Estudos revêem efeitos do aquecimento
Três dos efeitos previstos do aquecimento global
podem não ser tão catastróficos quanto os cientistas imaginavam. Quatro novos
estudos trazem resultados tranquilizadores sobre a aceleração do degelo na Groenlândia,
a probabilidade de mais furacões no futuro e o impacto da acidificação dos
oceanos sobre os microrganismos marinhos. Tranquilizadores, mas só um
pouquinho.
Dois desses estudos saíram ontem on-line na revista "Science". Eles
são assinados pelos americanos Sarah Das, do Instituto Oceanográfico de Woods
Hole, e Ian Jouglin, da Universidade de Washington.
Um deles é, na verdade, uma observação assustadora: os cientistas viram um lago
de 5,6 km2 de área, formado pelo degelo da superfície do manto glacial da
Groenlândia, ser esvaziado em 24 horas. Durante uma hora e meia, a água
escorreu por uma fenda a uma vazão de 8.700 metros cúbicos por segundo -mais do
que a das cataratas do Niágara.
Os cientistas sabem que a água do degelo escorre por fendas chamadas
"moulins". Através delas, a água chega até o leito rochoso sobre o
qual está assentado o gelo, lubrificando-o. Isso faz com que a capa glacial
escorregue mais depressa.
Os cientistas sabem também que o aquecimento global está aumentando a quantidade
de lagos formados pela água que derrete no verão sobre o gelo. Há o temor de
que os "moulins" produzam uma aceleração catastrófica das geleiras da
Groenlândia, com o desprendimento de icebergs maciços e uma elevação do nível
do mar bem maior do que os 59 centímetros projectados pelo IPCC (painel do
clima das Nações Unidas) até o fim do século.
No entanto, um outro estudo da dupla na mesma edição da "Science"
procurou avaliar o impacto desse efeito na velocidade de escoamento das
geleiras do litoral da Groenlândia.
Os cientistas descobriram que essas geleiras sofrem aceleração muito baixa.
"Tomados juntos, os novos achados indicam que, embora o derretimento na
superfície tenha um efeito substancial na dinâmica do manto de gelo, ele pode
não produzir grandes instabilidades que levem ao aumento do nível do mar",
disse Jouglin.
Loucas por ácido
Outro pesadelo dos cientistas é o efeito do aumento na concentração de CO2 no
oceano sobre os organismos marinhos.
Vários estudos têm mostrado que um mar mais ácido (o gás carbónico em excesso
acidifica a água) inibe a formação de carapaças de calcário (carbonato de
cálcio) pelo fitoplâncton. Isso é um problema, porque, ao formar tais
carapaças, esses micróbios ajudam a "sequestrar" o carbono do mar.
Sem o fitoplâncton, esse sequestro diminui e o mundo pode ficar ainda mais
quente.
Na edição de hoje da "Science", a oceanógrafa Debora
Iglesias-Rodríguez, da Universidade de Southampton (Reino Unido), mostra que,
ao menos para uma espécie de fitoplâncton, quanto mais ácido, melhor. Em
laboratório, ela demonstrou que o cocolitóforo Emiliania huxleyi fica maior
quando mais CO2 é dissolvido na água. Como os cocolitóforos em geral respondem
por um terço da produção de carbonato de cálcio no oceano, diz Rodríguez, seu
estudo significa que uma parte desse sequestro pode não ficar comprometida
-muito embora esse efeito possa estar restrito a uma única espécie de
cocolitóforo.
Furacões
Outra questão que o IPCC deixou sem resolver foi atacada por Kerry Emanuel,
climatologista do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts).
Emanuel e outros têm observado que águas mais quentes (acima de 27C) aumentam a
quantidade de vapor na atmosfera tropical, que é combustível para furacões.
Isso produz tempestades mais poderosas, como o Katrina e o Rita, de 2005. Mas
não se sabia se o número total de tormentas também cresceria. Em estudo
publicado na edição de Março do "Boletim da Sociedade Meteorológica
Americana", Emanuel diz que não.
