Crônica de uma Cheik el-Medah¹

 

 

- Agora me escute, senhora, e preste atenção, pois é a última vez que lhe repito essas palavras. – com os olhos escuros flamejantes, o rapaz abaixou-se, de modo a ficar com o rosto no mesmo nível do dela – Se tentar fugir novamente do palácio, hei de passar pessoalmente a fio de espada a cabeça de todas aquelas tolas crianças que tanto prezais.

 

Ela não respondeu. Apenas abaixou a cabeça, fechando os olhos para conter as lágrimas. O pulso latejava de dor e a marca vermelha das mãos de Nassim já se podia enxergar.

 

A capa carmesim farfalhou quando ele voltou a se levantar, dando as costas a ela. Os guardas à porta do quarto afastaram-se silenciosamente enquanto o grande sultão passava e ela ainda pode ouvir as últimas palavras dele, para que a vigiassem com cuidado.

 

Por alguns instantes, ela permaneceu no chão, na mesma posição em que caíra quando Nassim a empurrara para dentro do quarto. O corpo doía por todo o esforço que fizera ao longo daquelas últimas doze horas; aquelas longas e excruciantes doze horas que quase a tinham matado.

 

Arrastou-se então para o leito estendido no chão, caindo sobre as almofadas e finalmente deixando as lágrimas tomarem livre curso.

 

Falhara consigo mesma mais uma vez.

 

*-*-*-*-*

 

Eu me alimento de ilusão. Longe das grades do meu cárcere, todo um mundo se descortina... Mas eu só posso conhecê-lo através dos olhos de minha mente.

 

Gostaria de ser livre. E assim, construir minha fantasia dessa realidade que me cerca e que não posso conhecer. Não posso, pois estou presa a esse corpo, a esses jardins, a esse palácio.

 

Meu nome é Amber. Muito nova, fui trazida a esse país e vendida como escrava. De quase nada me lembro antes disso – apenas do cheiro de tâmaras ao sol, quase sufocantes em sua doçura.

 

Por conta do tom claro de minha pele, meu primeiro senhor ofertou-me ao vizir e este me deu como presente ao sultão, supremo governante de todo o reino. Sendo à época ainda uma criança, era, na maior parte do tempo, deixada quieta a meu canto, imersa em minhas fantasias.

 

Até que, um dia, o sultão adoeceu. Deitado em seu soberbo leito, forrado de sedas e cetim, ele se entediava dia após dia, enquanto minguava aos olhos de todos. Eu ouvia na cozinha as fofocas das criadas acerca da saúde e da tristeza de meu senhor. E, incauta e inocente, deslizei pelos longos corredores do palácio até o quarto dele.

 

O sultão tinha os olhos semicerrados quando entrei. A passos leves, dirigi-me até a grande poltrona que o médico real costumava usar quando estava ali. Com dificuldade, o sultão abriu os olhos, fixando-os molemente em mim.

 

- O que faz aqui, menina? – ele perguntou com a voz rouca.

 

- Vim contar-lhe uma história. – respondi, dirigindo a ele um sorriso doce.

 

A verdade é que o sultão era conhecido como o Pai de todos e eu, que nunca conhecera o meu verdadeiro pai, acabara por fixar aquela imagem imponente em minhas lembranças, como a figura mais próxima e paternal que eu conhecera.

 

Pelo resto da tarde, eu entreti o sultão com uma das muitas histórias que imaginara naqueles anos à sombra de seu palácio. Quando terminei, ele tinha um sorriso plácido no rosto e se despediu de mim pedindo que eu voltasse no dia seguinte.

 

As horas, os dias, as semanas e os meses se passaram. A saúde do sultão voltou a se restabelecer e eu fui mandada para junto de Seher, o grande contador de histórias do reino, com quem aprendi o canto, a poesia, as belas letras e a pintura.

 

E todos os dias eu voltava para junto do sultão, a quem deliciava com minhas novas peripécias.

 

O sultão tinha um único filho. Nassim. Quando o grande sultão morreu, já com as longas barbas brancas e os olhos quase cegos, Nassim assumiu o trono e eu fui passada como herança para ele.

 

Até então, nunca tivera porque reclamar da minha condição de escrava. Eu ia e vinha quando queria, tinha cômodo cativo no palácio, muitas vezes provava da mesa do sultão. Era tratada com gentileza, e até mesmo, com respeito, pois as pessoas viam em minha facilidade para povoar o mundo de seres imaginários como um dom divino.

 

Nassim, entretanto, era muito diferente de seu pai...

 

*-*-*-*-*

 

Mahati Zahra já passara dos cinqüenta anos. Os cabelos, antes muito negros e sedosos, provavelmente já se apresentavam grisalhos. Certamente haveria rugas em seu rosto, especialmente nos cantos da boca. Culpa do sempiterno sorriso nos lábios. O peso da idade, entretanto, era muito pequeno, se comparado ao trabalho que se dispusera a fazer desde jovem e, pelo qual já tanto sacrificara e, muito mais seria capaz de sacrificar. a mso da idade, entretanto, era muito pequeno, se comparado ao trabalho que se dispusera a fazer desde jovem e, pelo qual, abri

 

Casara-se muito cedo, e também perdera o marido muito cedo, sem ter tido sequer o consolo de dar à luz. Como os costumes do país previam que as mulheres viúvas não voltavam para a casa dos pais - tornavam-se senhoras de seu próprio destino - Mahati, estava sozinha.

 

Durante toda a vida, fora dedicada a todos - primeiro aos pais e aos irmãos, depois, ao marido. Desprovida de todos, ela não sabia muito bem o que fazer com "essa tal liberdade".

 

Foi quase por acaso que a primeira criança veio parar em sua casa. Estava na feira, comprando verduras com uma criada, quando assistiu um vendedor desancar, a bordoadas, um pobre menino todo sujo de terra e já bastante esfolado. Interpondo-se entre o homem e o garoto, descobriu que ele roubara algumas frutas e que era um "cão sem dono". Compadecida, pagou pela tâmara que ele roubara e o levou para casa.

 

Desde então, Mahati, que não tivera a graça de ser mãe, era o consolo e o abraço caloroso de muitas crianças abandonadas por suas numerosas e paupérrimas famílias. A herança que recebera do marido foi embora rapidamente no trato delas e a casa dos Zahra passou a depender do trabalho da Senhora - muitas vezes auxiliada por seus pequenos - e da caridade de seus vizinhos para continuar funcionando.

 

O tempo passou rapidamente. Os primeiros meninos que ela acolhera seguiram seus próprios rumos. Alguns trabalhavam na cidade e sempre a procuravam, ajudando no que podiam. Outras estavam distantes, mas nunca deixavam de mandar notícias. Mahati amava todas as suas crianças e era por elas também muito amada.

 

Não era à toa que ele estava agora ali, em pé diante da porta pela qual tantas vezes passara, correndo para os braços da Senhora. Em todos aqueles anos, desde que deixara a cidade, nunca fora capaz de fixar residência em qualquer lugar. Não quando seu coração estava sempre comparando e sempre se lembrando dali, daquele que era seu verdadeiro lar.

 

Daquela que fora sua verdadeira mãe.

 

Empurrando a porta, ele ultrapassou a soleira. O cheiro dos temperos cultivados na horta detrás da casa atingiu-o em cheio. Um sorriso pairou em seus lábios. Estava de volta em casa.

 

Nesse instante, passos soaram no corredor que levava aos quartos das crianças. Ele primeiro ouviu a conhecida voz antes de vê-la passar pelo umbral - a mesma túnica vermelha, os cabelos brancos presos numa trança, os olhos gentis...

 

- Melik, volte imediatamente para terminar seu banho, eu já falei que... - Mahati parou a meio caminho, percebendo que havia visitas. Não levou mais que meio segundo para reconhecer o rapaz parado a sua porta. Esquecendo-se das conveniências, ela praticamente jogou-se sobre ele, abraçando-o apertado - Dunya, pelos céus, pensei que tinha acontecido alguma coisa com você!

 

Os olhos claros de Dunya brilharam e ele a abraçou de volta, sorrindo. Ela afastou-se ligeiramente dele, tirando os cabelos negros de sua fronte para olhar melhor o rosto do recém-chegado.

 

- Mas você está tão abatido... O que aconteceu?

 

- Estava longe da sua comida, senhora. - ele respondeu, sem deixar de sorrir - Mas não se preocupe. Decidi afinal me estabelecer. Chega de andanças para mim.

 

- Finalmente! Eu já estava pensando em trazê-lo pelas orelhas de volta para casa. - ela também sorriu, voltando a aprumar-se.

 

Dunya apenas assentiu, abrindo a capa de viagem e tirando dela um saco de couro escuro. O som de moedas tilintou quando ele segurou as mãos dela, depositando o saco em sua palma.

 

- O que é isso, Dunya?

 

- Uma pequena contribuição para o lar de nossa protetora. Os negócios foram muito bem no litoral.

 

Mahati balançou a cabeça, colocando o saco de volta nas mãos de Dunya.

 

- Eu não posso aceitar isso, Dunya.

 

- Claro que pode! A casa precisa de cuidados e...

 

Ela sorriu.

