinhos da floresta.
Com a máxima rapidez de que era capaz com os dedos quase insensíveis, ela empurrou Adhara de volta para seu leito, ajeitando a cabeça da morena junto ao pequeno travesseiro e puxando de volta a cobertura de cristal.
Bem na hora. Ela já podia perceber a sombra de um cavaleiro não muito longe. Agora, ela precisava se esconder em algum lugar...
- Atrás do pinheiro. - ela disse para si mesma, começando a correr, derrapando na neve - Não é o melhor esconderijo do mundo, mas vai ter de servir.
Mina chegou ao seu "esconderijo" quase no mesmo instante em que o cavaleiro percebia o esquife, dirigindo então sua montaria para lá. Tecnicamente, ela deveria ficar quieta, imóvel, o mais fora de vistas possível.
Mas a curiosidade levou a melhor.
Tentando manter-se o mais discretamente coberta possível, ela arriscou inclinar a cabeça, percebendo que o príncipe acabara de chegar junto ao túmulo de Adhara e agora estava desmontando.
continua
>
Fic Especial: Mad Tea Party – Parte 12
Mina não se lembrava de ter visto algum dia aquele rapaz na vida. Definitivamente, ele não se parecia com ninguém que conhecera em Hogwarts. Ele tinha cabelos castanhos, emoldurando um rosto que parecia irradiar gentileza.
Os olhos dele também eram escuros, calorosos. Ele sorria, contente, como se tivesse encontrado algo que há muito procurara. E não era preciso ser exatamente um gênio para descobrir do que se tratava.
O príncipe retirou as luvas que usava, abrindo o esquife sem experimentar qualquer das dificuldades que a domadora tivera. Por alguns instantes, ele observou Adhara, levando uma mão ao rosto dela, acariciando-a de leve antes de se inclinar.
Mina se encostou de volta à árvore, respirando fundo. Ok, ela era curiosa. Mas sabia respeitar alguns limites. E era mais que óbvio que, aquele momento, aquela cena, não era para seus olhos.
Ela contou até dez em sua cabeça. E depois, voltou a olhar. O príncipe se afastara, encarando Adhara com certa expectativa. E então, o peito dela se mexeu, demonstrando que ela voltara a respirar, antes que ela abrisse os olhos, piscando-os algumas vezes, como se tentasse se acostumar com a luz, para só então perceber o rapaz ao seu lado.
Ele a ajudou a se levantar e os dois se encararam sem dizer nada. Mina deu um meio sorriso. Ela não fazia a menor idéia de quem era o rapaz, mas tinha absoluta certeza de que ele era o garoto certo para a morena.
A neve começou a cair mais forte, envolvendo as duas figuras num véu de neblina, enquanto Mina tentava se proteger do vento, abaixando-se de encontro ao chão.
Mas, de repente, não havia mais frio, nem vento, nem neve. Ela não sabia onde estava, não podia mais se mover, mas, de qualquer forma, estava satisfeita.
Pelo menos, dessa vez, ela não tivera de cair. E nem houvera árvores malucas tentando matá-la. Talvez ainda houvesse esperanças, afinal... Infelizmente, nesse momento, ela percebeu que a posição em que se encontrava no momento não era exatamente das mais confortáveis. Estava deitada contra o chão, o nariz perigosamente próximo de um tapete, o pescoço ligeiramente contorcido para cima.
E havia um par de pernas à sua frente. Ela ergueu ligeiramente os olhos, dando de cara com o mesmo garoto que acordara a princesa Branca de Neve minutos antes. Quem era ele afinal?
Com cuidado, ele tirou os sapatos, antes de se deitar na cama – por sorte, apesar de ser uma cama de solteiro, era um pouco mais larga que as normais. Ele voltou-se para a face adormecida de Adhara, observando-a por alguns instantes.
Mesmo dormindo, o rosto dela mantinha a expressão séria com que ele se acostumara. Cerrou ligeiramente os olhos, relaxando aos poucos. Talvez aquele tivesse sido um dos motivos pelos quais tinha se apaixonado por ela.... aquele jeito meio triste, meio ferido... Ainda que nem ela mesma percebesse...
Voltando a abrir os olhos, ele passou um braço por cima da cabeça dela, trazendo-a para si. Delicadamente, ele passou os dedos pelos fios castanhos, enquanto beijava ternamente a testa dela.
- Eu prometo que vou cuidar de você. – ele murmurou baixinho, quase rouco – Prometo que vou me esforçar para que você sempre tenha motivos para sorrir.
Cuidadosamente, ele puxou o cobertor pesado que estava aos pés da cama sobre eles, deixando apenas o topo de suas cabeças para fora da alcova.
Ainda em seu sono, Adhara aproximou-se mais dele, como se fosse inconscientemente atraída pelo calor de outro corpo próximo ao seu. O rapaz deixou um sorriso escapar ao sentir o aperto dos dedos dela em sua camisa se intensificar enquanto a garota escondia a cabeça em seu peito.
Com delicadeza ele envolveu as costas dela, trazendo-a para um abraço, e acabou adormecendo pouco depois, tendo seu sono embalado pela respiração tranqüila da morena.
Nesse momento, a imagem a sua frente começou a se apagar, como se diluída no tempo, e ela sentiu o chão sob seu corpo começar a amolecer. Na verdade, ele não estava apenas amolecendo... Mas também se tornando areia movediça.
E Mina continuava sem conseguir se mexer.
- Ah, não... areia movediça, não... - ela arregalou os olhos - Nada de Indiana Jones. Nada de grãos de areia entrando pelo meu nariz. Não mesmo! Nem pensar!
Não havia, porém, quem pudesse colocá-la para fora do poço de areia movediça... E assim, entre resmungos, bufos e gritos de raiva, Mina afundou, lentamente, pela areia...
No último instante, ela fechou os olhos, imaginando porque ela chamara aquilo de sonhos. Até agora, ela só fizera se arrebentar. Em diversas interpretações.
Aquilo era um pesadelo...
continua
Extra

Clique para ver ampliada
>
Fic Especial: Mad Tea Party – Parte 13

Quando Mina reabriu os olhos, percebeu que estava, na verdade, deitada numa grama verde, o sol brilhando sobre ela, parecendo sorrir, enquanto pássaros cantavam por entre as árvores que cresciam ao seu redor.
Não muito longe, havia uma casa. Ela suspirou, sentando-se, observando a construção com certa curiosidade. Havia qualquer coisa ali que parecia... destoar da idéia de casa que havia em sua cabeça.
- Bem, eu não vou descobrir se não for até lá... Fora que eu certamente vou encontrar alguém importante pra mim lá... Ou, pelo menos, até agora, eu só visitei sonhos de pessoas que eu conhecia...
Assim, ela se pôs de pé e começou a caminhar...
Somente quando se aproximou do casarão de dois andares é que ela percebeu o que havia de errado com a construção: as paredes eram cinzentas, mas não pelo desgaste do tempo ou pelo mau gosto de seu proprietário, mas sim porque eram feitas de névoas; névoas densas e turvas.
Movida mais pela curiosidade que pelo bom senso - coisa, aliás, que vinha fazendo desde que tudo aquilo começara - ela encostou a mão na porta de brumas.
Grande erro.
No mesmo instante que a palma da domadora encostou a superfície brumosa, seus dedos começaram a afundar. Em poucos segundos, seu braço foi envolvido quase por completo. Instintivamente, ela colocou a outra mão contra a porta, para empurrá-la, de modo que fizesse o braço preso se soltar. O resultado foi Mina ter agora ambos os braços presos.
- Ótimo! Estou igualzinho ao coelho que ficou preso ao boneco de piche!!!! Talvez seja adequado, afinal, meu irmão é um coelho... - ela observou para si mesma - Se bem que na história original, quem fica preso é Anansi, o deus-aranha... Hum... Isso significa que eu sou uma aranha ou um coelho?
Mina não teve, contudo, muito tempo para chegar a uma conclusão em sua crise aracno-coelhexistencialista, pois, mal terminou sua pergunta, seu corpo foi completamente envolto pela neblina cinzenta, e, mais uma vez, ela tinha que lutar contra a gravidade ou cairia de cara contra o chão de pedra do interior do casarão.
Como não havia em que apoiar, Mina deixou que o corpo continuasse pendendo para frente até se espatifar com a superfície que no final das contas era macia como um grande tapete de lã. Aliás, ele parecia realmente com um tapete de tons tão acinzentados e escuros como o resto da casa, como ela agora percebia, ao se levantar.
- Olá? - Mina perguntou, ligeiramente hesitante.
Não houve resposta. A domadora decidiu continuar andando pelo longo corredor até escutar murmúrios, que pareciam uma canção...
"There always a way to back at home...There always a way to back at home..."
Ela apressou os passos em direção à voz, o coração pulsando rápido ao reconhecer aquela voz.
- Meri! - ela quase gritou, ansiosa por ver a amiga que acreditava estar desaparecida.
Quando chegou ao final do corredor, deu de cara com um amplo salão, tomado quase que completamente por uma gaiola de barras rebuscadas e douradas.
Realmente, havia uma moça lá. De cabelos vermelhos, mas curtos. Vestido também rubro, a não ser pelo corselete negro. Sentada diante de uma penteadeira, cantarolando, enquanto escovava os cabelos. Próximo a ela, um rapazinho observava, compenetrado, um tabuleiro de xadrez.