O grupo de Emanuel desenvolveu um método novo que espontaneamente
"semeia" furacões em modelos climáticos de computador. A técnica foi
aplicada com sucesso para reproduzir o número e a intensidade de tormentas nas
últimas duas décadas. No entanto, quando aplicada aos modelos do IPCC, ela
simula uma frequência total menor de furacões.
Segundo Emanuel, a redução provavelmente ocorre porque o aquecimento global
aumenta a chamada "tesoura de vento", a diferença entre a velocidade
dos ventos na parte mais alta da troposfera. Ventos fortes mais no alto inibem
as tempestades.
O americano Kevin Trenberth, outro especialista em clima e furacões, diz que o
estudo é "novo e interessante, mas requer ajustes". Segundo ele, os
modelos climáticos são muito grosseiros para enxergar o que acontece com as
tempestades que formam os furacões, deixando a atmosfera artificialmente
estável. "Há boas razões para crer que haverá menos furacões, mas eles
serão mais intensos quando ocorrerem", diz.
Fonte: Folha de S. Paulo
Árvores já absorvem menos CO2!
A capacidade das florestas de absorver o dióxido de carbono (CO2) produzido
pelo homem está diminuindo, segundo análise de dados colectados ao longo de
duas décadas em mais de 30 locais no Hemisfério Norte, como Sibéria e Alasca. A
conclusão do estudo, coordenado por Tino Vesala, da Universidade de Helsinque
(Finlândia), e publicado ontem, implica revisão - para pior - dos prognósticos
sobre a gravidade do aquecimento global.
Os resultados explicam parcialmente estudos recentes que indicam que a
quantidade de CO2 na atmosfera está subindo mais depressa do que o esperado.
Entre 1970 e 2000, a concentração subiu cerca de 1,5 parte por milhão (ppm) por
ano. Desde 2000, a elevação anual saltou para uma média de 1,9 ppm, o que representa
alta de 35% em relação ao previsto.
Parte da elevação decorre do aumento da liberação de gás carbónico pelo mundo,
mas a equipe responsável pelo estudo diz que o enfraquecimento dos sorvedouros
de CO2 também é culpado.
A absorção de carbono pela terra e pelo mar é crucial para as previsões sobre o
aquecimento. “Actualmente, estamos obtendo um desconto de 50% sobre o impacto
climático das nossas emissões”, escreveu o climatologista John Miller, da
Universidade do Colorado, em comentário sobre a pesquisa na revista Nature. Ou
seja, metade do que é liberado pelo homem é sugado por florestas e oceanos.
“Infelizmente, não temos garantia de que esse desconto continuará.”
No Norte, as temperaturas da primavera e do Outono subiram, respectivamente,
1,1°C e 0,8°C, nos últimos 20 anos. Isso representa uma temporada de
crescimento mais longa para as plantas, o que os cientistas acreditavam ser
algo positivo para desacelerar o aquecimento. Como as plantas absorveriam mais
CO2, isso deveria provocar uma estabilização das concentrações na atmosfera.
Entretanto, os novos dados sugerem que essa conclusão era muito simplista. A
equipe analisou registros extraídos de mais de 30 estações de monitoramento
climático e verificou que o momento em que as florestas deixam de ser
sorvedouro de dióxido de carbono (na fotossíntese) para ser fonte líquida de
CO2 foi antecipado - em alguns lugares, com diferença de poucos dias, mas, em
outros, com um intervalo de semanas.
Fonte: O Estado de S. Paulo
Seres Humanos esgotam capital natural da Terra…
A humanidade está fazendo um saque a descoberto no grande
(porém finito) banco dos ecossistemas globais. O resultado é um colapso futuro
na capacidade do planeta de fornecer bens e serviços naturais aos seres humanos,
cujo primeiro efeito prático deve ser a impossibilidade de atingir as metas das
Nações Unidas de combate à fome em 2015.
Cerca de 60% de todos os ecossistemas do planeta estão
degradados ou sendo usados de modo não sustentável. Se nada for feito, as
consequências poderão levar a um cenário desolador em 50 anos.