 

- Faz tanto tempo que você não vem aqui para passar algum tempo propriamente que não sabe de nada... Nós recebemos uma pensão do palácio já há quase sete anos, desde o tempo do antigo sultão.

 

O rapaz arregalou os olhos.

 

- O sultão? Mas como... Como ele soube... - ele deu de ombros, respirando fundo - Bem, seja como for. Nem sempre os governantes se lembram de cumprir com suas obrigações. Eu ficarei ressentido se não aceitar essa ajuda, senhora.

 

Antes que ela pudesse responder, mais passos foram ouvidos e, pouco depois, três crianças entraram praticamente arrastando um menino de pouco mais de dez anos, completamente encharcado.

 

- Nós terminamos de dar banho no Melik, senhora. - a menina que segurava pela perna e que parecia a mais velha anunciou, orgulhosa, antes de notar a presença de mais alguém no recinto.

 

No instante seguinte, o menino chamado Melik estava estatelado no chão, enquanto os outros três praticamente pulavam sobre o rapaz.

 

- DUNYA!!!

 

- Você trouxe presentes para mim?

 

- Vai ficar quanto tempo dessa vez?

 

- Você me ensina a lutar com cimitarra?

 

- Crianças, por favor... - Mahati pediu, colocando a mão na cabeça - Vocês vão deixar o pobre tonto.

 

- Está tudo bem. - Dunya respondeu, abaixando-se e encarando as duas meninas - Maryam, Kadrya, eu trouxe alguns presentes para vocês. Estão lá fora, no meu cavalo. Latif, acho que você ainda está muito novo para cimitarras. Mas também trouxe presentes. Melik, o mesmo vale para você. - ele observou, voltando-se para o outro garoto, que se levantava, coçando a cabeça - Desde que, obviamente, apresente-se limpo às ordens da Senhora.

 

- Não se preocupe, nós vamos cuidar disso. - Maryam respondeu, piscando o olho.

 

- Vocês não precisam responder por mim, sabiam? - Melik observou.

 

Mahati suspirou, resignada, enquanto as duas crianças começavam uma discussão. Nesse instante, sentiu a barra do vestido ser puxada por uma mão pequena e, pouco depois, a voz de Kadrya sobrepôs-se à confusão.

 

- Senhora... Amber virá nos contar uma história hoje?

 

A mulher sorriu, abaixando-se, ao mesmo tempo em que acariciava a cabeça da menina.

 

- Não tenho certeza se ela conseguirá ser liberada pelo sultão... Afinal de contas, não são apenas vocês que gostam das histórias dela... De qualquer maneira, mais tarde, poderei passar pela casa da guarda e perguntar ao senhor Seher se ela poderia me acompanhar essa noite.

 

Dunya observou em silêncio enquanto as crianças de retiravam, satisfeitas com a promessa.

 

- Quanto a esse dinheiro... – ela continuou, voltando-se para ele.

 

- Eu repito o que disse, Senhora. Eu ficarei extremamente ressentido se não aceitar minha contribuição.

 

Ela meneou a cabeça, suspirando.

 

- Você continua teimoso como sempre, Dunya.

 

O rapaz sorriu, passando a mão pelos cabelos negros.

 

- É... Creio que esse é um dos meus grandes defeitos... – ele desviou o olhar, observando o entardecer pela janela da sala – Senhora... Quem é Amber?

 

- Deixe-me terminar o jantar, Dunya. Então, você poderá me acompanhar até o palácio e eu contarei a você sobre ela.

 

*-*-*-*-*

 

Há certas histórias já previsíveis... Finais escritos antes do começo... Personagens arquétipos que todos conhecem a função mesmo logo após serem apresentados.

 

Dizem que Deus escreve certo por linhas tortas. Nem sempre as pessoas entendem o real significado dessas palavras. Não é apenas que Ele sabe fazer as coisas mesmo que não saibamos seguir seus planos. A verdade desse ditado vai além de algo tão óbvio.

 

Não importa as escolhas que façamos. Somos marionetes do Destino.

 

*-*-*-*-*

 

- Ela deve ter mais ou menos a sua idade. – Mahati observou, enquanto caminhavam – Talvez um pouco menos. Mas não deve ter passado mais que vinte verões nesse mundo.

 

- E como ela pode ser uma Cheik el-Medah? Eu nunca pensei que mulheres pudessem...

 

- Foi o antigo sultão. – a mulher sorriu – Há uma certa tristeza à personalidade de Amber. Talvez porque ela não possua memórias de tempo algum antes de se tornar escrava no palácio. Isso, combinado a uma graça natural, faz com que todos ao seu redor queiram protegê-la.

 

Dunya sorriu, sarcástico.

 

- O símbolo da fragilidade, hum? Já vi muitas assim. Conquistam o homem com seu jeito doce, e deles fazem verdadeiros escravos. Não sabem lutar por si mesmas. Desprezo pessoas assim. – o sorriso tornou-se malicioso – Jovem... Ela é bonita também? Talvez tenha sido amante do sultão. Do antigo e do novo também.

 

Mahati meneou a cabeça, suspirando.

 

- Não julgue o mundo por aquilo que sua mãe foi. Amber não é hipócrita. Ela nunca se aproveitou de sua fragilidade. – ela respondeu, num tom triste – Ela poderia ter o mundo aos seus pés se quisesse. O sultão... Ele faria dela sua rainha, independente do que a corte achasse de ser governada por uma escrava. Amber, entretanto, nunca se resignou, nunca se entregou. O maior desejo daquela menina é se ver livre de sua condição.

 

- E por que estão ela não foge simplesmente? – Dunya perguntou, ainda com a voz descrente.

 

- Eu não tenho muita certeza... Mas creio que seja por nós. – ela virou-se, encarando o rapaz – Amber me procurou uma vez. Foi ela que encontrou Kadrya, sete anos atrás, e levou-a até minha casa. Você conhece parte da história. A menina era ainda um bebê, foi abandonada nos portões da cidade... Não sei como ela chegou aos braços de Amber... Mas foi ela quem a trouxe para nós. E pediu ao sultão que se encarregasse de nossa manutenção.

 

Os olhos dele se estreitaram e ele desviou o rosto de Mahati.

 

- Ainda assim, essa influência sobre o sultão...

 

- Não seja tão desconfiado. – ela sorriu – Antes de formar uma opinião, conheça a moça. De qualquer forma, não há ninguém que conte histórias como ela.

 

Dessa vez, ele não respondeu. Tinham chegado ao palácio.

 

*-*-*-*-*

 

Seher nascera numa família de contadores de história. Desde muito pequeno, fora criado para suceder o pai, assim como o tinham feito seu avô e seu bisavô antes.

 

Entretanto, diferente deles, Seher nunca tivera uma veia para a fantasia. Em seus estudos, destacara-se, sobretudo, no campo dos números. Era um exímio enxadrista, conhecido por suas excelentes estratégias. Isso fora o suficiente para ser transformado em dos conselheiros do sultão.

 

Mas seu cargo principal continuara a ser a de Cheik el-Medah. Fora nessa função que recebera a pequena Amber como aprendiz, por ordem expressa do sultão anterior. A ela, ensinou tudo aquilo que aprendera por obrigação – enquanto ela recebia suas lições com entusiasmo.

 

Depois disso, ela recebera a honraria de se tornar uma Rawiya – contadora de histórias. Mas sempre era chamada pelo sultão com o título que pertencia a ele. Não que Seher se importasse. Daquela maneira, ele estava livre para exercer seu cargo de conselheiro.

 

E era como tal que agora seguia pelos corredores do palácio, antes de adentrar pelo portão da sala de audiências, onde o sultão conversava com sua esposa, princesa Harika.

 

- Altezas. – ele se pronunciou, fazendo uma reverência ao parar diante do trono.

 

- Boa noite, Seher. O que o traz aqui tão cedo? – Nassim perguntou, sorrindo – A reunião de conselho será após o jantar.

 

- Boa noite, meu senhor. – ele respondeu, aprumando-se – Vim trazer um pedido ao vosso conhecimento. Como o horário de audiências já terminou, me pediram para que intercedesse.

 

- Pode dizê-lo, Seher.

 

- A Senhora Mahati aguarda na Casa da Guarda por notícias da Rawiya.

 

Os olhos de Nassim nublaram-se, ao mesmo tempo em que Harika, ao lado do marido, observava-o. O sorriso doce de instantes atrás fora substituído por uma máscara impassível.

 

Não era segredo para ninguém no palácio que o sultão, mesmo antes de ascender ao trono, amava Amber. Nassim casara-se com Harika por obrigações para com seu posto, por alianças com o reino do pai de sua sultana; mas de bom grado teria feito dela uma segunda esposa e colocado Amber como sua rainha.

 

Harika o sabia. Não odiava Amber – entendia que a moça jamais fizera nada que pudesse ser chamado de “traiçoeira sedução” e que nunca dera a Nassim qualquer esperança. Por isso, desde que chegara ao palácio e travara relações com a pequena escrava, tentara ajudá-la a fugir por diversas vezes.

 

Todas frustradas por Nassim.

 

O sultão ainda não se esquecera da última dessas aventuras. Irritado ao ouvir o pedido de Seher, Nassim levantou-se, a capa farfalhando ao cair suavemente aos seus pés.