Ambos estavam presos. Cercados de luxo inimaginável, mas, ainda assim, presos.
- Meri? - Mina repetiu, fazendo com que os dois jovens a encarassem com olhos identicamente verdes e um pouco opacos.
- Não. - a ruiva murmurou - Sou Gretel ou Maria, se preferir. Este aqui é...
- Deixe-me adivinhar - Mina interrompeu, sorrindo para o moreno. Embora não o conhecesse, deveria existir uma razão para ele estar ali ao lado da ruivinha - João...
- ou Hansel. - ele respondeu, enquanto "Maria" se levantava da penteadeira, sentando ao lado do rapaz, segurando-lhe uma das mãos.
- O Devorador de Almas nos prendeu aqui .- a moça disse, deixando uma ponta de melancolia escapar em sua voz.
- Quem? - Mina perguntou, embora já intuísse quem poderia ser o monstro a quem a ruiva se referia.
- Ele. - o rapaz apontou para algo à esquerda de Mina. A moça ajeitou os óculos, notando na parede um imenso quadro de um homem, com um rosto que parecia feito de massa de pão, olhos feitos de botão verde-musgo, unhas cumpridas e cabelos de lã vermelha. Ela piscou os olhos, e, no instante seguinte, a imagem se transfigurou, revelando um homem ruivo, não menos assustador que a imagem anterior.
- Minha mãe era uma fada, ele arrancou as asas dela, antes de devorá-la. - Meridiana-Gretel falou.
- A minha era uma mariposa. Ele a encantou com a chama de uma vela. - o rapaz falou - Ele ainda a está devorando...
Mina sentiu um frio na barriga ao escutar aquilo. Meridiana seria a próxima, ela e o companheiro de cela. Ela não poderia deixar que isso acontecesse, não poderia ficar de braços cruzados enquanto a amiga era destruída. Ela aproximou-se das grades de ouro, testando a resistência delas.
continua
>
Fic Especial: Mad Tea Party – Parte 14
- Tem que ter um modo de tirar vocês daí. Talvez alguma alavanca para forçar passagem.
- Não adianta. Nós já tentamos. - o rapaz falou.
- Mas não se preocupe... vai dar tudo certo - a ruiva chamou a atenção para si. Seu olhar era sereno e confiante - Nós temos um plano.
- Sim, um plano. - o rapaz concordou, e os dois prisioneiros fitaram um ao outro com sorrisos quase maquiavélicos.
- Ok, eu gosto de planos. - Mina coçou a cabeça - Qual é o plano?
- Nós vamos empurrá-lo - os dois falaram em uníssono - Vamos empurrá-lo para dentro do forno.
Mina os observou em silêncio por alguns instantes, deixando que as palavras deles entrassem em sua mente. Depois, voltou-se mais uma vez para o retrato, onde a figura de Ludovic Black-Thorne parecia olhar para ela. Ela suspirou.
- Eu vou tentar tirar vocês daí.
- Não! - a ruiva gritou, ao mesmo tempo em que a casa parecia estremecer - Você tem que ir embora... Agora!
Ela olhou apavorada para ao rapazinho, que deu um suspiro antes de se dirigir novamente para Mina
- Ela tem razão. Não escutou a casa sacudindo? Ele chegou, ele está vindo para cá. Se ele te vir aqui, ele...
- Ele o quê? - Mina perguntou, cruzando os braços - Vai me prender e me devorar?
- Não... - a moça balançou a cabeça - Ele vai te matar... bem devagarzinho, só porque você conversou com a gente. Ninguém pode conversar com a gente. Só ele...
Mina mordeu os lábios.
- Mas tem de haver alguma coisa que eu possa fazer!
- Mas você já fez - o rapaz respondeu, com uma voz repleta de gratidão - Você veio nos visitar...
- Não acho que seja o suficiente. - Mina bufou, sacudindo novamente as grades, desejando que sua força de vontade fosse o suficiente para soltar os dois.
A moça de cabelos carmesim se levantou, caminhando até Mina e pousando as mãos sobre as dela.
- Foi mais que o suficiente, mas se você quer dar mais alguma coisa, poderia ser seu laço de fita... Para nos lembrarmos de você.
- E talvez ele ajude a acender o forno quando chegar a hora, o moreno brincou.
Mina abaixou ligeiramente a cabeça. Finalmente, ela levou as mãos ao laço, desfazendo o nó que prendia seus cabelos, que caíram muito lisos por seus ombros, estendendo então o tecido para Meri.
- Aqui está. - ela suspirou profundamente, dando as costas aos dois, aproximando-se de uma das janelas - Eu sinto muito...
Até alguns instantes atrás, contudo, aquela janela não estava ali. Tristonha pelo fato de que não havia mais nada que pudesse fazer, ela sequer se deu conta desse fato.
E, com um único movimento, escorregou para fora. As brumas da casa devoraram a janela, e se estenderam em direção à Mina, envolvendo-a por completo. A moça tentou gritar, mas, como antes, estava paralisada. As cortinas de névoa finalmente de abriram, revelando o interior de um quarto, aparentemente trouxa. Sentado em uma cama, estava o rapaz que Mina havia acabado de conhecer como Hansel. Do outro lado do recinto, estava Meridiana, muito mais magra e abatida do que Mina jamais a vira. A ruiva olhava fixamente para o moreno.
- Vá embora. - foi o que ela disse para ele - Volte para a Grécia o mais rápido que puder.
Ele arregalou ligeiramente os olhos, surpreso pela maneira abrupta com a que ela dissera aquilo.
- Não. – ele respondeu antes que pudesse perceber o que estava acontecendo – Eu não posso ir.
- Você não entende? – ela continuou, quase exasperada, a urgência de que ele escapasse daquilo antes que fosse tarde demais, fazendo com que continuasse, sem perceber que, talvez, aquela conversa não estivesse fazendo muito sentido; ainda que, para ambos, fizesse todo o sentido do mundo – Ele ainda não sabe sobre você... Você ainda tem uma chance... Tem uma escolha...
Ele abaixou os olhos, meneando a cabeça.
- Eu não posso. – ele repetiu.
Mas por que ele não podia? O que ainda procurava ali? O que queria de verdade? Ele já tinha respostas suficientes para suas perguntas. Então, o que ele ainda precisava?
A verdade é que ele jamais poderia voltar a ser a pessoa que fora antes. Ele não poderia voltar para a Grécia e fingir que nada daquilo tinha acontecido.
- Não se pode fugir do destino. - ele disse, encarando a ruiva com um olhar firme.
Silêncio...Mina quase podia tocar o silencio que se instaura entre os dois, talvez até o conseguisse, caso pudesse se mexer.
- Ludovic não deveria ser o destino de ninguém... - Meridiana murmurou - Especialmente se ele decidir que ama você...
A cena do sonho tremulou rapidamente, acelerando-se a ponto de Mina não conseguir discernir o que acontecera ou as palavras que foram trocadas logo após Meridiana mencionar o tio. Tudo que o ela conseguiu enxergar foi o rapaz caminhando em direção à ruiva, que agora estava sentada no chão. Ele sentou-se ao lado dela, permanecendo em silêncio...
continua
Extra

>
Fic Especial: Mad Tea Party – Parte 15

Tão entretida ela estava em observar aquilo que o sonho de Meridiana lhe contava - fora que, de uma maneira ou de outra, ela não podia se mexer mesmo - que Mina não percebeu quando uma sombra incidiu por trás de sua cabeça.
Foi então que ela notou que a sensibilidade em seus dedos estava voltando. O que significava que...
- Ohhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Bem, o que significava ela não chegou a conseguir raciocinar, porque num minuto ela estava em pé, e no minuto seguinte ela estava prensada contra o chão com um... com um...
Os olhos dela se arregalaram ao perceber o que estava em cima dela.
- Um Fofoso gigante. UM FOFOSO GIGANTE! - ela viu ele passar a língua pelos... pela fenda que chamava de boca - ELE VAI ME COMER!
Talvez, se ela não tivesse dito nada, os acontecimentos seguintes não tivessem acontecido da maneira como aconteceram. Mas, ao som de "comer" (dito aos berros e com total desespero), Fofoso Chahriar, mascote das mafiosas (agora em versão gigante), decidiu que estava com fome.
E, talvez pela primeira vez na história, um ser humano deu de cara com a goela de um pufoso. E como Pinóquio engolido pela baleia, lá foi Mina pela garganta abaixo de seu antigo animal de estimação.
Mas, porém, contudo, todavia, entretanto... antes que ela chegasse ao estômago de Fofoso e fosse assim diluída pelo ácido gástrico (quando então nossa história terminaria com um triste e trágico fim), Mina percebeu que estava em um... salão de baile.
- Ok, por mais gigantesco que Fofoso estivesse, eu não consigo crer que ele tenha um estômago deste tamanho, de modo que só posso acreditar que, a não ser que eu esteja sofrendo de severas alucinações, ao que devo perguntar novamente onde meu analista se meteu, eu vim parar em outro sonho. - ela observou o salão, percebendo que um casal bailava mais adiante, prendendo a atenção de todos ao redor - E a julgar pelo que vejo, também já sei de que sonho se trata. Mas vou te contar, viu, esses dois são tão melados e grudentos que até sonham juntos...
