No capítulo IX, da segunda parte de O Livro dos Espíritos, lemos que os Espíritos podem ver tudo o que fazemos, já que constantemente nos rodeiam. Eles são como a nuvem de testemunhas, que Paulo indicou em Hebreus: 12, 1 e 2: “Nós também, pois que estamos rodeados de uma tão grande nuvem de testemunhas, deixemos todo o embaraço, e o pecado que tão de perto nos rodeia, e corramos com paciência a carreira que nos está proposta, olhando para Jesus, autor e consumador da fé, o qual, pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta, e assentou-se à destra do trono de Deus.”
Na obra Nos Domínios da Mediunidade, capítulo 15, André Luiz, por intermédio das mãos abençoadas de Chico Xavier, nos oferece algumas lições a respeito desse intercâmbio silencioso dos pensamentos de encarnados e desencarnados.
No primeiro caso, o instrutor Áulus leva André Luiz e Hilário a uma taverna repleta de freqüentadores, dos dois planos, encharcando-se em bebidas alcoólicas. André Luiz notou, ao transpor a entrada, que “as emanações do ambiente produziam em nós indefinível mal-estar. Junto de fumantes e bebedores inveterados, criaturas desencarnadas de triste feição se demoravam expectantes. Algumas sorviam as baforadas de fumo arremessadas ao ar, ainda aquecidas pelo calor dos pulmões que as expulsavam, nisso encontrando alegria e alimento. Outras aspiravam o hálito de alcoólatras impenitentes.”
O orientador Áulus informava que o caso era explicado pelo fato de que muitos irmãos desencarnam e permanecem tão apegados às sensações da experiência física que se juntam a encarnados, em desequilíbrio temporário, e influenciam-nos de tal forma a lançá-los nos vícios e sorverem as emanações dali resultantes. Intrigado, Hilário, pergunta a razão pela qual os Espíritos se entregam a tal iniciativa. A resposta de Áulus segue abaixo:
“Hilário, o que a vida começou, a morte continua... Esses nossos companheiros situaram a mente nos apetites mais baixos do mundo, alimentando-se com um tipo de emoções que os localiza na vizinhança da animalidade. Não obstante haverem freqüentado santuários religiosos, não se preocuparam em atender aos princípios da fé que abraçaram, acreditando que a existência devia ser para eles o culto de satisfações menos dignas, com a exaltação dos mais astuciosos e dos mais fortes. O chamamento da morte encontrou-os na esfera de impressões delituosas e escuras e, como é da Lei que cada alma receba da vida de conformidade com aquilo que dá, não encontram interesse senão nos lugares onde podem nutrir as ilusões que lhes são peculiares, porquanto, na posição em que se vêem, temem a verdade e abominam-na, procedendo como a coruja que foge à luz.”
Hilário quis saber, ainda, como aqueles Espíritos se transformarão para o bem. Áulus explicou: “Chegará o dia em que a própria Natureza lhes esvaziará o cálice. Há mil processos de reajuste, no Universo Infinito em que se cumprem os Desígnios do Senhor, chamem-se eles aflição, desencanto, cansaço, tédio, sofrimento, cárcere...”
André Luiz argumentou que ali tudo indicava que aqueles Espíritos não se enfatiariam tão cedo da loucura em que se compraziam. Áulus concordou e disse que a Lei possui recursos para tais casos: “...há dolorosas reencarnações que significam tremenda luta expiatória para as almas necrosadas no vício. Temos, por exemplo, o mongolismo, a hidrocefalia, a paralisia, a cegueira, a epilepsia secundária, o idiotismo, o aleijão de nascença e muitos outros recursos, angustiosos embora, mas necessários, e que podem funcionar, em benefício da mente desequilibrada, desde o berço, em plena fase infantil. Na maioria das vezes, semelhantes processos de cura prodigalizam bons resultados pelas provações obrigatórias que oferecem...”
As observações e os comentários esclarecedores do orientador continuam no capítulo referenciado, mas aqui nos ateremos ao intercâmbio entre a mente do encarnado e a do desencarnado.
Ainda no interior do estabelecimento, Áulus apontou “uma mesa provida com fino conhaque, onde um rapaz, fumando com volúpia e sob o domínio de uma entidade digna de compaixão pelo aspecto repelente em que se mostrava, escrevia, escrevia, escrevia...”