 

- Diga-lhe que essa noite, a contadora de histórias foi requisitada a serviço do Palácio.

 

E, sem esperar por resposta, ele deixou o salão. Seher fez uma ligeira mesura, ao mesmo tempo em que Harika levantava-se.

 

- Seher... – ela chamou, com a voz baixa.

 

- Minha senhora?

 

Ela respirou fundo, fechando os olhos por alguns instantes.

 

- Esqueça. É melhor ir transmitir a resposta do sultão.

 

Ele assentiu, também se retirando. Harika ficou sozinha e, aproximando-se de uma das janelas, voltou o olhar para o céu escuro.

 

Apesar de ter sido um casamento arranjado, ela amava o marido. Nassim era um bom rei, dedicado, inteligente, nobre em todos os aspectos de seu caráter. Ao mesmo tempo, era um homem distante, sério... Eram poucas as vezes em que se enxergava em seu semblante um sorriso verdadeiro.

 

E, geralmente, eles estavam relacionados à Rawiya, à escrava, à Amber.

 

Talvez fosse hora de tomar atitudes mais drásticas. Amber podia não ter culpa, mas, enquanto ela existisse, Nassim jamais a veria de verdade. Jamais a amaria como ela o amava. E ela só precisava de uma chance para tanto.

 

*-*-*-*-*

 

“Não julgue o mundo por aquilo que sua mãe foi.”

 

Aquelas palavras martelavam em sua mente desde que Mahati as proferira. Sabia que a mulher não tivera intenção e sequer passava por sua cabeça que o ferira profundamente dizendo aquilo.

 

Sua mãe. A mãe distante, ausente, a bela mulher que conseguia tudo aquilo que desejasse com um sorriso doce e um olhar lânguido, a maldita que era capaz de vender a alma para cumprir seus desígnios, mas que jamais soubera dirigir uma palavra de carinho ao único filho.

 

Deitado sobre o telhado da casa onde passara quase toda a infância, depois que fugira dos maus-tratos de um dos muitos amantes da mãe, Dunya observava o céu estrelado. Um sentimento estranho pesava em seu peito, algo que ele conhecera quando criança e que lhe parecera esquecido quando ingressara na vida adulta.

 

Seus pensamentos pareciam vagar por becos escuros, até que um assobio baixo e agudo ecoou não muito longe, arrancando-o violentamente de seus devaneios.

 

Um meio sorriso apareceu em seus lábios enquanto se sentava, tomando cuidado para não escorregar pelas telhas. Colocando as mãos em concha para amplificar o som, ele respondeu com um longo perturbador uivo.

 

Pouco depois, duas sombras apareceram nos beirais do telhado. Como Dunya, eram rapazes jovens e bem apessoados. Eles se sentaram ao lado do moreno, e, por algum tempo, apenas observaram o céu em silêncio.

 

Dunya observou-os com o canto dos olhos. Fares era um pouco mais velho do que ele. Exímio cavaleiro, lutara durante anos nas guerras contra os beduínos, até ser quase morto em combate, perdendo a visão do olho esquerdo. Já Rafi era de sua idade e, desde pequeno, vivera nas ruas, sem jamais conhecer pai ou mãe e sem ter a sorte de ter sido acolhido por uma mulher como Mahati.

 

Tinham se conhecido muitos anos atrás, no litoral, quando Dunya tentava começar a vida como marinheiro. Alguns barris de vinho e uma queda de braço depois, tinham se tornado inseparáveis.

 

- E então, o que descobriram? – ele perguntou, finalmente se pronunciando.

 

- O pagamento ao exército foi feito recentemente. – Fares respondeu, sério – Não haverá outro carregamento até a próxima estação, a não ser que a situação fique crítica na fronteira. Parece que alguns reinos menores estão procurando se unir para conseguir mais territórios... Isso ameaçaria o poder do sultão.

 

- E ele teria que contratar mais mercenários. – Rafi completou – Nassim prefere utilizar os serviços deles a colocar a vida do povo em risco. Só convocará os soldados da guarda em último caso.

 

- Até lá, ele continuará a pagar pelos serviços dos beduínos... – Dunya concluiu – Só temos que esperar então pelo próximo carregamento.

 

- Você tem noção de que, se realmente fizermos isso, o reino poderá entrar em colapso? – Fares perguntou.

 

Dunya sorriu.

 

- Receio que isso não seja problema meu. Enquanto esperamos, é bom não perderem a prática.

 

- Não é fácil você perder a prática nesse ramo de negócios... – Rafi também sorriu.

 

- Especialmente quando você depende apenas de sua agilidade para continuar vivendo. Você deveria saber disso melhor do que ninguém, El Dib.

 

O sorriso de Dunya aumentou ao ouvir o título que os companheiros costumavam usar com ele. O Lobo. Aquele que costumava infiltrar-se nas sombras e se tornara uma das grandes dores de cabeça do corpo de guarda.

 

- Eu sei, Fares. Não se preocupe. De qualquer forma, por enquanto, ninguém pode nos ver juntos. Mas continuem recolhendo informações. Vamos começar a agir tão logo saibamos o dia da saída do carregamento.

 

Os dois rapazes assentiram, levantando-se. Pouco depois, Dunya estava sozinho de novo. Deitou-se mais uma vez, cruzando os braços por trás da cabeça.

 

- El Dib. – ele repetiu mais uma vez para si mesmo, fechando os olhos – Parece que vai demorar um pouco, mas certamente teremos trabalho para você...

 

*-*-*-*-*

 

Com alguma dificuldade, suas mãos pequenas terminaram de fazer o complicado laço que prendia a boca do saquinho. Kadrya sorriu para Maryam que, ao seu lado, supervisionara toda a feitura dos biscoitos.

 

- Estão prontos. – a caçula observou, apresentando o pacote.

 

Maryam assentiu.

 

- Agora só precisamos arranjar alguém que leve o presente para nós.

 

- A senhora Zahra está muito ocupada hoje com as crianças novas que chegaram. – Kadrya respondeu – Ela não poderá visitar o palácio. Por que não podemos ir lá por nós mesmas?

 

- Porque nunca permitiriam que entrássemos para ver a senhora Amber. – Maryam respondeu – Afinal, somos crianças.

 

- E o que fazemos?

 

Maryam permaneceu pensativa por alguns instantes, antes de abrir um grande sorriso.

 

- Já sei! Vamos pedir a Dunya que leve os biscoitos para ela!

 

- Mas Dunya não a conhece... Como ela vai encontrá-la? – Kadrya objetou.

 

- É só perguntar, oras! – Maryam respondeu, bem humorada – Vem, vamos procurar o Dunya, ele deve estar...

 

- Vocês não vão precisar procurar muito. – Dunya, que vinha entrando na cozinha naquele instante e ouvira a menção a seu nome, parou diante delas – O que querem, meninas?

 

Kadrya estendeu as mãos, apresentando o embrulho para o rapaz.

 

- Você pode levar esse presente para a Senhora Amber? – ela perguntou docemente.

 

Dunya sorriu.

 

- E eu conseguiria negar alguma coisa a esses olhinhos encantadores? Pode deixar que levarei a vossa encomenda agora mesmo, minhas senhoras.

 

- Obrigada, Dunya! – as duas crianças exclamaram ao mesmo tempo, felizes.

 

Ele apenas assentiu, dando meia volta e saindo pelo mesmo lugar de onde viera. Não tinha mesmo muita coisa para fazer por hora e, indo ao palácio, talvez pudesse ter alguma pista sobre o carregamento que esperavam.

 

As ruas estavam cheias naquele começo de tarde, embora fizesse um calor quase insuportável. Não demorou muito para que chegasse diante dos portões do palácio do sultão, na parte mais central da cidade.

 

Dunya observou os guardas em seus postos de vigia, a grande maioria deles parecendo extremamente sonolenta. Um sorriso formou-se em seus lábios ao perceber a oportunidade que tinha diante de si.

 

Uma semana atrás, quando se encontrara com Fares e Rafi, avisara a eles que tomassem cuidado para não enferrujar. Era hora de colocar suas palavras diante de si mesmo.

 

O rapaz deu duas voltas ao redor do muro, memorizando cada um dos passadiços onde guardas trocavam palavras enquanto repousavam as lanças contra as paredes. Não demorou para que localizasse uma parte menos vigiada, onde o muro era mais áspero, dando a ele maiores oportunidades de se apoiar.

 

Além disso, algumas folhagens se deixavam entrever pelo outro lado. Seria capaz de apostar que aquela parte do muro daria nos jardins que as mulheres do palácio costumavam usar.

 

Olhando para os lados rapidamente, ele deu um impulso para frente, segurando uma primeira saliência no muro. Com facilidade, escalou as pedras do muro, até encontra-se sobre seu cimo.

 

Era exatamente como imaginara. Estava no jardim.

 

Silenciosamente, ele pulou para o chão, rolando na grama antes de se pôr em pé. Não havia ninguém à vista.

 

- Fácil demais... – ele sorriu para si mesmo, meneando a cabeça – Que tipo de segurança é essa que um sultão possui? Não é á toa que ele tem que contratar mercenários para guerrearem por ele.