Resmungando para si mesma, Mina foi se aproximando das colunas mais à frente, tentando se esconder entre as sombras, enquanto observava Herman e Lorelai dançando.
Nesse instante, uma badalada soou.
Os dois pararam simultaneamente, escutando cada uma das badaladas, ecoar pelo salão.
- Você sabe o que isso significa, não é, MJ? - o príncipe Herman, perguntou, com um pesar na voz.
- Você vai virar trouxa... e eu vou precisar ir embora. Mas eu não quero ir. - Lorelai respondeu, encostando a cabeça no peito de Herman.
- Mas tem que ir! - o rapaz falou, empurrando-a delicadamente para longe de si. - Vai logo...
Mina estreitou os olhos.
- Cinderela? Por que cargas d'água ele a está colocando para ir embora? Herman, seu idiota, você tem que correr atrás dela, não botá-la para correr! - Mina sibilou entre dentes, sem deixar as sombras, tentando entender o que diabos estava acontecendo ali.
Com óbvio pesar, Lorelai se separou de seu príncipe, começando a correr. Mina revirou os olhos.
- E lá vamos nós... - ela ainda disse, antes de começar a correr atrás da amiga.
continua
Fic Especial: Mad Tea Party – Parte 16
Fora do palácio, uma enorme e fulgurante lua pendia no céu. Sob o luar, Mina observou o vestido suntuoso de Lore dar lugar a trapos, enquanto a carruagem, os cavalos e os cocheiros sumiam, deixando em seu lugar apenas alguns ratinhos e... Fofoso.
- Fofoso era a carruagem? - ela se perguntou, aproximando-se - Hei... Você é a Cinderela, não é?
- Sim. - ela assentiu, com uma mesura - Eu te conheço de algum lugar não?
- De alguma faxina numa casa de família. - Mina respondeu - Está vendo meu avental? Eu sou explorada pela minha madrasta e minhas duas irmãs metidas. Não lhe parece uma história familiar?
"Lorella" riu da mocinha de óculos.
- Acho que isso é virou moda nos dias de hoje. – ela brincou - Se me der licença, eu preciso ir embora. Não quero, mas preciso...
Com uma última reverência, a moça virou-se, pegando Fofoso com uma das mãos, intencionando seguir o caminho estreito que se descortinava em meio aos arbustos do jardim do castelo. Mas antes que desse mais um passo, ela sentiu uma mão segurando o seu braço. Voltou-se, notando os olhos ansiosos de Mina sobre ela.
- A Lore que eu conheço não iria deixar o Herman para trás tão fácil.
A moça piscou seus olhos caleidoscópicos, sem compreender exatamente o que a outra queria dizer com aquilo. Mina bateu a mão livre na testa.
- Claro que você não vai entender. Aqui você é Cinderella, não Lorelai! Eu estou falando do Príncipe! Do Príncipe!
- Se o problema é esse, então, não tem o que se preocupar, é só vir comigo!
Mina piscou os olhos, sentindo-se mais confusa a cada instante. O que raios aqueles dois tinham aprontado com Cinderela? Apesar da confusão, ela não se fez de rogada, seguindo a amiga pelas sebes, até encontrarem ninguém mais, ninguém menos que o próprio Herman.
Lorelai entregou Fofoso nas mãos de Mina-Alice, antes de praticamente pular nos braços do rapaz.
- Chuchu! - ela gritou e Herman a recebeu, dando um rodopio no ar.
Mina revirou os olhos. Namorados... Eles mais pareciam uma horta, isso sim. Chuchu? Tenha dó! Daqui a pouco eles abririam uma padaria e começariam a se chamar de docinho de coco...
Herman, por sua vez, ergueu momentaneamente a namorada, observando com ternura o rosto sorridente da moça antes de fazer Lorelai escorregar em direção a ele, deixando que seus lábios se colassem em um beijo efusivamente apaixonado. Mina sentiu as faces esquentando, desviando o olhar para os pés, cantarolando baixinho.
- Oi. - Herman chamou, fazendo com que Mina levantasse o rosto para o casal - É amiga da minha fadinha?
- De certa forma, sim. - a escocesa respondeu, sorrindo, embora ainda se sentisse encabulada - Achei que você ia deixar ela ir embora sem fazer nada.
O príncipe meneou a cabeça, voltando a fitar sua amada com um sorriso.
- Eu não poderia ir embora sem dar uma coisa para ela antes.
Ele soltou-se de Lorelai, colocando a mão em uma bolsa de couro que tinha a tiracolo. De lá, tirou dois pequenos sapatinhos, trabalho artesanal de esmerado primor. Eram de couro, revestidos de cetim creme, com uma rosa delicadamente bordada no tecido.
Mina cruzou os braços. Se ela precisava de um analista, tinha certeza que o sonho daqueles dois seria um prato cheio para qualquer psicólogo. Aquela rosa do sapato era idêntica a do anel que Herman dera a Lorelai no aniversário dela.
A domadora jamais poderia s esquecer, afinal, tinham passado dias enchendo as picuinhas da fada, dizendo que era um anel de "noivado".
Só uma coisa não parecia se encaixar ali... Os sapatinhos não eram para ser de cristal?
continua
>
Fic Especial: Mad Tea Party – Parte 17
- Se as coisas continuarem como estão, a gente realmente vai ter que se separar. - ele disse, calçando com cuidado, os pequenos pés de Lorelai - Eu não pude dar o presente no salão porque havia muita gente suspeita observando.
- Eu sei... eu sei... - Lore respondeu, passando a mão nos cabelos agora bagunçados de Herman, enquanto ele terminava de amarrar a fita do sapato no tornozelo da moça.
- Eu não sei se acho esta, uma cena romântica, e suspiro ou se reviro os olhos. Até o final desse sonho, vou ficar diabética. - Mina murmurou para si mesma.
Os dois estavam tão compenetrados um no outro, que sequer a percebiam mais.
- Prontinho! - Herman levantou-se, sorrindo de modo triunfante para Lorelai - Mesmo que na próxima encruzilhada a gente tenha que seguir por trilhas separadas, os sapatinhos vão sempre te guiar até mim.
Mina desviou o olhar para Fofoso, que observava tudo de seu ombro.
- Você não vai me engolir de novo, não é mesmo? - ela perguntou, curiosa - Sabe, eu não sei se estou ficando doida ou coisa do tipo, mas isso está aparecendo uma cruza de Cinderela com O Mágico de Oz. Essa história de sapatinhos fazendo retornar ao lar... - ela meneou a cabeça - Será que a Fada-Madrinha é a Glinda? Onde eu arranjo um macaco-alado?
- Puuuu... - foi a resposta de Fofoso, em tom de dúvida.
- É, eu imaginei que você não saberia... - ela piscou os olhos, retornando a atenção para a cena, para então descobrir que... estava sozinha - Eu não acredito que eles me esqueceram aqui...
Sem escolhas, Mina começou a caminhar, tentando encontrar uma saída, para então descobrir que estava presa em um labirinto. Um labirinto verde. Completamente sozinha, perdida e... - seu estômago fez um barulho estranho nesse momento - com fome.
- Eu devia ter aproveitado durante o baile para comer alguma coisa...
Pelo que lhe pareceu horas, ela rodou em meio ao labirinto, indo e voltando, resmungando que já tinha passado por ali e pelo outro canto, até que, finalmente, deu com a saída. Mas, antes que pudesse colocar o pé para fora, seu corpo ficou paralisado.
De novo.
Embora aparentemente estivesse rodeada por sebes, Mina se encontrava simultaneamente no corredor de um prédio. Ela escutou-os antes de vê-los.
O casal subia entre risos pela escada do pequeno prédio onde ficava o apartamento que a madrinha de Lore cedera a eles. A subida demorou mais do que os dois planejaram pois, desde que chegaram, a cada dois degraus que galgavam, pareciam ter que parar para um beijo. Quando finalmente alcançaram o andar onde ficava a residência, Herman enlaçou Lorelai mais uma vez pela cintura, dando outro beijo na moça, inclinado-a levemente para trás. Ela se desvencilhou dele rindo, mal contendo a alegria do momento, e puxando-o pela mão para o corredor deserto, disse:
-Parece que nós chegamos. Está com a chave?
Ele assentiu, tirando o objeto do bolso do terno. A passos ligeiros, os dois chegaram na porta de entrada, e, assim que o rapaz a abriu, ele segurou Lorelai em seu colo, para entrar com ela na casa que agora seria deles.
-Sei que é clichê - ele disse, divertido - Mas, enfim, sós!
A moça sorriu amplamente, corando um pouco as bochechas. Ainda suspensa pelos braços de Herman, deu uma olhada ampla na sala de estar enquanto pensava se estava sonhando ou se de fato, aquilo estava acontecendo com eles. O rapaz despertou-a do devaneio com mais um beijo e ela, de súbito, se sentiu estranhamente encabulada.
Fazia um bom par de tempos que eles estavam juntos. Agora, inacreditavelmente, estavam casados, e ela não conseguia compreender porque cargas dágua se sentia como se fosse a primeira vez que estivesse com ele.