Quem diz isso desta vez não são os ambientalistas, mas um
grupo de 1.350 cientistas de 95 países. De 2001 a 2005, sob a égide da ONU,
eles produziram o diagnóstico mais completo já feito da saúde dos ecossistemas
e de sua relação com a manutenção da vida humana. O esforço resultou num
relatório apresentado a governos do mundo inteiro.
As conclusões da chamada Avaliação Ecossistema do Milénio,
como quase tudo o que diz respeito ao ambiente global, são desalentadoras:
quase dois terços dos chamados serviços ambientais estão em declínio acelerado.
Isso significa que a capacidade do planeta de fornecer peixe e água, reciclar
nutrientes do solo, minimizar o impacto de desastres naturais (como o maremoto
de Dezembro na Ásia) e controlar o clima local está comprometida.
Pior ainda: as alterações feitas nos ecossistemas,
especialmente nos últimos 50 anos, estão provavelmente aumentando o risco de
mudanças abruptas, como explosão de epidemias -como a de cólera que afectou a
África sub-saariana durante o El Nino de 1997/ 98-, eutrofização de águas
costeiras e mudança climática regional, induzida por desmatamento.
Para quem acha que mudanças ambientais não passam de ameaças
intangíveis pairando sobre as próximas gerações em algum futuro remoto, a
Avaliação do Milénio tem uma projecção imediata: a degradação dos solos e a
baixa disponibilidade de água doce, especialmente na África e no sul da Ásia,
devem impedir o mundo de alcançar o chamado Objectivo do Milénio de cortar pela
metade o número de famintos em 2015.
"Um dos poucos serviços ambientais em ascensão é a
produção de alimentos, mas não ao ponto de atingir os objectivos [de
desenvolvimento] do milénio", disse à Folha o engenheiro florestal Rodrigo
Victor, do Instituto Florestal de São Paulo, que participa de uma das etapas do
diagnóstico.
Quatro cenários montados pelos cientistas para o futuro
prevêem, ainda, que mais 10% ou 20% das florestas do mundo serão convertidas em
lavoura e pasto até 2050 e que a super exploração dos stocks de peixe deva
crescer ainda mais. Três deles projectam um aumento de 10% a 20% no fluxo de
nitrogénio para águas costeiras, ampliando a eutrofização e a perda de
biodiversidade.
Uma das recomendações do estudo aos tomadores de decisão é
uma reestruturação na maneira dos economistas de fazer contas. Até agora, a
maioria dos serviços ambientais pertence ao reino daquilo que os economistas
chamam de "externalidades", ou seja, factores que não interferem nos
custos económicos. O valor da polinização de lavouras por insectos que habitam
uma floresta vizinha, por exemplo, não é computado na hora de calcular o valor
total daquela floresta.
Um estudo feito em dez países do Mediterrâneo e citado no
relatório mostrou, por exemplo, que serviços como recreação, sequestro de
carbono, produtos florestais não madeireiros e protecção de mananciais
respondiam por até 96% do valor total das florestas. Esses serviços são
desperdiçados quando uma floresta é convertida em pasto ou plantação pelo valor
da sua madeira. Algo equivalente a queimar dinheiro.
"A degradação dos serviços de ecossistemas representa a
perda de um activo", afirmam os cientistas. Como tal degradação não
aparece na balança comercial, países como o Equador, o Kazaquistão e a Etiópia,
que tiveram um aumento de seu PIB em 2001 e experimentaram perda de florestas e
recursos energéticos, teriam na verdade prejuízo caso o passivo ambiental fosse
incluído. A maioria dos serviços ambientais ainda não têm um mercado, embora o
sequestro de carbono já seja valorizável com a entrada em vigor do Protocolo de
Kyoto.
Mesmo assim, os custos associados à perda de alguns desses
serviços já se fazem sentir. Que o digam os pescadores de bacalhau da Terra
Nova, no Canadá, que tiveram de parar de trabalhar nos anos 90 pelo esgotamento
do peixe, com prejuízo de US$ 2 biliões.