 

Muito bem... Estava dentro do palácio. Agora, como faria para encontrar a pessoa que procurava? Ele não conhecia ainda a destinatária do presente de Kadrya e Maryam. Teria que encontrar alguém é perguntar. Mas, primeiro, tinha que saber onde era a saída daquele jardim.

 

- Eu devia ter falado com os guardas... – ele suspirou, perguntando-se o que aconteceria se fosse encontrado perdido ali dentro.

 

Meneando a cabeça, ele começou a andar, chegando à parte mais central do parque. E contatou, para sua surpresa, que não estava sozinho.

 

Havia uma fonte de mármore branco. Aos pés dela, um pequeno lago cheio de peixes dourados e vermelhos, como se fossem feitos de pedras preciosas. Uma garota estava sentada junto à fonte, os cabelos escuros soltos pelas costas, um longo pergaminho diante de si, apoiado em uma tábua de escriba.

 

Sem perceber, prendeu o pé na raiz de uma das árvores e, antes que pudesse dar por si, estava tombado no chão. A garota voltou-se rapidamente, o rosto despido de véu demonstrando sua surpresa.

 

Dunya e a garota se encararam em silêncio por alguns breves instantes, antes dela se levantar e caminhar até ele, estendendo-lhe a mão.

 

- O senhor está bem? – ela perguntou com a voz baixa.

 

Ele aceitou a mão que ela oferecia, ficando em pé e espanando a capa.

 

- Desculpe, eu acho que me assustei um pouco, pensei que estava sozinho. – ele respondeu, voltando a olhar para ela.

 

Ela tinha a pele mais clara do que era comum ver por aquelas bandas, embora os olhos fossem escuros e brilhantes. Era, pelo menos, uma cabeça mais baixa que ele, e toda sua constituição parecia exalar fragilidade.

 

Havia ainda uma certa aura de tristeza que ele não sabia precisar de onde se originava. Pela descrição que tinham feito a ele anteriormente, aquela só poderia ser a Cheik el-Medah.

 

Mahati não exagerara. Não era preciso olhar duas vezes para Amber para sentir a necessidade de protegê-la, fosse do que fosse.

 

Exatamente como era sua mãe.

 

- Eu imagino que a senhora seja a contadora de histórias? – ele perguntou, estendendo o olhar até os pergaminhos que ela deixara de lado para vir socorrê-lo.

 

Ela assentiu com a cabeça e ele sorriu, tirando de dentro do bolso o pacote que Kadrya lhe entregara mais cedo.

 

- Acredito então que possa afinal cumprir minha missão. Eu não tinha idéia de como poderia encontrar a senhora.

 

- Geralmente eu passo o dia aqui no jardim, a não ser quando meus serviços são requisitados. – ela respondeu, sem mudar de tom – Qualquer um no palácio a quem o senhor perguntasse lhe diria como chegar a mim.

 

- Bem, eu terei isso em mente da próxima vez que Kadrya e Maryam pedir que venha lhe entregar alguma coisa.

 

Os olhos de Amber brilharam e um meio sorriso formou-se nos lábios dela.

 

- O senhor também mora na casa da senhora Mahati?

 

A tristeza parecia ter cedido por alguns breves instantes enquanto ela recebia o presente das mãos dele.

 

- Eu fui acolhido por ela quando era criança. Aliás, antes que me esqueça, meu nome é Dunya. – ele se apresentou, fazendo uma breve mesura.

 

- Amber. – ela respondeu simplesmente – Obrigada por ter vindo trazer isso para mim. Poderia, por favor, levar um presente em agradecimento às meninas por mim?

 

Ele deu de ombros.

 

- Eu já estou aqui, não fará muita diferença.

 

Sem deixar de sorrir, Amber tirou dos dedos dois belos anéis dourados, entregando-os na mão do rapaz. Dunya piscou, confuso. Calculou rapidamente de cabeça o peso deles, avaliando o trabalho filigranado em ambos. Não eram contas de vidro. Eram jóias de verdade.

 

- A senhora tem certeza que quer mandar isso como agradecimento às meninas por uma fornada de biscoitos? – ele perguntou, voltando a olhar para ela.

 

Amber fechou os olhos por alguns instantes, as longas pestanas vibrando de leve. O sorriso voltou a desaparecer e ela apenas suspirou.

- Esses enfeites de nada me servem. Elas farão muito melhor uso deles.

 

Dunya observou ela se virar, voltando para seu lugar junto à fonte. Ele colocou os anéis no bolso, voltando-se para ela em seguida.

 

- Perdoe-me interrompê-la mais uma vez, senhora. – ele pediu, aproximando-se – Mas as crianças gostariam de vê-la.

 

Amber ergueu os olhos para ele.

 

- Diga a elas que eu sinto muito... Mas não posso.

 

- Por que não? – ele deu um passo para trás ao perceber que ela arqueara a sobrancelha – Desculpe-me, eu sei que não deveria...

 

- O sultão não permite. – ela respondeu simplesmente – Eu sou apenas uma escrava, meu senhor. Não posso fazer aquilo que desejo.

 

Havia agora um traço de amargura na voz dela, como se falar aquilo a machucasse. Amber voltou a abaixar a cabeça e, sem mais alternativas, Dunya fez uma ligeira mesura.

 

- Espero poder vê-la mais vezes, senhora. – ele ainda disse, despedindo-se em seguida.

 

Amber não respondeu. Nem mesmo voltou-se para fitá-lo mais uma vez. Em vez disso, continuou o trabalho que ele interrompera e, aos poucos, palavras formaram-se sob seus dedos, no pergaminho amarelado.

 

*-*-*-*-*

 

Aquela não foi a última vez que vi Dunya. Depois desse dia no jardim, por diversas vezes divisei os olhos dele a espreitar-me nas muitas horas em que passava junto à fonte. Não me importava com isso. Desde que ele se mantivesse distante, para mim era mais do que o suficiente.

 

Meu único temor era que Nassim percebesse a presença dele quando estivesse à minha procura. Os ciúmes do sultão poderiam ser mortais para meu novo conhecido.

 

Então, tão de repente quanto surgira, Dunya desapareceu. E eu quase sentia falta de saber que, quando erguesse a cabeça dos meus escritos, encontraria a companhia silenciosa dos olhos dele. Já cogitava a possibilidade de procurar saber se acontecera alguma coisa quando cruzei com ele por acaso dentro do palácio, usando o uniforme da guarda.

 

Não sei como ele conseguiu o cargo, mas rapidamente ele tinha ganho o respeito dos colegas por sua disciplina e zelo.

 

Oito luas tinham se passado desde minha última tentativa de fuga. A raiva do sultão já se dissipara quase de todo, mas eu ainda não estava liberada para deixar a corte e visitar as crianças.

 

Por isso, muitas vezes, procurava Dunya para entregar-lhe alguma prenda para os pequenos. Como não podia ir contar-lhes histórias, mandava os pergaminhos com elas escritas, para que Mahati lesse à noite. No dia seguinte, esperava ansiosa que ele aparecesse e contasse a reação delas à narrativa.

 

Essa era toda a minha alegria. Eram os poucos momentos em que me esquecia de minha condição e acreditava que minhas escolhas poderiam fazer alguma diferença. Os poucos momentos em que conseguia sorrir de verdade.

 

*-*-*-*-*

 

- É a quinta queixa que recebemos nessa linha, alteza. – Seher disse, enquanto observava os papéis que tinham resultado das audiências daquele dia – Ninguém viu ou ouviu nada, muito embora nenhuma das casas roubadas estivesse vazia. É quase como se as sombras tivessem se levantado contra seus senhores...

 

- O que a guarda tem a dizer sobre o assunto? – Nassim perguntou, também analisando os papéis.

 

- Eles não conseguem atinar como a coisa toda foi feita. A única pista que temos é o depoimento de um bêbado que jura ter visto um homem passar por ele carregando pesadas sacolas enquanto sombras o esperavam do outro lado da rua. E que esse homem teria se apresentado como “El Dib”.

 

O sultão respirou fundo, afundando o corpo no trono.

 

- Seja quem for esse El Dib, já causou um prejuízo considerável. Ele parece escolher a dedo as pessoas que vai roubar, a fim de causar mais rebuliço. Dois conselheiros, um general, todas pessoas ligadas à corte...

 

- Talvez ele esteja tentando desestabilizar o governo. – Seher respondeu – Podem ser pessoas de fora... Da fronteira...

 

- Não conseguiriam passar pelos beduínos. – Nassim meneou a cabeça – Enquanto pagarmos a eles em dia, não teremos que nos preocupar com isso. E não há porque querer desestabilizar a corte. Há mais de dez anos que mantemos a paz, as colheitas têm sido fartas, os impostos não são extremamente onerosos a ninguém... Eu não consigo entender.

 

Seher deu de ombros.

 

- Então, talvez, sejam apenas ladrões comuns. Ladrões que se divertem com o desafio que se impõe. É a única explicação que consigo encontrar.

 

Nassim levantou-se, assentindo.

 

- Faça com que o corpo da guarda dobre o contingente e passe a fazer rondas de duas em duas horas. Se eles querem um desafio, vamos, pelo menos, aumentar as dificuldades deles.

 

- Como quiser, alteza.