- Pois é, enfim sós... – arriscou tentando retomar o controle sobre a ansiedade e a esdrúxula timidez.
“Definitivamente eu NÃO quero assistir isso”, Mina pensou consigo mesma, completamente desesperada ao perceber que estava diante da noite de núpcias dos amigos. Aquilo era invasão de privacidade em demasia. Mesmo sendo um sonho seria constrangedor demais, contudo, incapaz de se mexer, a escocesa não conseguia fechar os olhos.
Para a sorte de Mina – talvez um mecanismo psíquico de sua mente insana diante da insensatez da situação, aos poucos, as luzes foram se apagando. Ou pelo menos, foi a impressão que ela teve, antes de perceber que, na verdade, as sebes ao seu redor estavam crescendo, crescendo, crescendo, formando um novelo ao redor dela.
Fofoso tinha sumido. Garoto esperto. Ela gostaria de sumir também.
- Mamãe. - foi a última coisa que ela disse antes de ser pega pelos tornozelos e colocada de cabeça para baixo, começando a ser puxada para sabe-se lá onde a uma velocidade absurda, bem diferente de quando fora engolida pela árvore na Chapeuzinho Vermelho.
E agora ela estava caindo. O céu estrelado surgira do nada sobre sua cabeça. E, lá embaixo, o asfalto da cidade se aproximava cada vez mais vertiginosamente.
continua
Extra

>
Fic Especial: Mad Tea Party – Parte 18

Agora ela ia realmente se esborrachar. Qual era a explicação de Freud para sonhos em que você está caindo, caindo, caindo, cain...
- Ai!
Ela não estava mais caindo. Na verdade, estava flutuando no ar. Sentada em alguma coisa. Alguma coisa que estava voando.
Ela virou a cabeça, deparando-se com um rapaz todo vestido de verde, contrastando com os cabelos azuis. Ela conhecia aquele garoto.
Darien Semog. Se bem que, ali, ele devia ser o Peter Pan.
- Hum... Olá. - ela murmurou, dando um tchauzinho com a mão.
- Olá. - ele respondeu - Você tem sempre o costume de cumprimentar as pessoas sentada nas costas delas?
Mina olhou para baixo, balançando os pés no vazio.
- Eu caí? Desculpe, não parece fazer muito sentido, mas eu estava caindo do céu e...
Ele deu um loop, fazendo com que ela escorregasse de suas costas. Mina, contudo, não chegou a cair muito mais, pois logo estava um tanto desconfortavelmente segura entre os braços do garoto.
- Bem melhor agora. - ele observou - Não dá para voar com alguém sentado nas suas costas. - ele a encarou mais atentamente - Você é uma fada? Eu nunca ouvi falar de pessoas caindo do céu.
- Na verdade, eu estava voando no meu dragão particular, mas ele decidiu que estava com fome e me deixou para trás. - Mina respondeu, decidindo que sentido por sentido, se ele não fazia sentido, ela também não faria. Dessa forma, eles com certeza se entenderiam.
Os olhos de Peter-Darien brilharam.
- Um dragão? Você me emprestaria seu Dragão para resolver uns problemas com uns piratas? Seqüestraram meus amigos. Eu preciso resgatá-los. Um dragão certamente seria muito mais efetivo que o velho Crocodilo, ainda que o Gancho...
- Eu não sei onde está meu dragão, ele só vai voltar quando tiver terminado de comer... Aliás, eu também estou com fome. Vamos fazer um trato, certo? Você me arranja comida e eu ajudo com os piratas.
Depois disso, eles prosseguiram com o vôo, agora em silêncio. Volta e meia ela se remexia, um tanto inquieta – estavam cada vez mais alto; lá embaixo, a paisagem ficava mais e mais longínqua.
- Medo de altura? – Peter Darien perguntou, sem olhar diretamente para ela, orientando-se pelas estrelas para encontrar seu caminho até a Terra do Nunca.
- Não exatamente. – a garota confessou – Só estava me lembrando de um acidente que aconteceu há muito tempo. A idéia de cair já está se tornando razoavelmente familiar. Meu único problema é onde eu caio.
Ele sorriu, assentindo.
- Acho que entendo. Bem, ali é a Terra do Nunca. Já estamos chegando!
Meia hora depois, Mina estava confortavelmente sentada no esconderijo dos meninos perdidos, às voltas com um sanduíche frio de peru. De acordo com seu anfitrião, aquilo era “comida indígena”.
- Wendy também foi seqüestrada? – Mina perguntou enquanto, sob as vistas do rapaz, devorava seu jantar.
- Já faz alguns anos que Wendy e seus irmãos se foram. – ele confessou, um tanto tristemente – Como você a conhece?
- Eu não a conheço. Só sei a história. – Mina respondeu – Isso significa que o Gancho nunca desiste, certo?
- Nunca. Mas então... onde está seu dragão? – ele perguntou, curioso, como se a qualquer momento ela fosse tirar um dragão da manga da camisa.
- Eu não tenho certeza. – Mina respondeu com um suspiro resignado, torcendo para que Darien Pan esquecesse da história do dragão. Também, com tantas desculpas para estar caindo do céu, por que ela não dissera que era uma estrela cadente? – Mas se você arranjar umas flechas e um arco, eu tenho certeza que vou poder ajudá-lo.
Os olhos dele se arregalaram.
- Você é uma guerreira? Não parece...
Certamente, com aquele vestidinho azul cheio de babados, a última coisa que ela pareceria é com uma guerreira. Pelo menos não estava mais usando o lacinho...
- Na verdade, sou uma domadora. Domadora de dragões. – Mina respondeu – A roupa é... bem, não deu tempo de me trocar.
- Tudo bem. – ele deu de ombros – Eu vou lhe arranjar um arco.
Ele deu um assobio alto. E, num instante, um pontinho de luz veio brilhando célere na direção deles.
A fada Sininho.
Ela era pequena e brilhante demais para que Mina conseguisse enxerga-la direito. Mas, pouco depois, um arco estava a sua frente e então, Mina só teve olhos para ele.
Era de madeira clara, muito mais maleável que aquele que usava nas Hébridas. As flechas tinham penas coloridas, vibrantes, alegres.
Bendito seja o pó de pirlimpimpim... O que quer que isso significasse. Bom Merlin, quanto mais tempo passava entre aqueles sonhos, mais sem sentido ela ficava.
- Agora você já comeu e já tem suas armas. É hora de visitarmos os piratas. – Peter levantou-se entusiasticamente – Sininho, ensine-a a voar.
Mina ouviu um zumbido malcriado em resposta.
- Você entendeu o que eu quis dizer – o rapaz de cabelo azul deu um sorriso de lado.
Ainda resmungando – ou zumbindo, a depender do ponto de vista – a fada voejou sobre a cabeça de Mina, despejando sobre a garota um pozinho dourado.
Os pés da domadora deixaram o chão.
continua
>
Fic Especial: Mad Tea Party – Parte 19
Além das brumas do tempo e do espaço...
Kieran enfiou o rosto contra os travesseiros, embolando-se com os lençóis, antes de engatinhar até os braços da irmã. Mina continuava profundamente adormecida.
Mesmo assim, em meio aos seus sonhos, a jovem sorriu enquanto o aconchegava melhor. Contente, Kieran deixou-se abraçar, embalado pelo corpo quentinho da irmã mais velha.
E de volta à Terra do Nunca...
O som de gritos e espadas se entrechocavam no ar, coalhado de meninos voando descuidadamente, dando rasantes por cima dos piratas. Havia pólvora e palavrões de deixar qualquer um de cabelos em pé.
Mina estava enriquecendo muito seu vocabulário de pragas em meio ao caos.
No meio da bagunça, ela percebeu Darien Pan lutando contra o capitão que, de alguma forma, parecia-lhe muito familiar.
Draco Malfoy??
Nesse momento, muitas coisas aconteceram ao mesmo tempo. Primeiro, o tique-taque de um relógio aproximou-se da amurada do navio. Segundo, as flechas de penas coloridas acabaram. Terceiro, Mina perdeu o equilíbrio...
E foi direto para a água.
As escamas de um crocodilo apareceram na crista das ondas. Mina tentou dar impulso para o alto e avante, mas, aparentemente, o pó de pirlimpimpim passara do prazo de validade.
*tantan tantan tantan tantan...*
Ao fundo, começou a tocar a trilha sonora de “Tubarão”. E Mina chegou a uma conclusão:
Era tudo culpa do Spielberg.
O crocodilo estava agora muito próximo para que ela pudesse tentar escapar nadando. O peso do vestido também não ajudava.
Ela não teve nem tempo de murmurar uma prece ou encomendar sua alma. A última coisa que a jovem viu foram os olhos lacrimosos do crocodilo e sua bocarra cheia de dentes.
Alguém apagou a luz.
Algum tempo se passou antes que Mina notasse que estava agora sentada numa poltrona de cinema, seus olhos sendo a única coisa que conseguia mexer. A cabeça ainda rodava com a caudada que levara do crocodilo quando ele praticamente a atropelara, acercando-se do navio.
Agora, na tela, ela podia ver o Capitão Draco Gancho preso na amurada de seu navio apenas por seu... gancho. E o crocodilo logo embaixo, de boca aberta e cheio de expectativa.