No Reino Unido, os prejuízos causados pela agricultura a
água, solos e biodiversidade em 1996 foram de US$ 2,6 biliões, ou 9% da receita
agrícola do país na década de 90. E as perdas económicas causadas por desastres
naturais no mundo cresceram dez vezes de 1950 a 2003 -para US$ 70 biliões por
ano. Números que não são ladainha de ambientalista.
Zonas mortas
A perspectiva é alarmante, advertem os especialistas, já que
neste ritmo a devastação de 15 dos 24 ecossistemas do mundo provocará novas
doenças, mudanças na qualidade de água, aparição de zonas mortas no litoral ou
até o desaparecimento da pesca.
"Em alguns casos, trata-se de viver com tempo
emprestado", assinala o relatório. Por exemplo, o uso do recurso de água
em um ritmo muito maior do que se gera faz-se "às custas de nossos
filhos".
“No último meio século nós alteramos as estruturas dos
ecossistemas globais numa velocidade mais rápida do que em qualquer outro
período da história”, afirmou um dos coordenadores da AEM, o norte-americano
Harold Mooney, da Universidade de Stanford, em comunicado da instituição.
Ganhos e perdas
Apesar de certas mudanças contribuírem para o bem-estar,
como o desenvolvimento das culturas e maiores colheitas, isso ocorreu em troca
da deterioração de outros ecossistemas, afectando sobretudo a água e a pesca,
ambos com níveis actuais que não poderão aguentar futuras demandas.
Entre 10% e 30% do mundo animal está neste momento em perigo
de extinção por causa do uso que o homem fez dos ecossistemas, segundo o
estudo. Além disso, o desflorestamento contribui para "a abundância de
patogénicos, como a malária ou o cólera" assim como o risco de novas
doenças.
Por exemplo, 11% dos doentes na África sofrem de malária. Se
este mal tivesse sido erradicado há 35 anos, dizem os pesquisadores, a economia
do continente teria aumentado por volta de 150 biliões de euros.
À luz desses dados, o relatório conclui que da humanidade
precisa "relaxar as pressões sobre a natureza". Para isso, é
necessário adoptar "mudanças radicais na forma com que tratamos" o
planeta.
Em Setembro, os responsáveis pelo projecto divulgarão cinco
relatórios técnicos, com um total de mais de 2,5 mil páginas com as relações
entre os ecossistemas globais e o bem-estar humano. Até o primeiro trimestre de
2006 deverão ser divulgados 33 estudos relacionados com diferentes regiões do
planeta.
Fonte: Folha de S.Paulo
Estudo aponta risco de mudança irreversível
O mundo está muito próximo de alcançar o ponto em que os
danos causados pelo aquecimento global serão irreparáveis, de acordo com um relatório
internacional publicado.
O trabalho, fruto de uma força-tarefa que reúne políticos,
empresários e pesquisadores de todo o mundo, afirma que esse ponto de
não-retorno poderá ser alcançado em dez anos -ou até menos.
A divulgação do relatório, denominado "Enfrentando o
Desafio do Clima", foi programada para coincidir com os esforços
prometidos pelo primeiro-ministro britânico, Tony Blair, para implementar
políticas relativas à mudança climática como presidente do G-8 (o grupo dos
sete países mais ricos do mundo, mais a Rússia) e da União Europeia.
Pela primeira vez num documento desse nível, o texto declara
qual o aumento de temperatura que seria catastrófico para o ambiente global.
Seriam 2C acima da temperatura média mundial de 1750, que prevalecia antes de a
Revolução Industrial aumentar os níveis de gás carbónico (CO2) na atmosfera.
Essa substância é a principal responsável por reter o calor
do Sol na Terra (o chamado efeito estufa), e seu excesso é apontado como a
maior causa do aquecimento global.
Acima desse limiar, diz o relatório, mudanças desastrosas,
como colheitas perdidas, falta de água, grandes secas e aumento do nível do mar
assolariam a Terra.