 

- A sessão está encerrada por hoje, Seher. Se qualquer outro conselheiro vier me procurar, avise que não abrirei a sala de audiências após o almoço.

 

Seher curvou-se ligeiramente, enquanto o sultão deixava a sala. Seguiu pelos corredores, sendo cumprimentado por todos que passavam por ele, até parar diante de uma porta cerrada.

 

O criado que o atendera de manhã dissera que Amber estava ligeiramente mal disposta aqueles dias. Quase não deixara o quarto e pouco comia. Não pudera dar atenção àquilo mais cedo, por conta de suas obrigações e dos problemas que tinham surgido com a sucessão de ataques de El Dib.

 

Mas agora, ali estava. Aquela porta cerrada era, muitas e muitas vezes, o fim da caminhada que suas noites de insônia lhe proporcionavam. Embora desejasse seguir adiante e passar por ela, nunca o fizera antes, nem mesmo na infância, quando procurava a pequena Amber para que lhe contasse alguma história.

 

Com os nós dos dedos, ele bateu à porta e, logo em seguida, o rosto de uma criada apareceu. Ela pareceu ligeiramente surpresa por vê-lo ali, mas, logo em seguida, escancarou a passagem, saindo em seguida e batendo a porta atrás de si.

 

Amber estava sentada na cama, coberta até a cintura pelos lençóis. Parecia ligeiramente mais pálida que o normal, embora um leve rubor se visse nas bochechas, junto ao nariz. Ela voltou-se para ele quando o ouviu entrar e sorriu tristemente, cumprimentando-o.

 

- Boa tarde, alteza.

 

Nassim inclinou a cabeça em resposta, sentando na cadeira que a criada ocupara até instantes atrás, junto à cabeceira dela.

 

- Ouvi dizer que a senhora não estava se sentindo bem.

 

- Foi apenas uma fraqueza. – ela respondeu, fechando os olhos de leve.

 

- Eu mandarei o médico real vir examiná-la mais tarde.

 

- Não será necessário, eu...

 

- Poderia me contar uma história agora, minha senhora? – ele perguntou, encarando-a.

 

Respirando fundo, Amber fixou os olhos no rosto dele. Passou a língua de leve sobre os lábios secos e assentiu.

 

- Antes disso, vossa alteza me permitiria molhar um pouco a garganta? Trouxeram-me um pouco de suco mais cedo, mas eu ainda não pude bebê-lo.

 

O sultão assentiu e, levantando-se, pegou a jarra de suco que estava numa mesa junto à janela, enchendo uma taça e entregando-a à Amber. Ela bebeu rapidamente, o rosto assumindo um tom ainda mais corado do que antes. Ela tossiu de leve, enquanto o sultão a observava, em pé, junto a sua cama.

 

- Senhora?

 

A tosse continuou, cada vez mais forte. Nassim, assustado, ajoelhou-se na cama, tocando de leve a fronte de Amber. Ela queimava em febre.

 

- Por todos os deuses, o que significa isso?

 

Amber abaixou a cabeça, segurando o peito, como se lhe doesse respirar. Ela fechou os olhos, mordendo os lábios. Por que seu peito doía tanto? Não se sentia assim até alguns instantes atrás.

 

Nassim levantou-se, abrindo a porta com violência. Ela ouviu alguns gritos ecoarem, mas, a cada minuto, eles pareciam vir de mais longe. Aos poucos, sua visão foi escurecendo e ela só podia divisar sombras caminhando ao seu redor. Logo então, o som findou-se. E, quase sem perceber, Amber mergulhou na inconsciência.

 

*-*-*-*-*

 

- Envenenamento. Como ela já estava ligeiramente debilitada, acharam que podiam matá-la sem levantar suspeitas.

 

- Já chegaram a algum suspeito?

 

- Não. Mas só pode ter sido alguém da corte, não é mesmo?

 

- Você acha que a rainha...

 

- Eu não acho nada. E vamos trabalhar.

 

Dunya observou os dois copeiros que conversavam perto dele se dispersarem. O pequeno diálogo que entreouvira fora o bastante para entender o tumulto que assaltara o palácio uma semana antes, desde sua última ronda.

 

Estava trabalhando na guarda há quase três meses. Era um posto privilegiado – dentro do corpo de guarda ele se mantinha a par das investigações sobre os assaltos que ele, Fares e Rafi efetuavam, além de ter acesso a informações sobre o carregamento que esperavam.

 

E também tinha facilitada sua passagem até Amber.

 

Não sabia explicar o porquê daquele súbito interesse pelo destino da moça. Sabia apenas que se tornara parte da sua rotina encontrá-la no jardim, na maior parte das vezes acompanhada de penas e pergaminhos e, em outras, mais raras, junto a uma harpa, dedilhando-a calmamente.

 

Gostava de ouvir a voz melodiosa dela, contando baixinho seus belos contos. Muitas vezes, o sultão aparecia logo após o almoço e Dunya se ocultava entre as folhagens, de modo a não perder nenhuma palavra. Gostava também de assisti-la brincar na fonte, os pés nus chapinhando na água, assustando os peixes coloridos.

 

Entretanto, ele não trabalhara durante a última semana. Descobrira que o carregamento de ouro para os beduínos estava quase pronto e sairia naqueles dias. Pedira uma folga no regimento e, por ter cumprido todas as rondas noturnas de sua responsabilidade, acabara por ganhar uma semana. O suficiente para organizar tudo para o grande assalto.

 

Justamente a semana em que Amber adoecera... Junto com Rafi e Fares, tinha passado todas as noites no deserto, procurando o melhor lugar para o ataque e providenciando armas, cavalos e outros equipamentos. Embora mergulhado no trabalho, em todos os momentos em que deixava a mente vagar sozinha, descobria-se contando as horas até que pudesse encontrar a contadora de novo. Aquilo o transtornara sobremaneira.

 

Sentia-se como apanhado em um feitiço. Entretanto, ele sabia, era um encanto diferente daquele que ele assistia sua mãe lançar em suas “presas”.

 

- Dunya!!!

 

Ele sentiu braços roliços se prenderem em seu pescoço e, em seguida, o rosto de Kadrya entrou em foco.

 

- Olá, Kadie. O que está fazendo aqui?

 

- Viemos visitar a Cheik el-Medah. – a voz de Mahati respondeu.

 

O moreno voltou-se para frente, encontrando a senhora acompanhada de Maryam e Melik.

 

- Como vocês ficaram sabendo o que aconteceu? – ele perguntou – Até ontem, não sabíamos de nada.

 

- Um criado chegou pouco depois de você ter saído. – Melik explicou – Ele disse que a rawiya nos tinha convidado para passar a tarde com ela.

 

- O próprio sultão deu ordens para tanto. – Maryam completou orgulhosa – O médico acha que a senhora Amber ficará mais forte se encontrar conosco.

 

Dunya sorriu, assentindo.

 

- Tenho certeza que sim. Acredito então já estejam sendo esperados.

 

Mahati confirmou.

 

- Sim. Pediram que nos apresentássemos à sala de audiências. Nós só passamos rapidamente para vê-lo e vamos para lá agora.

 

- Mandem meus cumprimentos à rawiya. – ele pediu, pouco antes deles começarem a se distanciar.

 

Dunya voltou a ficar sozinho, remoendo seus pensamentos. Veneno... Por que a rainha tentaria envenenar uma simples escrava? Desconfiaria dela com o marido? Mas Dunya passava grande parte do seu tempo observando Amber, especialmente quando ela estava com o sultão, e jamais vira sinal de que houvesse entre eles alguma coisa além de respeito, pelo menos, não da parte dela.

 

Mesmo sem querer, sentia-se preocupado. Ainda não fora vê-la, embora essa fosse sua vontade desde que chegara pela manhã ao palácio. E agora, com as crianças ali, ela certamente começaria a contar uma história...

 

Aprumando-se, ele deixou os muros que tinha a responsabilidade de patrulhar, esgueirando-se pelas sombras até chegar ao jardim. Lá estava ela, junto à fonte, conversando com Mahati. Aos seus pés, sobre uma toalha, uma profusão de doces e bolos. As crianças agora corriam pela grama, envolvidas em alguma brincadeira.

 

Passando despercebido, ele içou-se para a copa da árvore que costumava usar em seus momentos de observação, logo procurando o rosto de Amber. Ela parecia pálida – embora pudesse ser algum efeito de luz – mas havia um sorriso calmo em seus lábios; um sorriso que ele não se lembrava de ter presenciado.

 

Nesse momento, Dunya sentiu-se observado. Do alto da árvore em que se isolara, ele percebeu o sultão encarando-o, a face neutra, muito embora houvesse uma frieza estranha em seus olhos. Não sabia quando fora que o outro chegara. Talvez até o tivesse visto correndo abaixado por entre as folhagens. Mas a verdade é que o moreno pouco se importava com isso.

 

A brisa quente da tarde trouxe o som do riso das crianças e da conversa das mulheres. Quase ao mesmo tempo, os dois desviaram o olhar para Amber, que agora se sentava na grama, puxando Kadrya para seu colo. A mulher começara a contar uma história e, por alguns instantes, ambos quedaram-se apenas a ouvi-la.