De repente, não mais que de repente, o filme mudou. E ela tinha certeza de que agora estava assistindo ao sonho de Darien Semog. Só lhe faltavam as pipocas...
Darien corria velozmente, amedrontado com todos os olhares dos quadros do castelo direcionados a ele; não sabia mais para onde ir, nem o que fazer. Contava as horas que passavam, sem que se importassem com o menino, os dias zombavam dele.
Os corredores avermelhados da escola contradiziam a camisa e os cabelos do garoto: azuis da cor do céu. A essa altura, o medo tomava conta daqueles olhos brilhantes como os de Becky, o corpo atlético de Darien correspondia a negações a cada movimento dado por ele.
- Preciso achar um jeito de me safar dessa – Repetia o menino.
Ninguém apareceu na escola, ninguém parecia estar ali, somente ele e sua própria sombra. Somente o corvinal que tinha medo de duelar, que cobrava a si mesmo coisas impossíveis, que nem mesmo pessoas completa e altamente mais sábias do que ele tinham capacidade em fazer.
O garoto se sentia só, mas jurava ver vultos pelos corredores ao longe. Darien se apegou olhando para si mesmo através de um vidro de porta quebrado, próximo às masmorras. Temia a solidão mais que tudo na vida.
O menino, de tanto andar, sentiu as pernas pesadas, sentiu o coração trepidar rapidamente, como algo que fosse sair de sua boca, de seu peito, de sua alma. As mãos estavam frias e úmidas, o que era incomum a Darien, pois regularmente tinha as palmas das mãos e o restante do corpo tão quente quanto salamandras incandescentes em festa.
Ainda atormentado por figuras imaginárias, Darien saltou sobre uma parede negras, escalando-a o mais rápido que pôde. As mãos estavam surradas, devido à anormalidade da parede. Ao topo do paredão encontrado, misteriosamente, na escola, Darien viu a sua própria imagem deitada sobre uma esquife de metal enegrecido pelo tempo, coberto por lavanda e uma planta amarelada que exalava uma fragrância de terra molhada por chuva forte de verão.
As luzes do cinema se apagaram. Ela sentiu algo mudar sob seu corpo e, de repente, uma luz ofuscante incidiu sobre seus olhos, deixando-a cega por um instante.
continua
Extra

>
Fic Especial: Mad Tea Party – Parte 20

Quando finalmente conseguiu enxergar, Mina percebeu que estava agora sentada num pequeno divã, em um salão de refeições de um enorme castelo de pedra. A grossa camada de poeira parecia indicar que ele estava deserto há muito tempo, contudo, um javali assado semi-devorado e as diversas taças empilhadas ao lado, algumas ainda com resquícios de vinho, mostravam à moça que aquele abandono era aparente.
Mina prendeu a respiração ao notar também o tamanho dos móveis e dos talheres. Eram colossais. Provavelmente um ogro ou um gigante morava ali. Que história tinha gigantes? Ela não se lembrava de muitas. O alfaiate que matou sete de uma vez; João e o Pé de Feijão... Bem, em que conto ela estava não importava muito no momento. O importante é que gigantes e ogros tinham uma dieta muito restrita.
Eles eram carnívoros. E tinham especial preferência por carne humana. E ela decididamente não queria ter de passar pela experiência de ser engolida de novo. Conhecer a goela de Fofoso fora o suficiente.
Nesse momento, ela ouviu o som de um tecido que parecia estar se rasgando, pouco antes da ponta vemelha e dourada desbotada de uma tapeçaria aparecer a poucos centímetros de sua cabeça, tudo isso acompanhado por um grito alto.
- ALÔOOOOOOOOOOOOOO, SILVERRRRRRRRRRRRR!!!!!!!!!!!!!
- AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!
Mina caiu sentada no chão, levantando uma nuvem de poeira, enquanto uma figura que, felizmente, não era tão assim maior que ela pousava u pouco além da névoa. Tossindo, ela tentou se levantar, engatinhando com olhos lacrimosos, e aos poucos o pó voltou a baixar. A domadora então se viu diante de um par de botas, e, em seguida, de uma mão que a ajudou a se levantar.
E agora, Mina estava diante de ninguém mais, ninguém menos que... Satanio.
- Boa noite, minha cara. - o rapaz cumprimentou, tirando a cartola e fazendo uma reverência - Satanio de Carabas. Marquês por título, Gato por natureza e Esperto por vocação.
Mina meneou a cabeça, dando um meio sorriso, ao notar as orelhas de gato que se destacavam no meio dos fios dourados e revoltosos que cobriam a cabeça do rapaz. Por que aquilo deveria surpreende-la? Lusmore fora o Gato Risonho, considerando o quão próximas eram as personalidades dos dois - a ponto de serem apelidados de "Os Irmãos Cara de Pau" no período que o primo morara no QG da Máfia - era "óbvio" que Sat seria o Gato de Botas.
- Eu pensei que você pudesse ser um ogro. - ela confessou, começando a espanar a saia do vestido - Ou um gigante. Por que eles não podem ser vegetarianos?
Aquela fora uma pergunta retórica, mais para ela que para qualquer outra pessoa. Assim, Satanio desprezou essa última parte da pergunta.
- Bem... Havia um ogro. - Sat de Botas respondeu, colocando a cartola de volta na cabeça, enfatizando a palavra "havia" - Eu acabei com ele... Fiz ele transformar em uma formiga e... o resto você pode deduzir.
A moça deu um meio sorriso, ao gato-moço retrucou com uma piscadela divertida.
- Eu sou Mina. Estou procurando meu irmão. Você por acaso não o teria visto? Ele tem mais ou menos esse tamanho... - ela fez uma gesto de medida com as mãos - ...e orelhas de coelho.
- Sinto muito, receio não tê-lo visto... Mas talvez possa ajudá-la a encontrá-lo depois.
- Depois? - ela perguntou, um pouco mais animada com a possibilidade de ter ajuda em sua busca.
- Agora eu vou-me embora para Pasárgada, mas como ainda não sou amigo do Rei, resolvi fazer uma parada por aqui para não chegar de mãos vazias. - ele sorriu de novo, mostrando um reluzente rubi pendurado numa corrente de ouro - Um presente para a Princesa Yvaine, e as boas novas de que matei o ogro que aterrorizava a região, é claro.
- Claríssimo. - Mina respondeu com a sombra de um riso nos lábios.
- Então... Vamos indo? - ele perguntou, oferecendo um braço galantemente à domadora.
continua
>
Fic Especial: Mad Tea Party – Parte 21
Pouco depois eles estavam na estrada, caminhando e, de quando em quando, discutindo amigavelmente sobre algum aspecto do caminho. Estavam perto de uma ponte sobre um pequeno lago de águas escuras quando ouviram o som de uma carruagem.
- Hum... Parece que não teremos mais de caminhar tanto. - Sat de Botas observou.
- Não? - Mina perguntou, curiosa - Por quê?
- Você tem de entrar na água agora. Antes que eles cheguem. - ele respondeu, como se falasse do tempo.
Mina piscou os olhos, cruzando os braços.
- Por que eu deveria entrar no lago? A água deve estar gelada!
Ele a observou por alguns instantes, abrindo outro sorriso maroto em seguida.
- Sendo assim, peço-lhe desculpas antecipadamente, Mina. Mas, lembre-se, isso é necessário.
- Necessário?
A próxima coisa que aconteceu foi ele empurrá-la de costas para o lago. Mina já estava começando a se acostumar com quedas, mas o choque da água gelada em sua pele foi demais para sua cabeça. Ela rapidamente submergiu, engolindo água no processo, sentindo os pulmões arderem, antes de conseguir se debater o suficiente para voltar a superfície.
Na curva da estrada, uma carruagem elegante surgiu.
- Ajuda! - o loiro gritou, enquanto Mina se debatia nas águas geladas do lago - Minha irmã está afogando.
No mesmo instante, a carruagem parou, descendo dela um senhor de longas barbas brancas, e coroa na cabeça, o estereótipo do velho rei dos contos de fada, e, ao lado dele, surgiu uma moça, de vestido amarelo e vermelho, rodado, cujos cabelos eram lilases e revoltosos.
- Meu senhor! - Satanio repetiu - Minha irmã caiu no lago, não posso ajudá-la, pois me feri enfrentando o ogro que mora aqui perto.
Ela sentiu vontade de gritar que era mentira, mas seus dentes pareciam ter ganho vida própria e ela tremia como nunca tremera na vida. Foi quando percebeu que o amigo mancava. Ele estava mancando antes?
- Entendo. - o rei estreitou os olhos, reconhecendo o rubi no pescoço do felídeo rapaz - O que trazes no pescoço é prova suficiente de que falas a verdade! Guardas! - ele gritou para a escolta de soldados que seguia a carruagem - Tirem a donzela da água. Há uma vida a ser salva.
- Tenho uma dívida de eterna gratidão com vossa majestade. - o loiro respondeu, retirando a cartola - Salvaste a vida de minha estimada irmã.
- Não poderia fazer menos pelo herói que salvou meu povo de terrível ameaça, senhor...
- De Carabas. Marquês.
Nesse instante, a moça aproximou-se, dando um sorriso malicioso.
- Creio que é mais astucioso do que aparenta, caro marquês. Para conseguir derrotar o ogro... Talvez mais como uma cobra amarela a se esgueirar sorrateira, preparando o bote, ao invés de um gato malhado.