Das mãos da entidade escorria escura e pastosa substância que era embebida pelo cérebro do moço. Era possível notar a associação entre ambos no que estava sendo escrito. Áulus explicou que o rapaz era um hábil médium psicógrafo: “Ele tem as células do pensamento integralmente controladas pelo infeliz cultivador de crueldade sob a nossa vista. Imanta-se-lhe à imaginação e lhe assimila as idéias, atendendo-lhe aos propósitos escusos, através dos princípios da indução magnética, de vez que o rapaz, desejando produzir páginas escabrosas, encontrou quem lhe fortaleça a mente e o ajude nesse mister. “
O rapaz produzia uma reportagem perniciosa, envolvendo uma família em duras aflições. Em sua ação maliciosa, encontrou o concurso de ferrenho e viciado perseguidor de uma moça da família, interessado em exagerar-lhe a participação na ocorrência, com o fim de martelar-lhe a mente apreensiva e arrojá-la aos abusos da mocidade...
Novamente Hilário quis maiores explicações:
“O jornalista, de posse do comentário calunioso, será o veículo de informações tendenciosas ao público. A moça ver-se-á, de um instante para outro, exposta às mais desapiedadas apreciações, e decerto se perturbará, sobremaneira, de vez que não se acumpliciou com o mal, na forma em que se lhe define a colaboração no crime, O obsessor, usando calculadamente o rapaz com quem se afina, pretende alcançar o noticiário de sensação, para deprimir a vida moral dela e, com isso, amolecer-lhe o caráter, trazendo-a, se possível, ao charco vicioso em que ele jaz.”
E concluindo suas observações em torno do caso, Áulus explicou que “a jovem e o infeliz que a persegue estão unidos um ao outro, desde muito tempo... Terão estado juntos nas regiões inferiores da vida espiritual, antes da reencarnação com que a menina presentemente vem sendo beneficiada. Reencontrando-a na experiência física, de cujas vantagens ainda não partilha, o desventurado companheiro tenta incliná-la, de novo, à desordem emotiva, com o objetivo de explorá-la em atuação vampirizante.”
André Luiz comentou que o quadro dava o que refletir sobre os fenômenos gerais de intercâmbio em que a Humanidade total se envolve sem perceber e Áulus arrematou: “... faculdades medianímicas e cooperação do mundo espiritual surgem por toda parte. Onde há pensamento, há correntes mentais e onde há correntes mentais existe associação. E toda associação é interdependência e influenciação recíproca. Daí concluímos quanto à necessidade de vida nobre, a fim de atrairmos pensamentos que nos enobreçam. Trabalho digno, bondade, compreensão fraterna, serviço aos semelhantes, respeito à Natureza e oração constituem os meios mais puros de assimilar os princípios superiores da vida, porque damos e recebemos, em espírito, no plano das idéias, segundo leis universais que não conseguiremos iludir.”
Esse foi um caso de associação infeliz. Vejamos uma parceria para o bem.
Ao retornarem à via pública, os três amigos avistaram uma ambulância abrindo caminho entre os carros com a sirene ligada. À frente, ao lado do condutor, sentava-se um homem de grisalhos cabelos a lhe emoldurarem a fisionomia simpática e preocupada. Junto dele, porém, abraçando-o com naturalidade e doçura, uma entidade em roupagem lirial lhe envolvia a cabeça em suaves e calmantes irradiaçôes de prateada luz.
Curioso, como sempre, Hilário quis saber quem era aquele homem tão bem acompanhado. Áulus respondeu que deveria ser algum médico em tarefa salvacionista... “Deve ser, antes de tudo, um profissional humanitário e generoso que por seus hábitos de ajudar ao próximo se fez credor do auxílio que recebe. Não lhe bastariam os títulos de espírita e de médico para reter a influência benéfica de que se faz acompanhar. Para acomodar-se tão harmoniosamente com a entidade que o assiste, precisa possuir uma boa consciência e um coração que irradie paz e fraternidade.”
E, com significativa inflexão de voz, acrescentou:
“Como vemos, influências do bem ou do mal, na esfera evolutiva em que nos achamos, se estendem por todos os lados e por todos os lados registramos a presença de faculdades medianímicas, que as assimilam, segundo a direção feliz ou infeliz, correta ou indigna em que cada mente se localiza. Estudando, assim, a mediunidade, nos santuários do Espiritismo com Jesus, observamos uma força realmente peculiar a todos os seres, de utilidade geral, se sob uma orientação capaz de discipliná-la e conduzi-la para o máximo aproveitamento no bem. Recordemos a eletricidade que, pouco a pouco, vai transformando a face do mundo. Não basta ser dono de poderosa cachoeira, com o potencial de milhões de cavalos-vapor. É preciso instalar, junto dela, a inteligência da usina para controlar-lhe os recursos, dinamizá-los e distribuí-los, conforme as necessidades de cada um... Sem isso, a queda d’água será sempre um quadro vivo de beleza fenomênica, com irremediável desperdício.”
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