 

- E eis que se apresenta o Destino, com seus olhos baços, disposto a seguir o caminho que seu grande livro murmura, rasgando os véus da ilusão do livre-arbítrio... ²

 

Nassim voltou-se novamente para o palácio, a capa branca enfurnando atrás de si, enquanto Dunya perdia-se nas palavras e na voz melodiosa da escrava. Havia um quê de amargura naquela história, amargura e uma enorme tristeza...

 

As primeiras estrelas já começavam a surgir quando Mahati levantou-se de seu lugar, batendo palmas e avisando que já era hora de ir, pois Amber precisava descansar. Muitos protestos e despedidas depois, ele encontrou-se sozinho com a rawiya no jardim. Silenciosamente, deixou seu esconderijo, pulando para a grama fofa. A passos leves, ele aproximou-se da moça, que agora se deitara numa espécie de espreguiçadeira, mantendo os olhos fechados, ligeiramente pálida e arfante.

 

- Parece-me que contar histórias para a Senhora é como lutar de mãos limpas. - ele observou, sentando-se na cadeira que Mahati ocupara até alguns minutos atrás.

 

Amber reabriu os olhos, assustada, antes de perceber que estava diante do antigo protegido da senhora Zahra. Sorrindo, ela aprumou-se.

 

- Perdoe-me, eu não sabia que o senhor estava aqui hoje.

 

Dunya apenas sorriu, desviando o olhar para observar os muros altos que cercavam o jardim.

 

- Uma história muito sombria para crianças, não? - ele perguntou.

 

- Talvez. – ela respondeu com a voz baixa, um tanto roucamente – Às vezes precisamos nos contentar com frutos amargos em vez de doçura.

 

Ele a observou em silêncio por alguns instantes, analisando o rosto dela, como se procurasse naqueles olhos escuros algum indício de traição, algum traço de sua mãe.

 

- A senhora Mahati me contou um pouco sobre você tempos atrás, antes que eu a pudesse conhecer. – Dunya observou, sem desviar sua atenção dela.

 

- Devo demonstrar alguma curiosidade sobre o que pensava a meu respeito? – ela perguntou, inclinando a cabeça de leve.

 

- Você não deve nada. – ele respondeu, abaixando os olhos – Por que se deixa prender aqui, Amber, como um pássaro numa gaiola?

 

Ela não pareceu surpresa com a pergunta. O silêncio voltou a envolvê-los, até que Dunya voltou a levantar a cabeça, percebendo que ela não deixara de encará-lo.

 

- Não são correntes que me prendem a esse lugar. – ela respondeu, levantando-se e caminhando ao largo da fonte, dando as costas a ele – Outras pessoas dependem de mim. Pessoas pelas quais daria de bom grado a minha vida.

 

- Você está falando das crianças?

 

Ao longe o sol se punha, radioso, dardejando lanças douradas sobre as fronteiras entre a cidade e o deserto, brincando nas correntezas do rio que cortava todo o reino e permitia àquele povo que fosse sobrevivendo em paz. Amber voltou-se para ele mais uma vez.

 

- Se eu tivesse a oportunidade de escolher, eu preferiria ter sucumbido ao ataque da rainha. Mas sou apenas um peão do destino. Devo seguir por onde ele me leva.

 

Dunya também se levantou.

 

- Você realmente acredita nisso? Acredita que suas escolhas não influem em nada? Que, independente do que pensa ou sinta, seu caminho é traçado pelo destino?

 

Ela não respondeu. Por sua vez, ele aproximou-se, parando aos pés dela.

 

- Acredita mesmo que, independente de qualquer querer, é o destino quem te mantém cativa?

 

As árvores balançavam-se ao sabor da brisa morna, que fazia a água levantar pequenas ondas, enquanto os peixes pareciam querer capturar em suas escamas as cores do sol. Dunya levantou a mão, acariciando de leve a face dela.

 

- Você deseja ser livre, Amber?

 

Ela fechou os olhos, uma lágrima perolada rolando pelo rosto até os dedos de Dunya. Assentiu com a cabeça quase imperceptivelmente. O rapaz sorriu, dando um passo para trás.

 

- Eu vou duelar com o Destino então. Se ele escolheu te aprisionar, El Dib cuidará de te devolver a liberdade.

 

- Do que está falando? – ela perguntou, rouca, voltando a encará-lo – Quem é el Dib?

 

- Guarde esse nome, rawiya. – ele sorriu, fazendo uma ligeira mesura com a cabeça - Um dia, você há de contar histórias sobre o Lobo.

 

E, com isso, deixou o jardim correndo. Amber observou a figura dele desaparecer, incerta sobre o que se passara ali.

 

- El Dib... – ela repetiu para si mesma, antes de voltar-se novamente para o entardecer.

 

*-*-*-*-*

 

Muito longe, uivos longos e fúnebres soavam, fazendo com que a noite se tornasse ainda mais fria. Os soldados que escoltavam o carregamento de ouro para os mercenários que costumavam proteger as fronteiras do reino mantinham-se uns próximos aos outros, archotes e espadas confundindo-se em meios às sombras lançadas sobre as dunas.

 

Tão logo começavam a conversas, as vozes morriam. Era quase uma heresia quebrar o silêncio do deserto. Exceto pelos uivos de lobos desgarrados e os pios das parcas corujas que ainda procuravam algum alimento antes de voltarem a seus ninhos, dispostas a se esconderem do sol escaldante durante o dia para, à noite, recomeçarem sua busca.

 

O acampamento de beduínos ainda estava longe. Mas nenhum dos soldados sentia ânimo em deixar de caminhar e abrigar-se junto a alguma daquelas altas dunas ou aos paredões de pedra, onde o vento sibilante parecia muito mais ameaçador.

 

Fares observava o comboio de um desses paredões, meneando a cabeça para Rafi, que se ocupava em envolver as pontas de suas flechas em algodão, antes de embebê-las em óleo.

 

- Eu posso sentir o cheiro de medo deles daqui. Não será muito difícil. Eles fugirão atemorizados à primeira investida.

 

- Eu prefiro que seja assim. – Rafi respondeu – Não gosto da idéia de termos combates corpo a corpo.

 

Nesse momento, Dunya apareceu pela parte mais escarpada do paredão, respirando forte antes de sentar-se junto a Rafi, ajudando-o com as flechas.

 

- Está tudo pronto. Tão logo eles entrem no círculo de pedras, jogamos as flechas. Elas vão acertar as fogueiras que arrumamos mais cedo. Achando que o fogo brotou do chão, eles certamente pensarão que somos algum tipo de deuses reivindicando nossa parte no botim.

 

- Ainda é tempo de repensar, Dib. – Fares observou, sem olhar para o companheiro – Existem grandes possibilidades dessa ação acabar levando o reino a uma peleja. Duvido muito que o sultão possua ouro suficiente para repor o que levaremos daqui. E não nos adiantará muito estarmos ricos se estivermos numa terra devastada pela guerra.

 

- Não se preocupe, Fares. – Dunya respondeu – Só precisamos de uma pequena porção daquele ouro para nos mantermos de férias por um bom tempo. Eu pretendo negociar com o sultão. Entregamos o pagamento aos mercenários, desde que possamos tirar uma porcentagem do tesouro.

 

- Você não tinha falado sobre isso nas muitas vezes em que discutimos o assunto à exaustão. – Fares voltou-se para ele, arqueando a sobrancelha.

 

- É divertido vê-lo preocupado. – Dunya respondeu, dando de ombros – Rafi, você está com as flechas prontas?

 

- Pode ter certeza que sim, chefe. – o rapaz respondeu, piscando o olho.

 

- Então, Fares, vamos descendo. Não demora para ser nossa deixa.

 

- Eu não sei por que ainda escuto você. – o homem se pronunciou, levantando-se.

 

Dunya sorriu.

 

- Eu ainda sou o líder da alcatéia. Vamos indo...

 

*-*-*-*-*

 

Seher parou do lado de fora dos aposentos reais, esperando que os guardas o anunciassem. Não demorou para que as pesadas portas de carvalho fossem abertas para o conselheiro. Nassim já estava em pé, usando uma longa túnica por cima dos trajes de dormir. Harika também estava lá, impassível, enquanto observava o terminar de se levantar, tomando seu lugar imperioso nos céus.

 

- O que aconteceu exatamente, Seher? – Nassim perguntou, preocupado, indicando uma cadeira de espaldar alto para o outro – Que más novas me trazes hoje?

 

- O carregamento, senhor... – Seher começou, balbuciando – A escolta voltou aterrorizada... Eles dizem que foram atacados por espíritos do deserto. Parece que chamas irromperam do chão, lobos avançaram sobre eles... O ouro foi roubado.

 

Nassim se deixou cair em sua cadeira, escondendo o rosto nas mãos. O silêncio dominou os aposentos reais por longos minutos, enquanto o sultão tentava assimilar o peso daquelas palavras.

 

- Há alguma pista?

 

O conselheiro retirou uma flecha queimada de dentro da capa, depositando-a sobre a mesa.

 

- Não eram espíritos do deserto. O chefe da guarda foi o único que ficou para trás. Foi gravemente ferido. Os outros soldados o resgataram ao amanhecer, antes de tomarem o caminho de volta. Foi ele quem trouxe a flecha.