- Minha cara Princesa Berinjela. - Sat se aproximou, tomando as mãos de Yvaine entre as suas, e depositando um longo beijo nelas - Vindo de você, essas palavras soam como os melhores elogios de todo o mundo.
Finalmente, Mina foi içada para fora do lago, ainda incapaz de falar, os lábios roxos de frio. Alguém jogou um cobertor sobre seus ombros. Ok, ela agora se lembrava da história do Gato de Botas. E, pelo menos, Sat não a fizera tirar as roupas. Seria o cúmulo.
- Vamos levar o Marquês e a irmã para o castelo. Nosso herói e a jovem dama precisam de cuidados - o rei falou com propriedade.
Mina galgou os degraus da carruagem com a ajuda - ainda que desnecessária - de um dos guardas. Ela estava congelando, é verdade, mas isso não significava estivesse incapaz de se mover. Antes de entrar no veículo, ela deu uma última olhada para fora, deixando um sorriso escapar, maroto, em seu lábios, ao captar, pelo canto dos olhos, Satanio de Botas de braços dados com sua Princesa Yvaine Berinjela, surpreendentemente, sem deixar de fingir mancar.
E então, como sempre acontecia no melhor da festa, alguma coisa aconteceu... os cavalos da carruagem enlouqueceram. Para trás, ficaram o rei, a princesa, o marquês e os guardas. Sacolejando na carruagem, Mina tentava desesperadamente se segurar em alguma coisa.
- Eu vou morrer, dessa vez eu vou morrer... - ela murmurava baixinho, sendo jogada de um lado para o outro.
Em um carro, caso houvesse alguém dirigindo, aquilo seria o que costumamos chamar "direção ofensiva".
A carruagem, contudo, não rodou durante muito tempo. Bruscamente, ela parou, atirando Mina para debaixo dos assentos, com as pernas para cima, toda descabelada e dolorida.
- Ai, minha coluna... - ela murmurou, virando-se devagar, engatinhando até a janela do coche, conseguindo se movimentar o suficiente apenas para que seu nariz ficasse acima da portinhola, antes de sentir todo o corpo paralisar.
A paisagem externa cedeu lugar a um corredor longo e escuro, parcialmente iluminado por archotes. As pedras daquelas paredes eram velhas conhecidas de Mina, apesar de ela perceber um clima mais tenso e sombrio onde outrora a domadora sabia ter existido risos e esperanças. Hogwarts. Ela estava em Hogwarts. Em um lugar não muito longe do QG da Máfia.
-Que tal "Faça amor não faça a guerra?" - Satanio murmurou, divertido, enquanto sacudia uma latinha que muito se assemelhava a um spray trouxa.
-Não sei se vai fazer muito sentido para o nosso propósito aqui - um rapaz moreno, pouco mais novo que o loiro respondeu.
Alguém estranhamente familiar à Mina, mas que ela intuitivamente sabia ainda não conhecer.
-Amor sempre faz sentido! - o loiro provocou - Ou vai me dizer que não deixou uma garota para trás quando veio para cá?
O rapazinho deu um sorriso de lado, que denotava nostalgia, malícia e ternura.
-Tecnicamente não somos namorados, mas sim, deixei. E sei que ela vai me matar quando nos reencontrarmos.
-A minha eu precisei mandar para fora do país - Sat se pronunciou, em um tom sóbrio, quase amargurado - E, vendo no que Hogwarts se transformou, no que o país se tornou, estou feliz que ela esteja longe.
O outro rapaz estreitou os olhos, como se compreendesse perfeitamente o que Satanio queria dizer. Ele também se sentia assim por sua própria "namorada" não estar ali, por estar longe e segura daquela loucura que os cercava.
-Bem, vamos ao trabalho - o loiro começou a borrifar a tinta roxo fosforecente contra a superfície de pedra cinzenta. - A arte não se faz sozinha, e, depois do que fizermos aqui, duvido que alguém na escola vá discordar de que somos grandes artistas!
Mina sentiu então, o chão da carruagem desaparecer sob ela, caindo, desta vez com suavidade, em um chão coberto de relva fofa e macia.
continua
Extra

>
Fic Especial: Mad Tea Party – Parte 22

Ela chegou a imaginar que estava ainda em Hogwarts, nos terrenos externos da escola, mas, havia algo que refutava sua teoria. Agora ela estava diante de um castelo sim, porém cercado por uma muralha de espinhos. Não precisou de mais que dois segundos para descobrir em que conto fora parar dessa vez.
- A Bela Adormecida. - ela murmurou, resignada.
Ok, quem quer que fosse a Bela Adormecida, ela não fazia muita questão de encontrar, por diversos motivos, entre os quais:
1. a Bela estaria adormecida;
2. a bendita estava dormindo há um bocado de tempo - se houvesse um príncipe a caminho, poderia assegurar que, pelo menos, há uns cem anos;
3. se ela estava dormindo e só podia ser acordada com um beijo, certamente não seria Mina que conseguiria resolver a questão e, por fim
4. a tal da princesa certamente tinha um hálito de lascar. Sinceramente, 100 anos sem escovar os dentes?!
- Blergh! Eu tenho é pena do príncipe... - ela murmurou para si mesma, dando as costas ao palácio, começando a caminhar - Será que todo mundo no reino está dormindo também ou só o pessoal do castelo? E para quem eu vou perguntar do Kieran?
Contudo, Mina não chegou a caminhar até muito longe. Antes que pudesse fazê-lo, surgiu a sua frente um cavalo branco, com arreios dourados, sela forrada de veludo e tudo o mais que um príncipe num cavalo branco tinha direito.
A domadora levantou os olhos, desviando-os do focinho do cavalo para o focinho do príncipe.
Isaac.
- Será que se eu prender a respiração por tempo suficiente, eu consigo morrer asfixiada? - ela se perguntou baixinho, sentindo-se completamente incapaz de se mover (e, dessa feita, não era por estar presa).
Por que, Senhor do Destino dos Contos de Fada, por que com tantas histórias interessantes, tantos heróis, tantas aventuras, POR QUE ISAAC TINHA QUE SONHAR JUSTAMENTE COM A BELA ADORMECIDA, A PRINCESA MAIS INÚTIL DO REINO DE TÃO, TÃO DISTANTE???
Mina estava prestes a levantar as mãos para esganar o rapaz, que a observava educadamente curioso (como se observa alguém educadamente? Bem, ela não sabia... sabia apenas que a expressão combinava perfeitamente com ele), quando se deu conta de um pequeno, quase ínfimo detalhe.
Por que ela presumira tão rapidamente que a Bela Adormecida seria ela? Isaac podia perfeitamente tê-la esquecido. Ele podia perfeitamente estar com outra. E a culpa disso seria toda dela.
- Minha senhora, perdoe-me a impaciência, mas a senhora pretende passar ainda muito tempo aqui?
- Você está reclamando que eu estou bloqueando a passagem? - Mina perguntou, arqueando uma sobrancelha.
- Eu não colocaria nessas palavras, minha senhora. - ele respondeu sem deixar o tom cortês.
Mina apenas deu um ligeiro suspiro, dando um passo para o lado, para fora da estrada, permitindo que ele passasse.
- Desculpe. - foi tudo o mais que ela conseguiu dizer, enquanto deixava o corpo descansar contra uma árvore que, convenientemente, estava a apenas mais um passo de distância.
Ele deu um meio sorriso em resposta, passando por ela. Mina cerrou ligeiramente os olhos.
- O que eu estou fazendo? - ela perguntou para si mesma, cruzando os braços - O que eu devo fazer?
Ela reabriu os olhos ao ouvir o som de uma espada, seguido de ruídos de uma animada poda. Ele estava tentando abrir caminho por aquela verdadeira floresta de espinhos com uma espadinha?
Mina deixou-se guiar pelo impulso e, quase sem perceber seus passos, viu-se ao lado de Isaac, que interrompeu seu trabalho para observá-la com curiosidade.
- Escute, você percebeu que se forçar a passagem dessa maneira, vai ficar aqui pelo resto da vida e nunca vai chegar nem na porta, não é?
Isaac estreitou os olhos.
- E o que devo fazer então? Eu vivi minha vida inteira em função desse momento.
- Bem, eu não acho que tenham lhe dado treinamento para jardineiro. - ela respondeu, dando um olhar de esguelha para o castelo - Você não conseguirá entrar pela frente. Então, vamos procurar a entrada dos fundos.
Ela agora tinha conseguido chamar toda a atenção dele.
- Mas um príncipe nunca entra pelos fundos. E quem lhe garante que a entrada dos fundos também não está bloqueada?
- Porque a bruxa má certamente pensa igualzinho a você. - Mina respondeu - Eu juro que a porta dos fundos não vai levá-lo para nenhuma dimensão alternativa.
Ou, pelo menos, eu assim espero - ela pensou para si mesma.
O rapaz não se fez mais de rogado, seguindo enquanto ela arrodeava o castelo, sem muita certeza se aquilo daria certo.
A bem da verdade, Mina também não tinha certeza se aquilo daria certo. Aliás, ela nem tinha certeza se queria que aquilo desse certo.