Também não estariam descartados eventos catastróficos, como
o derretimento das geleiras da Groenlândia e o desligamento da corrente do
Golfo, que torna mais ameno o clima de toda a Europa Ocidental. A temperatura
média do globo já subiu 0,8C.
Limiar de CO2
O trabalho também avalia qual concentração de gás carbónico
na atmosfera seria necessária para que o limiar de perigo fosse ultrapassado:
400 ppm (partes por milhão).
Acontece que o nível actual já é de 379 ppm e cresce 2 ppm
por ano. Assim, é provável que o limite de 400 ppm seja cruzado em dez anos, ou
menos (embora o aumento de 2C possa demorar mais para ocorrer).
"É uma bomba-relógio ecológica", disse Stephen
Byers, parlamentar britânico e ex-secretário de Estado de Transporte que
coordenou o trabalho ao lado da senadora americana Olympia Snowe (do Partido
Republicano).
A mensagem geral do relatório é que, embora os efeitos do
aquecimento global pareçam muito distantes, o tempo na verdade é muito curto, e
serão as acções dos próximos anos que determinarão o curso da mudança climática
durante o próximo século.
Nesse sentido, o trabalho faz uma série de recomendações.
Pede que todos os países do G-8 passem a obter um quarto de sua energia de
fontes renováveis até 2025, e que dobrem seus investimentos de pesquisa sobre
fontes energéticas renováveis até 2010. Também aconselha os países ricos a
trabalhar com nações subdesenvolvidas importantes, como a Índia e a China, que
estão se tornando grandes emissoras de CO2.
Alerta do IPCC
A coordenação do relatório coube ao Instituto de Pesquisa em
Políticas Públicas do Reino Unido, o Centro para o Progresso Americano (EUA) e
o Instituto Austrália. Seu principal consultor científico é o indiano Rajendra
Pachauri, presidente do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança
Climática), órgão ligado às Nações Unidas.
Pachauri, durante a conferência dos Pequenos Países
Insulares em Desenvolvimento nas ilhas Maurício (Oceano Índico), do dia 10 ao
14 deste mês, lançou um alerta. "A mudança climática é de verdade. Nossa
janela de oportunidade é pequena e está fechando rápido. Não há tempo a
perder", disse.
O cientista indiano era considerado mais moderado que seu
antecessor, o americano Robert Watson, quanto aos perigos do fenómeno.
Contudo, disse que a morte generalizada de recifes de
coral e o degelo acelerado do Árctico o levaram a concluir que o perigo está
próximo. "Estamos arriscando a sobrevivência da raça humana",
declarou.
Fonte: Folha de S. Paulo
Um Futuro Limpo
Quando Karl Benz tirou o seu Patent Motorcar do celeiro, em 1886, literalmente
pôs em movimento as rodas de mudanças. O advento do automóvel trouxe enormes
transformações tanto no modo de vida das pessoas como na economia mundial, o
que ninguém esperava. A disponibilidade cada vez maior de um meio de transporte
pessoal deixou o mundo mais acessível e, ao mesmo tempo, produziu uma complexa
infra-estrutura industrial que modelou a sociedade moderna.
Agora, outra revolução poderá ser deflagrada por uma tecnologia automotora: a
propulsão alimentada pelo hidrogénio, em vez do petróleo. Trata-se das células
de combustível – que separam os átomos de hidrogénio em protões e electrões – e
accionam motores eléctricos com emissões apenas de vapor de água. Esta
alternativa deixará os automóveis muito mais ecológicos, além de mais seguros,
confortáveis e personalizados – e até mesmo, possivelmente, mais baratos. Esses
veículos movidos a células de combustível poderiam também estimular uma mudança
rumo a uma economia alimentada por uma energia mais "verde", baseada
no hidrogénio. À medida que isso ocorresse, o uso e a geração de energia
poderiam mudar significativamente. Assim, automóveis e camiões a células de
combustível de hidrogénio poderiam ajudar a assegurar um futuro quanto a
mobilidade pessoal. A liberdade para viajar individualmente – poderia ser
sustentada indefinidamente, sem comprometer o meio ambiente.