 

- Precisamos descobrir quem fez isso. – Nassim respondeu, levantando-se – Se não resgatarmos o ouro, não haverá mais nenhuma proteção nas fronteiras. Os beduínos não aceitarão que prorroguemos o prazo de pagamento.

 

Seher suspirou.

 

- Nós já sabemos quem foi, alteza. Na verdade, ele se encontra nesse momento na sala de audiências.

 

Os olhos de Nassim se arregalaram, e uma veia saltou em seu pescoço.

 

- Mas o que significa esse teatro?

 

Sem esperar resposta, Nassim levantou-se impetuosamente, empurrando as portas com as própria mãos e saindo a passos rápidos pelos corredores, diante dos olhares atônitos dos guardas.

 

Harika e Seher se encararam por breves instantes e o conselheiro também se levantou.

 

- Não sabia que a senhora tinha voltado para os aposentos do sultão. Depois do que aconteceu com a pequena Amber...

 

- Foi ele quem me forçou a tal extremo. – Harika respondeu – Mas eu ainda sou a rainha e, mesmo que ele não suporte minha visão, tenho o direito de saber o que se está passando em meu reino.

 

- Talvez, então, goste de saber que, dependendo do que ocorrerá na reunião entre o sultão e El Dib, a senhora há de se livrar da sombra da contadora de histórias.

 

Harika estreitou os olhos.

 

- O que está querendo dizer, Seher?

 

- Que o preço pela paz de nosso reino é a liberdade daquela escrava.

 

A sultana ainda observou-o por alguns instantes, antes de também deixar os aposentos, decidida. Quando entrou no salão de audiências, encontrou Nassim no centro do aposento, uma cimitarra desnuda nas mãos, segurando-a contra o pescoço de um rapaz não muito mais velho que ele, de cabelos negros e olhos claros.

 

Lembrava-se de já ter visto aquele homem no palácio. Apenas de relance, é bem verdade. Mas tinha uma boa memória.

 

Ele envergara o uniforme da casa de guarda. Tinham mantido a serpente debaixo de seu próprio teto.

 

Dunya sorriu com o canto dos lábios, enquanto sentia a lâmina fazer-lhe cócegas no pomo-de-adão.  Nassim estava lívido, os lábios contraídos, os nós das mãos muito brancos, demonstrando a força com que segurava a espada.

 

- Não pense que me matar ou me prender aqui vá salvar ser poder, sultão. – ele observou, sem mover-se um centímetro – Se algo acontecer a mim, meus companheiros farão o favor de sumir para sempre com aquele carregamento.

 

Harika observou o marido morder os lábios, abaixando relutantemente a espada, sem desviar os olhos de Dunya.

 

- O que quer afinal? Não basta o que fez, veio aqui também para zombar de nós?

 

- Não, sire. – Dunya respondeu, com uma mesura irônica – Eu vim para propor-lhe um trato.

 

- Os olhos de Nassim faiscaram.

 

- Trato?

 

- Espero que não se importe de negociar com ladrões, meu senhor. – Dunya continuou – Mas temos uma proposta que, certamente, há de satisfazer a todos os lados da questão.

 

- O que queres? – o sultão voltou a perguntar.

 

- É simples. O senhor permitirá que negociemos com os beduínos. Nós faremos o carregamento chegar em segurança até eles e ficaremos com uma pequena porcentagem do tesouro.

 

Nassim assentiu.

 

- É só isso então? Talvez devesse tê-los contratado para fazer o transporte no lugar de meus guardas. Interessante notar, entretanto, que, até dois dias atrás, o senhor era um deles.

 

Dunya voltou a sorrir.

 

- Entenda, senhor... Não seria grande vantagem para nós ter tanto dinheiro à nossa disposição e uma terra devastada pela guerra para gastá-lo. Mas essa não é nossa única condição.

 

- Creio que há de pedir salvo-conduto para você e seus companheiros. Para que não seja preso tão logo devolva o carregamento.

 

- Na verdade, eu não tinha pensado nisso. Mas pode incluir no pagamento.

 

- E o que mais vocês querem?

 

- Sua escrava. A Contadora de Histórias. Amber.

 

A espada voltou a tinir, encostando-se ao pescoço de Dunya pela segunda vez. Harika deixou escapar um grito abafado, enquanto a face da Nassim contorcia-se em fúria, muito mais do que ele sentira quando encarara o maldito ladrão assim que entrara na sala.

 

O sorriso de Dunya não vacilou. Os dois encaravam-se, como se a medir forças. Passos ecoaram à entrada do salão e, em seguida, Seher estava de volta à cena.

 

- Meu senhor...

 

- Cale-se, Seher. Eu vou fatiar esse insolente nesse exato instante. Não me importo com o carregamento. Mas você não me fará de tolo.

 

- Você está sendo um tolo, Nassim. – Harika se pronunciou, dando um passo à frente – Está trocando a paz e a felicidade do seu povo; sua responsabilidade; por uma obsessão infantil. Aquela garota nunca vai ser sua. Desista de uma vez.

 

- É isso que você quer, não? Está mancomunada com ele, Harika? Você, que por muito pouco, não se tornou uma assassina?!

 

- Você está louco! – ela gritou, os olhos marejando-se rapidamente – Largue essa espada! Entregue aquela maldita escrava de uma vez por todas!

 

- É isso que você quer, não é? – Nassim gritou de volta, sem deixar de olhar para Dunya, que mantinha o sorriso arrogante nos lábios – É isso que todos querem!

 

- Pense bem, alteza. – Seher pediu, parando atrás dele – A corte não vai apoiá-lo nessa decisão. Quando eles descobrirem que o carregamento foi levado, sua posição ficará fragilizada. E, se nada tiver sido resolvido até lá... Vai sacrificar seu reino e seu poder por algo que nunca poderá possuir?

 

Nassim fechou os olhos, abaixando a espada.

 

- Fico feliz que tenha ouvido o conselho dos mais sábios, sire. – Dunya observou – Ao entardecer, virão buscar a rawiya. Espero que ela esteja pronta para partir até lá.

 

Como não houve resposta, Dunya apenas fez uma mesura para o sultão e para Harika, antes de deixar o salão, seus passos ecoando nos tapetes antes de desaparecerem, junto com sua figura.

 

- Foi a melhor escolha, meu senhor. – Seher observou, colocando uma mão sobre o ombro do sultão.

 

Nassim voltou a abrir os olhos, detendo-os em Harika por alguns instantes. Ela sustentou o olhar dele, sem nada dizer. Finalmente, ele desvencilhou-se do conselheiro, também deixando o salão para trás.

 

Rapidamente, ele dirigiu-se até os aposentos que eram reservados à Amber. Lá a encontrou terminando-se de pentear os longos cabelos, alguns livros sobre a penteadeira, demonstrando que ela já começaria a estudar.

 

Era sempre assim que a encontrava. Mergulhada em algum livro, escrevendo em longos pergaminhos com sua letra elegante, preparando mais um conto para satisfação de todos aqueles que se deliciavam em ouvi-la.

 

- Meu senhor? – ela perguntou, quando ele fechou a porta do quarto atrás de si, observando-o com os olhos curiosos

 

- Eu sinto muito por invadir vossa privacidade tão cedo e dessa maneira. – ele pediu, passando por ela e debruçando-se junto à janela, dando espaço para que ela terminasse de prender os cabelos numa longa trança.

 

- O senhor quer que eu conte alguma história? – ela perguntou, levantando-se.

 

- Eu teria dado metade do meu poder, metade do meu reino, metade da minha alma se com isso pudesse conquistar tua afeição. - Nassim continuou, sem olhar para ela - Como nunca consegui tal feito, contentava-me com a posse: com o poder vê-la sempre que quisesse e ouvi-la quando desejasse. Agora, entretanto, até tal consolo me foi tirado.

 

Amber estreitou os olhos, observando o sultão com cuidado.

 

- Do que vossa alteza está falando?

 

Nassim suspirou, abaixando a cabeça. Amber percebeu que as mãos dele sobre o balcão estavam agora firmemente cerradas.

 

- Eu vendi você.

 

Ele virou-se para ela, encarando-a. Amber tinha os olhos escuros fixos nele. O belo rosto estava pálido, e o colo subia e descia sem regularidade. Nassim voltou a cerrar firmemente as mãos, trincando os dentes. Não podia se aproximar dela naquela instante, ou voltaria atrás em sua decisão.

 

Aos poucos, a cor voltou às faces de Amber e ela se levantou, quedando-se numa postura ereta, repleta de um orgulho ferido.

 

- Teria sido melhor que deixásseis o veneno correr por minhas veias. - ela observou, com a voz controlada.

 

Dando um passo à frente, ele procurou palavras para argumentar. Mas refreou-se ante o olhar dela.

 

- Você deverá estar pronta para partir ao entardecer. - ele disse, desviando o olhar - Pode levar o que quiser do palácio.

 

Amber não respondeu e, sem mais nada para fazer ali, Nassim deixou o aposento.

 

*-*-*-*-*

 

Ninguém pode escapar de seu destino. Por mais que possa lutar.

 

Eu tentei acreditar. Eu queria acreditar nas palavras de Dunya. Queria crer que ele daria minha liberdade. Mas agora... Agora não existe esperança. Esperança de quê, se todas as minhas crenças estão ruindo, uma a uma?