Mas o raciocínio dela estava correto. Nos fundos do castelo não havia muro de espinhos. E a porta da cozinha estava aberta.
Por um segundo, Mina hesitou, mordendo os lábios para então caminhar decidida para dentro, com o príncipe Isaac logo em seus calcanhares.
- Pronto. Você está dentro. - ela observou, voltando-se para ele.
O rapaz assentiu, mas continuou parado junto a ela, encarando-a. Mina sentiu as bochechas arderem diante da atenção que ele lhe dedicava.
- O que foi? - ela perguntou finalmente.
- Quem é você? - ele questionou, sério - Por que está me ajudando?
continua
>
Fic Especial: Mad Tea Party – Parte 23
- Quem é você? - ele questionou, sério - Por que está me ajudando?
- Hum... - pense rápido, pense rápido - Eu sou uma das fadas madrinhas da princesa?
Apesar do tom incerto, ele não pareceu duvidar, tomando aquilo como uma explicação mais que suficiente. Só então o olhar dele deixou seu rosto, vagando pelo ambiente em que estavam.
- Eu nunca estive numa cozinha antes. - ele observou - Elas são sempre assim?
Mina também voltou a atenção para o lugar.
- Exceto pelas pessoas ressonando e as teias de aranha, é o que se espera de uma cozinha medieval. - ela fez uma careta - Detesto aranhas. Muitas pernas. Muitos olhos. Pinças e veneno.
Ele deu outro meio sorriso.
- Por onde agora? A senhora conhece o castelo, não é?
- Faz cem anos que eu não venho por aqui, perdoe-me a memória. - Mina respondeu com um sorriso amarelo - Mas eu creio que você só tenha de subir as escadas. Quando não houver mais para onde subir, você terá encontrado sua princesa.
Ele assentiu.
- Sendo assim, vamos em frente.
- Eu preciso ir? - ela perguntou, fazendo uma careta.
Isaac não respondeu. Não muito tempo depois, Mina sentia suas pernas tremerem, o fôlego completamente irregular, a cabeça começando a girar, enquanto se via diante de um novo e infinito lance de escadas.
- Onde... estão... - ela tentou respirar - ...as janelas?
Isaac, a essa altura, estava bem à frente dela, subindo sem sequer prestar atenção a fôlego ou cansaço. Na verdade, ele não parecia ter subido cinco lances de escada de cem degraus cada.
Mina se sentou no degrau em que estava, apoiando o rosto contra as mãos. Estava exausta. Não queria mais ter de subir.
- O que a senhora está fazendo?
A moça virou a cabeça, deparando-se com Isaac já no alto da escadaria.
- Eu não agüento dar mais nenhum passo. - ela respondeu.
- Mas esse é o último lance. - ele tentou argumentar - Não pode ser tão difícil. A princesa está logo aqui adiante.
- Eu não consigo me mover. - Mina retrucou mais uma vez, dando as costas ao rapaz, voltando a apoiar as mãos no rosto. Ou seria o rosto nas mãos?
Se ela esperava que isso o faria desistir, estava muito enganada. Os passos dele ecoaram, rápidos, aproximando-se, mas ela não tinha energia suficiente para perceber isso. Foi só quando Isaac parou diante dela que Mina reagiu.
- O quê? - ela perguntou, cansada.
Ele se virou, agachando-se.
- Suba.
Mina piscou os olhos, confusa.
- Como assim, "suba"?
- Suba nas minhas costas. - ele respondeu simplesmente - Eu carrego você.
- Mas eu não posso... - ela começou, sentindo o rosto esquentando.
- Eu não vou deixar você para trás. - ele a interrompeu - Suba logo ou eu não saio daqui.
A garota o encarou, surpresa. Aquilo era, decididamente, ridículo.
- Eu posso subir sozinha. - ela finalmente respondeu, levantando-se, orgulhosa.
- Não pode. Você mal se equilibra nas suas próprias pernas. Agora suba logo, ou eu terei de tomar outras providências.
Mina cruzou os braços, arqueando uma sobrancelha.
- Pois tome suas providências, porque daqui eu não arredo pé.
A expressão "pagou a língua" é bastante apropriada para o que aconteceu a seguir. Isaac empurrou a jovem para trás, segurando-a antes que ela pudesse cair no chão, ao mesmo tempo em que passava o outro braço por baixo dos joelhos dela.
- O QUE VOCÊ PENSA QUE ESTÁ FAZENDO? - ela perguntou, furiosa.
Ele meramente sorriu.
- Tomando providências.
- E esse por acaso foi o comportamento principesco que te ensinaram?
- Alguma coisa em você faz com que eu tenha de agir de maneira diferente da que aprendi, milady.
A maneira como ele a encarou não foi como um príncipe de conto de fadas, mas como o Isaac que ela conhecera - o olhar sério, ainda que gentil, até mesmo quando usava um tom mais divertido.
Até ele voltar a depositá-la no chão, já no alto da escadaria, Mina permaneceu quieta, incerta de como agir ou do que falar - uma façanha que, até aquele dia, Isaac fora o único a alcançar.
- A princesa deve estar atrás daquela porta. - Isaac observou.
- Ou talvez mais escadas. - Mina observou com uma ligeira pontada de tristeza.
Isaac avançou sem parecer ter ouvido o comentário pessimista da jovem. Mina assistiu, silenciosa, quando ele empurrou a porta, um longo rangido escapando das treliças enferrujadas, entrando afinal no aposento.
Sem alternativa, Mina o seguiu.
Surpreendentemente, o quarto estava limpo e fresco. Nada indicava que estivesse sua ocupante dormindo a longos cem anos. No meio do quarto, havia uma cama enorme, coberta de lençóis em vários tons de azul e, sobre eles, profundamente adormecida...
Estava ela própria.
Na verdade, era ela e não era ela. Afinal, ela estava em pé, vestida de Alice. Então, não podia ser ela adormecida na cama. Mas, ao mesmo tempo, aquela na cama era idêntica a ela.
Mina sentiu a cabeça doer. Aquilo estava ficando confuso demais. Na verdade, parecia confuso até mesmo para Isaac, que a encarava surpreso.
continua

>
Fic Especial: Mad Tea Party – Parte 24
- Por que não me disse que era irmã gêmea da princesa?
- Hum... Segredo de família? - ela fez uma careta com a resposta ridícula.
Ele a observou por mais alguns segundos, impassível. Mas então lhe deu as costas, sentando-se na beirada da cama da Mina-Adormecida. Devagar, ele se inclinou na direção dela.
Mina arregalou os olhos.
- EI! O que você pensa que está fazendo? - Mina-Alice o interrompeu, a voz esganiçada.
Mais uma vez ele se voltou para ela.
- Eu tenho de beijar a princesa para acordá-la, certo?
Ela rapidamente sentiu a bochecha esquentar.
- Por que você faria isso? Você não a conhece, faz cem anos que ela está largada aí. Sem banho, sem escovar os dentes. Se você acordá-la, vai ter de se casar com ela. E se não der certo? E se...
O riso franco dele não apenas a interrompeu, como também a surpreendeu.
- Não pode ser tão ruim se ela for parecida com você. - ele observou sem deixar de sorrir.
Agora não eram apenas as bochechas. Suas orelhas também queimavam. Mas Isaac ainda não terminara.
- Eu fui criado para esse momento. Eu devo acordá-la. É isso que todos esperam de mim.
A expressão dela tornou-se séria e ligeiramente melancólica.
- Isaac... - ela chamou baixinho, soltando um ligeiro suspiro, aproximando-se dele devagar - Você não precisa ser apenas aquilo que esperam que você seja. Você deve ser aquilo que você quer ser.
O príncipe se levantou, sem desviar o olhar do rosto dela.
- Você ainda me deve uma resposta, Mina.
Ela sentiu o coração acelerar, a boca seca, enquanto tentava encontrar a própria voz.
E, nesse preciso momento, a Bela Adormecida abriu os olhos, sentando-se na cama, observando-os com uma expressão ligeiramente irritada.
- Vocês podem ir discutir em outro lugar? Tem gente tentando dormir aqui!
As duas Minas se encararam. Mina-Alice não agüentou mais. Irrompeu numa gostosa - e nervosa - gargalhada, sentindo os olhos enchendo-se d'água com o riso. Ela cerrou os olhos, dobrando-se em si mesma, tentando controlar a crise de riso.
- Mina, você está se sentindo bem?
Finalmente ela conseguiu se recompor, enxugando os olhos enquanto se aprumava. Para então descobrir que estava em um lugar completamente diferente.
Estavam evoluindo. A cena agora mudava, muito literalmente, em um piscar de olhos. Ela deu um giro com o olhar para tentar reconhecer o lugar onde estava e levou um pequeno choque ao perceber que, não apenas suas roupas de Alice tinham dado lugar a vestes mais confortáveis, do tipo que usava em casa; como também estava agora numa das praias das Hébridas.
Era a hora do crepúsculo. Um vento meio frio soprava sobre eles. Mina se virou, descobrindo Isaac olhando para ela.
Ele parecia um pouco mais velho, os olhos claros observando-a com um tanto de preocupação e outro de divertimento. As roupas de príncipe também tinha mudado para vestes civis. Aquele devia ser o sonho dele. Mas por que ela conseguia se mover?
continua
>
Fic Especial: Mad Tea Party – Parte 25
- Eu estou bem. - ela respondeu, a sombra do riso ainda nos lábios.