Uma confluência de factores faz com que essa mudança pareça cada vez mais
provável. Um aspecto relevante é que os motores de combustão interna, que usam
derivados de petróleo como combustível, por mais refinados, confiáveis e
económicos que sejam, estão esgotando os seus limites. Apesar de inúmeros
aperfeiçoamentos, os veículos com motores de combustão interna têm uma
eficiência de apenas 20% a 25% na conversão do combustível em potência motriz
transmitida às rodas. E embora a indústria automobilística americana tenha
reduzido substancialmente algumas emissões dos escapes desde os anos 60, quando
não havia regulamentação as emissões de hidrocarbonetos caíram 99%, as de
monóxido de carbono, 96%; e as de óxidos de nitrogénio diminuíram 95%. A contínua
produção de dióxido de carbono gera preocupação pelo seu potencial de alterações
no clima no planeta.
Mesmo com a aplicação de novas tecnologias, espera-se que a eficiência dos
motores de combustão interna atinja um máximo de eficiência em torno de 30% e,
de qualquer maneira, continuará a emitir dióxido de carbono. Em oposição, os
veículos movidos a energia produzida por células de combustível de hidrogénio
são quase duas vezes mais eficientes, e portanto necessitarão de apenas metade
da energia do combustível. Mais interessante é o fato das células de
combustível emitirem apenas água e calor como subprodutos. Finalmente,
o hidrogénio pode ser extraído de diversos combustíveis e fontes de
energia, como gás natural, etanol, água (através de electrólise usando
electricidade) e, no futuro, de sistemas de energia renováveis. Percebendo esse
potencial, parte das companhias automobilísticas está envolvida em um esforço
sustentado para desenvolver veículos movidos a células de combustível, entre
elas a DaimlerChrysler, Ford, General Motors, Honda, PSA Peugeot-Citroën,
Renault-Nissan e Toyota.
Mundo Automóvel
É importante encontrar uma solução melhor para os problemas criados pelo
transporte pessoal, já que o impacto ambiental dos veículos deverá crescer
enormemente. Em 1960, menos de 4% da população mundial possuía veículos
automotores. Vinte anos mais tarde, os proprietários passaram a 9% e, agora
chegam a 12%. Com base nas actuais taxas de crescimento, até 15% das pessoas
que vivem no planeta poderão ter um veículo até 2020. E como a população
mundial poderá crescer de seis biliões de pessoas, hoje, para quase 7,5 biliões
dentro de duas décadas, o número total de veículos poderá aumentar de cerca de
700 milhões para mais de 1,1 bilião. Essa expansão projectada será estimulada
pelo crescimento da classe média no mundo em desenvolvimento, algo que se
traduz em aumento da renda per capita. Rendas mais altas estão correlacionadas
quase directamente com a posse de automóveis.
Três quartos de todos os automóveis estão hoje concentrados nos EUA, Europa e
Japão. Entretanto, mais de 60% das vendas de novos veículos no curso dos
próximos 10 anos deverão acontecer em oito mercados emergentes: China, Brasil,
Índia, Coreia, Rússia, México, Polónia e Tailândia. O desafio será criar
veículos atraentes, a preços razoáveis e lucrativos, que sejam seguros,
eficazes e inofensivos ambientalmente.
Para compreender porque essa tecnologia poderia ser tão revolucionária,
considere o funcionamento de um veículo movido a células de combustível, que é
basicamente um veículo com um motor de tracção eléctrica. Mas, em lugar de uma
bateria electroquímica, o motor obtém sua energia de uma unidade de células de
combustível. A electricidade é produzida quando electrões são removidos do
combustível hidrogénio que passa através de uma membrana existente na célula. A
corrente resultante acciona o motor eléctrico, que faz girar as rodas. Os
protões de hidrogénio, depois, recombinam-se com electrões de hidrogénio para
formar água. Se usar hidrogénio puro, um carro movido a células de combustível
é um veículo com emissão zero de poluição.