 

Eu acreditei em Nassim. Acreditei no amor que ele dizia me devotar. Acreditei, mesmo que ele me mantivesse cativa. Acreditei mesmo que não o amasse em retorno. Acreditei porque precisava crer em alguma coisa para continuar a viver nessa prisão dourada.

 

Mas eu sou uma escrava. Um objeto do qual as pessoas se podem desfazer. Que pode ser vendida ou dada em troca. Sem escolha. Sem caminho, sem alternativa.

 

Por que alguém que dizia me amar vendeu-me de maneira tão fácil, tão ignomiosa? Como ele pode dizer que daria metade da própria alma pela minha afeição se não pode me dar, simplesmente, minha liberdade?

 

É meu destino estar presa a essa condição? Quem será meu novo dono? O que ele há de querer de mim?

 

*-*-*-*-*

 

- Entre.

 

Seher entreabriu a porta, encontrando Amber sentada no chão, a cabeça encostada displicentemente junto à cama. Havia marcas de lágrimas no rosto delicado dela.

 

- Está na hora. – o conselheiro afirmou.

 

Ela assentiu em silêncio, abaixando a cabeça. Seher observou-a em silêncio por alguns instantes, antes de ajoelhar-se ao lado dela.

 

- Minha criança... Tanta dor... – ele suspirou – Nassim não teve escolha. Ele não tem culpa. Ninguém tem culpa de nada.

 

Amber levantou a cabeça, fixando os olhos marejados no rosto de seu antigo tutor.

 

- Então, por quê...

 

- A sua liberdade foi trocada pela vida de todas as pessoas desse reino. Para que não houvesse guerra... O pagamento dos beduínos foi roubado. Sem eles...

 

- Sem eles, os reinos das fronteiras conseguiriam invadir a cidade. – ela completou, arregalando os olhos – Mas o que isso tem a ver comigo?

 

- O líder dos bandidos exigiu você para devolver o carregamento. – Seher respondeu – Não havia outro caminho a seguir.

 

Ela assentiu, uma lágrima escapando ao seu controle.

 

- Eu entendo. Esse talvez seja meu destino. Servir sempre como sacrifício. – ela respondeu baixinho – Quando tentei fugir, me acovardei por temer a represália sobre as crianças. Agora, troco de senhor para manter a paz. - limpando o rosto, ela se levantou – Estou pronta.

 

Seher assentiu e conduziu-a para fora do quarto. Enquanto passava pelos corredores, Amber pensava em como fora feliz ali, apesar de tudo. Os dois penetraram pelo salão de audiências e lá, uma última vez, ela teve que encarar o sultão.

 

Ele estava sentado no trono, mas imediatamente levantou-se ao vê-la. Ela trocou um olhar com Seher e, em seguida, adiantou-se até ele.

 

- Acredito que essa seja a última vez que nos encontremos.

 

Nassim assentiu, encarando-a em silêncio, antes de erguer a mão, tirando do dedo um magnífico anel, incrustado com um único e perfeito rubi.

 

- Eu gostaria que você aceitasse esse último presente. – ele pediu, em voz baixa.

 

- Eu sinto muito se nunca fui capaz de corresponder aos vossos sentimentos. – ela respondeu num sussurro, deixando que ele colocasse o anel em seu dedo.

 

- E eu sinto muito por nunca ter lhe dado aquilo que você realmente queria. Agora é tarde demais...

 

Ela sorriu tristemente, assentindo. Em seguida, dando as costas a ele, seguiu novamente com Seher até o portão principal do palácio. Um homem usando um tapa-olho aproximou-se deles, curvando-se ligeiramente. Amber perguntou-se se aquele era seu novo dono e o que ele poderia desejar dela.

 

- Não a machuque. – Seher pediu, antes de entrega-la ao homem.

 

O outro apenas assentiu.

 

- Não se preocupe. El Dib não fará mal algum a ela.

 

Os olhos de Amber se arregalaram em choque. O Lobo... O que aquilo queria significar? O que Dunya podia ter com aqueles ladrões?

 

Ela mal ouviu Seher se despedindo. Pouco depois, era guiada pelo homem pelas ruas apinhadas de gente. Seria fácil para ela fugir ali. Entretanto, o que aconteceria se não honrasse a palavra dada por Nassim? O que aconteceria se o ouro não fosse entregue aos beduínos e as fronteiras fossem invadidas?

 

Caminharam até quase saírem da cidade. Amber percebia olhares atravessados em sua direção e perguntava-se o que as pessoas que passava por eles pensariam sobre o que estava acontecendo. Saberiam elas que estava indo para o sacrifício silenciosamente, para que elas pudessem continuar a viver suas vidas em paz?

 

- El Dib está esperando aqui. – o homem parou, voltando-se para ela.

 

Amber ergueu os olhos para um casebre mal cuidado. Era ali que viveria daquele dia em diante? Seu guia abriu a porta, dando passagem para ela. Respirando fundo, a jovem deu dois passos para dentro, espantando-se com a semi-escuridão do único aposento do lugar.

 

Havia uma pessoa sentada no chão, apoiada à parede. Amber viu a sombra dele levantar-se, enquanto a porta do casebre era fechada atrás dela. De repente, era como se tivesse perdido a sensibilidade das pernas. O medo tomava conta do seu coração e, fosse o que fosse acontecer ali, ela só esperava que fosse rápido.

 

Ela caiu ajoelhada no chão, tentando controlar os soluços que tentavam atravessar sua garganta. Passos ecoaram de um lado para o outro e, pouco depois, a luz tênue de uma vela iluminou o chão, as paredes e, por fim... Dunya.

 

Ele sorriu para ela, colocando a vela sobre uma mesa carcomida.

 

- Seja bem-vinda ao meu palácio. Sinto muito não termos arranjado acomodações à altura para essa ocasião, mas...

 

Abaixando a cabeça, ela deixou um soluço escapar. Dunya piscou os olhos, confuso. Por que ela parecia ainda mais melancólica do que quando a conhecera no palácio? Ela não entendia?

 

- Amber... – ele chamou.

 

- Eu pertenço a você agora. - ela respondeu, ainda de cabeça baixa, incapaz de encarar Dunya.

 

Ele arregalou os olhos. Então era isso? Ela achava... Achava que ele a queria como escrava dele?

 

- Não, Amber.

 

O rapaz ajoelhou-se no chão ao lado dela, erguendo-a delicadamente pelo queixo, de modo a encarar os olhos escuros de sua contadora de histórias. Estavam marejados, cheios de uma mágoa silenciosa, de uma tristeza quase palpável. Ele meneou a cabeça, fechando os próprios olhos.

 

- Você não pertence a ninguém, Amber. A ninguém além de você mesma. Eu não a comprei para mantê-la como minha escrava. Mas para lhe dar a liberdade. Você escolhe o que quer fazer dela.

 

As pupilas se dilataram em choque e a própria respiração dela parecia mais difícil agora. Através das lágrimas, agora abundantes, ela via a imagem borrada do rapaz, observando-a, sério.

 

- Eu... – ela balbuciou, sem deixar de encará-lo - Eu sou livre?

 

Ele sorriu em resposta, assentindo com a cabeça.

 

- Sim. Agora... – ele se levantou, trazendo-a pela mão para junto de si - O que fará com essa liberdade?

 

*-*-*-*-*

 

Paro por alguns instantes para recuperar o fôlego. Do alto da colina que acabo de subir, posso descortinar toda a cidade. Embora esteja muito longe, diviso ainda a silhueta do palácio e sinto, intimamente, que Nassim me observa da sacada do grande salão real.

 

Meus olhos percorrem os pequenos pontos coloridos em que se tornaram os telhados das casas. Daqui não posso mais ter certeza de onde está a casa de Mahati. Mas ainda conheço a direção.

 

Dunya. El Dib. Ele também está lá, olhando para o céu estrelado, deitado sobre as telhas, como um velho lobo solitário. Talvez, um dia, eu possa voltar a encontrá-los. E, talvez então, possa pagar minha dívida.

 

Até lá... Sorrindo, puxo o capuz para cobrir minha cabeça e quase me confundo com a escuridão.

 

Até lá, seguirei o caminho que meus pés desejarem seguir, contando minhas histórias pelos vilarejos, povoando de sonhos as estradas poeirentas, até que a vida se torne leve e eu possa me acostumar a ser livre. Até que eu possa acreditar que minhas escolhas são apenas minhas.

 

Só então poderei, finalmente, voltar.

 

- Obrigada. - eu murmuro para o silêncio.

 

E, com um último e terno sorriso, despeço-me de meu antigo lar e começo minha grande viagem. E a primeira de minhas crônicas se encerra.

 

Notas

 

1.      Cheik El-Medah. Literalmente “chefe dos contadores de café”. Título utilizado pelos contadores de história, muito populares na cultura árabe.

2.      Destino. A descrição corresponde à imagem de Destiny, dos Perpétuos, personagem de Neil Gaiman na série Sandman. Destiny é descrito como um homem alto, de idade imensurável, cego e sempre carregando, preso ao pulso, um grande livro. Em seus jardins, há muitos caminhos à frente, mas apenas um às suas costas.