Isaac a encarou com ligeira desconfiança. Ela suspirou, levantando as mãos para tentar segurar o cabeço que açoitava seu rosto. E, novamente, um choque perpassou seu corpo, mandando pequenos calafrios ao longo de sua coluna. No anular da mão esquerda, havia um aro dourado.
Uma aliança. Uma aliança de casamento.
A expressão de incredulidade, juntamente com os pequenos tremores, fizeram com que Isaac interpretasse a situação de outra maneira. Rapidamente, ele tirou o suéter que usava, estendendo-o para ela.
- Vista. Você não está bem.
Mina não teve ânimo para discutir, passando a cabeça pelo suéter de lã. Duas dela caberiam folgadamente ali. Só quando terminou de se vestir é que ela percebeu que agora ele estava com roupas muito leves para o clima.
- E você? - ela perguntou, o tom preocupado.
Isaac deu um meio sorriso, estendendo a mão para ela para depois começar a caminhar.
- Vocês precisam dele mais do que eu.
Vocês? Do que ele estava falando???? Sua cabeça tinha começado a rodar de novo.
- Isaac? - ela chamou, estancando - Eu estou ficando tonta.
Ele parou, virando-se para ela, preocupado.
- Você não devia ter se esforçado tanto. - ele murmurou.
- Eu tinha prometido aos meninos.
Ok, meninos. Agora, de onde ela tirara aquilo?
- Você quer que eu carregue você?
Ela riu baixinho.
- Essa é a primeira vez que você pergunta. Geralmente, quando eu me dou conta do que está acontecendo, você já está me carregando.
- Da última vez você tentou me esganar. - ele explicou, talvez um pouco bem humorado demais para o contexto.
- Você me carregou à força da editora. Na frente de todo mundo. O que queria que eu fizesse? - aquilo fazia algum sentido? Bem, para ele parecia haver, já que Isaac abriu a boca para responder.
- Agradecesse. - ele respondeu - Você precisava descansar. E comer. Mas não estava fazendo nem um nem outro. Herman me disse que você tinha passado dois dias direto trabalhando, sem praticamente dormir.
Mina cruzou os braços.
- Herman traidor. - ela murmurou de lado.
Isaac apenas voltou a sorrir, dando as costas para ela, abaixando-se ligeiramente.
- Suba. - ele ordenou, exatamente como fizera antes, em sua versão "príncipe da Bela Adormecida".
Mina não sentiu qualquer vontade de discutir. Não dessa vez, pelo menos.
- Não importa quanto tempo passe... - ela observou, enquanto deixava que ele segurasse suas pernas por debaixo dos joelhos e passava os próprios braços ao redor do pescoço dele - Você nunca vai deixar de ter esse seu instinto protetor de cão de guarda.
- Eu só estou cuidando da minha família. - ele respondeu, um sorriso tranqüilo nos lábios enquanto virava o rosto para encará-la - Você não pode me culpar por ser um pouco...
- Superprotetor? - ela riu, apoiando a cabeça no ombro dele, sentindo-se sonolenta, embalada pelos passos dele.
Como ela podia estar sonolenta dentro de um sonho? Existia possibilidade de ela sonhar que estava dormindo e enquanto dormia, sonhar?
- Isaac? - ela chamou já com a voz fraca, os olhos pesando.
- Hum?
- Você viu Kieran? Ele era um coelho...
Ele meneou a cabeça.
- Você realmente precisa descansar. Precisa dormir.
- Hum-hum. - foi a única coisa que ela conseguiu retrucar, cerrando os olhos.
Mais uma vez, Isaac sorriu, alcançando a bochecha da esposa, depositando ali um beijo cálido. Os cantos da boca de Mina se curvaram para cima, sentindo a suave pressão.
Ela reabriu os olhos, piscando-os repetidas vezes, até que o dossel de sua cama entrasse em foco. A pressão na bochecha continuava e, girando devagar a cabeça, ela percebeu que Kieran a estava beijando.
- Olá, Coelho Branco. - ela murmurou com a voz contente.
- Mia 'cordo. - Kieran respondeu rindo, segurando os pés pelos polegares, ao mesmo tempo em que balançava o corpo para frente e para trás.
- Parece que eu sou realmente a Bela Adormecida, não? - ela riu, sentando-se na cama e se espreguiçando - E meu pequeno príncipe-coelho acaba de me acordar com um beijo.
Mina puxou o irmão para o colo, começando a lhe fazer cócegas, rindo. Em outro lugar, muito distante dos dois irmãos, uma mocinha ruiva revirava-se na cama, abrindo devagar os orbes verdes.
Meridiana piscou algumas vezes, ainda presa naquele estado semi-onírico, incapaz de reconhecer completamente onde estava. Contudo, uma coisa não passou despercebida a ela. Ela sentiu algo liso e suave enrodiscado nos dedos de sua mão esquerda, algo que não estava ali quando ela se deitou. Algo que pela lógica racional não poderia estar ali.
Contudo, Meri era um bruxa, e sabia, que havia coisas que transcendiam à razão trouxa. E, com o pouco que aprendera com Lusmore sobre Antiga Magia, sabia que também poderiam existir coisas que iam além da lógica bruxa comum.
Mesmo intuindo o que estava embaralhado entre seus dedos, ela levantou a mão diante dos olhos para ter certeza.
Era um laço de cetim azul. O mesmo laço que Mina, vestida de Alice, lhe dera de presente no sonho que tivera. A ruivinha preferiu não imaginar como aquilo ocorrera, apenas sorriu, virando-se de lado, e apertando o laço entre os dedos, cerrando novamente os olhos, com a esperança de que Morpheus trouxe bons sonhos. Para todos eles.
Extra

>
Fic Especial: Mad Tea Party – Epílogo
Após a louca festa do chá...
Duas batidas ligeiras na porta. O homem sequer se virou, continuando a organizar seus papéis.
- Pode entrar.
A maçaneta girou e a porta se abriu, revelando a jovem neta de Vincent MacFusty, parecendo um tanto ansiosa e embaraçada enquanto dava um passo pequeno para dentro da sala.
- Boa tarde, doutor Hiram. O senhor tem um minuto? - ela perguntou timidamente.
O medibruxo sorriu.
- Claro, Mina. O que posso fazer por você?
- O senhor sabe se tem alguém aqui na ilha que seja um psibruxo? Um analista? Qualquer coisa do tipo? - ela agora falava rápido, como se tentasse acabar com aquilo o mais cedo possível.
- Não, Mina, eu não conheço. - ele respondeu sincero - Mas eu tenho alguma experiência nessa área, estudei um pouco quando estava na Academia... Eu posso servir, se você quiser.
Ela não esperou por um segundo convite, sentando-se na pequena maca junto à parede, cruzando as mãos sobre o colo.
- Bem, doutor, eu tive um sonho e...
O sol começava a se pôr no horizonte das Hébridas quando Mina terminou de narrar sua fantástica história. Ela agora encarava pensativa o espelho que ocupava toda uma parede do consultório, enquanto Hiram Connaught servia duas xícaras de chá, estendendo uma delas na direção da jovem.
- Eu tenho algumas conclusões sobre seu sonho agora que terminou, Mina. - ele observou.
Ela se remexeu ligeiramente na cadeira.
- E qual é o seu veredicto?
O homem sorriu.
- Você não é louca, Mina, não se preocupe. Um tanto neurótica talvez, mas não louca. Acho que o principal ponto que posso destacar é que você tem uma imaginação muito vívida. O que me deixou um tanto temeroso foi a sua ligeira tendência suicida, com preferência por janelas. Devo conversar com Vincent sobre a possibilidade de colocar barras nas janelas do solar?
- Não é necessário. - ela deu um meio sorriso - Acho que aqui se aplica a mesma lógica do velho ditado "cão que ladra não morde". Eu não vou me jogar da janela, tio Hiram.
- Isso é bom. - ele sorriu novamente - Mais chá?
Mina assentiu alegremente e, nesse instante, roubou um olhar do espelho. E tentou não surtar ao ver seu reflexo do outro lado do consultório, num vestido azul de saia rodada e cheio de babados, o laço prendendo seus cabelos no alto da cabeça.
Essa, contudo, não era a pior parte. Não quando, no espelho, estava sentado ao seu lado... o Chapeleiro Maluco.
Ela olhou do espelho para Hiram e de Hiram para o espelho. Neurótica, hum? O medibruxo não chegara nem perto... Um suspiro resignado lhe escapou dos lábios enquanto ela levantava sua xícara de chá, oferecendo um brinde silencioso à Alice. Ao final das contas, se você não pode contra eles...
- Feliz desaniversário. - ela murmurou antes de engolir o líquido de um gole só.
Bem, com isso fechamos oficialmente as comemorações de cinco anos de Expresso Hogwarts...e eu não sei mais o que poderia dizer a todos vocês a não ser um imenso obrigado. Foram tantos presentes, tantas manifestações de afeto - algumas até mesmo pessoalmente - que eu só posso realmente me sentir grata por tudo...Obrigada mesmo por estarem nos acompanhando em nossa viagem de trem ^^
Beijos, Meri