Embora a extracção de hidrogénio de substâncias demande energia, reformando
moléculas de hidrocarbonetos com catalisadores e fraccionando água com
electricidade, a elevada eficiência das células de combustível compensa a
energia necessária para executar esses processos, como mostraremos adiante.
Naturalmente, essa energia deve vir de algum lugar. Algumas fontes de geração,
como usinas geradoras a partir da queima de gás natural, petróleo e carvão,
produzem dióxido de carbono e outros gases que causam o efeito estufa. Isso não
ocorre com outras fontes geradoras de energia, como as usinas nucleares. Um
objectivo óptimo seria produzir electricidade de fontes renováveis, como
biomassa, hidroeléctricas, energia solar, eólica ou geotérmica.
Diversidade de fontes energéticas
Com a adopção do hidrogénio como combustível automóvel, a indústria de
transportes poderia iniciar a transição de uma quase total dependência do
petróleo para um leque de fontes de combustível. Hoje, 98% da energia usada
para mover os automóveis deriva do petróleo. Em consequência, aproximadamente
dois terços do petróleo importado pelos EUA são usados nos meios de transporte.
Ao complementar o uso de combustíveis fósseis, os EUA podem, em princípio,
reduzir a dependência em relação a esta fonte clássica e estimular o
desenvolvimento de alternativas energéticas locais e menos agressivas ao meio
ambiente. Esse esforço também criará competição de preços nos mercados de
energia? O que poderia baixar e estabilizar os custos dos combustíveis e da
energia no longo prazo.
Promessas próximas
Como qualquer progresso que traga a possibilidade de modificar totalmente a
tecnologia predominante, a implementação de células de combustível levará
tempo. Embora seja difícil fazer um cronograma preciso, levando em conta nosso
actual impulso tecnológico e as realidades comerciais, pretendemos dispor de
veículos a células de combustível atraentes e baratos nas ruas e estradas até o
fim desta década. Daí em diante, podemos prever um aumento substancial na
disseminação dos veículos a células de combustível entre 2010 e 2020, à medida
que os fabricantes automobilísticos começarem a criar a base instalada
necessária para dar suporte a um volume de produção elevado. Muitas dessas
companhias, entre elas a GM, já investiram centenas de milhões de dólares em
pesquisa e desenvolvimento de células de combustível, e quanto mais rapidamente
elas puderem ver um retorno sobre esses investimentos, melhor será.
Tendo em vista que será necessário cerca de 20 anos para converter toda a frota
de veículos, levará pelo menos esse tempo para constatar em sua plenitude os
benefícios ambientais e energéticos que os veículos movidos a células de
combustível de hidrogénio podem proporcionar. Mas o conceito da autonomia traz
esse futuro para mais perto de nós e o torna mais nítido. Em vez de uma
evolução histórica do automóvel, estamos agora assistindo ao desenvolvimento de
tecnologias revolucionárias que reinventam fundamentalmente o automóvel e o seu
papel no nosso mundo.
Resumo: Células de combustível
Células de combustível convertem o gás hidrogénio em electricidade num processo
limpo, viabilizando veículos não poluidores movidos a motores eléctricos.
Quando combinada a um sistema compacto de direcção "drive-by-wire"
(veículo controlado por instrumentação electrónica), controles de frenagem e
aceleração, a tecnologia de células de combustível permite aos engenheiros
dividir um veículo em um chassi sobre rodas e uma carroçaria (possivelmente
intercambiável) com um interior amplo.
A perspectiva de produção de veículos limpos a células de combustível de
hidrogénio poderá também sinalizar uma mudança na equação económica do sector
energético e prenunciar um ambiente sustentável, sem comprometer a mobilidade
pessoal.
O problema do "ovo-e-a-galinha": grandes números de veículos movidos
a células de combustível de hidrogénio exigem uma disponibilidade adequada de
combustível para lhes dar suporte, mas é difícil construir a infra-estrutura
necessária, a menos que haja um número significativo de veículos movidos a células
de combustível nas vias.
Lawrence D. Burns, J. Byron Mccormick e Christopher E. Borroni-Bird
Transcrito da Revista Scientific American - Novembro/2002